ERVIDEIRA: Operação Invisível

No ano de 2010, quando o boom dos vinhos brancos ainda nem sequer tinha começado e sobre o branco de uvas tintas ainda não se ouvia falar, a Ervideira lançou o seu primeiro Invisível 2009, o vinho branco feito de Aragonez. Parecia mentira. Como se não bastasse, o lançamento foi marcado para o dia 1 […]
No ano de 2010, quando o boom dos vinhos brancos ainda nem sequer tinha começado e sobre o branco de uvas tintas ainda não se ouvia falar, a Ervideira lançou o seu primeiro Invisível 2009, o vinho branco feito de Aragonez. Parecia mentira. Como se não bastasse, o lançamento foi marcado para o dia 1 de Abril. Tal como hoje, mas há 16 anos, tornou-se uma tradição.
A surpresa do consumidor era grande e a curiosidade também. As 9000 garrafas esgotaram rapidamente e não era um vinho barato. À época, custava cerca de oito euros. O sucesso era absoluto e crescia de ano para ano. E, por muito que a produção aumentasse, a procura foi sempre superior, de maneira que em Julho todo o Invisível ficava mesmo invisível, demonstrando a apetência do mercado para absorver mais.
A curiosidade é um bom estímulo para experimentar um vinho. Uma vez. Não é suficiente para manter o nível de procura apenas com marketing adequado; o vinho tem que ter argumentos próprios, para manter o interesse do consumidor, como foi o caso. Assim, a edição de 2025 atingiu 180 000 garrafas. É o vinho mais vendido da Ervideira e não é o mais barato, custando agora 14,50 euros. Pela informação que conseguiram apurar na empresa no que toca aos vinhos tranquilos, o Invisível é o Blanc de Noirs mais vendido do mundo. Nada mau para um vinho de nicho. É um autêntico case study. 90% do Invisível é vendido no mercado nacional, 5% no Brasil e 5% em alguns países europeus.
É o vinho mais vendido da Ervideira e não é o mais barato
Um percurso Invisível
Recuando no tempo para lá do primeiro lançamento, estamos antes da vindima de 2008. A ideia foi, como sempre, de Duarte Leal da Costa, administrador da Ervideira, que trouxe, entusiasmado, vários Blanc de Noirs estrangeiros, para convencer o responsável de enologia, Nelson Rolo, a criar algo semelhante na Ervideira. O enólogo não partilhou o entusiasmo e disse que os vinhos que provou eram “uma treta”. “Então, vamos fazer um vinho que não seja uma treta”, concluiu Duarte.
E qual seria a casta escolhida para um papel tão importante? Várias foram as opções, no entanto, todas apresentavam algumas fraquezas. A Touriga Nacional era boa, mas precisavam dela para os vinhos tintos; Cabernet Sauvignon conferiu um aroma muito vegetal, enquanto os ensaios com a Trincadeira e a Moreto não tinham graça. A única casta que passou no casting com todos os requisitos foi a Aragonez.
Desde então, plantaram três vinhas novas e aumentaram a adega por três vezes para dar resposta ao aumento da produção do Invisível especialmente para a produção do Invisível. Actualmente estão a planear uma quarta alteração.
Paralelamente, o estilo também foi-se alterando um pouco ao longo dos anos, de acordo com o gosto do consumidor. Os primeiros vinhos tinham mais álcool (13-13,5%) e cerca de cinco gramas por litro de açúcar residual; agora são secos e não ultrapassam os 12,5%.
É um vinho muito exigente em termos técnicos, sobretudo a nível de frio, para não extrair a cor. Têm as vinhas em duas zonas do Alentejo: em Reguengos e na Vidigueira. Vindima-se tudo à máquina e à noite. A uva da Vidigueira vai logo para uma câmara frigorífica. Em Reguengos, como a vinha fica muito perto da adega, circulam dois tractores, a transportar rapidamente a uva até à adega, sempre de madrugada. A uva segue logo para a prensa, para minimizar o contacto com as películas.
Fazer o Invisível é como construir um puzzle, pois trata-se de um lote de Aragonez não só de várias parcelas, mas também apanhado em alturas diferentes. A vindima começa no final de Julho, ainda antes das uvas destinadas para a base de espumantes. As primeiras uvas que entram, asseguram a acidez. Nesta altura, os aromas ainda não estão desenvolvidos. Por isso, é preciso ir construindo as camadas do vinho, incluindo as uvas vindimadas mais tarde, por vezes quase com um mês de diferença. Há várias fermentações separadas e o lote final é construído a partir de múltiplos ingredientes, com cuidado especial e o objectivo bem definido, rejeitando aqueles em que ou há cor a mais ou acidez a mais, ou sabem a verde.
Fazer o Invisível é como construir um puzzle, pois trata-se de um lote de Aragonez
Invisível com bolhas
Estas são bem visíveis, já que se trata da versão espumante bruto natural, ou seja, sem adição de açúcar no licor de expedição. Aqui, à Aragonez juntou-se a Syrah e até em quantidade superior, pois não sobra muito do Invisível original. É feito por método clássico, com segunda fermentação em garrafa durante nove meses. As 12 000 garrafas produzidas do primeiro espumante esgotaram-se na empresa em cinco semanas. A segunda edição, que ainda está em cave a estagiar, já conta com 30 000 garrafas.
(Artigo publicado na edição de Maio de 2026)
Dão Summer Edition e os vencedores do Dão Primores 2026

A estreia do Dão Summer Edition, iniciativa promovida pela Comissão Vitivinícola Regional do Dão (CVR Dão), teve lugar nos dias 27 e 28 de junho, no Solar do Vinho do Dão, em Viseu, e contou com mais de 1.300 pessoas, entre uma vintena de produtores dos vinhos do Dão e de Lafões, especialistas e consumidores. […]
A estreia do Dão Summer Edition, iniciativa promovida pela Comissão Vitivinícola Regional do Dão (CVR Dão), teve lugar nos dias 27 e 28 de junho, no Solar do Vinho do Dão, em Viseu, e contou com mais de 1.300 pessoas, entre uma vintena de produtores dos vinhos do Dão e de Lafões, especialistas e consumidores. Ao longo dos dois dias, os visitantes descobriram mais de 200 referências, participaram em provas comentadas, conversas temáticas e desfrutaram de música ao vivo, DJ, gastronomia e actividades destinadas aos mais novos.
Segundo o comunicado, Manuel Pinheiro, Presidente da CVR Dão, sublinha “o entusiasmo dos visitantes e o empenho dos produtores ultrapassaram largamente as expectativas, o que nos deixa orgulhosos e muito motivados para começar a trabalhar, desde já, na próxima edição”.
Paralelamente, foram divulgados, em cerimónia reservada, os galardoados do concurso Dão Primores 2026.
Lista dos premiados
Ouro • Grande Vinho do Dão
Branco: Água d’Assobio (Encruzado)
Tinto: Adega Coop. de Penalva do Castelo (Alfrocheiro)
Ouro • Vinho Varietal
Água d’Assobio (Encruzado)
Adega Coop. de Penalva do Castelo (Malvasia-fina)
Adega Coop. de Penalva do Castelo (Encruzado)
João Cabral Almeida Vinhos (Encruzado)
Adega Coop. de Penalva do Castelo (Touriga Nacional)
Adega Coop. de Penalva do Castelo (Tinta Roriz)
Casa Agr. St. Amaro de Passarela (Alfrocheiro)
João Cabral Almeida Vinhos (Touriga Nacional)
Ouro • Vinho Tinto de Lote
Adega Coop. de Mangualde
João Manuel Reis Caseiro Alves Pereira
Paço de Santar Vinhos do Dão
Adega Coop. de Mangualde
Água d’Assobio
Spagre – Sociedade Agrícola
Ouro • Vinho Branco de Lote
Adega Coop. de Mangualde
Adega Coop. de Penalva do Castelo
Empreendimentos Turísticos Montebelo – Soc. de Turismo e Recreio
Paço de Santar Vinhos do Dão
Prata • Vinho Tinto de Lote
Adega Coop. de Silgueiros
Adega Coop. de Silgueiros
Adega Coop. de Silgueiros
Sociedade Agr. de Santar
Altano e Graham’s no Millennium Estoril Open

Entre 18 e 26 de Julho de 2026, a Symington Family Estates volta a marcar presença no Millennium Estoril Open, a ter lugar no Clube de Ténis do Estoril, com as marcas Graham’s e Altano. Para o efeito, haverá o Graham’s Cocktail Bar, onde o serviço contempla uma seleção de cocktails preparados com Graham’s Blend […]
Entre 18 e 26 de Julho de 2026, a Symington Family Estates volta a marcar presença no Millennium Estoril Open, a ter lugar no Clube de Ténis do Estoril, com as marcas Graham’s e Altano. Para o efeito, haverá o Graham’s Cocktail Bar, onde o serviço contempla uma seleção de cocktails preparados com Graham’s Blend Series – Porto Branco Blend Nº5 e Porto Ruby Blend Nº12. Com um carácter igualmente privado, o Wine Bar do evento contará com uma seleção alargada de vinhos da Symington Family Estates, incluindo vinhos do Porto e vinhos DOC Douro e Alentejo.
Já a Altano estará em duas zonas acessíveis ao público em geral: uma área dedicada a passatempos e jogos para todas as idades, com o intuito de desafiar os visitantes a pôr à prova as aptidões desportivas; e o Altano Cup, nome atribuído ao lounge, que convida degustar a oferta vínica da marca num ambiente descontraído.
João Zilhão, Managing Partner do Millennium Estoril Open, destaca, em comunicado, a importância desta parceria: “a Symington Family Estates é, há vários anos, o fornecedor oficial de vinhos do Millennium Estoril Open e um dos pilares do sucesso do evento. A presença das emblemáticas marcas da família, os famosos cocktails com os Portos da Graham’s, os vinhos de referência servidos durante todas as refeições do VIP Slice Restaurant, bem como o Graham’s Bar, já um dos ex-libris do torneio, contribuem de forma decisiva para elevar a experiência proporcionada a todos os convidados e parceiros.”
Beira Interior: quais são os melhores vinhos?

Dos 97 vinhos a concurso, foram distinguidas 33 referências na 19.ª Gala de Prémios da Beira Interior. A cerimónia decorreu no Castelo de Alfaiates, no Sabugal e contou com a presença de Vítor Proença, Presidente do Município do Sabugal, Rui Ventura, Presidente do Turismo do Centro de Portugal, Francisco Toscano Rico, Presidente do Instituto da […]
Dos 97 vinhos a concurso, foram distinguidas 33 referências na 19.ª Gala de Prémios da Beira Interior. A cerimónia decorreu no Castelo de Alfaiates, no Sabugal e contou com a presença de Vítor Proença, Presidente do Município do Sabugal, Rui Ventura, Presidente do Turismo do Centro de Portugal, Francisco Toscano Rico, Presidente do Instituto da Vinha e do Vinho, e por Rodolfo Queirós, Presidente da Comissão Vitivinícola Regional da Beira Interior, entidade que promoveu esta iniciativa dinamizada por um painel de treze jurados constituído por 13 elementos e presidido pelo crítico da especialidade Aníbal Coutinho.
De acordo com o resultado, foram atribuídas 29 Medalhas de Ouro, para além dos galardões distribuídos nas categorias de Melhor Vinho da Beira Interior, Melhor Vinho no Feminino, Melhor Imagem e Melhor Imagem no Feminino.
Sgundo o comunicado, Rodolfo Queirós parabenizou os produtores “pelo trabalho sério e consistente que têm desenvolvido, ano após ano, para elevar o reconhecimento da nossa região. O concurso e as distinções atribuídas são mais uma ferramenta ao serviço dessa missão; ajudam a divulgar os vinhos da Beira Interior além-fronteiras e a reforçar a notoriedade da região, dentro e fora de Portugal”.
Gala Grandes Prémios
Melhor Vinho da Beira Interior
Quinta do Cardo Homenagem a Maria Luiza Grande Reserva tinto 2022
Melhor Vinho no Feminino
Quinta dos Currais Reserva Síria 2023
Melhor Imagem
ETHOS Vinho de Parcela tinto 2023
Melhor Imagem no Feminino
Pombo Bravo Espumante Bruto branco 2020
Medalhas de Ouro
Aforista DOC Beira Interior Reserva branco 2023
Beyra DOC Beira Interior Vinhas Velhas tinto 2023
Quinta da Biaia DOC Beira Interior Reserva branco 2020 (Produção Biológica)
Quinta do Cardo Homenagem a Maria Luiza DOC Beira Interior Grande Reserva tinto 2022 (Produção Biológica)
Souvall DOC Beira Interior branco 2024
Almeida Garrett DOC Beira Interior Reserva tinto 2018
Quinta dos Currais DOC Beira Interior Reserva Síria branco 2023
Quinta da Paróla DOC Beira Interior tinto 2020
Pombo Bravo DOC Beira Interior Reserva Síria branco 2022
Cosmos DOC Beira Interior Reserva tinto 2020
Rubus DOC Beira Interior branco 2025
Pinhel Bodas de Diamante Edição Comemorativa 75 Anos DOC Beira Interior Velha Reserva tinto 2019
Óptima Pergunta DOC Beira Interior Private Selection tinto 2022
Folhas Caídas DOC Beira Interior Chardonnay branco 2025
D’Alcaria DOC Beira Interior Reserva tinto 2022
Quinta da Biaia 750 DOC Beira Interior Síria branco 2023 (Produção Biológica)
Quinta dos Currais DOC Beira Interior Reserva tinto 2022
Boa Pergunta DOC Beira Interior Colheita Selecionada branco 2024
Quinta dos Termos Vinha das Colmeias DOC Beira Interior Reserva tinto 2023
Adega 23 IG Terras da Beira Viognier branco 2022
Manuel I DOC Beira Interior Reserva tinto 2023
Aforista DOC Beira Interior Colheita Selecionada branco 2023
Convento de Marialva DOC Beira Interior Reserva tinto 2023
Beyra DOC Beira Interior Vinhas Velhas branco 2024
Vale de Ladroens DOC Beira Interior Garrafeira tinto 2022
Vilar Torpim DOC Beira Interior rosé 2023 (Produção Biológica)
Boa Pergunta DOC Beira Interior Colheita Selecionada tinto 2022
Exilado DOC Beira Interior Espumante Grande Reserva Bruto Natural branco 2017
Quinta dos Termos Talhão da Serra DOC Beira Interior Reserva tinto 2022
Concurso Escolha da Imprensa 2026 – Abertas as inscrições

A Grandes Escolhas vai organizar mais uma edição do “ESCOLHA DA IMPRENSA” aberto a todos os produtores nacionais e com as seguintes características: – Um júri constituído por críticos e jornalistas, em particular os que habitualmente cobrem os temas ligados aos vinhos e gastronomia. – Divulgação e exposição pública dos vencedores durante o evento GRANDES ESCOLHAS […]
A Grandes Escolhas vai organizar mais uma edição do “ESCOLHA DA IMPRENSA” aberto a todos os produtores nacionais e com as seguintes características:
– Um júri constituído por críticos e jornalistas, em particular os que habitualmente cobrem os temas ligados aos vinhos e gastronomia.
– Divulgação e exposição pública dos vencedores durante o evento GRANDES ESCOLHAS | VINHOS & SABORES, a decorrer na FIL, Parque das Nações, de 17 a 19 de Outubro, com atribuição dos respectivos Diplomas aos vencedores
– Divulgação pública dos resultados no site, na revista Grandes Escolhas e nas redes sociais.
Conheça o regulamento e faça a sua inscrição AQUI
Última hora: Trafaria (Com) Prova

AVISO: a realização do evento “Trafaria (Com) Prova 2026” foi suspensa na sequência do decretamento, pela Presidente da Câmara Municipal de Almada, da situação de alerta no município motivada pela falta de abastecimento de água no concelho. ******** Trafaria (com) Prova está de regresso para três dias de festa com degustação de vinhos e […]
AVISO: a realização do evento “Trafaria (Com) Prova 2026” foi suspensa na sequência do decretamento, pela Presidente da Câmara Municipal de Almada, da situação de alerta no município motivada pela falta de abastecimento de água no concelho.
********
Trafaria (com) Prova está de regresso para três dias de festa com degustação de vinhos e petiscos, provas de vinho comentadas, visitas guiadas ao centro histórico e animação de rua no passeio ribeirinho da Trafaria.
10,11 e 12 de Julho – Entrada livre com opção de compra de copo de degustação por 5€
Exposição e degustação de vinhos | degustação de tapas e petiscos | espaço cultural e exposições | animação de rua | DJ
Com a presença de empresas produtoras de vinhos representativas do melhor da produção nacional e de restaurantes locais, com oferta de pequenos pratos de petiscos, de acordo com o receituário habitual da casa.
Provas comentadas e gratuitas (mediante inscrição) por críticos da revista Grandes Escolhas.
Em memória de Jim Reader

Jim era uma figura muito querida no sector do vinho do Porto, consensual e respeitada, quer no Douro, quer em Vila Nova de Gaia, pela sua afabilidade e paixão que nutria pelo país adoptivo e os seus vinhos. Nascido em 1951, Jim cresceu em North Yorkshire, Reino Unido. Formou-se na University of East Anglia, onde […]
Jim era uma figura muito querida no sector do vinho do Porto, consensual e respeitada, quer no Douro, quer em Vila Nova de Gaia, pela sua afabilidade e paixão que nutria pelo país adoptivo e os seus vinhos.
Nascido em 1951, Jim cresceu em North Yorkshire, Reino Unido. Formou-se na University of East Anglia, onde cursou microbiologia e, mais tarde, obteve o doutoramento na Strathclyde University. Chegou a Portugal em 1980 pela mão da Allied Breweries, então proprietários da Casa Cockburn’s – líder de mercado no Reino Unido. Começou como responsável de Controlo de Qualidade, ascendendo ao cargo de Director de Produção e depois ao cargo de Director Geral da Cockburn’s, até à compra desta pela família Symington em 2006, altura em que se reformou.
Jim foi consultor do produtor de vinho do Porto, C. da Silva, além de continuar na influente Câmara de Provadores do Instituto dos Vinhos do Douro e Porto que assegura os padrões de qualidade de todos os vinhos do Porto. Integrava também a Chancelaria da Confraria do Vinho do Porto, sendo igualmente membro activo da Feitoria Inglesa onde mais recentemente tinha a função de auditor independente. Em Julho de 2025, foi uma das 40 personalidades e organizações homenageadas pela Escola Superior de Biotecnologia da Universidade Católica, em reconhecimento do contributo prestado a esta importante instituição de ensino ao longo de quatro décadas.
Conhecido pelo seu sentido de humor apurado, consta que em certa ocasião, enquanto discutia com outro produtor uma possível declaração de Porto Vintage, tomando conhecimento que outras casas iriam declarar, terá dito após uma curta pausa: “sinto que os nossos vinhos melhoram à medida que a nossa conversa avança”!
A equipa da Grandes Escolhas deixa as condolências a toda a família. Até sempre Jim Reader…
ETHOS WINES: De Homero, de Aristóteles, de Heidegger e da Beira Interior

Sendo eu Jurista de formação, as Humanidades e a Filosofia sempre fizeram parte do meu currículo e aprendizagem. Para escrever sobre o Ethos fui matar saudades e rever os meus velhos livros de liceu e de curso, e, só por isso, já valeu a pena escrever este artigo. Encontrada pela primeira vez em Homero (928 […]
Sendo eu Jurista de formação, as Humanidades e a Filosofia sempre fizeram parte do meu currículo e aprendizagem. Para escrever sobre o Ethos fui matar saudades e rever os meus velhos livros de liceu e de curso, e, só por isso, já valeu a pena escrever este artigo. Encontrada pela primeira vez em Homero (928 – 898 a.C.), a palavra do grego ethos significa originalmente morada, seja o habitat dos animais, seja a morada do homem, lugar onde ele se sente acolhido e abrigado. Séculos mais tarde Martin Heidegger (1958) recupera e aprofunda os ensinamentos de Homero, defendendo que o ethos é o campo aberto da morada do homem, onde o Dasein (o ser humano) se relaciona com o Ser.
A célebre frase de Heidegger “a linguagem é a casa do Ser” completa o sentido de ethos. O homem mora habitando essa casa através do pensamento e da poesia… e não houve alguém que disse um dia que “um bom vinho é poesia engarrafada”?
Muito resumidamente, no pensamento de Heidegger, o ethos é a dimensão existencial e poética em que o ser humano habita e protege o Ser, situando-se autenticamente no mundo. O segundo sentido, proveniente deste, é costume, modo ou estilo habitual de ser. A morada, vista metaforicamente, indica justamente que, a partir do ethos, o espaço do mundo torna-se habitável para o homem. Assim, o espaço do ethos enquanto espaço humano, não é dado ao homem, mas por ele construído ou incessantemente reconstruído.
Para os filósofos gregos, especialmente Aristóteles, o ethos está diretamente relacionado ao nosso modo de ser, enquanto na cultura romana, a ideia de moral vem de moralis, que significa costume. Desta maneira, ethos é o nosso carácter e moral é um conjunto de normas de convivência que regulam o nosso comportamento. A partir da ideia de ethos estabelece-se a base da ideia de ética, ou seja, a reflexão sobre o nosso modo de vida. Enquanto a moral tem uma dimensão normativa e se baseia num conjunto de regras concretas, a ética é uma avaliação ou reflexão sobre as questões morais.
Na cultura grega, o ethos individual pode ser forjado com disciplina, já que vamos formando um ethos com os nossos hábitos. Em compensação, a ideia de phatos refere-se à paixão e à emoção; por outro lado, o termo logos faz referência à ideia de razão e linguagem.
Para Aristóteles, os três elementos intervêm na comunicação, a célebre retórica aristotélica, concebida como aperfeiçoamento da tese platónica de que a simples exposição ao conhecimento seria suficiente para conquistar uma audiência. Em discordância com o seu mentor Platão, Aristóteles acreditava que a retórica seria fundamental para conquistar o público.
É, pois, deste modo, que surgem o ethos, o pathos e o logos como meios de potenciar a capacidade de persuasão de um público. O primeiro refere-se à capacidade de o atingir, com base na ética, integridade e credibilidade do orador; o segundo alude à capacidade de apelar às emoções e à criação de empatia entre o orador e a audiência; e o terceiro sugere a utilização de argumentos racionais, de evidências e do raciocínio lógico.
Assim, muito resumidamente, transmitimos ideias com o nosso modo de ser, enquanto através do pathos individual expressamos emoções, e tudo está articulado pela razão e pela linguagem.
Família e herança
Da mesma forma, numa obra de arte, podemos encontrar um ethos, um pathos e um logos, isto é, uma personalidade, uma emoção e uma linguagem. É precisamente o que encontramos nos vinhos Ethos, da Beira Interior. A Ethos Wines é sobre vinho, mas também é sobre família, herança e sobrevivência nesta região selvagem e remota do centro de Portugal. Desde 2018, que Tiago Mendonça cultiva 12 hectares de vinha no concelho da Guarda, pertencente à região vitivinícola da Beira Interior.
Este é mais do que um projecto para Tiago Mendonça. É um verdadeiro trabalho de paixão e tradição. Tem raízes familiares profundas que o ligam a esta terra, pois os pais eram naturais da região. As férias de infância eram passadas com a família materna, na Quinta de São Lourenço, inserida no magnífico Vale do Mondego, dentro do Parque Natural da Serra da Estrela, na região da Guarda. Hoje, é frequentemente acompanhado pelo seu filho mais novo, Francisco Mendonça, que tem um gosto especial por trabalhar ao lado do pai.
As vinhas da Ethos Wines estão plantadas numa encosta voltada a nascente, com solos graníticos pobres, a uma altitude entre os 480 e os 520 metros. A vida das videiras aqui é exigente, com grandes amplitudes térmicas diurnas e níveis elevados de precipitação. Mais de 70% das vinhas têm mais de 60 anos, tendo algumas sido replantadas em 2012; e cerca de 50% está em co-plantação de castas tradicionais, a par com o decurso do trabalho de identificação das várias variedades presentes.
As castas são as tradicionais da região. Nos brancos encontramos Síria, Arinto, Tamarez, Malvasia Fina, Gouveio, Cerceal e Ferral. Nos tintos destacam-se a Rufete, a Mourisco, a Jaen, a Baga, a Trincadeira, entre outras. A viticultura está nas mãos do agrónomo Carlos Veiga, enquanto na adega, a enologia é acompanhada pela enóloga Mariana Salvador, cuja missão é interpretar as uvas de forma a reflectirem verdadeiramente a identidade da Beira Interior. A função de Mariana Salvador consiste em equilibrar o acompanhamento rigoroso da vinificação e do estágio. As leveduras são indígenas e os níveis de sulfuroso são mantidos no mínimo indispensável.
As vinhas estão certificadas em modo biológico desde 2020. A certificação biológica dos vinhos está prevista a partir da colheita de 2025. O trabalho na vinha e na adega é o que dá origem aos brancos minerais intensos e frescos, bem como aos tintos elegantes, gastronómicos e com excelente capacidade de envelhecimento.
Mas Ethos não é só vinho, também é azeite. Há mais de 20 anos que a família é proprietária de um lagar onde são produzidos alguns dos melhores azeites não só da região, mas do mundo, tal como comprovam os múltiplos e variadíssimos prémios obtidos. As azeitonas são colhidas de oliveiras com idades até 100 anos, incluindo variedades locais.
As vinhas estão plantadas numa encosta voltada a nascente, com solos graníticos pobres e mais de 70% ultrapassam os 60 anos
Acima de tudo, o projeto Ethos assenta num profundo respeito pela tradição e pelo terroir. A equipa demonstra-o e disso mesmo nos deu conta – uma determinação firme em revelar o potencial da Beira Interior, uma pequena região emergente que tem vindo a conquistar cada vez mais reconhecimento através da produção de vinhos distintivos e de azeite de classe mundial.
E Ethos é igualmente arte… por fora. O rótulo do Ethos Rufete tinto 2023 e do Ethos Vinho de Parcela tinto 2023 comprova este preâmbulo, através da assinatura de Ana Malta, artista plástica com formação académica em pintura pela Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa e um mestrado em Gestão de Indústrias Criativas pela Universidade Católica do Porto. Ambos os rótulos denotam a prática artística associada à estética, onde as cores e os padrões se cruzam com contrastes e a inquietante expressão visual da artista. Personalidade, emoção, linguagem. Ethos, pathos, logos. Beira Interior, Tiago Mendonça, Ethos Wines.
(Artigo publicado na edição de Maio de 2026)

















