Barbeito: Cascos únicos, vinhos únicos

Barbeito

Já descrevemos nesta revista o fantástico percurso de Ricardo Diogo Barbeito, que pegou na empresa familiar em que nasceu e a transformou numa das marcas mais dinâmicas do Vinho da Madeira. Apesar da notoriedade alcançada, é um homem discreto que não procura as luzes da ribalta e raras vezes faz aparato aquando do lançamento dos […]

Já descrevemos nesta revista o fantástico percurso de Ricardo Diogo Barbeito, que pegou na empresa familiar em que nasceu e a transformou numa das marcas mais dinâmicas do Vinho da Madeira. Apesar da notoriedade alcançada, é um homem discreto que não procura as luzes da ribalta e raras vezes faz aparato aquando do lançamento dos seus magníficos vinhos. Por isso foi com redobrado prazer que estivemos no lançamento recente de, nada menos, nada mais, 6 novos vinhos da Barbeito.

 

Foi o primeiro na ilha a engarrafar “cascos únicos, por regra uma ou duas vezes por ano. Agora também pela primeira vez, lançou seis ao mesmo tempo e alguns deles com vinho de uma só vinha…

 

Como não poderia deixar de ser, quando falamos de Ricardo Diogo, não se trata de vinhos sem contornos diferenciadores… São todos lançamentos da sua gama “casco único”, ou Single Cask, uma gama criada pelo produtor com assumida inspiração no exemplo das bebidas destiladas, com o whisky à cabeça. O conceito encaixa na perfeição no perfil de um produtor que gosta de produzir pequenas quantidades e de ir lançando vinhos com alguma regularidade, em alguns casos algumas vezes ao ano. O cuidado e afinação de cada casco é uma paixão do produtor, não sendo de estranhar que o rótulo de cada vinho identifique o número do casco e o, ou os, armazéns em que o vinho foi envelhecido. Com efeito, na Barbeito, cada vinho é envelhecido atendendo ao seu perfil individual, não sendo raros os casos em que, por determinado vinho precisar de maior vivacidade, acabar por ser transportado para outro local mais fresco do armazém.

Outras vezes até, um casco passa por mais do que um armazém, sempre na busca do estilo que Ricardo Diogo pretende, ou seja, vinhos com boa acidez, tendencialmente secos e muito viçosos. Outra novidade é que quase todos os vinhos agora lançados provém de vinhas específicas, identificadas nos rótulos também, ou seja, o vinho engarrafado não resulta de um lote de diferentes vinhas, como tantas vezes sucede nos Madeira. Temos por isso um Tinta Negra de uma vinha plantada a sul da ilha acima dos 550 metros de altitude, e temos também um Sercial da costa norte junto à praia. E temos também um Malvasia Cândida da Fajã dos Padres (pois só ali ela existe) na costa sul e ainda um Verdelho, neste caso Frasqueira, de vinha em latada no Arco de S. Jorge no norte da ilha. Em comum a qualidade, o exotismo e a marca da frescura vibrante do produtor.

Destaque ainda para a degustação, durante uma refeição servida no final da prova, dos vinhos tranquilos da Barbeito, todos a merecer elogios, com destaque para o Vinhas do Lanço, um Verdelho da colheita de 2021, parcialmente estagiado em barrica, do qual foram produzidas menos de 800 garrafas. No final, o privilégio de beber um copo do Barbeito 50 anos Três Amigos, um extraordinário vinho, meio doce, com pouco mais de 500 exemplares engarrafados no final de 2022.

(Artigo publicado na edição de Janeiro de 2024)

 

 

Adeus Renato

Renato Santos foi um apoiante essencial do projecto Grandes Escolhas

O nome de Renato Santos pouco ou nada dirá ao mundo do vinho, sejam profissionais ou apreciadores. No entanto, é um facto incontornável que sem ele nunca teria existido Revista de Vinhos. E que o lançamento e consolidação da Grandes Escolhas teria sido bem mais difícil. Na pequena editora, chamada Socedite, que, em 1984, me […]

O nome de Renato Santos pouco ou nada dirá ao mundo do vinho, sejam profissionais ou apreciadores. No entanto, é um facto incontornável que sem ele nunca teria existido Revista de Vinhos. E que o lançamento e consolidação da Grandes Escolhas teria sido bem mais difícil. Na pequena editora, chamada Socedite, que, em 1984, me ofereceu o primeiro trabalho a tempo inteiro enquanto jornalista, Renato Santos era sócio proeminente, responsável por toda a área gráfica (licenciado em Direito, nunca exerceu a advocacia). Nessa editora, orientei revistas de informática, caça, pesca, automóveis todo-o-terreno. Até que o Renato, farto de me ver organizar e colocar no mercado revistas sobre temas que pouco ou nada lhe diziam, me falou de lançar uma revista sobre vinhos. Ele adorava cozinhar e abrir boas garrafas. Alguns anos mais velho do que eu, dava-me lições sobre o assunto, conhecia as melhores marcas, fez-me provar, pela primeira vez, o Cartuxa, sua marca de eleição.

Renato acreditou sempre no sucesso de uma publicação de vinhos mensal e dissipava as minhas inseguranças dizendo que se eu era capaz de escrever sobre computadores, caça ou automóveis, também saberia escrever sobre vinhos. Nos seis meses que antecederam o lançamento da revista, em dezembro de 1989, acompanhou-me nas minhas viagens de aprendizagem por dezenas de produtores. Só quando a revista entrou em velocidade de cruzeiro ele se afastou mais, mas sempre comentando e criticando cada edição.

A vida dá muitas voltas, o Renato deixou a Socedite, e criou a sua própria empresa de artes gráficas, a RPO. A revista também foi passando de mão em mão até os seus dinamizadores, João Geirinhas e eu próprio, acharmos que era hora de lançar algo nosso. Tínhamos quem escrevesse, mas era preciso paginar, imprimir, e isso custa dinheiro. Quando fomos falar com o Renato Santos, vi nele aquela centelha, aquele gozo de participar novamente na criação de uma publicação de vinhos. A Grandes Escolhas superou os primeiros meses, até as receitas começarem a entrar, porque Renato Santos lhe deu crédito moral e financeiro. Tal como o fez nos tempos medonhos da pandemia, quando dos eventos cancelados colocavam tudo em risco.

É verdade que os amigos são para as ocasiões. Mas o Renato foi daqueles amigos que esteve mesmo lá nos momentos em que era preciso. Sem ele, eu nunca teria entrado neste mundo vínico que adoro, estaria a escrever sobre outras coisas. Sem ele, tudo teria sido muito mais difícil na minha “segunda vida” profissional. Há poucos dias recebi a notícia de que Renato Santos nos deixara. Haverá muitas formas de o lembrar, entre os seus muitos amigos cada um terá a sua.  Eu vou abrir uma garrafa de Cartuxa, em memória dos grandes momentos que passámos. Sei que ele iria gostar. Luís Lopes

2015 é ano de Barca-Velha

Barca - Velha

A mais recente edição de Barca-Velha, um dos vinhos mais icónicos de Portugal, irá chegar ao mercado em Junho próximo. Desde 1952, até hoje, apenas foram lançadas 21 referências, de um tinto que é o expoente máximo da Casa Ferreirinha. “Graciosidade, carácter e persistência” são alguns dos adjetivos que o enólogo Luís de Sottomayor utiliza […]

A mais recente edição de Barca-Velha, um dos vinhos mais icónicos de Portugal, irá chegar ao mercado em Junho próximo. Desde 1952, até hoje, apenas foram lançadas 21 referências, de um tinto que é o expoente máximo da Casa Ferreirinha.

“Graciosidade, carácter e persistência” são alguns dos adjetivos que o enólogo Luís de Sottomayor utiliza para descrever um vinho que destaca pela sua “impressionante capacidade de guarda”. Foi isso que ditou a decisão final de lançamento do Barca-Velha 2015.

Declarado apenas em anos verdadeiramente excecionais, o Barca-Velha é, desde a sua criação, produzido a partir de uvas selecionadas em diferentes altitudes no Douro Superior. A Quinta da Leda, com 170 hectares de vinha, dá atualmente origem à maior parte do lote, que é composto por castas tradicionais da região.

“O anúncio de um novo Barca-Velha é sempre um momento muito especial e de enorme alegria”, salienta Fernando da Cunha Guedes, presidente da Sogrape, acrescentando que “por um lado, há o orgulho de ver nascer um dos mais emblemáticos e reconhecidos vinhos nacionais e, por outro, a consciência do cuidado imprescindível para escrever um novo capítulo, nesta história sem igual no setor vitivinícola”.

A Região da Bairrada recebe VinoEuro 2024

Os Municípios da Anadia, Mealhada e Oliveira do Bairro vão ser palco da competição VinoEuro 2024 Portugal, que irá decorrer entre 22 e 25 de maio de 2024, numa organização da União das Seleções Nacionais Europeias de Futebol de Enólogos e da Associação de Futebol dos Vitivinicultores de Portugal. A competição conta com a participação […]

Os Municípios da Anadia, Mealhada e Oliveira do Bairro vão ser palco da competição VinoEuro 2024 Portugal, que irá decorrer entre 22 e 25 de maio de 2024, numa organização da União das Seleções Nacionais Europeias de Futebol de Enólogos e da Associação de Futebol dos Vitivinicultores de Portugal.

A competição conta com a participação de oito países: Portugal, Itália, Suíça, Hungria, Eslovénia, República Checa, Áustria e Alemanha. Trata-se de um evento em que as equipas de futebol são maioritariamente constituídas por vitivinicultores, que procura mostrar como o vinho e o futebol podem ultrapassar todas as barreiras linguísticas, sociais e culturais. Os encontros de futebol vão decorrer nos três concelhos, com os jogos das meias-finais a decorrer na Mealhada e em Oliveira do Bairro. A final do VinoEuro 2024 irá realizar-se no Estádio Municipal de Anadia.

Todas as seleções que competem na terceira edição do evento irão também participar num programa que contempla visitas a produtores da região, museus e outros locais de interesse turístico e cultural.

Lisboa adere à Associação de Municípios Portugueses do Vinho

O executivo da Câmara Municipal de Lisboa aprovou, por unanimidade, a proposta de adesão à Associação de Municípios Portugueses do Vinho (AMPV). Segundo José Arruda, secretário geral desta organização, “fazia todo o sentido ter, entre os nossos associados, o município de Lisboa, até porque é uma das poucas capitais do mundo com uma grande região […]

O executivo da Câmara Municipal de Lisboa aprovou, por unanimidade, a proposta de adesão à Associação de Municípios Portugueses do Vinho (AMPV). Segundo José Arruda, secretário geral desta organização, “fazia todo o sentido ter, entre os nossos associados, o município de Lisboa, até porque é uma das poucas capitais do mundo com uma grande região vitivinícola com o seu nome, que é uma das maiores do país em termos de área de vinha e de produção de vinho”. Para além disso, a cidade é cada vez mais ponto de partida para conhecer a diversidade dos vinhos da região e de um país que é um dos melhores destinos de enoturismo do mundo.

A cidade mantém, ainda hoje, alguma tradição de produção vinícola, centrada na Tapada da Ajuda, do Instituto Superior de Agronomia e, mais recentemente numa vinha situada junto ao aeroporto Humberto Delgado. Atualmente são exportadas, por ano, 50 milhões de garrafas para o mundo inteiro com a marca Vinhos de Lisboa.

Castelão: O príncipe de Palmela

Castelão, o resultado do cruzamento natural do Alfrocheiro e Cayetana Blanca (conhecida também como Sarigo e Mourisco Branco), é uma das variedades mais antigas em Portugal, mencionada desde 1531 na zona de Lamego. Foi também conhecida como Castelão Francês (e não tem nada a ver com Castelão Nacional, que é Camarate), entre outras sinonímias menos […]

Castelão, o resultado do cruzamento natural do Alfrocheiro e Cayetana Blanca (conhecida também como Sarigo e Mourisco Branco), é uma das variedades mais antigas em Portugal, mencionada desde 1531 na zona de Lamego. Foi também conhecida como Castelão Francês (e não tem nada a ver com Castelão Nacional, que é Camarate), entre outras sinonímias menos populares.
Actualmente, o IVV reconhece dois sinónimos com restrições regionais – João de Santarém na DO DoTejo e Periquita, que está intrinsecamente ligado à sua história na Península de Setúbal. Tem a ver com a propriedade Cova da Periquita, em Azeitão, onde foram plantadas as primeiras varas por José Maria da Fonseca nos meados do século XIX. A casta adaptou-se lindamente à região e afirmou-se como parte da sua identidade no que toca aos vinhos tranquilos. Na segunda parte do século passado, o encepamento tinto representava 90% da área total da vinha da Península de Setúbal, dos quais 95% era Castelão. Ainda hoje, a DO Palmela exige 66,7% de Castelão no lote. Tirando a DO Colares com Ramisco, é a maior expressão identitária oficialmente estipulada de uma casta tinta no seu terroir de excelência.

Entretanto, o reinado na vinha não se reflectiu no sucesso comercial, por variadíssimas razões, algumas mais objectivas e óbvias do que outras. Como sempre, nestas situações as castas estrangeiras e nacionais de outras regiões parecem uma salvação. Hoje é preciso ser um entusiasta para preferir uma casta rústica e tradicional às alternativas modernas. E felizmente há produtores que reconhecem as qualidades do Castelão e apostam na casta – Casa Horácio Simões, Quinta do Piloto, Sociedade Vinícola de Palmela (SVP) e um projecto conjunto com marca Trois. A SVP, directa ou indirectamente ligada aos outros projectos citados, organizou a masterclasse dedicada à casta.
Mesmo com significativo declínio em plantação, os dados mais recentes do IVV indicam que Castelão, com cerca de 3600 ha, é responsável por 44% das vinhas na Península de Setúbal. É a região com mais Castelão em Portugal.

Luís Mendes da Associação de Viticultores do Concelho de Palmela (AVIPE) contou que, de acordo com o registo da região, existem vinhas de todas as idades, incluindo 26 ha de vinhas velhas, com cerca de 90 anos, plantadas na década de 30 do século passado e 35 ha com idade média de 80 anos. A maior parte (quase 35%) das vinhas presentes hoje na região, foi plantada na última década do século passado, um pouco menos a partir de 2000 e daí para frente a casta perde terreno. Entretanto, se há 10 anos era típico plantar Syrah em vez de Castelão, agora esta tendência travou. Curiosamente (e é bom sinal), há mais gente na região a plantar Castelão; e alguns substituem as cepas velhas por novas, utilizando o material policlonal, exemplifica Luís Mendes.

 

Castelão
Luís Mendes, da Associação de Viticultores do Concelho de Palmela, conhece a casta em profundidade.

 

O senhor das areias

A serra da Arrábida cria a barreira física para os ventos do Norte e canaliza-os em direcção a Palmela. Os rios Tejo e Sado contribuem com humidade nocturna. A proximidade do mar reflecte-se em nevoeiros que trazem frescura e também humidade. Luís Mendes exemplifica que no verão, por vezes, as temperaturas podem chegar aos 40°C de dia e cair até aos 18°C à noite. Juntamente com humidade isto permite a planta a equilibrar-se em termos hídricos.
Da Palmela a Pegões, a maior parte do Castelão, incluindo as vinhas velhas, encontra-se plantada nas planícies com solo de origem arenosa, onde as uvas amadurecem bem. São poucas as plantações que ocupam os terrenos de argilo-calcário nas encostas da Serra da Arrábida. A vindima normalmente ocorre na segunda-terceira semana de Setembro e dura até a primeira semana de Outubro. Na Serra da Arrábida a maturação é mais tardia 1 semana. A janela de oportunidade de vindima no caso de Castelão é relativamente confortável.
O Castelão resiste bem às amplitudes térmicas e à falta de água o que faz uma óptima correspondência com as condições da região. Muitas das vinhas velhas não são regadas, nas vinhas mais recentes a rega é comum. O solo arenoso é pobre e esvazia-se de água muito rapidamente, mas em algumas zonas as toalhas freáticas ajudam a salvar a situação, desde que a planta consiga fazer crescer as raízes (o que se verifica nas vinhas mais velhas, bem enraizadas).

Castelão é uma casta muito produtiva, sem controlo facilmente ultrapassa os 15 tn/ha. Como é natural, esta característica fica condicionada com idade da planta. As vinhas velhas produzem cerca de 3-4-5 tn/ha, dependendo dos clones envolvidos e das características do terreno. Os solos arenosos geralmente têm menos capacidade de retenção de água e nutrientes em comparação com solos argilosos, limitando naturalmente a produtividade e promovendo maior concentração nos bagos.
Em termos agronómicos, o calcanhar de Aquiles do Castelão é a sua grande sensibilidade ao desavinho. Também é sensível à Cigarrinha Verde, uma praga móvel, difícil de controlar que ultimamente tem dificultado muito a viticultura na região. Foi referido que, apesar de ter a película rija, os cachos sofrem bastante com escaldões. No entanto, aguenta melhor a conservação do cacho do que a Trincadeira.

Visitámos uma vinha antiga plantada entre 1954 e 1956 que pertence à Casa Agrícola Monte dos Pardais, uma das sócias da SVP. No solo tipicamente arenoso, erguem-se os troncos não aramados de vigor evidente, que mesmo na altura pós-vindima com a vinha despida se apresentavam bastante imponentes. O compasso de 2,70-2,80 m permite a passagem de um trator para fazer os tratamentos fitossanitários, enquanto outras operações não podem ser mecanizadas, devido à condução da vinha. Ao contrário das vinhas novas, onde a zona de frutificação fica a 70-80 cm do solo, nesta vinha velha, os cachos não se afastam do solo mais de 40 cm o que, obviamente, dá mais trabalho, mas afecta beneficamente a maturação. Esta vinha dá 6-8 tn/ha – nada mal para uma vinha com mais de 60 anos.

 

Versatilidade comprovada

A prova, comentada por Filipe Cardoso (sócio/enólogo da SVP e da Quinta do Piloto), José Nuno Caninhas (enólogo da SVP) e Luís Simões (sócio/enólogo da Casa Horácio Simões e director geral da SVP), foi bem didáctica, permitindo sentir a versatilidade de Castelão em função das proveniências e abordagens enológicas.
Começámos por provar as amostras desta vindima de 2023. As duas primeiras foram da Casa Horácio Simões, provenientes das vinhas com 60-70 anos de sítios diferentes. Uma da vinha Cachamurrão numa zona mais fresca localizada na Serra do Louro, que leva com ventos do Norte. Outra da vinha das Oliveiras junto a Palmela, de uma zona mais abrigada e mais quente. A vinificação foi igual – em lagar com pisa a pé e com 30% de engaço. O primeiro vinho é mais imediato, de grande limpeza aromática já nesta fase (ainda não finalizou a maloláctica), taninos mais verdes, mais perfumado, com menos concentração e acidez um pouco dura no final de boca. O segundo com mais tanino maduro e mais estrutura. O vinho final é sempre o lote dos dois, proporcionando o equilíbrio.

O terceiro vinho era da vinha mais nova, com 25 anos, da Quinta do Piloto, vinificado em cubas argelinas, onde durante a fermentação as remontagens são feitas aproveitando a pressão criada pela libertação do dióxido de carbono, sem o recurso a bombas. Estava um pouco reduzido, mas com óptima estrutura de tanino, equilíbrio e textura. “Temos que arriscar até ao final da fermentação maloláctica para não tirar o vinho a limpo, tem que ficar com a borra toda” – explicou Filipe Cardoso. Seguiu o Castelão das areias da vinha que vimos hoje. Tanino mais proeminente, ligeiro CO2 ainda, mais corpo, notas de fruta preta com destaque para amora.
O quinto vinho foi do projecto Trois, com um conceito próprio. É um pas de trois dos produtores, enólogos e amigos de longa data: Filipe Cardoso, Luís Simões e José Caninhas. Para além da amizade, une-os a predileção por Castelão. Tudo a multiplicar por três – três terroirs (das areias e da serra), três barricas diferentes, três vinificações, que no final resultam num vinho especial. O 2021 ainda não está no mercado e encontra-se numa fase intermédia a precisar de garrafa, consideram os produtores. Só é lançado quando estiver pronto. Bela fruta e elegância no nariz, barrica já está bem integrada, um apontamento vegetal q.b. para acrescentar a complexidade, não há muita secura de tanino. Suculento, elegante, fresco, delicioso. Percebe-se que o estágio em garrafa lhe vai dar mais integração geral.

Península de Setúbal é a região com mais Castelão em Portugal.

Os próximos dois vinhos da Sociedade Vinícola de Palmela já se encontram no mercado. No Serra Mãe 2020 o objectivo é enfatizar os aromas da casta. A influência da madeira é muito reduzida neste caso: apenas para melhorar a percepção geral do vinho, o pH é mais alto para não dificultar a prova. O produtor vê o vinho como “mais democrático, mas belo exemplo de casta”, como refere Luís Simões. Arbusto, groselha, framboesa e novamente arbusto com flores. Bem feito, não perde identidade, nem rusticidade, mas apresenta também algumas características facilitadoras. Funciona como uma porta de entrada para o consumidor menos experiente.
O Serra Mãe Reserva 2020 tem origem na vinha mais antiga, com 12-14 meses em barrica, sendo 10-20% barrica nova que o vinho aguenta bem graças à maior extracção. Aqui já exploraram a rusticidade, algumas rugas de tanino ficam-lhe bem. Notas carnudas, especiaria, estrutura, mas não há muita untuosidade, é enxuto, atlético, com óptima acidez. É claramente para outro tipo de consumidor.
Esta vinha dá origem ao Botelharia 2017, com o estágio mais prolongado em garrafa. Foi engarrafado em 2019. Mentol, eucalipto, esteva bem presentes no aroma para além da fruta. O volume de boca corresponde à textura, não peca por falta de frescura, musculado, mas não é difícil, até é bem sedutor e envolvente.
O Trois 2015 está no momento óptimo para beber, um Castelão feito propositadamente para ser consumido mais tarde. Tanino domesticado; complexo, mentol, cânfora, ainda fruta fresca (ameixa e cereja), cominhos, terra. De grande polimento e ainda com muita pujança. Secura elegante do tanino a pedir proteína, mas não a encortiçar a boca.
O Horácio Simões Reserva 2014, de um ano difícil com chuva na vindima, mostrou-se distinto e cheio de carácter com mentol, fruta negra, ameixa, ervas aromáticas, manjericão, tabaco e chá na vertente aromática; tanino com certa dureza, mas com os ângulos já arredondados, o que sabe bem com a frescura que o vinho apresenta. Não é pujante, sabe a vinho com certa rusticidade, bonita e bem-vinda. Óptima acidez. Clássico.

O Quinta do Piloto Reserva 2014, também feito em cubas argelinas, com 40% de engaço para fixar as antocianas, por isso a cor ainda está muito viva. Castanhas, notas mentoladas e terrosas. Contido no sabor, sendo bem vocacionado para comida.
O Quinta do Piloto Reserva 2012, foi o primeiro vinho com a marca desta propriedade. As temperaturas no verão foram sem excessos, vindima normal a partir da segunda semana de Setembro. Vinhas velhas. Barrica nova 100%. Este vinho resultou também num late release como Garrafeira 2012. Nos bons anos guardam-no para mostrar a capacidade de envelhecimento do Castelão. Muito especiado, com cravinho, tabaco, couro, eucalipto e alecrim. Tanino a agarrar as gengivas, bem seco, menos fruta, mais vegetal, couro e especiaria no final.
O Serra Mãe 2012, feito em balseiro e barricas usadas. Não foi dos mais harmoniosos no nariz, apresentando algumas notas de ferrugem; acidez bem marcante coloca o vinho fora do consenso. O Serra Mãe 2005 era o quarto vinho desde o início do projecto em 1999. Antigamente só o faziam em anos de topo. Tem bela complexidade aromática, mirtilo, mentol, eucalipto, tabaco. Vivo, denso, impetuoso, com tanino potente, rústico e robusto, com uma elegância própria que ganhou com idade.

Castelão

 

Dentro da versatilidade da casta, deve existir uma segmentação clara e uma mensagem correcta ao consumidor.

 

O que fica do Castelão?

A masterclasse proporcionada pela SVP-Sociedade Vinícola de Palmela a um grupo de jornalistas e profissionais HoReCa cumpriu por inteiro, oferecendo uma visão abrangente sobre o passado, presente e futuro da casta, na vinha, na adega, no mercado.
Historicamente, enquanto o Castelão mais polido e com menos cor levava ao desinteresse do consumidor e do produtor, o Castelão mais rústico e com carácter chegava ao mercado cedo demais. No entanto, a casta é tremendamente versátil e, quando plantada nos locais certos, muito consistente na sua qualidade. Mas dentro da sua versatilidade, deverá existir uma segmentação clara desde a vinha à abordagem enológica, pois para conquistar novamente o consumidor é necessário ter foco na mensagem. Quem procura vinhos mais fáceis, prontos e confortáveis tem de os ter, até porque a casta presta-se muito bem para isto. E quem busca os tintos sérios, personalizados, estruturados e longevos, mas sem nunca perder elegância, frescura e sofisticação, tem no Castelão de Palmela uma variedade com imenso potencial. Os vinhos estão aí a demonstrá-lo.

(Artigo publicado na edição de Janeiro de 2024)

Graham’s desafia bartenders de 17 países a criar um cocktail único

Graham’s bartenders

Pelo terceiro ano consecutivo, a Graham’s vai por à prova a criatividade de bartenders e mixologistas. Após o sucesso das edições anteriores, a conceituada casa de vinho do Porto – propriedade da Symington Family Estates – volta a promover a Graham’s Blend Series Cocktail Competition, desafiando os participantes a criar um cocktail único, que destaque […]

Pelo terceiro ano consecutivo, a Graham’s vai por à prova a criatividade de bartenders e mixologistas. Após o sucesso das edições anteriores, a conceituada casa de vinho do Porto – propriedade da Symington Family Estates – volta a promover a Graham’s Blend Series Cocktail Competition, desafiando os participantes a criar um cocktail único, que destaque o perfil de um dos vinhos que compõe a Blend Series da Graham’s – Blend Nº5 ou Blend Nº12. Os interessados deverão submeter o nome e o conceito do cocktail, bem como uma fotografia, até ao dia 23 de Fevereiro. Posteriormente, os candidatos seleccionados deverão preparar as suas criações em frente a um painel de jurados na eliminatória nacional, no dia 26 de Março. A prova terá lugar em Lisboa, no Red Frog, estabelecimento que integra a lista The World’s 50 Best Bars.

Além de receber uma garrafa de 4,5 litros de Graham’s Porto Tawny 10 Anos, o vencedor da competição nacional ficará apurado para representar Portugal na final global, entre 19 e 22 de Maio, no Porto. A prova, que premeia o talento e originalidade de mixologistas de todo o mundo, tem vindo a crescer, permitindo levar uma nova abordagem ao vinho do Porto cada vez mais longe. A terceira edição fica marcada pela participação de um número recorde de países, com 17 bartenders de diferentes nacionalidades a lutar pelo primeiro prémio: mil euros e o fornecimento dos vinhos da Blend Series durante seis meses (máximo de três caixas por mês).

Graham’s bartendersMais informações sobre as inscrições e a competição disponíveis em https://blendseriescomp2024.grahams-port.com/.

Sustentabilidade dos Vinhos do Alentejo destacada

O Programa de Sustentabilidade dos Vinhos do Alentejo (PSVA) foi distinguido nos prémios V d’Or 2024, na categoria “Best Joint Initiative”, que o destaca como melhor iniciativa conjunta do setor vitivinícola mundial. A cerimónia de entrega de prémios decorreu em Paris, na “La Nuit des V’Or”, evento que marcou o arranque da Wine Paris & […]

O Programa de Sustentabilidade dos Vinhos do Alentejo (PSVA) foi distinguido nos prémios V d’Or 2024, na categoria “Best Joint Initiative”, que o destaca como melhor iniciativa conjunta do setor vitivinícola mundial. A cerimónia de entrega de prémios decorreu em Paris, na “La Nuit des V’Or”, evento que marcou o arranque da Wine Paris & Vinexpo Paris, uma das principais feiras internacionais de vinhos.

Esta iniciativa celebra a excelência dos agentes do setor em termos de desempenho e desenvolvimento sustentável, destacados em cinco categorias: iniciativa coletiva, iniciativa de transmissão, novas soluções para negócios, experiência de marca e marketing ecologicamente responsável. A organização distinguiu o PSVA “pela atenção aos pormenores, equilíbrio e rigor, bem como pela capacidade de promover a biodiversidade e, ainda, fortalecer a reputação dos Vinhos do Alentejo em todo o globo”.

José Maria da Fonseca renova equipa de enologia e viticultura

José Maria da Fonseca

A empresa de Azeitão acaba de anunciar a nova equipa que vai dirigir os destinos da enologia e viticultura da casa. Com a anunciada retirada de Domingos Soares Franco da liderança da enologia após 40 vindimas, houve necessidade de refrescar as equipas com novos elementos. Assim, embora se mantenha ligado sobretudo às edições especiais de […]

A empresa de Azeitão acaba de anunciar a nova equipa que vai dirigir os destinos da enologia e viticultura da casa. Com a anunciada retirada de Domingos Soares Franco da liderança da enologia após 40 vindimas, houve necessidade de refrescar as equipas com novos elementos. Assim, embora se mantenha ligado sobretudo às edições especiais de moscatéis de Setúbal e aos vinhos da Colecção Privada, Domingos disse à Grandes Escolhas que entendeu que estava na hora de deixar os trabalhos quotidianos ligados à produção dos vinhos. Desta forma entrou uma nova geração de enólogos e viticultores que vão dar continuidade ao trabalho das gerações anteriores. São eles:  José Maria Bettencourt (Enólogo Principal), Francisca Figueira (Enóloga Coordenadora), Paulo Amaral (Enólogo Residente Adega José de Sousa), Tiago Mau (Enólogo Assistente e o mais recente membro da equipa) e Edgar Gomes (Viticultor Principal).

A direcção da Enologia e Viticultura ficará entregue a Paulo Hortas, que transita da anterior equipa e com muitos anos de trabalho junto de Domingos Sores Franco. Entretanto a 7ª geração da família já está há algum tempo a trabalhar na gestão e comunicação da José Maria da Fonseca (JMF), empresa familiar que completará, em 2034, 200 anos de existência. Com uma forte presença nos mercados interno e externo, nomeadamente em cerca de 70 países, a JMF tem o seu foco principal nas regiões de Setúbal e Alentejo.

No âmbito do fecho da sua carreira como enólogo da casa, Domingos Soares Franco concedeu à Grandes Escolhas uma entrevista que será publicada na edição de Março. (JPM)

Preço dos vinhos portugueses para exportação sobe em 2023

Em 2023, o valor das exportações de vinhos portugueses foi de 928 milhões de euros, o que corresponde à venda de 319 milhões em litros de vinho para os mercados externos, de acordo com dados divulgados pela ViniPortugal. No mesmo período, verificou-se um aumento do preço médio por litro para 2,90 euros, o que representa […]

Em 2023, o valor das exportações de vinhos portugueses foi de 928 milhões de euros, o que corresponde à venda de 319 milhões em litros de vinho para os mercados externos, de acordo com dados divulgados pela ViniPortugal. No mesmo período, verificou-se um aumento do preço médio por litro para 2,90 euros, o que representa um crescimento de 0,66% em relação a 2022.
No ano passado as vendas de vinhos portuguesas para a União Europeia foram de quase 407 milhões de euros, um decréscimo de 2,40% em valor e 3,35% em volume em relação a 2022 e, para o resto do mundo, mais de 521 milhões de euros (uma descida de 0,17%% em valor e 0,54% em volume).
França foi o país que mais importou vinhos portugueses, no valor de 103 milhões de euros, seguida dos Estados Unidos, com um valor de 100 milhões de euros. Em terceiro lugar encontra-se o Reino Unido, com 88 milhões de euros.
Em 2023, o mercado brasileiro de vinhos portugueses teve um crescimento exponencial, para 80 milhões de euros, mais nove milhões de euros do que em 2022. No mesmo período, Portugal ultrapassou a Argentina, passando a ocupar o segundo lugar nas importações de vinhos para o Brasil em volume.
“Como já tínhamos previsto e em grande parte devido ao contexto mundial que estamos a viver, as exportações de vinhos portugueses tiveram uma ligeira quebra em 2023, mas menor do que a esperada”, diz Frederico Falcão, presidente da ViniPortugal, a propósito dos dados divulgados. Segundo este responsável, o comércio mundial de vinhos caiu muito em 2023, devido à conjuntura internacional, o que levou ao decréscimo das exportações. Mas como os dados dos concorrentes do sector nacional de vinhos a nível mundial apontam para quedas muito superiores, Portugal aumentou a sua quota no mercado mundial de vinhos no ano passado.