Crónica: O Douro em brancos a chamar por nós

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Em Murça, estamos em terras de brancos. Por aqui, são eles que marcam o compasso dos dias. Isso é claramente uma virtude numa época em que a tendência aponta mais para este tipo de vinhos. Daí a importância crescente do evento Brancos na Praça, que teve este ano a 4ª edição. Não será fácil dividir […]

Em Murça, estamos em terras de brancos. Por aqui, são eles que marcam o compasso dos dias. Isso é claramente uma virtude numa época em que a tendência aponta mais para este tipo de vinhos. Daí a importância crescente do evento Brancos na Praça, que teve este ano a 4ª edição.

Não será fácil dividir o Douro em zonas estanques, do tipo aqui brancos, ali tintos, aqui Touriga Francesa, acolá Rabigato. Ainda assim, começa a fazer sentido falar de áreas onde algumas castas e alguns tipos de vinho ganham mais preponderância. Isso é visível quer em zonas especialmente vocacionadas para produzir certos tipos de vinho do Porto, como o Cima Corgo, quer em áreas onde os brancos se dão especialmente bem. Historicamente, sabemos que a região sempre produziu muita uva branca que se destinava ao Porto branco, mas a História também nos disse que esse tipo de Porto nunca foi devidamente valorizado, uma vez que preenchia objectivos simples, destinando-se a ser servido como aperitivo, algo muito valorizado pelo mercado francês, por exemplo. Mas os tempos mudaram e a região, que nasceu para os DOC Douro, muito associada aos vinhos feitos com as uvas que não preenchiam o benefício, foi, aos poucos, descobrindo que as mesmas uvas brancas usadas para fazer o simples Porto branco, afinal também poderiam originar vinhos de muito boa qualidade. Foi assim que, em meados dos anos 90, várias empresas de Vinho do Porto se abalançaram a fazer vinhos brancos, secos e cheios de personalidade, com técnicas até então pouco ou nada utilizadas, como a fermentação em barrica, o estágio também em madeira, descobrindo virtudes em castas até então menosprezadas.

 

Varietais de Arinto no Douro são raros. Este é particularmente aromático na boca. A colheita anterior parece ter evoluído rapidamente

 

Uma nova febre tomou conta da região e os brancos começaram a surgir como se, até aí, estivessem escondidos debaixo das pedras. A febre não foi passageira e veio para ficar; e, hoje, o número de marcas e de produtores que se interessam pelos brancos não cessa de aumentar. Foi neste quadro de busca das melhores zonas e parcelas mais originais que Murça emergiu como zona com condições perfeitas para a produção de vinhos brancos: localização que joga com a altitude e o clima mais ameno, boa quantidade de vinhas velhas de castas misturadas (que continua a ser o maná para os grandes vinhos) e boa disponibilidade de uvas. Não tardou que vários produtores se começassem a interessar por Murça, vindo aqui comprar uvas para elaborarem os seus melhores lotes.

E foi do interesse dos produtores pela região e do empenho da Câmara Municipal que nasceu o evento Brancos na Praça, totalmente dedicado aos vinhos brancos e a que responderam quer os produtores locais, quer as empresas que nesta zona também se abastecem de uvas. O evento vai na 4ª edição e decorreu a 29 e 30 de Maio últimos.

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Um dos pontos de interesse do certame são duas provas de vinhos brancos orientadas pelo autor destas linhas. Com uma assistência (mediante inscrição) que tem crescido em número todos os anos, organizam-se duas provas de brancos: uma de vinhos de Douro/Murça versus grandes vinhos do mundo e outra, mais específica, de brancos de Murça versus brancos originais do resto do país. Mas o certame não se esgota nestas provas: há um workshop sobre azeites de Murça (Francisco Vilela) e há percursos comentados nos vários stands orientados por Teresa Gomes. O espaço, desta vez bem mais amplo, acolheu uma população muito interessada, que também pôde comprar vinhos, algo sempre muito apelativo para os consumidores.

Murça está a fazer o seu trabalho, procurando o reconhecimento da valia dos seus vinhos no conjunto dos brancos do Douro. Tal reconhecimento não pode deixar de passar pela valorização do preço das uvas. Não há meio termo. Essa é a condição sine qua non para que o prestígio do vinho tenha correspondência na valorização do trabalho e na qualidade de vida de quem o produz. E a resposta-refúgio que muitas vezes se ouve a quem compra uvas, tipo “estou a pagar acima do preço do mercado”, não é suficiente, uma vez que no Douro se pagam as uvas a preços que não compensam o granjeio. A frase não é “pagar acima”, é pagar três ou quatro vezes o preço habitual do mercado. E quem começar a fazer isso vai perceber que a concorrência não poderá deixar de acompanhar a tendência. E, a ser assim, até se percebe melhor que as garrafas dos grandes brancos de Murça custem 100 ou mais euros. De outra forma, é um pouco escandaloso, convenhamos. (JPM)

MADALENA: Capital do vinho dos Açores

Madalena

Há três constantes – ou condicionantes – na ilha do Pico: a montanha, ao centro, o mar, à sua volta, e os quilómetros de pedra que os separam. O chão, formado por extensos campos de lava solidificada, impróprio para o cultivo de cereais, ao contrário do que acontecia nas restantes ilhas do arquipélago, punha em […]

Há três constantes – ou condicionantes – na ilha do Pico: a montanha, ao centro, o mar, à sua volta, e os quilómetros de pedra que os separam. O chão, formado por extensos campos de lava solidificada, impróprio para o cultivo de cereais, ao contrário do que acontecia nas restantes ilhas do arquipélago, punha em causa a sobrevivência da população. Mas a necessidade aguça o engenho e o picaroto encontrou uma forma de plantar as videiras nas fendas da rocha, preenchidas com terra trazida do Faial. A vinha vingou, tal como as figueiras, até ao ponto de o vinho e a aguardente de figo terem sido utilizados como moeda de troca.

A escassez de recursos era compensada pela riqueza de espécies marinhas e pela forte vertente piscatória desenvolvida entre a população. A caça à baleia é outra forte realidade histórica que terminou em meados da década de 1980, no contexto da entrada de Portugal na União Europeia.

A ilha tem uma beleza austera e dramática, onde as cores vivas das casas e das antigas adegas contrastam com o basalto e trazem vida e uma certa alegria ao olhar. A realidade do povo, entre o mar, o vulcão e o fogo, nunca foi fácil, o que acabou por forjar o carácter do picaroto.

 

O picaroto encontrou uma forma de plantar as videiras nas fendas da rocha, preenchidas com terra trazida do Faial.

Os currais são construídos em pedra seca, sem uma única gota de argamassa ou cimento. As pedras encaixam-se simplesmente umas nas outras.

 

O concelho com o nome de uma santa

A origem do nome remonta aos primeiros tempos do povoamento da ilha. Os pioneiros que chegaram ao Pico no final do século XV ergueram uma ermida dedicada a Santa Maria Madalena. Em torno dessa ermida formou-se o núcleo habitacional, que passou a ser conhecido como Madalena. Mais tarde, o primitivo espaço de culto foi substituído pela actual Igreja Matriz de Santa Maria Madalena. Quando foi criado o concelho, este adoptou o nome da freguesia principal.

É no concelho da Madalena que se impõe a Montanha do Pico, que culmina a 2.351 metros de altitude, o ponto mais alto de Portugal. Embora seja visível de grande parte da ilha (e até das ilhas vizinhas), é mais fotogénica quando vista da costa ocidental, junto à vila da Madalena, onde a sua silhueta desenha um cone quase perfeito. É também neste município que se produz três vezes mais vinho do que no resto da ilha.

História cravada no basalto

No concelho da Madalena há dois lugares incontornáveis para conhecer a história do vinho do Pico: a Criação Velha e o Museu do Vinho.

Na Criação Velha encontra-se a maior concentração de vinha da ilha, numa paisagem única, classificada como Património Mundial da UNESCO em 2004. Vista do alto, faz lembrar uma manta de retalhos, desenhada pelos labirintos dos currais – pequenos muros rectangulares de basalto, com áreas que variam entre os três e os nove metros quadrados. São construídos em pedra seca, sem uma única gota de argamassa ou cimento. As pedras encaixam-se simplesmente umas nas outras.

Em cada curral desenvolvem-se entre quatro e seis videiras, conduzidas rente ao chão e protegidas dos ventos dominantes e da maresia. Mas nada consegue eliminar a influência marítima por completo. A pedra negra basáltica tem ainda outra vantagem: absorve o calor do sol durante o dia e liberta-o lentamente durante a noite, promovendo elevada concentração de açúcar e originando vinhos generosos de grande qualidade.

Entre o século XVIII e o início do século XIX, os vinhos do Pico alcançaram renome internacional, num período áureo de exportação. As grandes famílias do Faial eram, na prática, as proprietárias da produção vitivinícola, para quem trabalhavam os picarotos. Era pelo porto da Horta que o vinho partia para o mundo.

Madalena

A montanha do Pico domina a paisagem e magnetiza o olhar

 

Ao passear ao longo da costa, pode-se encontrar rampas talhadas na pedra, chamadas “rola-pipas”, que serviam para facilitar o transporte das pipas até ao mar. Outros vestígios desse passado são as “rilheiras”, gravadas nas lajes de lava pelo vai-e-vem dos carros de bois, o único meio de transporte de então para os produtos agrícolas.

Junto à zona costeira, as pequenas adegas serviam para que o viticultor pudesse aí permanecer quando se aproximava a altura das vindimas, período em que o trabalho na vinha se intensificava. Eram casas de apoio ao trabalho agrícola, com um quarto onde se podia pernoitar e onde as crianças chegavam a passar férias de verão.

Hoje, a vinha ocupa no Pico cerca de 1.100 hectares, aproximadamente cinco vezes menos do que antes da filoxera. Com apenas 14 mil habitantes, a mão de obra é escassa e a mecanização é impossível (pelo menos nas vinhas tradicionais). A produção é baixa e o trabalho continua a ser difícil e exigente, marcado por um clima ameno e húmido e por uma forte pressão de doenças, sustentado pela persistência dos produtores locais.

 

Fé, Espírito Santo e as lições de partilha

Conta o comendador Manuel Serpa, ex-padre, professor e político, grande conhecedor da história e contador de histórias, que foram os povoadores que trouxeram a devoção ao Espírito Santo na segunda metade do século XV. Uma prática que, nessa época, ressurgia na Europa, associada a uma maior proximidade aos pobres. Com o tempo, em muitos lugares esta devoção esmoreceu, enquanto nos Açores cresceu de forma extraordinária. Ainda hoje se mantém viva nas comunidades com descendentes açorianos espalhadas pelas Américas, de norte a sul.

Mas por que razão é que esta devoção cresceu e se manteve nos Açores? A resposta pode estar nos terramotos, nas tempestades e nos ciclones que, ao longo do tempo, foram sacudindo as ilhas. Nessa realidade marcada pela incerteza, o povo encontrou na fé uma forma de resistência e de força.

Em 1718, uma grande erupção vulcânica assolou a zona oeste da ilha. Perante a ameaça da lava, foi feita uma promessa: se as populações, casas e animais fossem poupados, seriam oferecidas rosquilhas a todos os que por ali passassem. Diz-se que a lava acabou por parar e que daí resultou o Mistério de São João, uma das quatro grandes escoadas de lava da ilha, assim chamadas porque as erupções vulcânicas eram, para as populações, fenómenos misteriosos e difíceis de compreender. A promessa passou a cumprir-se desde então e mantém-se até aos dias de hoje.

As rosquilhas são, assim, um dos símbolos gastronómicos das Festas do Divino Espírito Santo no Pico. Apesar do nome, não se assemelham às rosquilhas tradicionais do continente, sendo antes um pão doce em forma de argola, distribuído gratuitamente durante os arraiais, como expressão de partilha e hospitalidade.

Portanto, o grande dia de festividades nos Açores, para além do 10 de Junho, é o Dia da Região Autónoma dos Açores, que se celebra na segunda-feira do Espírito Santo, sete semanas depois da Páscoa. A festa dura quatro dias, de sexta a terça-feira, e é a única em que há uma forte participação dos jovens, juntamente com várias gerações das famílias, conta o nosso historiador.

 

Pico Vineyards – montanha, vinhas e conforto

No verão passado, abriu portas o Boutique Hotel Vinícola de quatro estrelas, integrado na Unlock Boutique Hotels, um grupo de gestão hoteleira em Portugal. Situado na freguesia de Bandeiras, o projecto nasceu no local onde funcionava o conhecido turismo rural Cancela do Porco, que também dá nome a uma marca de vinhos, mas já lá vamos.

O Pico Vineyards foi desenvolvido pela FCC Arquitectura, do norte de Portugal, fundada por Fernando Coelho e Ana Loureiro. Este gabinete é também responsável pela arquitectura do Cella Bar, no Pico, onde, quem o visita, encontrará certamente alguns traços comuns.

A montanha do Pico assume aqui um grande protagonismo, domina a paisagem e magnetiza o olhar. Nem sempre é possível vê-la por inteiro, pois muitas vezes esconde o cume nas nuvens ou desaparece quase por completo atrás do véu da neblina. Por isso, convém reservar vários dias para aumentar as hipóteses de a encontrar.

Com o Pico no horizonte, o hotel inscreve-se na paisagem de forma discreta. Inspirado na viticultura típica da ilha, o conjunto de unidades de alojamento (umas com terraços, outras com piscina privada) é composto por casas independentes, construídas em pedra e rodeadas por currais com vinha. No interior, combinam-se o basalto com a criptoméria, uma espécie abundante nas florestas do arquipélago açoriano, bem adaptada ao clima ameno e húmido. As paredes libertam um leve aroma amadeirado, discreto e relaxante. Existe ainda uma piscina interior aquecida e uma zona de spa.

Quanto ao vinho, o hotel dispõe de duas salas subterrâneas destinadas a provas ou jantares vínicos. A “Pedra & Vinho”, de formas arredondadas, tem as paredes revestidas em criptoméria e uma impressionante mesa monolítica de basalto. A pedra foi encontrada durante a construção. “Pesava 3,5 toneladas”, conta Pedro Saraiva, um dos empresários à frente da unidade hoteleira, lembrando o esforço necessário para a encaixar no interior da sala. Mesmo assim, depois de trabalhada, manteve 2.700 kg e ficou definitivamente fixada no espaço. Esta decoração cria um ambiente ecológico, sofisticado e acolhedor.

Desta sala parte uma porta que conduz à “Alma da Gruta”, esculpida na rocha que serve simultaneamente de estrutura e decoração. Um espaço misterioso, dedicado às provas mais intimistas, com uma garrafeira secreta, guardada em bolsas lávicas naturais, sem qualquer entrada de luz e com temperatura e humidade constantes.

O acesso às salas de prova faz-se por um túnel revestido a madeira que faz lembrar uma grande barrica e funciona como galeria, preparada para acolher exposições de diferentes artistas. Na altura em que estive lá presente, nesta passagem esteve instalada uma colecção fotográfica de Ricardo Lopes, autor do livro Arquipélago, uma obra que retrata os Açores através de um olhar atento e artístico.

Gastronomia à moda do Pico

Barriga de atum lascada, tártaro de atum, atum marinado… tudo isto foi preparado pelo chef Vítor Sobral a partir de um único peixe. É, de facto, um produto muito versátil e a principal matéria-prima da indústria conserveira, como ficou claro na visita à fábrica Conseran, na ilha do Pico, uma das mais recentes e tecnologicamente mais avançadas unidades de produção de conservas de peixe em Portugal. Actualmente, processa entre 7 a 8 toneladas de atum por dia. Existe capacidade para mais, mas falta mão-de-obra. A maior parte da produção é exportada, cerca de 60-80%, mas infelizmente, nos países de destino o consumidor final nem se apercebe que é um produto de Portugal.

A maior parte da produção é exportada, entre 60% e 80%, mas, nos países de destino, com marcas próprias, o consumidor final raramente se apercebe de que se trata de um produto português, a menos que observe com atenção a lata e repare nas discretas letras “PT”.

Uma das marcas de conservas chama-se Chamarrita, em homenagem à maior roda de Chamarritas do mundo, organizada pelo Município da Madalena, que entrou por duas vezes no Livro de Recordes do Guinness, em 2015 e 2023, como Largest Portuguese Folk Dance.

Há muitos outros tipos de peixe na ilha, como boca-negra, congro, garoupa, goraz, lírio e raia, não sendo esta lista exaustiva. Não é por acaso que um dos pratos típicos é o caldo de peixe à moda do Pico. “É o fruto da nossa pobreza”, recorda o comendador Manuel Serpa, explicando: “não tínhamos outras soluções; lembro-me de que, na minha meninice, carne de vaca, nesta ilha, havia três vezes por ano: no Natal, no dia do padroeiro e no dia do Espírito Santo.” O prato tradicional desta época são as sopas do Espírito Santo, que têm como base um caldo rico de carne de vaca, temperado com hortelã e especiarias, vertido sobre pão caseiro em terrinas. Servem-se acompanhadas de carnes cozidas, enchidos e legumes, num prato de partilha típico das festas do Divino Espírito Santo. O pão de massa sovada é também um elemento típico destas festas. Diz-se que era difícil de amassar, razão pela qual os homens ajudavam as mulheres na sua preparação.

Andando pelas ruas da Madalena, nas tascas típicas, podem encontrar-se as favas da festa – cozidas até rebentar e apuradas num refogado com cebola, alho, salsa, louro e polpa de tomate. Ficam macias e cheias de sabor.

Todos conhecemos o Queijo de São Jorge, mas na ilha do Pico também se produz queijo com denominação DOP, a partir de leite cru de vaca. Tem um sabor suave, ainda que característico, com uma pasta cremosa no interior e uma casca firme e comestível.

Vinho do Pico, o novo capítulo

E, voltando ao vinho, agora no seu capítulo mais recente, importa referir dois produtores com um denominador comum: a consultoria e acompanhamento do enólogo Paulo Laureano.

Marco Faria representa hoje o projeto Curral Atlantis, do qual o seu pai, o Sr. Manuel, foi um dos grandes impulsionadores, juntamente com Jorge Böhm, da Plansel. Em 1995, plantou-se um campo experimental com 24 castas. A partir de 1997, o enólogo Paulo Laureano passou a envolver-se nesta “aventura” e começou a deslocar-se ao Pico com regularidade.

O enólogo refere que o míldio é o principal problema da vinha no Pico, a par com doenças do lenho. “Não foi fácil”, recorda: “houve anos em que não tivemos um único bago de uva, mas ele [Manuel Faria] acreditou sempre… O ano passado foi bom e permitiu recuperar as vinhas.” E este inverno, com temperaturas baixas (menos de 10 ºC), também contribuiu nesse sentido.

De entre os vinhos provados, sobretudo Verdelho e lotes de Verdelho/Arinto de vários anos, destaco o “Vinha do Avô” 2020, com origem numa vinha centenária de Verdelho e Arinto dos Açores, a que se juntou Boal plantado mais tarde. Mostra grande complexidade, carácter e equilíbrio, com notas de mel e maresia, laranja e cardamomo, lima e ananás; é envolvente, longo e saboroso, sem nada comprometer, deixando ainda muito por revelar e evoluir.

Outro projecto tem a ver com o empresário Pedro Saraiva, restaurador, hoteleiro e produtor de vinho, com a marca Cancela do Porco, antigamente vendida exclusivamente no seu restaurante. O Verdelho de 2014, de tonalidade quase acobreada, surpreende pelo aroma inesperadamente fresco, composto e complexo, com notas de geleia de tangerina, alperce, maçã assada e ananás salgado, além de um toque de estragão, iodo, notas florais e apetroladas. Envolvente e com acidez salivante, evidencia que o tempo lhe conferiu cremosidade sem lhe retirar a sua vitalidade vibrante.

E assim, finalizamos com um brinde à ilha do Pico com o seu temperamento difícil e à força do espírito picaroto que a domou e dela fez o seu lar, produzindo alguns dos vinhos com mais identidade e carácter.

(Artigo publicado na edição de Julho de 2026)

Quinta do Crasto abre as portas para uma série de jantares vínicos exclusivos

quinta do crasto

A Quinta do Crasto decidiu abrir as portas da sua casa para uma experiência vínica exclusiva, reservada a um número muito restrito de convidados que a queiram descobrir por inteiro. Numa série de apenas três jantares vínicos, conduzidos por quem todos os dias contribui para escrever a história desta propriedade, os participantes terão a oportunidade […]

A Quinta do Crasto decidiu abrir as portas da sua casa para uma experiência vínica exclusiva, reservada a um número muito restrito de convidados que a queiram descobrir por inteiro.

Numa série de apenas três jantares vínicos, conduzidos por quem todos os dias contribui para escrever a história desta propriedade, os participantes terão a oportunidade de conhecer as pessoas e a visão que deram origem a alguns dos vinhos mais emblemáticos da Quinta do Crasto.

O jantar de harmonização, irá juntar à mesa membros da família Roquette e das equipas de viticultura, enologia e enoturismo, para partilhar memórias e curiosidades.

A primeira edição acontece já no dia 20 de Agosto, com um menu cuidadosamente elaborado para harmonizar com uma seleção de vinhos do Douro e do Porto, que incluem algumas das referências mais conhecidas da Quinta do Crasto e também colheitas especiais. O menu e as harmonizações mudam em todas as datas, tornando cada experiência única.

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À mesa, com os convidados, estarão Miguel Roquette, administrador da Quinta do Crasto, Tiago Nogueira, responsável pela viticultura, Cátia Barbeta, enóloga, e Gilberto Rodrigues, diretor de turismo, para apresentar cada um dos vinhos e abrir caminho a perguntas, comentários e reflexões.

Tudo isto acontece na casa de família e o terraço panorâmico, debruçado sobre o vale do Douro, numa atmosfera descontraída, onde o vinho, a gastronomia e o ambiente de partilha que naturalmente se cria à volta da mesa dão origem a conversas informais sobre o Douro, a filosofia da Quinta do Crasto e a responsabilidade – mas também o privilégio – de produzir vinho numa paisagem classificada como Património Mundial pela UNESCO.

Os jantares vínicos repetem-se nos dias 24 de Setembro e 22 de Outubro, sempre com menus distintos e diferentes convidados da equipa da Quinta do Crasto, permitindo aos participantes descobrir novas histórias, novos vinhos e diferentes perspetivas sobre a propriedade. Para garantir o ambiente intimista que se pretende, as sessões estão limitadas a 20 pessoas.

Cada jantar tem o custo de 175€ por pessoa e para participar é necessária marcação prévia, que pode ser feita através do e-mail enoturismo@quintadocrasto.pt ou do contacto telefónico +351 937 760 572. Para saber mais sobre a Quinta do Crasto e os seus vinhos, consultar www.quintadocrasto.wine ou www.heritagewines.pt.

RESTAURANTE LAURENTINA: Onde o amigo continua fiel

Laurentina

É o caso do restaurante Laurentina – O Rei do Bacalhau, que acaba de comemorar o seu cinquentenário. O Laurentina será provavelmente o mais antigo restaurante de Lisboa em actividade dedicado ao bacalhau. Tudo começou quando  o então jovem António Pereira, natural do Fundão, com fortes raízes na Beira Baixa e com pouco mais de […]

É o caso do restaurante Laurentina – O Rei do Bacalhau, que acaba de comemorar o seu cinquentenário. O Laurentina será provavelmente o mais antigo restaurante de Lisboa em actividade dedicado ao bacalhau. Tudo começou quando  o então jovem António Pereira, natural do Fundão, com fortes raízes na Beira Baixa e com pouco mais de 20 anos, partiu para Moçambique onde, passado algum tempo, fundou um restaurante em Lourenço Marques (hoje Maputo). Ali desenvolveu durante duas dezenas de anos uma paixão pela gastronomia. Começou por aperfeiçoar a preparação do bacalhau, inspirando-se nas receitas da sua terra natal, com alguma influência dos sabores africanos. Quando, após a independência da ex-colónia, regressa à metrópole, em 1976, é natural que a opção fosse continuar a actividade, replicando e desenvolvendo o conceito que tinha criado.

Aparece assim, em Lisboa, já na Avenida Valbom, a poucos metros onde, hoje, se encontra o Laurentina. O nome é uma homenagem aos habitantes da capital moçambicana (os laurentinos), ao mesmo tempo que evocava a mais popular cerveja da terra. É quando se muda para a porta ao lado, com o n.º 71 A, em 1986, que assume orgulhosamente a designação “O Rei do Bacalhau”. Para além de assinalar uma evidência – o restaurante ganhou fama entre os clientes pela forma como o ‘fiel amigo’ era ali venerado –, a designação assume um compromisso sério de máximo respeito pela matéria-prima, procurando os melhores fornecedores e garantindo uma consistência que desafiou o tempo. Os filhos, actualmente, à frente do negócio, fazem questão de mostrar como as couves, o azeite, as batatas, as frutas, entre outros ingredientes, continuam a vir da Beira Baixa, honrando assim o legado do fundador.

Com a deterioração da saúde do Pai António, os filhos, Marco e Rita, assumem a direcção do restaurante por volta dos anos 2004/2005. Não lhes foi difícil o encargo, já que ali cresceram e desde pequenos ali comeram e praticamente viviam no dia-a-dia. Marco e Rita Pereira depressa perceberam que a melhor maneira de preservar a obra do Pai e a sua identidade é fazer evoluir o projecto. Sem nunca comprometerem a herança, respeitando receitas e saberes acumulados, foram introduzindo novos pratos e, sobretudo, remodelado totalmente o espaço. Quem entra no Laurentina não deixa de se sentir confortável, com a qualidade da amesendação, a simpatia do atendimento, a decoração clássica do espaço, em que as paredes com um jardim vertical emprestam uma sensação de frescura e sofisticação. O espaço é suficientemente amplo e diversificado para o cliente sentir-se à vontade. Com 60 lugares no rés-do-chão, 100 na cave a que se juntam mais 40 na frondosa esplanada, não faltam opções.

A oferta do menu é bastante ampla. Cobre algumas das mais populares receitas que eram esperadas num restaurante temático e também dispõe de alternativas em peixes frescos da costa, polvo, carnes e opções vegetarianas. Mas é de facto em torno do ‘fiel amigo’, aqui exclusivamente proveniente das águas frias e cristalinas da Islândia, que a ementa se desdobra em declinações tentadoras. Em recente visita, tivemos a oportunidade de provar as pataniscas, servidas como aperitivo, finas, de formato redondo, crocantes, secas de óleo e com bom equilíbrio entre massa, cebola, salsa e lascas. De segunda a sexta-feira, há pratos do dia com preços mais moderados (à volta de €18). O destaque vai, contudo, para os pratos de resistência que, na ocasião, tivemos oportunidade de experimentar. A saber:  O popular bacalhau à Brás, húmido quanto baste, com o ovo cremoso e envolvente e batata palha muito crocante feita na casa; o bacalhau alto assado (duas pessoas/€58), um posta do lombo de altura absolutamente descomunal, com batata a murro e verdura salteada; a couvada de bacalhau à Pereira da Laurentina (duas pessoas/€52), prato de assinatura e especialidade maior da casa, confeccionado à maneira da Beira, com produtos da região, em que as couves e batatas servem de cama a outra peça do lombo gigante, tudo envolvido dentro de um tacho de barro fumegante; e, não podia faltar, o arroz de bacalhau ao estilo malandrinho, bago carolino gordo e bem envolvido numa calda com espinafres e tomate. Há outras opções clássicas como o à Minhota, com broa, natas e espinafres, o lascado especial (preços médios a rondar os €25). Os sabores moçambicanos continuam presentes, com a moqueca de bacalhau (€26,50) e os camarões tigre à moçambicana (€45). Uma das inovações introduzidas recentemente foi uma carta de sobremesas ambiciosa e uma lista de vinhos bem adequada à oferta gastronómica.

 

Laurentina – O Rei do Bacalhau

Av. Conde de Valbom, 71 A, Lisboa

Tel.: 962 959 725 / 217 960 260

Horário: de Segunda-feira a Sábado, das 12h00 às 16h00 e das 19h00 às 23h00 Encerra: Domingos e feriados

Preço médio: €40

Editorial: Negra Mole em pedra dura

Editorial

Editorial da edição nrº 1112 (Agosto de 2026) Tanto bate até que fura. A Negra Mole passou décadas a bater à porta do reconhecimento, até conseguir abrir caminho. Não por ser uma casta espampanante no copo, mas através do soft power que lhe é característico. Lembro-me de, em 2012, durante umas férias em Vilamoura, ter […]

Editorial da edição nrº 1112 (Agosto de 2026)

Tanto bate até que fura. A Negra Mole passou décadas a bater à porta do reconhecimento, até conseguir abrir caminho. Não por ser uma casta espampanante no copo, mas através do soft power que lhe é característico.

Lembro-me de, em 2012, durante umas férias em Vilamoura, ter procurado o vinho monovarietal de Negra Mole lançado pela Quinta João Clara, mas os sommeliers nos restaurantes e wine bars encolhiam os ombros: nunca tinham ouvido falar da casta. Acabei por encontrar uma garrafa, curiosamente, em Lisboa.

O reencontro com a Negra Mole aconteceu há alguns anos, num contexto algo sui generis: o Concurso Mundial de Bruxelas. Num flight de amostras surgiu um vinho que se destacava de imediato pela sua cor translúcida. No aroma e na boca era suave e delicado, com uma fruta deliciosa, mas num registo contido. Não exibia uma acidez particularmente elevada, mas não pecava por falta da frescura, apresentando um equilíbrio exemplar dentro deste perfil. Gostei muito do vinho. Percebi que se tratava de uma casta autóctone, mas a Negra Mole nem sequer me ocorreu. Qual não foi, por isso, o meu espanto quando consultei a listagem entregue aos jurados no final da sessão de provas e descobri que era a Negra Mole da Arvad!

Na minha recente incursão pelo Algarve, tive a oportunidade de provar mais vinhos desta casta e rendi-me definitivamente à sua personalidade.

A Negra Mole sempre existiu no Algarve, mas durante décadas esteve fora do seu tempo. Numa época em que se procuravam cor, concentração e músculo, não tinha como se afirmar. Pouco lhe valeu ser uma das castas mais antigas de Portugal; teve de esperar décadas para, finalmente, ser compreendida e valorizada. E, mesmo hoje, não reúne consenso entre os produtores, e, na verdade, a casta é tudo menos consensual.

Tem bagos grandes e soltos, com película fina e polpa mole – daí o nome. Uma das características mais singulares da Negra Mole é a sua heterogeneidade cromática. Ou seja, na mesma videira e, frequentemente, no mesmo cacho coexistem bagos de diferentes cores do negro-azulado ao rosado e ao quase branco, embora todos estejam fisiologicamente maduros. Um palhete feito no cacho!

Pelas suas características, a Negra Mole facilita o trabalho na elaboração de rosés, blanc de noirs ou espumantes, porque, mesmo que se distraia durante a maceração, não passa cor em excesso. Pessoalmente, prefiro-a na sua forma mais pura, como vinho tinto, porque mantém a leveza, mas com maior expressão de sabor e uma cor sem igual, que faz lembrar a toranja. É uma casta com um poder de atracção singular e uma força identitária que lhe permitem assumir o papel de porta-bandeira da região vitivinícola onde nasceu.

Vejam só, quando os importadores internacionais procuram os Chillable Red Wines, em Portugal foram reabilitados os palhetes e claretes, e os produtores procuram fórmulas e castas adequadas à produção de tintos mais leves e apetecíveis, que não exijam um bife ao lado, a Negra Mole surge como a resposta algarvia a esta tendência internacional. É talhada precisamente para este perfil e com um storytelling já feito, não é preciso inventar nada.

Com isto não quero dizer que o Algarve tem que se resumir à Negra Mole, mas espero que haja cada vez mais produtores a descobrir as diferentes facetas desta casta. E espero, daqui a uns anos, poder fazer uma grande prova dedicada exclusivamente à Negra Mole. (V.Z.)

CONVERSAS A COPO: Maria João Vieira Pinto

O que marca uma marca de vinho? Marca a diferença, a ousadia, o não ser de ‘fórmula’, em que o perfil não muda ano após ano, apesar da muita chuva ou do sol a pique. Acha que construir uma marca de vinho é mais desafiante do que construir marcas noutros sectores? De todo. A criação, […]

O que marca uma marca de vinho?

Marca a diferença, a ousadia, o não ser de ‘fórmula’, em que o perfil não muda ano após ano, apesar da muita chuva ou do sol a pique.

Acha que construir uma marca de vinho é mais desafiante do que construir marcas noutros sectores?

De todo. A criação, lançamento e construção de uma marca é um desafio gigante, seja em que sector for. Claro que em mercados mais saturados e pulverizados, como é o dos vinhos em Portugal – com centenas de marcas em todas as regiões –, o trabalho fica redobrado. Mas uma marca é uma marca, um ecossistema onde o produto, o preço, a distribuição e comunicação se encaixam para chegar a um público e, no final, ganhar o seu espaço, a sua quota.

O vinho é talvez um dos produtos onde emoção, território e marca coexistem de forma particularmente forte. Enquanto observadora do universo do marketing, como vê hoje a construção das marcas de vinho em Portugal?

É incontável o actual número de marcas de vinhos portugueses, em todas as regiões, e que só é um bom reflexo de um mercado dinâmico. Mas, a verdade é que o espaço é curto para tantas. A exportação é uma das vias para a sobrevivência ou, claro, a construção de marca. E têm sido várias as que têm feito um bom caminho, sendo que nunca bastará ter uma marca forte. É preciso presença na distribuição e no HoReCa, assim como comunicação contínua e alinhada. Olhando para os últimos anos, acho mesmo que as marcas portuguesas, neste sector, têm vindo a fazer um belo trabalho.

Um vinho precisa sobretudo de ser bom… ou de contar uma boa história?

É como tudo, lá está. Já não basta que o hotel seja bom, mas que tenha uma narrativa, já não chega que o restaurante seja de topo, se, no final, não resultar numa experiência… Isto é o que o mercado tem vindo a dizer, sendo que, no final, vale o que vale. Em relação à pergunta, um vinho deveria ser – antes de tudo – bom. Mas há muitos exemplos no mercado que têm vindo a afirmar-se e a crescer em pouco tempo, a contar histórias reais ou não. Uma boa história vende. E, nos vinhos, há sempre belas histórias para contar, basta saber procurá-las e saber partilhá-las. Ou seja, um bom vinho vende per si, desde que a crítica o diga. Mas uma história, às vezes, ajuda a vender mais depressa o produto.

Marca presença em lançamentos e provas vínicas. Recorda-se de algum vinho ou de momento vínico que a tenha marcado particularmente? E porquê?

Por acaso recordo um momento, bem simples, mas que mantenho na memória, porque me permitiu perceber o vinho em causa e o seu potencial. Há uns anos, numa apresentação do Invisivel (o branco de uvas tintas), da Ervideira, casou-se o vinho a diferentes temperaturas – desde gelado ao seu estado normal – com diferentes pratos, entre sushi, peixe mais temperado e carne. Ao mostrar a plasticidade do vinho, este momento simples, mas prático, fez-me entendê-lo muito melhor do que, por vezes, algumas longas dissertações sobre acidez e leveduras.

Se pudesse deixar um conselho às marcas de vinho portuguesas sobre comunicação e relevância futuras, qual seria?

É tão difícil dar conselhos, quando se está de fora. O Dirk [Niepoort] costuma dizer que não se deve ter medo de arriscar. Eu sublinho e acredito, mesmo, que quando se quer ser uma marca no vinho não há erros, há aprendizagens. É essencial sair do conforto, acreditar que é na diferença que se ganha e que fazer mais do mesmo ou igual aos outros é só uma estratégia a curto prazo. Depois, comunicação contínua, para vários públicos, e formação desses mesmos públicos.

(Artigo publicado na edição de Julho de 2026)

 

KIMBREL WINES: Investimento americano no Douro

KIMBREL WINES

Com percurso consolidado nas áreas da estratégia empresarial e consultoria, e passagens pela The Boeing Company ou Coyvance LLC, e no setor vitivinícola, onde esteve envolvido na conceção, desenvolvimento e operação da adega Dakota Shy, em St. Helena, Napa Valley, nos Estados Unidos, o norte-americano David Sylvester apaixonou-se pelo Douro. Também é coproprietário de uma […]

Com percurso consolidado nas áreas da estratégia empresarial e consultoria, e passagens pela The Boeing Company ou Coyvance LLC, e no setor vitivinícola, onde esteve envolvido na conceção, desenvolvimento e operação da adega Dakota Shy, em St. Helena, Napa Valley, nos Estados Unidos, o norte-americano David Sylvester apaixonou-se pelo Douro. Também é coproprietário de uma garrafeira especializada em Washington, D.C. Junta-se a ele Isaac Campelo, rosto da quarta geração de uma família com tradição vitivinícola, com propriedades na região dos Vinhos Verdes e que, após ter feito vindimas lá fora, regressa, para cofundar a Kimbrel Wines.

“A Kimbrel foi desenhada para posicionar o Douro no mapa mundial do vinho de forma sofisticada e consistente. O nosso foco não é o volume, mas sim vinhos produzidos em parcelas únicas”, afirma David Sylvester. O investimento inicial foi de 800 mil euros, com a aquisição da Quinta do Roncão, de 30 hectares. Localizada no Vale de Roncão, data de 1851 e tem 12 hectares de vinha. Desde a aquisição, em 2022, foi feito um trabalho aprofundado, como a reconstrução de muros de xisto, a requalificação de acessos e a replantação de vinhas. O foco está no micro lote e na criação de vinhos tintos e vinhos do Porto. Porém, não está de parte a aquisição de uvas em cotas altas, para elaborar vinho branco. A produção anual não ultrapassa as 20 000 garrafas, estando o Vinho do Porto em vantagem, com 13 000. O objetivo é reforçar o posicionamento premium da marca. A aposta na viticultura de precisão, mínima intervenção e valorização das parcelas antigas são as premissas da equipa de enologia, constituída também por Hugo Silva (consultor) e Javiera Antúnez (assistente), para além do consultor de viticultura, José Carlos Oliveira.

O plano total de investimento prevê atingir os 10 milhões de euros até ao final da presente década. Com o mercado internacional, sobretudo os Estados Unidos, como prioridade, serão desenvolvidos o enoturismo e a recuperação de armazéns históricos, bem como a criação da adega, de uma guest house e de um espaço exterior para eventos, jantares e provas vínicas.

(Artigo publicado na edição de Junho de 2026)

QUINTA DA ROMEYRA: Um novo capítulo para Bucelas

Quinta da Romeyra

Se há região portuguesa subvalorizada na atualidade é Bucelas. O que é incompreensível perante a qualidade dos vinhos brancos e a vetusta história por detrás da denominação. Incompreensível, mas não sem explicação, sendo que anos de aposta num produto mais barato e comercial apenas serviram para banalizar um vinho – o Arinto de Bucelas e, […]

Se há região portuguesa subvalorizada na atualidade é Bucelas. O que é incompreensível perante a qualidade dos vinhos brancos e a vetusta história por detrás da denominação. Incompreensível, mas não sem explicação, sendo que anos de aposta num produto mais barato e comercial apenas serviram para banalizar um vinho – o Arinto de Bucelas e, concretamente, o Branco Velho de Bucelas –, que tinha tudo para manter-se como um néctar clássico de nicho. Mais recentemente, mas nos últimos anos apenas, assistimos a um reerguer da região, inclusivamente com novos produtores a disputar os poucos solos da ondulante e florestal região vinhateira. A Quinta da Romeyra não é um desses novos produtores. Por isso, e pela sua história e dimensão, tem ainda mais responsabilidade na região. Com origens documentadas desde 1218, o nome foi testemunha de episódios marcantes – da passagem do Duque de Wellington, durante as Invasões Francesas, à instituição do Morgado de Santa Catherina, em 1703.

Num contexto em que a Sogrape tem vindo a afirmar projetos em diversas regiões vitivinícolas, Bucelas surge, agora, como território de renovada ambição. Conhecida pelos seus brancos frescos, tensos e marcados por solos calcários únicos, a região começa a querer viver um momento de redescoberta. Esperemos, e tudo indica ser esse o futuro, que a Quinta da Romeyra se assuma como peça central dessa estratégia.

 

Conhecida pelos seus brancos frescos, tensos e marcados por solos calcários, Bucelas surge, agora, como território de renovada ambição

 

 

Nova grafia, novos vinhos

A nova grafia que recupera o original – com a utilização letra ‘y’, simultaneamente clássica e sofisticada – e as novidades do portefólio recentemente apresentadas, expressam, com clareza, essa visão: valorizar a Arinto e devolver a Bucelas o protagonismo que historicamente lhe pertence enquanto única denominação de origem portuguesa exclusivamente dedicada a vinhos brancos. Os vinhos apresentados espelham efetivamente um equilíbrio entre tradição e inovação, procurando interpretar Bucelas a partir da diversidade da própria propriedade: diferentes solos, diversas exposições, distintas expressões da mesma casta. No centro de tudo, a casta Arinto.

Entre as novidades do portefólio da Sogrape no que toca ao vinho produzido em Bucelas, destaca-se o Quinta da Romeyra Colheita 2025, com parte fermentada em barrica de 500 litros, e que se quer posicionar como expressão fiel e versátil da propriedade, o verdadeiro porta-estandarte do projeto.

Num registo mais ambicioso, surge também como boa nova um verdadeiro topo de gama, o Vinha dos Fósseis 2021, elaborado apenas em anos verdadeiramente notáveis. Como o nome indica, é proveniente de solos jurássicos ricos em fósseis marinhos, apresentando uma mineralidade intensa e grande complexidade. Lançado com cinco anos de evolução, assume-se como um gesto ousado que invoca os brancos velhos de antigamente e ombreiam com grandes brancos nacionais e não só.

Ainda sobre a gama dos vinhos, mantêm-se as referências emblemáticas, agora com nova imagem, caso do Prova Régia e do Espumante Bruto Quinta da Romeyra e, ainda, do neoclássico Morgado de Santa Catherina, marca que acompanhou mais do que uma geração de enófilos portugueses no que a brancos com estágio de madeira diz respeito.

A enologia está a cargo de Luís Cabral de Almeida, que destaca os investimentos feitos na adega e a renovação de grande parte da vinha. Para o experiente enólogo, a maior riqueza da propriedade é permitir-lhe explorar a casta Arinto em diversas derivações, sempre com detalhe.

Terminamos como começámos: num setor onde tradição e inovação se cruzam constantemente, renovamos os votos para que este novo capítulo da Quinta da Romeyra represente mais do que um relançamento e a apresentação de novos vinhos. Esperamos que seja um marcador do regresso ao futuro radioso de Bucelas.

 

A nova grafia da Quinta da Romeyra e as novidades do portefólio expressam a vontade de valorizar a Arinto e devolver a Bucelas o protagonismo que historicamente lhe pertence

Quinta da Romeyra

(Artigo publicado na edição de Junho de 2026)