MOUCHÃO: Tonel Nº 3-4, a expressão suprema de uma casta e de um lugar

À entrada da Herdade do Mouchão, localizada em Casa Branca, no concelho de Sousel, tudo transmite uma sensação rara de permanência. Não há ostentação; parece um lugar que nunca teve pressa em modernizar-se para impressionar quem chega. Os edifícios agrícolas alinham-se com uma simplicidade austera: paredes grossas caiadas a branco, janelas pequenas, para proteger do […]
À entrada da Herdade do Mouchão, localizada em Casa Branca, no concelho de Sousel, tudo transmite uma sensação rara de permanência. Não há ostentação; parece um lugar que nunca teve pressa em modernizar-se para impressionar quem chega. Os edifícios agrícolas alinham-se com uma simplicidade austera: paredes grossas caiadas a branco, janelas pequenas, para proteger do calor o interior do edifício, telhados de telha escurecidos pelo tempo. A arquitectura é rural e profundamente alentejana, feita para resistir aos verões quentes e a uma história secular.
Foi aqui que um ramo da família inglesa Reynolds consolidou o projecto agrícola iniciado no Alentejo, ainda no século XIX, primeiro ligado à cortiça e depois ao vinho. Em 1901 foi construída a ala nascente da adega, ano gravado em cima da entrada –significa que este ano a Herdade do Mouchão celebra 125 anos. No entanto, a propriedade soma mais de 150 anos de viticultura. “Por isto, na altura, foi chamada ‘a adega nova’”, explica Iain Reynolds Richardson, que representa a sexta geração da família.
O tempo deixou marcas na herdade. Depois da Revolução de Abril de 1974, o Mouchão foi expropriado e devolvido à família apenas em meados da década de 1980, já bastante degradado. A adega foi recuperada e a vinha teve de ser replantada a partir do material genético original da propriedade.
A franja capilar garante que as raízes mais profundas conseguem alcançar reservas hídricas
O berço da Alicante Bouschet
Na Herdade do Mouchão, com 900 hectares, que incluem olival e montado, a vinha ocupa, hoje, 47 hectares. A maior parcela, com seis hectares, conhecida como Vinha dos Carapetos, está plantada com Alicante Bouschet e Trincadeira. É precisamente aqui que se encontram as raízes da casta protagonista do icónico Mouchão Tonel Nº 3-4, tanto na vinha como na história do Alentejo, num território que lhe oferece o terroir ideal.
A paisagem da propriedade assenta numa vasta planície de sedimentos do Cenozoico, que preencheu uma antiga bacia e originou uma superfície relativamente plana. Durante o Quaternário, esta planície foi sendo progressivamente entalhada pela acção do rio, que esculpiu os vales que actualmente marcam o território.
Adrian Mellin, geólogo com uma longa carreira na Shell, tem um fascínio particular pelo terroir do Mouchão e ajuda a compreender as suas particularidades. Na herdade distinguem-se dois vales principais: o Almadafe Molhado e o Almadafe Seco. Os respectivos nomes reflectem o seu comportamento hidrológico: o primeiro apresenta uma área de drenagem mais activa, concentrando e conduzindo a água ao longo do eixo do vale, enquanto o segundo tem um regime muito mais limitado, com escoamento reduzido e caudais pouco persistentes. Em ambos os casos, as águas provenientes das encostas alimentam o fundo dos vales, onde, durante milhares de anos, em zonas de estrangulamento do curso do rio, se acumulam aluviões, formando várzeas.
O próprio nome “mouchão” está ligado ao terroir e designa pequenos bancos de terra, lodo ou areia que se formam no leito dos rios ou estuários, resultantes da acumulação de aluviões. Segundo Iain, nos mapas de 1894, o rio que moldou o vale apresentava um traçado em ziguezague, dando origem a vários mouchões ao longo desta paisagem.
Passando muito tempo, na herdade, e medindo a água nos poços a 40 e a 80 centímetros de profundidade, Adrian observou uma relação interessante entre a precipitação e o comportamento do lençol freático. Em períodos de chuva significativa, a recarga do solo é intensa, alimentando a zona freática que soube entre duas a três vezes o nível de água que recebe. Cria-se uma zona de saturação capilar mais ampla, que se torna particularmente importante nos períodos secos prolongados e de maior calor, cada vez mais frequentes. Para suportar as temperaturas elevadas, a planta precisa de transpirar e, para isso, necessita de água disponível. A franja capilar garante que as raízes mais profundas conseguem alcançar reservas hídricas, mantendo a planta funcional.
Cria-se um pouco de tensão, um stress controlado, suficiente para equilibrar o desenvolvimento da videira sem comprometer os estados fenológicos. Atinge-se uma maturação completa, mas equilibrada, com menor degradação de ácidos, mantendo a tão preciosa frescura, que encontramos no Tonel Nº 3-4.
Os dados registados ao longo de três anos pela estação meteorológica instalada no vale mostram que as temperaturas máximas são muito semelhantes às de Évora. Já as temperaturas mínimas aproximam-se mais das de Portalegre, cerca de 200 metros acima, uma diferença explicada pela localização da herdade no fundo do vale, onde o ar frio tende a acumular-se durante a noite. O regime de precipitação também segue um padrão mais próximo do de Portalegre do que do de Estremoz ou Évora.
Na vinha, explica Iain, é feita uma monda em verde, removendo parte dos pâmpanos, com o objetivo de abrir a copa, melhorar a ventilação e reduzir a necessidade de tratamentos. O trabalho fitossanitário baseia-se quase exclusivamente em cobre e enxofre, embora, em situações excepcionais, possam ser utilizados outros tratamentos de recurso. Em meados de Julho, realiza-se igualmente a monda de cachos, para ajustar o potencial produtivo da vinha.
Nos últimos 12 anos, a produção média tem sido de cerca de quatro toneladas por hectare, descendo, em alguns anos, para valores próximos das duas toneladas. Em 2015, a produção atingiu 4,5 toneladas por hectare.
Mouchão vs. Tonel 3-4
Após o período de ocupação, quando a herdade regressou às mãos da família, já não havia vinho; tinha sido todo vendido. Para restaurar os grandes tonéis, os tanoeiros chegaram a viver na propriedade durante dois anos. Segundo Iain, os tonéis 3 e 4 são construídos a partir de diferentes madeiras (castanho, carvalho, macacaúba e mogno), com aduelas a rondar os 60 anos e topos a aproximarem-se dos 100 anos.
O primeiro vinho Tonel Nº 3-4 surgiu na colheita de 1996. Desde então, foram lançadas apenas sete edições, correspondendo à oitava a de 2015, a ser lançada agora.
Iain esclarece que esta referência só é produzida em anos em que “o Alicante Bouschet é fantástico” e está disponível em “quantidade suficiente, para assegurar também o Mouchão”. Se a primeira razão é óbvia, a segunda tem a ver com a filosofia da casa. Há anos em que, do ponto de vista qualitativo, seria possível produzir o Tonel Nº 3-4, mas tal não acontece, devido à reduzida quantidade de uva que não permite assegurar simultaneamente os dois vinhos.
“Nós somos conhecidos pelo Mouchão. Esse é o nosso fio de estabilidade ao longo dos últimos 70 anos e não queremos que este vinho sofra a custo do outro vinho […], o Mouchão, para nós, é o principal. Depois temos um enorme prazer, em anos como este, de lançar uma coisa absolutamente fantástica, completamente fora dos moldes do Mouchão.”
O enólogo Hamilton Reis resume, de forma poética, a relação entre os dois topos de gama da herdade, mas simultaneamente muito precisa. O Mouchão não é um segundo vinho da propriedade: “reúne numa garrafa o património e a identidade de duas famílias – os Reynolds, na sexta geração enquanto proprietários, e os Alabaça, na terceira geração enquanto adegueiros –, bem como as diferentes parcelas de Alicante Bouschet e Trincadeira”. Por sua vez, o Tonel Nº 3-4 vive numa realidade diferente. É, nas suas palavras, “um vinho egoísta”, “a expressão máxima de uma casta que encontrou o seu território perfeito” e “um produto absolutamente único que fala de si”.
Normalmente, a primeira noção de que poderá haver um Tonel surge ainda durante a vindima. O longo estágio permite adiar a decisão até ao momento em que já não restam dúvidas. A produção varia de ano para ano. O Mouchão é produzido na ordem das 35-40 mil garrafas. O Tonel Nº 3-4 de 2015 resultou em 11 mil garrafas. A produção total da herdade ronda as 150 mil garrafas.
Mini-vertical
Antes de conhecer o vinho que deu origem a este lançamento especial, provámos duas colheitas anteriores – 2001 e 2005 –, com o objetivo de evidenciar a capacidade de envelhecimento do Tonel Nº 3-4. João Alabaça explicou que “o ano 2001 teve alguma falta de água, mas viveu no que deixou o ano anterior. O 2005 foi o primeiro ano do ciclo de seca entre 2005-2008, mas o 2004 foi o ano de água, o que acabou por criar um equilíbrio”, resumiu.
Na prova, o Tonel Nº 3-4 2001 mostrou-se muito profundo no aroma, balsâmico, com couro fino e azeitona preta, alguma tinta-da-china, mas com fruta ainda fresca a lembrar amora e cereja bem madura. Muita frescura em evolução, firmeza de tanino e textura de linho. O 2005, ligeiramente mais fechado, revelou também fruta como a amora e a cereja preta, muito couro e eucalipto, pimenta e um fundo terroso com apontamentos de petrichor. Surgiram ainda nuances de açúcar mascavado e, com tempo no copo, especiaria doce. Musculado, muito fresco e ainda com uma energia jovem e uma ligeira nota verde do engaço, que acrescenta tensão. Nenhum dos dois se mostra pesado ou cansado; ambos projectam uma grande presença e afirmação de estilo e carácter.
O Tonel 3-4 2015
Segundo João Alabaça “o ano 2014 fechou com muita chuva e, quando começou o 2015, tornou-se um inverno extremamente seco e muito frio. A primavera foi mais amena, choveu pontualmente, mas a chuva estava com uma boa intensidade, por isto a água ficou no solo. A fase da primavera, com excelentes temperaturas. Em finais de Junho, princípio de Julho, tivemos um grande problema com temperaturas muito altas durante uma semana e nesta altura perdemos muita fruta queimada. Isto desenvolveu um cacho mais aberto, com as uvas mais pequenas, que resultou em concentração e muito equilíbrio no próprio cacho e na vinha. O verão correu plenamente, não muito quente, oscilações de noite e dia muito agradáveis até praticamente a vindima. Não tivemos nem pragas nem doenças na vinha, quase sem tratamento. A colheita das uvas na Vinha dos Carapetos, aconteceu entre o dia 9 e o dia 11 de Setembro. As uvas estavam fantasticamente sãs, com um equilíbrio muito grande entre a maturação alcoólica e a maturação fenólica. Os engaços estavam completamente maduros.”
Esta última referência aos engaços é particularmente relevante, uma vez que a filosofia de vinificação da propriedade se mantém inalterada desde sempre: fermentação em lagares de mármore, com pisa a pé e sem desengace. Após cerca de sete dias, o vinho é trasfegado para os tonéis, onde realiza a fermentação maloláctica e estagia durante três a quatro anos.
Depois do engarrafamento, o estágio continua por mais seis anos antes do lançamento para o mercado. Em princípio, a partir deste momento o vinho está num ponto óptimo para ser apreciado, mas facilmente aguentará mais uma década (ou mais) em garrafa.
(Artigo publicado na edição de Junho de 2026)
31 de Julho – 1.º Dia Nacional da Vinha e do Vinho

No dia 31 de Julho, em que o Instituto da Vinha e do Vinho, I.P. (IVV) comemorou 40 anos sobre a sua criação, através de Despacho do Senhor Ministro da Agricultura e Mar, foi instituído o 1.º Dia Nacional da Vinha e do Vinho. A partir de agora, esta data será marcada pela celebração anual […]
No dia 31 de Julho, em que o Instituto da Vinha e do Vinho, I.P. (IVV) comemorou 40 anos sobre a sua criação, através de Despacho do Senhor Ministro da Agricultura e Mar, foi instituído o 1.º Dia Nacional da Vinha e do Vinho.
A partir de agora, esta data será marcada pela celebração anual e afirmação pública do valor civilizacional do vinho e da centralidade da vinha na paisagem, na história, na economia, na iconografia e na cultura de Portugal.
Ao longo de quatro décadas, o IVV afirmou-se como a autoridade nacional responsável pela coordenação e controlo do sector vitivinícola, pela gestão das denominações de origem (DO) e indicações geográficas (IG) e pela valorização do património vitivinícola nacional – pilar da identidade, da economia e da cultura portuguesas. Nas palavras do Presidente do IVV, Francisco Toscano Rico, os primeiros 40 anos foram de afirmação e os próximos 40 serão de ambição.
A noite da celebração reuniu, na sede do IVV, representantes do sector, do Governo, da academia, da cultura e do corpo diplomático. Neste âmbito, decorreram várias actividades relacionadas com o tema vínico, como a mostra e degustação das 14 regiões vinhateiras nacionais, em colaboração com a ANDOVI e com os Escanções de Portugal; a mostra de vinhos estagiados na Adega do Mar, submergidos pela ECOALGA, explorando o conceito de «Marroir»; o projecto gastronómico «Menus com História» e os «Livros de Culto da Cozinha Portuguesa»; uma exposição de pintura, com destaque particular para Roque Gameiro; uma exposição de faiança de Bordallo Pinheiro alusiva à Vinha e ao Vinho; um percurso de literatura vínica que inclui o «Portugal Vinícola», de Cincinnato da Costa (original do IVV, levado à Exposição Universal de Paris, em 1900), a colecção privada de rótulos de Abel Pereira da Fonseca associada à figura de Fernando Pessoa, e a obra contemporânea «Viti, Vini, Vici», com excertos declamados pelo autor, Thomaz Vieira da Cruz; o concerto «In Vino Veritas», com o Ensemble Vocal Introitus; e o núcleo «A Ciência por detrás da Vinha e do Vinho», na Biblioteca do IVV.
Com esta efeméride, o IVV reafirmou a importância da vinha e do vinho na civilização mediterrânica e o seu papel central na identidade portuguesa.
Na mesma ocasião, foram lançados o novo Portal da Vinha e do Vinho e o Anuário 2025 de Vinhos e Aguardentes de Portugal, já disponível para consulta.
Domaine Pierre Damoy na Roederer Collection

O Domaine Pierre Damoy já faz parte da prestigiada casa de Champagne Roederer Collection. Com esta aquisição, a emblemática propriedade de GevreyChambertin, situada no Côte de Nuits, na Borgonha francesa, começa a escrever um novo capítulo da sua história. Paralelamente, esta aquisição assinala um marco para a Louis Roederer, que concretiza a sua primeira aquisição […]
O Domaine Pierre Damoy já faz parte da prestigiada casa de Champagne Roederer Collection. Com esta aquisição, a emblemática propriedade de GevreyChambertin, situada no Côte de Nuits, na Borgonha francesa, começa a escrever um novo capítulo da sua história. Paralelamente, esta aquisição assinala um marco para a Louis Roederer, que concretiza a sua primeira aquisição na referida regiãoo vitivinícola no ano em que celebra o seu 250.º aniversário.
A propriedade reúne um património vitivinícola considerado singular, graças à elevada proporção de vinhas velhas e à excepcional diversidade genética, factores que, de acordo com o comunicado, se associam à filosofia da Roederer Collection: “preservar, cuidar e transmitir propriedades vitivinícolas de excelência, cada uma com uma identidade própria, profundamente enraizada no seu território e assente num profundo respeito pela natureza.”
No total, o Domaine Pierre Damoy reúne cerca de oito hectares de vinhas classificadas como Grand Cru, maioritariamente localizadas nas denominações Chambertin, Chambertin-Clos de Bèze e Chapelle-Chambertin, bem como o Clos Tamisot, vinha situada em GevreyChambertin.
Sobre a Roederer Collection, é de realçar o roteiro vitivinícola que possui pelo mundo, de Champagne a Bordéus, da Vale do Rhône à Provence e do Douro à Califórnia.
Frédéric Rouzaud, CEO da Louis Roederer, afirmou, em comunicado o seguinte: “Este passo reflecte profundamente aquilo que somos: uma casa independente e familiar, comprometida com o longo prazo, com a terra, com o saber-fazer paciente e com a transmissão às gerações futuras. Foi precisamente o Domaine Pierre Damoy que nos levou a dar este passo, por reunir tudo aquilo que mais valorizamos: terroirs excecionais, um património vitícola ímpar, uma identidade forte e uma das histórias mais emblemáticas da Borgonha. A nossa missão é agora acompanhar esta propriedade com humildade e elevado sentido de exigência, dando continuidade ao extraordinário trabalho desenvolvido pela família Damoy, preservando tudo o que a torna verdadeiramente única.”
Caves Burmester com nova experiência museológica

A Burmester, fundada em 1750 por Henry Burmester e John Nash, agora pertencente à Kopke Group, reabre as portas em Vila Nova de Gaia, com um novo projeto museográfico. Entre balseiros centenários, corredores de pedra granítica e vinhos que envelhecem há várias gerações, há o convite para embarcar numa viagem pela memória, tradição e identidade […]
A Burmester, fundada em 1750 por Henry Burmester e John Nash, agora pertencente à Kopke Group, reabre as portas em Vila Nova de Gaia, com um novo projeto museográfico. Entre balseiros centenários, corredores de pedra granítica e vinhos que envelhecem há várias gerações, há o convite para embarcar numa viagem pela memória, tradição e identidade desta casa históricas do Vinho do Porto.
Aqui, património e tecnologia cruzam-se através de fotografias antigas e de aromas, bem como de conteúdos audiovisuais, instalações luminosas e elementos interactivos que revelam a história da família Burmester e a sua ligação com o Vinho do Porto. Várias questões vão surgindo ao longo do percurso num diálogo constante entre passado e presente. “Com quase três séculos de história, a Burmester continua, assim, a afirmar o seu carácter elegante, cosmopolita e profundamente ligado ao Douro, preparando-se para entrar no seu tricentenário sem perder a autenticidade que a tornou uma referência incontornável no universo do Vinho do Porto”, salienta, em comunicado, Maria Manuel Ramos, Directora de Turismo do Kopke Group.
LAVRADORES DE FEITORIA: 25 anos de vida

«O Douro é vinho. Vinho e vinha. Pode ser rio, pode ser terra. Região ou vila. Mas é, sobretudo, vinho. A monocultura é assim, impregna tudo, os montes, as casas e os homens. Como em qualquer outra região do país, os Durienses participaram em toda a história de Portugal. Influenciaram‑na e por ela foram condicionados. […]
«O Douro é vinho. Vinho e vinha. Pode ser rio, pode ser terra. Região ou vila. Mas é, sobretudo, vinho. A monocultura é assim, impregna tudo, os montes, as casas e os homens. Como em qualquer outra região do país, os Durienses participaram em toda a história de Portugal. Influenciaram‑na e por ela foram condicionados. Têm as suas glórias e as suas misérias. Ajudaram a consolidar a nacionalidade e deram o seu contributo para as explorações marítimas. Estiveram presentes nas lutas dinásticas, perseguiram espanhóis, foram valentes no combate aos exércitos franceses de ocupação. Envolveram‑se nas guerras liberais e em quase todas as revoluções dos séculos XIX e XX.
Ainda há pouco tempo, no meio das dificuldades da fundação do Estado democrático, foi da Régua e dos vales do Douro que vieram gritos rebeldes em defesa das liberdades. A história dos Durienses vale a dos seus conterrâneos de qualquer região. Mas, se um Duriense fala da sua terra, o vinho será imediatamente o tema. Chamem‑lhe fino ou licoroso, generoso ou de feitoria, de embarque ou de carregação, ou simplesmente, como em todo o mundo, vinho do Porto: será esse o seu bilhete de identidade.
Os povos gostam de se identificar com algo que os distinga, uma glória do passado ou um especial traço do presente. O vinho é, no Douro, a memória de todos, o fio condutor de gerações. O vinho está presente do modo mais indelével que seja: nas consciências e nos sentimentos. Mas também reina na paisagem, naqueles formidáveis socalcos que, montanha acima, acabaram por lhe dar forma e feitio. “É o mais belo e mais doloroso monumento ao trabalho do povo português” (Jaime Cortesão). E é tema indispensável na literatura local ou sobre a região.
É evocado nos cantares e nas tradições culturais. É, finalmente, o centro da vida económica regional, tendo já sido o principal trunfo português no comércio externo. A sociedade contemporânea, com os serviços, a administração, as escolas, uma incipiente industrialização, os meios de comunicação e a televisão, é muito diferente daquela que ainda recordam os Durienses com cinquenta ou mais anos. O império do vinho parece menos marcado. O relógio das adegas e das vinhas deixou de governar os dias do Douro. O calendário das vindimas já não dita a sua lei. Os trabalhos da vinha e do vinho já não são obsessivamente os únicos que interessam e preocupam os Durienses. Isso é verdade. Mas o reino do vinho, embora menos despótico, ainda existe.
Grande parte do vinho produzido no mundo não tem origem. Ou antes, o local de nascimento é desconhecido. Ou é vago. Os lotes e as misturas, legais ou improvisados, são responsáveis pela massificação vinícola. Durante muito tempo, até meados do século vinte, esta era a situação dominante. Ora, nas últimas décadas, a evolução dos gostos e dos mercados alterou essa realidade, sendo cada vez mais numerosos os vinhos com nome de sítio. Os vinhos com origem demarcada constituem a fidalguia da espécie. E, como sempre acontece nestas coisas, há os que são mais fidalgos do que outros. Uma “região demarcada” é melhor do que uma “origem determinada”. Dentro das regiões demarcadas, há também diferenças, como na aristocracia. Há os que são “mais nobres” do que outros, ou mais antigos, ou com mais pergaminhos. Nesta classificação imaginada, o Douro vem entre os primeiros.
Com efeito, a região foi a primeira do mundo a ser demarcada, antes mesmo de se ter inventado o conceito. Desde o século XVIII que o vinho do Douro, mais propriamente o vinho do Porto, é aquele que provém de uma região bem definida. Décadas mais tarde, os franceses fizeram operação semelhante, demarcando o Bordéus, depois o Borgonha, o Champanhe e outros. Italianos e Espanhóis seguiram. E Alemães, Austríacos, Húngaros, Jugoslavos e Suíços. Hoje, Australianos, Sul‑Africanos e Americanos fazem o mesmo.
Demarcar significa dar identidade. A verdade é que um vinho, se tem personalidade, vem de um sítio. Para ter carácter, um vinho faz‑se numa região. Particulares condições naturais, o sol e a pedra, a terra e a água, ajudam a criar um produto singular, um vinho diferente. Mas isto é apenas o princípio. Nenhum vinho, tal como o conhecemos, é produto directo da natureza. Nenhum vinho que bebemos é igual ao que se bebia há dois ou três séculos, muito menos igual aos que se bebiam nos tempos da Bíblia, que de vinho tanto fala; ou dos conventos da Idade Média, que pelo vinho tanto fizeram; ou das explorações marítimas, que do vinho tantas saudades tiveram. É mesmo provável que, se nos fosse dado beber vinho feito como há um ou dois milénios, sentíssemos real repugnância em fazê‑lo.
Os vinhos que temos diante de nós são o resultado de um longo apuramento do gosto e de uma evolução ininterrupta dos métodos de fabrico e de conservação. O vinho da natureza não é o vinho dos homens. Este último é fabricado. Com sabor, gosto, lutas e mercado; com sonhos, riqueza, coragem e pobreza; com arte e ciência, com técnica e sofrimento.
No Douro, que produz um vinho complexo, um vinho mais feito e mais “fabricado” do que outros, os homens desbravaram o mato, subiram as encostas, aterraram e surribaram. Desfizeram a pedra, fabricaram terra, levantaram muros, construíram milhares de quilómetros de socalcos, serra acima e vale adentro. Quebraram a rocha, cavaram a terra, saltaram os rios, procuraram água e marcaram sítios para viver. Plantaram, enxertaram, podaram as vides, colheram as uvas, pisaram, trasfegaram, transportaram e fizeram o vinho. Conservaram, armazenaram, fizeram lotes, misturaram aguardente, envelheceram e apuraram.

E o vinho fez uma região, fez os solares, as quintas e os casebres. Fez os lagares e os cardenhos; as pipas e os rabelos; os ricos e os pobres. Nada de importante, no Douro, é independente do vinho. Nem as Igrejas e os mosteiros, que o vinho fez e que vinho fizeram.
Foi o vinho que fez o Douro, porque o Douro, antes do vinho, era muito pouco o que é hoje. Até as montanhas são diferentes. Não foi o Douro que fez o vinho. Foi o homem que fez o vinho. O homem, as suas técnicas e o mercado. De volta, o vinho fez o Duriense. Condicionou‑o, influenciou‑o.
A história do vinho é a história do Douro e marcou a história dos Durienses. Por isso é possível dizer, com Orlando Ribeiro, que “…foi o homem que trouxe o maior reforço à meridionalidade da região”. E, com Virgílio Taborda, que “foi a vinha, o fabrico e o comércio do vinho do Porto que fizeram o Alto Douro”. O Douro de que aqui se fala é tão só o Alto Douro. Mas quase nem é preciso dizê‑lo.
A história e o vinho confiscaram o nome e expropriaram as outras regiões que dele se podiam reclamar. Da Régua ou de Barqueiros até ao Porto, até à Foz do Douro, para ser mais preciso, também é Douro, mas, para se saber de que se trata, é necessário acrescentar “Litoral”. De Barca d’Alva até Miranda, dir‑se‑á que é o Douro “internacional” e faz fronteira entre Portugal e a Espanha há séculos. O Douro demarcado, o Douro do vinho, Alto Douro para os geógrafos, é o Douro fidalgo, o que tem morgadio. Dentro dele, poder‑se‑á falar de Baixo Corgo, de Cima Corgo e de Douro Superior, mas isso já é nomenclatura técnica. Douro é Douro, é o Alto Douro e mais nenhum.»
Nenhuma destas palavras acima são minhas, não. Tomara eu. São palavras superiores, de uma mente superior, como a de António Barreto, sociólogo português, duriense e Presidente da Assembleia Geral de Lavradores de Feitoria entre 2002 a 2020. Mas quem escreve assim sobre o Douro, com este conhecimento, com esta crueza narrativa, com sentido de lugar e profundidade emocional, tem de ser, de forma inelutável, um dos principais responsáveis, senão o principal mesmo, pelo sucesso e pelos 25 anos de duração do projecto Lavradores de Feitoria. Esta é a pequena homenagem que aqui lhe presto.
A responsabilidade que ficou para quem veio a seguir, e para os que virão no futuro, é, certamente, enorme de igual modo, mas a parte mais difícil do trabalho ficou praticamente feita, como se António Barreto, em vez de ensinar só a pescar, tivesse também ensinado os peixes a morder o anzol, tornando a pesca e o trabalho das gerações seguintes de pescadores muito mais fácil e prazeirosa. E, assim, pode dizer-se que o vinho fez o Douro, fez o duriense e fez a Lavradores de Feitoria.

O início do projecto
O nome Lavradores de Feitoria tem a sua origem remota nos vinhos de feitoria da época Pombalina, uma suposta selecção dos melhores vinhos da região do Douro, que, a posteriori, o Marquês de Pombal destinava aos apreciadores mais exigentes do nosso país e do mundo, como forma de promover a ‘sua’ recém demarcada região do Douro.
Nascida no ano 2000, a Lavradores de Feitoria resulta inicialmente da união de 15 lavradores do Douro, proprietários de 19 quintas, sob um modelo de gestão e produção unificado, como forma de obter sinergias e ganhos de escala em todas as etapas da produção de vinho. Mas esta era, sobretudo, uma ideia e uma visão para o futuro – actualmente, é constituída por 51 accionistas, 15 dos quais possuem 20 propriedades na região.
A aquisição pela Lavradores de Feitoria, em 2008, da Quinta do Medronheiro, em Sabrosa, mesmo ao lado do Palácio de Mateus, com fundos exclusivamente próprios, marcou o início da produção de uva própria. Este feito culminou em 2021, com a conclusão da nova adega, transportando definitivamente o projecto para um patamar evolutivo e de qualidade superiores.
Paulo Ruão, comanda os destinos da enologia da Lavradores desde 2005. Conhecedor profundo de cada vinha, cada parcela, cada exposição, cada altitude e de cada lavrador, faz os vinhos, privilegiando sempre a frescura, a elegância e o equilíbrio, com o cunho do carácter único e vincado da região do Douro.
Boal, Códega, Gouveio, Malvasia, Sauvignon Blanc e Viosinho são as castas brancas, enquanto nas tintas, algumas de vinhas com mais de 80 anos, podemos encontrar Tinta Amarela, Tinta Barroca, Tinta Roriz, Tinto Cão, Touriga Francesa, Touriga Nacional e Alvarelhão.
Foi, em particular, o Alvarelhão que fomos provar. Proveniente de uma pequena parcela de 0,6 hectares de uma vinha plantada em 1920, na vizinha Casa de Mateus, esta casta nativa, ancestral e rara, impõe grandes desafios na viticultura, mas recompensa largamente pela sua extraordinária finesse. E é claro que não nos ficámos só pelo Alvarelhão. Afinal, são quase cinco horas de viagem de Lisboa até Sabrosa e a Lavradores de Feitoria tem sempre algo mais para mostrar.
(Artigo publicado na edição de Junho de 2026)
Um novo olhar sobre a região do Tejo

Até 31 de agosto, estão abertas as inscrições para a 4ª edição do Concurso de Fotografia Vinhos do Tejo, iniciativa bienal promovida pela Comissão Vitivinícola Regional do Tejo (CVR Tejo), em parceria com a Confraria Enófila Nossa Senhora do Tejo e com a Rota dos Vinhos do Tejo. Sob o tema “Vinho e…”, a finalidade […]
Até 31 de agosto, estão abertas as inscrições para a 4ª edição do Concurso de Fotografia Vinhos do Tejo, iniciativa bienal promovida pela Comissão Vitivinícola Regional do Tejo (CVR Tejo), em parceria com a Confraria Enófila Nossa Senhora do Tejo e com a Rota dos Vinhos do Tejo. Sob o tema “Vinho e…”, a finalidade deste desafio consiste em dar a conhecer a paisagem vitivinícola da região de uma forma mais artística.
Com produtores, na vinha, na adega, em momentos de enoturismo, à mesa, enquadrado no património ou integrado em tradições ou momentos culturais. Eis os protagonistas e os cenários válidos neste concurso. As fotografias podem ser de arquivo pessoal, desde que sejam originais e inéditas, a cores ou a preto e branco e não é necessário ser um fotógrafo profissional. No envio de cada uma imagem, devem constar os direitos do autor de quem se candidata a esta edição.
A inscrição é gratuita e é feita através do acesso ao site da Confraria, em www.confrariadotejo.pt, onde pode consultar o regulamento do concurso e onde está disponível a ficha de inscrição. Depois de preenchida, deve ser enviada para o e-mail confraria.enofila.tejo@gmail.com, por meio do qual cada concorrente deve enviar, no máximo, seis fotografias.
O júri do Concurso de Fotografia Vinhos do Tejo é constituído por fotógrafos profissionais, que avaliarão as três melhores fotografias de cada participante. São atribuídos prémios ao 1º, 2º e 3º lugares; do 4º ao 10º são entregues diplomas de menção honrosa. O grande vencedor recebe um fim-de-semana na região dos Vinhos do Tejo (para duas pessoas), com visita e prova na Quinta da Ribeirinha, na Póvoa de Santarém, seguida de jantar, dormida e pequeno-almoço no hotel de charme Casa da Amieira, em Amiais de Cima. Ao segundo lugar é oferecida uma visita e prova de vinhos na Quinta da Badula, em Arrouquelas, Rio Maior, e jantar na Tasquinha do Lagar, na vila da Marmeleira, também em Rio Maior (para duas pessoas). O titular do terceiro lugar recebe 12 garrafas de vinhos do Tejo premiados no Concurso Vinhos do Tejo.
Os resultados serão divulgados em 2027, sendo os prémios e os diplomas entregues na anual Gala Vinhos do Tejo.
Papa Figos com nova imagem

O icónico Papa Figos apresenta uma linguagem mais contemporânea, graças à nova identidade visual, projecto desenvolvido em parceria com o estúdio português Rita Rivotti Design Studio, o qual se estende às caixas de transporte em cartão kraft. O novo packaging do branco, rosé e tinto destaca-se pela adoção de papel autocolante de maior gramagem e […]
O icónico Papa Figos apresenta uma linguagem mais contemporânea, graças à nova identidade visual, projecto desenvolvido em parceria com o estúdio português Rita Rivotti Design Studio, o qual se estende às caixas de transporte em cartão kraft. O novo packaging do branco, rosé e tinto destaca-se pela adoção de papel autocolante de maior gramagem e pela integração de outros elementos, como relevos, texturas, vernizes braille e dourados mais expressivos. Objectivo? Conferir maior elegância e protagonismo à ave que dá nome à marca.
Afinal, esta marca, inspirada no Oriolus oriolus, foi apresentada ao mercado em 2012, a ave migratória que, na Primavera, regressa ao Douro, simbolizando, segundo o comunicado, “a vitalidade e o equilíbrio do ecossistema da região”. Logo após ter entrado no mercado, o Papa Figos “tem ultrapassado os dois milhões de garrafas vendidas”.
Para Filipe Gonçalves, Chief Marketing Officer da Sogrape, esta nova fase de Papa Figos “é um passo estratégico que reafirma a nossa confiança na força da marca para continuar a levar a personalidade única do Douro a novos públicos e mercados”. A nova imagem começa a chegar ao mercado durante este mês, com implementação progressiva nos diferentes canais de distribuição nacionais e internacionais.
QUINTA DO NOVAL: Qualidade de um ano perfeito

A história mais recente da Quinta do Noval sob a gestão de Christian Seely, Director-Geral da AXA Millésimes, é, sem dúvida, a mais intensa e rica desde a fundação da propriedade, em 1715. Para além da tradição que sempre se fez questão em preservar, para Christian Seely e toda a equipa da Quinta do Noval, […]
A história mais recente da Quinta do Noval sob a gestão de Christian Seely, Director-Geral da AXA Millésimes, é, sem dúvida, a mais intensa e rica desde a fundação da propriedade, em 1715. Para além da tradição que sempre se fez questão em preservar, para Christian Seely e toda a equipa da Quinta do Noval, estes 33 anos foram “um período de descobertas e redescobertas”. Em 1994 só se fazia Vinho do Porto; mais tarde descobriram que os terroirs da propriedade também tinham grande potencial para vinhos não fortificados. O primeiro tinto surgiu com a colheita de 2004 e, alguns anos mais tarde, chegaram os brancos. Outra redescoberta foi o potencial qualitativo das vinhas velhas e dos field blends.
O grande 2024
O porquê de 2024 ser extraordinário explica Carlos Agrellos, Director Técnico da Quinta do Noval: “tivemos uma série de anos secos. Primeiro 2020, depois 2021, um ano razoável, 2022 novamente seco e 2023 com alguns problemas de chuva na vindima. Mas 2024, em traços gerais, foi um ano muito equilibrado do ponto de vista climático. Tivemos um inverno chuvoso, o que é sempre positivo, seguido de uma primavera amena, com alguma chuva. E convém dizer que, em 2024 choveu menos do que em 2023, e a precipitação foi muito bem distribuída ao longo do ano. Apenas o mês de Agosto não teve qualquer pluviosidade. Isto permitiu um ciclo vegetativo mais longo e, olhando para as declarações passadas, podemos afirmar que um ano em que toda a vindima decorre sem paragens, geralmente conduz a bons vinhos. Houve alguma chuva nocturna a 16 e 23 de Setembro, que não impediu a continuidade da vindima. E foi muito esticada, tendo começado no dia 22 de Agosto e terminado a 11 de Outubro, e as uvas acabaram por ter uma maturação fenólica e uma acidez muito equilibradas.”
Nada melhor confirma estas observações do que os próprios vinhos. Posto isto, a sequência da prova começou nos brancos (que embora já tenham sido provados anteriormente, serviram de bom exemplo neste contexto), continuou com os tintos e terminou em grande com os vinhos do Porto Vintage, incluindo o mítico Noval Nacional. Mas antes vamos ver os pontos em comum entre os vinhos não fortificados e os do Porto.
Vale de Mendiz e do Roncão
A Quinta do Noval e a Quinta do Passadouro, adquirida em 2019, têm vinhas em dois vales – Vale de Mendiz e Vale do Roncão. Carlos Agrellos explica que há uma diferença marcante entre os vales de Mendiz e do Roncão. O primeiro, situado na margem esquerda do rio Pinhão, situa-se no fundo do vale, numa zona muito quente, mas com uma identidade muito própria e particularmente importante para o Douro, marcada pelo carácter típico do Vale de Mendiz. A zona do Roncão, também conhecida como Ribeira do Roncão, que conduz ao Douro, embora seja quente, beneficia de um fluxo de vento que entra pelo vale acima e ajuda a manter as vinhas bem arejadas. “Curiosamente, os vinhos do Vale de Mendiz apresentam sempre muita pureza de fruta silvestre e notas florais, uma assinatura do Vale de Mendiz, que não encontramos no Roncão onde os vinhos são mais frutados, nem tanto florais, e têm mais estrutura”, conclui o Director Técnico da Quinta do Noval.
O monovarietal de Touriga Nacional da Quinta do Passadouro é uma combinação de parcelas do vale de Mendiz, onde se concentram as vinhas velhas, e da vinha do Síbio, no vale do Roncão, onde as plantações são organizadas por casta. Por sua vez, o monovarietal de Touriga Nacional da Quinta do Noval resulta de quatro parcelas: três no Vale de Mendiz e uma no Roncão.
Mesmo no Vintage da Quinta do Noval, que tem maior proporção de uva do Vale de Mendiz, alguma parte provém sempre do Roncão, “para lhe dar músculo”.
“É este paradoxo do Douro: uma zona quente onde conseguimos fazer vinhos destes, com frescura e finesse”, resume Carlos Agrellos
“Não queremos abdicar da possibilidade de produzir um Porto Vintage que expressa não só os nossos terroirs, mas também o ano”, explica Christian Seely
Vinhas velhas, o componente essencial
Como referiu no início Christian Seely, as vinhas velhas foram uma grande descoberta na Quinta do Noval e também no Passadouro. Quando a propriedade foi adquirida, as parcelas plantadas na década de 1930 estavam muito bem preservadas, exigindo apenas algumas retanchas. Foi também feito, em colaboração com a PORVID, o levantamento de todas as castas presentes (mais de 30), que hoje se encontram catalogadas. O lote do Quinta do Passadouro Reserva é composto maioritariamente por vinhas velhas (74%), mais 16% de Touriga Nacional e 10% de Touriga Francesa.
O Quinta do Noval Reserva era tipicamente um blend de Touriga Nacional e Touriga Francesa, mas em 2020, no Douro em geral, esta última amadureceu muito mais cedo do que o normal e não estava na sua melhor forma na altura da vindima. E, pela primeira vez, as uvas da vinha velha entraram no lote. O resultado foi tão relevante, que passaram a representar uma grande parte desta referência. O Reserva de 2024 conta com 50% de vinhas velhas, 32% de Touriga Nacional e 18% de Touriga Francesa.
A título de exemplo, o Quinta do Passadouro Reserva tem acidez total de 6,10 gramas por litro e um pH 3,54 e o Quinta do Noval Reserva regista 6,40 gramas por litro de acidez e um pH de 3,47. Ambos evidenciam taninos muito finos, do mesmo tipo que, com mais trabalho e pisa em lagar, dão origem aos Porto Vintage. “É este paradoxo do Douro: uma zona quente onde conseguimos fazer vinhos destes, com frescura e finesse”, resume Carlos Agrellos.
Abordagem na adega
Na adega, os vinhos da Quinta do Passadouro são trabalhados de forma diferente dos da Quinta do Noval. Os primeiros fermentam em lagar, mas por pouco tempo, privilegiando a extracção pré-fermentativa em detrimento da maceração pós-fermentativa. Por isso, após uma breve pisa, o vinho é trasfegado.
O estágio decorre integralmente em barrica, com uma proporção de 15-20% de madeira nova, 5-10% de segundo ano e 70-80% de terceiro ano. Esta utilização de barricas de segundo e terceiro ano preserva o carácter frutado e floral, sem dominar o vinho.
O Noval Nacional representa apenas 0,65% do volume total do Vinho do Porto produzido na propriedade.
Terroir Series
A filosofia por trás desta designação é bastante simples: sempre que nas múltiplas vinificações surge um vinho claramente distinto dos restantes (seja monovarietal, seja de vinhas velhas, como até agora), é engarrafado como Terroir Series. Para já, existem dois vinhos feitos a partir de uvas provenientes de parcelas praticamente centenárias, com castas misturadas.
O Vinha da Marka viu a sua primeira expressão em vinho em 2019 e, desde então, tem sido lançado todos os anos. É uma parcela situada ao lado da Quinta do Crasto. A sequência da Vinha da Ponte, da Maria Teresa e da Marka, sugere uma contemporaneidade na plantação, parecendo ser vinhas da mesma época. A vinha da Marka com mais de 30 castas a 140-180 metros de altitude junto ao rio, apresenta um rendimento médio de 15 hectolitros por hectare. Vindimou-se numa manhã no dia 30 Setembro e resultou em 1024 garrafas.
Mais uma vez a título de exemplo: o Vinha da Marka com 14%, tem 6,60 gramas por litro de acidez total e um pH 3,44. Na opinião do enólogo, estes valores indicativos das vinhas velhas “nunca entram em sobrematuração”, produzindo um grande equilíbrio entre tanino e frescura, com finesse e um potencial de evolução como se fosse um grande Vintage.
No caso do Vinha do Passadouro, trata-se de uma parcela com 28 castas (numa combinação diferente da Vinha da Marka) situada a 320 metros de altitude e com uma elevada densidade de plantação para uma vinha velha do Douro: cerca de 5500 pés. Também plantada na década de 1930, apresenta um rendimento ainda mais baixo, de 12 hectolitros por hectare. Foi produzido 2020, 2021 e 2024, com 968 garrafas neste último. E novamente, temos 6,30 gramas por litro de acidez total e um pH de 3,54.
Porto Vintage
Com vinhas situadas entre os 100 e os 480 metros de altitude e com diferentes exposições, desde 2011 a Quinta do Noval conseguiu fazer declarações de Vintage todos os anos. “São declarações pouco convencionais, porque não seguimos a regra de só declarar em anos clássicos. Mas, às vezes, são apenas 1000 caixas (12 mil garrafas), o que representa menos de 3% da nossa produção total do vinho do Porto. Fazemos isto, não porque queremos ganhar muito dinheiro, mas porque não queremos abdicar da possibilidade de produzir um Porto Vintage que expressa não só os nossos terroirs, mas também o ano. Esta é a nossa política”, explica Christian Seely.
A qualidade dos Porto Vintage percebe-se logo na vindima. Há parcelas que, historicamente, dão origem a Vintage, sendo vinificadas separadamente e mantidas até à decisão final, momento em que algumas acabam por ser rejeitadas. Segundo Carlos Agrellos, o Quinta do Passadouro Vintage resulta de seis parcelas, de um total inicial de dez, tendo quatro ficado de fora do lote final. No caso do Quinta do Noval Vintage, o processo começou com 14 parcelas, das quais quatro foram eliminadas. Isto resultou em 555 caixas (6600 garrafas) do Vintage da Quinta do Passadouro e 2166 caixas (25 992 garrafas) da Quinta do Noval.
O Noval Nacional provém sempre da mesma parcela de vinha velha, com menos de um hectare, situada em frente à casa. Foi vindimado numa manhã a 30 de Setembro. Com 167 caixas (2004 garrafas) representa apenas 0,65% do volume total do Vinho do Porto produzido na propriedade. É um vinho com uma concentração de outro mundo e uma finesse típica que só aquela parcela cirurgicamente preservada, consegue expressar num grande Porto Vintage.
(Artigo publicado na edição de Junho de 2026)
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Quinta do Noval Nacional
Fortificado/ Licoroso - 2024 -

Quinta do Noval
Fortificado/ Licoroso - 2024 -

Quinta do Passadouro
Fortificado/ Licoroso - 2024 -

Quinta do Noval Terroir Series Vinhas do Passadouro
Tinto - 2024 -

Quinta do Noval Terroir Series Vinhas da Marka
Tinto - 2024 -

Quinta do Noval
Tinto - 2024 -

Quinta do Passadouro
Tinto - 2024 -

Quinta do Noval
Tinto - 2024 -

Quinta do Passadouro
Tinto - 2024


























