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A Passarella e o velho/novo Dão

By 21 de Março, 2018 Sem comentários

Renovar a região, colocá-la no mapa, dar a conhecer o que tem de original e preservar o que merece ser mantido é a tarefa dos novos produtores do Dão. A Casa da Passarella assume que está neste combate e os seus vinhos mostram que está no caminho certo.

 

TEXTO João Paulo Martins FOTOS Ricardo Palma Veiga

O que é que se faz perante uma vinha com 90 anos, de produção minimalista e que dá mais trabalho e dores de cabeça do que uvas? Entre as várias hipóteses, sobressai a óbvia: arrancá-la! Este foi o cenário com que Paulo Nunes se deparou quando chegou à quinta em 2008, mas pediu (se não foi de joelhos poderia ter sido…) para que não se arrancasse para ele poder estudar a vinha e ver o que se poderia, ou não, fazer dela. Esta é a história simples que explica que a tal vinha velha ainda hoje seja objecto de estudo mas de onde saem alguns dos melhores vinhos da quinta, algo que os apreciadores aplaudem vivamente.

A história da quinta é muito antiga – era uma das propriedades emblemáticas do Dão – mas foi exactamente no final da década passada que de novo se voltou a ouvir falar da Passarella. O tempo que mediou foi o suficiente para que os seus vinhos se tenham tornado dos melhores da região. Tal deve-se à vinha e a quem soube preservá-la e ao enólogo que tem procurado ir mais além na busca da diversidade, com qualidade, que a região autoriza. O enólogo descobriu (ou confirmou), por exemplo, que esta vinha velha está muito mais imune às variações climatéricas porque, com as suas raízes fundas, não é tão influenciada pelo clima exterior. É algo que há muito se sabe, mas que é sempre reconfortante confirmar na prática.

Na apresentação dos novos vinhos, Paulo Nunes trouxe algumas novidades e algumas mudanças no estilo de alguns vinhos. Por exemplo, o Villa Oliveira, a marca emblemática da casa, tem agora um branco com menos presença da madeira nova (o que se saúda) e foi também apresentado um branco sem data, fruto da junção de vinhos de várias colheitas, cremos que inspirado num outro branco deste perfil, feito na Quinta dos Carvalhais. É uma excelente aposta porque a região (clima, solos, castas) o permite e o resultado é, como se vê, bem interessante. Para a elaboração destes vinhos são reservadas em média duas barricas por ano e faz-se então o lote ao fim de cinco anos; serão assim feitas duas edições por década.

Foi também apresentada a segunda edição do branco de curtimenta, feito a partir de mosto com engaço que fermentou em cubas de cimento e é depois estagiado em barricas usadas. Como se trata de um método redutor, o vinho precisa de arejamento e por isso requer menos sulfuroso. Este ano só levou um pouco na fase do engarrafamento, mais nada. Na condução dos trabalhos de adega estão, o que acontece há três gerações, mulheres. Prática antiga na Passarella, tradição a continuar.

Também nos tintos há novidades, com um tinto – 125 anos – que procura reproduzir os vinhos feitos em 1893, de que ainda existem algumas garrafas na quinta. Aqui entram castas agora menos habituais na região (ou, nalguns casos, apenas menos faladas) como Baga, Alvarelhão, Tinta Amarela e Tinta Carvalha, além de Jaen. Um tinto fora do baralho, muito provavelmente como seriam os que então eram produzidos. Aqui não se procurou fazer um tinto que fosse consensual, optou-se por um tinto mais rústico, bem mais vegetal, mais austero e, quem sabe, mais longevo.

A busca continua e o entusiasmo também. Paulo Nunes e a equipa parece terem mais trunfos para jogar. Aguarde-se.

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