Enoturismo: Caminhos Cruzados

Caminhos Cruzados

A história do vinho no Dão é mais do que uma simples sucessão de acontecimentos. É um emaranhado intrincado de natureza, cultura e tempo. A vinha, arraigada nas encostas escarpadas e nos planaltos graníticos, é um testemunho vivo da relação ancestral entre o homem e a terra. As raízes que se aprofundam no solo, buscando […]

A história do vinho no Dão é mais do que uma simples sucessão de acontecimentos. É um emaranhado intrincado de natureza, cultura e tempo. A vinha, arraigada nas encostas escarpadas e nos planaltos graníticos, é um testemunho vivo da relação ancestral entre o homem e a terra. As raízes que se aprofundam no solo, buscando a água e os nutrientes, espelham a própria busca do homem por significado e pertencimento.

Mosaico de tradições

A cultura vínica do Dão é um mosaico de tradições transmitidas de geração em geração. As mãos calejadas dos vinhateiros, moldadas pelo trabalho árduo, são a expressão de um saber ancestral, um conhecimento tácito que se perde nas brumas do tempo. A vindima, celebração da colheita, é um rito de passagem que marca o ciclo da vida e da natureza. É nesse momento que a uva, fruto da terra e do sol, se transforma em néctar divino.

As suas paisagens exuberantes e aldeias pitorescas constituem o palco onde a história se desenrola. Os castelos e as quintas, testemunhas silenciosas do passado, guardam os segredos de um tempo em que o vinho era sinónimo de poder e riqueza. As adegas, com suas barricas de madeira e aromas inebriantes, são templos dedicados ao culto de Baco. A vinha, com as suas paisagens exuberantes e a variedade de castas, é a primeira tela do artista vinícola. A escolha do local de cultivo, a orientação das fileiras, a poda e a adubação são decisões que moldam o caráter do vinho. O terroir, conjunto de fatores naturais que influenciam o sabor da uva, é a paleta de cores do artista, oferecendo uma infinidade de nuances e tonalidades.

O vinho do Dão é mais do que uma bebida, é uma expressão da alma da região. Cada garrafa conta uma história, um reflexo do terroir, do clima e do homem que o criou. A diversidade de castas e solos confere, aos vinhos do Dão, uma personalidade única e inconfundível. A cor, o aroma e o sabor são elementos que compõem a sua estética. Um vinho tinto encorpado e complexo pode ser comparado a uma pintura barroca, rica em detalhes e contrastes. Um vinho branco fresco e mineral pode lembrar uma aquarela, leve e delicada.

A filosofia do vinho ensina-nos a apreciar a simplicidade das coisas, a saborear cada momento e a encontrar beleza nas pequenas coisas. O ato de degustar um vinho é uma experiência sensorial e espiritual que nos conecta com a natureza e com a história. É um convite à reflexão sobre a vida e a passagem do tempo.

Na pincelada da minha escrita transborda um sentimento artístico pela felicidade que os vinhos do Dão me proporcionam. Nesta região sinto no vinho uma forma de expressão artística que une a natureza e a cultura.

Ao brindar com um vinho do Dão, celebramos não apenas a excelência de um produto, mas também a riqueza de uma cultura e a beleza de uma região. A vinha, o tempo e a alma do Dão estão inextricavelmente ligados, formando um património único e valioso que devemos preservar para as futuras gerações.

Inovação na tradição…

As minhas viagens pelo mundo do Enoturismo em Portugal têm-me proporcionado momentos inesquecíveis e gratificantes, ao conhecer a história e a tradição das regiões vitivinícolas, ao descobrir vinhos únicos, caminhar por vinhas exuberantes, onde a beleza se une à qualidade dos vinhos, admirar paisagens deslumbrantes e conhecer pessoas apaixonadas por essa arte milenar.

Na minha “árdua” felicidade de conhecer o país enoturístico, numa jornada introspetiva, numa espécie de convite à filosofia, à contemplação da existência e à busca por significados profundos no mundo do Vinho e porque não dizer da Gastronomia, escolhi o Dão para esta viagem.

Nesta região somos convidados a um diálogo íntimo com a natureza. A terra paciente oferece os seus frutos. A videira, símbolo da vida e da renovação, tece uma narrativa milenar, onde cada folha é um capítulo escrito pelo tempo. A cada passo, somos lembrados da nossa própria finitude e da impermanência de todas as coisas. O Dão é isto. É fantasia, é mistério. Obriga-me a viver como se amanhã fosse o último dia da minha vida.

A escolha estava feita – a Quinta da Teixuga e a sua Adega Caminhos Cruzados, encaixa-se “como uma luva“ neste espírito filosófico, na busca interminável do saber e do sabor. Nesta adega o vinho, que é o resultado de um processo alquímico entre a terra, o sol e o trabalho humano, revela-se como uma metáfora da vida. Assim como o vinho amadurece em barricas, transformando-se numa bebida complexa e multifacetada, nós também evoluímos com o tempo, moldados pelas experiências e pelas relações que estabelecemos.

Paixão pelo vinho

A Adega Caminhos Cruzados é mais do que apenas um local de produção de vinho. É um verdadeiro manifesto de paixão pelo vinho e pela sua região. Fica na Quinta da Teixuga, situada em Vilar Seco, concelho de Nelas, no distrito de Viseu, propriedade de 30 hectares no coração do Dão, e destaca-se pela sua arquitetura moderna e arrojada, que se funde perfeitamente com a paisagem circundante, desenhada pelo Arquiteto Nuno Pinto Cardoso

Na chegada à Adega Caminhos Cruzados percebe-se, de imediato, que se entra num espaço com claras preocupações estéticas e integradoras na paisagem rural. De forma natural, cria de imediato uma elevada expectativa do que se vai encontrar. A inovação da arquitetura funde-se com a tradição vínica da Região do Dão, como a de dois amantes num eterno tango, alicerçado num abraço apaixonado. A tradição vitivinícola guia a inovação pelos caminhos da história, enquanto esta, com sua energia vibrante, insufla nova vida nas raízes ancestrais. É nessa dança harmoniosa que a criatividade encontra a sua inspiração, e o futuro a sua essência.

Encontrei o Luis Filipe, coordenador do Enoturismo da Caminhos Cruzados, na empresa desde 2019, que orgulhosamente explica que começou como embaixador/promotor da marca na zona centro do país. Sente-se a sua paixão pelo que faz e representa. A quinta localiza-se em pleno planalto do Dão, em Terras de Senhorim, que são excelentes para a plantação de videiras e produção de uva, salienta. As amplitudes térmicas locais são apropriadas para a boa maturação das uvas e o seu lento amadurecimento dá origem a vinhos de aromas ricos e boa acidez, elegância e estrutura, diz também.

A Caminhos Cruzados surge do amor que a família Santos, natural de Nelas, têm à Região do Dão. É em 2012 que Paulo Santos, empresário têxtil, decide voltar a dar vida a esta tradição e criar uma empresa familiar, dirigida por Lígia Santos, a sua filha, que troca Lisboa e a advocacia pelo vinho e ruma a Nelas para dirigir os destinos do projeto.

Paulo Santos, que fazia vindimas em família e com amigos, desde cedo, produzindo vinho caseiro num pequeno lagar, salienta que, na adega produz vinho de qualidade, com uma vertente de tradição aliada ao modernismo e constante diferenciação que o mercado exige”. Desde o início, que a visão da Caminhos Cruzados foi surgir como “O Novo Dão” e a sua adega emergiu das vinhas da Quinta da Teixuga em 2017. Em algumas delas, cuja idade média é de 50 anos, podemos encontrar as castas tintas Touriga Nacional, Tinta Roriz, Jaen e Alfrocheiro e brancas Malvasia-Fina, Encruzado e Bical. É a partir desta riqueza varietal que são feitos os vinhos na adega. Os caminhos cruzados da vida podem proporcionar algo mágico e fantástico, experiências e vivências diferentes que nos transformam e enriquecem a alma. São como um labirinto cheio de surpresas e desafios, de complexidade e imprevisibilidade. É desta paleta filosófica que surge a ideia de designar a Adega de “Caminhos Cruzados”. “A sua estética inspira-se no logótipo da empresa, duas linhas que se cruzam, e encontra-se perfeitamente integrada no ambiente”, sustenta Luis Filipe com um brilho nos olhos de quem adora o que faz.

Um tesouro escondido

Escondida entre as serras do Caramulo, Montemuro, Buçaco e Estrela, a Quinta da Teixuga é um refúgio para os amantes do vinho que buscam experiências autênticas. Com 42 hectares de vinhas, a propriedade oferece um panorama único da viticultura portuguesa, onde a natureza e a tradição se entrelaçam.

As vinhas, situadas entre os 400 e 700 metros de altitude, beneficiam de um terroir excecional. Os solos xistosos e graníticos, aliados ao clima mediterrâneo influenciado pela altitude, conferem aos vinhos uma mineralidade e complexidade únicas.

Com o objetivo de preservar a alma do Dão, a Quinta da Teixuga investe na recuperação de vinhas velhas, com mais de 50 anos. Essas vinhas, verdadeiros tesouros, guardam um património genético único que se traduz em vinhos com uma identidade própria.

Em paralelo, a Quinta da Teixuga aposta na plantação de novas vinhas, com variedades que complementam as castas tradicionais do Dão, como a Touriga Nacional, Alfrocheiro, Jaen, Tinta Roriz, Encruzado, Bical, Cercial, Malvasia Fina e Verdelho. Consciente da importância da preservação do meio ambiente, a Quinta da Teixuga iniciou, em 2019, um projeto de conversão de uma parcela de vinha para a agricultura biológica.

 

Uma experiência única de Turismo, Gastronomia e Vinhos

Visitar a Quinta da Teixuga e a sua adega é uma viagem no tempo. Ao percorrer as vinhas e a adega, os visitantes podem conhecer de perto o processo de produção dos vinhos e apreciar a beleza da paisagem. Provar os seus vinhos é uma boa oportunidade para descobrir a sua complexidade e elegância.

Na adega Caminhos Cruzados todas as atividades começam com uma visita guiada, uma imersão nas paisagens e processos vitivinícolas da região do Dão. O circuito tem início no exterior, próximo das vinhas, onde os visitantes são contemplados com uma vista panorâmica da Serra do Caramulo. Nesse momento é apresentada a história da empresa, desde sua fundação, em 2012, até os dias atuais, além de uma breve e objetiva explicação sobre os vinhedos, que se estendem para além da Quinta da Teixuga. A visita inclui uma introdução às características geográficas e vitivinícolas da região do Dão.

Em seguida, os visitantes são conduzidos ao setor de produção, localizado no subsolo da adega. Neste espaço é explicada cada etapa do processo, desde a colheita até o processamento das uvas. O tour passa então pelas cubas de inox, onde são abordadas as diferenças entre os tipos de fermentação, destacando as distinções entre as cubas cilíndricas e as troncocónicas.

A visita continua pela área de enchimento e rotulagem, onde os participantes conhecem os processos de finalização do produto e podem observar o laboratório, onde a enóloga Carla Rodrigues realiza análises detalhadas e define os lotes finais dos vinhos.

O ponto alto da visita é a deslumbrante sala das barricas, que impressiona todos os que percorrem o seu interior. Neste espaço, os visitantes são apresentados aos diferentes estágios de envelhecimento em madeira, um processo essencial para a qualidade dos vinhos produzidos na adega. No final, as pessoas são direcionadas para o local onde participarão na atividade escolhida, encerrando uma experiência enriquecedora no mundo do turismo de vinhos.

Viagem gastronómica

A cozinha do restaurante está sob o comando do talentoso chef Miguel Vidal, que combina ingredientes regionais com influências da sua experiência internacional, oferecendo uma verdadeira viagem gastronómica, que destaca a autenticidade dos produtos locais com toques inspirados nas passagens por vários países.

Entre as suas especialidades encontram-se pratos como Bacalhau com broa, Escabeche de truta, Vitela em púcara de barro preto e o tradicional Arroz de carqueja em vinha d’alhos, que encantam pelo sabor e apresentação cuidadosa.

Além do cardápio regular, o chef oferece a possibilidade de se realizar experiências gastronómicas personalizadas. Com reserva prévia, pode criar menus exclusivos, ajustados às preferências e ocasiões específicas dos clientes, seguindo um conceito tailor made que garante um toque único em cada refeição. Para aproveitar esses almoços ou jantares especiais, acompanhados pelos vinhos da adega, é necessário agendar com pelo menos 24 horas de antecedência.

Seja através de uma visita breve ou de uma imersão completa, a Caminhos Cruzados proporciona uma experiência única: a alegria que surge da perfeita harmonia entre o vinho, a natureza e a inovação na tradição.

Caminhos Cruzados
A cozinha do restaurante está sob o comando do talentoso chef Miguel Vidal, que combina ingredientes regionais com influências da sua experiência internacional.

 

CADERNO DE VISITA

 COMODIDADES

– Kids friendly

– Línguas faladas: inglês, espanhol

– Loja de vinhos

– Diversas salas com capacidades máximas de 8 a 40 pessoas para diferentes atividades e refeições

– Parque para automóveis ligeiros e autocarros

– Provas comentadas (ver programas)

– Conceito open kitchen com o chef Miguel Vidal

– Turismo acessível

– Wifi gratuito disponível

– Visita às vinhas

Slow tourism (conceito de receber sem apressar o visitante, com abertura para poder caminhar livremente pela quinta ou apreciar um vinho à lareira, por exemplo)

EVENTOS

Corporativos

Atividades team building

Privados variados, incluindo aniversários, reuniões familiares, despedidas de solteiro (a) e batizados

 

PROGRAMAS DE ENOTURISMO

VISITA À ADEGA & PROVA DE 3 VINHOS

Duração média da experiência: 60 minutos

Horários: 11h/14.30h/16.30h de segunda a sábado

Limite mínimo de visitantes: 2

Limite máximo de visitantes: Não tem

Preço: 15€/Pax

VISITA À ADEGA, VINHA & PROVA DE 3 VINHOS PREMIUM

Tábua de enchidos e queijos. A tábua vegetariana necessita de marcação prévia de 24 h.

Duração média da experiência: 90 minutos

Horários: 11h/14.30h/16.30h de segunda a sábado

Limite mínimo de visitantes: 2

Limite máximo de visitantes: 28 sentados e 40 de pé

Preço: 30€/Pax

WINE AND FOOD

Atividade composta por visita à adega/quinta seguida de almoço vínico. As provas são harmonizadas com a gastronomia local. Opção vegetariana. necessita de marcação prévia de 48h

Duração da visita e almoço: 120-150 min

Horários: 12.30h de segunda a sábado

Limite mínimo de visitantes: 2

Limite máximo de visitantes: 28 sentados e 40 de pé

Preço: Almoço 50€/Pax; Jantar 55€/Pax

ENOLOGIA CRIATIVA

Nesta atividade o visitante poderá criar e engarrafar o seu próprio vinho, loteando e produzindo amostras para chegar ao perfil que gosta mais. No final leva a garrafa, para partilhar a experiência com os amigos ou família.

Duração média da atividade: 120 min

Horários: 11h/15h de segunda a sábado

Limite mínimo de visitantes: 2

Limite máximo de visitantes: 10 (equipas de 2)

Preço: 40€/Pax

PIQUENIQUE NA VINHA

Inclui prova de vinhos, um cesto de piquenique com uma garrafa de vinho, uma garrafa de água, compotas, pão regional, biscoitos, enchidos, queijo e fruta.

Duração da visita: Ilimitada.

Horários: A partir das 10.30h de segunda a sábado

Limite mínimo de visitantes: 2

Limite máximo de visitantes: Não tem

Preço: 40€ (2 Pax)

PROVA VINHO E CHOCOLATE

Nesta experiência, que agradará aos amantes de vinhos e de chocolates, são harmonizados cinco bombons com quatro vinhos.

Duração média: 90 min.

Horários: 11h/14.30h/16h de segunda a sábado

Limite mínimo de visitantes: 2

Limite máximo de visitantes: 20

Preço: 25€/Pax

PEDDY PAPER NA VINHA

O objetivo é passar um momento divertido com familiares e amigos a descobrir pistas no meio de uma vinha, através da leitura e descodificação de um road-book. Após o jogo, recupera-se a energia com a prova de um vinho na adega.

Duração média do jogo: 90 min

Horários: 11h/15h de segunda a sábado

Limite mínimo de visitantes: 2

Limite máximo de visitantes: Não tem

Preço: 20€/Pax

JOGO DOS AROMAS

O Jogo dos Aromas permite, aos jogadores, pôr à prova a sua capacidade de identificar os aromas do vinho, envolvidos em contexto vitícola.

Duração média do jogo: 90 min

Horários: 11h/14.30h/16.30h de segunda a sábado

Limite mínimo de visitantes: 2

Limite máximo de visitantes: 24

Preço: 20€/Pax

WINE SURPRISE

Partilha de o espaço da adega criar e oferecer surpresas aos outros.

WORKSHOPS

Possibilidade de participar em workshops temáticos criados pela Caminhos Cruzados, que são anunciados num futuro próximo.

EVENTOS CORPORATIVOS

Espaço único para eventos especiais, team buildings e formações com possibilidade de conhecer a adega e os seus vinhos.

CONTACTOS

Adega Caminhos Cruzados

Quinta da Teixuga, Estrada Municipal Algeraz – Carvalhal Redondo

3520-011 Nelas – Portugal

Tel.: +351 232 940 195

Email: enoturismo@caminhoscruzados.net

Responsável pelo Enoturismo – Luis Filipe

Notas

Aos domingos e feriados é necessária marcação prévia.

Preços especiais para crianças.

Nota: o autor escreve segundo o novo acordo ortográfico

Altas Quintas: Um regresso em grande

Altas Quintas

A Altas Quintas é uma marca alentejana bem conhecida e apreciada, estabelecida em 2004. Pertencia à família de João Lourenço que, em 2017, vendeu a propriedade (vinhas e adega) à Symington Family Estates, ficando com a marca e os stocks de vinho. Assim, manteve a actividade de viticultor e produtor de vinhos, embora numa escala […]

A Altas Quintas é uma marca alentejana bem conhecida e apreciada, estabelecida em 2004. Pertencia à família de João Lourenço que, em 2017, vendeu a propriedade (vinhas e adega) à Symington Family Estates, ficando com a marca e os stocks de vinho. Assim, manteve a actividade de viticultor e produtor de vinhos, embora numa escala menor, adquirindo a Herdade do Porto da Boga, localizada igualmente nas encostas da Serra de São Mamede. No entanto, por motivos de saúde, teve de abandonar esta actividade. Como António Ventura acompanhava a família neste projecto vitivinícola desde 2009, foi a ele que recorreram para lhes ajudar na venda da propriedade. E o enólogo sabia quem seria a pessoa ideal para dar continuidade ao projecto.

Vontade de investir

Recuando alguns anos (António Ventura já conta com mais de quatro décadas de carreira), houve um rapazinho que fez três vindimas com ele na Adega da Vermelha, na região de Lisboa. Este jovem chamava-se Ricardo Machado que, após a experiência dura da vindima, ficou “com o bichinho” do vinho. O facto de ter viticultores na família, desde o seu bisavô, também contribuiu para esta paixão e António Ventura tornou-se no seu mentor em tudo relacionado com vinhos. Ricardo formou-se em Engenharia de Gestão do Território e o seu rumo profissional levou-o para fora do país. Regressou há poucos anos como empresário de sucesso, viajado, com experiência internacional e contactos no mundo inteiro, mas sobretudo com vontade de investir em projectos no seu país natal.

Aconteceu como nos filmes, com duas linhas do enredo a desenvolverem-se de forma independente até se cruzarem num determinado momento, a partir do qual a história toma um novo rumo. António Ventura falou ao Ricardo Machado na possibilidade de adquirir o projecto Altas Quintas. Visitaram a propriedade e o empresário decidiu avançar com a sua aquisição, o que aconteceu no outono do ano passado.

Para além de António Ventura na qualidade de consultor, juntou-se, ao projecto, o enólogo Tiago Correia como responsável de produção, a contar com o apoio do enólogo-residente, Diogo Vieira. Todo o acompanhamento da vinha está à responsabilidade do viticólogo José Luís Marmelo, profundo conhecedor das vinhas e terroir de Portalegre.

A herdade compreende 156 hectares de área, dos quais 27 hectares de vinha (e mais cinco hectares em breve) na encosta da Serra de São Mamede. Ali, a Altas Quintas pratica uma viticultura regenerativa e de protecção integrada, deixando de mobilizar o solo, fazendo coberturas melhoradoras. Tudo isto para levar o melhor do terroir, preservando-o para o futuro. Ao mesmo tempo, a empresa faz parcerias com produtores que têm boas parcelas em locais especiais e acompanham-nos continuadamente, desde a poda até à vindima. Desta forma, a Altas Quintas tem acesso a uvas em todos os distintos terroirs da Serra de São Mamede (orgulhando-se de ser a única empresa a consegui-lo), em altitudes e exposições diferentes. Na adega, bem equipada, tiveram de expandir a área de vinificação de brancos e planeiam aumentar o espaço de estágio em barricas e talhas. Tudo isto para conseguir vinificar, em separado, todas as diferentes parcelas e assim avaliar o potencial de cada terroir.

A mente irrequieta de Ricardo Machado e a sua grande capacidade de identificar oportunidades de negócio, bem como a abertura para estabelecer parcerias e unir esforços para o bem comum, prometem muitas novidades, algumas tradicionais, outras mais arrojadas, nos próximos anos. Já começaram a produzir os vinhos kosher (quatro referências, cerca de 30 mil garrafas), porque claramente há mercado para isto, sobretudo nos EUA. Nos seus planos está igualmente fazer uma espécie de “vinho romano” adoçado com mel, outrora chamado mulsum.

Muitos projectos em marcha

E há mais ideias em carteira. Ricardo Machado tem outra propriedade, de grande dimensão, na região da Beira Alta, a Herdade de Vale Feitoso, com 7300 hectares, onde está a apostar na exploração florestal, pecuária e cinegética, neste último caso desenvolvendo uma indústria de tratamento e comercialização da carne de caça (veados, gamos e javalis, sobretudo) para lojas e restaurantes mais sofisticados. Nesta propriedade também irão plantar vinha, que poderá ir até 100 hectares. E dois hotéis em Monfortinho complementam a oferta e abrem uma vertente turística. Outro projecto em desenvolvimento fica nos Açores, mais precisamente na Ilha de São Jorge, em dois hectares de vinha na Fajã do Cavalete. E, obviamente, haverá algo na região de Lisboa, junto às origens de Ricardo Machado, local onde, com o seu pai, possui já 100 hectares de vinha. “Estou a divertir-me imenso com estes projectos”, confessa, com um sorriso, Ricardo. “Muita gente pergunta porque fui investir no interior. Mas em Altas Quintas e em Vale Feitoso eu não me sinto no interior, afastado de tudo. Estou próximo de Lisboa e de Madrid, no centro da Ibéria”, remata.

Para promover a visibilidade da marca, a Altas Quintas patrocinou já a Porsche Cup C6 Bank, que teve lugar em Portugal, no autódromo do Estoril, em Junho deste ano. E, em Setembro passado, três vinhos Altas Quintas acompanharam o jantar anual de uma das mais antigas e prestigiadas sociedades gastronómicas do Reino Unido, fundada em 1899, a Réunion des Gastronomes. É a primeira vez, desde a fundação da sociedade, que os vinhos tranquilos portugueses acompanham este jantar.

Voltando aos vinhos agora apresentados à imprensa. O espumante Viúva Le Cocq Reserva 2020 é feito de Verdelho, com estágio 18 meses antes de dégorgement. O Altas Quintas branco de 2023 é composto por Verdelho e Arinto em partes iguais, provenientes de vinha plantada a 600 metros de altitude. O estágio decorreu em barricas de carvalho francês durante seis meses. O lote do Altas Quintas Reserva branco de 2022 é composto pelas mesmas castas, mas o Verdelho entra com 60%. A fermentação teve lugar em barricas de carvalho francês, onde permaneceu por mais quatro meses, continuando depois nas cubas de inox. Já o Altas Quintas tinto 2022 resulta de um lote de Touriga Nacional (60%), Syrah (20%) e Alicante Bouschet (20%). Após maceração pré-fermentativa a frio durante 24 horas, a fermentação decorreu em pequenos lagares de 5 Ton, com pisa e delestage. O estágio posterior durou 12 meses em barricas de carvalho francês e depois em garrafa, antes de sair para o mercado. Para o Altas Quintas Reserva 2020 entrou Alicante Bouschet, com 50%, Touriga Nacional, com 30% e Syrah, com 20%. A maceração pré-fermentativa foi mais longa, durante 48 horas. A fermentação também decorreu em pequenos lagares de inox com delestage diária e depois ainda uma maceração pós-fermentativa durante três meses. O estágio em barrica contou com 16 meses e mais em garrafa. Para mais tarde ficou a apresentação dos topos de gama da casa, o Reserva-Do e o Obsessão.

A influência da altitude e do carácter da Serra de São Mamede sente-se claramente nestes vinhos, assegurando a sua frescura e o potencial de guarda. Altas Quintas, agora na versão 3.0, está de volta, e em grande.

(Artigo publicado na edição de Dezembro de 2024)

Valle de Passos: O renascer de uma marca

Valle de Passos

O concelho de Valpaços localiza-se no distrito de Vila Real, em Trás-os-Montes, a leste da serra da Padrela, entre os rios Torto e Caldo. Com 31 freguesias e aproximadamente 15.000 habitantes, possui uma altitude média de 600 metros, o que contribui para a produção de vinhos com elevada frescura e mineralidade, fruto também dos seus […]

O concelho de Valpaços localiza-se no distrito de Vila Real, em Trás-os-Montes, a leste da serra da Padrela, entre os rios Torto e Caldo. Com 31 freguesias e aproximadamente 15.000 habitantes, possui uma altitude média de 600 metros, o que contribui para a produção de vinhos com elevada frescura e mineralidade, fruto também dos seus solos graníticos.
A agricultura é uma das principais atividades económicas do concelho. O azeite, a batata, a castanha, o trigo, a fruta e claro, o vinho, são as principais produções agrícolas, sendo também importante a criação de gado. A cultura da vinha e do vinho, para além da importância histórica, assume também uma excecional importância social e económica, pela variedade e relevo das atividades que lhe estão ligadas. O nome de Valpaços, segundo alguns historiadores, é um derivado precisamente do vinho produzido neste vale durante o período Romano, denominado “vinho passum”, que seria um dos grandes vinhos do Império Romano. Daí o nome de vale passum, depois vale passos, hoje Valpaços. Curiosidades históricas que reforçam a aposta do grupo na região, “com o objetivo de fazê-la crescer de uma forma profissional e sustentada, associando o vinho aos enchidos e gastronomia”, reforça o administrador Álvaro Lopes.

A identidade da região

Tudo se iniciou em 2017 com a aquisição da Quinta Dona Adelaide, sala de eventos, ainda hoje palco para esse efeito, que será rebatizada Quinta Valle de Passos, concluindo assim o rebranding. Em paralelo é construído o hotel, cuja abertura coincide com a pandemia, em 2020. A compra da marca Valle de Passos e o lançamento dos primeiros vinhos culmina com a tão aguardada afirmação da presença do grupo Terras & Terroir na região de Trás-os-Montes. “Não conseguimos comprar a quinta e as uvas, mas ficámos com a marca Valle de Passos, identitária da região”, realça Álvaro Lopes. Na calha está previsto, junto ao Olive Nature, a construção de uma adega (neste momento as uvas são vinificadas em Montalegre) e a plantação de vinha própria. Para a criação dos vinhos Valle de Passos foi escolhido o enólogo Francisco Gonçalves, um dos técnicos que melhor conhece os terroirs e as castas de Trás-os-Montes, cuja vasta experiência na região é por demais reconhecida. “Queremos pegar no que é nosso e transportá-lo para a garrafa. Mostrar a identidade da região, pautando pela diferenciação através da utilização das castas que fazem parte dessa mesma identidade”, salienta o enólogo.

Valle de Passos

A Tinta Amarela e a responsabilidade social

Os vinhos são produzidos a partir de uvas adquiridas a viticultores selecionados. São cerca de 10 hectares de vinha, com predominância de Tinta Amarela, alguma Touriga Nacional e Tinta Roriz, enquanto a uva branca provém da freguesia de Carrazedo de Montenegro. A preocupação social é latente, pois trata-se de uma região com baixo rendimento económico, que vive da agricultura e tem muita dificuldade em escoar as uvas. “Pagamos melhor as uvas e ajudamos a alimentar famílias, comprando-as a quem não tem quem as compre”, conta-nos Hugo Fonseca, diretor de produção do grupo. Os primeiros quatro vinhos produzidos têm, por isso, matéria-prima de qualidade, tratada com carinho por quem é da região, com a casta Tinta Amarela como porta-estandarte. É a base de dois tintos e um rosé. O branco é feito de Gouveio, Arinto e Viosinho. “A Tinta, plantada em altitude e nestes solos, permite criar vinhos concentrados, mas simultaneamente leves, com enorme frescura”, destaca o enólogo Francisco Gonçalves. São quatro vinhos de uma boa estreia, que mostram o terroir. “Queremos que sejam vinhos daqui. Tal como os outros que produzimos noutros locais do país, é muito importante que falem o lugar. Esta região está pouco explorada, tem um elevado potencial e somos o primeiro grande grupo a apostar a sério em Trás-os-Montes”, refere Daniel Campos, diretor comercial do grupo. São vinhos gastronómicos, muito frescos, que acompanharam de forma brilhante o almoço preparado com mestria pelo chefe Adão Costa, harmonizando-os com uma seleção de iguarias transmontanas. “É muito importante apresentar qualidade nos vinhos entrada de gama. A base é fundamental para o cliente ficar agradado e querer experimentar novas referências”, remata Álvaro Lopes. E nós concordamos.

Nota: O autor escreve segundo o novo acordo ortográfico

(Artigo publicado na edição de Dezembro de 2024)

Monte Xisto: Nicolau de Almeida, tudo em família

Nicolau de Almeida

O nome Nicolau de Almeida carrega uma grande história, como sabemos. A associação com o criador do Barca Velha é óbvia, mas o nome é bem mais antigo e remonta ao séc. XIX, quando havia uma empresa de Vinho do Porto, criada em 1870 e inscrita como exportadora em 1907, com o nome de A. […]

O nome Nicolau de Almeida carrega uma grande história, como sabemos. A associação com o criador do Barca Velha é óbvia, mas o nome é bem mais antigo e remonta ao séc. XIX, quando havia uma empresa de Vinho do Porto, criada em 1870 e inscrita como exportadora em 1907, com o nome de A. Nicolau de Almeida e Co.. A empresa foi posteriormente vendida à Real Companhia Velha e oficialmente extinta em 1973.
Na sede actual da empresa familiar que João criou com os filhos – Mafalda, Mateus e João -, em Gaia, estão expostos alguns rótulos dessa empresa de Porto, imagens deliciosas de uma estética que fez época no sector e teve, nos materiais de promoção da Ramos Pinto, um excelente exemplo.

Peso da história

Mas a família não carrega só o peso da história. Também carrega o peso das jóias, só que estas não estavam em exposição nas instalações que visitámos. Expliquemo-nos.
Duas famílias de vinho cruzaram-se quando Maria José Ramos Pinto Rosas casou com Fernando Moreira Pais Nicolau de Almeida, pais de João Nicolau de Almeida. O ramo Rosas vinha de uma tradição de ourives e sobressai o nome de José Rosas (pai de Maria José, avô de João) que, após estudos em Londres, regressou a Portugal em 1903 e interessou-se pela tradição da filigrana portuguesa aplicadas em esmaltes. Foi-lhe confiada a recuperação das jóias da Coroa em 1942. Em 1919 comprou e recuperou a Casa de Ronfe, em Lousada, onde nasceu o Verde que hoje provámos. A quinta de Ronfe está no ramo Rosas, primos, mas são os Nicolau de Almeida que fazem e comercializam o vinho.

Estamos então perante uma família desprendida, pouco apegada às pedras preciosas, mais preocupada com as preciosidades que da quinta do Monte Xisto, em Foz Côa, poderiam fazer nascer. O projecto começou do zero. A quinta era “virgem”, sem vinha e sem prévia utilização. Ali se decidiu plantar vinha e o projecto começou, e bem, tacteando, com quantidades moderadas que era preciso mostrar e o crescimento só foi ditado pela aceitação da marca no mercado. Deveria ser sempre assim, mas sabemos todos que há quem tenha outra visão, chamar-lhe-íamos a “mania das grandezas”, e se abalance num voo sem rede que, por norma, acaba mal. Aqui começaram com 3000 garrafas de Monte Xisto, depois subiram para as 5000 e estabilizaram a produção, dependendo da colheita, entre as 8 e 10 000 garrafas. No plantio não se procurou fazer diferente, antes mostrar que, também aqui, algumas castas clássicas poderiam dar bons resultados, como a Touriga Nacional e a Touriga Francesa, acrescidas de Sousão. A espinha dorsal do vinho assenta, desde o início na Touriga Nacional, sempre com uma percentagem entre os 50 e 60% do lote.

Qualidade consistente

O facto de a vinha estar no Douro Superior tem vantagens. Desde logo o ambiente seco é inibidor das doenças da vinhas, como oídio e também o míldio, e o clima tende a gerar uvas de qualidade praticamente todos os anos. Cicadela sempre houve, e vão-na tratando preventivamente com infusões e, para já, estão a ter bons resultados. É, assim, em virtude das condições climáticas, que a marca não teve qualquer interrupção desde que nasceu, em 2011. A prova mostrou que há, de facto, uma constância de qualidade, o perfil tende a ser muito semelhante, ainda que se possa notar aqui dois momentos importantes. Por um lado, a primeira colheita (2011) revelou um estilo mais evoluído, com os licorados a começarem a marcar terreno. Nada que impeça uma boa prova agora, mas a dizer-nos que a guarda prolongada em cave pode ser desaconselhada. Por outro, a mudança do estágio, das barricas para os foudres, marca claramente uma pequena nuance no estilo, com a madeira a perceber-se mais bem integrada no vinho desde que os depósitos maiores começaram a ser usados, a partir da colheita de 2019. O vinho ganhou um ar mais sério e misterioso, mas com um perfeito equilíbrio na boca.

Mais recentemente plantaram cepas de branco, com a aposta na Rabigato, de há muito uma casta apadrinhada por Mateus desde os tempos em que esteve ligado ao projecto Xistos Altos. As uvas destinam-se ao futuro Órbita branco. Plantaram também mais Tinta Francisca e Tinto Cão para a marca Oriente. A Tinto Cão era muito acarinhada pelo pai João quando, ainda na Ramos Pinto, se aventurou a fazer um Douro tinto apenas com a Tinto Cão, corria o ano de 1981. Nunca foi comercializado mas, como se vê, o “bichinho” ficou lá.

Nicolau de Almeida

Grande harmonia

A grande conclusão da vertical que fizemos não deixa dúvidas: enorme consistência de estilo e qualidade, um modelo encontrado que agora urge preservar. Diria que, à parte o 2011, todos os vinhos estão a dar excelente prova, com uma grande harmonia de aromas e sabores. Um prazer que não depende da idade.
Aproveitámos o momento para provar um Verde que tem origem numa quinta do ramo Rosas da família, em Lousada, e que tem como objectivo chegar um dia às 20.000 garrafas. Tem a originalidade de ser um varietal de Trajadura, casta pouco vista a solo, mas João sempre lhe apreciou o equilíbrio e a acidez mais moderada, até porque, como nos disse, “nunca gostei daquela acidez cortante dos Vinhos Verdes”. Por isso este branco faz maloláctica, uma prática muito pouco habitual na região. O rótulo reproduz o de 1935, em exposição nas instalações de Gaia.

Para completar a prova, ainda tivemos direito a um Porto branco seco que a empresa produz, com baixa graduação. Estava bem mais interessante do que da primeira vez que o tínhamos provado.
Um projecto de família, com os pés assentes no Douro e sala de visitas em Gaia porque, como se sabe, produzir bem é preciso, mas ainda mais necessário é vender e tornar a qualidade percebida pelo consumidor. Parece simples, mas é bem complicado.

(Artigo publicado na edição de Dezembro de 2024)

Estive Lá: Voraz – Cozinha com identidade

Voraz

Ē, desde há largos anos, que venho acompanhando o trajecto do Chefe Tiago Emanuel Santos, ex-professor de geografia que se apaixonou um dia pela cozinha e nunca a mais a largou. Os seus antecedentes académicos pesam bastante naquilo que nos chega à mesa quando provamos a sua comida fortemente identitária, com respeito absoluto pelo produto […]

Ē, desde há largos anos, que venho acompanhando o trajecto do Chefe Tiago Emanuel Santos, ex-professor de geografia que se apaixonou um dia pela cozinha e nunca a mais a largou. Os seus antecedentes académicos pesam bastante naquilo que nos chega à mesa quando provamos a sua comida fortemente identitária, com respeito absoluto pelo produto e pela relação com os seus fornecedores. E sente-se na forma como privilegia o local em detrimento do exótico e permanece fiel às suas raízes e às tradições em que cresceu.
A boa notícia, para os seus muitos admiradores, entre os quais me incluo, é que o Tiago, que já andou um pouco pelas sete partidas do mundo, se estabeleceu, há cerca de um ano, de armas e bagagens no Barreiro, e faz uma cozinha acessível, convivial, plena de sabores, cores e perfumes que nos remetem para recantos esquecidos da nossa memória, mas com um toque que nos baralha e desafia.
No mercado municipal do Barreiro, renovado e arejado, o Voraz ocupa quatro bonitos “corners”, estendidos em outros tantos balcões por entre as frutas legumes, os talhantes e as peixeiras do 1.º de Maio. Um dos espaços é dedicado ao sushi e à cozinha asiática, com Chefe próprio, onde se privilegia o peixe português sempre que possível, mas estava fechado no dia da nossa visita.
Sobrou-nos, afinal, aquilo que nos motivou a nossa ida: provar a “cozinha de território” do Tiago e do seu jovem Chefe, Bruno Xavier, que nos fez a honras da casa. A ementa está dividida em duas partes: uma dita “para partilhar” e outra “para devorar”. Mas isso é um eufemismo, porque afinal todas se podem partilhar (e nós fizémos isso) e todas são para devorar (oh se são!).

Começámos logo bem, com um couvert de primeira, com pão de centeio, manteiga dos Açores (uma das paixões não dissimuladas do Tiago) e azeitonas marinadas. Aqui o desafio é conter-nos, para não perdermos o apetite para o que vem a seguir. Aconselhados pelo Xavier, fomos para o talharim de choco com creme de castanha e barriga de porco crocante, uma das novidades recentemente introduzidas na carta. Como o nome indica, o choco vem cortado em fatias finas e o creme de castanha, cozido em caldo de frango, envolve, de forma harmoniosa, o conjunto a que os apontamentos da barriga de porco dão a graça ao conjunto. Brilhante foi prato seguinte, as vieiras com cogumelos shitake e molho wafu. Foi uma explosão de sabores na boca que nos deixou rendidos. A seguir veio a chora de bacalhau em arroz carolino cremoso de caras do dito, pleno de untuosidade e delicadeza. Quisemos provar ainda a língua de vaca corada em caril com tomate seco e maçã verde, outro prato que nos surpreende e desafia. Já cheios com tanta voracidade, a vontade era saltar as sobremesas. Mas o Tiago insistiu que provasse o pudim Abade de Priscos e confirmasse que também, nos doces, o Voraz pede meças aos melhores.

Não seria justo terminar sem falar dos vinhos, outra das paixões do Tiago Emanuel Santos, que já se aventurou a fazer um vinho nos Açores em parceria com um produtor local. Aqui a lista assenta sobretudo nos vinhos da Península de Setúbal (pensar local, mais uma vez), com propostas que fogem ao óbvio e ao dejá vu, mas fazem sentido em matéria de harmonização com esta cozinha, ao mesmo tempo simples no conceito e complexa em sabores e texturas. E tudo isto por preços que já não se usam.

Voraz
Mercado Municipal 1.º de Maio, Barreiro
Tel.: 961 838 235
Encerrado ao Domingo e Segunda- feira
Horários: 12:30 – 15:00; 19:30 – 23:00

Monte d’Oiro com marcas novas

Monte d’Oiro

O projecto foi iniciado por José Bento dos Santos e, na altura, ninguém o referenciava como estando ligado à produção vinhos. De facto, a ligação era mais emocional e gastronómica, uma vez que era comprador habitual de vinhos, sobretudo franceses, e a sua longa experiência entre tachos e fornos ajudavam, depois, a que os vinhos […]

O projecto foi iniciado por José Bento dos Santos e, na altura, ninguém o referenciava como estando ligado à produção vinhos. De facto, a ligação era mais emocional e gastronómica, uma vez que era comprador habitual de vinhos, sobretudo franceses, e a sua longa experiência entre tachos e fornos ajudavam, depois, a que os vinhos ganhassem mais esplendor com a sofisticação culinária que praticava. A quinta foi adquirida em 1987 e, com pequena área de vinha e objectivos ainda incertos, estudou-se o terreno, consultou-se quem sabia, analisaram-se castas e estilos e conseguiu-se chegar ao primeiro vinho, em 1997. Fechou-se assim o primeiro ciclo da história da quinta. Na primeira vindima participou o filho, Francisco, no mesmo ano em que entrou para a faculdade, ajudando o pai na quinta, mas sem qualquer intuito de vir a ser o continuador.

De 1997 a 2007 abriu-se um novo ciclo, com a construção da adega, houve um sucesso óbvio junto da crítica e dos consumidores, continuando a fase da experimentação. A ligação ao célebre produtor do Rhône, Michel Chapoutier, e a Grégory Viennois, abre um novo ciclo a partir de 2007. Planta-se muito mais vinha, inicia-se a experimentação em bio e Francisco vê-se cada vez mais envolvido. Houve um clic? Houve sim, como nos contou.
Quando foi pai e por via da profissão da mulher ser freelancer e não ter licença de parto, Francisco teve direito a cinco meses de licença, o que o levou a ter mais empenho na quinta, também porque Sophie Mrejen (Directora de marketing) também estava de licença de parto. A passagem do testemunho de pai em filho foi natural e óbvia e Francisco ficou a tempo inteiro a partir de 2012.

Fica sempre a pergunta: a passagem a bio valeu a pena? Há diferenças significativas? Francisco não tem dúvidas sobre a valia do método, pela maior resistência das plantas às adversidades climáticas. Mas alerta que isso só é possível porque tem alguém que passa todo o dia nas vinhas, controlando tudo o que se passa. Reconhece o mérito do bio mas, também diz, “é impossível marcar uma reunião com o João Duarte (o homem da viticultura), já que ele nunca está no escritório…”.

Actualmente estão a entrar na quarta década, agora com 30 ha de vinha, o que levou também a que se alargasse o portefólio para entrar na distribuição moderna: há agora a marca Monte d’Oiro, onde pontificam castas nacionais, o que se tornou importante, sobretudo nos mercados externos, e uma nova marca, Oiro, com uma pepita no rótulo, que podem ser varietais, com uvas das vinhas mais novas. A nova coqueluche é o Cabernet Franc e, diz Francisco, “não têm conta as garrafas desta casta que provámos de todo o mundo para perceber o que era e o que deveríamos fazer, claro, com a Graça Gonçalves, a nossa enóloga. O meu pai também participou nessa fase, que foi muito entusiasmante”.

Em termos de mercados externos, a China é um dos principais destinos do Reserva tinto. “Chegam a ir 15 000 garrafas de uma vez”, mas o vinho está um pouco por todo o lado, com a Mistral (Brasil) a ser a importadora mais antiga. Mas também tem vinho nos EUA, Canadá, Suíça. Hoje ainda se estão a lamber as feridas causadas pelo COVID 19, com perdas brutais na facturação. Mas a recuperação está em marcha. O ex-libris da casa? Continua a ser o Syrah do Monte d’Oiro Reserva, “apesar de não ser uma casta portuguesa”. Ao contrário de muitas vozes reprovadoras noutras regiões, aqui continua-se também a apostar na Tinta Roriz, a tal variedade que tem tanto de enigmática e maravilhosa, como de traiçoeira. E Francisco arrependeu-se da decisão de abandonar o trabalho que tinha nas águas de Portugal? “Nem pensar, nem me vejo a fazer outra coisa. Adoro este trabalho”, responde. Isto para o pai, confesso melómano, deverá ser (dizermos nós) música celestial…

(Artigo publicado na edição de Dezembro de 2024)

 

 

ENOTURISMO: ALIANÇA UNDERGROUND MUSEUM

Enoturismo Aliança

A história da Região da Bairrada remonta a tempos antigos, com evidências sólidas de ocupação humana desde a pré-história. Ao longo dos séculos, esta região encantadora tem sido moldada e influenciada por uma miríade de povos e culturas fascinantes. Desde tempos imemoriais, romanos, visigodos e mouros deixaram a sua marca indelével na rica tapeçaria cultural […]

A história da Região da Bairrada remonta a tempos antigos, com evidências sólidas de ocupação humana desde a pré-história. Ao longo dos séculos, esta região encantadora tem sido moldada e influenciada por uma miríade de povos e culturas fascinantes. Desde tempos imemoriais, romanos, visigodos e mouros deixaram a sua marca indelével na rica tapeçaria cultural da Bairrada. No entanto, não se pode falar sobre esta parte do mundo sem mencionar a tradição de produção de vinho que floresceu nas suas encostas ensolaradas.
A Bairrada situa-se na região centro de Portugal, entre o rio Vouga e o rio Mondego, abrangendo parte dos distritos de Aveiro, Coimbra e Leiria. Com um clima mediterrânico, apresenta invernos suaves e verões quentes e secos. É caracterizada por uma paisagem diversificada, com planícies, colinas e densas florestas de carvalhos. O clima ameno e a proximidade ao oceano Atlântico contribuem para as suas condições ideais para o cultivo das vinhas, sendo que a altitude média, de 200 metros, também influencia a maturação das uvas, resultando em vinhos de qualidade singular.
As vinhas da Bairrada existiam na Idade Média, quando o vinho que originavam era valorizado como um tesouro inestimável, tendo a região desempenhado um papel importante nas rotas comerciais de vinho que percorriam a Europa. A história desta região é verdadeiramente fascinante, e cada pedaço do seu solo conta estórias de uma época passada, que continuam vivas ainda hoje na sua tradição vitivinícola.

A ORIGEM
A influência de diferentes culturas e tradições moldou significativamente a paisagem desta região, dando origem a uma variada e abrangente gama de práticas e técnicas de vinificação. Da influência romana à moura, da era das grandes explorações marítimas ao período de industrialização, diversos acontecimentos moldaram as características e a identidade única dos vinhos Bairrada. Atualmente, a região é conhecida tanto pelas suas tradições enraizadas, quanto pela busca constante por inovação e excelência. Os viticultores da Bairrada preservam as técnicas tradicionais de cultivo e vinificação, ao mesmo tempo que adotam tecnologias de ponta e práticas sustentáveis. Isso traduz-se na produção de vinhos reconhecidos nacional e internacionalmente. A utilização de castas autóctones, aliada ao saber fazer dos viticultores locais, dá origem a vinhos distintos e autênticos, com equilíbrio e aromas complexos. A diversidade do terroir bairradino, com solos argilosos e calcários, contribui para o caráter único e a expressão de cada vinho produzido na região.

TERRAS E TERROIRS
Com as suas colinas ondulantes e vales férteis, a região possui uma beleza natural incomparável. Com condições de solo únicas, a Bairrada oferece um ambiente propício para a produção de vinhos com caráter autêntico. A combinação entre as características geográficas e as condições do solo dá origem a vinhos de sabores e aromas únicos, que os tornam verdadeiramente especiais.

Além disso, a orografia da Bairrada desempenha um papel fundamental na proteção das vinhas, com as suas colinas a abrigarem-nas contra ventos fortes, proporcionando um ambiente mais estável para o seu cultivo. Essa proteção natural contribui para a qualidade e a maturação adequada das uvas. Com verões quentes e invernos amenos, as vinhas desfrutam das melhores condições para o seu desenvolvimento equilibrado ao longo de todo o ano, originando vinhos que combinam harmoniosamente acidez, doçura e complexidade aromática. Em resumo, a paisagem diversificada, as condições do solo e a proximidade ao oceano Atlântico fazem da Bairrada uma região vitivinícola verdadeiramente única. Possuidora de castas intrigantes e complexas de diferentes cores, aromas e sabores, esta região é um caso internacional sério pela longevidade dos seus vinhos, com saliência para os da casta Baga, a joia da coroa da Bairrada. São encorpados e distintos, com uma acidez equilibrada que confere frescor e uma grande capacidade de envelhecimento. Nas tintas destacam-se também a Touriga Nacional, Castelão, Alfrocheiro, Merlot, Cabernet Sauvignon e Pinot Noir, entre outras. Nas castas brancas destacam-se a Maria Gomes, Bical, Arinto, Cercial e Chardonnay.
A par dos vinhos, a Bairrada é também conhecida por ter uma das Sete Maravilhas da Gastronomia Portuguesa, o Leitão à Bairrada, que origina um caso sério de peregrinação, diria de paragem obrigatória a quem passa perto, para o degustar. Recordo-me bem dessa paixão existir na minha família, que nunca deixava de fazer uma pausa para isso em qualquer deslocação ao Sul. E até mesmo quando as saudades batiam, lá estávamos a degustar o delicioso pitéu num dos bons restaurantes que ficam naqueles “sagrados” cinco km da Estrada Nacional 1, que abrangem os territórios dos concelhos da Mealhada e de Anadia.

A Bairrada é realmente um território abençoado, também pela sua tradição de produzir espumantes com grande carácter, muitos deles com base na sua principal casta tinta, a Baga, o que faz dela um destino único, que me faz feliz. Calcorrear o território em qualquer dos bons “cantos” da região e ouvir a frase celestial, “Vamos beber uma tacinha?”, não se experiencia em mais lado nenhum de Portugal.
Na Bairrada sinto-me em casa. Ao virar da esquina encontro produtores de espumante de nível internacional, o que me enche de orgulho e faz-me voltar constantemente. Imbuído na necessidade de ser feliz e com o sentimento impregnado de saudade de néctares que me preenchem o corpo e a alma, decidi rumar à Bairrada para visitar um dos produtores mais icónicos da Região, diria do país, as Caves Aliança, atualmente designada de Aliança Vinhos de Portugal.

ARTE, VINHO E PAIXÃO
As caves Aliança foram fundadas, em 1927, por 11 associados, com o objetivo produzir vinhos de qualidade na região da Bairrada. A empresa passou por diversas fases de crescimento e expansão ao longo das décadas, tornando-se numa das maiores e mais respeitadas adegas da região. Os investimentos realizados em tecnologia e inovação permitiram-lhe aumentar a sua capacidade produtiva e a qualidade dos seus vinhos, consolidando a sua posição no mercado nacional e internacional.

Em 2007 foi adquirida pelo Grupo Bacalhôa, que percebeu o seu potencial de desenvolvimento e crescimento. Para além da profissionalização e da inovação nos produtos e serviços, sem nunca perder de vista a essência e a patine que as caves possuíam, mudou o nome da empresa para Aliança Vinhos de Portugal, salientando assim a sua vocação exportadora, como salienta Paulo Costa, administrador da Bacalhoa Enoturismo, S.A. Mas para integrar um mercado tão competitivo como o dos vinhos e desenvolver atividade de enoturismo, havia que ser inovador e disruptivo. “Neste contexto, a inclusão de momentos culturais traria o toque da diferenciação que procurávamos”, refere. Assim, face ao amor pela arte e cultura e a paixão incontrolável por colecionar de Joe Berardo que, ao longo da sua vida, reuniu muitas peças únicas, algumas relacionadas com a história e cultura portuguesa, o Grupo Bacalhôa decidiu, em boa hora, integrar um espólio significativo de peças dessa coleção nas caves, para constituir o Aliança Underground Museum, desde 2010 um dos projetos mais inovadores de Portugal. Na realidade, “o que se pretende com este empreendimento é que seja conhecido, além-fronteiras, pelo seu caracter distintivo e diferenciador e pela sua simbiose perfeita entre vinhos, arte e cultura, para ser capaz de atrair mercados internacionais”, afirmou orgulhosamente e de forma muito sentida Paulo Costa.

Em conversa fluída, este administrador confessou-me que o Enoturismo é um desafio que nunca pensou experienciar, pois tinha funções noutra área. Abraçou o desígnio de gerir toda atividade com algum ceticismo pessoal, que rapidamente se transformou em paixão. O Grupo Bacalhôa tem já uma forte tradição e experiência nesta atividade, com resultados muito positivos quer na promoção e comercialização de vinhos, quer sobretudo na dinamização das unidades que constituem o Grupo – Bacalhôa Vinhos de Portugal, Aliança Vinhos de Portugal, Quinta do Carmo e o Bacalhôa Buddha Eden (somente visitas).
Ao longo dos anos, o acervo foi crescendo e tornou-se num verdadeiro tesouro para a preservação da identidade do país. O espaço conta com oito coleções permanentes, que envolvem áreas como a arqueologia, etnografia, mineralogia, paleontologia, azulejaria, cerâmica e estanhos de múltiplas origens e espécies, num encontro de povos, lugares, crenças e culturas em perfeita simbiose com os vinhos, espumantes e aguardentes produzidos pela empresa, um verdadeiro êxtase de cultura e vinhos. Além disso, as caves promovem regularmente eventos culturais, como concertos, exposições temporárias e espetáculos de dança, sendo um polo de difusão cultural na região.

Através do apoio à arte e à cultura, as Caves Aliança contribuem significativamente para a preservação e promoção da identidade portuguesa, enriquecendo a experiência dos visitantes e fortalecendo os laços com a comunidade local. É neste quadro conceptual que a Aliança Vinhos de Portugal oferece uma experiência de enoturismo completa, incluindo visitas guiadas pelas instalações, onde as pessoas podem aprender a história destas caves até ao dia de hoje, o processo de produção vinho e a importância da região na qualidade dos produtos vínicos finais. Além disso, os turistas podem participar em degustações dos vinhos da Aliança Vinhos de Portugal, tendo uma imersão completa no universo Vitivinícola da região. As visitas são todas orientadas por profissionais formados e capacitados para garantir uma experiência enriquecedora e inesquecível aos visitantes.
Em tom de “provocação”, questionei se estava perante um Museu com Adega ou uma Adega com Museu? “É claramente uma Adega com Museu”, disse, de forma perentória, o enólogo Francisco Antunes, diretor de enologia da Aliança Vinhos de Portugal desde 1993 e responsável pelos vinhos das regiões dos Vinhos Verdes, Douro, Beira Interior, Dão e Bairrada do Grupo Bacalhôa, assim como dos vinhos espumantes e das aguardentes. A Aliança Vinhos de Portugal possui um espaço museológico, onde as galerias que formam as caves de vinhos partilham o espaço com as obras com tempo e sabedoria, esclarece.

“O Aliança Underground Museum tem, sobretudo, a capacidade natural de transportar os visitantes para vários palcos culturais do mundo, na prática para o imaginário universal”, explica Paulo Costa com a convicção de que a empresa contribui decididamente para a imagem positiva e de qualidade da oferta de enoturismo da região e do país.
Mas a atividade de enoturismo só é possível com a preocupação constante de elaborar vinhos de grande nível e de tipologia diversificada, respeitando o passado com a visão necessária e adequada, para ganhar o presente sem nunca descurar o futuro, a médio e longo prazo. Neste âmbito, a Aliança apresenta um portefólio de vinhos diversificado que está ao dispor de quem visita o espaço. Tudo é possível provar. Aqui o cliente é o protagonista da história.

Enoturismo Aliança

CONHECIMENTO E PRAZER
A visita inicia-se na Sala das Artes, onde se realiza a apresentação da empresa e do que os visitantes vão usufruir. Mal se entra nas caves percebe-se, de imediato, que o visitante vai ser elevado para o imaginário, já que a experiência de imersão em obras de arte desperta emoções e proporciona reflexões sobre outras vivências e tradições. O ambiente de um museu convida frequentemente à contemplação, estimulando a imaginação e permitindo uma conexão profunda com diferentes épocas, culturas e ideias.
O percurso desenrola-se por várias coleções: Arqueológica, Etnográfica Africana, Escultura Contemporânea do Zimbabué, Minerais, Paleontológica, Azulejaria, Cerâmica das Caldas e Índia, com realce para as peças únicas e irrepetíveis de Bordalo Pinheiro. Mas as caves servem sobretudo para que os vinhos adormeçam ao som do silêncio, do tempo e da sabedoria.
O mundo maravilhoso dos vinhos em estágio é, de facto, uma experiência sensorial e poética, onde as barricas de carvalho transmitem histórias silenciosas e profundas. Cada uma carrega consigo o mistério do tempo, da transformação e da paciência.

O vinho que repousa nelas não amadurece apenas fisicamente. Também adquire camadas de significado e simbolismo que traduzem o terroir e a sabedoria da enologia. O aroma amadeirado, o ambiente sereno e o conhecimento de que o vinho está em constante metamorfose sugerem uma reflexão sobre a passagem do tempo e a arte da criação. Cada visitante, ao observar as barricas, pode ter sua própria interpretação, criando pensamentos únicos e imaginativos, inspirados pelas promessas de sabor e história que o vinho em estágio guarda. É o que sinto quando atravesso a sala das barricas que guardam os oitocentos mil litros de aguardente, uma visão única que só se pode encontrar aqui.

A Aliança Vinhos de Portugal possui, ainda, cerca de milhão e meio de garrafas de vinho, 70% das quais são espumantes que aguardam pacientemente a sua abertura. São verdadeiras joias líquidas em preparação, à espera do momento certo para se revelarem. O processo de segunda fermentação em garrafa, método clássico que ocorre nestas caves silenciosas, é quase uma dança invisível entre o tempo e a matéria, onde cada bolha captura o espírito da celebração. A paciência envolvida na sua criação reflete o cuidado e a dedicação do enólogo, que compreende que o tempo é o ingrediente essencial para a perfeição. Assim, cada garrafa de espumante é uma obra-prima, aguardando o instante ideal para brindar a vida com sua essência vibrante e inesquecível.

A visita culmina na loja, onde se tem a oportunidade de vivenciar de perto toda a beleza enológica dos vinhos, agora tangível, impregnada de tradições, usos e costumes. Neste espaço, cada garrafa torna-se um reflexo da herança cultural que a moldou, oferecendo não apenas um produto, mas uma conexão direta com a história e os terroirs da região.
A Aliança Vinhos de Portugal, com as suas caves e o museu, oferece uma experiência singular que une vinho, arte e cultura em perfeita harmonia. É um verdadeiro templo do tempo, onde o passado, o presente e o futuro se encontram. Cada barrica e cada garrafa repousa sob a inspiração de obras de arte cuidadosamente selecionadas, transformando a experiência de degustação e prova em algo que transcende o paladar, chegando ao imaginário e à sensibilidade de quem vivencia o local. Não se limita a proporcionar degustações, mas também experiências sensoriais profundas, onde cada visita é uma celebração da vida, do conhecimento e da beleza. É a espetacularidade de um encontro entre o mundo enológico e as artes, elevando a experiência a uma dimensão verdadeiramente memorável.

Enoturismo Aliança

CADERNO DE VISITA

COMODIDADES
– Kids friendly
– Línguas faladas: espanhol, inglês e francês
– Loja de vinhos
– Várias Salas de provas (16 a 100 pax)
– Várias Salas de refeição em regime exclusividade (20 a 300 pax)
– Parque para automóveis – 70 viaturas e três autocarros
– Provas comentadas (ver programas)
– Turismo acessível
– Wifi disponível
– Visita às vinhas (a pedido)

EVENTOS
– Eventos familiares (casamentos, batizados, aniversários)
– Eventos corporativos
– Atividades team building

ALIANÇA UNDERGROUND MUSEUM

OPÇÃO 1 – 6 € p/pessoa
Visita Guiada à exposição Aliança Underground Museum
Duração 01h30
Grátis para crianças até aos 12 anos de idade (inclusive)
Requer número mínimo de 2 participantes

OPÇÃO 2 – 8 € p/pessoa
Visita Guiada ao Aliança Underground Museum
Pãezinhos recheados com Leitão (2 unidades por pessoa)
Flute de Espumante ALIANÇA
Duração 01h30
Requer número mínimo de 2 participantes

OPÇÃO 3 – 27 € p/pessoa
Visita Guiada ao Aliança Underground Museum
Sandes de Leitão (Duas unidades por pessoa)
Espumante Aliança Baga Bairrada Reserva Bruto
Espumante Aliança Reserva Tinto Bruto
Duração 02h00
Crianças até aos 12 anos de Idade (50% desconto)
Requer número mínimo de 10 participantes

DIAS – Segunda a Domingo (encerra 1 de janeiro, 25 de dezembro)
IDIOMAS – Português, Inglês, Espanhol e Francês
Requer marcação prévia por telefone, fax ou e-mail. Sujeito a confirmação.

AVENTURE-SE NO MUNDO VÍNICO…

MOMENTO BAIRRADA – 20 € p/pessoa
Aliança Bairrada Reserva Branco
Aliança Bairrada Reserva Tinto
Espumante Aliança Baga Bairrada Reserva Bruto

O MUNDO EFERVESCENTE DO ESPUMANTE – 20 € p/pessoa
Espumante Aliança Grande Reserva Bruto
Espumante Aliança Baga Bairrada Reserva Rosé Bruto
Espumante Aliança Baga Bairrada Reserva Bruto

FRESCURA, CORPO E REQUINTE… – 25 € p/pessoa
Espumante Aliança Baga Bairrada Reserva Bruto
Aliança Baga Clássico Tinto Bairrada
Aguardente Antiquíssima Reserva

À CONVERSA COM… – 25 € p/pessoa
Espumante Aliança Baga Bairrada Reserva Bruto
Bacalhôa Moscatel Roxo 5 anos
Aguardente Antiquíssima Reserva

CASTAS IMIGRANTES – 25 € p/pessoa
Bacalhôa Greco di tufo Branco
Bacalhôa Chardonnay Branco
Bacalhôa Syrah Tinto
Bacalhôa Merlot Tinto

BACALHÔA PREMIUM – 25 € p/pessoa
Quinta da Bacalhôa Tinto
Quinta da Bacalhôa Branco
Bacalhôa Moscatel de Setúbal Superior

QUINTAS À PROVA – 25 € p/pessoa
Aliança Baga Clássico Tinto Bairrada
Quinta Quatro Ventos Reserva Douro Tinto
Bacalhôa Touriga Nacional Dão Tinto
Quinta da Terrugem Alentejo Tinto

…CASTAS E PERSONALIDADES – 25 € p/pessoa
Bacalhôa Verdelho Branco
Bacalhôa Roxo Rosé
Aliança Baga Clássico Tinto Bairrada

ALIANÇA – “A VELHA AMIGA DE TODOS OS DIAS” – 25 € p/pessoa
Aguardente Aliança Velha
Aguardente Antiqua
Aguardente Antiquíssima Reserva

BACALHÔA SUPER PREMIUM – 35 € p/pessoa
Palácio da Bacalhôa Tinto
Berardo Reserva Familiar Greco di tufo Branco
Bacalhôa Moscatel Roxo Superior

ALIANÇA EXTRA OLD – 35 € p/pessoa
Aguardente XO 10 Anos
Aguardente XO 20 Anos
Aguardente XO 40 Anos

Condições gerais
Provas – definidas para grupos mínimos de 2 pessoas e máximo de 30. Prova comentada por um técnico de Enoturismo. Visita Guiada ao Aliança Underground Museum – Duração – 02h00. Requer marcação prévia (mínimo 24 horas) por telefone ou correio eletrónico. Sujeito a confirmação. Nota: Suplemento Queijo e enchidos: 12 € p/pessoa.

ALIANÇA DE EXPERIÊNCIAS
Uma viagem pelo ALIANÇA UNDERGROUND MUSEUM com experiência vínica ao longo do percurso de quase 1,5 km … 40 € p/pessoa.
• O início de uma viagem pelos túneis subterrâneos onde se respira tradição, história e memórias, e… o encontro de uma surpresa borbulhante! PROVA Espumante Aliança Grande Reserva Bruto com Amêndoa Torrada
• Continuaremos à prova dos sentidos… entre barricas terá a oportunidade de conhecer a casta Baga e o potencial desta região vínica. PROVA Aliança Baga Clássico Tinto com Mini pãezinhos de Leitão
• Termine a sua viagem num local único e imponente. Na Cave de Aguardentes aqueça a alma, sinta os aromas e deixe-se seduzir por 40 anos de história. PROVA Aliança XO 40 Anos com Chocolate negro.

Condições gerais
A atividade decorre em espaço museológico. Definida para grupos mínimos de 10 pessoas e máximo de 100. Orientada por um técnico Enoturismo. Duração 02h00. Requer marcação prévia por correio eletrónico. Sujeito a confirmação

SER ENÓLOGO POR UM DIA
Deixe-se levar pela sua intuição e crie o seu lote de vinho – € 45 p/pessoa
Durante o percurso de visita ao ALIANÇA UNDERGROUND MUSEUM, os participantes serão convidados a encarnar o personagem de um enólogo, com várias tarefas envolvidas… Em constante movimento, aprendizagem e dinâmica os participantes colocam à prova o espírito de equipa.
• Após formação de equipas, é dado a conhecer o Universo do Grupo Bacalhôa, que a Aliança integra desde 2007, e o desafio …
• Terminada a viagem pelo Museu, é proposto o desafio final. É hora de preparar um grande lote de vinho a partir dos monovarietais provados, escolher um nome, criar um rótulo e uma estratégia de marketing para apresentar ao potencial cliente.
• Os premiados são…

Condições gerais
Definida para grupos mínimos de 10 pessoas e máximo de 100. Orientada por um técnico Enoturismo. Visita Guiada ao Aliança Underground Museum. Duração 03h00. Requer marcação prévia por correio eletrónico. Sujeito a confirmação

LOJA DO VINHO
“O local ideal para realizar as suas compras pessoais e profissionais”, um espaço acolhedor onde pode encontrar uma vasta gama de vinhos, espumantes, aguardentes e moscatéis das empresas do Grupo: Aliança, Bacalhôa e Quinta do Carmo. Aberta de segunda a domingo (encerra 1 de janeiro e 25 de dezembro). Horário: 10h00 – 13h00; 14h00 – 18h30.

CONTATOS ENOTURISMO
Sónia Oliveira. Tel.: 234 732 045, Tm: 916 483 544, E-mail: sonia.oliveira@bacalhoa.pt, E-mail: visitas@alianca.pt.

SITE
www.alianca.pt

COMO CHEGAR (A1)
Partida de Lisboa (Cerca de 232 Km) – Saída 14 (Mealhada / Anadia) | Siga em direção a Anadia / Aveiro (N234 – IC2) | Na localidade da Malaposta (rotunda), deverá seguir as indicações para Aveiro (N235) até à saída para Sangalhos.
Partida do Porto (Cerca de 72 Km) – Saída 15 (Aveiro Sul / Águeda) | Siga em direção a Oliveira do Bairro (N235) até à saída para Sangalhos.

QUINTA DO QUETZAL: Deus do Ar, da Terra e da Vinha da Coroa!

Quinta do Quetzal

O Quetzal é uma das aves mais belas do continente americano, sagrada para todas as culturas mesoamericanas, porque neste animal se fundem o céu e a terra. Em várias das suas línguas, o termo pode também significar “precioso” ou “sagrado”. As penas verdes iridescentes na cauda simbolizavam igualmente o crescimento das plantas na Primavera para […]

O Quetzal é uma das aves mais belas do continente americano, sagrada para todas as culturas mesoamericanas, porque neste animal se fundem o céu e a terra. Em várias das suas línguas, o termo pode também significar “precioso” ou “sagrado”. As penas verdes iridescentes na cauda simbolizavam igualmente o crescimento das plantas na Primavera para os Aztecas e Maias, que viam o Quetzal como o “Deus do Ar” e um símbolo de bondade e luz.
A Quinta do Quetzal fica no coração da região do Alentejo, nas encostas da Vidigueira e nas imediações da mais antiga adega romana do Sudoeste da Península Ibérica. O seu microclima e as suas colinas criam as condições ideais para um terroir único, distinto da típica propriedade alentejana. Os solos xistosos, as diferentes exposições solares e altitudes, permitidas pela topografia em colina, e as áreas plantadas com vinhas velhas, formam uma combinação única no cenário da planície alentejana.
A região da Vidigueira é solarenga e quente. Mas, por estar no sopé Sul da Serra do Mendro, beneficia de ventos frescos veiculados pela serra a partir do oceano Atlântico. Estas condições, que se traduzem em elevadas amplitudes térmicas diárias, dão às plantas o calor que precisam para amadurecer as uvas e o fresco para recuperarem. A sua qualidade, aliada a um trabalho de enologia alicerçado na experiência e no conhecimento profundo de cada planta que compõe os 52 hectares de vinha, permite produzir vinhos que expressam verdadeiramente o carácter da região envolvente.

O vinho da empresa estagia no subsolo a uma temperatura naturalmente fresca, e ao som de uma instalação site-specific de Susan Philipsz.

 

A colecção da família

Como elemento fundamental da experiência Quetzal foi criado, de raiz, o edifício que inclui o restaurante, a loja e o Centro de Arte. O xisto que reveste as suas paredes destaca-se e integra-se com fluidez na paisagem envolvente, enquanto o espaço circundante foi concebido para incorporar plantas nativas naturais, de modo a maximizar a experiência do habitat natural do Alentejo.
Cees e Inge de Bruin são colecionadores e patrocinadores de arte contemporânea. Mantêm, há mais de 40 anos, juntamente com a família, uma forte ligação a Portugal. O projecto da Quinta do Quetzal expressa a sua paixão pela cultura, natureza, gastronomia e vinhos portugueses, que gostam de partilhar.

Todos os anos, em colaboração com a sua filha, Aveline de Bruin, organizam uma nova exposição na propriedade, em que o ponto de partida é a colecção privada da família (Coleção de Bruin-Heijn) e as suas ligações ao mundo da arte. Até final do passado mês de Setembro, a exposição colectiva “Echoes of Our Stories” (Ecos das Nossas Histórias) reuniu obras de Claudia Martínez Garay, Diana Policarpo, Jennifer Tee, Agnes Waruguru e Müge Yilmaz. As cinco artistas contaram histórias que nos fazem olhar para o mundo à nossa volta de maneira diferente da perspetiva ocidental dominante e nos ajudam a compreender esse mundo. Elas propuseram novas cosmovisões, alternativas espirituais, curativas e futurísticas, nas quais as rígidas dicotomias humano-natureza, acima-abaixo e centro-margem foram subvertidas.

Mas o Centro de Arte Quetzal também apresenta duas instalações site-specific de Susan Philipsz: “Tomorrow’s Sky” (O Céu de Amanhã) e “Sleep Close and Fast” (Dorme Perto e Profundamente), ambas de 2019, revestindo, a primeira, de elevado valor sentimental e motivo de especial orgulho para Inge de Bruin, assim como, hoje, para os seus filhos. Sobre esta peça, a sua autora salienta que o “pássaro Quetzal é o símbolo desta vinha e uma das características da paisagem envolvente é o seu vazio e silêncio”, acrescentando que imaginou, nesta instalação sonora em três canais, “o pássaro conjurado pelo som, abrindo as suas asas sobre a paisagem ao mesmo tempo que esta se funde com o som”.

Surpresa durante o silêncio

Em frente do Centro de Arte, e do restaurante, com a sua janela imensa, no topo da colina da Vinha da Coroa, com as três árvores, a instalação de som começa a cada dez minutos, surpreendendo quem por lá fica a desfrutar do silêncio e a contemplar a serra do Mendro, a Vidigueira, Vila de Frades, a Ermida de Nª Senhora de Guadalupe e, em dias mesmo limpos, a própria cidade de Beja. Foi neste contexto de arte, vinha e beleza natural que fomos recebidos por Reto Jörg, director geral da Quinta do Quetzal, José Portela, enólogo, e Ricardo Tavares, director comercial.

Todos os vinhos da Quinta do Quetzal são produzidos exclusivamente com uvas próprias, numa propriedade dividida em parcelas que definem o carácter da uva juntamente com as suas diferentes exposições solares e tipos de solo, desde os pobres de granito, ao abundante xisto e às terras mais férteis e planas, com alguma argila e algo arenosas.

A propriedade foi adquirida no ano de 2001 e estabelecida por Cees e Inge de Bruin em 2003. Hoje, totaliza 52 hectares de vinha, 70% dos quais com castas tintas (Trincadeira, Aragonez, Touriga Nacional, Touriga Franca, Cabernet Sauvignon, Alfrocheiro, Alicante Bouschet, Syrah e Petit Syrah) e 30% com brancas (Antão Vaz, Arinto, Verdelho e Roupeiro). Destacam-se cerca de 2,5 hectares de vinhas velhas (com mais de 40 anos), que se caracterizam por uma baixa produção, resultando numa forte concentração de aromas, e cerca de 30 hectares de vinhas com idade avançada (com cerca de 20 anos), que se caracterizam por uma produção de uva moderada e espelham, de forma fiel, o terroir da Vidigueira.

Som de embalar na cave de barricas

Na moderna adega, as uvas são introduzidas, pela pura ação natural da gravidade, num processo de vini¬ficação, que abrange cinco pisos, para reduzir o seu manuseio mecânico e a possibilidade de oxidação. O vinho que originam pode envelhecer gradualmente nas caves que se localizam no subsolo, a uma temperatura naturalmente fresca e ao som da segunda instalação site-specific de Susan Philipsz.

A ideia de “Sleep Close and Fast”, instalação de som de canal único, surgiu depois de Susan ter tido conhecimento que se tocava música para as barricas da Quinta do Quetzal, enquanto o vinho nelas estagiava. “Pensei que esta era uma ideia bonita e assim surgiu, imediatamente, o propósito de cantar uma canção de embalar para as barricas”, explica.
A enologia está a cargo de José Portela, enólogo residente desde o início, que mostra um conhecimento profundo e detalhado do Quetzal, que teve Paulo Laureano, primeiro, e Rui Reguinga, depois, como enólogos consultores. Da vindima de 2024, já finalizada aquando da nossa visita, destacou as boas produções das uvas brancas, na ordem das 6/7 ton/ha, “o bom desempenho da Alfrocheiro, Syrah e Petit Syrah e a boa concentração da Aragonez”. Apenas o Alicante Bouschet se ressentiu “do escaldão da segunda quinzena de Agosto”, e “não houve problemas de grau nem de açúcares.”

A Quinta do Quetzal oferece um portefólio diversificado. Começa nos vinhos Guadalupe, que oferecem um excelente equilíbrio entre elegância e frescura nas suas variedades branca, rosé e tinta, e constituem uma boa escolha em termos de custo-benefício, ideais para o consumo diário. Os Guadalupe Winemakers Selection, nas suas versões branca e tinta, oferecem uma complexidade subtil, tendo sido envelhecidos em barricas usadas. Acrescem duas edições especiais, o Quinta do Quetzal rosé, monovarietal de Trincadeira da Vinha da Coroa, e o Quinta do Quetzal Terroir branco, um single-vineyard de Arinto e Roupeiro, com 15 dias de maceração pelicular e envelhecimento em barricas de acácia.
O Quinta do Quetzal Brut é um espumante fresco e elegante, elaborado através do método tradicional a partir de um lote das castas Arinto, Antão Vaz e Perrum, com estágio de 24 meses sobre borras.

Os ícones da propriedade

Os vinhos Reserva representam a porta de entrada da gama Premium da Quinta. São elaborados a partir das melhores uvas selecionadas nos vinhedos da propriedade e envelhecidos em barricas novas de carvalho francês. Os vinhos Família são os ícones da propriedade, produzidos exclusivamente em anos de qualidade excepcional. Longamente amadurecidos, estes vinhos de edição limitada estão disponíveis em garrafas numeradas, reflectindo o compromisso inabalável da família com a sua visão de produzir vinhos ¬elegantes, que se juntam a arte e gastronomia de excepção.

Por fim, a gama Quetzal Rich constitui a oferta fortificada da Quinta, feita à moda do vinho do Porto através de fortificação com aguardente vínica com 77% de álcool. Nas suas versões Rich White, é produzido a partir de uvas Antão Vaz. Na Rich Red, a partir de Alicante Bouschet, sendo ambos envelhecidos em barricas de carvalho francês durante 16 meses.
“A ciência descreve as coisas como são; a arte, como são sentidas, como se sente que são”, disse um dia Fernando Pessoa. Talvez seja isto mesmo a experiência Quetzal, a maneira como a família de Bruin sente a Vidigueira, o Alentejo, o vinho e a gastronomia, a propriedade. Nada mais nada menos que a sua representação artística. Brindemos, pois!

(Artigo publicado na edição de Dezembro de 2024)