Dão firma o enoturismo na BTL

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A Comissão Vitivinícola Regional (CVR) do Dão e a Rota do Dão marcam presença no stand do Turismo Centro de Portugal, instalado no recinto da BTL – Bolsa de Turismo de Lisboa, que está a decorrer na FIL – Parque das Nações, em Lisboa. Em destaque está o tema do enoturismo, ação estratégica para a […]

A Comissão Vitivinícola Regional (CVR) do Dão e a Rota do Dão marcam presença no stand do Turismo Centro de Portugal, instalado no recinto da BTL – Bolsa de Turismo de Lisboa, que está a decorrer na FIL – Parque das Nações, em Lisboa. Em destaque está o tema do enoturismo, ação estratégica para a promoção dos vinhos e do território, por forma a enaltecer a região como um destino de experiências, com uma oferta qualificada, onde as famílias são bem-vindas. O propósito consiste no desenvolvimento económico e turístico da região.

Manuel Pinheiro, Presidente da CVR, esclarece: “o Dão tem uma excelente oferta de produtores abertos a visitas, vários dos quais com restaurante e hotel integrados nas vinhas. Para uma região que se posiciona nos segmentos de maior valor, o desenvolvimento do enoturismo é um eixo estratégico fundamental.”

Com esta parceria entre os Vinhos do Dão e a Rota do Dão, marcam presença 41 aderentes, envolvendo ainda as Comunidades Intermunicipais da Beira Baixa, Região Beiras e Serra da Estrela, e Viseu Dão Lafões.

QUINTA DONA SANCHA: Vinho frescos e sedutores

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A Quinta Dona Sancha apresentou num almoço, que decorreu no restaurante Pabe, em Lisboa, seis referências de vinho, de três gamas diferentes, entre as quais estiveram presentes as novas colheitas da gama Avarenta tinto e branco, o Quinta Dona Sancha Encruzado e Touriga Nacional. O Vinha Ancestral tinto de 2019 e o monocasta de Jaen […]

A Quinta Dona Sancha apresentou num almoço, que decorreu no restaurante Pabe, em Lisboa, seis referências de vinho, de três gamas diferentes, entre as quais estiveram presentes as novas colheitas da gama Avarenta tinto e branco, o Quinta Dona Sancha Encruzado e Touriga Nacional. O Vinha Ancestral tinto de 2019 e o monocasta de Jaen de 2022 foram as duas novidades absolutas.

Rui Parente, o produtor da Quinta Dona Sancha, defende que os seus vinhos já demonstram hoje uma matriz de sabores e aromas que os diferenciam

 

Pensados ao detalhe

Segundo Rui Parente, fundador do projecto e proprietário da Quinta Dona Sancha, os vinhos apresentados “foram pensados ao detalhe, para despertar lembranças e emoções”, expressando “a identidade que procuram afirmar, desde a primeira vindima”, o terroir de Silgueiros, da região do Dão. O enólogo Paulo Nunes tem sido o consultor da empresa desde o primeiro dia, contribuindo, com o seu conhecimento, e saber fazer, para a produção e comercialização de vinhos, com a frescura e elegância que os caracteriza. Rui Parente, que já o conhecia há muitos anos, ainda antes de se dedicar à produção de vinhos, já tinha encetado conversações, para que se envolvesse neste projecto antes de o iniciar.

O objectivo, desde o início, foi procurar fazer vinhos com identidade, marcados pelas características que diferenciam o terroir de Silgueiros e do Dão, “acreditando que havia espaço para colocar a região na rota do sucesso, o lugar que um território com pergaminhos históricos na produção de vinho de qualidade merece”, defendeu Rui Parente no dia do lançamento, salientando que, à sexta vindima, a empresa mostra que é uma empresa representativa daquilo que é a sub-região de Silgueiros, a quinta e o terroir. “Acabámos de os provar e a identidade da quinta nota-se em todos os vinhos”, salientou, com algum orgulho, nesse dia, defendendo que mostram “uma matriz que identifica o projecto, o que tem sido o meu objectivo de médio e longo prazo desde o primeiro dia”.

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Paulo Nunes, enólogo consultor da empresa

50 hectares de vinha

A Quinta Dona Sancha nasceu de um sonho de Rui Parente. Os pais produziam vinhos para terceiros, sem marca, mas o empresário teve sempre esse desejo de criar um projecto próprio na Região do Dão. Talvez tenha sido essa a finalidade de iniciar o percurso no sector ainda muito jovem, lançando-se por conta própria em 2011, quando criou o seu negócio, a Cave Lusa, em Viseu, que inclui uma garrafeira e uma empresa distribuidora de vinhos.

A oportunidade de se estrear na produção surgiu em 2018, com a compra de duas propriedades que constituem, hoje, a Quinta Dona Sancha, uma referência na região do Dão situada a 12 quilómetros de Viseu, com cerca de 47 hectares de vinha e um portefólio reconhecido pela autenticidade e pela elegância dos seus vinhos.

(Artigo publicado na edição de Janeiro de 2026)

TINTOS DO DÃO: O Dão para além da Touriga

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A Touriga Nacional continua a ter um papel central na imagem do Dão, sendo responsável por 21,3% da área da vinha na região. Impositiva por natureza, mas quando bem integrada, a casta contribui com estrutura, profundidade aromática e identidade. Por isso, não fazia sentido excluí-la completamente desta prova; limitámos apenas a sua presença de forma […]

A Touriga Nacional continua a ter um papel central na imagem do Dão, sendo responsável por 21,3% da área da vinha na região. Impositiva por natureza, mas quando bem integrada, a casta contribui com estrutura, profundidade aromática e identidade. Por isso, não fazia sentido excluí-la completamente desta prova; limitámos apenas a sua presença de forma a não ultrapassar os 50% do lote.

O que é um blend tradicional do Dão?

Eis uma questão que só pode ser respondida sob um prisma histórico. O lote das quatro magníficas – Touriga Nacional, Tinta Roriz, Alfrocheiro e Jaen –, que, entendemos hoje, como “tradicional”, certamente não o foi antes da filoxera, nem em meados do século passado. A composição das vinhas e dos vinhos foi-se alterando conforme modas, estudos científicos que privilegiaram umas castas em detrimento de outras, avanços na viticultura, alterações climáticas e outros factores.
A Touriga Nacional passou por um período de abandono antes de alcançar o novo estrelato. A Jaen, que mal surgia nos registos, domina hoje as plantações. A Tinta Roriz, que aterrou na região nos anos oitenta do século XX, ascendeu rapidamente à liga das castas recomendadas. A Baga, outrora dominante, aparece agora em field blends ou como raridade monovarietal. Algumas variedades perderam-se pelo caminho; as mais sortudas foram resgatadas do oblívio, graças ao esforço de produtores, como a Lusovini.

De acordo com a Ampelografia Portuguesa de 1865, antes da praga da filoxera, três castas tintas presentes em praticamente todos os concelhos da atual região do Dão eram a Touriga Nacional (à época conhecida como Tourigo ou Mortágua), o Alvarelhão e o Bastardo. Para além destas, são mencionadas Amaral, Baga, Tinta Amarela, Tinta Carvalha e Tinta Francisca, bem como outras variedades cujos nomes hoje são pouco conhecidos, como Coração de Galo ou Pilongo.
Em 1953, Tourigo e Alvarelhão eram obrigatórias nas novas plantações, com um mínimo de 10%. Em 1985, a Touriga Nacional passou a ser a única obrigatória com um mínimo de 20% das novas plantações; as castas Alfrocheiro, Bastardo, Jaen, Tinta Pinheira, Tinta Roriz e Rufete podiam chegar até 80%, enquanto Alvarelhão, Tinta Amarela e Tinto Cão não deviam ultrapassar 20% das plantações.

Em 1993, as castas foram divididas em “autorizadas” e “recomendadas”. As primeiras incluíam o quarteto principal, para além de Alvarelhão, Bastardo, Rufete (Tinta Pinheira), Tinto Cão e Tinta Amarela. Foram ainda mencionadas as variedades que não podiam ultrapassar 40% do conjunto: Alicante Bouschet, Cabernet Sauvignon e Pinot (Noir, presume-se).
Os estilos de vinificação também recebiam as influências de cada época. No início dos anos 2000, os produtores do Dão sentiam-se tentados a apanhar a onda do Novo Mundo, com muita cor e concentração, procurando maior valorização no palco internacional. Isso criava uma certa incoerência com o perfil dos vinhos da década de 1960, quando o Dão era visto como a “Burgúndia de Portugal”. Não sou adepta destas alusões a regiões extra-lusas, mas percebe-se que o termo apelava à ideia de elegância. Hoje, temos produtores antigos, como a Casa da Passarella, ou mais recentes, como a Dona Sancha e o Domínio do Açor, que privilegiam este lado subtil e delicado, em detrimento da extração e opulência.

Há já quase 15 anos, três grandes enólogos do Douro — Jorge Moreira (Poeira), Francisco Olazabal (Quinta do Vale Meão) e Jorge Borges (Wine & Soul) — criaram no Dão o projecto conjunto com a abreviatura M.O.B. “Nos vinhos do Douro há sempre sensação de calor; no Dão também se consegue maturação fenólica, mas os vinhos são energéticos, tensos, com muita frescura e adquirem equilíbrio com menos extração”, explica Jorge Moreira.

Jaen: perfume e macieza
É uma casta de nacionalidade dupla: por um lado, é filha de progenitores portugueses, a Alfrocheiro e a Patorra; por outro, apresenta maior variabilidade genética em Espanha, onde é identitária nas denominações de origem Bierzo e Ribeira Sacra. Supõe-se que andou pelos caminhos de Santiago e atravessou fronteiras através das práticas de intercâmbio agronómico. As primeiras referências surgem em 1886 e 1889, nas regiões de Mangualde e Penalva do Castelo. Em 1973, a casta era permitida nas novas plantações até 30, 40% em alguns concelhos da região. Sendo produtiva, mereceu atenção dos viticultores, que entregavam uvas às adegas cooperativas. Outra vantagem era o grau alcoólico provável mais elevado, o que se reflectia na remuneração, ao contrário da Baga, que perdeu esta corrida a partir das décadas de 1950 e 1960.
A Jaen é quase exclusiva do Dão, onde lidera as plantações com 22,8%, segundo os dados oficiais da comissão vitivinícola da região. Porém, a sua presença dominante no encepamento, não se traduz em valorização. Nem sempre é plantada nos sítios mais adequados, não é pensada para brilhar, como em Bierzo. Sendo muito sensível ao terroir, não apresenta comportamento homogénio dentro da região e acaba por ser pouco consensual. Produz muito, sobretudo em terrenos férteis, mas é susceptível ao míldio e ao oídio, e apodrece com facilidade, o que obriga a evitar zonas mais húmidas. Resiste bastante bem ao stress hídrico, mas não gosta de calor em excesso.
Com produções entre seis e oito toneladas por hectare, e desde que esteja plantada no sítio certo, a Jaen é capaz de originar vinhos de qualidade. Em contexto de lote, pode ir até às dez toneladas por hectare.
A maturação é precoce, mas é difícil apanhá-la no ponto, porque a maturação fenólica é desfasada da acumulação de açúcar. A situação agrava-se, quando a casta é plantada em solos com maior humidade, porque com calor e água disponíveís, a maturação dispara e facilmente entra em sobrematuração. A janela de oportunidade é curta e crítica: quase de um dia para outro passa de rústica, com taninos verdes e aromas de sardinheira, para borracha queimada e acidez baixa. A Jaen contém a segunda maior concentração (após Touriga Nacional) de compostos terpénicos, apresentando, nos primeiros meses, um perfume intenso e delicado a flores, evoluindo, depois, para o aroma a fruta madura, a lembrar morangos e framboesas.
É frequentemente, para não dizer sobretudo, utilizada nos vinhos de entrada de gama, pois confere macieza e um perfume bonito e personalizado. Os vinhos arredondam depressa e ficam prontos a beber ainda jovens. O monovarietal nem sempre é possível e não em qualquer sítio. Numa recente apresentação dos vinhos da Dona Sancha, o enólogo Paulo Nunes explicou que só foi possível fazer Jaen em extreme com uvas de uma vinha com altitude mais elevada, numa zona mais fresca, onde se vindima mais tarde, pois o frio contraria o carácter primário da casta.
A idade da vinha também tem o seu impacto na produção e na maturação. Francisco Olazabal, do trio M.O.B., nota que “a Jaen das vinhas velhas parece outra casta”.

Alfrocheiro: frescura e elegância
A Alfrocheiro é uma das variedades mais fascinantes do Dão. Ausente nas referências ampelográficas do século XIX, revelou-se, mais tarde, como uma verdadeira “mãe genética” de várias castas portuguesas, incluindo o próprio Jaen. A sua designação actual surgiu no início do século XX, tendo sido conhecida, no passado, por outros nomes, como Tinta Bastardeira, Tinta Bastardinha e Tinta Francesa de Viseu. Em terras espanholas é conhecida como Bruñal, em Arribez del Duero, Caiño Gordo, na Galiza, Albarín Tinto, nas Astúrias, e Baboso Negro, nas ilhas Canárias.
Está disseminada por toda a região, sendo a quarta casta mais plantada, representando 5,9% do encepamento no Dão. Embora esteja presente noutras regiões do país, a nível nacional, não ultrapassa 1% da área de vinha. É uma casta exigente, irregular e difícil de prever. Sensível ao calor, ao stress hídrico e à insolação excessiva, não segue regras fixas: não há anos claramente “bons” ou “maus” para a Alfrocheiro. Em contrapartida, quando bem trabalhada e quando lhe apetece, oferece um equilíbrio notável entre álcool, taninos e acidez. Das quatro magníficas, revela-se mais fresca, mais elegante e mais subtil, produzindo vinhos de boa cor, taninos firmes, mas delicados e uma acidez natural mais pronunciada. Jorge Moreira vê semelhanças com Pinot Noir, mas reconhece que precisamos de 200 anos para a elevar ao mesmo nível de reconhecimento.

Tinta Roriz: omnipresente e controversa
É a casta ibérica mais conhecida internacionalmente como Tempranillo. A nível nacional é líder absoluto, ocupando 10% da área total da vinha. No Dão, surgiu no final do século passado, após o reconhecimento das suas aptidões pelo Centro de Estudos de Nelas. Em 1983, a par com a Tinto Cão, era a variedade com menor expressão na região (apenas dois hectares) e hoje ocupa 17,6% da área plantada, posicionando-se no terceiro lugar. Embora tenha registado um crescimento exponencial e esteja omnipresente nos lotes, é uma casta polémica, considerada por muitos um erro de casting. Funciona como uma verdadeira “fábrica de açúcar”, sem que a maturação fenólica acompanhe esse ritmo, o que conduz ao desequilíbrio: ou taninos verdes e adstringentes, ou teores alcoólicos elevados com baixíssima acidez. Prefere solos profundos e bem drenados. Facilmente produz quilos de uva com bagos grandes, muito líquido e muita polpa. Neste caso, perde drasticamente a qualidade. O controlo de produção é, por isso, indispensável.

Em anos favoráveis, pode dar vinhos intensos, estruturados e complexos; noutros, a qualidade é difícil de extrair. Exige decisões rigorosas na vinha e na adega. Alguns produtores optam por vindimas fracionadas, destinando parte da uva para a produção de rosé ou espumante, de forma a preservar frescura e equilíbrio. Outros preferem arrancá-la e substituí-la pelas castas mais ajustadas à região. Em anos favoráveis, pode originar vinhos intensos, estruturados e complexos; noutros, a qualidade é difícil de extrair.

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Outras castas

A Tinta Pinheira (3,1% das plantações) é o nome local da Rufete. Queima-se com o sol e apodrece com a chuva, duas das razões pelas quais perdeu popularidade. É uma casta de perfil vegetal, mas delicada, que requer igual delicadeza na vinificação. Os vinhos não apresentam acidez particularmente elevada, mas transmitem sempre energia e frescura natural, segundo a informação dada por Luís Lopes, enólogo da Domínio do Açor. Na adega, optam pelo desengace total e por uma extracção muito ligeira, quase como de uma infusão se tratasse. Outro cuidado prende-se com o uso da barrica: se a Jaen “consegue mastigar a madeira”, a Tinta Pinheira é muito mais sensível. O estágio prolonga-se por dois anos em barricas com três a quatro anos de uso, de modo a que a madeira não se faça notar no vinho.

A Baga (4,9% das plantações) foi, em 1983, a casta com maior encepamento na região, totalizando 3.142 hectares. Em 2008 ainda mantinha uma presença significativa, mas, sendo de ciclo longo e sensível à podridão, não tinha qualquer hipótese. Como explica Paulo Nunes: “Nos anos 80 e 90, quem mandava na viticultura era o São Pedro, e as chuvas no equinócio aconteciam oito em cada dez anos. Hoje já é possível empurrar a decisão da vindima para dentro de Outubro.” Em algumas vinhas, realizam duas a três vindimas faseadas, em função do destino das uvas.

A Malvasia Preta resulta do cruzamento natural entre Alfrocheiro e Sarigo. Com a primeira referência datada de 1866, está mais presente no Nordeste de Portugal. Transmite acidez bastante elevada e aroma com fruta mais imediata e fácil de gostar.

A casta Monvedro é mais uma descendente do Alfrocheiro. Está presente na região em quantidades diminutas (em 1986 representava menos de 0,01% do encepamento). Medianamente produtiva, abrolha cedo e amadurece tardiamente. Mostra-se bastante sensível às vagas de calor, pelo que necessita de ser plantada em zonas mais frescas e sombrias. É uma variedade pouco consensual, bastante rústica e austera, com acidez e taninos elevados. Por sua vez, a Tinta Carvalha já teve alguma presença na região, mas, por apresentar pouca matéria corante e baixa produção de açúcar, deixou de ter expressão, não se adequando à imagem dos vinhos idealizados na década de 1990. Hoje, segundo Paulo Nunes, apresenta um perfil que “respira o Dão”.
Se as castas isoladas ajudam a compreender a região, os blends permitem interpretá-la. A essência do Dão reside na complexidade dos lotes, construídos na adega pelas mãos e sensibilidade humana ou na vinha com castas misturadas e, por vezes, centenárias.

Field blend e vinhas velhas

Não tendo nada a ver com a conotação romantizada de “field blend” de hoje, na época em que surgiram, estes lotes eram uma solução meramente prática, baseada no conhecimento empírico. Não se estudavam as castas a fundo do ponto de vista agronómico e enológico; plantava-se o que estava mais à mão ou, mais próximo de verdade, o que os enxertadores tinham disponível. O field blend funcionava como uma espécie de apólice contra as adversidades climáticas: com muitas variedades à mistura, colmatava-se a insegurança e conseguia-se estabilidade, tanto na produção, como na qualidade.

O desafio das vinhas velhas, com uma grande variedade de castas, consiste em garantir um controlo eficiente da maturação e definir a data de vindima. Às vezes, é possível identificar uma ou duas videiras que reflectem o nível de maturação da vinha toda, como faz Paulo Nunes, ou realizar várias passagens na vindima, como refere Álvaro de Castro, o proprietário da Quinta da Pellada.
As vinhas antigas são igualmente mais difíceis em termos fitossanitários e muito exigentes em trabalhos na vinha. É preciso conhecer bem não apenas a parcela, mas também as videiras, para podar cada uma de forma adequada. Nesta prova, tivemos alguns vinhos das vinhas velhas. Quinta da Pellada Vinhas com 70 anos, com predominância das castas Jaen, Alvarelhão, Tinta Pinheira, Tinta Carvalha, Bastardo, entre outras, e reduzida expressão de Touriga Nacional, Português Azul e Negro Mouro. O nome da parcela “Alto” é autoexplicativo, pois fica a 550 metros de altitude, em solo granitico com linhas de argila e areia.

Da Casa Américo veio um vinho de uma vinha centenária da Quinta da Cerca, localizada na sub-região da Serra da Estrela – desengace parcial e fermentação em lagar aberto com uma primeira pisa a pé. A partir daqui apenas molharam a manta uma vez por dia. O fim da fermentação e o estágio de 24 meses ocorreram em depósito de cimento, aos quais se somaram 24 meses em garrafa.
Tivemos uma boa amostra de monovarietais de Alfrocheiro (sete) e Jaen (quatro) e ainda um de Tinta Pinheira e um de Tinta Roriz. As castas estrangeiras, como é o caso de Syrah e Cabernet Franc, não são permitidas para denominação de origem, mas podem entrar nos vinhos regionais de Terras do Dão.

(Artigo publicado na edição de Janeiro de 2026)

*Nota: A ordem das garrafas é meramente aleatória

Manuel Pinheiro é o novo Presidente da CVR do Dão

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Administrador da Global Wines (Casa de Santar e Quinta de Cabriz) até 2022, Manuel Pinheiro assume, agora, a função de Presidente da Comissão Vitivinícola Regional (CVR) do Dão, para o triénio 2026-2028. Em declarações para a Revista Grandes Escolhas, sublinhou a importância de reforçar a valorização dos vinhos produzidos na região vitivinícola que representa, já […]

Administrador da Global Wines (Casa de Santar e Quinta de Cabriz) até 2022, Manuel Pinheiro assume, agora, a função de Presidente da Comissão Vitivinícola Regional (CVR) do Dão, para o triénio 2026-2028. Em declarações para a Revista Grandes Escolhas, sublinhou a importância de reforçar a valorização dos vinhos produzidos na região vitivinícola que representa, já que se trata de um produto de “grande qualidade” que nada tem a ver não se coaduna com “o mercado de grandes volumes”, mas antes num mercado em que a qualidade se posiciona num patamar superior.

Com o intuito de firmar e perpetuar a mais-valia associada ao vinho, enquanto produto de qualidade, o novo responsável pelo território vitivinícola do Dão sublinha a importância de preservar a diversidade de castas tradicionais. A formação técnica destinada aos viticultores, bem como a criação de uma academia destinada aos profissionais, são outras das propostas para o triénio 2026-2028. Tornar o Dão um destino enoturístico apetecível é outro dos objectivos inscritos no programa, cuja aposta incide no incremento da venda directa do vinho na adega, no sentido de gerar valor imediato para o produtor.

No currículo, Manuel Pinheiro soma a presidência da Comissão Vitivinícola da Região dos Vinhos Verdes com a função de Secretário-Geral, seguida da de Presidente da ANDOVI – Associação Nacional das Denominações de Origem Vitivinícola Portuguesas, bem como o cargo de Vice-Presidente do Conselho Europeu Interprofissional do Vinho.

Os novos órgãos sociais da CVR do Dão serão apresentados no dia 23 de Janeiro.

 

GRANDE PROVA: No Dão, os brancos vão na frente

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A região do Dão, delimitada na primeira leva de demarcações do séc. XX, ainda em monarquia, desde cedo se caracterizou por ser uma região polivalente, tanto de brancos como de tintos. Ao contrário de outras regiões então também demarcadas, como Bucelas, que apenas estava vocacionada para vinhos brancos, em terras beirãs os brancos e os […]

A região do Dão, delimitada na primeira leva de demarcações do séc. XX, ainda em monarquia, desde cedo se caracterizou por ser uma região polivalente, tanto de brancos como de tintos. Ao contrário de outras regiões então também demarcadas, como Bucelas, que apenas estava vocacionada para vinhos brancos, em terras beirãs os brancos e os tintos cresceram lado a lado, um pouco ao sabor das modas. Hoje todos falam que há um crescente interesse nos vinhos brancos um pouco por todo o país, mas nem sempre foi assim. A flutuação de mais brancos ou mais tintos dependeu sempre das modas e dos gostos. Em resumo, ainda hoje depende do mercado.
Esta região, como quase todas as outras do país, cresceu associada a um certo modelo vínico, gerando sobretudo vinhos de lote onde se combinavam as várias castas que a região conhecia.
Antigamente os lotes eram feitos na vinha, sobretudo nas mais velhas, em que o plantio se fazia a eito ou, a partir dos anos 60, por parcela de castas mas sempre jogando no lote final com o contributo de diversas variedades. Assim era o Dão, e também por isso nós não conhecemos vinhos varietais antes dos anos 90 do século passado. Apenas as experiências do Centro de Estudos de Nelas, nomeadamente com Encruzado e Touriga Nacional, nos ajudam na busca de vinhos de casta.
Os anos 90 trouxeram uma verdadeira revolução, com novas experiências, novos produtores, novas adegas, novos conceitos. Nesse sentido, o Dão de hoje é tributário desses pioneiros onde encontramos a Quinta da Pellada, Quinta dos Carvalhais, Quinta dos Roques, Casa de Santar ou Casa da Ínsua, só para citar alguns. Foi então que os consumidores se familiarizaram com os vinhos de Encruzado e os varietais das tintas Touriga Nacional, Tinta Roriz, Alfrocheiro e Jaen, nomes até então ausentes do léxico dos apreciadores.

O Dão ganhou enorme prestígio na “família” dos vinhos brancos à custa da Encruzado. É uma variedade enigmática que ali nasceu e dali não parece querer sair.

 

Encruzado sim, mas…

Segundo os dados mais recentes fornecidos pela CVR do Dão, as castas brancas ocupam 1950 ha, o que corresponde a cerca de 21% dos encepamentos. Dentro das brancas, as mais plantadas são a Malvasia Fina (27,28%), a Fernão Pires (19,90%), a Encruzado (12,83%) e a Bical com 12,57%. Seguidamente, e num registo mais contido, temos a Branda (8,56%), Cerceal-Branco (2,30%), Uva-Cão (1,14%) e Gouveio e Rabo de Ovelha, ambas com 1,11%.

O Dão ganhou enorme prestígio na “família” dos vinhos brancos à custa da Encruzado. É uma variedade enigmática que ali nasceu, e dali não parece querer sair, uma vez que não tem grande apetência por viagens e, noutras regiões, dá resultados apenas satisfatórios. Os consumidores começaram a ouvir falar de Encruzado nos anos 90, tornando-se quase sinónimo de vinho branco do Dão, a casta considerada emblemática da região, uma espécie de porta-estandarte. Não é, porém, uma uva totalmente consensual entre os profissionais, sendo mais difícil de domar do que à primeira vista se poderia pensar. Porquê? Porque os vinhos Encruzado nascem pouco faladores, pouco expressivos em termos aromáticos e, por isso, precisam de ser acarinhados para poder crescer bem. Manuel Vieira (enólogo na empresa Caminhos Cruzados) afirma que “pelo facto de os vinhos da casta serem pouco expressivos em novos, há quem lhes dê um tom forçadamente aromático logo à nascença, com aromas tropicais, algo que rejeito completamente; a Encruzado precisa de tempo e só com a evolução em garrafa é que finalmente mostra as suas virtudes e a madeira (bem integrada) pode ter aí um papel importante”.

Já a enóloga Patrícia Santos (Quinta da Alameda, Primado, entre outros produtores) não é tão efusiva com a Encruzado. Segundo nos disse, “reconheço-lhe a plasticidade para diferentes formas de vinificação e estágio, mas acho que não é uma casta excelente. Não tem, por exemplo, a excelência de uma Alvarinho. Continuamos à procura e tenho estado a trabalhar a Uva-Cão onde encontro grande potencial de qualidade”. Ambos os enólogos são pouco entusiastas das castas também muito plantadas na região, como a Malvasia Fina e a Bical. Para lotes sim, como varietais nem por isso.

Uma visita a uma garrafeira de grande superfície mostra-nos que há imensos brancos do Dão a preço muito acessível, não sendo por isso aceitável que se diga que os vinhos são caros.

 

Brancos de excelência

Ainda assim, actualmente uma prova de brancos do Dão tende naturalmente a incidir em vinhos de Encruzado, ainda que, no nosso caso, tal não tinha sido imposto aos produtores a quem solicitámos amostras. O que pudemos verificar é que as escolhas de vinhos a enviar foram bem diversas e com critérios que apenas os próprios produtores poderão definir: tivemos vinhos mais novos, outros com mais idade, varietais e de lote, com madeira evidente e sem ela presente e com uma tremenda flutuação de preços indicativos.
Conclui-se, assim, que pode não ser muito fácil criar um padrão, um modelo de branco que se possa dizer sem rebuço: isto é um branco do Dão! De qualquer forma, há um elemento que percorre e unifica todos os brancos, independentemente do modelo escolhido. Refiro-me à acidez que estes vinhos sempre apresentam, associada a um brilho, uma elegância e uma proporção que é notável e é traço indicativo da região.

Aqui também se procuram novos modelos, novos horizontes para os vinhos brancos. Uma visita a uma garrafeira de grande superfície mostra-nos que há imensos brancos do Dão a preço muito acessível, não sendo por isso aceitável que se diga que os vinhos são caros. No entanto, como pedimos aos produtores que enviassem o melhor que tinham ou o que entendiam que melhor representava a orientação vínica da quinta ou empresa, os preços dos vinhos deste painel são em geral elevados. A região ganha com isso, é elevando o patamar que o Dão pode ganhar prestígio. Mas os tempos vão difíceis para vinhos mais caros e esse facto torna muito exigente o esforço de cada produtor para se afirmar, quer interna, quer externamente.

Acreditamos que, independentemente do modelo vínico escolhido, o branco tem de ser uma bandeira, tem de representar a região. Ora isto pode acontecer, independentemente do preço e, por isso, alguns vinhos de preço acessível estão aqui muito bem classificados e outros, bem mais caros, se quedaram por classificações mais modestas.
A conclusão final é muito fácil: estamos a falar de uma das melhores regiões do país para gerar vinhos brancos muito originais, a tal região que um winewriter americano apelidou de “A Borgonha dos vinhos portugueses”. Vamos assinar por baixo.

(Artigo publicado na edição de Junho de 2025)

 

Adega de Penalva: Um exemplo diferenciador

Adega de Penalva

Olhando para um passado com quase 65 anos cumpridos, a Adega de Penalva podia ser apenas mais uma das cooperativas surgidas com o eclodir do fenómeno, no final dos anos 50 do século passado. Fundada em 1960 por 43 associados, conta atualmente com mais de 950 sócios e uma capacidade de vinificar mais de 12 […]

Olhando para um passado com quase 65 anos cumpridos, a Adega de Penalva podia ser apenas mais uma das cooperativas surgidas com o eclodir do fenómeno, no final dos anos 50 do século passado. Fundada em 1960 por 43 associados, conta atualmente com mais de 950 sócios e uma capacidade de vinificar mais de 12 milhões de litros, processando, por ora e em média, sete milhões de quilos de uva por ano. O crescimento nos vinhos engarrafados ganha cada vez maior preponderância na economia desta Adega, correspondendo hoje a mais de dois milhões de garrafas/ano, com um crescimento anual de cerca de 10%, algo notável e em contraciclo com a realidade atual do setor. A única quebra sentida pela cooperativa nos anos mais recentes é no bag-in-box, crendo-se que por influência malévola da entrada em Portugal de vinhos oriundos da UE, especialmente de Espanha, a preços absolutamente incomportáveis para uma cooperativa que privilegia a qualidade no mercado.

Perante a dimensão destes números, podíamos ser tentados a imaginar que nesta Adega vale sobretudo o grande volume. Contudo, tal como nos produtores médios ou de menor dimensão, todo o processo inicia-se com um cuidado muito especial na vinha, sendo a sua permanente vigilância e peregrinação quase diária, prática perfeitamente enraizada no diretor de enologia da Adega, António Pina.

A dimensão média das propriedades por associado rondará os cinco e sete hectares, havendo, entre destes, alguns com mais de 15 ou 20 hectares. Não descurando ninguém, a Adega também recebe uva daqueles que não possuem mais de três ou quatro mil metros quadrados. Na campanha de 2024 foram cerca de 650 os associados que entregaram uva, estando muitos em processo de renovação das vinhas.

No total, a Adega recebe uva de uma área correspondente a 1100 hectares de vinha, estendidas entre os municípios de Penalva do Castelo, Satão e Mangualde.

De todo o modo, mais de 80% das vinhas situam-se no concelho de Penalva do Castelo. Em Satão, em parcelas de maior altitude e, consequentemente, mais frescas, predominam as castas brancas, com principal destaque para o Encruzado, que beneficia da composição dos solos mais graníticos, alcançando ali uma maior acidez e frescura. No concelho de Mangualde já não predomina tanto o granito. Os solos caracterizam-se por serem mais vermelhos, maioritariamente argilosos, ideais para tintos robustos e concentrados, nomeadamente de Touriga Nacional, que ali encontra condições para uma maior maturação.

QUINTA DA VINHA VELHA

Com cerca de 12 hectares, a Quinta da Vinha Velha bem pode ser apresentada como o “andar modelo” das propriedades com que trabalha a Adega. É nela que existe uma das mais significativas áreas de vinhas velhas, muitas delas com mais de 50 anos, tendo as parcelas mais recentes já cerca de 40 anos. O notável, nesta belíssima propriedade, foi mesmo o modo como se segmentaram, há mais de cinco décadas, as parcelas por castas, plantando-se cada uma delas tendo em conta a composição do solo, a maior ou menor exposição e, naturalmente, a sua aptidão para mais precoces ou tardias maturações. A exposição é encantadora, com toda a vinha a beneficiar dos dias soalheiros do nascer ao pôr do sol.

É aqui e nas áreas limítrofes, numa zona que forma um anfiteatro voltado a Sul, para a serra da Estrela, que se encontra o coração das vinhas que abastecem a Adega de Penalva, numa manta de retalhos e parcelas monovarietais rodeadas de florestas e mato, elemento da paisagem que confere, aos vinhos, uma marca de identidade muito própria, muito Dão no seu estado mais puro.

AS CASTAS DE PENALVA

Neste lado do Dão, Jaen e Tinta Roriz levam a dianteira na área de vinha, logo seguidas da Touriga Nacional, Tinta Pinheira e Alfrocheiro, esta com tendência a diminuir.

A Touriga Nacional é a casta que mais cresce no plantio na região do Dão. Nas vinhas da região e nas propriedades dos associados da Adega, as tintas ainda são quem mais ordena, superando com larga vantagem as uvas brancas, cabendo, às primeiras, 80% do encepamento e apenas 20% às brancas. Nas preferências de vinificação, pela sua enorme identidade varietal e expressão da região, surgem a Tinta Pinheira e o Alfrocheiro, curiosamente as mais sensíveis à podridão e, por isso, nem todos os anos possuem a qualidade que se exige à coleção dos monovarietais da Adega. As brancas são escassas. O mercado pede-as cada vez mais, e há necessidade de incentivar a produção, aumentando-a, pelo menos, em 10%, como refere José Clemente, presidente da Adega e ele próprio viticultor, cuja experiência e conhecimento muito têm beneficiado a cooperativa.

O classicismo, e até algum conservadorismo da região, provoca o receio nos produtores de plantar mais uva branca, presumindo que a tendência que hoje se verifica possa ser tão-somente uma moda e, como todas as modas, meramente passageira. Como o Encruzado não é uma casta muito produtiva e, por isso, não muito apetecível para o agricultor, a Adega bonifica a uva, pagando um valor mais elevado ao quilo. Nas tintas há também uma maior bonificação da Tinta Pinheira, Alfrocheiro e Touriga Nacional, desde que atinjam os níveis de cor desejados e grau alcoólico. A Adega regozija-se de pagar a uva a preços acima da média, como refere José Clemente com justificado orgulho e, em contrapartida, os associados tratam a vinha com denodo, entregando a matéria-prima de qualidade que permite criar os vinhos mais diferenciados da Adega, como são os monovarietais brancos e tintos.

A Baga é um curioso caso no universo da Adega de Penalva. De casta mais plantada no Dão no século XIX, tornou-se cada vez mais rara na região, sendo hoje residual e surgindo somente nas vinhas muito velhas, algumas centenárias. O cadastro das vinhas inicia-se a partir de 1930. E é a partir desses registos que se constata que, à data, a Baga compunha cerca de 20% de todo o encepamento do Dão. O seu arranque foi uma inevitabilidade provocada pela alteração do critério de pagamento ao viticultor. Se antes era pela quantidade e, aí, a Baga mostrava-se apetecível porque era muito produtiva, aquando da alteração para o pagamento por teor alcoólico, deixou de ser tão atrativa porque apresentava sérios problemas de maturação quando era deixada uma carga muito elevada na videira. É nessa altura que se dá o despontar da Touriga Nacional, antes conhecida como Tourigo ou Touriga Antiga, muito mais atraente às boas maturações e produções substanciais, sobretudo a partir da sua seleção clonal, ocorrida nos anos 80. A partir daí a Baga começa a ser arrancada e substituída por castas tintas de maturação equilibrada para vindima mais precoce. Não está fora das cogitações da Adega fomentar o plantio da Baga, não obstante a sua fragilidade à podridão, equacionando-a na elaboração de espumantes, uma vez que a Malvasia Fina, com que são elaborados os topos de gama em Método Clássico da Adega, começa a sofrer de uma constante e gradual perda significativa de acidez, razão pela qual os mais recentes espumantes já beneficiam da introdução do Encruzado e Uva-Cão.

Outra casta que está a merecer especial atenção da enologia é o Cerceal-Branco, que traz uma frescura muito surpreendente, revelando um comportamento que, quase sempre, se superlativiza em relação ao Encruzado. Do mesmo modo, assiste-se a um renascimento do Bical, no Dão conhecida como Borrado das Moscas, cuja potenciação é realizada através de novos conceitos de vindima e vinificação.  Esta é, já hoje, vindimada em duas fases: uma mais precoce, com cerca de 11% de teor alcoólico provável e, mais tarde, uma segunda vindima com índices de maturação mais elevados, criando-se, a partir daí, um blend que beneficia da frescura incisiva do mosto da primeira vindima e da exuberância aromática e doçura da segunda, encontrando o vinho o melhor de dois mundos.

ESTUDAR CASTAS AUTÓCTONES

A vertente do estudo profundo das castas é uma prática deixada pelo antecessor de António Pina, o Prof. Virgílio Loureiro, que criou, no seu pupilo, essa vontade de elevar o conhecimento. Pina é natural de Penalva do Castelo, tendo realizado o seu primeiro estágio na Adega em 2008. Seguiu-se depois a passagem por projetos de menor dimensão e, já em 2017, é convidado a regressar à Adega. A par dos vinhos de maior envergadura que constituem o grosso da produção da Adega, é seduzido pelo exaustivo estudo dos solos, parcelas e castas, numa constante busca pela afirmação de cada uma delas, gostando de as trabalhar isolada e parcelarmente, de modo a descobrir o local mais perfeito para a maturação qualitativa de cada uma. A mesma casta tem, em solos distintos e altitudes diferentes, um comportamento diferente. Encontrar o local ideal para cada uma demorou vários anos e há sempre novas descobertas e conclusões vindima após vindima.

O projeto dos monovarietais Adega de Penalva nasce em 2016. E, desde aí, tem-se desenvolvido e ampliado, com diferentes castas a surgirem em novas referências.

Essencial para a produção de uva de qualidade e elaborar os vinhos monovarietais que tanta notoriedade têm trazido à Adega, é a equipa de monitorização. É aqui que também surgem reticências de alguns viticultores, avessos a novas tendências e ao controlo, por parte de terceiros, do modo como promovem os cuidados e tratamentos das suas vinhas. Mas a maioria dos viticultores já está recetiva a seguir as demandas da Adega, consciente que o resultado de um maior acompanhamento técnico, e de base mais científica, é benéfico para alcançar a produção de uva mais sã. Tem sido fundamental a colaboração de proximidade, até a nível da própria sustentabilidade, eliminando-se tudo o que é nocivo para os solos. Naturalmente, isso tem custos acrescidos e a Adega cumpre essa responsabilidade ambiental com a valorização dessa uva. Dentro dos associados já há cerca de 60 hectares em produção biológica, outra das bandeiras hasteadas por José Clemente e António Pina.

O dia-a-dia da Adega de Penalva também é feito de novidades! Tinta Amarela e Tinta Carvalha são as mais recentes descobertas no encepamento da Quinta da Vinha Velha e já estão em curso experiências de vinificação, podendo sair delas novas e boas surpresas. Provado foi ainda um rosado de Malvasia Roxa, casta existente em ínfimas quantidades nas vinhas velhas que possui, como característica, uma uva de cor roxa esbatida. Dá origem a mostos naturalmente rosados, mesmo após prensagem e maceração. Um aturado e exaustivo processo de pesquisa deu também origem a uma curiosidade traduzida em 1000 litros de vinho, vinificado ao longo de quatro anos. É isto que, hoje, melhor caracteriza uma Adega que se desprendeu de um passado monolítico para se afirmar numa contemporaneidade que deve ser um exemplo nacional.

Nota: o autor escreve segundo o novo acordo ortográfico.

(Artigo publicado na edição de Abril de 2025)

Casa de Santar: Entre nobres vinhas

Casa de Santar

A presença humana nestes territórios perde-se na memória dos tempos, remontando ao neolítico o cultivo agrícola e a pastorícia. A terra convidava a “assentar”, a criar laços comunitários. Afinal, são os solos mais produtivos da Beira, dotados de condições excecionais para o plantio da vinha, dada a qualidade dos solos e abundância de água. Hoje, […]

A presença humana nestes territórios perde-se na memória dos tempos, remontando ao neolítico o cultivo agrícola e a pastorícia. A terra convidava a “assentar”, a criar laços comunitários. Afinal, são os solos mais produtivos da Beira, dotados de condições excecionais para o plantio da vinha, dada a qualidade dos solos e abundância de água.
Hoje, é a maior mancha contínua de vinha da região do Dão que nos surge defronte dos olhos na nobre e histórica Vila de Santar. São mais de 110 hectares de vinhedos que se estendem por um vale encimado pela Vinha dos Amores e Alto dos Amores. É nesta parcela da Vinha dos Amores que nascem os mais exclusivos vinhos da Global Wines, proprietária também da Quinta de Cabriz e Paço dos Cunhas de Santar, no Dão, da Quinta do Encontro, na Bairrada, e da Herdade do Monte da Cal, no Alentejo.
Com recentes mudanças na direção de enologia, agora liderada por Paulo Prior, bairradino oriundo do Centro de Vinificação da Sogrape, em São Mateus, Anadia, e, na direção comercial, com Nuno Abreu, que deixou a Sogevinus para se juntar ao grupo sedeado em Carregal do Sal, sopram novos ventos em Santar, ainda que refreados pelo cariz clássico a que a marca se impõe, tendo, nessa conceção, a principal forma de afirmação no mercado nos últimos anos.

A VINHA DOS AMORES COMO CHANCELA

A Vinha dos Amores surge no promontório Norte de uma propriedade que se estende por mais de 100 hectares. Do alto, a uma cota de 400 metros, a vinha estende-se por 13,5 hectares, num ligeiro declive com exposição a Norte, o que a torna a mais valiosa parcela da Casa de Santar.
O seu crescimento foi progressivo, como foi progressivo o seu plantio, iniciado em 1997 e apenas terminando em 2017. Ali, as parcelas vão sendo divididas por setores, priorizando as características dos solos à escolha das castas com maior potencial para cada um dos talhões. Estamos no coração do Dão e, vai daí, o encepamento destaca as duas grandes castas atuais da região: a Touriga Nacional, nas tintas, e a Encruzado, nas brancas, sendo estas as mais relevantes nos vinhos de exceção de Santar.
A Alfrocheiro começa a surgir timidamente nas contas da Casa de Santar. É nas cotas mais elevadas, sobretudo no Alto dos Amores, que ela melhor se expressa, beneficiando da altitude e da maior exposição à influência da Serra da Estrela, que se ergue frondosa a Sul de Santar.

Apesar de se ter expandido para Sul, estendendo-se às regiões do Alentejo, Tejo e Palmela, é no Dão que encontra o seu território natural. Não obstante ser uma uva vigorosa e muito produtiva, carece de cuidados frequentes e atentos, dada a sua propensão natural ao oídio e podridão cinzenta. Nesta região, é-lhe reconhecida a elegância, cor bastante acentuada e um notável equilíbrio entre álcool, taninos e acidez, conferindo, aos vinhos, uma frescura que tantas vezes está ausente nos vinhos mais estruturados e densos do Dão. Aromaticamente, funde-se no território e na envolvência, fazendo sobressair os aromas a bagas silvestres e nuances de mato rasteiro.
São essas características que Paulo Prior pretende que se tornem mais evidentes nos vinhos nascidos no Alto dos Amores, encontrando-se em curso um trabalho de estudo dos stocks de vinhos da casta existentes na Casa, de modo a encontrar algo que se diferencie e possa vir a aumentar, com uma dotação qualitativa, a família das referências especiais Vinha dos Amores, podendo mesmo ir além de mais que uma vertente. Aguardemos pelo que o futuro nos reserva…
Afinal, não tem sido despicienda a influência da casta nos vinhos das terras de granito nos últimos mais de 150 anos, crendo-se que a sua disseminação com êxito tenha ocorrido nas replantações pós-filoxera. Nos anos 90 do século passado, a casta ganha um evidente estrelato, e inicia um caminho ascendente de popularidade junto de um conjunto de produtores regionais, entre os quais a Casa de Santar.

 

“…a Alfrocheiro pode aportar maior complexidade cosmopolita aos vinhos, em detrimento da concentração clássica.”

 

O novel enólogo de Santar está consciente de que não haverá nenhum movimento disruptivo no classicismo dos vinhos, hoje reconhecidos e com uma marca forte nos mercados nacional e internacional. Contudo, o mundo continua a girar e os movimentos que buscam perfis de maior leveza, elegância, profunda frescura e menor presença de álcool não podem ser descurados. E, aí, há uma forte crença que, a par da Touriga Nacional, a Alfrocheiro pode aportar maior complexidade cosmopolita aos vinhos, em detrimento da concentração que se impôs nas últimas décadas.

“Hoje, é a maior mancha contínua de vinha da região do Dão que nos surge defronte dos olhos na nobre e histórica Vila de Santar.”

 

O TERRITÓRIO E A SUSTENTABILIDADE

O dito terroir da Vinha dos Amores, crê Paulo Prior, é, por si próprio, um fator de diferenciação que, por isso mesmo, deve ser potenciado de modo diferente dos restantes vinhos da chancela Casa de Santar.
A exposição, a barreira elevada e o declive protegem a Vinha dos Amores das geadas de inverno sob forte influência da Serra, do mesmo modo que também a preservam da inclemência das elevadas temperaturas do Verão, uma vez que beneficia de menos horas de exposição direta ao sol. São condições que lhe beneficiam o equilíbrio da maturação, dando origem a mostos mais ricos, profundos e complexos.

As cotas mais elevadas são definitivamente relevantes, do mesmo modo que o é toda a envolvência e proteção das três serras que circundam Santar: Estrela, Caramulo e Bussaco. A composição de solos – arenosos com pouca retenção de água, algum xisto e maioritariamente granito – não valida a retenção de água, forçando as raízes a penetrarem os solos a maior profundidade, buscando a matéria orgânica e nutrientes que escasseiam. A mecanização e a rega monitorizada colmatam a pobreza dos solos.
A sustentabilidade, aqui, é muito mais que um chavão de retórica. Hoje, uma exigente auditoria, realizada de modo independente por cinco empresas, confere à Global Wines, Sociedade Agrícola de Santar, que detém a Casa de Santar e Paço de Santar, sediadas no Dão, Quinta do Encontro, na Bairrada, e Herdade Monte da Cal, no Alentejo, o referencial nacional de sustentabilidade. Esta certificação nacional vem demonstrar que todas cumprem os requisitos legais relacionados com os domínios da sustentabilidade, designadamente, gestão e melhoria contínua, e contribuem ativamente para o bem-estar social, económico e ambiental das comunidades envolventes e das diferentes regiões onde atuam.

 

“…o encepamento destaca as duas grandes castas atuais da região: a Touriga Nacional,nas tintas, e a Encruzado, nas brancas,…”

 

Este Referencial Nacional, criado pelo Instituto da Vinha e do Vinho (IVV) e promovido pela ViniPortugal, abrange, neste caso, a produção total de 235 hectares (165ha no Dão, 67ha no Alentejo e 3ha na Bairrada). Um novo selo de sustentabilidade irá ser brevemente adotado nas rotulagens das marcas Casa de Santar, Paço dos Cunhas de Santar, Cabriz, Quinta do Encontro e Herdade Monte da Cal, o que, para o consumidor, representa uma garantia de que estão implementadas práticas sustentáveis em todas estas organizações e marcas do universo Global Wines.
Hoje já é comum observarem-se, pelos vinhedos de Santar, enormes rebanhos de ovelhas que, no âmbito da produção integrada, fazem o corte da erva das entrelinhas de um modo rudimentar, nivelam as leguminosas ali semeadas, com a vantagem de ainda contribuírem para a nutrição dos solos.

Com o encepamento das tintas a representar 65% das vinhas e as brancas 35%, a realidade da Casa de Santar estende-se hoje muito para além da Touriga Nacional e Encruzado. O passado está bem presente nas 20 castas existentes, em produção ou ensaios que visando reabilitar variedades quase extintas e recuperar aquelas que já tiveram grande preponderância na região, como é o caso da Baga. Santar vinca a altitude e atitude de continuar, na mudança, a criar os vinhos mais nobres do Dão.

Nota: o autor escreve segundo o novo acordo ortográfico.

(Artigo publicado na edição de Janeiro de 2025)

Quinta da Perdonda: Paulo Nunes (e amigos) entregam-nos Dão e mais Dão

Perdonda

Ainda que sem a pujança que a região merece (sendo esta, naturalmente, uma opinião estritamente pessoal), o Dão tem registado um crescente número de novos produtores, muitos deles focados na qualidade e num posicionamento estratégico alto. De uma década para cá, vimos nascer ou consolidar projetos como Taboadella, MOB, Textura, Quinta da Lomba e, mais […]

Ainda que sem a pujança que a região merece (sendo esta, naturalmente, uma opinião estritamente pessoal), o Dão tem registado um crescente número de novos produtores, muitos deles focados na qualidade e num posicionamento estratégico alto. De uma década para cá, vimos nascer ou consolidar projetos como Taboadella, MOB, Textura, Quinta da Lomba e, mais recentemente, Domínio do Açor. E, antes destes, mas não tão distante, assistimos também ao renascimento da Quinta da Passarella que, em conjunto com dezenas de produtores implantados na região desde os anos 80 e 90, formam um significativo acervo de qualidade vínica. Mais recente ainda é o produtor Quinta da Perdonda, cuja figura principal é Paulo Nunes, enólogo que também oficia na já referida Quinta da Passarella, bem como noutros produtores de Trás-os-Montes ao Alentejo, passando pelo Douro e Bairrada.

Perdonda, palavra de pronunciamento arrevesado, quererá significar “pedra redonda”, não escondendo assim a sua origem na sub-região da Serra da Estrela, conhecida pelos solos graníticos, recortados por parcelas de floresta e pedras de grande dimensão. A propriedade é sita mais concretamente em Paços da Serra, entre Seia e Gouveia, com maior proximidade para esta última, um dos lugares mais a este da região vínica (mais a este e com maior altitude só existe pasto). Mais do que uma quinta propriamente dita, pelo menos no estado desprotegido em que os sócios a encontraram, falamos de uma pequena propriedade de quatro hectares a 700 m de altitude, quase toda em encosta.

Com solos relativamente férteis e predominância para os típicos graníticos da região, tem a particularidade de estes virem, a espaços, em barro, ou seja, e simplificando (não entrando nos detalhes da dimensão das partículas do solo), verdadeiras argilas graníticas. A existência de muita água em redor da propriedade é uma mais-valia, diz-nos o enólogo e produtor, garantindo que, assim, as vinhas estarão, no futuro, bem adaptadas ao aquecimento global cada vez mais sentido na região. Por falar em vinhas, estas remontam a 1948, data da plantação do talhão (n.º 1) com vinhas mais velhas. Também no que toca às castas, a diversidade é a palavra chave, encontrando-se, nos brancos, Barcelo, Semillon, Fernão Pires e Uva Cão, e, nos tintos, muita Jaen, Baga e Tinta Amarela, entre muitas outras brancas e tintas.

A propriedade foi comprada em 2016 com mais dois sócios: Paulo Pinheiro (dono do restaurante Casa Arouquesa em Viseu) e Francisco Batista. De lá para cá, e aos poucos, tem vindo a ser reconstruída a adega (os primeiros vinhos foram vinificados em produtores vizinhos), e tudo indica que a colheita de 2024 já será vinificada na nova adega que conta com cinco pequenos lagares, um por cada parcela ou talhão na quinta. Com efeito, a propriedade, apesar de pequena, com três hectares de vinha, tem cinco talhões todos diferentes – ao nível da altitude, do solo, o ano de plantação, e até do encepamento (uns com mais Baga, outros com mais Jaen e Tinta-Amarela) – tornando-se essencial vinificá-los em separado para melhor ir conhecendo o potencial de cada um. Em comum, todos os talhões têm uma mesma característica, que é a presença de muita uva branca, chegando a um máximo de quase 20%. Para já, provámos dois tintos de 2018 e dois brancos de 2020, todos muito promissores. Uma descoberta!

*  Este autor escreve segundo o acordo ortográfico

(Artigo publicado na edição de Outubro de 2024)