BAGA FRIENDS: Em nome da casta rainha da Bairrada

O Dia Internacional da Baga “recorda uma vez por ano a grandeza desta casta”. Assim começa esta peça, com palavras de Luís Pato, o produtor da Bairrada mais reconhecido dentro e fora de portas, graças ao trabalho que tem vindo a realizar no âmbito dos vinhos produzidos no referido território vitivinícola, mais concretamente em relação […]
O Dia Internacional da Baga “recorda uma vez por ano a grandeza desta casta”. Assim começa esta peça, com palavras de Luís Pato, o produtor da Bairrada mais reconhecido dentro e fora de portas, graças ao trabalho que tem vindo a realizar no âmbito dos vinhos produzidos no referido território vitivinícola, mais concretamente em relação à casta tinta rainha da região. Essa data, assinalou-se no primeiro sábado de maio, motivo pelo qual os oito produtores da edição de 2026 prepararam as respectivas adegas, para se manterem abertas das 10h00 às 18h00. São eles Giz by Luís Gomes, Filipa Pato, Luís Pato, Quinta da Vacariça, Quinta das Bágeiras, Quinta de Baixo – Niepoort, Vinhos Sidónio de Sousa e Vadio Wines. Na lista de ações, constam provas de vinhos, petiscos tradicionais e variados momentos, incluindo um arraial no Centro Social, Recreativo e Cultural da Poutena, em Vilarinho do Bairro, no concelho de Anadia.
Parcela, a alma de cada vinho
Por que razão a Baga está intrinsecamente ligada à Bairrada? Será que a região possui as condições ideais para esta casta? François Chasans, produtor francês proprietário da Quinta da Vacariça, em Tamengos, no concelho de Anadia, frisa o seguinte: “no contexto climático atual, a Bairrada apresenta uma das melhores oportunidades de se tornar uma das melhores regiões do mundo. A sua razão principal é a acidez dos vinhos.” Tal atributo resulta da amplitude térmica registada na região e da proximidade ao oceano Atlântico. “Por exemplo, devido a estas condições a Bairrada apresenta uma temperatura média mais baixa 8 ºC do que a região de Bordéus.” Acresce a humidade, que impõe uma atenção redobrada face à viticultura orgânica e biodinâmica. François Chasans refere ainda a complexidade geológica heterogénea, ponto assente na diferença de estilos de cada casa vinhateira.
Mas de que forma podemos aferir o potencial da Baga, sobretudo quando é feita a partir de uvas colhidas em vinhas velhas? A resposta foi dada por Paulo de Sousa, da Vinhos Sidónio de Sousa, que, no evento da apresentação do Dia Internacional da Baga, em Lisboa, esteve representado pelo filho, Afonso de Sousa: “a vinha velha de Baga revela-se pela elegância e harmonia que proporciona no copo de quem degusta. As suas raízes profundas e os seus troncos grossos e desalinhados são testemunho de outro tempo, levando a que, no copo, estejamos perante um verdadeiro museu. Antigo, mas nunca ultrapassado pois a acidez e frescura da casta imprimem longevidade e juventude.” A plasticidade desta variedade tinta autóctone da Bairrada também foi analisada, pois dá corpo a “rosés frescos e jovens, rosés de guarda e gastronómicos, rosés base para espumante rosé de variados estilos, base para espumante tinto, vinhos tintos para se beberem jovens ou néctares longevos”, acrescenta. Apesar da agressividade dos primeiros anos, estes vinhos têm o tempo como aliado, revelando “uma grandiosidade que muito poucos conseguem alcançar”.
Daniel Niepoort, rosto da sexta geração da Niepoort, reforça a versatilidade da Baga, “porque é uma grande casta do mundo” e revela a capacidade que tem em expressar o terroir, ou seja, “traduz o local onde são plantadas e cultivadas as vinhas”. A respeito desta matéria, François Chasans engloba solo, clima, “as pessoas e os empirismos das mesmas”, características que “revelam a alma da parcela através da visão de cada vinhateiro”, realça o produtor da Quinta da Vacariça. O resultado sente-se por meio “de vinhos com características tão díspares”, continua Daniel Niepoort. Até mesmo particularidades, como as que estão associadas aos vinhos Giz, de Luís Gomes, para quem os solos de natureza calcária das vinhas centenárias e o clima atlântico da Bairrada “são cruciais na obtenção do perfil característico dos vinhos Giz, repletos de frescura, tensão e mineralidade, plenos de individualidade e carácter”. Sem descurar a “elegância” e “o perfil de fruta vermelha fresca e de grande concentração e complexidade que a Baga das vinhas velhas proporciona”, enaltece.
Luís Patrão, da Vadio Wines, dá como exemplo o trabalho que tem vindo a desenvolver com a Baga: “no caso do Vadio Espumante Branco Perpetuum, a base vem de uma solera que integra, atualmente, cerca de 18 colheitas. A Baga entra nessas soleras, sobretudo para bases de espumante, tanto no Perpetuum, como no Finuum, onde normalmente cerca de 30% do lote é Baga.” Para o efeito, o produtor bairradino vindima as uvas “relativamente cedo”, com o intuito de obter uma matéria-prima com “boa acidez natural e pH mais baixo. Isso ajuda bastante a manter os vinhos estáveis ao longo do tempo e a controlar melhor um eventual aumento de acidez volátil, que é sempre um dos riscos quando se trabalha com soleras”.
Tempo é, portanto, um factor preponderante na feitura de um tinto feito a partir de Baga que, conforme François Chasans, “é um vinho que transmite emoção ao nível de uma grande pintura ou música, mas para exprimir o seu potencial total é preciso dois anos no mínimo em tonel e 12 anos em garrafa”.
Passado e presente na comunicação
“Historicamente, a Baga é uma casta difícil”, afirma Mário Sérgio Nuno, nome inteiramente ligado à Quinta das Bágeiras, localizada em Sangalhos, no concelho da Anadia. Segundo Luís Pato, na década de 90 do século XX, a Baga era vista como “uma casta que só criava grandes vinhos de cinco em cinco anos, esquecendo-se que criava grandes vinhos. Logo a culpa não era da casta, mas de quem a trabalhava”. Com a passagem do tempo, a casta tinta tem vindo a conquistar o consumidor, ação reforçada pelos Baga Friends, na opinião de Luís Pato, que, graças à fundação deste grupo de produtores da região, em 2012, se tornou respeitada. Para o produtor da Quinta das Bágeiras, a crescente importância da casta tem a ver com a escolha “do sítio certo, bem como o acompanhamento e o carinho certos tornam o trabalho de elevar a casta possível”. Graças a esta dedicação, o vinho feito a partir de Baga tem vindo a traduzir-se em um produto gastronómico e “com uma grande diversidade de perfis”, na opinião de Luís Pato, dando como exemplo os vinhos produzidos pelos Baga Friends: “vinhos elegantes, que sobrevivem ao tempo”, a mostrar “como são os grandes vinhos do mundo”, enfatiza o decano da produção vitivinícola da Bairrada. Mário Sérgio Nuno partilha da mesma opinião no que ao papel desempenhado pelos Baga Friends diz respeito.
Além-fronteiras, e com a mais-valia de os vinhos monovarietais serem mais facilmente comunicados, Filipa Pato acredita: “quando uma casta está profundamente ligada a um lugar, ela própria se torna a melhor intérprete desse território”. Tal acontece com a Baga da referida produtora bairradina, proprietária de 20 hectares de vinha em Óis do Bairro e em Silvã, no concelho de Anadia, divididos em 37 parcelas trabalhadas em modo biodinâmico e cujos solos são calcários e de origem jurássica. Para facilitar a informação fora de portas, a produtora dá como exemplo comparativo a italiana Nebbiolo, de Piemonte, ou a francesa Pinot Noir, em Borgonha. “Curiosamente, são também regiões onde os solos calcários desempenham um papel fundamental, permitindo às castas alcançar um equilíbrio notável entre estrutura, frescura e longevidade”, acrescenta. Apesar da identidade forte, “na adega, a Baga pede delicadeza”, daí que o casal Filipa Pato e William Wouters opte por “extrações suaves, intervenção mínima e recipientes que respeitam o vinho, como ânforas, pipas de carvalho usadas ou tonéis de grande capacidade, evitando o excesso de madeira”.
Espreite as notas de provas que aqui lhe deixamos, para acicatar a curiosidade…
Luís Pato Vinha Pan tinto 2021 – rubi aberto, no nariz uma expressão típica da Baga, com elegância e sedosidade, fruta vermelha, como framboesa e morango selvagem, em combinação com mentol e caruma, apontamento de aneto; estrutura flexível, denso, nada pesado, com a sua frescura intrínseca, longo e sedoso. (18,5);
Giz Vinha das Cavaleiras tinto 2021 – Baga das vinhas velhas, resultou num vinho impressionante, muito bonito e complexo, com fruta vermelha, abrunhos, caruma, resina e folha de louro, uma nota cítrica e noz-moscada; densidade fluida, tanino bem presente e certamente polido, textura aveludada (18,5);
Quinta das Bágeiras Garrafeira tinto 2021 – fiel a si próprio, com fruta austera, balsâmico e resinoso, com algum musgo, não propriamente encorpado, mas denso; Baga no seu estilo clássico, com grande estrutura e acidez a manter a frescura (18,5);
Sidónio de Sousa Baga Especial Cuvée Espumante rosé 2022 – interessante no nariz, com notas de menta e morango e mais fruta vermelha, muito vivo e suculento, ligeiramente amargo que lhe confere certa garra, com final saboroso (17);
Niepoort Água Viva Baga Espumante Bruto 2020 – cor de rosa muito leve, aroma delicado e bonito, muito bem traçado, com profundidade e complexidade delicada a revelar caroço de cereja, brioche, amêndoa torrada e apontamento vegetal; bolha finíssima, muita cremosidade e frescura (17,5);
Vadio Baga Espumante rosé 2023 – proveniente de uma zona mais húmida, de barro, fermenta em barrica usada, 18 meses de estágio sobre borras; rosa salmão, fruta quase madura a lembrar morango fresco, menta, manjericão, uma nota de gengibre também, fresco, mas cremoso, com bolha bastante fina, delicado no trato, com apontamento mineral e de framboesa (17);
Filipa Pato Post-Quercus Baga tinto 2024, com fermentação e estágio em ânforas; aromático, cativa imediatamente pela fruta nítida, notas de framboesa, morango selvagem e um floral delicado; fino e guloso, apetece beber sem parar (18).
Quinta da Vacariça Baga tinto 2016 – cheira a Baga, pouco corpo e muita estrutura, pouca fruta e muito tanino, denso e directo, carácter vincado, cheio de vida, a chamar à mesa (17).
(Artigo publicado na edição de Abril de 2026)
Os melhores vinhos e espumantes da Bairrada

Foram 32 as referências distinguidas na edição de 2025 do Concurso de Vinhos e Espumantes da Comissão Vitivinícola da Bairrada que se dividiram em 25 medalhas de Ouro e sete de Prata. O grande destaque desta competição vai para Pedra Só Super-Reserva, de Idálio de Oliveira Estanislau, laureado com os títulos de ‘Melhor Vinho do […]
Foram 32 as referências distinguidas na edição de 2025 do Concurso de Vinhos e Espumantes da Comissão Vitivinícola da Bairrada que se dividiram em 25 medalhas de Ouro e sete de Prata. O grande destaque desta competição vai para Pedra Só Super-Reserva, de Idálio de Oliveira Estanislau, laureado com os títulos de ‘Melhor Vinho do Concurso’ e ‘Melhor Espumante’.
Nos vinhos brancos, esteve em alta o Pé de Ganso Reserva 2021, da Sociedade Agrícola Quatro Cravos, com medalha de Ouro e a distinção de ‘Melhor Vinho Branco’, enquanto o QMF Blush, da Quinta da Mata Fidalga, foi agraciado com medalha de Prata e na categoria de ‘Melhor Rosé’. Em relação aos vinhos tintos, a evidência maior foi a da Adega de Cantanhede, com o Marquês de Marialva UNOAKED Reserva 2015, que arrecadou medalha de Ouro e o prémio de ‘Melhor Tinto’. Na lista de espumantes Baga Bairrada, ganhou o Montanha Real Baga Bairrada, das Caves da Montanha. Já o ‘Melhor Vinho da Sub-Região Terras de Sicó’ foi parar às mãos de Alberto da Costa Almeida, pelo Vinha das Penicas 2021.
A edição 2025 do Concurso de Vinhos e Espumantes da Bairrada contou com a 138 amostras de produtores da Beira Atlântico e Bairrada – mais seis vinhos que no ano anterior –, as quais foram submetidas a prova cega feita por um painel constituído por 15 jurados composto, entre enólogos, jornalistas e escanções. A cerimónia de entrega de prémios desta competição decorreu no Grande Hotel do Luso, na Mealhada.
Lista de Premiados
Grande vencedor
Espumante Pedra Só Super-Reserva 2021 (Idálio de Oliveira Estanislau)
Brancos
Melhor Vinho Branco
Pé de Ganso Reserva branco 2021 (Sociedade Agrícola Quatro Cravos, Lda.)
Melhor Vinho da Sub-Região Terras de Sicó
Vinha das Penicas branco 2021 (Alberto Costa de Almeida)
Medalhas de Ouro
Original Reserva branco 2022 (Sociedade Agrícola Quatro Cravos, Lda.)
Vinha das Penicas branco 2021 (Alberto Costa de Almeida)
Pé de Ganso Reserva branco 2021 (Sociedade Agrícola Quatro Cravos, Lda.)
Rosés
Melhor Rosé e Medalha de Prata
QMF Blush rosé 2024 (Quinta da Mata Fidalga – Agricultura e Turismo Rural, Lda.)
Tintos
Melhor Tinto Marquês de Marialva Unoaked Reserva tinto 2015 (Adega Cooperativa de Cantanhede, C.R.L.)
Medalha de Ouro
Pedra Lascada Reserva tinto 2022 (Isabel Maria de Jesus Pessoa Branco)
Talhão dos Manos Grande Reserva tinto 2020 (Quinta do Ortigão – Sociedade Agro-Turística, Lda.)
Quinta da Laboeira Grande Escolha tinto 2021 (Alberto Silva Marques)
Bacalhôa Clássico tinto 2019 (Aliança – Vinhos de Portugal, S.A.)
PGA Grande Reserva tinto 2017 (Pedro Guilherme Oliveira Santos Andrade)
Quinta Dos Abibes Sublime tinto 2019 (Quinta dos Abibes Vitivinicultura Lda.)
Quinta d´Aguieira tinto 2020 (Aveleda, S.A.)
Marquês de Marialva Unoaked Reserva tinto 2015 (Adega Cooperativa de Cantanhede, C.R.L.)
Quinta do Poço do Lobo tinto 1991 (Caves São João – Sociedade dos Vinhos Irmãos Unidos, Lda.)
Medalhas de Prata
Ti Aniano Reserva tinto 2023 (Manuel Alves Ribeiro de Almeida & Filhos, Lda.)
Casa de Sarmento Grande Escolha tinto 2020 (Casa de Sarmento, S.A.)
Quinta dos Abibes Reserva tinto 2019 (Quinta dos Abibes Vitivinicultura, Lda.)
97 Anos de História tinto 2014 (Caves São João – Sociedade dos Vinhos Irmãos Unidos, Lda.)
Espumantes
Melhor Espumante
Pedra Só Super Reserva branco Bruto 2021 (Idálio de Oliveira Estanislau)
Melhor Espumante Baga Bairrada
Montanha Real Baga Bairrada Grande Reserva Bruto 2018 (Caves da Montanha – A. Henriques S.A.)
Medalha de Ouro
Ortigão branco Bruto 2020 (Quinta do Ortigão – Sociedade Agro-Turística, Lda.)
Colinas Reserva branco Bruto 2020 (Quinta Colinas de São Lourenço, Lda.)
Lagoa Velha branco Bruto 2020 (Quinta da Lagoa Velha, Unipessoal Lda.)
Rama Branco bruto 2021 (J. Rama, Lda)
Todos by Osvaldo Amado branco 2020 (Casa dos Amados – Vinhos de Portugal, Lda.)
Unum Primavera Super Reserva branco Bruto Natural 2011 (Caves Primavera, Lda.)
Encontro branco Extra Bruto 2017 (Quinta do Encontro Sociedade Vitivinícola, Lda.)
Homenagem a Luiz Costa branco Bruto Natural 2019 (Caves São João – Sociedade dos Vinhos Irmãos Unidos, Lda.)
Raríssimo by Osvaldo Amado branco 2007 (Casa dos Amados – Vinhos de Portugal, Lda.)
Pedra Só Super Reserva branco Bruto 2021 (Idálio de Oliveira Estanislau)
Casa de Sarmento Baga Bairrada branco Bruto 2019 (Casa de Sarmento, S.A.)
Borlido Baga Bairrada Branco 2021 (Borlido, Lda.)
Montanha Real Baga Bairrada Grande Reserva Bruto 2018 (Caves da Montanha – A. Henriques S.A.)
Medalhas de Prata
Colinas Reserva rosé Bruto 2017 (Quinta Colinas de São Lourenço Lda.)
Quinta dos Abibes Reserva branco Bruto 2023 (Quinta dos Abibes Vitivinicultura, Lda.)
Milheiro Selas branco Brut Nature 2019 (António Assunção Coelho Selas)
Rama Baga Bairrada branco Bruto 2022 (J. Rama, Lda.)
Bairrada: Uma região de “clássicos”

Criada apenas em 1979, após vários anos de hesitações entre o poder político e os interesses dos agentes económicos, a Região Demarcada da Bairrada, antes de acolher regulamentação legal, já se afirmava há mais de dois mil anos nas práticas vitivinícolas, crendo-se, pelo menos, desde a romanização do território. Muitos são os testemunhos, enraizados nos […]
Criada apenas em 1979, após vários anos de hesitações entre o poder político e os interesses dos agentes económicos, a Região Demarcada da Bairrada, antes de acolher regulamentação legal, já se afirmava há mais de dois mil anos nas práticas vitivinícolas, crendo-se, pelo menos, desde a romanização do território. Muitos são os testemunhos, enraizados nos vestígios arqueológicos, que nos reafirmam a vitivinicultura como uma das principais atividades agrícolas que se estenderam desde a ocupação romana e perduram até à atualidade.
Se porventura nos quisermos apoiar no rigor do suporte documental, pode atestar-se que, já no ano 950, o seu território era conhecido como região vinhateira, conforme nos revela um documento existente na Torre do Tombo referente a uma doação ao Mosteiro do Lorvão de terras e vinhas na Silvã (Mealhada). Um outro documento refere uma “vinha em Rippela sob o monte Buzacco”, em 1086. Ou uma outra doação àquele Mosteiro, de “uma casa em São João e vinha na Pocariça” (Cantanhede), em 1176.
Contudo, o documento mais curioso é datado de 1137, e encontra-se igualmente na Torre do Tombo, no qual “D. Afonso Henriques autoriza a plantação de vinha na herdade de Eiras, sob o caminho público de Vilarinum (Vilarinho do Bairro, Mealhada) ao monte Buzacco (Bussaco), com a condição de lhe darem 1/4 do vinho, sem mais encargos e eles fiquem com as primícias e décimas do vinho…”. Um testemunho de inigualável valor que atesta a qualidade do vinho ali produzido, o qual servia de meio de pagamento dos impostos ao Rei.
OS PRIMÓRDIOS DA BAIRRADA
Não se pense que a criação da Região Demarcada do Douro, peticionada por 14 dos “principais lavradores de Cima do Douro e Homens Bons da cidade do Porto”, estribados pela visão de Sebastião José de Carvalho, não terá tido influência em diversas outras regiões do país onde se cultivava vinha e produzia vinho. A representação dirigida ao rei D. José I, em 31 de Agosto de 1756, foi estabelecida por Alvará, confirmado a 10 de Setembro desse mesmo ano, demarcando e, diz-se, protegendo a região duriense dos demais territórios produtores.
Se é certo que a instituição da Companhia Geral de Agricultura das Vinhas do Alto Douro somente aos vinhedos daquela região dizia respeito, a realidade mostrou-nos que, nos anos seguintes, houve extensas demandas legislativas que intervieram noutras zonas vinhateiras, determinando o arranque de diversas vinhas em “terrenos das vargens, lezírias e campinas” que fossem mais próprias, pela sua natureza, para nelas se promover a cultura cerealífera, tão necessária para a alimentação básica dos portugueses. Medidas drásticas que alteraram a paisagem vitivinícola portuguesa, dizimando a produção de vinha em larga escala. À data, tais medidas eram justificadas pela carência de cereais e falta de pão para o consumo das gentes. Por outro lado, visava-se diminuir a produção excessiva de vinho de qualidade inferior que, em concorrência desleal, acarretava elevados prejuízos para os de qualidade superior.
A região da Bairrada não terá ficado imune a estas medidas, por força dos alvarás que aplicaram a mesma lei às margens e campinas dos rios Mondego e Vouga e a mais terras que fossem de paul e lezírias. E, apesar de nesses alvarás se fazerem referências elogiosas aos vinhos produzidos “nos terrenos de Anadia, Mogofores e outros das mesma qualidade”, igualando estes vinhos aos criados nos “termos de Lisboa, de Oeyras, de Carcavelos, do Lavradio, de Torres Vedras, Alenquer…”, nesses tempos com notoriedade semelhante aos vinhos durienses, certo foi que, outro Alvará, agora de 18 de Fevereiro de 1766, já impunha como sujeição imediata o arranque de vinhas existentes em Anadia, Mogofores, Arcos, Avelãs de Caminho e Fermentelos”, terras bairradinas por excelência, duas delas citadas com louvor cinco meses antes.
Numa visão otimista, podemos considerar que o génio ímpar de Pombal, além de ter criado a primeira Região Demarcada do mundo, terá ensaiado outras demarcações, embora sem lhes ter dado o tratamento legislativo adequado. A da Bairrada terá tido atenção do seu pensamento, pois, pelo menos por duas vezes, referenciou os terrenos Anadia e Mogofores como sendo de óbvia qualidade para a produção de vinho.
“A Região Demarcada da Bairrada (…) já se afirmava há mais de dois mil anos nas práticas vitivinícolas, crendo-se, pelo menos, desde a romanização do território”
O PAIZ VINHATEIRO
Em 1866, por Portaria de 10 de Agosto, foi nomeada pelo Ministro do Reino, Andrade Corvo, uma comissão encarregada de estudar as diversas regiões do país “durante a vindima e da feitura do vinho nos principais districtos vinhateiros do reino”. Desta comissão faziam parte três membros e a cada um dos quais foi delimitada a respetiva área de estudo.
O Visconde de Villa Maior ficou com a área a norte do Rio Douro, António Augusto de Aguiar ficou responsável pela área de território entre os rios Douro e Tejo, excluindo o distrito de Lisboa, cabendo, por fim, a Joaquim Inácio Ferreira Lapa o distrito de Lisboa e todos os territórios a Sul do Tejo.
Publicado em 1867, nesse trabalho conjunto, mas com as respetivas indicações de cada um dos seus autores, existe um único mapa. E este, no conjunto de tantas outras regiões vitivinícolas nela representadas, refere-se apenas a uma, designado “Paiz Vinhateiro da Bairrada”. Um mapa que, mesmo desatualizado ao tempo da criação da região demarcada, mais de cem anos depois, serviu de base à sua delimitação. Naquele mapa há já uma marcação, a cores diversas, de três sub-regiões, ainda que em moldes distintos daquelas que foram, por exemplo, definidas em França. Neste, as sub-regiões são designadas por região de vinho branco, região de vinho tinto de embarque e região de vinho de consumo. Estabelecem-se, também, limites geográficos, definindo, a Sul, o concelho de Mealhada, ao tempo considerado o coração da Bairrada, e parte do concelho de Cantanhede; ao centro, o concelho de Anadia; a Norte o concelho de Oliveira do Bairro. Excluídos ficaram, a Sul, a freguesia de Souselas, no Centro, parte do concelho de Cantanhede e todos os de Vagos e Aveiro, e, a Norte, parte do concelho de Oliveira do Bairro.
As zonas nobres para vinhos tintos de embarque delimitavam-se, aos concelhos da Mealhada e de Anadia, enquanto as mais aptas para vinhos brancos situavam-se na margem esquerda do rio Certoma, até Óis do Bairro, S. Lourenço e Mogofores. Fora destes limites situavam-se as zonas de vinhos para consumo, classificando-se detalhadamente os de primeira, segunda e terceira categorias. Interessante é constatar o detalhe com António Augusto de Aguiar estudou a composição dos solos, identificando, com denodo, uma zona hoje muito bem conhecida por produzir vinhos de extrema elegância: “da Mealhada para o Luso, do Travasso para a Vacariça encontra-se uma mistura de solos, em que figuram retalhos de arenatas do terreno quaternário…”. Falamos, em parte, da zona de Cadoiços, onde se encontram hoje algumas das mais imponentes vinhas velhas da Bairrada e das quais nasce um dos grandes vinhos que constituem o painel de prova deste artigo.
Elaborado este estudo pouco após a grande crise do oídio, que afetando toda a viticultura nacional também não poupou o território da Bairrada, é um exercício curioso constatar como se dá a evolução do encepamento na região. Em 1850, o oídio surge de modo lancinante e, durante quase uma década, destruiu, quase por completo, toda a produção de uva na região. As castas mais atacadas foram, nas tintas, o Castelão e a Trincadeira, e, nas brancas, o “Boal Cachudo”, o Arinto e Mourisco. Perante estas adversidades, eis que surge uma uva salvífica, a Baga, fortemente resistente ao oídio. A partir de 1860, a atual intitulada casta rainha da Bairrada, conhece uma expansão até então nunca vista, tendo António Augusto de Aguiar, que por ela não morria de amores, escrito que, “se o amor por ella continuar como até agora, dentro de poucos anos toda a Bairrada fará plantações e vinhos extremes de uma casta só”.
A 28 de Dezembro de 1979, nasce a Região Demarcada da Bairrada, e com ela a sua delimitação geográfica que, curiosamente, não é assim tão distante daquela que havia sido desenhada mais de 100 anos antes por António Augusto de Aguiar.
ANTEVISÃO DE UMA REGIÃO
Com a industrialização do espumante e o nascimento das grandes casas engarrafadoras a partir dos anos 20 do século passado, assistiu-se a um crescimento exponencial da região. Caves São João, Caves Messias, Caves Aliança ou Caves São Domingos, entre outras, tornam-se os grandes centros produtores do país, engarrafando, comercializando e exportando vinhos para as colónias e Brasil. A demarcação era, à data, e já após o Dão ter procedido à sua demarcação enquanto região em 1908, uma temática não muito do agrado das grandes casas, que adquiriam vinhos em diversas regiões limítrofes para satisfazer a as suas necessidades de grande volume.
No início dos anos 50 dá-se início a uma contenda feroz entre, por um lado, os defensores da não demarcação, liderados pela maior referência da enologia nacional, Mário Pato, e, do outro lado, uma linha vanguardista defensora da necessidade de criar a região demarcada, tendo na linha da frente o Professor Américo Urbano.
Mário Pato, numa publicação de 1 de Outubro de 1953, no Boletim da Federação dos Grémios da Lavoura da Beira Litoral, clamava que a região começava a sofrer de uma “delimitomania” ou mania das regiões delimitadas, que amolece as faculdades mentais dos viticultores e lhes paralisa a atividade. Para o enólogo, o pedido de intervenção do Governo na delimitação da sua região causaria um atavismo e um encerramento dentro de si própria, que motivaria uma não evolução no acompanhamento do desenvolvimento dos métodos enológicos e, consequentemente, uma desvalorização dos vinhos produzidos. À data, dava como exemplo as regiões de Bucelas, Colares e Carcavelos, cujos vinhos começavam a perder notoriedade, invocando igualmente os exemplos do Dão e Vinhos Verdes que também não se mostrariam brilhantes.
Já Américo Urbano trazia para a defesa da demarcação preocupações que não são díspares das da atualidade, mostrando toda a pertinência. A este preocupava-o a concorrência feroz vinda das terras a Sul, onde os custos do granjeio eram muito inferiores e a qualidade dos vinhos, em que “milhentas de pipas de água anualmente são adicionadas aos mesmos”, era manifestamente inferior.
No meio das contendas, Américo Urbano não foi parco em palavras, acusando Mário Pato de ser o principal responsável pelo uso de técnicas enológicas que privilegiavam a produção de vinhos destinados ao lote, ao invés de dar o seu contributo para o aperfeiçoamento das características organoléticas que sempre distinguiram os vinhos da Bairrada. Uma conceção visionária que, ainda hoje, define o modo como se entende uma Bairrada de características muito distintas.
O interesse pela demarcação da região vai crescendo ao longo dos anos 60 e, em 1973, é criado o Grupo de Trabalho incumbido do estudo da Demarcação da Bairrada, composto pelos agrónomos Melchior Barata de Tovar e Octávio da Silva Pato, contando ainda com a colaboração de Mateus Augusto dos Anjos e de Luís Azevedo Correia. O relatório veio a revelar-se extremamente relevante para constituir as bases para a futura demarcação, incidindo sobre a orografia e hidrografia, geologia, solos, clima, práticas agrícolas, castas cultivadas, métodos de vinificação e tipos de vinho, proposta de demarcação e delimitação da região produtora e, entre outras, do direito à denominação de origem. Estava quase…
Para dar força a este movimento, Luiz Ferreira da Costa, figura icónica das Caves São João, agrega uma série de figuras relevantes da região e cria a Confraria dos Enófilos da Bairrada, em Junho de 1979, associação que foi absolutamente determinante, através de diversas iniciativas e contactos com as esferas do Governo, para derrubar as últimas barreiras tendentes à Regulamentação da Região Demarcada da Bairrada.
POR FIM, A DEMARCAÇÃO
A 28 de Dezembro de 1979, pela Portaria nº 709-A/79, nasce a Região Demarcada da Bairrada e, com ela, a sua delimitação geográfica que, curiosamente, não é assim tão distante daquela que havia sido desenhada mais de 100 anos antes por António Augusto de Aguiar. Exigindo-se a condução da vinha em forma baixa, definem-se, desde logo, as castas autorizadas, que serão objeto de apreciação e cadastro pelos serviços competentes, definindo-se, como tintas autorizadas, a Baga com mínimo de 50%, Castelão ou Moreto e Tinta Pinheira, autorizando-se, desde que não excedessem 20% do povoamento total, o Alfrocheiro Preto, Bastardo, Preto de Mortágua, Trincadeira, Jaen e Água Santa. Nas castas brancas, exigindo um mínimo de 60% do povoamento, Bical, Maria Gomes (Fernão Pires) e Rabo-de-Ovelha, autorizando-se com um máximo de povoamento total de 40%, o Arinto, Cercial, Chardonnay e Sercialinho, lista que mais tarde havia de ser revista. Nesta primeira abordagem que, até aos dias de hoje, havia de ter diversas alterações, definiu-se a obrigatoriedade de a vinificação ser realizada dentro da região em adegas inscritas para o efeito, limitou-se a produção a um máximo de 55 hectolitros por hectare de vinha, parametrizou-se um teor alcoólico mínimo de 11% vol. para os vinhos e fixou-se estágios obrigatórios mínimos de 18 meses para tintos e 10 meses para brancos.
Inicialmente, ou seja, em 2003, a menção “Clássico” ficou destinada apenas a vinhos tintos, cingindo-se às castas Baga, Camarate, Castelão (Periquita) e Touriga Nacional
“CLÁSSICO”, UM SELO DE IDENTIDADE
Após a demarcação e até ao virar do século, muitas foram as mudanças de paradigma a que se assistiu na Bairrada. As Adegas Cooperativas e as grandes casas engarrafadoras foram colocadas perante uma nova realidade de produção e consumo. O mundo pedia vinhos com maior identidade, vinhos de Quinta, produções menores, mas muito mais exigentes e qualitativamente nos antípodas daquilo que até então se fazia. Os mercados das colónias haviam desaparecido, o Brasil minguava na procura. Uma nova Bairrada despontava e muitas foram as grandes casas que soçobraram. Adegas Cooperativas, como Vilarinho do Bairro, Mogofores e Mealhada, ou casas engarrafadoras como Barrocão, Valdarcos, Monte Crasto, entre outras, finaram-se. Felizmente, houve casos de grande sucesso na mudança, como foram as Caves São João, que já em 1971 haviam adquirido a Quinta do Poço do Lobo, ou as Caves Messias, com produção de vinhos de uvas próprias na Quinta do Valdoeiro.
Algo havia a fazer para contrariar uma certa desorientação estratégica que afetava a Bairrada. A preocupação dos agentes económicos centrava-se na adequação das potencialidades da região, sempre associadas a uma nomenclatura de qualidade e certificação, alcançando a sua melhor valorização no mercado.
A Portaria nº 428/2000, de 17 de Julho, vem fixar as castas aptas à produção de vinho em Portugal. Nessas condições, entendia-se como necessário efetuar algumas alterações relativamente aos encepamentos existentes permitidos para a DOC Bairrada, do mesmo modo que era crível que podia haver uma maior variedade de vinhos de qualidade produzidos na região e reconhecidos no mercado. Subjacente a estas alterações, que viriam alterar substancialmente o número de castas autorizadas à menção DOC, nada mais, nada menos que 26, algumas delas com pouca expressão na região, um juízo avisado justificou a criação de uma certificação especial para os vinhos da Bairrada que pudessem respeitar determinados parâmetros de tradição e práticas antigas, tanto de viticultura como de vinicultura, adotando-se, por via dessa premissa, a menção “Clássico”. Inicialmente, ou seja, em 2003, a menção “Clássico” ficou destinada apenas a vinhos tintos, cingindo-se às castas Baga, Camarate, Castelão (Periquita) e Touriga Nacional, obrigando os vinhos a representar, em conjunto ou separadamente, 85% do encepamento, não podendo a Baga representar menos de 50%. Obrigava, ainda, a que a uva fosse proveniente de vinhas com rendimento não superior a 55 hectolitros por hectare, não podendo o vinho tinto possuir um teor alcoólico inferior a 12,5%. É, no que toca ao tempo de estágio, que surgem as condições mais exigentes, obrigando os vinhos tintos com aquela menção a poderem apenas ser comercializados após um estágio mínimo de 30 meses, 12 dos quais obrigatoriamente em garrafa. A Portaria 211/2014, de 14 de Outubro, repõe a justiça e concede, igualmente, aos vinhos brancos a possibilidade de ostentarem a menção “Clássico”, definindo como castas aptas à mesma a Maria Gomes (Fernão Pires), Bical, Cercial e Rabo-de-Ovelha. Aqui, houve também a preocupação em regular a produção máxima por hectare, que seria idêntica à das castas tintas, limitando o volume alcoólico dos brancos aos 12% mínimo, obrigando ainda a um estágio mínimo antes de comercialização a 12 meses, seis dos quais em garrafa. Em matéria de reposição de injustiças, a Portaria nº 335/2015, de 6 de Outubro, veio colmatar uma ausência inadmissível, colocando a histórica Arinto, casta já referenciada por António Augusto de Aguiar, em 1867, como uma das mais relevantes uvas brancas do encepamento do território da Bairrada.
Terminamos esta longa, mas rica história de um território abençoado pela proteção das Serras do Bussaco e Caramulo, bafejado pela influência do Atlântico, com a afirmação de qualidade superior dos vinhos que ostentam a menção “Clássico”, concedendo à Bairrada um estatuto de maior relevância em boa hora regulamentada, e que tão bem é expressa nos 12 vinhos que brilharam na nossa prova.
* O autor escreve segundo o novo acordo ortográfico
(Artigo publicado na edição de Junho de 2025)
-

TRABUCA CERCIAL DA BAIRRADA
Branco - 2020 -

CASA DO CANTO
Tinto - 2017 -

LOPO DE FREITAS
Tinto - 2016 -

MESSIAS
Branco - 2017 -

FREI JOÃO
Branco - 2020 -

BACALHOA 1931 VINHAS VELHAS
Branco - 2021 -

ANTÓNIO MARINHA LEGADO
Tinto - 2017 -

MESSIAS
Tinto - 2015 -

FREI JOÃO
Tinto - 2018 -

TRABUCA
Tinto - 2016 -

BACALHÔA VINHA DA DÔNA
Tinto - 2018 -

OUTRORA
Tinto - 2019
3ª edição do Millèsime na Curia é já este fim-de-semana

Esta iniciativa reúne os melhores produtores nacionais de espumantes com denominação de origem, e conta com um conjunto de actividades, nomeadamente provas comentadas e de harmonização com iguarias. Será um evento sofisticado e muito inspirado no universo da época dourada dos primeiros anos do século XX, no cenário místico, clássico e grandioso que caracteriza o […]
Esta iniciativa reúne os melhores produtores nacionais de espumantes com denominação de origem, e conta com um conjunto de actividades, nomeadamente provas comentadas e de harmonização com iguarias. Será um evento sofisticado e muito inspirado no universo da época dourada dos primeiros anos do século XX, no cenário místico, clássico e grandioso que caracteriza o Curia Palace Hotel.
Cada produtor terá um espaço próprio para mostra e degustação dos seus espumantes. Além do universo dos espumantes, o visitante poderá ainda usufruir da mostra e venda de iguarias, típicas da Região da Bairrada, que harmonizam com espumante, bem como os doces típicos. Estão ainda previstos alguns momentos de animação no decorrer do evento.
Com o objectivo de incentivar e promover o consumo no comércio e serviços locais de todo o concelho de Anadia, o Município de Anadia promove este ano a acção “Participe no Millèsime – Encontro Nacional de Espumantes e ganhe Vales de Compra no Comércio Local”.
Esta campanha consiste na atribuição de vales de compras no valor de 5€ para o comércio local, a cada participante que adquira um bilhete para o evento “Millèsime – Encontro Nacional de Espumantes”. O Vale só pode ser descontado em compras iguais ou superiores a 20€ nos estabelecimentos aderentes.
A entrada no evento tem um valor de 10 euros por dia ou 15 euros para os dois dias de visita. No dia 29, o horário de funcionamento é das 15h00 às 20h00, e no dia 30, das 15h00 às 19h00.
Lista de Expositores presentes no evento:
ADEGA DE CANTANHEDE
ADEGA DE FAVAIOS
ADEGA RAMA
ALIANÇA
ALIEIXO WINES – REAL CAVE DO CEDRO
APLAUSO & REGATEIRO & PEDRA CANCELA
ATAÍDE SEMEDO
BIRTUDES
BORLIDO
CAMPOLARGO
CASA DO CANTO
CASA DOS AMADOS
CAVE CENTRAL DA BAIRRADA
CAVES ARCOS DO REI
CAVES DA MONTANHA
CAVES PRIMAVERA
CAVES SÃO DOMINGOS
CAVES SÃO JOÃO
COOPERATIVA AGRÍCOLA DO TÁVORA – ESPUMANTES TERRAS DEMO
ENCONTRO / CABRIZ / CASA DE SANTAR VINHOS
FUNDAÇÃO EUGÉNIO DE ALMEIDA
GALLIUS – BRUTO NATURAL
GIZ
KOMPASSUS BOUTIQUE WINERY
LENDA E MORGADO DO BUSSACO
LUÍS PATO
MARIA CARVALHEIRA – CARVALHEIRA WINECREATORS
MESSIAS FAMILY WINES & ESTATES
MURGANHEIRA
PEDRA SÓ
PGA – TRABUCA
PRIOR LUCAS VINHOS
QUATRO CRAVOS
QUINTA DA ATELA
QUINTA DA LABOEIRA
QUINTA DA LAGOA VELHA
QUINTA DA MATA FIDALGA
QUINTA DAS BÁGEIRAS
QUINTA DE SANTA CRISTINA
QUINTA DO ORTIGÃO
QUINTA DO PERDIGÃO
QUINTA DOS ABIBES
RAPOSEIRA
RIBEIRO SANTO
SOALHEIRO
VÉRTICE
VINHA DAS PENICAS
VINHOS ANTÓNIO MARINHA
VINHOS SIDÓNIO DE SOUSA
Quinta das Bágeiras: De pai para filho…

Mário Sérgio é um homem instintivo e sonhador. A família, desde sempre, foi a argamassa que o moldou e transformou naquilo que o define hoje, um agricultor criador de vinhos enormes. A notoriedade jamais lhe toldou o raciocínio. É na família que encontra a segurança e daí nunca ter adquirido uma propriedade sem antes ter […]
Mário Sérgio é um homem instintivo e sonhador. A família, desde sempre, foi a argamassa que o moldou e transformou naquilo que o define hoje, um agricultor criador de vinhos enormes. A notoriedade jamais lhe toldou o raciocínio. É na família que encontra a segurança e daí nunca ter adquirido uma propriedade sem antes ter a bênção de Abel, seu pai.
Bernardo, dandie errante que passou pela Bairrada, tinha uma estima profunda pela Quinta das Bágeiras. Encontrado por Mário Sérgio a trabalhar no Mugasa, na aldeia da Fogueira, em boa hora o leva para junto de si, assumindo quase uma função de seu cuidador. Versado no inglês falado e escrito, foi um importante impulso aos primeiros tempos, permanecendo nas Bágeiras até ao seu fim terreno.
Nos últimos tempos de vida, Bernardo insistia com veemência para que Mário Sérgio comprasse uma determinada vinha em Mogofores. Uma insistência que, no entanto, não lhe aguçou a curiosidade. O assunto foi esmorecendo e acabou esquecido. Num frio dia de Dezembro, Bernardo entrega-se ao Criador e vai a enterrar, com a família das Bágeiras a acompanhá-lo até à sua derradeira casa. Nesse mesmo dia, alguém se aproxima de Mário e diz-lhe: “Sr. Mário, tenho uma vinha para vender, mas a minha família só aceita vendê-la se for a si”. Mário estranhou a abordagem, hesitou, mas disse que, no dia seguinte iria vê-la com o seu pai. Dito e feito, logo pela manhã puseram-se a caminho e, lá, encontraram a vinha que Bernardo lhe havia confidenciado desejar que adquirisse, situada num local mágico que tantas vezes Mário via de longe e dizia para o seu pai, “ainda vamos ali comprar uma vinha!”. E o que a torna ainda mais especial? As suas características de composição de solos, exposição solar e orientação são absolutamente siamesas à sua vinha de Ancas, donde nasce… o Pai Abel tinto.
Transição geracional
A apresentação comemorativa dos 35 anos da Quinta das Bágeiras, ocorrida por estes dias, marca o início de uma transição geracional. Desde 1989 e até ao seu falecimento, Rui Moura Alves foi o enólogo assumido das Bágeiras. O “Sr. Rui”, não sendo enólogo de formação, praticou-a, desde os anos 60 nas mais prestigiadas casas da Bairrada, algumas entretanto desaparecidas. Com ele nasciam vinhos austeros, fermentados com engaço, duros e bem protegidos da oxidação. Se, nos primeiros anos, eram difíceis e exigentes, volvidos muitos e muitos anos, como que renasciam para mostrar todo o encanto longevo da Bairrada. E, nas últimas três décadas, foi esse o perfil intransigente que transmitiu aos vinhos e espumantes. Somente nos últimos anos se tornou mais permissivo, passando a ouvir Mário Sérgio e a interpretar nos vinhos os seus desejos. Provavelmente, sentia-o, somente agora, preparado para seguir o seu caminho.
Entretanto, Frederico Nuno, o filho de Mário, licencia-se em enologia e passa a acompanhar mais de perto, não apenas a feitura dos vinhos, mas todos os trabalhos de vinha, ainda monitorizados de perto pelo seu avô Abel. Pouco a pouco, é a sua formação e conhecimento técnico que vão deixando marca e, nos vinhos ora apresentados – Quinta das Bágeiras Grande Reserva 2019, Pai Abel branco 2022 e Pai Abel tinto 2017 – ela já é notória.
A transição ainda não é plena, mas a verdade é que já se sente uma outra mão que ajuda a embalar cada um deles. Não será uma mudança de estilo de uma casa que ostenta orgulhosamente a virtude de apenas produzir vinhos de uvas próprias, mas há um refinamento absoluto, transformando aquilo que anteriormente revelava algumas arestas, austeridade e cariz rústico, em vinhos quase imaculados e tocados pelo Divino.

Pai Abel 2017, na sua versão tinto, é uma edição limitada (1600 garrafas) de um vinho de apenas uma parcela. Num futuro próximo, este número reduzido de garrafas irá crescer, se a vinha siamesa da original de Ancas conferir à uva a qualidade que se lhe exige para aumentar a produção deste vinho de topo da casa. 2017 permitiu acuidade plena na escolha do dia perfeito para vindima. As chuvas chegaram tardiamente, já a tocar Novembro, fator que, na Baga se mostra fundamental para ajuizar um grande ano. Já a Touriga Nacional, que tempera levemente o vinho, não é dada a tais humores. Maior rigor, estágio longo em barricas avinhadas de 225 litros e um descanso de alguns anos em garrafa trouxeram-lhe a fineza e elegância que só o tempo e a região ajudam a transformar em vinhos de culto.
É no Pai Abel branco 2022 que se revela, de modo mais notório, a transição na enologia. Para Frederico Nuno, é no controlo de temperatura que se definem os pequenos detalhes daquilo que faltava fazer na Quinta das Bágeiras. Um refinamento que atinge o seu ponto alto num sublimado Quinta das Bágeiras Grande Reserva, um Bruto Natural da colheita de 2019, elaborado com as locais Maria Gomes e Bical, resultando naquele que, muito provavelmente, será o mais perfeito espumante alguma vez criado naquela aldeia da Fogueira.
De pai para filho, a Quinta das Bágeiras recria-se, refina-se, mantendo inamovível toda a solidez e princípios que definem a casa familiar que, nunca descurando as origens, vai definindo com segurança o futuro.
Nota: O autor deste texto escreve segundo o novo acordo ortográfico
(Artigo publicado na edição de Fevereiro de 2025)
Caves da Montanha: A arte de bem empreender

As Caves da Montanha são, hoje, o maior produtor da Bairrada e um dos maiores nacionais de espumante, com cerca de 10 milhões de euros de facturação anual. Para Alberto Henriques, o seu proprietário e administrador, só falta agora à sua empresa se tornar numa casa de referência de espumantes na mente dos portugueses. “Seguramente […]
As Caves da Montanha são, hoje, o maior produtor da Bairrada e um dos maiores nacionais de espumante, com cerca de 10 milhões de euros de facturação anual. Para Alberto Henriques, o seu proprietário e administrador, só falta agora à sua empresa se tornar numa casa de referência de espumantes na mente dos portugueses. “Seguramente que só precisamos desse reconhecimento”, afirma, salientando que apenas outra empresa nacional consegue oferecer, ao mercado, uma variedade tão grande de espumantes, com um leque tão abrangente de anos de estágio, algo que levou mais de 20 anos a construir. “E nós fazemos lotes de dezenas de milhar de garrafas com as mesmas características e qualidade, o que é muito mais difícil”, salienta.
É preciso ser bom
As Caves da Montanha foram fundadas em 1943 por Adriano Henriques, empresário de sucesso no sector industrial da cerâmica, que quis ter uma cave de vinho “porque os outros também tinham”, conta Alberto Henriques, 47 anos, proprietário e administrador das Caves da Montanha, sobre o seu bisavô, acrescentando que ele se apercebeu cedo que não era um grande negócio. Revela, também, que quando este faleceu, o seu avô, Adriano Henriques Júnior, era ainda muito novo e “ficou com aquilo que os outros herdeiros não queriam, como parte do capital das Caves da Montanha e uns pinhais para o lado de Lisboa”. Fez a vida e fortuna como investidor no sector imobiliário, mas manteve sempre as Caves da Montanha, à base de suprimentos. Ou seja, todos os anos metia dinheiro na empresa.
Segundo Alberto Henriques, o seu avô dizia, a propósito, que o que era preciso é que o espumante fosse bom e que, se não se vendesse, bebia-se. “Hoje ainda seguimos essa filosofia”, revela, salientando que após o avô ter morrido, em 1993, a sua avó, Teresa Henriques, continuou a injectar dinheiro na empresa todos os anos. No entanto, não deixou de tentar mudar o seu rumo, fosse através da contratação de uma nova equipa de enologia, que passou a ser chefiada por António Selas (que ainda hoje se mantém como consultor) ou mudando os seus administradores.
Pouco após o ano 2000, na altura em que entrou um novo gestor na empresa, Alberto Henriques começou a trabalhar numa consultora norte-americana, após se ter licenciado em Economia pela Universidade Nova de Lisboa. Mas como sentiu que “não estava a aprender nada”, decidiu começar a trabalhar com o pai na Portax, empresa do sector de componentes de móveis com sede em Oliveira de Frades. “Gostei de trabalhar com ele, porque era fácil e a empresa funcionava bem”, conta, revelando que, a certa altura, começou a trabalhar também nas Caves da Montanha, até que um desentendimento com o gestor da empresa o levou a assumir a sua gestão. Decorria o ano de 2003. “Eu fui criado pela minha avó, e vivia em casa dela, e senti a obrigação de assumir as rédeas das Caves da Montanha”, revela, salientando que foram muitos os problemas que teve de resolver desde o primeiro dia.
“Na primeira semana queriam fechar as caves porque não havia electricidade”, conta como exemplo, referindo também que, “na segunda semana, a responsável da produção foi em peregrinação a Fátima a pé e morreu atropelada” e que parte da equipa da altura “tinha entrado na empresa por cunhas”, ou seja, por diversas influências que não o mérito profissional.
O trabalho de toda a equipa das Caves da Montanha tem sido essencial ao sucesso da empresa
Trabalho em equipa
Entretanto foi contratando uma nova equipa para a gestão do dia a dia da empresa, incluindo o actual director de Enologia e de Qualidade, Bruno Seabra, e João Moreira, o gestor de Operações e de Exportação, entre outros, “equipa que se manteve até aos dias de hoje”. E apesar das vicissitudes iniciais, Alberto Henriques foi recuperando a pouco e pouco a sua empresa, que dois anos depois já estava a dar lucros. Mas salienta que nunca esteve só nesse caminho, porque o apoio da avó Teresa foi essencial nos primeiros anos, e o de toda a equipa, “que abdicou, muitas vezes da sua vida pessoal em prol da empresa”, desde o primeiro dia até hoje. “São pessoas que passam cá ao fim de semana para consertar isto e aquilo, a fazer facturas para as encomendas saírem mais cedo ou remuages”, explica.
Algumas pessoas foram-se reformando, depois de trabalharem na empresa a vida toda, que foi fazendo o seu caminho tentando “vender bons produtos a preços competitivos”, e mantendo um controlo de custos “muito apertado”, que contribuiu para a sua saúde financeira actual. “Nós trabalhamos por paixão, e não por dinheiro”, salienta Alberto Henriques, acrescentando que os acionistas não retiram dividendos da empresa. Pessoalmente, andou, no início do seu caminho nas Caves da Montanha, a vender vinhos nos restaurantes de Faro a Monção e apostou também na distribuição.
Ainda se lembra que telefonou 35 vezes para o comprador do Feira Nova, cadeia do Grupo Jerónimo Martins, na altura, até ele o ter atendido, e que teve de esperar bastante tempo que o responsável da Sonae dessa área descesse do quarto de hotel, antes de uma feira do sector, para lhe vender os primeiros vinhos. Foi preciso muito empenho e perseverança, numa “luta dura” com muitas dificuldades. Mas “hoje as coisas são mais fáceis”, revela Alberto Henriques, explicando que a empresa já é conhecida “e oferece produtos que poucos ou nenhum dos concorrentes tem e as portas abrem-se mais facilmente”.
Hoje, para além das suas, as Caves da Montanha fazem as marcas de espumante do Pingo Doce, Lidl, Sonae, Auchan, E-Leclerc, Makro e Minipreço. Desde o início que começaram a sentir o mercado, as tendências dos consumidores, e adaptar os produtos ao tipo de procura. “Essa foi a nossa estratégia, muito apoiada nos nossos clientes”, revela o gestor.
As Caves da Montanha produzem lotes de dezenas de milhar de garrafas com as mesmas características e qualidade
10 milhões de euros
Hoje as Caves da Montanha facturam mais de 10 milhões de euros. Já passaram mais de 20 anos desde que Alberto Henriques assumiu a sua gestão. Das cerca de 150 mil garrafas de espumantes comercializadas na altura em que chegou, passou para as actuais 2,5 milhões, numa empresa que também vende vinhos tranquilos de várias regiões nacionais, para além de licores e destilados, que comercializa em Portugal e na exportação, para países como o Brasil ou Canadá, Japão ou do norte da Europa.
Mas vender espumantes para os mercados externos não tem sido trabalho fácil, segundo o gestor, “porque não temos preços para combater os espumosos e porque também não existe um nome que distinga os nossos de todos os outros, como acontece com as cavas, os prossecos ou o champanhe”. O gestor defende que o espumante produzido em Portugal, pelo método clássico, ou champanhês, deveria ter um nome que o diferenciasse. “É um país pequeno, com quatro produtores com volume e deveria ter um nome diferente para ajudar a promover as exportações”, explica, contando que já houve tentativas nesse sentido, e que até havia concordância entre as casas maiores, mas “os trâmites burocráticos” dificultaram o processo.
Recentemente, as Caves da Montanha lançaram um espumante para comemorar os 80 anos de uma empresa que é, hoje, gerida pela quarta geração da família Henriques, e um vinho de celebração da filha de Alberto Henriques, ainda bebé. O primeiro “é um vinho que também pretende demonstrar que, na empresa, nós somos uma equipa que está bem, entende-se bem e rema toda para o mesmo lado, uma família”. O segundo “é a celebração da chegada da quinta geração da família ligada às Caves da Montanha, que ajudará à sua ligação com o futuro da empresa” diz ainda Alberto Henriques.
À procura do espumante perfeito
Nas Caves da Montanha tudo nasce nas vinhas. “Para fazer espumante é preciso direcioná-las para a sua produção, que é completamente diferente da de vinhos tranquilos”, explica Bruno Seabra, director de Enologia e Qualidade das Caves da Montanha. Na adega, as uvas têm, assim, de chegar com as características certas para serem prensadas de forma a separar o mosto de lágrima, que se destina às gamas mais altas, do de prensa, que vai para o resto das gamas.
Durante a fermentação, Bruno Seabra gosta de provar de dois em dois dias, para verificar como o processo está a decorrer, “porque só conseguimos fazer grandes vinhos se soubermos actuar nos seus processos chave”. Depois são escolhidas as bases para cada tipo de produto: Montanha Real, Cá da Bairrada, etc., seguindo-se a sua colagem, processo feito com o adjuvante do Instituto Enológico de Champanhe, selecionado após um estudo comparativo realizado pelo enólogo, “pela limpidez que origina e rapidez do processo”.
Conforme as suas características, as bases são depois analisadas e o seu processamento é orientado tendo em conta o tempo de estágio previsto para os espumantes que originam. “A acidez é essencial na sua produção, mas os lotes têm de ter também em conta objectivos como a longevidade, volume e complexidade”, explica Bruno Seabra. Os vinhos com mais fruta e frescura dão melhor resultados para a produção de espumantes mais novos, onde isso é importante. Nestes é preciso que a bolha não rebente tão facilmente, “que não seja agressiva e bruta”. Por isso são espumantes onde o licor de expedição leva menos açúcar, que têm uma bolha mais fina também por causa das fermentações serem mais lentas nas caves, onde decorrem a uma temperatura de 16/17ºC.
Durante o estágio, os espumantes vão sendo provados para se perceber qual aa sua evolução. “Começo a fazer isso a partir dos seis meses, para perceber qual o caminho a traçar e decidir o licor de expedição, que é importantíssimo na finalização do espumante, sobretudo para definir a sua identidade, pois temos várias marcas e uma gama alargada, que têm de ter, cada uma, as suas características”, explica Bruno Seabra. “Não basta pôr vinho base, um pouco de sulfuroso e goma”, salienta, acrescentando que “é necessário criar outro tipo de sensações, que só podem ser acrescentadas através do licor de expedição”. Depois, é preciso algum tempo de estágio em garrafa, essencial para que o efeito do licor de expedição se se sinta no espumante, “que só actua realmente dois a quatro meses depois”. Para os mais evoluídos, “quanto mais tempo melhor”, defende o enólogo, garantindo ainda que “as características da fermentação, do estágio sobre borras e do licor de expedição são beneficiados no estágio após o dégorgement”.
(Artigo publicado na edição de Novembro de 2024)
Bairrada elege os melhores do Concurso de Vinhos e Espumantes 2024

O Quartel das Artes, em Oliveira do Bairro, foi palco do anúncio e entrega de prémios do Concurso de Vinhos e Espumantes 2024, organizado pela Comissão Vitivinícola da Bairrada. Ao palco subiram os vinhos premiados com medalhas de prata (7) e de ouro (30), num total de 37 referências, que se destacaram entre as 132 […]
O Quartel das Artes, em Oliveira do Bairro, foi palco do anúncio e entrega de prémios do Concurso de Vinhos e Espumantes 2024, organizado pela Comissão Vitivinícola da Bairrada. Ao palco subiram os vinhos premiados com medalhas de prata (7) e de ouro (30), num total de 37 referências, que se destacaram entre as 132 amostras submetidas a prova cega nesta edição.

O Quinta dos Abibes Sublime branco 2019 foi o Grande Vencedor desta competição, tendo sido laureado com os títulos de Melhor Vinho do Concurso e Melhor Branco: um 100% Arinto, da autoria da quinta que lhe dá nome. Já é o segundo ano consecutivo em que é branco o melhor vinho do concurso.
Os rosados continuam a aparecer de forma tímida, com dois premiados apenas: ao Quinta do Poço do Lobo Reserva Baga e Pinot Noir 2022, das Caves São João, foi atribuída Medalha de Ouro e distinção de Melhor Rosé. Nos tintos, a Adega de Cantanhede destacou-se com o Marquês de Marialva Confirmado Baga 1995, ao arrecadar Ouro e o prémio de Melhor Tinto. No que toca a espumantes, o melhor da categoria foi o Primavera Velha Reserva Bruto 2015 (Caves Primavera). O Quinta da Laboeira Baga Bairrada Reserva Bruto Natural 2021 (Alberto da Silva Marques) foi eleito o Melhor Baga Bairrada.
O Concurso de Vinhos e Espumantes da Comissão Vitivinícola da Bairrada 2024 realizou-se no dia 30 de Outubro, perante um painel de jurados composto por quinze pessoas, entre enólogos e elementos eleitos pela Associação Escanções de Portugal. A prova foi dirigida por Francisco Antunes ,acompanhado por Pedro Soares.
Concurso de Vinhos e Espumantes da Comissão Vitivinícola da Bairrada – 2024
Lista de Premiados
O GRANDE VENCEDOR
Quinta dos Abibes Sublime branco 2019 (Quinta dos Abibes)
VINHOS BRANCOS
Quinta dos Abibes Sublime branco 2019 (Quinta dos Abibes)
Medalhas de Ouro (7)
Quinta dos Abibes Sublime branco 2019 (Quinta dos Abibes)
Todos by Osvaldo Amado branco 2023 (Casa dos Amados Vinhos de Portugal)
Todos by Osvaldo Amado Reserva branco 2022 (Casa dos Amados Vinhos de Portugal)
Quinta da Lagoa Velha Singular branco 2020 (Quinta da Lagoa Velha)
Medusa Reserva branco 2018 (Cave Central da Bairrada)
Pranto branco 2022 (Rui António Rodrigues Francisco)
Barão da Pocariça Bical e Fernão Pires branco 2023 (Francisco Augusto Rebocho Pessoa Vaz)
Medalhas de Prata (3)
Conde de Cantanhede Reserva branco 2021 (Adega de Cantanhede)
Mata Fidalga Reserva 2023 (Quinta da Mata Fidalga)
Quinta do Poço do Lobo Reserva 2020 (Caves São João)
VINHOS ROSÉS
Medalha de Ouro
Quinta do Poço do Lobo Reserva 2022 (Caves São João)
Medalha de Prata
António Marinha 2022 (António Marinha)
VINHOS TINTOS
Marquês de Marialva Confirmado Baga tinto 1995 (Adega de Cantanhede)
Medalhas de Ouro (7)
Aleixo Grande Reserva Baga tinto 1997 (Real Cave do Cedro)
Marquês de Marialva Confirmado Baga tinto 1995 (Adega de Cantanhede)
A. Henriques tinto (Caves da Montanha)
4 Patamares Virgílio de Sousa Clássico tinto 2015 (Quinta da Mata Fidalga)
António Marinha Grande Reserva Vinho de Homenagem tinto 2015 (António Marinha)
Giz Vinha das Cavaleiras Baga tinto 2020 (Luis Gomes)
Frei João Clássico tinto 2018 (Caves São João)
Medalhas de Prata (3)
Primavera Clássico tinto 2019 (Caves Primavera)
Rabarrabos tinto 2022 (Fundação ADFP)
Todos by Osvaldo Amado Baga tinto 2022 (Casa dos Amados Vinhos de Portugal)
ESPUMANTES
O melhor Espumante Primavera Velha Reserva Bruto 2015 (Caves Primavera)
O Melhor Espumante Baga Bairrada
Quinta da Laboeira Baga Bairrada Reserva Bruto Natural 2021 (Quinta da Laboeira)
Medalhas de Ouro (15)
Primavera Velha Reserva Bruto 2015 (Caves Primavera)
Quinta de S. Lourenço Bruto 2011 (Caves São Domingos)
Caves São João Homenagem a Luiz Costa Bruto Natural 2018 (Caves São João)
D. Duarte Super Reserva Bruto 2020 (Caves Primavera)
Marquês de Marialva Cuvée Primitivo Bruto Natural 2015 (Adega de Cantanhede)
Montanha Real Tributo da Carreira Grande Reserva Bruto 2010 (Caves da Montanha)
Encontro Special Cuvée Extra Bruto 2017 (Quinta do Encontro)
Quinta da Laboeira Baga Bairrada Reserva Bruto Natural 2021 (Quinta da Laboeira)
Todos by Osvaldo Amado Blanc des Noirs 2017 (Casa dos Amados Vinhos de Portugal)
Quinta da Lagoa Velha Cuvée Bruto 2015 (Quinta da Lagoa Velha)
De Sá e Sousa Reserva Bruto (Caves Arcos do Rei)
Aliança Grande Reserva Bruto Natural 2019 (Aliança Vinhos de Portugal)
Pedra Só Reserva Bruto 2021 (Idálio de Oliveira Estanislau)
Borlido Baga Bairrada Super Reserva Bruto 2020 (Borlido)
Campolargo Pinot Blanc Bruto 2017 (M. S. Campolargo Herdeiros)
Caves São João: Serena é a mudança

A inovação e criatividade sempre foram uma forma de estar das Caves São João. As influências do melhor que se fazia lá fora eram trazidas pelos seus fundadores, homens viajados e cosmopolitas. Na segunda metade do século XX, todo o país conhecia e reconhecia as referências “Frei João” e “Porta dos Cavaleiros”, rótulos que encimavam […]
A inovação e criatividade sempre foram uma forma de estar das Caves São João. As influências do melhor que se fazia lá fora eram trazidas pelos seus fundadores, homens viajados e cosmopolitas. Na segunda metade do século XX, todo o país conhecia e reconhecia as referências “Frei João” e “Porta dos Cavaleiros”, rótulos que encimavam todas as mesas da restauração portuguesa. Em 1971, antevendo as mudanças do paradigma de consumo de vinhos e espumantes e o surgimento de consumidores que procuravam maior identidade nos vinhos, é adquirida a Quinta do Poço do Lobo, no concelho de Cantanhede e, a partir dali, nasce a marca homónima, passando as caves a possuir vinhos de Quinta.
Como empresa familiar, a Sociedade dos Irmãos Unidos, designação social da mesma, sofreu os reveses das querelas internas. No final da segunda década deste século entrou num período mais conturbado, acabando, por vicissitudes várias, a ser alienada a quase totalidade do capital social a um conjunto de investidores em 2022. A partir daí, aguardavam-se as mudanças que os novos sócios, da área imobiliária e financeira, iriam imprimir à empresa centenária e que é a mais antiga em atividade na Bairrada. Fernando Sapinho, Enrique Castiblanques, Mário Vigário, Nuno Ramos, Paulo Morgado e Mário Mateus, são empresários em diversos ramos de atividade. O vinho surge-lhes como uma paixão racional de quem olha para as Caves São João como um diamante a lapidar.
No centro destas mudanças, ficou Célia Alves, ela que em tempo de marés violentas e tormentas várias, não largou o leme de uma marca secular e histórica, não permitindo que, em momento algum, ficasse à deriva.
Serenamente, os últimos anos foram de restruturação, dando uma nova luz à empresa que, com os seus fundadores, esteve no passado ligada à criação da região demarcada da Bairrada e à Confraria dos Enófilos da Bairrada, que, curiosamente, teve na sua liderança nos últimos anos Célia Alves, que mantém a gerência das Caves conjuntamente com os ativos sócios Fernando Sapinho e Enrique Castiblanques
No passado dia 24 de Junho, Dia de São João, as Caves São João destaparam o véu da revolução tranquila que têm operado, celebrando o seu 104º aniversário com várias novidades. A maior, e porque o palco escolhido para os festejos foi a Quinta do Poço do Lobo, revelou-se na expansão que aquela propriedade teve com esta nova estrutura societária. Ao longo dos últimos dois anos, entre reconversão de área de floresta em vinha e aquisição de parcelas contíguas, houve um aumento da área de vinha em 10 hectares, que se somam aos 30 já existentes. Com o aumento da produção de espumante no horizonte, nascem ali novas plantações das castas brancas Bical, Arinto e Maria Gomes (Fernão Pires).
Do Poço do Lobo ao Porta dos Cavaleiros
A casa, que mantém o classicismo que sempre a caracterizou, não descura o arrojo e ousadia e, na apresentação dos novos vinhos, mostrou que segue de perto as tendências e, para isso, não deixou de surpreender. O Baga Novo Natcool, um tinto da colheita de 2022, mostra toda a irreverência da casta, num vinho disruptivo mas totalmente assertivo. Nascido de uma parceria com a Niepoort, empresa familiar que possui relações comerciais com a empresa bairradina que remontam a meados do século XX, rompe com estigmas e mostra o quanto a Baga em jovem é capaz de criar vinhos absolutamente emocionantes. Nos espumantes, deu-se a conhecer a nova edição do Quinta do Poço do Lobo, na sua versão rosé, da colheita de 2021 e já com mais de 24 meses de estágio. Aqui reinam, num blend que casa com sucesso, a Baga e o Pinot Noir.
Os Porta dos Cavaleiros, marca criada nos anos 60 do século passado, consagrando a investida da empresa bairradina na região do Dão, surgem agora totalmente renovados, impondo, na rotulagem, um maior sentido histórico e arquitetónico, onde o monumento representativo – Porta dos Cavaleiros, como uma das medievais portas da cidade de Viseu – ganha um maior rigor e sentido iconográfico. Nos vinhos, a tradição mantém-se. As Caves adquirem os melhores lotes de tintos e brancos produzidos no Dão e, à maneira antiga, procedem à sua “afinação”, lançando-os no mercado. As duas propostas apresentadas foram o Porta dos Cavaleiros tinto 2022, e o Porta dos Cavaleiros Reserva Especial branco, este uma categoria rara no Dão, apenas ao alcance dos vinhos que se destacam em enorme qualidade na câmara de provadores.
Crescer, solidificar mercados, impor-se como marca de prestígio, aumentar área de vinha e ser um verdadeiro referencial da Bairrada do futuro. Este é o caminho que as Caves São João tão bem está a trilhar para este segundo século de vida que se segue.
Nota: O autor escreve segundo o novo acordo ortográfico.
(Artigo publicado na edição de Setembro de 2024)































