MALTA: PATRIMÓNIO VINHATEIRO, HISTÓRICO E GASTRONÓMICO

Malta

Malta é um pequeno arquipélago situado no coração do Mar Mediterrâneo constituído por três ilhas habitadas: Malta (a maior e principal), Gozo e Comino. Apesar do seu tamanho reduzido, o país possui uma densidade histórica impressionante, tendo sido influenciado e ocupado por fenícios, romanos, árabes, normandos e, mais tarde, pelos Cavaleiros da Ordem de São […]

Malta é um pequeno arquipélago situado no coração do Mar Mediterrâneo constituído por três ilhas habitadas: Malta (a maior e principal), Gozo e Comino. Apesar do seu tamanho reduzido, o país possui uma densidade histórica impressionante, tendo sido influenciado e ocupado por fenícios, romanos, árabes, normandos e, mais tarde, pelos Cavaleiros da Ordem de São João. Trata-se, portanto, de um verdadeiro ponto de encontro de civilizações, que depois de muitos séculos, se converteu numa mistura cultural que se reflete na arquitetura, na gastronomia, nas tradições… e, claro, na produção vitivinícola, que ocupa um lugar cheio de dignidade e identidade.

Mas vamos por partes, até porque, nesta viagem, o tempo desdobra-se em camadas neste território privilegiado do Mediterrâneo, onde a vinha e o vinho malteses fazem parte de uma narrativa única.

 

Castas nativas e um terroir singular

Fenícios e romanos foram os primeiros a introduzir o cultivo da videira no arquipélago, enquanto os Cavaleiros de São João consolidaram a produção de vinho durante a sua presença na ilha de Malta. E apenas a partir do final do século XX, a indústria vitivinícola começou a modernizar-se, focando-se mais na qualidade do que na quantidade.

Nas vinhas, compostas por parcelas de dimensões exíguas, as castas nativas e raras são fortemente preservadas. São elas a Girgentina (branca), que potencia a produção de vinhos leves, frescos e com notas cítricas, e a Ġellewża (tinta), que dá origem a vinhos frutados, suaves e de corpo médio. A tendência atual na ilha de Malta consiste em combinar estas variedades locais com as internacionais, como Syrah, Merlot e Chardonnay, para produzir vinhos equilibrados, sem desvirtuar a identidade mediterrânica.

As especificidades estendem-se à viticultura de Malta. Os solos são predominantemente calcários e argilosos, formados por antigas rochas marinhas, o que os torna altamente alcalinos, conferindo, aos vinhos, um perfil mineral diferenciador; enquanto a forte exposição solar e a baixa pluviosidade dá lugar a um clima quente, seco e ventoso. Se, por um lado, estas condições climáticas são aliadas dos produtores de Malta na fase da maturação das uvas, por outro, condicionam o rendimento por videira. No entanto, o resultado não podia ser maior: os vinhos são aromáticos, concentrados, apresentam boa estrutura e revelam personalidade. E são a companhia perfeita para a ftira – pão crocante, a base que une a combinação de ingredientes locais, como tomate, azeitonas, alcaparras, atum e anchovas -, recentemente reconhecida como Património Cultural Imaterial pela UNESCO, bem como para o fenek moqli (coelho refogado) e para os pastizzi, pastéis de massa folhada recheados com ricota ou ervilhas, além da enorme variedade de frutos do mar frescos.

Malta
Ta’Betta Wine Estates

Valletta e as adegas centenárias

A chamada produção de boutique faz com que grande parte dos vinhos de Malta seja conduzida, raramente, para o mercado exterior. Serve esta realidade para promover a experiência cultural aliado ao turismo enológico e, ao mesmo tempo, fomentar a crescente importância do enoturismo. Há pretexto maior para efetuar um roteiro vitivinícola?

Valletta é o ponto de partida. A capital de Malta surge entre a pedra dourada e o Mar Mediterrâneo. Fundada no século XVI pelos Cavaleiros de São João, conserva o estilo barroco entre ruas estreitas e praças que se abrem para o porto, com destaque para a Concatedral de São João, onde estão expostas duas obras-primas de Caravaggio. Património Mundial da Humanidade pela UNESCO desde 1980, acolhe os Jardins Upper Barrakka, com vista para o Grande Porto e as Três Cidades.

Para lá de Valletta, está a adega familiar mais antiga, a Delicata Winery. Fundada em 1907, enaltece o seu trabalho com produtores locais, contribuido para o reconhecimento do vinho maltês além-fronteiras. A segunda paragem faz-se na Marsovin Winery. Fundada em 1919, esta casa é tida como uma das grandes referências do vinho maltês. As suas vinhas e castas autóctones definem o vinho que ‘nasce’ diretamente do solo.

 

Pré-história e vitícola contemporânea

O percurso continua pelo património pré-histórico: os Templos de Tarxien, com relevos de animais e espirais nos altares, Hagar Qim, aberto para o mar e famoso pelas suas esculturas de Vénus, e Mnajdra, o templo com mais de 5.000 anos. A viagem prossegue pelo pelos templos de Ta Hagrat, que ostentam uma visão mais íntima das primeiras comunidades humanas de Malta, em Mgarr. Muito perto dali, em Zebbiegħ, os templos de Skorba conservam vestígios de antigas cabanas neolíticas.

Ainda há tempo para visitar a Meridiana Wine Estate, que dá a conhecer uma leitura contemporânea da produção de vinho em Malta. A adega tem promovido, desde os anos 90 do século XX, uma produção mais premium, precisa e cuidada, com uma identidade distintivamente mediterrânica.

Sob a cidade de Paola, está o Hipogeu de Hal Saflieni. Classificado como Património Mundial da Humanidade pela UNESCO, é descrito como um complexo subterrâneo escavado na rocha, constituído por três níveis e que se estende por câmaras, corredores e salas, cuja função continua envolta em mistério.

 

Malta
fenek moqli

 

No sul da ilha de Malta

Mdina, a antiga capital de Malta, conhecida como “A Cidade do Silêncio” e clasificada de Património da Humanidade pela UNESCO, é um dos tesouros mais bem preservados do mundo. Fundada pelos fenícios por volta do ano 700 a.C. e, posteriormente, fortificada pelos romanos e pelos árabes, testemunhou a passagem de diversas civilizações. Exemplos a explorar? A Catedral de São Paulo, um ícone barroco, e o Palácio Vilhena, onde está instalado o Museu Nacional de História Natural. Das muralhas, a vista alcança a paisagem maltesa e o mar Mediterrâneo.

Na lista de produtores de referência, localizados no lado sul da ilha de Malta, constam duas adegas: a Ta’Betta Wine Estates e a Markus Divinus. A primeira, situada em Girgenti, nos limites de Siġġiewi, foi criada em 2002 e aposta grandemente na produção de vinhos com grande potencial de envelhecimento, bem como no enoturismo. A segunda, com localização próxima dos Dingli Cliffs, é considerada uma adega boutique, cuja produção anual é de cerca de 6.000 garrafas, abrindo caminho para a exclusividade e na presença em hotéis de luxo e restauração de topo.

Malta

Gozo e a cultura enológica

Mais verdejante e tranquila, a ilha de Gozo denota uma envolvente paisagística dominada por colinas suaves e pela ruralidade. É uma verdadeira viagem no tempo, onde os Templos de Ggantija, datados de cerca do ano 3600 a.C., constituem um dos conjuntos megalíticos mais antigos do mundo.

Neste cenário encontra-se a Ta’ Mena Estate, uma propriedade familiar com uma abordagem baseada na ligação entre a produção e o território, oferecendo uma experiência de enoturismo profundamente enraizada na paisagem de Gozo. Há ainda a Tal-Massar Winery, uma adega familiar que recupera tradições antigas e produz vinhos de topo, incluindo licorosos elaborados através do método de ‘appassimento’.

De um modo geral, além das provas de vinho personalizadas e visitas a caves e adegas, no arquipélago de Malta, o enoturismo tem evoluído para a criação de wine libraries e de experiências gastronómicas ligadas à cultura local.

Para fechar em grande, fica a nota do evento anual destinado aos amantes do vinho, o Malta International Wine Festival, que decorre, em junho, nos Jardins Argotti, em Floriana. Um cenário histórico que, durante vários dias, oferece uma seleção de vinhos locais e internacionais, harmonizados com propostas gastronómicas e acompanhados por música ao vivo. Uma oportunidade perfeita para descobrir a diversidade, a qualidade e a hospitalidade associadas ao vinho maltês.

(Mais informação em: Wineries & Vineyards)

 

ENOTURISMO: HERDADE DAS SERVAS

Herdade das Servas

O Alentejo apresenta-se como o guardião de mais de 20 000 hectares de vinha e é constituído por oito sub-regiões concentradas no interior da região. Caracterizado pelo clima mediterrâneo, é conhecido pelos verões quentes e secos. As amplitudes térmicas variam, com as sub-regiões de Portalegre e da Vidigueira a registarem noites mais frescas comparativamente às restantes, […]

O Alentejo apresenta-se como o guardião de mais de 20 000 hectares de vinha e é constituído por oito sub-regiões concentradas no interior da região. Caracterizado pelo clima mediterrâneo, é conhecido pelos verões quentes e secos. As amplitudes térmicas variam, com as sub-regiões de Portalegre e da Vidigueira a registarem noites mais frescas comparativamente às restantes, cujos registos vão dos extremos no que ao calor diz respeito, com noites de temperaturas mais altas, nas sub-regiões de Moura e Granja-Amareleja, a moderadas, nas sub-regiões de Évora, Reguengos, Redondo e Borba.

Como complemento, os solos ora são xistosos, como acontece no sul do Alentejo, sobretudo na transição para as zonas ribeirinhas, ora são graníticos, com Portalegre, Évora e Reguengos a ganhar pontos no que toca à especificidade desta matéria. Já as zonas mais planas são tomadas pelos solos argilocalcários, com os mármores a predominar de forma gradual a sub-região de Borba.

É precisamente na sub-região de Borba que está o foco desta peça, mais concretamente em Estremoz, concelho do distrito de Évora, no Alentejo Central, o qual ocupa uma área que ultrapassa os 500 quilómetros quadrados. Está limitado pelos concelhos de Sousel (distrito de Portalegre), a noroeste, de Arraiolos, a oeste, de Évora e Redondo, a sul, de Borba, a nascente, e de Monforte (distrito de Portalegre), a nordeste. É constituído por 13 freguesias. O mar de vinhas estende-se por aproximadamente 2 000 hectares e é tido como o concelho que reúne o maior número de produtores de vinho de toda a região alentejana: 22 adegas.

Herdade das Servas
Lagares em granito

Património alentejano

Antes de chegar à entrada da Herdade das Servas, impera uma revisão geral a respeito do património gastronómico de um Alentejo pleno de sabor e diversidade. Tamanha riqueza se estende por tão grande território, onde o peixe inunda as casas do litoral, ao passo que a carne domina o interior. Sopa de cação, sopa de tomate, sopa de beldroegas, gaspacho, açorda à alentejana, sargalheta, a imensidão de migas, cabeça de xara, carne de porco à alentejana, ensopado de borrego, pezinhos de porco de coentrada, burras assadas no forno e cozida à alentejana são alguns dos exemplares culinários que, a cada palavra nos faz crescer água na boca.

Acresce a época de caça, com a perdiz, a lebre, o coelho e o javali a protagonizar empadas, feijoadas e arrozes caldosos, assim como os enchidos, nomeadamente de porco alentejano, e os queijos. Sem esquecer o pão alentejano, acima de tudo aquele que ainda é feito no forno a lenha, nem as plantas aromáticas, como os coentros, o poejo, os orégãos ou hortelã da ribeira.

Do convento para as casas das famílias, muito se faz à base de ovos, amêndoas e gila. Neste alinhamento, é de destacar o pão de rala, as queijadas de Évora, o pudim de água de Estremoz, o gadanha, a sericaia, a encharcada, o bolo fidalgo, os rebuçados de ovo, a boleima, o porquinho doce ou a enxovalhada.

Paralelamente, o vinho desempenha um papel importante à mesa. Entre a frescura e a complexidade atribuídas comummente às referências vínicas de Portalegre e Vidigueira e o encorpado outorgado a uma grande parte da lista do Alentejo, passando pelos clássicos, há uma enorme diversidade à escolha neste mundo quase sem fim à vista, já que é de incluir, aqui, os vinhos de talha – muito embora não constem no portefólio da casa que se segue. Importa ainda realçar a lista de castas partilhadas pelos vinhos DOP (Denominação de Origem Protegida) Alentejo e IGP (Indicação Geográfica Protegida) Alentejano: Aragonez, Castelão, Trincadeira, Alfrocheiro, Alicante Bouschet, Cabernet Sauvignon, Carignan, Grand Noir, Moreto e Tinta Caiada.

Herdade das Servas
Luís Serrano Mira e Renato Neves

Porquê o enoturismo?

Da Estrada Nacional 4, via de comunicação que atravessa longitudinalmente o Alentejo Central, com a cidade de Estremoz ao fundo, os olhos recaem nos vinhedos que tomam conta da paisagem. À medida que avançamos para lá do portão, cedros altos pontilham o caminho empedrado de acesso ao casario da Herdade das Servas, projeto fundado em 2001.

Estamos na freguesia de São Bento do Ameixial. Aqui, “o enoturismo foi implementado logo no início, em 2001”, avança Luís Serrano Mira, proprietário da Herdade das Servas, projeto esse que começou a ser objeto de reflexão em 1997. As idas à loja e as visitas marcam os primeiros passos rumo ao sucesso, o fundamento para a integração, em 2008, de uma pessoa dedicada ao ofício do enoturismo. Volvidos três anos, passa a haver três elementos destinados a receber e guiar visitantes, bem como efetuar provas vínicas e, em 2013, abre o restaurante. A justificação para apostar nesta atividade ligada ao turismo é dada sem hesitar: “nasci no vinho. Por isso, viajava muito com os meus pais para tanto lado.”

Todos estes roteiros permitiram que Luís Serrano Mira conhecesse in loco projetos focados nesta atividade turística e, ao mesmo tempo, experienciar o profissionalismo indissociável a este contexto. Espanha, Itália, França, entre outros países da Europa cabem no roteiro enoturístico descoberto na companhia dos pais. A solo, o nosso anfitrião viajou até aos Estados Unidos, África do Sul, Argentina, Chile, Uruguai, Paraguai, Brasil… O enoturismo era já uma realidade quando avança com a Herdade das Servas. “Sempre pensei neste projeto com visitas. Aliás, para mim era primordial, porque se não mostrarmos o que fazemos, dificilmente conseguimos uma proposição da nossa marca”, sublinha. Por conseguinte, o enoturismo está aberto todos os dias do ano, com a exceção do 25 de dezembro. A procura é feita substancialmente por visitantes nacionais a somar a brasileiros, norte-americanos, holandeses, alemães e escandinavos.

 

Jardim de vinhas

“Adaptamos o discurso de acordo com a pessoa que está à nossa frente e ao solicitado”, responde o nosso anfitrião, pois é comum receberem produtores ou clubes internacionais que solicitam provas mais técnicas. “Recebe o Renato [Neves, o enólogo] ou, por vezes, recebo eu.” Com efeito, a Herdade das Servas é casa de bem-receber, arte digna de enaltecimento e a preservar, ou não fosse o profissionalismo o reflexo de desvelo e cortesia.

A visita começa na vinha do jardim, implantada entre o edifício e o miradouro da propriedade. É composta por um quarteto de variedades brancas e outro tanto de tintas, respectivamente, Encruzado, Roupeiro Verdelho e Arinto; Touriga Nacional, Trincadeira, Aragonez e Alicante Bouchet. A diferença entre as folhas serve de registo de diferenciação no que às castas diz respeito, como se de “uma impressão digital” se tratasse, nas palavras de Luís Serrano Mira.

O passeio prossegue para o miradouro, contíguo a esta pequena mostra, para observar uma parte das vinhas da propriedade, já que, na Herdade das Servas, estas ultrapassam os 70 hectares. A agricultura regenerativa (ver caixa) é o tema da atualidade na Herdade das Servas. As perguntas vão surgindo e as respostas são dadas prontamente. Quem manifestar interesse em pôr os pés na vinha, para se inteirar mais sobre este ou outro assunto, é claramente bem-vindo. Afinal, no Alentejo o tempo é tido como um aliado a cada momento que passa.

Os três elementos da equipa de enoturismo partilham a história da família Serrano Mira, cuja ligação ao mundo vitivinícola remonta a 1667. A data está gravada em duas talhas guardadas no interior do edificado. Ambas foram o ponto de partida para uma aprofundada investigação sobre o histórico dos antepassados do proprietário, dando origem ao livro A história da vinha e do vinho no Alentejo – Legado de uma família a produzir desde 1667 e à criação do símbolo adaptado para a identidade da casa. “É importante, para nós, este lado familiar e do legado”, reforça o nosso anfitrião, que nos conduz à adega, cujo desenho inicial foi pensado no sentido de ser visitada “e que houvesse um fluxo de entrada e saída”, ou seja, “não entramos e saímos pelo mesmo sítio”, informa.

Centro interpretativo na adega

Chegados a este espaço, onde o bulício das vindimas já se faz sentir no presente mês de julho, somos incentivados a descobrir detalhes acerca dos 350 hectares de vinha de sequeiro integrada no universo da Herdade das Servas. Para o efeito, há oito pontos interativos correspondentes às vinhas da Herdade das Servas e da Louseira, no concelho de Estremoz, assim como as do Azinhal, da Cardeira Velha (de 1972 e onde estão plantados 13 hectares da casta Carignan, de génese espanhola), da Cardeira Nova, do Clérigo (com uma vinha de 10 hectares datada de 1940) e de Pêro Lobo, em Orada, no concelho de Borba, enquanto o correspondente à Vinha da Judia, em Orada, permanece em atualização, pois esta “está em transformação”. Este esclarecimento imersivo surgiu com “a necessidade de explicar às pessoas as oito vinhas diferentes, porque, ou dispunham de um dia para as visitar ou nós passaríamos a explicá-las aqui”, esclarece o nosso anfitrião, ou não estivesses as vinhas dispersas entre os concelhos de Estremoz e Borba.

Em cima de cada um destes postos, está disposto um recipiente em vidro com uma mostra dos respectivos solos. Entre as características mais comuns, constam os tons vermelhos e amarelos, derivados do xisto. Todos estão dispostos numa espécie de corredor, do qual visualizamos os lagares em granito, onde a pisa a pé é igualmente posta em prática por visitantes que queiram experienciar este momento. Mas já lá vamos.

Segue-se a explicação inerente ao processo de vinificação das uvas na adega e os equipamentos disponíveis para o efeito. Rotulagem a engarrafamento também fazem parte dos procedimentos. Quanto ao volume, a produção vínica oscila muito. Luís Serrano Mira justifica esta diferença com o facto de 80% das vinhas estar em sequeiro. Portanto, “depende do ano, se é mais chuvoso ou menos chuvoso”. Durante a visita, são visíveis equipamentos muito antigos, outrora utilizados na vinificação das uvas.

 

Biblioteca vínica

Já na cave, de tetos arqueados, colunas grossas e chão de pedra escura, a luz ténue torna este espaço subterrâneo ainda mais intimista. Todos os vinhos que repousam em barricas são provados com o rigor de um mestre, tarefa à qual se junta Luís Serrano Mira. O mesmo sucede com os vinhos elaborados nas cubas de inox. No mesmo piso, mas mais à frente, está aquela que o proprietário da Herdade das Serras chama de biblioteca.

“Aqui estão os livros que fomos escrevendo e vamos lendo os capítulos daquilo que é a obra, e percebendo se ela está ajustada no tempo. Para mim, é muito importante que os vinhos transponham o tempo. É uma forma que tenho de ver o vinho. Gosto que sejam bons no momento em que são lançados, mas também gosto que sejam bons daí a uns anos. Para isso, é importante perceber o que fizemos e o potencial que tiveram no tempo”, declara o nosso anfitrião, para descrever a enoteca da propriedade. Dentro deste espaço, estão expostas peças associados à cultura da vinha e do vinho, como tesouras de poda, serrotes, um saca-rolhas com mais de 200 anos, saca-rolhas de bancada. A colheita mais antiga é de 1999.

 

Alentejo à prova… e não só

O término da visita acontece na sala de prova e loja, onde é dado início à experiência dotada pelo olfato e pelo paladar. Pão alentejano, paio e painho de porco alentejano, queijo regional, tosta de pão alentejano enchidos e compota vão à mesa a pedido. Tantos os enchidos como o queijo são selecionados por Luís Serrano Mira, um entusiasta dos produtos do Alentejo.

Iguarias à parte, faça-se à “Prova cega” ou entre “De corpo e alma” na Herdade das Servas, para conhecer melhor cinco referências deste universo alentejano. A condução de ambas é acompanhada pela explicação. Nada de novo, diria, mas se o visitante revelar interesse em comprar vinho para lá do provado, logo se abre a oportunidade de experimentar um ou outro, para dissipar a decisão. Para quem prefere um reportório mais alargado e mais profundo, a escolha recai na “Seleção do enólogo”. Para um momento mais demorado, é de eleger a “Winegrowing Legacy com harmonização”, a realizar, de preferência, na esplanada. A seleção dos vinhos baseia-se na produção da casa – seja na Herdade das Servas, seja na Casa da Tapada, propriedade vitivinícola da Serrano Mira situada no concelho de Amares, em território dos Vinhos Verdes – e está associada a vários patamares de valores, com o propósito de abranger vários públicos.

Nas vindimas, a pisa pé permanece na lista de atividades da Herdade das Servas. Ao contrário do que acontecia anteriormente, em que os visitantes vestiam um fato-macaco e calçavam botas, para realizar esta tarefa, hoje essa indumentária é substituída pela t-shirt e os calções, por forma a simplificar a logística. Mas “são devidamente higienizados”, avança o nosso anfitrião.

Memória de sabores

Ter o tempo como um aliado é mais do que uma virtude nesta região onde o vagar é atributos, pois vale a pena esquecer o compasso dos ponteiros do relógio, para entrar no Legacy Winery Restaurant, ali mesmo ao lado. Outrora amplamente primado pela gastronomia tradicional alentejana, quis o proprietário fechar as portas deste espaço, para o submeter a obras de fundo, desde a cozinha à reformulação da sala.

A reabertura acontece em 2022, sob o nome Legacy Winery Restaurant. “Antigamente, tínhamos mesas de dez pessoas, hoje temos mesas para duas pessoas”, informa. Atualmente, a ocupação da sala é de 52 lugares acrescidos pelos 24 disponíveis na esplanada. A cozinha é de cariz alentejano, “mas com uma aproximação ao fine dining” sem purismos, mas com muito sabor, pois “insistimos no lado regional”, declara.

Nas carnes, predomina o porco de raça alentejana e a carne bovina Alentejana. Os pratos de caça é outra das sugestões mais recomendadas do restaurante, com os croquetes de javali e o escabeche de perdiz a conquistar o olhar atento – e, depois, o estômago – dos apreciadores de boa comida. A proeza tem um nome, Ricardo Gonçalves, que, com saber, seleciona a matéria-prima, implementa a confeção e envolve texturas em cada prato, com o intuito de elevar os sabores da cozinha alentejana. Não se perde tempo, para saborear o arroz cremoso de javali, as bochechas de novilho estufadas e as plumas de porco alentejano. Entretanto, há quem deite os olhos na desconstrução de bacalhau à Brás, sugestão a ir à mesa numa próxima viagem.

Claramente que a ementa vai para além destas propostas de inspiração alentejana, a qual se estende às sobremesas. É o caso do célebre pudim de água de Estremoz, confecionado a preceito e que merece a atenção dos nossos sentidos, e da boleima de maçã, típica do Alto Alentejo. Fora de horas, está disponível a ementa de petiscos a comer na companhia de vinho a copo, por exemplo, da Herdade das Servas ou da Casa da Tapada. Há, portanto, boas razões para regressar.

 

 

Pela regeneração e pelo biológico

A vontade de implementar a agricultura regenerativa resulta de uma vontade partilhada por Luís Serrano Mira e Renato Neves. Segundo o enólogo, que faz parte da equipa da Herdade das Servas desde 2022, a agricultura regenerativa é tomada como uma espécie de “cuidado paliativo” em prol da restituição da vida dos solos. Para o efeito, estes têm de permanecer cobertos a maior parte do tempo, de modo a que fiquem protegidos da erosão causada pelo sol e pelo vento. “Neste momento, o coberto vegetal já está a mudar. Já estão a aparecer plantas mais espontâneas, mais locais”. Estas espécies cresceram, ativaram os solos e começaram a gerar biomassa. Objetivo? Contribuir para o aparecimento da matéria orgânica. Em simultâneo, a água passou a ficar retida e há a constante necessidade de equilibrar os níveis de carbono e azoto nos solos. “Quando há necessidade de mais carbono, compramos melaço de cana-de-açúcar e pulverizamos juntamente com micróbios” e “quando os cortes são em seco, pulverizamos com aminoácidos – extrato de algas, extrato de lã”, para compensar os níveis de azoto. “Simulamos como se estivesse a ser pastoreado e a regeneração é natural.”

Entretanto, já depois da supressão total dos fitofármacos, em 2024, deu-se o início ao período de conversão para modo de produção biológico dos 350 hectares de vinha do universo da Herdade das Servas. A partir da vindima de 2027, o vinho desta adega passa a biológico.

No entanto, estas alterações interfiram com o marcador epigenético das plantas. Renato Neves explica: “os nossos genes não mudam, mas podem ser silenciados. É como o botão do volume, com o qual podemos aumentar ou diminuir o volume.” Ou seja, “quando se aplica constantemente pesticida nas plantas, os genes que estão associados ao sistema imunitário vão sendo silenciados. Por isso, nos anos de transição, as plantas não sabem o que hão de fazer”. Face a este cenário, há uma quebra na produção de uva, tal como aconteceu em 2024, ano em que “a transição foi mais brusca”.

Com a passagem do tempo, e face ao “desmame” de tratamentos fitossanitários, as plantas começam a ativar as próprias defesas. Para acelerar essa atuação, é aplicado um tratamento com levedura saccharomyces ainda viva. O propósito é despertar o sistema imunitário da planta, como se de uma vacina se tratasse. “A planta vai sentir um ataque e produz metabolismos secundários para lutar contra algo. No fundo, queremos que a vinha se mantenha alerta”, sublinha.

 

Herdade das Servas

 

CADERNO DE VISITA

Comodidades e Serviços

Línguas faladas:  Português, Inglês e Espanhol

Loja de vinhos: 12 lugares

Restaurante: 32 lugares

Esplanada de rua: 24 lugares

Sala de prova: 12 lugares

Sala de Reuniões: 10 lugares

Provas comentadas: Por marcação

Wifi gratuito disponível: Sim

Visita às vinhas: Sim

Visita à adega: Sim

 

Eventos

Eventos corporativos: Sim (min 12 pax/ max 50pax)

Atividades team building: sim ou não e nº de pessoas (mínimo e máximo) – Sim (min 12 pax/ max 50pax)

 

Programas e experiências

Visita Simples

À vinha do jardim, adega e cave sem prova de vinhos

Preço: €6

 

De corpo e alma

Visita à vinha do jardim, adega e cave, com prova de cinco vinhos: Capela da Tapada, Monte Servas branco, Herdade Servas branco, Monte Servas tinto e Herdade Servas tinto

Preço: €18

 

Prova cega

Visita à vinha do jardim, adega e cave, com prova cega de quatro vinhos.

Mínimo: 2 pax

Preço: €25

 

Seleção do enólogo

Visita à vinha do jardim, adega e cave, com prova de seis vinhos: Casa da Tapada Superior, HS Sangiovese rosé, HS Reserva branco, HS Sem Barrica tinto, HS Reserva tinto e HS Vinhas Velhas tinto

Preço: €30

 

Winegrowing Legacy (com harmonização)

Visita à vinha do jardim, adega e cave, com prova de seis vinhos: HS Sangiovese rosé, HS Reserve branco, HS Vinhas Velhas branco, HS Reserve tinto, HS Parcela C tinto e HS Parcela V

Mínimo: 2 pax

Preço: €65

 

Harmonização

(disponível para todas as provas)

Paio e painho de porco alentejano, um queijo regional, tostas de pão alentejano

Preço: €16

 

Programas Especiais

Pisa a Pé

(disponível apenas na época das vindimas)

Visita à vinha do jardim, adega e cave, pisa a pé em lagares de mármore, prova de vinhos com harmonização, oferta de uma garrafa de vinho

Mínimo: 2 pax

Preço sob consulta

 

Um dia na Herdade das Servas

Passeio a cavalo pela Herdade das Servas, visita à vinha do jardim, adega, cave e lagares de mármore, prova de vinhos com harmonização, almoço ou jantar com menu de degustação

Mínimo: 2 pax

Preço sob consulta

 

Horários de visita disponíveis

10h30 e 12h00 (manhã)

15h30 e 17h00 (tarde)

 

Notas e recomendações

Recomenda-se a marcação prévia;

As visitas em exclusivo e programas personalizados, estão disponíveis mediante consulta;

Caso haja rutura de stock de algum dos vinhos, o mesmo será substituído por um equivalente.

 

Legacy Winery Restaurant

Inverno e verão das 12h30 às 15h00 e das 19h30 às 22h00

(encerra à quarta e à quinta-feira, e domingos à noite)

 

Reservas

Enoturismo

Horário: de segunda-feira a domingo, das 10h00 às 19h00

E-mail: enoturismo@serranomira.pt

Tel.: 268 322 9490

 

Legacy Winery Restaurante

E-mail: legacy@serranomira.pt

Tel.: 268 098 080

Contactos:

Herdade das Servas

EN 4 KM 136,4, 7100-600 S. Bento do Ameixial, Estremoz

www.herdadedasservas.com

pr@serranomira.pt

Tel.: 268 322 949

(Artigo publicado na edição de Julho de 2026)

PARQUE TERRA NOSTRA: O princípio do belo

TERRA NOSTRA

Desta vez, convido-vos a embarcar numa viagem no tempo pelo Parque Terra Nostra, o mais belo retiro a céu aberto que visitei até hoje. Curiosamente, as três ocasiões em que o explorei ocorreram durante as estações assinaladas pelo solstício: verão e inverno. Em qualquer uma delas, foi notável a exuberância do inhame plantado junto à […]

Desta vez, convido-vos a embarcar numa viagem no tempo pelo Parque Terra Nostra, o mais belo retiro a céu aberto que visitei até hoje. Curiosamente, as três ocasiões em que o explorei ocorreram durante as estações assinaladas pelo solstício: verão e inverno. Em qualquer uma delas, foi notável a exuberância do inhame plantado junto à ponte, logo após a entrada. Sabia que se trata de uma planta altamente resistente aos fungos? Do lado oposto, os tanques contíguos de água férreas ficam mais bonitos no estio, época em que os nenúfares preenchem de cor este curso hídrico.

Sem mais delongas, eis o momento de contemplação do tanque de água termal, pois a visita a este jardim centenário ficou refém do cronómetro. Caso contrário, teria ido a banhos em dia de chuva intermitente, proeza justificada pela temperatura da água, que oscila entre os 37 e 40º C. Avancemos! Pedro André Silva, o guia, chama a atenção para as majestosas araucárias, árvores que conferem o misticismo bucólico a este cenário, a par com o carvalho-roble plantado na década de 1780, além dos tulipeiros, com a floração a dar o ar da sua graça entre maio e julho. Ao fundo, está o Botania Hall, o alojamento complementar do Terra Nostra Garden Hotel, originalmente chamada de Yankee Hall e, mais tarde, de Casa do Parque.

Rumo às bromeliáceas, o percurso leva-nos parque adentro, com passagem próxima dos lagos situados numa cota mais baixa em relação à referida villa. Afinal, as Bromélias são uma das cinco coleções deste jardim secular. Nativas do sul da América, estas plantas estão numa pequena clareira recriada numa pequena elevação de terra, já que a irrigação não se faz através do solo, mas sim por meio das folhas, que retêm o orvalho. Desta mostra, faz parte o ananaseiro, que dá origem a um dos frutos mais famosos do arquipélago. Ao lado, o jardim de flora endémica e nativa dos Açores, que fazem parte da região da Macaronésia, representativo de uma exposição ancestral. Dois passos adiante, está a coleção de cycadales, constituída por 88 espécies exóticas. A origem remonta ao período Jurássico e não há como deixar de conquistar pela dupla de “fósseis vivos”, assim denominados, por não evoluírem há milhões de anos. Memorável é também a coleção de camélias, a qual fundamenta o título “Internactional Camellia Garden of Excellence” atribuído ao Parque Terra Nostra. As flores grandes, que vão do branco ao vermelho, passando por diferentes tons rosa, emprestam cor a este enorme jardim, onde uma ínfima parte do solo da alameda ladeada por 47 ginkgos preserva as folhas douradas destes gigantes da natureza.

O mirante, designado de O Açucareiro, devido à forma que ostenta, é outro dos lugares a constar na viagem. Dali são visíveis as esculturas zoomórficas esculpidas pelas mãos de Fernando Costa, o jardineiro chefe, com a destreza de um mestre. Sem, esquecer as grutas, onde o canal de água serpenteante remete para os passeios de outrora, em pequenas embarcações ao estilo britânico, o Vale dos Fetos, com duas centenas de espécies diferentes, duas das quais endémicas, ou o lago de águas vulcânicas, próximo da reta final da visita.

Muito ficou por explorar nesta viagem pelo Parque Terra Nostra, habitat de mais de 1.800 exemplares botânicos específicos distribuídos por 12,5 hectares, resultante de um trabalho iniciado há mais de 200 anos e firmado na preservação deste que é o mais belo refúgio da ilha de São Miguel, nos Açores.

TERRA NOSTRA

Parque Terra Nostra

Largo Marquês da Praia e Monforte, 9675-061 Furna, São Miguel, Açores

E-mail: terra.nostra@bensaude.pt

Tel.: 296 549 090

Bilhete geral: €17

Nota: Visitas histórias e botânicas são feitas por um valor adicional

 

BEST OF WINE TOURISM: O Roteiro de excelência

Enoturismo

No âmbito da rede internacional Great Wine Capitals, a Câmara Municipal do Porto passou a promover, a nível regional, a distinção dos melhores projectos de enoturismo nas regiões do Porto, Douro e Vinhos Verdes. Trata-se dos Best Of Wine Tourism, que já vão na 24ª edição, abrangendo áreas como “Alojamento”, “Arquitectura e paisagem”, “Experiências inovadoras”, […]

No âmbito da rede internacional Great Wine Capitals, a Câmara Municipal do Porto passou a promover, a nível regional, a distinção dos melhores projectos de enoturismo nas regiões do Porto, Douro e Vinhos Verdes. Trata-se dos Best Of Wine Tourism, que já vão na 24ª edição, abrangendo áreas como “Alojamento”, “Arquitectura e paisagem”, “Experiências inovadoras”, “Práticas sustentáveis em Enoturismo”, “Serviços de Enoturismo”, “Arte e cultura” e “Experiências gastronómicas”. Eis o ponto de partida para um roteiro de dois dias pelas duas regiões vitivinícolas acima referidas, para dar palco a cinco dos sete reconhecidos promotores, que se destacam pela capacidade de conciliar tradição e inovação, autenticidade e criatividade, bem como sustentabilidade e qualidade, tanto nas infraestruturas e nos serviços que disponibilizam, como no impacto positivo gerado no território e nas comunidades locais.

Enoturismo
Enoturismo Casa do Santo

 

O projecto de arquitectura da Casa do Santo Wine & Tourism cria diálogo entre a paisagem e a escala humana

 

Arquitectura sublime

A primeira paragem foi a Casa do Santo Wine & Tourism, localizada em Provesende, no concelho de Sabrosa, no Douro, galardoada na categoria “Arquitectura e Paisagem”. Esta distinção é mais do que um prémio, é um sinal dos tempos e, talvez, uma medida do que hoje se exige a quem constrói em territórios com história. Na mais antiga região demarcada do mundo, onde a beleza não foi desenhada num gabinete, mas lavrada pela mão do Homem ao longo de séculos, a arquitectura não pode chegar como quem impõe. É projetada por quem compreende que o lugar não é cenário, é organismo vivo.

Há edifícios que, com o devido respeito e inteligência, revelam a paisagem, funcionando como uma moldura silenciosa e a Casa do Santo Wine & Tourism impõe-se como uma espécie de manifesto que propõe um ensaio concreto sobre como habitar a paisagem sem a ferir. Afinal, um excelente projecto de arquitectura integrado não compete com a vinha, com o xisto, com a linha das encostas. Cria um diálogo harmonioso entre a paisagem e a escala humana, evitando o excesso e, ao mesmo tempo, oferece a panorâmica natural do lugar. No Douro, onde a luz muda a cada curva e o horizonte é sempre uma promessa, essa pertença é ética.

O desenho contemporâneo encontra aqui materiais que parecem ter surgido ali: a pedra confunde-se com muros antigos; a madeira envelhece com dignidade, as grandes superfícies envidraçadas enquadram a paisagem sem pudor. Lá dentro, a decoração é depurada, quase monástica e moderna, obrigando o olhar a deixar-se conquistar pelas vinhas e encostas, pelo horizonte.

Quando a arquitectura se integra, transforma-se em ponte, ligando o visitante ao território. Nesse sentido, a Casa do Santo Wine & Tourism surge como caso de estudo sobre o que o enoturismo pode ser quando assume a responsabilidade de se tornar um vector de requalificação do território. O projecto parece responder a uma pergunta tão simples quanto exigente: é possível construir sem dominar? Aqui, o visitante sente que não está numa “unidade turística”, mas num lugar em que o tempo se traduz num investimento, que nos faz sentir parte desta paisagem. Por isso, esta distinção importa. Porque um projecto bem inserido na paisagem é também um gesto de sustentabilidade, não apenas energética ou material, mas também cultural, pois preserva o património, o sentido do lugar, a identidade. Num tempo em que tantos destinos se parecem uns com os outros, a verdadeira inovação pode ser esta, a de criar sem ferir, acolher sem descaracterizar, modernizar sem apagar.

Em suma, a melhor arquitectura é aquela que perdura no tempo, como se estivesse estado sempre ali, como algo simultaneamente discreto e necessário. E quando isso acontece, não é só um edifício que vence, é o território que se afirma com dignidade e é o futuro que se constrói com memória.

 

O almoço na Quinta do Bomfim é o argumento exemplar de que a gastronomia está em sintonia com os vinhos

 

Inovação em profundidade

Da contemplação arquitectónica passei para a experiência e a mudança foi como atravessar uma porta dentro da própria região do Douro. A Vesúvio & Bomfim Experience, vencedora na categoria “Experiências Inovadoras em Enoturismo”, confirma uma tendência clara: hoje já não basta visitar, é preciso mergulhar. A distinção diz muito sobre a direcção que o enoturismo está a tomar e sobre o que o Douro pode oferecer quando se decide ir para além do óbvio.

A chegada à Quinta do Bomfim, no Pinhão, é, por si só, um primeiro gesto de imersão. Entra-se numa história longa, onde os socalcos traçam o rio, o rio desenha o tempo e a propriedade se organiza à volta dessa memória sedimentada. Mas criar experiências verdadeiramente inesquecíveis exige curadoria, ritmo, narrativa, detalhe. Exige uma hospitalidade que saiba conduzir sem apressar, explicar sem cansar, surpreender sem distrair.

É precisamente aqui que a Quinta do Bomfim se destaca. A inovação surge na forma como reconstrói a relação do visitante com a história do Vinho do Porto e com a própria ideia de “quinta do Douro”. O percurso pelas caves, pelos lagares e pelos espaços de trabalho é projectado como um relato coerente, em que passado, presente e futuro aparecem como camadas sobrepostas. Ou seja, a modernização tecnológica não apagou a tradição, apenas afinou a sua precisão, e essa perceção devolve origem ao vinho e contextualiza o que está no copo.

Quando uma experiência é verdadeiramente inovadora, consegue-se que o visitante não “consuma” o lugar, mas sinta que pertence a ele por instantes, como se o território, por um momento, o adoptasse. Na Quinta do Bomfim, essa pertença constrói-se de corpo inteiro: o passo na vinha, a textura do xisto, o vento que atravessa a encosta, o silêncio antes da prova, o aroma que chega antes do copo. A inovação manifesta-se na ligação entre cada elemento, através da interpretação do território. E quando o enoturismo interpreta bem, está a ensinar.

O almoço, que em outros contextos poderia ser apenas pausa, aqui é o argumento exemplar de que a gastronomia está em sintonia com os vinhos. Cada prato parece pensado para revelar uma textura, uma acidez, um tanino, como se a mesa fosse um laboratório de harmonias e a conversa fosse parte do terroir. Num tempo em que tantos destinos desafiam e chamam a atenção, o que distingue um lugar não é a quantidade de ofertas, mas a qualidade da experiência, e, acima de tudo, a capacidade de gerar memórias autênticas. Uma experiência imersiva é aquela que nos faz esquecer o relógio, que, dias depois, ainda nos devolve imagens, cheiros e emoções, como se o Douro permanecesse dentro de nós.

No fundo, a Vesúvio & Bomfim Experience simboliza uma viragem no enoturismo enquanto arte de contar histórias verdadeiras, e a distinção reforça a importância da experiência que persiste, como se de um grande vinho de tratasse: revela-se aos poucos, prolonga-se e deixa-nos melhores do que éramos antes de chegar. Adorei!

 

Na Quinta do Ventozelo sustentabilidade é responsabilidade, é a decisão de cuidar a paisagem

 

Sustentabilidade, uma forma de estar

Da emoção para a consciência, o périplo levou-me à Quinta do Ventozelo, localizada em Ervedosa do Douro, no concelho de São João da Pesqueira, premiada na categoria “Práticas Sustentáveis em Enoturismo”. Esta distinção confirma a ideia de que o Douro não existe futuro para o vinho, nem para o turismo, sem uma relação madura com a terra. Aqui, sustentabilidade é responsabilidade, é a decisão de cuidar a paisagem que confere a identidade deste território e garantir que a experiência de hoje não rouba a beleza de amanhã.

Durante a viagem, a estrada desenha curvas, como se estivesse a escrever à mão um poema sobre o Douro e, quando se entra na propriedade sente-se o acolhimento: um território amplo, mas organizado como um pequeno mundo coerente, onde cada escolha parece responder a uma pergunta: como permanecer sem esgotar? Num tempo em que o viajante procura cada vez mais significado, o enoturismo deixa de ser apenas visita e prova, para se tornar encontro com valores. E é precisamente aí que a Quinta do Ventozelo se afirma: em ancorar a hospitalidade no território, na cultura agrícola, no equilíbrio do ecossistema e no respeito pelas comunidades.

O projecto materializa a sustentabilidade em várias escalas. Há uma dimensão visível e imediata: a recuperação de edificações tradicionais, a forma como cada alojamento se encaixa na paisagem, a atenção aos materiais e à eficiência energética. Mas há também o cuidado com a biodiversidade, a gestão da água, a relação com as comunidades e as práticas agrícolas, que incidem no respeito pelo ritmo da natureza.

Um projecto sustentável não se mede apenas por técnicas e certificações, mede-se pela coerência entre o que se promete e o que se pratica. E, para ser transformadora, a sustentabilidade tem de ir além da eficiência: tem de gerar experiência. É nessa ponte entre ética e encantamento que nasce a evidência de que a paisagem é entendida como um sistema vivo e as práticas sustentáveis estruturam as experiências ao ritmo das estações. O visitante é convidado a entrar numa lógica de lugar, onde o conforto não apaga a origem e a experiência não se constrói à custa do território.

À mesa, os produtos locais ganham centralidade, como afirmação de um ecossistema que envolve vinhas, olivais, pomares e gentes. E à noite, a dimensão sensorial torna-se quase pedagógica, pois dormir na Quinta do Ventozelo “de forma celestial” não é retórica. A noite é verdadeiramente escura, o céu densamente estrelado e o silêncio tem peso. O lugar lembra, com uma simplicidade rara, que sustentabilidade é uma forma de estar.

Afinal, hoje, o luxo verdadeiro é poder estar num lugar que se mantém inteiro é poder viver uma experiência que não termina na partida, mas fica.

Dormir no coração da natureza

Já em plena região dos Vinhos Verdes, entra-se por um verde exuberante, onde as vinhas coexistem com vegetação mais espontânea, dando ao lugar um ar de refúgio, como acontece com a Quinta do Ameal. Vencedora na categoria “Alojamento”, esta propriedade localizada no Vale do Lima, confirma uma evidência do enoturismo contemporâneo: dormir bem é habitar o território. Num destino, onde a paisagem parece sempre recém-lavada pela luz e pela água, o alojamento de excelência transforma a visita num tempo prolongado, onde o vinho se torna uma experiência completa.

É nesse contexto que o alojamento mostra o seu verdadeiro alcance, oferece vista, tempo, cuidado e, com isso, prepara o visitante para uma relação mais profunda com o lugar. E, na Quinta do Ameal, essa proposta faz-se sem ostentação. O alojamento revela uma elegância afinada. Os espaços traduzem recolhimento, com os quartos a abrirem para o verde, salas a convidar à leitura, percursos a ligar o edificado ao campo. O contacto com a natureza é permanente.

A combinação de serviços de qualidade permite uma experiência memorável, com o bem-receber sem formalismos, o foco na mediação cultural e vínica, e a capacidade de desenhar percursos, provas e momentos que respeitam o ritmo de quem chega. Ou seja, no enoturismo, a excelência não está apenas no que se oferece, mas na forma como se conduz à descoberta.

 

A Quinta do Ameal prepara o visitante para uma relação mais profunda com o lugar

A Quinta do Ameal distingue-se ainda por fazer do património e da paisagem parte integrante da experiência, com a arquitectura, o jardim, a vinha e o rio a protagonizarem um diálogo, que convida o visitante a entrar na narrativa. A prova de vinhos confirma essa coerência e os vinhos expressam uma ideia muito concreta de lugar, com destaque para frescura, verticalidade, nervo. Não é apenas degustação, é também tradução de um território, que permite o visitante perceber a origem.

Neste contexto, importa sublinhar que, na Quinta do Ameal, se devolve profundidade ao simples através de um passeio entre vinhas, que ensina a ler o solo e o clima, de uma prova feita com tempo e explicação, um momento de mesa que respeita a origem dos produtos, uma conversa que liga o vinho às pessoas e à história. porque o enoturismo mais marcante é aquele que nos faz sentir parte de um lugar, nem que seja por uma noite.

 

Os serviços de enoturismo na Quinta da Torre são desenhados com um rigor quase cirúrgico

 

Hospitalidade em narrativa

O périplo terminou na Quinta da Torre, em Monção, na região dos Vinhos Verdes, vencedora na categoria “Serviços de Enoturismo”, uma distinção que serve de bandeira para um aspecto decisivo, mas tantas vezes

subestimado: o serviço não é um “extra”. É a arquitectura invisível do encontro entre o visitante e o território. Num mundo onde quase tudo é replicável, a excelência no enoturismo passa igualmente pela hospitalidade, definida pela capacidade de construir um produto turístico compósito, integrado, onde visitas, provas, loja, percursos, momentos de interpretação do território e eventuais ligações à gastronomia e à cultura, se organizam como capítulos de uma mesma narrativa. Porque o visitante não procura apenas “coisas para fazer”, procura uma história para viver e um lugar para explorar e compreender.

Na Quinta da Torre, essa narrativa tem uma base natural poderosa, a paisagem vínica. O desenho bucólico é beleza e identidade. É aqui que o serviço de excelência se torna indispensável, porque ensina a observar por meio de palavras apoiadas em cultura, conhecimento e continuidade. Os serviços de enoturismo na Quinta da Torre são desenhados com um rigor quase cirúrgico: percursos claros, informação consistente, uma equipa que combina conhecimento técnico com capacidade de tradução para linguagem acessível. Fala-se de castas, solos, microclimas, vinificação, mas sem o peso académico. Essa é uma forma rara de hospitalidade, sem impressionar com jargão, mas abrindo as portas para a curiosidade.

Por isso, criar experiências inovadoras aqui não significa encher o programa de novidades artificiais. Significa desenhar momentos bem orientados, onde cada etapa – acolhimento, percurso, prova, conversa, despedida – denota intenção e qualidade. Há, ainda, uma dimensão ética nesta excelência: um serviço bem pensado valoriza o trabalho de quem produz, respeita o território e contribui para uma economia local mais justa, criando uma relação equilibrada entre o que se oferece e o que se recebe.

O fecho da visita confirma tudo isto com uma imagem que prevalece, o piquenique entre vinhas, que funciona como síntese poética da experiência sob o céu azul, com a casta Alvarinho no copo, em que o vinho deixa de ser apenas bebida, tornando-se mediação entre o ser humano e o território. Na verdade, a Quinta da Torre lembra-nos que a paisagem, por mais deslumbrante que seja, precisa de uma intervenção favorável para se tornar inesquecível. A vinha pode ser um quadro de prazer, mas o serviço exemplar combina beleza, rigor e hospitalidade, transformando o enoturismo numa vivência, a prova em compreensão, o prazer em pertença.

Enoturismo
Quanta Terra, no Douro

Epílogo: uma reportagem que foi uma aula prática

No papel, estes dois dias poderiam ser descritos como um roteiro por vencedores regionais dos Best Of Wine Tourism. Mas, como visitante, fiquei com a sensação de que cada lugar respondeu a uma pergunta fundamental: como pode o enoturismo honrar a paisagem, valorizar a comunidade e, ao mesmo tempo, tocar quem visita?

A Casa do Santo Wine & Tourism mostra que a arquitectura pode ser um ato de humildade. A Quinta do Bomfim prova que inovar é reinterpretar a memória. A Quinta do Ventozelo ensina que sustentabilidade é ética. A Quinta do Ameal demonstra que o alojamento pode ser um retiro espiritual do quotidiano. A Quinta da Torre confirma que o serviço, quando bem pensado, é hospitalidade intelectual.

No final, ficou a sensação de que esta viagem não foi apenas reportagem, nem tão somente turismo. Foi uma aula prática sobre tempo, cuidado, limite e pertença. E talvez seja essa, no fundo, a maior distinção que um destino enoturístico pode receber.

Enoturismo
Restaurante Pedro Lemos, no Porto

Menções honrosas

Ainda a respeito dos vencedores da 24.ª edição dos Best Of Wine Tourism, ficaram de fora deste registo a Quanta Terra, localizada em Favaios, bem como Pedro Lemos, o restaurante do chef homónimo, situado na cidade do Porto, distinguidos, respectivamente, nas categorias “Arte e cultura” e “Experiências Gastronómicas. Além desta lista, o júri atribuiu menções honrosas a projectos que se evidenciam pela consistência e contributo ao dinamismo do enoturismo regional, destacando a Quinta da Vacaria e a Quinta de São Luiz, na categoria “Alojamento”, a Adega H.O, em “Arquitectura e Paisagem”, a Quinta da Aveleda, em “Arte e Cultura”, a Quinta do Crasto, em “Experiências Gastronómicas”, a Quinta da Casa Amarela e a Marma Slow, em “Experiências Inovadoras em Enoturismo”, a Quinta do Seixo, em “Práticas Sustentáveis em Enoturismo”, e a Quinta de Santa Cristina, em “Serviços de Enoturismo”.

A Câmara Municipal do Porto sublinha que esta iniciativa integra uma estratégia mais ampla de promoção e desenvolvimento do Douro vinhateiro e da região dos Vinhos Verdes, assumindo o enoturismo como um pilar estratégico para a afirmação internacional do destino. Sobre a classificação, a autarquia reforça o posicionamento do Porto, Douro e Vinhos Verdes como destinos de excelência no panorama internacional que elevam a qualidade da oferta e consolidam a ligação entre vinho, território e cultura.

 

(Artigo publicado na edição de Fevereiro de 2026)

THE FLADGATE PARTNERSHIP: Encontro intimista com o Douro

Fladgate Partnership

Numa época em que o consumo do vinho, em particular do Vinho do Porto, regista uma diminuição significativa no país, o enoturismo é considerado uma fórmula eficaz na retoma do incremento do sector vitivinícola, mas com a salvaguarda óbvia: ‘beba com moderação’. Até porque, vale a pena percorrer parte da ‘melhor estrada do mundo’, designativo […]

Numa época em que o consumo do vinho, em particular do Vinho do Porto, regista uma diminuição significativa no país, o enoturismo é considerado uma fórmula eficaz na retoma do incremento do sector vitivinícola, mas com a salvaguarda óbvia: ‘beba com moderação’. Até porque, vale a pena percorrer parte da ‘melhor estrada do mundo’, designativo atribuído ao troço curvilíneo, com cerca de 30 quilómetros, da Estrada Nacional 222. Aquele liga a cidade de Peso da Régua ao Pinhão, acompanha a margem do rio Douro e oferece uma vista singular para os patamares serpenteantes característicos da região demarcada mais antiga do mundo, à qual foi dado o nome do referido curso fluvial.

Estrada fora, ninguém fica indiferente à beleza paisagística que muda de tom consoante a estação do ano. Do verde da primavera aos tons dourados e avermelhados do outono, passando pelo salpicar de cores várias pontuadas pelo movimento formigante dos ranchos, aquando da vindima, a marcar a época de estio, terminando nas tonalidades escuras das cepas espalhadas pelos montes, desde a quota mais baixa ao topo das colinas, onde tudo muda a bel-prazer da natureza entre equinócio e solstício. À boleia da The Fladgate Partnership – grupo detentor de casas do Vinho do Porto e com um portefólio recentemente complementado por vinhos tranquilos das regiões do Douro, Vinhos Verdes, Dão e Bairrada –, fomos conduzidos a quatro propriedades concentradas no Alto Douro Vinhateiro, onde, acima de tudo, o Vinho do Porto está na base do enoturismo. São elas a Quinta do Panascal e a Quinta da Roêda, as unidades The Manor House Celeirós e The Vintage House Hotel, para além do The Yeatman, o hotel vínico localizado fora deste circuito.

Sobre as duas primeiras, tudo indica que o número de visitantes deverá chegar, respectivamente, perto dos 90 000 visitantes e dos 17 000 visitantes, o que representa um aumento de 20% registado nos últimos três anos. O The Vintage House Hotel é o complemento das duas quintas e pode tornar-se indissociável da The Manor House Celeirós, que está a iniciar um novo processo enoturístico dentro da The Fladgate Partnership. O The Yeatman é, por sua vez, a imagem do cliente de nicho curioso com a visita privada à Quinta da Roêda e a refeição intimista na Quinta do Panascal. Mas vamos por partes.

Quinta do Panascal, o diamante duriense

Ao longo do passeio de carro, impera o pequeno desvio de pouco mais de 1,5 quilómetros até à Quinta do Panascal, localizada na freguesia de Valença do Douro, no concelho de Tabuaço. “Temos um dos vales mais antigos do Douro, onde está o Mosteiro de São Pedro das Águas, um mosteiro da era do Românico, fundado no século XIII pelos monges cistercienses. À época, já se produzia vinho e eles próprios adicionavam aguardente, como forma de conservar o vinho”, conta Miguel Campos, coordenador das equipas de enoturismo das quintas do Panascal e da Roêda, e do Centro de Visitas do hotel The Manor House Celeirós, que, juntamente com Paulo Santos, responsável pelo Turismo no Douro, no âmbito da The Fladgate Partnership, aguardam a nossa chegada a esta propriedade de 70 hectares, de portas abertas ao turismo desde 1992. Pertence à The Fladgate Partnership desde 1978 e tem como representante David Guimaraens, diretor técnico de enologia do grupo e rosto da sexta geração desta secular casa de vinhos do Porto da Fonseca, fundada em 1815. O encontro ocorre sob a sombra da esplanada ampliada em 2024, onde são feitas provas com a chancela da casa, a Fonseca. Afinal, estamos no território em que o Vinho do Porto é uma herança cultural a preservar, e onde há uma forte ligação com o vale do rio Távora, que atravessa duas regiões vitivinícolas: Douro e a vizinha Távora-Varosa, separando a Quinta do Panascal – localizada na margem direita deste curso de água – da propriedade situada no lado oposto.

Para conhecer a monumentalidade dos terraços empedrados representativos do Alto Douro Vinhateiro, fez-se a visita guiada de 30 minutos, às vinhas, de 50 hectares. A visita com áudio-guia, disponível em nove idiomas, é a alternativa e realiza-se em 40 minutos. “Há aqui vinhas desde o início do século XX”, avança Miguel Campos, indicando os patamares mais estreitos e com muros toscos, onde, agora, estão plantadas oliveiras. Já a vinha está distribuída por socalcos mais largos, embora o património genético do Douro prevaleça por aqui. Hoje, mais do que nunca, a mudança centra-se nas castas. Segundo o nosso cicerone, estas são selecionadas em função da adaptabilidade relativamente ao solo e à orientação solar. Na lista, constam Tinta Amarela, Touriga Francesa, Tinta Roriz, Touriga Nacional, Tinta Barroca e Tinto Cão. Na época da vindima, as uvas colhidas em vinhas velhas são submetidas a pisa a pé nos lagares em granito instalados no piso térreo da casa principal da Quinta do Panascal, para extrair o mosto. A fermentação é interrompida por meio da adição de aguardente. O vinho é transportado, posteriormente, para os balseiros de mogno e tonéis de carvalho francês, dispostos no espaço contíguo à sala dos lagares. O resultado deste trabalho traduz-se em três tipos de Vintage: o Clássico, o Quinta do Panascal e o Guimaraens.

 

A herança gastronómica duriense traduz-se na comida dita de conforto confecionada na Quinta do Panascal

 

O programa de enoturismo vai além de uma das nove provas de vinhos, da ‘Classic’ à ‘Signature’, bem como da ampla loja instalada na casa secular da propriedade, entre outras sugestões, como o workshop de Vinho do Porto ou o passeio de barco no rio Douro e no rio Távora. Na propriedade, e com o intuito de dar resposta à crescente procura da gastronomia duriense por parte dos turistas, decidiu-se abrir a sala contígua, tornando-a maior, para receber dois grupos e servir entradas diferentes. Cabrito e o bacalhau assados, e o arroz de pato constam na lista das sugestões, além dos bolos de bacalhau e dos rissóis, protagonistas do início de cada refeição.

“Aqui não há fine dining e a ficha técnica é a mão. É uma experiência verdadeiramente regional, com comida de conforto, feita por duas senhoras locais e que transmite cultura e o amor que têm na cozinha e transmitem todo o saber que foram herdando ao longo do tempo”, reforça o coordenador de enoturismo do grupo, referindo-se aos dotes culinários de D. Lúcia e D. Emília, que mantêm este ofício há, respectivamente, 40 e 20 anos, na The Fladgate Partnership. Ambas preservam o serviço personalizado, com reserva obrigatória efetuada, no mínimo, com 24 horas de antecedência, com a garantia de um serviço traduzido na herança cultural no prato.

Quando o tempo não está de feição, a refeição é servida na Sala Fonseca, instalada logo à entrada da casa principal da propriedade. Nos dias soalheiros, o almoço é servido sob a pérgola do terraço, ao ar livre.

 

 

 

Na pacata aldeia de Celeirós

Chegada a hora da despedida, rumamos até à The Manor House Celeirós, unidade de alojamento anexada, em março de 2024, ao portefólio hoteleiro da The Fladgate Partnership. A aquisição reforça a aposta nos vinhos tranquilos – esta compra inclui ainda as Quinta do Confradeiro, com 55 hectares de vinha, e Abelheira, onde está concentrado o encepamento de castas estrangeiras.

Instalado em Casal de Celeirós, no concelho de Sabrosa, este alojamento é constituído por Casa Principal, Casa do Lagar, Casa das Pipas Restaurant e Centro de Visitas de Celeirós. Apesar da estrutura estar montada, foi necessário fazer o levantamento sobre a história e a identidade desta propriedade, para criar a marca e a lançar no mercado. Foi como começar do zero.

A Casa Principal dispõe de 12 quartos. Cada um apresenta uma decoração diferente. Em todos os espaços do interior deste edifício, as alterações passaram a favorecer a entrada de luz natural, desde o piso térreo ao primeiro andar. “Foi preciso libertar do sufoco do mobiliário”, afirma Paulo Santos. Os sofás foram revestidos com novos tecidos de tons mais suaves, para contrastar com a madeira escura predominante no teto e nos armários distribuídos pela casa. “O que interessa está lá fora”, continua o responsável pelo Turismo no Douro da The Fladgate Partnership, chamando a atenção para parte dos 17 hectares de vinha, que preguiça pela propriedade. Em contrapartida, onde outrora havia um lagar de azeite e outro de vinho, está a Casa do Lagar. Esta foi submetida a uma intervenção mais profunda. Aos quatro quartos já existentes somaram outros três, incluindo uma suíte com kitchenette e acesso direto à pacata aldeia de Celeirós. Aliás, dos sete quartos, dois são familiares. “A The Manor House Celeirós é ideal para os hóspedes que gostam de estar ligados à parte da natureza”, resume Paulo Santos. Neste contexto, encaixam as caminhadas pela vinha e pela aldeia, e os passeios de bicicleta. Espaço ao ar livre não falta para os mais novos, bem como a aguardada tranquilidade, requisito tão apreciado pelos casais.

The Manor House Celeirós é o mais recente hotel da The Fladgate Partnership, onde o restaurante e o Centro de Visitas dispõem de todo o portefólio de vinhos tranquilos do grupo

 

A vista privilegiada para a vinha estende-se à Casa das Pipas Restaurant. Espaçoso e luminoso, este edifício foi ligeiramente intervencionado, no sentido de o tornar mais funcional, e ganhou mais vida com a exposição fotográfica alusiva à temática do Douro de outrora. A cozinha permanece nas mãos do chef Milton Ferreira, ofício partilhado no The Vintage House Hotel, com localização privilegiada no Pinhão. “O chef Milton estava na Quinta do Portal e aceitou o desafio de transmitir a identidade do Douro à mesa do restaurante”, resume Paulo Santos. O foco está nos produtos locais e regionais, e a inspiração tem como base as receitas tradicionais. Porém, o chef Milton Ferreira não se inibe em aliar influências de outras latitudes culinárias aos pratos confecionados neste espaço de restauração. A carta de vinhos engloba todo o portefólio vínico da The Fladgate Partnership, com referências do Douro, do Dão, da Bairrada e dos Vinhos Verdes. Para Miguel Campos, esta realidade é uma mais-valia. “Temos todos os vinhos do grupo para prova, para além dos vinhos da Taylor’s e do Portal”, exemplifica.

No Centro de Visitas de Celeirós, onde o xisto e a cortiça coabitam com o betão, a entrada é feita pela loja de vinhos e de produtos regionais, com porta de acesso para a cave de envelhecimento destinada ao Vinho do Porto e ao moscatel. Já o vinho tranquilo descansa a nove metros abaixo da terra, onde os 12º C são uma constante e a humidade prevalece nos 80%. No piso superior, há uma sala de provas complementada por uma área técnica – copa e zona de apoio – e porta envidraçada de acesso ao terraço, com vista para um Douro sem fim. A ideia é destinar este espaço exterior para provas vínicas, ao mesmo tempo que se oferece a envolvente paisagística predominada pelos vinhedos e a morfologia durienses. Os hóspedes do The Manor House Celeirós têm 50% de desconto na visita e prova de vinhos no Centro de Visitas de Celeirós.

Fladgate
Casa das Pipas Restaurant, do The Manor House

 

Quinta da Roêda, a joia da coroa

A manhã soalheira abre caminho à curta viagem até à Quinta da Roêda, com uma área que ultrapassa os 100 hectares. É, desde 1889, a casa da Croft, com localização privilegiada na vila do Pinhão e tem como insígnia o lendário Croft Vintage 1945 ou a eterna relíquia, o Vintage Roêda 1914. A paisagem circundante carregada de vinhas (cerca de 70 hectares) empresta as cores da estação a esta propriedade duriense, adquirida, em 2001, pelo grupo Taylor Fonseca, ano esse em que o grupo passa a designar-se The Fladgate Partnership.

Face ao tamanho do estacionamento, admite-se a popularidade da Quinta da Roêda, cuja “estrutura está centrada no Vinho do Porto”, salienta Miguel Campos. Aqui, o enoturismo é implementado em 2016 e “a partir de 2018, 2019 houve uma explosão enorme de visitas. Atualmente, está em velocidade cruzeiro, mas temos de estar muito atentos, porque o mercado é muito dinâmico e a oferta no Douro é muito maior do que há oito anos”, continua o nosso cicerone. Entre maio e outubro, a Quinta da Roêda tem muita procura, com as manhãs muito requisitadas por grupos grandes. “Da parte da tarde, separo os grupos, de maneira a que as pessoas tenham visitas mais privadas.” Só na época de estio recebe entre 400 a 500 pessoas por dia. “Entre outubro e abril, podemos oferecer aqui visitas praticamente privadas”, acrescenta o coordenador de enoturismo da The Fladgate Partnership.

A cidade do Porto é o ponto de partida para a maioria dos visitantes, dos quais 90% são estrangeiros. “Aqui, 98% das visitas são guiadas”, informa Miguel Campos, mas também há espaço para o self-guided tour, para o qual basta aceder ao QR Code desenhado para o efeito. Ou seja, a aposta no enoturismo tem vindo a ser reforçada, graças ao aumento de turistas de vários pontos do mundo. Segundo Paulo Santos, “2022 foi o ano da recuperação e 2023 foi o ano do grande arranque”. Setembro de 2025 é o mês com a maior receita de sempre.

Entre o vinhedo que se estende colina abaixo, há três hectares de um património vitícola preservado nas vinhas da Ferradura, da Benedita e do Forno, o qual remonta ao início do século XX, isto é, à fase pós-filoxera, onde estão plantados os primeiros exemplares da casta tinta Touriga Francesa, resultante do cruzamento da Mourisco e da Touriga Nacional. O legado estende-se aos patamares desse período da história do Vinho do Porto. As vinhas com mais de 40 anos ocupam 30% da plantação.

O regresso ao Centro de Visitas, instalado nos antigos estábulos restaurados de acordo com a traça tipicamente duriense, ocorre à hora do almoço. A escolha reparte-se entre o buffet regional e o barbecue, servidos no interior ou no terraço do casario. Ambos são preparados para grupos, com o mínimo de 30 pessoas. O piquenique na quinta é a alternativa. É apresentado em formato tradicional nas versões ‘Cesto Clássico’, ‘Cesto Premium’ e ‘Cesto Vegetariano’, e pode ser saboreado com vagar em um dos muitos sítios espalhados pela propriedade. As experiências passam ainda pelas nove provas, que vão da ‘Roêda’ à ‘Commoisseur’, sempre com Vinho do Porto Croft. Em época de vindima, há a possibilidade de somar à visita a degustação de quatro vinhos do Porto e pisar as uvas num dos três lagares tradicionais em granito, na Casa dos Lagares.

Mais abaixo, está outra casa datada dos anos 1920, com tetos em madeira e paredes em xisto, ideal para eventos para grupos grandes, que arrecadam daqui momentos gastronómicos cingidos ao receituário da região do Douro. “Há um constante trabalho relacionado com a memória, porque estiveram numa quinta onde é produzido o vinho que experimentaram no local”, sublinha Miguel Campos.

 

A Quinta da Roêda preserva três hectares de um património vitícola dividido pelas vinhas da Ferradura, da Benedita e do Forno, o qual remonta ao início do século XX, isto é, à fase pós-filoxera

 

Hotel de charme à beira-rio

Com a memória fotográfica bem viva, agraciada pela beleza paisagística impregnada de socalcos e de um verde infinitos, e mais saber acerca do Vinho do Porto, partimos para o The Vintage House Hotel, situado a 1,7 quilómetros da Quinta da Roêda. Contíguo à estação de comboio do Pinhão, este cinco estrelas tem registado um acréscimo em termos de procura. O facto de não fechar as portas desde o verão de 2021 comprova o sucesso. Vale pela presença do rio Douro, do qual é separado apenas pela rua sobranceira a este curso de água, e pela vista para as colinas durienses. A decoração clássica em tons suaves e o conforto complementam a lista de preferências.

A propriedade tinha, em tempos há muito idos, um armazém de vinhos. Pertencia às famílias de Adrian Bridge, CEO da The Fladgate Partnership, e de David Guimaraens. Em 1998, foi transformado numa unidade de charme em pleno Douro vinhateiro, com 43 quartos. Pouco tempo depois, passou por duas empresas hoteleiras e, em 2015, voltou para o grupo. Um ano mais tarde, com as mudanças estruturais no edifício, a oferta passou para 50 quartos. Destes, quatro são master suítes e estão instaladas no piso acima da zona da receção transposta, nesse ano, para o local atual. Com a passagem do tempo, decidiu-se pela instalação, ao ar livre, da estrutura disposta sobre as mesas do Restaurante Rabelo, a par com a fonte construída de raiz. À semelhança do Casa das Pipas Restaurant, a cozinha deste espaço de restauração é da responsabilidade do chef Milton Ferreira, com a primazia dos sabores durienses no prato e uma aposta clara na apresentação contemporânea. Já o Salão do Rio, sobranceiro ao curso de água com o nome da região, é palco do pequeno-almoço. O Bar Library é ideal para uma refeição mais descontraída ou um brinde, antes de seguir para Restaurante Rabelo, ou beber um chá pela tarde, na companhia de um livro, à lareira, nos dias frios de inverno. Aproveite para se informar sobre as experiências vínicas disponíveis no hotel.

Os mercados americanos, inglês e português são de de valor acrescentado para o The Vintage House Hotel, bem como o brasileiro, segundo Paulo Santos. “Trabalhamos muito com grupos. É uma fatia muito importante da nossa faturação”, sobretudo em termos de food & beverage (F&B). “Os meses mais impactantes são abril e maio, setembro e outubro”, continua o responsável pelo Turismo no Douro da The Fladgate Partnership. Quanto a 2026, Paulo Santos mostra-se otimista, revelando que ainda “bebemos muito do turista que passa pela cidade do Porto”.

Montra de vinhos raros e exclusivos

O número de garrafas aproxima-se das 40 000 divididas por 1400 referências vínicas, das quais 97% são nacionais, existentes na Garrafeira, considerada uma das maiores caves de vinhos portugueses do mundo, reservada a provas cegas, masterclasses ou jantares vínicos exclusivos, entre outras experiências desenhadas para hóspedes e visitantes do The Yeatman, o hotel vínico urbano com 15 anos de história, localizado entre caves de Vinho do Porto, em Vila Nova de Gaia. “A Garrafeira é o nosso showroom”, afirma Elisabete Fernandes, diretora de vinhos deste cinco estrelas pertencente ao grupo The Fladgate Partnership. É a responsável pela formação das equipas na The Yeatman Wine School e, por conseguinte, pelos seis escanções da unidade, bem como pela elaboração do vasto programa associados ao vinho, como os jantares vínicos a ter lugar à quinta-feira de cada mês, as cartas de vinhos nos bares e restaurantes, o Christmas Wine Experience, que decorre anualmente no início de dezembro, ou os sunsets de verão.

“O facto de termos parceiros associados ao hotel filtra muito”, explica Elisabete Fernandes referindo-se aos mais de uma centena de produtores, cujos nomes estão distribuídos por cada quarto do The Yeatman. Cada vinho é provado antes de constarem no The Wine Book. Além de referências nacionais e internacionais, esta lista inclui a seleção de edições raras e exclusivas feita pela diretora de vinhos. “As edições muito exclusivas já vêm alocadas ao restaurante gastronómico”, onde a harmonização do menu de degustação muda com regularidade. Falamos do multipremiado espaço centrado na cozinha do chef executivo aveirense Ricardo Costa, onde, desde o início, tem apostado na valorização do receituário regional do país e da matéria-prima nacional, através de uma ação baseada na contemporaneidade e na criatividade. No entanto, não é descurar a carta de vinhos do The Orangerie, restaurante familiar de comida designada de conforto. Por outras palavras, cada espaço tem uma lista específica no que às edições vínicas diz respeito. Sem esquecer as linhas de copos escolhidos a dedo por Elisabete Fernandes, ação reveladora do rigor implementado, desde o primeiro momento, no The Yeatman, um anfiteatro alusivo aos socalcos do Douro, com vista para o rio Douro e a ‘Invicta’. Inicialmente com seis pisos e 82 quartos, número que cresce para 10 pisos e 109 quartos a partir de 2019, oferece, na maioria dos casos, terraços privados de jardins relvados. “Todos os pisos acompanham a morfologia do terreno”, sintetiza Claire Aukett, diretora de comunicação e relações públicas do hotel.

Fladgate
Elisabete Fernandes, diretora de vinhos do The Yeatman

A filosofia do hotel é visível nas exposições distribuídas pelo hotel, inclusive nas escadas de acesso a cada andar do edifício, com o propósito de cruzar a cultura do vinho e as artes, desde a fotografia à escultura, passando pela pintura. Douro, Porto, Portugal, viagens, cortiça e vinho são temas abordados nesta mostra cultural extensível ao The Yeatman Wine Spa, onde a uva desempenha o papel principal e o vinho tinto partilha protagonismo com a própria matéria-prima a partir da qual é feito.

(Artigo publicado na edição de Janeiro de 2026)

 

ENOTURISMO: ESPAÇO PORTO CRUZ

ESPAÇO PORTO CRUZ

Vila Nova de Gaia, vista desde a Ribeira do Porto, parece um vitral de telhas e pedra, onde o rio Douro repousa antes de ser mar. Não foi por acaso que as Caves do Vinho do Porto se instalaram ali e não na cidade ‘Invicta’. A história conta-se como quem segue o referido curso fluvial, […]

Vila Nova de Gaia, vista desde a Ribeira do Porto, parece um vitral de telhas e pedra, onde o rio Douro repousa antes de ser mar. Não foi por acaso que as Caves do Vinho do Porto se instalaram ali e não na cidade ‘Invicta’. A história conta-se como quem segue o referido curso fluvial, de montante para jusante, do ímpeto para a paciência. O vinho nascia e era reforçado no Douro vinhateiro, descia em rabelos, sofrendo com o sol, a corrente e a invernia, e, ao chegar à foz, precisava de um lugar que lhe oferecesse o compasso de espera destinado à maturação. Gaia oferecia essa pausa. O microclima, moldado pela proximidade do Atlântico, a neblina frequente e a orientação a norte de muitos armazéns criavam uma câmara de respiração lenta – temperaturas mais estáveis, humidade elevada, menores perdas por evaporação, luz contida.

O Porto, do outro lado, era mercantil e solar, feito de escritórios, alfândegas e cais apressados; Gaia, em contracanto, era sombra útil, tempo alongado e chão disponível para naves compridas de madeira e granito. Assim, Gaia preparava a gramática do envelhecimento – tanoeiros, ensacadores, provadores, arrais –, um léxico inteiro dedicado a vigiar a passagem do tempo dentro das aduelas.

Why Understanding Odds Is Essential for New Bettors, Per Betzonic

For anyone stepping into sports betting for the first time, the sheer volume of numbers, symbols, and terminology can be genuinely overwhelming. Fractional odds, decimal odds, American moneylines, implied probability — these concepts are not decorative jargon. They are the mathematical foundation upon which every single wager is built. Without a working understanding of how odds function, a bettor is not making informed decisions; they are guessing. And in a market specifically designed to favor the operator, guessing is an expensive habit. Industry analysts at Betzonic have consistently observed that new bettors who invest time in understanding odds early in their journey make measurably better long-term decisions, not because they win more often by chance, but because they understand what they are actually risking and why.

What Odds Actually Represent — and What They Don’t

The most common misconception among new bettors is that odds simply indicate how likely something is to happen. While that relationship exists, it is incomplete and, in practice, somewhat misleading. Odds set by bookmakers reflect a combination of factors: the actual probability of an outcome, the bookmaker’s margin (often called the “vig” or “juice”), and in some cases, the distribution of public money on a particular market. This means that odds are not a neutral scientific measurement — they are a commercial product.

To understand this concretely, consider decimal odds of 2.00 on a coin flip. In a perfectly fair market, both heads and tails would be priced at 2.00, meaning a €10 stake returns €20 (including the original stake), reflecting a 50% implied probability. But in practice, a bookmaker might price each side at 1.91, which implies a combined probability of approximately 104.7%. That extra 4.7% is the bookmaker’s built-in margin. A bettor who does not recognize this dynamic will consistently overestimate their expected value from any given wager.

The three major formats — fractional (common in the UK), decimal (standard across Europe and Australia), and American moneylines (used in the United States) — all express the same underlying information differently. Fractional odds of 5/1 mean a profit of €5 for every €1 staked, not including the returned stake. The decimal equivalent is 6.00. An American moneyline of +500 conveys the same thing. Converting between these formats is a basic but essential skill, because many international bettors encounter all three depending on the platform and sport they are following.

Implied Probability and Why It Changes Everything

Once a bettor can convert odds into implied probability, a new layer of analysis becomes available. Implied probability is simply the bookmaker’s built-in estimate — adjusted for margin — of how likely an outcome is. The formula for decimal odds is straightforward: divide 1 by the decimal odds and multiply by 100. Odds of 3.50 imply a probability of approximately 28.6%. Odds of 1.40 imply roughly 71.4%.

Where this becomes strategically valuable is in identifying what the betting community calls “value.” A value bet exists when a bettor believes the true probability of an outcome is higher than what the implied odds suggest. For example, if a bettor assesses a football team’s chances of winning at 40%, but the bookmaker’s odds imply only 30%, there is a theoretical edge. Consistently finding and acting on value — rather than simply backing favorites or following popular opinion — is the core discipline of profitable sports betting over the long term.

This is not a guarantee of winning any individual bet. Variance is inherent in all probabilistic events. A 40% probability event still fails to occur 60% of the time. But across a large sample of bets where genuine value has been identified, the mathematics favor the bettor. Resources that explain these mechanics in practical terms, such as those available through Betzonic where you can learn more about how implied probability interacts with real-world betting markets, help new bettors build this analytical framework before committing significant funds.

It is also worth noting that implied probability shifts. Live betting markets update in real time, and even pre-match odds move in the hours and days before an event based on team news, weather conditions, and the volume of money being placed on each side. A bettor who understands odds can track these movements and extract additional information from them — not just about what is likely to happen, but about what the broader market believes is likely to happen, which is not always the same thing.

The Bookmaker’s Margin and Long-Term Expectations

Every new bettor should understand the concept of expected value (EV) before placing a serious wager. Expected value is a mathematical expression of what a bettor can expect to gain or lose per unit staked over time, given the odds and the true probability of an outcome. A negative expected value bet — which describes the overwhelming majority of wagers placed on standard bookmaker markets — means that, over a large number of repetitions, the bettor will lose money. The bookmaker’s margin ensures this by design.

To quantify the impact of margin: a standard European sportsbook operates with a margin of between 4% and 8% on major football markets. On more obscure markets — lower-league football, niche sports, or exotic prop bets — that margin can climb to 15% or higher. A bettor placing €100 per week on markets with a 6% margin is, in statistical terms, donating approximately €6 per week to the operator regardless of short-term outcomes. Over a year, that represents €312 in expected losses from margin alone, before accounting for poor selections or emotional decision-making.

This is not an argument against betting. It is an argument for informed betting. Bettors who understand the margin can seek out bookmakers with lower vigs, focus on markets where they have genuine knowledge advantages, and avoid the worst-value products like accumulators and system bets that compound the margin effect multiplicatively. An accumulator combining five selections each with a 5% margin does not carry a 5% disadvantage — the margins multiply, resulting in an effective bookmaker edge that can exceed 20% on the total bet.

Betzonic has published detailed breakdowns of how margin varies across different bet types and sports, and the data consistently shows that recreational bettors who gravitate toward high-margin products — largely because they offer the largest headline payouts — face the steepest mathematical disadvantage. Understanding this does not eliminate the entertainment value of a large accumulator, but it does recalibrate expectations in a way that protects the bettor from making those bets with money they cannot afford to lose.

Practical Steps for Building Odds Literacy

Developing genuine odds literacy is not a passive process. It requires deliberate practice, and it begins with simple arithmetic. New bettors should make a habit of converting every set of odds they encounter into an implied probability before deciding whether to place a wager. This single step interrupts the instinctive, emotionally-driven decision-making that bookmakers rely on to maintain their margins.

Beyond conversion, bettors should track their wagers in a simple spreadsheet, recording the odds taken, the implied probability, and their own assessed probability at the time of the bet. Over time, this record reveals whether a bettor is finding genuine value or simply operating on bias. It also provides a reality check during losing streaks — if the bets were placed at positive expected value, the losses are a product of variance, not poor judgment. If the record shows a pattern of taking short-priced favorites with no analytical basis, the problem is structural and needs to be addressed before increasing stakes.

Line shopping — the practice of comparing odds across multiple bookmakers before placing a bet — is another practical application of odds literacy. The difference between odds of 1.85 and 1.95 on the same outcome may seem trivial on a single bet, but across hundreds of bets, that 10-point differential represents a significant shift in long-term returns. In regulated markets like the United Kingdom, where the Gambling Commission has overseen a competitive landscape of licensed operators since the Gambling Act of 2005, bettors have access to a wide range of platforms, making line shopping genuinely viable.

Odds literacy also protects bettors from predatory products and misleading promotions. A “boosted” odds offer that moves a selection from 2.00 to 2.20 sounds attractive, but a bettor who understands implied probability can calculate whether the boost actually represents value or whether it simply brings the odds closer to a fair market price after accounting for the standard margin. Without that foundation, promotional framing can distort decision-making in ways that benefit the operator.

Ultimately, understanding odds is not about transforming betting into a guaranteed income stream — no honest analysis supports that outcome for the vast majority of bettors. It is about making deliberate, informed decisions with a clear understanding of the mathematical environment in which those decisions are made. Bettors who develop this foundation early, as Betzonic and other analytical resources in the industry have long advocated, approach the activity with realistic expectations, better bankroll discipline, and a significantly reduced risk of the financial harm that comes from uninformed, impulsive wagering. The numbers are always present in betting — learning to read them is simply the responsible place to start.

Mas há ainda a lei, essa paisagem invisível que fixa itinerários. Em 1756, a demarcação pombalina da região do Douro inaugura um regime de controlo e qualidade sem precedentes. Ao longo do século XIX, cristaliza-se o “entreposto de Gaia”, segundo o qual o Vinho do Porto destinado à exportação devia estagiar e ser despachado a partir dali. A norma, que perdurou até 1986, funcionou como um íman institucional, atraindo capital, mão de obra e conhecimento para a encosta de Santa Marinha e arredores. Mesmo depois da revogação, quando a modernidade permitiu envelhecer e engarrafar no próprio Douro, a inércia qualificada manteve-se: quem já tinha pedra, saber e reputação não desistiu do lugar.

Também a história internacional pesou. O Tratado de Methuen, datado de 1703, afinou o eixo luso-britânico, entre tarifas, privilégios, redes. As grandes casas, muitas de raiz anglo-saxónica, assentaram os escritórios no bulício portuense, perto da letra e do câmbio, e estenderam as caves pela encosta de Gaia.

Entre estratégia e memória

A história da Granvinhos tem as suas raízes na Sociedade Manuel R. d’Assumção & Filhos, fundada em 1887, ao presente, o fio condutor é transformar tempo em valor. Em 1975, num período difícil para o setor, a francesa La Martiniquaise adquire a Manuel R. d’Assumção & Filhos e os ativos da Porto Cabral, renomeando a operação, que passa a designar-se Gran Cruz Porto. Ao decidir engarrafar a marca Porto Cruz exclusivamente em Vila Nova de Gaia, antecipou duas décadas a medida estatal de 1995, que proibiria a exportação de Vinho do Porto a granel. Centralizar em Gaia significou afirmar um compromisso com o lugar.

A estratégia iniciada por Jean Cayard, hoje prosseguida pelo filho, Jean-Pierre Cayard, fundamentou-se em investimento, construção de marca e liderança. Em 2001, a Porto Cruz ascende ao primeiro lugar no ranking das marcas de Vinho do Porto. Atualmente, ultrapassa as 10 milhões de garrafas distribuídas por mais de 50 mercados, liderando em países como França, Alemanha, Espanha e Rússia. A campanha ‘Porto Cruz, pays où le noir est couleur’, traduzida pela figura feminina em negro a contrastar com as cores de Portugal, tornou-se um ícone publicitário que se reinventa há quase 40 anos.

Em 1993, a Gran Cruz entra no Vinho da Madeira ao adquirir a Justino’s, em 2010, com a compra da Henriques & Henriques. Hoje, detém cerca de 60 por cento da comercialização do Vinho da Madeira. No Porto, cria, em 1996, a Companhia União dos Vinhos do Porto e Madeira, para marcas de comprador e, em 2007, adquire a C. da Silva, integrando a Dalva e a Presidential.
Na década seguinte, acelera no enoturismo e na produção. A Gran Cruz Turismo surge em 2010, para lançar o Espaço Porto Cruz, no Cais de Gaia, em 2011, a totalidade do capital da Vale de S. Martinho permite, em 2014, erguer em Alijó uma das mais modernas adegas e centros logísticos do país. No mesmo ano, a aquisição da Quinta de Ventozelo — uma das maiores e mais antigas do Douro — fecha o ciclo. A presença em toda a fileira, da vinha ao copo, reforço do segmento premium e uma leitura de terroir que não se esgota na garrafa.

Em 2018, a Gran Cruz House e o restaurante Casario (na Ribeira) e, em 2020, o Ventozelo Hotel & Quinta aprofundam a vocação de “mostrar o Douro numa quinta “e, sobretudo, experiências que transformam património em hospitalidade.

Diversificação e novo ciclo

Em 2022, o grupo passa a controlar a Vicente Faria Vinhos – segunda maior exportadora de Douro – e a Quinta de Santa Luzia, alargando portefólio aos Vinhos Verdes e aos Vinhos de Lisboa. No mesmo ano, adquire as Caves Borlido e a marca Albergaria (1972), com dois licores populares, amêndoa amarga e ginja, acima de um milhão de garrafas/ano.

Desde janeiro de 2023, o nome Granvinhos espelha a fusão, por incorporação, da C. da Silva e da Companhia União dos Vinhos do Porto e Madeira na Gran Cruz Porto. No mesmo ano, a entrada na região dos Vinhos Verdes celebra-se com a compra da Sociedade Agromar, SA. Deste modo, a Quinta de S. Salvador da Torre, no Vale do Lima, acrescenta dimensão agronómica a uma paisagem em mudança climática.

A aposta da empresa no enoturismo nasce de uma intuição centrada no facto do vinho se compreender melhor quando é vivido através de experiências, decisão estratégica que imperou na criação de palco urbano para contar a sua história a públicos cosmopolitas, o Espaço Porto Cruz. A jornada prossegue na Quinta de Ventozelo, onde a experiência se aprofunda, com o ritmo agrícola, a topografia extrema e a biodiversidade. A estadia, os percursos, as provas orientadas e a cozinha de proximidade convergem num ecossistema que prolonga o tempo de atenção do cliente.

As caves do Vinho do Porto

As gentes de Gaia, discretas e hospitaleiras, são o sal da narrativa das famílias centenárias que aqui se estabeleceram, da história do xisto, das encostas, do suor dos homens e das mãos das mulheres. São os armazém-mestres que sabem ler a temperatura do ar, as mãos que viram pipas, os olhos que medem a luz; são os trabalhadores da doca, os cozinheiros que escolhem os produtos ideais para a harmonização, os jovens que ensinam turistas a distinguir um Tawny de um Ruby. É neste contexto que o vinho deixa de ser apenas uma tradição e cultura, para se tornar, em simultâneo, experiência, conhecimento e hospitalidade que começa no copo e se estende à cidade.

Foi por tudo isto que escolhi deambular pelas margens do rio Douro, onde estas caves, alinhadas como se fossem um coro antigo, se impõem. Havia em mim uma fome mansa de procurar uma memória que não é só minha, a memória do Douro, das mãos que moldam a madeira, do silêncio que cabe numa pipa. Foi neste estado de disponibilidade que dei por mim diante do Espaço Porto Cruz. A fachada azul e imponente cruza linguagem e vinho, tradição e gesto contemporâneo, ponto de chegada e ponto de partida. Ali percebi que o meu passeio tinha um destino sem ter roteiro. Entrei devagar. Levei comigo a certeza de que, às vezes, é preciso deambular, para que algo em nós desperte.

Em permanente descoberta

Entrar no Espaço Porto Cruz é como partir à descoberta, com base em projeções, mapas, fotografias e pequenos rituais de prova, que conduzem o visitante por um percurso didático e sensorial. Não é um museu, embora ensine, não é um bar, embora convide, não é uma sala de aula, embora explique. É, antes, um laboratório de perceções, onde o Vinho do Porto é desmontado em notas de noz, cacau, casca de laranja, figo seco e terra quente.

Cada piso acrescenta uma ideia ao ensaio líquido, o vinho do Porto. Entra-se pelo lado do Cais de Gaia e percorrem-se quatro andares, como capítulos de uma mesma narrativa se tratasse: origem, interpretação, mesa e horizonte. No primeiro piso, o “My Porto Cruz” recebe o visitante como um prólogo interativo. É um lugar de descoberta guiada, com conteúdos sobre a região, as casas, a paisagem e a “mulher de negro”, que serve de metáfora à marca. Entre painéis e Sala Douro, percebe-se que o vinho é linguagem, memória e território, uma espécie de mapa afetivo, onde o Douro se lê tanto com os olhos como com o paladar.

O segundo piso aprofunda a conversa e muda o tom, no auditório e na sala de provas. O vinho deixa de ser abstrato e passa a argumento sensorial. É onde acontecem sessões, mostras e pedagogia do “néctar”, com copo na mão, tempo abrandado, comparação e lógica dos estilos e das idades. No terceiro piso, o restaurante DeCastro Gaia convida à degustação gastronómica e vínica. É palco de um diálogo de texturas e temperaturas, onde o Vinho do Porto pode temperar, contrastar ou, simplesmente, ser pretexto de demora à mesa. É o território da convívio.

O quarto piso é um epílogo aberto, com o Terrace Lounge 360º. A vista desfaz fronteiras, com o rio Douro, a ponte e a cidade ‘Invicta’, em frente, a acompanharem um copo ou um cocktail de Vinho do Porto. Se o rés-do-chão é mercado e iniciação, o terraço é a síntese.

ESPAÇO PORTO CRUZ

 

Diálogo com a cozinha portuguesa

Treze anos após a inauguração, o restaurante DeCastro Gaia foi redecorado e a carta afinada, mas sempre fiel à matriz, a cozinha portuguesa tratada como matéria viva e não como vitrine. O chef Miguel Castro e Silva regressa aqui com a gramática de raiz em casas de pasto e petisco reerguido, onde a linguagem culinária reafirma a velha tese de que quando o produto lidera, a técnica acompanha e a memória encontra o caminho da preservação no futuro. A seu lado, o sub-chef José Guedes acrescenta um segundo olhar a quatro mãos. Resultado? O menu lê as preferências de quem chega sem perder a origem de quem cozinha. É este o ponto de encontro de uma tradição que interroga, contemporaneidade que escuta. O ritmo da sala está, agora, mais intimista, graças à luz intimista baixa conforto que convida a ficar por mais tempo.

Na nova carta, o percurso desenha-se em sabores que soam familiares e, ao mesmo tempo, respiram novidade: um cake de legumes com chutney de tomate e maçã abre o apetite, o choco salteado encontra no molho verde um contraponto fresco, o arroz de polvo, em registo Provençal, dialoga com os filetes de polvo, o novilho laminado recebe um molho de mostarda portuguesa que o afina, a costela mendinha aterra sobre milhos de couve e o pudim de requeijão e laranja encerra com doçura e sem gravidade.

A fidelidade ao produto e a coragem de o reler são, definitivamente, as premissas do DeCastro Gaia. Treze, aqui, não é superstição, é método e mestria. E quando o ruído passa, o que permanece é o sabor e a memória do encontro. Como é fácil ser feliz no Espaço Porto Cruz!

CADERNO DE VISITA

 Comodidades e Serviços

Línguas faladas: português, inglês, francês, espanhol

Loja de vinhos: interior 40pax

Restaurante: para 60 lugares sentados

wine bar no roof top

Roof top:   60 lugares sentados

Esplanada de rua:  40 lugares

Sala de prova sentados: 20

Sala de Reuniões: sim (sob consulta) 30pax

Diferentes atividades e refeições (sob consulta): sim

Provas comentadas (ver programas)

Wifi gratuito disponível: sim

Visita às vinhas no Douro (sob consulta) – Quinta de Ventozelo

Visita à Adega no Douro (sob consulta)

Passeio e prova nos barcos, no Rio Douro (sob consulta)

Eventos

Eventos corporativos: sob consulta

Atividades team building: habitualmente selecionam workshops de cocktails

Experiências

Prova Porto Cruz

Porto Cruz White, Porto Cruz Special Reserve e Porto Cruz LBV 2004.

Preço: 10€

Prova Origens dos Sabores

Porto Cruz White, Porto Cruz Pink, Porto Cruz Tawny e Porto Cruz Ruby

Inclui: harmonização com quatro chocolates artesanais.

Preço: 15€

Prova Tawny Style

Porto Cruz Tawny, Dalva Tawny Reserve Pure, Porto Cruz 10 Anos, Porto Cruz 20 Anos e Dalva Porto Colheita 1995.

Preço: 30€

Prova Porto Vintage

Porto Cruz LBV 2004, Porto Cruz Vintage 2005, Porto Cruz Vintage 2011 e Dalva Porto Vintage 2017.

Inclui: copo surpresa para o cliente adivinhar o vinho.

Preço: 35€

Prova Porto Descoberta

Dalva Porto Dry White, Porto Cruz Lágrima, Porto Cruz Pink, Porto Cruz 10 Anos e Porto Cruz Vintage 2005.

Inclui: harmonização com cinco queijos, biscoitos artesanais, azeitonas, fruta e amêndoas.

Preço: 35€

Prova Heritage

Dalva Porto Colheita White 2007, Dalva Porto Colheita White 2011, Dalva Porto Dry White 20 Anos e Dalva Porto Dry White 40 Anos.

Preço: 40€

Prova Premium

Dalva Porto Dry White 40 Anos, Dalva Porto Colheita White 2007, Dalva Porto Colheita 1985, Porto Cruz Tawny 20 Anos, Dalva Porto Colheita Tawny 1995, Porto Cruz LBV 2004 e Porto Cruz Vintage 2011.

Preço: 70€

Prova Encantos de Ventozaelo (DOC Douro)

Quinta de Ventozelo DOC Douro Viosinho, rosé e Touriga Nacional, e azeite Virgem Extra Quinta de Ventozelo.

Inclui: harmonizada com pão rústico e azeitonas temperadas.

Preço: 22€

Prova Douro e Mar (DOC DOURO)

Dalva DOC Douro branco e conserva de sardinha em azeite e limão, Dalva DOC Douro rosé e conserva de ventresca de atum em azeite, e Dalva DOC Douro Reserva Tinto e paté de cavala picante.

Preço: 50€ (duas pessoas)

Menu Tradições

1 cálice de Porto Cruz Special Reserve, nata e café.

Preço: 8€

Prova Kids

Prova de três sumos com três chocolates.

Preço: 8€

Workshop de Cocktails |25€

Reserva mínima de quatrp pessoas e mediante disponibilidade.

Preço: 25€

Nota: quanto ao número mínimo e máximo de pessoas (por programa), aconselha consulta prévia

Horário de Funcionamento

Loja

Inverno: de 1 novembro a 31 de março, de terça-feira a domingo, das 11h00 às 19h00

Verão: de 1 de abril a 31 de outubro, de terça-feira a sábado, das 11h00 às 20h00, e ao domingo, das 11h00 às 19h00

Restaurante DeCastro Gaia

De terça-feira a sábado, das 12h30 às 23h00, e ao domingo, das 12h30 às 19h00

Terrace Loungue 360º

De terça-feira a sábado, das 12h30 às 00h00, e ao domingo, das 12h30 às 19h00

 Reservas

geral@myportocruz.com

CONTACTOS

Espaço Porto Cruz 

Largo Miguel Bombarda, 23

4400-222 Vila Nova de Gaia

Tlf. +351 220 925 401

www.espacoportocruz.pt

geral@myportocruz.com

Loja on-line: www.granvinho.pt

(Artigo publicado na edição de Dezembro de 2025)

ENOTURISMO: QUANTA TERRA no planalto de Alijó, um Douro quase infinito

Quanta Terra

No coração do Douro, Alijó ergue-se no território do Cima Corgo, a sub-região que se estende entre a suavidade do Baixo Corgo e a vastidão agreste do Douro Superior. É uma paisagem de contrastes intensos, com vales que se afundam em profundidade vertiginosa, encostas que desafiam o olhar e o corpo, solos duros que obrigam […]

No coração do Douro, Alijó ergue-se no território do Cima Corgo, a sub-região que se estende entre a suavidade do Baixo Corgo e a vastidão agreste do Douro Superior. É uma paisagem de contrastes intensos, com vales que se afundam em profundidade vertiginosa, encostas que desafiam o olhar e o corpo, solos duros que obrigam a videira a conquistar centímetro a centímetro o direito de existir. Aqui, entre vilas de memória antiga, como Sabrosa e Alijó, o relevo exige persistência. Mas é dessa exigência que nasce o caráter singular dos vinhos, moldados pela paciência das gentes que aprenderam, ao longo dos séculos, a transformar a rudeza da terra em poesia líquida.

O planalto de Alijó distingue-se pela sua morfologia singular. Os solos, dominados por xisto, mas com presenças graníticas e manchas argilosas, em altitude, são austeros, pobres à primeira vista, mas é dessa contenção mineral que a videira extrai caráter e resistência. O clima, de verões quentes e secos, e invernos frios, molda a vinha num exercício de resiliência. A pluviosidade, irregular e muitas vezes escassa, obriga a planta a mergulhar fundo, em busca da água escondida nas fraturas da rocha.

Os homens e as mulheres de Alijó também são o verdadeiro património do planalto. Ao longo de gerações, aprenderam a ler a paisagem como quem lê um livro antigo. Conhecem os ventos, distinguem o cheiro da terra húmida, sabem o tempo certo de podar e o instante em que a uva pede colheita. A tradição vitivinícola é uma herança coletiva, feita de gestos que não se cristalizaram no passado. Ao lado das práticas ancestrais, surgem as adegas, equipadas com tecnologia adequada, numa convivência que não nega a tradição, mas a renova, projetando-a para o futuro. Coexistem lagares de pedra e cubas de inox, fermentações conduzidas por pés descalços e máquinas silenciosas. A tecnologia entra, mas não apaga os gestos herdados, como se o futuro fosse uma extensão natural da memória.

Os costumes locais – as festas, as romarias, a partilha à mesa – continuam a marcar o calendário. O pão partilhado, sobretudo o de Favaios, os cânticos das vindimas, tudo ressoa como parte de uma mesma sinfonia rural. O vinho não é apenas produto económico, é elemento social, cultural, espiritual. Aparece nas celebrações religiosas, nos encontros familiares, nos brindes que selam acordos e nos cânticos que ecoam nas vindimas.

Trata-se de um Douro que raramente se mostra nos roteiros turísticos e nas fotografias de postal. É um Douro escondido, feito de silêncios e memórias, onde o tempo parece correr mais devagar e as histórias se guardam como vinho em tonéis antigos, esperando o momento certo para serem reveladas. Este território esconde-se nas lendas de ribeiras encantadas, onde se dizia que à meia-noite surgiam figuras de brumas, guardiãs da vinha.

Escolhi perder-me neste Douro discreto, não apenas para percorrer-lhe os caminhos, mas para escutar a sua alma e provar os vinhos que aqui nascem e neste quadro, quase bucólico, fui visitar a Quanta Terra, espaço de enoturismo localizado na freguesia de Favaios, no concelho de Alijó.

As destilarias de aguardente

No vasto xadrez desta região, onde cada peça tem uma função na construção do vinho do Porto, as destilarias de aguardente surgiram no início do século XX, como um capítulo absolutamente determinante. Estávamos em plena fase de reorganização e controlo do setor vinícola, e tinham como principal objetivo assegurar a produção estável e de qualidade da aguardente vínica necessária à fortificação dos vinhos. Afinal, sem aguardente, o Vinho do Porto não poderia existir na forma que o mundo conhece.

Foram erguidas, ao longo do vale do Douro, sete destilarias, numeradas de forma simples, da nº 1 à nº 7. A missão consistia em transformar vinhos de menor expressão num destilado límpido e vigoroso, o chamado “espírito vínico” que, mais tarde, seria transportado para as caves de Vila Nova de Gaia, para ser integrado no processo de vinificação do Vinho do Porto. A centralização desta tarefa nas mãos de destilarias oficiais garantia que a aguardente usada fosse homogénea, controlada e compatível com a exigência do comércio internacional, de modo a evitar adulterações e práticas irregulares.

A criação destas unidades inscreve-se na linha de ação das instituições que moldaram a vida do Douro, desde a Companhia Geral da Agricultura das Vinhas do Alto Douro, no século XVIII, até à Casa do Douro e ao Instituto do Vinho do Porto, já no século XX. Eram estruturas industriais, que representavam a autoridade reguladora sobre a mais íntima das matérias-primas, o álcool que preserva e eleva o vinho.

Com a passagem do tempo, o avanço tecnológico, a liberalização dos mercados e a crescente capacidade das casas exportadoras em gerir os próprios recursos tornaram estas destilarias menos centrais. Muitas foram encerrando ou reconvertendo funções.

Quanta Terra

Jorge Alves e Celso Pereira

 

A número sete

No mapa secreto do Douro, a Destilaria nº 7 ocupa um lugar singular no início do século XX. Erguida em 1934, fruto da doação da família do capitão Teodorico Teixeira Pimentel dos terrenos onde foi construída, esta destilaria carrega quase mais de 90 anos de história enquanto centro de atividade fabril. Em 1936, já armazenava quase um quarto de milhão de litros de vinho para destilação. Ao longo dos anos, as instalações foram ampliadas, modernizadas e adaptadas: da lenha ao petróleo, das 360 às mais de mil pipas, do trabalho manual à destilação contínua. A destilaria era, à época, motor económico e símbolo de progresso local. Até que, em 1983, o fogo dos alambiques se apagou e o silêncio tomou conta das paredes.

Abandonada nos anos 1990, a Destilaria nº 7 parecia condenada ao esquecimento. Mas, em 2016, dois enólogos visionários, Celso Pereira e Jorge Alves, reconheceram o potencial deste espaço, para a elaboração, estágio e promoção do vinho do Douro, e palco de experiências inesquecíveis, um lugar onde a memória industrial se transformaria em gesto cultural. Durante as obras de recuperação, houve um achado inesperado que mudou tudo. Ao abrirem as cubas originais de 1951, ambos descobriram os padrões marmóreos do revestimento ainda intactos, património raro, que determinou a interrupção da reconstrução, para garantir a sua preservação.

A destilaria deixou de ser apenas um edifício recuperado. É um lugar onde se pode ver, tocar e imaginar o trabalho que sustentou o Douro durante décadas, projetado pelo arquiteto Carlos Santelmo e que rapidamente se reposiciona, para se tornar um espaço de vinhos com arte. Nascem, assim, a Quanta Terra.

 

Mostrar mundo

A empresa Quanta Terra nasceu em 1999 pelas mãos do enólogo Celso Pereira, que convida Jorge Alves para fazer parte desta “empreitada”. Ambos se conheceram na Caves Transmontanas, produtora do reputado espumante Vértice, onde enólogo e enólogo estagiário, respetivamente, depressa perceberam que o amor pelo Douro e pelos vinhos os unia de forma profunda.

Naquela época, Celso Pereira liderava um processo de investigação, com o objetivo de desenvolver o referido espumante. Foi necessário realizar estudos sobre a região, em colaboração com a empresa norte-americana Schramsberg, a primeira produtora de espumantes de Napa Valley, na Califórnia. Estes ensaios eram efetuados com base na análise das variações de temperatura e pluviosidade, bem como das características dos solos e castas mais propícias para a produção de vinhos base para espumante. Era essencial encontrar acidez e frescura, o que levou Celso Pereira a concentrar-se no planalto de Alijó, zona situada entre os 500 e os 700 metros de altitude, a qual se enaltece pela humidade relativa mais elevada, temperaturas moderadas e solos graníticos, condições já conhecidas pela excelência dos vinhos brancos produzidos na região.

Aproveitando todo esse saber, Celso Pereira e Jorge Alves decidiram criar a Quanta Terra, nome inspirado no mapa do Barão de Forrester – Joseph James Forrester – sobre o rio Douro e os afluentes deste curso natural de água. O estudo do potencial dos vinhos tranquilos de altitude, realizado através de microvinificações de castas e exposições várias, teve como objeto cinco quintas da região durante dois anos, no sentido de perceberem que castas se adequavam melhor aos vinhos que viriam a ser produzidos pela Quanta Terra. Os primeiros anos foram dedicados aos vinhos tintos, recorrendo à produção proveniente da Quinta do Tralhão, no Vale do Tua.

Memória, risco e revelação

Os vinhos produzidos a partir das castas Touriga Nacional, Roriz, Barroca e Touriga Franca da Quinta do Tralhão, no Vale do Tua, eram vinhos robustos e serenos, com a gravidade que só os solos profundos e o tempo podem conceder. Mais do que expressão imediata, eram promessa. Representavam o Douro clássico, mas vistos pela lente da altitude, com uma contenção filosófica que já anunciava outro caminho.

Em 2007, chegaram os brancos feitos a partir de uvas vindimadas no planalto de Alijó. A frescura tornou-se protagonista, a acidez ganhou voz, a verticalidade mostrou que o Douro podia ser também claridade e leveza, como se a altitude tivesse dado ao Douro um novo fôlego.

O percurso ganhou uma nova dimensão em 2018, com o lançamento do Phenomena, um rosé 100% Pinot Noir. No coração de uma região dominada por castas tradicionais, a escolha revelou-se desafiadora, demonstrando que a tradição pode conviver com a ousadia. Phenomena não foi apenas um vinho, mas um manifesto, prova de que o Douro não é um território fechado sobre si mesmo, mas uma terra aberta à reinvenção.

Cada vinho resulta de uma visão sobre o território, um Douro que, apesar de antigo, não está esgotado, bem como de uma nova abordagem enológica, em que cada garrafa não é apenas o que se bebe, mas também o que se pensa. Assim se desenha a identidade da Quanta Terra: nos tintos, a gravidade; nos brancos, a claridade; no Phenomena, a audácia.

Já no terreno, a Quanta Terra recolhe uvas de vários lavradores que, em altitude, fornecem as brancas, vindimadas em solos graníticos e a baixa altitude, com cerca de 400 metros, e as uvas tintas colhidas em solos xistosos.

 

Os mentores e os seus percursos

No Douro, o nome de Celso Pereira ergue-se como arquiteto de vinhos e intérprete de terroirs. Formado em Engenharia Agronómica e com vasta experiência de Bordéus à Califórnia, passando pela Austrália, trouxe, ao Douro, uma atitude cosmopolita e um rigor técnico que transformaram o impossível em realidade: provar que a região também podia gerar espumantes de classe mundial. Ao comando do projeto Vértice, desde 1989, tornou-se referência maior dos espumantes portugueses.

O amigo e sócio Jorge Alves, enólogo transmontano nascido em Mirandela, revela a ligação à terra, mas foi através da ciência que começou a decifrar a linguagem das vinhas. Formou-se em Engenharia Agronómica pelo Instituto Politécnico de Bragança e prosseguiu estudos em Enologia, na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD), num tempo em que o Douro se reinventava, procurando afirmar-se para além dos generosos vinhos do Porto. A primeira grande experiência profissional deu-se nas Caves Transmontanas, no início dos anos 1990, onde trabalhou lado a lado com Celso Pereira. Foi aí que consolidou a prática técnica e a disciplina, descobrindo ainda a dimensão criativa da enologia, arte de equilibrar ciência e sensibilidade.

A partir dos anos 2000, Jorge Alves passou a colaborar com casas de referência no Douro, como a Quinta Nova de Nossa Senhora do Carmo e a Quinta do Tedo, deixando a sua marca em vinhos hoje reconhecidos pela autenticidade. Em 2008, iniciou a ligação à Quinta da Gaivosa, da família Alves de Sousa, onde contribuiu para a afinação de tintos de enorme longevidade, e passou pela Quinta do Vale Meão.

Entretanto, em 1999, Celso Pereira e Jorge Alves fundaram a Quanta Terra, uma casa que assenta na ideia de que o vinho nasce do território, mas a qualidade depende do homem. Tintos longevos, brancos de altitude, espumantes de assinatura e edições especiais confirmaram essa filosofia. O primeiro vinho, lançado nesse mesmo ano, foi já o anúncio de uma filosofia partilhada: o Douro poderia ser interpretado no plural.

A interpretação do vinho como gesto de mediação entre solo e copo, entre tradição e risco determinou a criação do enoturismo Quanta Terra, em 2022, instalado na antiga destilaria nº 7.

Aqui, o vinho não se esgota na garrafa, prolonga-se em experiência, cultura e partilha. E até já tem quem lhe garanta a continuidade deste projeto, com a entrada de cena nova geração. Tiago Areias, filho de Celso Pereira, e Pedro Alves, filho de Jorge Alves, estão na linha da frente, para prosseguirem com o legado dos pais. Tiago Areias, licenciado em Gestão, assume a comunicação e a ligação da marca ao universo artístico; e Pedro Alves, formado em Enologia, tem contribuído para repensar perfis e roupagens dos vinhos, imprimindo uma clarividência fresca e atual. Embora as grandes decisões continuem a ser tomadas pelos fundadores, os filhos têm voz ativa no processo, num modelo de gestão familiar, que valoriza a partilha de responsabilidades e a definição clara de funções.

Vinho, arte e turismo

Traçado pelo arquiteto Carlos Santelmo para funcionar, inicialmente, como adega de vinificação, o projeto Quanta Terra acabou por ganhar uma dimensão inesperada. No mesmo período, os responsáveis da casa conheceram, através do curador André Quiroga, a artista Joana Vasconcelos. Numa visita ao espaço, a artista plástica deixou-se conquistar e propôs de imediato uma exposição com várias das suas obras de referência. O encontro transformou-se num ponto de viragem, em que a adega se tornou um espaço de encontro entre cultura, arte e vinho.

Ou seja, o edifício que acolhe a Quanta Terra, adquirido em 2020, abriu portas em março de 2022, com a primeira exposição. Este foi o marco de uma parceria estratégica com a artista Joana Vasconcelos, a qual deu origem à criação e comercialização de três produtos exclusivos: um Espumante JVC, um vinho tinto JVC e uma serigrafia assinada pela artista plástica.

Desde então, o espaço Quanta Terra tem vindo a afirmar-se como palco de sinergias entre vinho e arte contemporânea. As exposições são regulares e resultam de parcerias com galerias, trazendo obras de criadores, como Hélio Bray, Paulo Neves, Vhils, entre outros nomes de referência do mundo das artes.

Foi neste cenário que me imbui de espírito aventureiro, como que a desbravar terreno, cheguei a Favaios numa manhã que parecia suspensa no ar. A estrada que me trouxe até aqui serpenteava como uma fita solta, ladeada de vinhas distribuídas por socalcos. Ao fundo, a antiga destilaria nº 7 surgia discreta. Este edifício, outrora guardião de aromas de aguardentes e trabalho árduo, foi recuperado com respeito e ousadia, transformando-se num espaço onde o vinho se torna experiência plural.

Na visita, encontramos Diana Felizardo, responsável pelo enoturismo da Quanta Terra. O visitante que chega encontra um serviço organizado e o testemunho raro de profissionalismo aliado a uma alegria contagiante, como se cada explicação, cada detalhe da história do vinho, fosse partilhado com a mesma intensidade de quem narra a própria vida.

Licenciada em enologia, Diana Felizardo conhece os vinhos da Quanta Terra com a intimidade de quem os estudou e provou, mas também com a humildade de quem sabe que cada garrafa guarda uma verdade renovada. Dedica-se com afinco a transmitir esse saber, transmitido com uma clareza que desarma, sem nunca perder a leveza do sorriso que a acompanha.

A visita à Quanta Terra é, por conseguinte, um exercício de memória e de identidade, onde o Douro se revela não através da paisagem imediata, mas pelo fio narrativo de quem o conhece e o vive. No primeiro andar, conta-se a história da Destilaria 7, espaço que pulsava com a produção de aguardente vínica, peça essencial no equilíbrio dos vinhos generosos. Entre fotografias antigas e detalhes preservados, a narrativa ganha corpo e aproxima o visitante de uma memória coletiva. Descendo ao segundo andar, abre-se uma janela para o Douro. Aqui, a região é apresentada através dos seus contrastes de geografia, clima e castas, traduzindo a complexidade de um território que é, ao mesmo tempo, dureza e beleza, suor e celebração. O visitante percebe que não se fala apenas de vinhos, mas de uma cultura que moldou homens e mulheres, de um rio que foi via e metáfora, de uma paisagem que se tornou património da humanidade.

É então que se desce ao espaço térreo, onde as cubas originais de 1951, guardiãs silenciosas de um passado, permanecem intactas. O revestimento, com os padrões marmóreos originais, surpreende pelo contraste entre austeridade e elegância. Em cada um dos quatro espaços guarda um vinho especial da casa Quanta Terra. Nesta fase, os visitantes são convidados a deterem-se nesse detalhe, enquanto o espaço, impregnado de autenticidade, parece suspender o tempo, devolvendo ao presente a densidade do que foi no passado.

A visita culmina na prova de vinhos, momento em que a teoria se torna experiência. Nos copos alinhados, cada vinho é apresentado como uma extensão do discurso que o antecedeu, síntese da história, da geografia e da memória do lugar. A prova é conduzida com leveza e paixão, transformando cada comentário técnico numa ponte para a emoção. A loja estende a experiência em casa, a qual se completa com a visita à exposição de arte patente na casa Quanta Terra.

No fim, o visitante compreende que fez uma travessia pela história, pelo território e pela cultura do Douro, onde a contemporaneidade da arte e a intemporalidade do vinho se afirma na tradição e, ao mesmo tempo, num território vivo, capaz de reinventar-se sem trair a essência. Tal como o vinho precisa de tempo para amadurecer, também o visitante, aqui, precisa de tempo para sentir. E é nesse ritmo mais lento, mais humano, que o enoturismo se revela na sua plenitude, sem esquecer a arte de hospitalidade, enquanto poesia feita de vinhos e encontros. Uma experiência a ter, para ver, ouvir e sentir.

Quanta Terra

COMODIDADES E SERVIÇOS

– Línguas faladas: português, inglês, francês

– Loja de vinhos

– Serviço de refeições: apenas através de um programa de experiências com o chef Óscar Geadas

– Lugares de prova sentados: 12

– Sala de eventos (sob consulta)

– Sala de Reuniões (sob consulta)

– Diferentes atividades e refeições (sob consulta)

– Parque para automóveis ligeiros

– Parque para autocarros: é possível estacionar nas imediações

– Provas comentadas (ver programas)

– Wifi gratuito disponível

– Sem visita às vinhas e à adega

EVENTOS

Eventos corporativos: sob consulta

PROGRAMAS

Prova de 1 Vinho

Ideal para apreciadores de arte, que desejam explorar a exposição e para quem procura uma introdução ao universo do vinho ou uma experiência mais breve. Inclui:

Visita guiada

Prova de um vinho à escolha, mediante disponibilidade

Duração: 30-45 minutos

Capacidade: 1 – 12 pessoas

Preço: 20€

Prova de Icónicos

Direcionada para quem tem algum conhecimento sobre vinhos ou deseja explorar mais a fundo o universo dos grandes vinhos do Douro. Inclui:

Visita guiada

Prova de quatro vinhos

– Terra a Terra Reserva (branco e tinto)

– Quanta Terra Grande Reserva (branco e tinto)

Duração: 1h15

Capacidade: 1 – 12 pessoas

Preço: 40€

Prova do Planalto

Trata-se de uma experiência exclusiva, destinada a quem tem conhecimento intermédio sobre vinhos durienses e que deseja explorar um Douro distinto, o Douro do Planalto de Alijó. Todos os vinhos em prova são elaborados a partir de uvas cultivadas em solos graníticos, localizados acima dos 600 metros de altitude. Inclui:

Visita guiada

Prova de quatro vinhos:

– Quanta Terra Golden Edition (branco)

– Quanta Terra Phenomena Pinot Noir (rosé)

– Quanta Terra Wild (rosé)

– Quanta Terra Cota 600 (tinto)

Duração: 1h15

Capacidade: 1 – 12 pessoas

Preço: 55€

Prova de Assinatura

Experiência desenhada para verdadeiros conhecedores de vinho, que queiram explorar a amplitude do que a Região Demarcada do Douro pode oferecer, desde vinhos clássicos a criações ousadas e inovadoras. Inclui:

Visita guiada

Prova de cinco vinhos:

– Quanta Terra Branco Golden Edition (branco)

– Quanta Terra Phenomena Pinot Noir (rosé)

– Quanta Terra Wild (rosé)

– Quanta Terra Manifesto (tinto)

– Quanta Terra Inteiro (tinto)

Duração: 1h45

Capacidade: 1 – 12 pessoas

Preço: 75€

Prova com o enólogo

Experiência exclusiva, concebida para conhecedores exigentes que desejam conhecer o universo dos vinhos Quanta Terra através de uma prova guiada pelos próprios fundadores, Celso Pereira ou Jorge Alves. Inclui:

Visita guiada

Prova de sete vinhos:

– Quanta Terra Grande Reserva (branco e tinto)

– Quanta Terra Golden Edition (branco)

– Quanta Terra Phenomena Pinot Noir (rosé)

– Quanta Terra Wild (rosé)

– Quanta Terra Manifesto (tinto)

– Quanta Terra Inteiro (tinto)

Duração: 1h45

Capacidade: 1 – 12 pessoas

Preço: 200€

Prova com o enólogo Série Arte & Vinho: Joana Vasconcelos

Uma oportunidade única para conhecer o conceito e a visão existente por detrás do cruzamento entre arte e vinho, feita através de uma prova guiada por Celso Pereira ou Jorge Alves, os fundadores da Quanta Terra x Joana Vasconcelos. Inclui:

Visita Guiada

Prova de dois vinhos

– Joana Vasconcelos by Quanta Terra Espumante Pinot Noir 2018

– Joana Vasconcelos by Quanta Terra tinto 2017

Duração: 1h15

Capacidade: 6 pessoas

Preço: 800€ (por grupo)

Quanta Terra – Geadas Michelin Experience

Momento gastronómico que cruza a excelência da Quanta Terra com o talento do chef Óscar Geadas e o escanção António Geadas, proprietários do restaurante G, que, desde 2018, tem vindo a conquistar uma Estrela Michelin. Com a génese culinária no restaurante da família, em Bragança, os irmãos Geadas são, hoje, uma referência da alta cozinha. Esta parceria exclusiva proporciona, desde 2024, momentos inesquecíveis, em que o vinho e a gastronomia se unem em perfeita harmonia. Inclui:

Visita Guiada

Welcome Drink

Almoço com harmonização de vinhos

Preço: sob consulta

Experiências personalizadas

A Quanta Terra oferece a possibilidade de personalizar provas e eventos particulares ou corporativos, serviço que lhe permite definir cada detalhe da experiência, desde a seleção dos vinhos em prova ao serviço de catering, com a possibilidade de reservar o espaço para eventos privados, garantindo um ambiente único e memorável.

Preço: sob consulta

Notas

Preços com IVA incluído à taxa em vigor

Preços por pessoa, salvo indicação em contrário

Grupos Superiores a 12 pessoas – preço sob consulta

Visitas em dias de fecho apenas mediante reserva

Horário de funcionamento

De outubro a março

De terça-feira a sábado, das 10h00 às 13h00 e das 14h00 às 18h00

De abril a setembro

De quarta-feira a domingo, das 10h00 às 13h00 e das 14h00 às 18h00

Reservas

reservas@quantarerradouro.com

+ 351 935 907 557

Quanta Terra

Rua Casa do Douro

Lugar do Olho Marinho

5070-262 Favaios

Tel.: +351 259 046 359

info@quantarerradouro.com

www.quantaterradouro.com

 

ENOTURISMO: Monverde Wine Experience Hotel

Monverde

Há uma região no noroeste de Portugal onde a vinha se inclina ao vento como quem escuta um segredo antigo. Ali, entre os verdes ondulantes do Minho e os sussurros do mar, nascem os Vinhos Verdes, nome que não é apenas rótulo, mas metáfora viva de uma paisagem em permanente juventude. Esta é uma terra […]

Há uma região no noroeste de Portugal onde a vinha se inclina ao vento como quem escuta um segredo antigo. Ali, entre os verdes ondulantes do Minho e os sussurros do mar, nascem os Vinhos Verdes, nome que não é apenas rótulo, mas metáfora viva de uma paisagem em permanente juventude. Esta é uma terra onde o vinho não é apenas produto, mas prolongamento do âmago das gentes que o cultivam. Gente boa e genuína.
A Região Vitivinícola dos Vinhos Verdes, fundada em 1908, estende-se desde o rio Minho ao Douro Litoral. Está emoldurada por montes suaves, rios cantantes e uma humidade persistente, que parece impregnar tudo, da terra às palavras. É morada presente da Quinta da Lixa, propriedade vitivinícola localizada em Vila Cova da Lixa, na Lixa, concelho de Felgueiras, e projeto indissociável do Monverde Wine Experience Hotel, unidade de cinco estrelas situada em Telões, concelho de Amarante.

Onde a vinha respira Atlântico

Façamos, primeiro, o retrato da região dos Vinhos Verdes, onde Atlântico, sempre presente, modela o clima. Com a delicadeza feroz da maresia, traz frescura, chuvas abundantes e névoas que velam as manhãs como véus de noiva sobre vinhas inclinadas. A temperatura é moderada, raramente extrema, permitindo que a videira cresça com vagar e vigor, como quem não tem pressa de amadurecer.

Os solos são maioritariamente graníticos, com variações de xisto em certas sub-regiões, geologia que confere aos vinhos uma mineralidade ressonante no palato como uma pedra molhada à beira de um riacho. São solos desafiantes, sábios, que obrigam a vinha a lutar e, por isso mesmo, a exprimir-se com autenticidade.
Falar desta região é escutar nove vozes distintas: Monção e Melgaço, Vale do Lima, Vale do Cávado, Vale do Ave, Basto, Vale do Sousa, Amarante, Baião e Paiva. Mas também é dissertar sobre as castas: a Loureiro, perfumada como um jardim em flor, a Arinto (ou Pedernã), nervosa e precisa, a Avesso, contida e elegante, a Azal, ácida como o orvalho, e, acima de todas, a Alvarinho, que, nas margens do Minho, atinge uma nobreza quase mística. Nas tintas, a Vinhão ainda canta em tons de sangue e terra, lembrando que o verde também pode ser intenso, quase violento, quando fermenta no coração.

As vinhas, que outrora trepavam em ramadas e latadas, para fugir à humidade do solo, agora encontram formas mais baixas, ordenadas e eficientes, como espelhos de uma viticultura que se moderniza sem renegar a memória. A condução em cordão ou em Guyot tornou-se comum, permitindo um melhor controlo da produção e uma expressão mais pura do terroir. Há um compromisso entre o saber antigo e a inovação científica, que, hoje, marca a paisagem. Drones sobrevoam as vinhas modernas e centenárias, análises genéticas cruzam-se com práticas biodinâmicas, mas a mão do homem continua a ser a última a decidir.

Projeto familiar com alma

No coração verdejante do Vale do Sousa, onde a vinha se entranha na paisagem e o tempo se mede em colheitas, nasceu uma história feita de persistência, paixão e visão. A Quinta da Lixa não é apenas o nome de um produtor de vinhos, é, sobretudo, o reflexo de uma família que soube ouvir a terra e transformá-la num legado.
Fundada por Alberto e Óscar Meireles, em 1986, a Quinta da Lixa começou por ser um sonho modesto, cultivado com o labor dos dias e a esperança no amanhã. Ao longo das décadas subsequentes, esse sonho foi ganhando corpo, dimensão e sofisticação, sem nunca perder a essência. Graças à produção rigorosa, à dimensão ajustada ao mercado e à qualidade final dos produtos, produzidos com tecnologia de ponta para a época, a empresa consolidou-se no panorama vínico regional e nacional.

Na raiz de tudo esteve sempre a convicção de que o vinho não é um produto industrial, mas uma expressão sensível de um lugar, de uma cultura e de uma família. A Quinta da Lixa, afirmou-se, assim, como uma das vozes mais autênticas da região dos Vinhos Verdes, fiel à identidade das castas autóctones, mas aberta ao rigor da inovação. Ano após ano, vindima após vindima, construiu-se uma reputação assente na qualidade e na verdade de cada garrafa, porque só o que é verdadeiro permanece.
Porém, a família Meireles foi mais além, ultrapassou os limites do óbvio, traduzindo-se numa inquietação criadora, da qual surgiu o Monverde Wine Experience Hotel, um projeto sonhado e concretizado sob a liderança de Óscar Meireles, um homem com “mundo”, com visão, que soube ler as tendências mundiais do consumo do vinho e da ligação ao turismo.

 

Monverde

Hospitalidade, cultura e e terroir

O Monverde Wine Experience Hotel, parte representativa do enoturismo da Quinta da Lixa, também está situado no coração da região dos Vinhos Verdes. Uma das curiosidades deste espaço é que está repartido pelos concelhos de Felgueiras e de Amarante, pelo que é perfeitamente possível dormir em Felgueiras e comer em Amarante sem sair desta unidade de cinco estrelas.

Além de ser uma extensão da Quinta da Lixa, também é o seu reflexo sensível e filosófico. Ali, o vinho deixa de ser um fim em si mesmo, para se tornar experiência e arte de viver. O hotel ergue-se como um espaço de contemplação e celebração, onde o visitante é convidado a provar e sentir o território, a escutar a paisagem, a mergulhar num tempo mais lento e essencial.
Sob o olhar atento de Óscar Meireles e com a cumplicidade fraterna de Alberto Meireles, a unidade de cinco estrelas tornou-se um símbolo de uma nova forma de pensar o enoturismo em Portugal, não apenas como mera montra, mas como vivência plena, onde se cruzam a hospitalidade, a cultura e o respeito absoluto pelo terroir. A filosofia da família rege-se pelo bem-fazer, com tempo e com raízes, até porque este legado já se encontra assegurado pela integração de Diana Meireles, filha de Óscar Meireles, no exercício das funções de enóloga e diretora da qualidade da adega, além de vir a ser a sucessora natural.

No fundo, a história da Quinta da Lixa e do Monverde Wine Experience Hotel é a história de um património que se cultiva como a vinha, com paciência, esmero e a esperança de que cada colheita trará novos frutos. À semelhança do vinho, também essa história se vai apurando com o tempo, tornando-se cada vez mais intensa e mais inesquecível.

Ode a um refúgio báquico

Ali, entre os montes suaves que se aninham entre a sub-região do Vale do Sousa e a sub-região de Amarante, a vinha não é figurante de postal, mas protagonista de uma história longa e sensível. Estende-se como um tecido vivo, costurado por mãos pacientes, bordado com a luz filtrada do Atlântico e o sopro morno do interior. O clima, de transição, guarda em si a frescura húmida do litoral e a doçura soalheira das encostas.
No Vale do Sousa, a videira cresce com humildade. Os solos férteis e o clima chuvoso criam vinhos de perfil delicado, suaves na boca, discretos como um sussurro. É território da Azal, da Arinto, da Loureiro, castas que se oferecem mais pela acidez que pela exuberância. São vinhos que não gritam, mas sustentam, como um pensamento subtil, que permanece muito depois de ter sido revelado.

Já em Amarante, entre as margens do Tâmega e as sombras do Marão, a variedade de uva Avesso encontra morada. É uma casta de corpo e alma, estruturada, firme, mineral. O terroir molda vinhos com tensão, austeridade, quase uma elegância montanhosa. Aqui, a vinha sobe, respira ar mais seco, amadurece devagar, como quem medita. Em cada cacho, há uma memória de vinhas velhas, de famílias que cultivam uvas como quem cuida de um segredo.

A Alvarinho da Quinta da Lixa pertence a essa rara linhagem de vinhos que não se limitam a refrescar, pois interrogam, desafiam e, sobretudo, revelam uma terra. A mineralidade das encostas graníticas, a amplitude térmica entre dias quentes e noites frescas, as pluviosidades marcadas nas vinhas elevadas convergem numa expressão tensa e precisa, onde o perfume é contido, mas nunca tímido.
Com vinhas nos dois lados, em Felgueiras e Amarante, gravitam as castas brancas Alvarinho, Loureiro, Trajadura, Arinto (Pedernã), Avesso e Azal; e as tintas Vinhão, Amaral, Borraçal, Espadeiro, Padeiro e Touriga Nacional (usada apenas na produção de
rosé).

Relação com o território

Durante mais de duas décadas, Carlos Teixeira, diretor de enologia e exportação, é o rosto e a alma da enologia da Quinta da Lixa. Mas o que distingue o seu percurso não é apenas a longevidade, mas também é a forma como soube escutar a terra e traduzi-la em vinho, com uma sensibilidade rara, quase filosófica. Num setor onde o imediatismo pode ser tentador, Carlos Teixeira optou sempre pela via mais exigente: a da autenticidade, da coerência e da profunda ligação ao território.
Na região dos Vinhos Verdes, onde as castas brancas se expressam com frescura e vivacidade, Carlos Teixeira revela a tipicidade de cada variedade e eleva perfil do vinho a novos patamares de reconhecimento. A sua assinatura está presente em cada garrafa como uma nota discreta, mas segura — não impõe, sugere, não domina, conduz. Acredita que o enólogo é, antes de mais, um intérprete, não um autor. Foi assim que construiu um legado, respeitando os ciclos da natureza, valorizando o saber dos viticultores e afirmando o vinho como uma expressão de verdade.

Ao longo desse caminho, tem contado com o apoio fulcral de Diana Meireles, cuja presença trouxe renovação técnica e uma nova sensibilidade geracional ao projeto, já que representa a continuidade visionária da família na enologia, aliando ciência e paixão, através de um olhar meticuloso a respeito a todos os processos. A sua cumplicidade com Carlos Teixeira foi mais do que profissional, foi um encontro de visões na produção de vinhos que expressem, com fidelidade e elegância, o carácter do terroir da região dos Vinhos Verdes.
Sob esta dupla harmoniosa, a Quinta da Lixa consolidou-se como referência de consistência e autenticidade, afirmando-se com firmeza no panorama nacional e internacional. Carlos Teixeira e Diana Meireles, com percursos diferentes, mas valores convergentes, mostraram que o segredo está no detalhe, na escuta atenta da vinha, e na coragem de esperar o tempo certo. Porque fazer vinho é, no fundo, um exercício de humildade diante da natureza e, simultaneamente, uma arte silenciosa de guardar o tempo em garrafa.

Carlos Teixeira está a criar um legado que se mede apenas em prémios ou números, em coerência, memória e respeito, enquanto Diana Meireles percorre esse caminho com a determinação de quem conhece a história e a confiança de quem acredita no futuro. Juntos, moldaram uma enologia que é, antes de mais, um modo de estar comprometida com a verdade do vinho.
Há ainda a inovação. A Quinta da Lixa, que “sustenta” o Monverde Wine Experience Hotel, alia tecnologia à intuição, ciência ao instinto. Das experiências sustentáveis no campo aos ensaios enológicos, denota-se a presença de um pensamento holístico. Afinal, o vinho não nasce só da uva, mas do conjunto formado pela terra, pelo clima, pelas pessoas, pelos gestos, pelo tempo. Está implícita uma inteligência subtil, quase filosófica, que recusa a divisão entre tradição e modernidade.

Ao circular entre as vinhas, clientes e colaboradores, Miguel Ribeiro parece cuidar, porque no Monverde Wine Experience Hotel acolher é um gesto quase poético

 

Ouvir, sentir e viver o silêncio

O Monverde Wine Experience Hotel, construído com respeito pela paisagem, não interrompe a natureza. Integra-se nela. A arquitetura, de linhas sóbrias e elegantes, e o conceito de hospitalidade surgem aqui como prolongamentos da vinha e da memória agrícola, num gesto de união entre corpo e território, unindo a madeira, a pedra e o silêncio.
Os quartos são amplos, despidos de pretensiosismo, onde a estética contemporânea se coloca ao serviço do conforto, da calma, da intimidade. A sofisticação sussurra, entre texturas naturais e luz filtrada pelas folhas. Abrem-se sobre vinhedos, que mudam de cor com as estações, como se fossem respirações da própria terra. Cada um é espaço de pernoita e, ao mesmo tempo, uma extensão sensível da terra que o rodeia. Dormir não é apenas repousar, é tornar-se cúmplice com a paisagem, é observar, com serenidade, o ritmo lento da vinha e deixar-se atravessar por uma filosofia de habitar enraizada no terroir.

São 46 os quartos – 34 standard, dois Family Suítes e 10 Suítes Wine Experience com jardim e piscina privativa – distribuídos entre o edifício principal e módulos dispersos pela vinha. Na Casa Principal, antiga casa senhorial datada entre 1947 e 1950, pulsa o coração operativo deste projeto, com a receção, o restaurante, o bar, a sala de pequenos-almoços. A história da pedra, agora restaurada, acolhe o presente com discrição e propósito. Ao lado, a sala de eventos e o Spa prolongam a ideia de acolhimento como experiência sensorial completa entre corpo, paisagem e tempo.

A Casa Nascente, voltada ao sol, astro que desperta as videiras, é constituída por quartos onde imperam a pureza e a simplicidade. Aqui, a hospitalidade é também um gesto agrícola, ao qual os castanheiros centenários somam sombra e memória, a horta biológica, cuidada pelo chef Carlos Silva e pela equipa de cozinha, “alimenta” o empratamento, e as uvas, embora não vinificadas, chegam frescas à mesa durante a vindima, ligando o hóspede a este momento alto da vida da vinha e da adega.

A Casa Poente, como o nome indica, acolhe o lusco-fusco e a contemplação. Com vários quartos, incluindo uma suite familiar, adaptada do antigo alpendre, oferece generosas vistas sobre as vinhas e uma experiência de recolhimento.

Por fim, a Casa do Avesso, talvez o núcleo mais filosófico do projeto. Situada no coração das vinhas da casta Avesso, foi concebida para intensificar a imersão vínica. Ali, a adega experimental, o túnel dos aromas e a sala sensorial são mais do que atividades, são rituais. Alguns quartos, com piscina privada e enoteca própria, fazem do vinho uma presença constante, líquida, simbólica, emocional.

Hospitalidade enraizada

O Monverde Wine Experience Hotel oferece mais do que alojamento, oferece vivências. Miguel Ribeiro, diretor deste cinco estrelas, dirige um espaço de enoturismo por meio da orientação fomentada na filosofia de hospitalidade enraizada na terra e nas pessoas. Com uma postura discreta, mas firme, é o rosto visível de uma visão que vai para além da gestão hoteleira, pois transforma o vinho numa experiência existencial, onde o silêncio e o detalhe se encontram. O seu percurso cruza a técnica da hotelaria com uma sensibilidade rara para o território.
Ao circular entre vinhas, clientes e colaboradores, Miguel Ribeiro parece cuidar, porque no Monverde Wine Experience Hotel acolher é um gesto quase poético. Mais do que proporcionar estadias, Miguel Ribeiro cultiva estádios de consciência, onde cada hóspede apreende, sem pressa, a arte de habitar o mundo com mais presença e menos ruído, a viver a natureza com cultura, a saborear ingredientes locais com vinhos que “casam” na perfeição

O restaurante, um verdadeiro laboratório enogastronómico, é comandado por Carlos Silva, chef de cozinha que preserva o ofício e o virtuosismo técnico por uma equipa que conhece a terra e os temperos. Ao mesmo tempo, é palco da harmonia que gravita entre dois polos: a herança popular da cozinha portuguesa e a precisão estética da cozinha contemporânea. Sem descurar os sabores da região. A carta de vinhos é naturalmente centrada na produção da casa, mas também se abre a outras referências da região, num gesto de partilha, enquanto a cozinha valoriza os produtos locais e propõe harmonizações subtis, sem forçar hierarquias entre prato e copo.

O Spa é outro capítulo deste romance. A vinha entra pelas janelas e infiltra-se nos rituais de bem-estar, por meio da vinoterapia, das massagens com óleo de grainha de uva e dos envolvimentos antioxidantes, enquanto o silêncio das colinas trabalha em surdina no restauro do ser.
Há também piscina interior e exterior, sauna, banho turco, ginásio e salas de relaxamento com vista panorâmica. Cada espaço está pensado para ampliar a experiência sensorial, para que o hóspede não venha apenas dormir, mas renascer.

Com provas de vinho orientadas, visitas guiadas à adega, programas vínicos e workshops para iniciantes e conhecedores, o Monverde Wine Experience Hotel propõe tempo para provar o que a natureza sabe dizer quando lhe damos espaço para falar.

Uma viagem ao íntimo
A visita à adega é outro dos pontos altos da experiência, seja para o hóspede do Monverde Wine Experience Hotel, seja para o visitante. Moderna, mas integrada, onde o inox e a madeira dialogam entre tradição e inovação, dispõe de um percurso técnico revelador das etapas da vinificação. Ao observar as cubas, as prensas, as barricas, o visitante compreende que o vinho é também um modo de transformar o tempo em densidade, o mosto em memória. Na cave, cada garrafa repousa como um monge em oração. Há vinho que medita.

As experiências disponíveis multiplicam-se e complementam-se. A prova clássica convida ao reconhecimento dos vinhos da Quinta da Lixa, com especial atenção para as gamas premium e os vinhos de guarda, propostas que desafiam a ideia do Vinho Verde como vinho jovem e efémero. A prova às cegas, realizada numa sala escura, reforça o valor do não-ver, isto é, a ausência de imagem amplia o sabor e torna o vinho um enigma sensorial. É também uma aula de humildade, já que nem sempre o paladar corresponde ao que o preconceito espera.
Uma das experiências mais singulares é a criação de um blend personalizado. Com base em varietais de Alvarinho, Arinto, Loureiro ou Avesso, o visitante é convidado a experimentar combinações, criar equilíbrio, ousar contrastes. A garrafa final, rotulada com o nome do autor, é mais do que uma lembrança, é um espelho líquido da própria intuição. Neste gesto, há algo de profundamente filosófico, como se misturar vinhos fosse um exercício de autoconhecimento.

Paralelamente, oficinas de harmonização enogastronómica, piqueniques entre vinhas e passeios de bicicleta permitem explorar o território com outros ritmos, em trilhos desenhados entre os bosques e os muros de pedra.
Analiticamente, o Monverde Wine Experience Hotel representa um modelo de enoturismo integrado e contemporâneo, que valoriza a qualidade do produto e a profundidade da experiência. É um espaço onde o vinho se revela como metáfora do humano, complexo, frágil, mutável, belo, uma ode à espera, à transformação, ao zelo. No fundo, o Monverde Wine Experience Hotel não se visita, decanta-se. Como os bons vinhos, só se revela a quem tem tempo para o escutar.

 

Caderno de visita
Comodidades e serviços

– Línguas faladas: português, inglês, francês
– Loja de vinhos
– Serviço de refeições assegurado pelo restaurante principal, o Monverde, com 100 lugares, e o espaço de restauração sazonal Pátio do Arinto, com 28 lugares
– Lugares de prova sentados: 30 lugares
– Sala de eventos: 120 lugares
– Salas de reuniões: Sala Executiva, até 15 pessoas, e Sala de Conferências, até 100 pessoas
– Diferentes atividades e refeições (sob consulta);
– Parque para automóveis ligeiros: 4 parques no interior da propriedade, com capacidade até 120 carros
– Parque para autocarros, com capacidade até 2 autocarros
– Posto de carregamento de carros elétricos: 4 portos de carregamento elétrico instalados no Monverde Wine Experience Hotel, com, respetivamente, 2 postos de 22Kw e 2 postos de 50 Kw
– Provas comentadas (ver programas)
– Wifi gratuito disponível por toda a propriedade
– Visita às vinhas
– Visita à adega

Eventos
Eventos corporativos: dispõe de condições para eventos corporativos até 100 pessoas
Atividades team building: organizadas à medida

Programas
Signature Tasting – 28€/pessoa
Conheça a história da família através da prova de três perfis tradicionais representativos da diversidade dos vinhos produzidos na Quinta da Lixa, com o objetivo de destacar as características únicas proporcionadas pelo terroir
Duração: 60 min

Taste the Vine – 32€/pessoa
Para quem desconhece a região dos Vinhos Verdes, bem como as castas mais tradicionais, fica o convite a embarcar nesta viagem pelos aromas e sabores que identificam cada variedade de uva através de uma prova de cinco vinhos monovarietais
Duração: 75 min

The “Inside-Out” Grape – 40€/pessoa
Esta prova é constituída pela degustação de três referências 100% Avesso de edição limitada, com o intuito de demonstrar o potencial da região para a produção de vinhos de guarda, surpreendendo pela complexidade e elegância
Duração: 60 min

Vine vs. Barrel– 65€/pessoa
Nesta prova, os hóspedes e os visitantes têm a oportunidade de experimentar vinhos extraídos diretamente da barrica, contrastando com as suas versões mais jovens e isentas de envelhecimento em madeira
Duração: 90 min

Premium Tasting – Quinta da Lixa Private Collection – 85€/pessoa
Conheça os vinhos mais exclusivos do portefólio Quinta da Lixa através desta prova de 4 vinhos remium, que exibem um perfil mais moderno e elegante
Duração: 75 min

Blending Experience – 55€/pessoa
Torne-se “enólogo por um dia”, jornada que começa no Sensory Room, o
Túnel dos Aromas, que estimula a sensibilidade e memória olfativas, seguindo-se a Varietal Tasting & Blending, uma prova isolada de cada variedade de uva, seguida do blend das suas castas favoritas, de forma a criar um vinho. Esta expedição culmina com a fase Ready, Cork, Drink!, ou seja, com o engarrafamento do vinho da sua autoria, a colocação da rolha de cortiça, a aplicação da cápsula e a personalização do rótulo
Duração: 90 min

Off-Road Tour – 45€/pessoa
Ideal para explorar as paisagens da região e conhecer as castas utilizadas na produção, enquanto desfruta dos vinhos que o portefólio apresentado pela Quinta da Lixa
Duração: 120 min

Explorer Experience – 45€/pessoa 25€/criança (5 aos 12 anos)
Explorar a propriedade onde o Monverde Wine Experience Hotel se insere e a tenha um contacto mais próximo com a vinha e a envolvente paisagística é o ponto de partida deste desafio, que continua com o Vineyard Trek, etapa que consiste num passeio guiado pela propriedade, durante o qual aprende as características de cada casta aqui plantada. Termina com o Wine & Art, momento em que lhe cabe colocar em prática a sua veia artística na realização de uma pintura de tela com a uva Vinhão, uma casta tintureira da região, a par com o Picnic Box, que permite degustar iguarias tradicionais da região, confecionadas pelo chef, juntamente com vinhos da Quinta da Lixa
Duração (com o técnico): 45 min

The Harvest Experience – 70€/pessoa 33€/criança (5 aos 12 anos)
Desfrute de um dia de vindima
Duração: 5 h

Juice Tasting – 8€/criança (5 aos 18 anos)
Enquanto os adultos desfrutam da prova de vinhos, os mais novos podem provar três sumos

Blending Experience – 16€/pessoa
Para incluir as crianças na experiência, fica o desafio para fazer o próprio blend, após a prova isolada de três sumos, seguindo-se o engarrafamento, a colocação da rolha e a personalização do rótulo, assim como com os adultos.

Condições de Reserva
Todas as experiências desenvolvidas no Monverde Wine Experience Hotel carecem de reserva, para confirmação de disponibilidade de agendamento
Consultar www.monverde.pt das restantes condições de reserva.

Contactos
Monverde Wine Experience Hotel
Quinta de Sanguinhedo 166, Castanheiro Redondo,
4600-761 Telões, Amarante – Portugal
Site: www.monverde.pt
Email: reservas@monverde.pt / geral@monverde.pt
Tel.: (+351) 255 143 100

(Artigo publicado na edição de Agosto de 2025)