Vindimas 2026: De tesoura e cacho na mão

Vindimas

Vinhos Verdes “Da Vinha ao Copo” é o nome do desafio apresentado pela Quinta da Torre, em Monção. Engloba duas vindimas; uma diurna e uma noturna. A primeira começa às 9h30, com apanha das uvas, pausa para uma bucha, visita guiada à propriedade e almoço tradicional minhoto harmonizado com prova de vinhos. A segunda decorre […]

Vindimas
Quinta da Torre

Vinhos Verdes

“Da Vinha ao Copo” é o nome do desafio apresentado pela Quinta da Torre, em Monção. Engloba duas vindimas; uma diurna e uma noturna. A primeira começa às 9h30, com apanha das uvas, pausa para uma bucha, visita guiada à propriedade e almoço tradicional minhoto harmonizado com prova de vinhos. A segunda decorre das 18h30 às 23h30, seguindo-se um jantar com proposta tradicional de caldo verde e bifanas. Ambos os programas incluem o saco da experiência e a tesoura de vindima.

Data: 5 (vindima diurna) e 12 de Setembro (vindima noturna)

Preço: €100 (vindima diurna) e €75 (vindima noturna)

Reservas: +351 913 797 986 ou anselmomendes.pt

Dão

A Quinta da Taboadella, em Silvã de Cima, abre as portas, das 10h00 às 13h30, para quem quer participar no corte das uvas e a assistir à vinificação na adega antes de uma prova de vinhos. Depois da visita, os visitantes são convidados a desfrutar dos sabores dispostos no cesto de merenda, num dos vários recantos da propriedade, que dispõe de alojamento, a Casa Villae 1255, da Relais & Châteaux, e uma loja, onde pode comprar o vinho deste produtor, bem como uma mão cheia de produtos da região.

Data: Setembro (de Terça-Feira a Sábado)

Preço: €60

Reservas: online

 

Tejo

A Adega do Cartaxo propõe três programas de vindimas: o Pack Regional inclui receção dos participantes, visita à adega e prova de vinhos; o Pack Reserva, que, à experiência anterior, soma visita às vinhas, vindima manual, com corte de uvas, e almoço; e, no programa completo, estas acções são complementadas por um passeio de barco no rio Tejo. Estes programas são válidos para grupos entre dez a 18 pessoas.

Data: 7 (Pack Regional), 9 (Pack Reserva) e 11 de Setembro (programa completo)

Preço: €15 e €45 (respectivamente), aos quais acrescem €20 (programa completo)

Reservas: +351 919 912 238 ou loja@adegacartaxo.pt (com 72 horas de antecedência)

A centenária Casa Paciência, em Alpiarça, dispõe de três opções distintas, disponíveis diariamente, das 10h00 às 18h00. Na opção “Flash Vindima”, há bebida de boas-vindas, oferta do kit de vindima, passeio pelas vinhas e participação no corte de uvas, com bucha tradicional, enquanto na adega é feita uma prova de mosto da uva acabada de prensar. Na “Vindima Pé Descalço” (€35,00), além da bebida de boas-vindas, há visita guiada à adega, pisa de uvas tintas, prova de mosto e degustação de três vinhos, acompanhados por compota e um sortido regional. O “Top Vindima” contempla todas as actividades das duas propostas anteriores. As crianças são bem-vindas, com programa ajustado.

Data: até 28 de Setembro

Preço: €25 (Flash Vindima), €35 (Vindima Pé Descalço) e €50 (Top Vindima)

Reservas: +351 936 219 342

Vindimas
Quinta da Atela

 

Também em Alpiarça, a Quinta da Atela propõe, entre as 09h00 e as 11h30, o programa “Venha Vindimar Connosco”, com passeio de tractor pelas vinhas, apanha de uvas, bucha na vinha, com prova de vinho e visita à adega, seguida de pisa a pé. Inclui oferta de t-shirts e chapéu.

Data: Setembro

Preço: €24

Reservas: +351 243 247 648 ou geral@quinta da Atela.pt

A Quinta São João Batista, localizada na Reserva Natural da Biosfera do Paul do Boquilobo e pertencente à Enoport Wines, é palco de um programa, a decorrer entre as 10h30 e as 16h00, o qual inclui pisa de uvas à moda antiga, almoço harmonizado com uma selecção de vinhos, provas especiais e música com DJ.

Data: 5 de Setembro

Preço: €70

Reservas: +351 243 999 070

 

A Quinta da Alorna, em Almeirim, tem “Experiência de Vindimas”, entre as 9h00 e as 15h00. Começa na Vinha do Calhau Rolado ou outra vinha deste produtor, para apanhar os cachos, seguindo-se a visita à adega, o lanche, o acompanhamento da chegada das uvas e participação na escolha e selecção de uvas, pisa a pé (opcional) e explicação do processo de vinificação das uvas. Termina com um almoço às 13h00, na vinha.

Data: Setembro (dias de segunda a sexta-feira)

Preço: €100

Reservas: + 351 243 570 706 ou enoturismo@alorna.pt

Na Quinta do Sampayo, no Cartaxo, a escolha é feita entre três programas: “Vindima & Prova”, “Vindimar com um vinhateiro” e “Vinho até ao fim”. Todos decorrem das 9h00 às 11h00. O primeiro abrange visita à adega e cave, e culmina com uma prova de vinhos e degustação de produtos regionais; no segundo, há pequeno-almoço tradicional (mata-bicho), visita à vinha de tractor, pisa-a-pé na adega e almoço regional, seguido de visita à adega e à cave; ao terceiro soma-se a experiência de fazer o seu próprio vinho sob a orientação do enólogo da casa. As crianças podem participar nas duas últimas opções (por €40). Todos têm direito a kit de vindima.

Data: Setembro

Preço: €25, €80 e €150 (respectivamente)

 

 

Península de Setúbal

A Adega de Palmela providencia “Um Dia de Vindimas”, actividade em que os participantes são desafiados a seleccionar um dos três programas que permitem viver a vindima O programa de meio-dia, decorre entre as 09h00 e as 12h00, e inclui apanha de uvas, piquenique nas vinhas, visita guiada e pisa de uvas. À opção do dia completo, que se prolonga até às 16h00, é acrescentado um almoço regional na cave harmonizado com vinhos da Adega de Palmela. A opção com estadia inclui, ainda, uma noite de alojamento no RM The Experience, em Setúbal (duas pessoas por quarto). Independentemente da escolha, todos recebem uma garrafa de vinho da Adega de Palmela e um kit de vindima.

Data: 9, 16, 23 e 30 de Setembro

Preço: €45, €90 e €135 (respectivamente)

Reservas: enoturismo@acpalmela.pt

Vindimas
Venâncio Costa Lima

Já a Venâncio da Costa Lima, na Quinta do Anjo, propõe o desafio “Acontece na Vindima”. As boas-vindas são dadas com mata-bicho, seguindo-se a faina na vindima e a bucha na vinha. Pisa a pé no lagar, visita guiada à adega e almoço na Adega Velha também fazem parte deste programa de cariz regional.

Data: 19 de Setembro

Reservas: +351 917 764 685 ou enoturismo.vcl@gmail.com

A Fernão Pó Adega convida a reservar um “Dia de Vindima com o Enólogo”, com a visita à vinha e a apanha manual da uva, a visita à adega e pisa a pé no lagar, além de uma prova de vinhos seguida de almoço regional. A experiência contempla um kit de vindima.

Data: 19 de Setembro

Preços: €45 (adultos), €40 (13-17 anos), €25 (5-12 anos)
Reservas: + 351 212 334 398 ou enoturismo@fernaopo.pt

 

Na Casa Ermelinda Freitas, em Fernando Pó, está a decorrer a actividade “Brincar com as Castas”, ponto de partida para descobrir diferentes variedades da região e participar numa prova comentadas de vinhos brancos, tintos e Moscatel de Setúbal. Acresce a visita à vinha pedagógica e à adega.

Data: Setembro (de segunda a sexta-feira)

Preço: €10 (adultos), €10 (13-17 anos)

Reservas: +351 915 290 729

 

Alentejo 

A Adega José de Sousa, da José Maria da Fonseca, localizada no coração de Reguengos de Monsaraz, promove programas com ou sem almoço. Todos incluem visita guiada à Adega Nova e à Adega dos Potes, participação nas actividades de vindima em curso, prova de três vinhos e degustação de produtos regionais. A experiência termina com almoço de petiscos alentejanos. Oferece-se t-shirt e chapéu.

Data: até 15 de Setembro

Preço: €28 (sem almoço) e €60 (com almoço)

Reservas: +351 918 269 569 ou josedesousa@jmfonseca.pt

A Casa de Santa Vitória, na Herdade da Malhada, concelho de Beja, convida a começar o dia com uma bebida de boas-vindas. O programa prossegue com um passeio pelas vinhas, com participação na apanha manual da uva, a visita à adega e à cave de barricas, e uma prova de vinhos acompanhada por petiscos regionais. Termina com um almoço harmonizado com os vinhos da casa, no restaurante Alentejo Vineyards. A oferta contempla uma garrafa de vinho Santa Vitória Seleção e um kit de vindima.

Data: até 10 de Setembro

Preço: €65

Reservas: loja@santavitoria.pt

 

A Quinta de Valbom, casa da Cartuxa, está de portas abertas a quem quer experienciar a escolha da uva e a tradicional pisa a pé, conhecer a adega, bem como fazer uma prova de seis vinhos premium e de dois azeites produzidos pela Fundação Eugénio de Almeida acompanhadas por uma selecção de produtos regionais, no âmbito do “programa Vindimas”. Está disponível, ainda, o Programa Vindimas Premium, que inclui uma refeição harmonizada na Enoteca Cartuxa. O kit de vindima está prometido.

Data: de 5 de Setembro a 4 de Outubro

Preço: €200 e €275 (respectivamente)

Reservas: +351 266 748 383 ou enoturismo.cartuxa@fea.pt

 

A Fita Preta, em Arraiolos, aguarda por quem queira viver os bastidores da produção de vinho durante a campanha das vindimas. Ao longo de cerca de quatro horas, pode acompanhar o trabalho desenvolvido na adega, colaborar na selecção de uvas, em remontagens, provas e análises laboratoriais de mostos. A experiência termina com um almoço com a equipa da Fita Preta. Para quem anseia por mais acção, há a possibilidade de vindimar na vinha e até uma “Kids’ Experience”, com actividades desenhadas para os mais novos.

Data: até 18 de Setembro

Preço: €150 (experiência principal + €35 para a apanha manual da uva) e €50 (Kids’ Experience)

Reservas: +351 918 266 993 ou enoturismo@fitapreta.com

Para quem prefere ir ao cerne das tradições mais antigas, a Gerações da Talha convida a “Mexer das Talhas”, com visita guiada à adega, participação na missão de mexer das talhas, prova de quatro vinhos de talha harmonizada com petiscos regionais.

Data: Setembro

Preço: €45

Reservas: +351 967 566 930 ou enoturismo.geracoes@gmail.com

A tradição vínica alentejana vive-se na Herdade das Servas, com a “Pisa a Pé” nos lagares de mármore. O programa inclui visita à vinha, à adega e à cave de barricas, uma prova comentada de quatro vinhos harmonizada com produtos alentejanos, terminando com a oferta de uma garrafa de vinho.

Data: Setembro

Preço: €55 (adulto)

Reservas: +351 268 333 949 ou enoturismo@herdadedasservas.com

 

A Adega Vila Santa, em Extremoz, propriedade da João Portugal Ramos, convida a apanhar a uva lado a lado com os trabalhadores da vinha, bem como saborear a bucha, experimentar a pisa da uva em lagares de mármore (mediante disponibilidade), visitar a adega e as caves e saborear um almoço regional na companhia de vinhos Marquês de Borba.

Data: até 26 de Setembro

Preço: €110

Reservas: enoturismo@jportugalramos.com

 

A Mainova, em Arraiolos, abre as portas da herdade para mais uma edição da “Moinante Experience”, com participação nas actividades do dia, prova de vinhos, refeição e outros momentos que celebram a campanha da vindima.

Data: 5 de Setembro

Preço: €120

Reservas: +351 910 732 526 ou enoturismo@mainova.pt

Reservas: enoturismo@plansel.com // 266 898 920

 

Vindimas
Quinta do Quetzal

Na Quinta do Quetzal, as vindimas podem ser vividas através de duas experiências. A primeira combina a participação na vindima com uma visita à adega e um piquenique preparado pelo Chef João Mourato, harmonizado com os vinhos da propriedade. A segunda está contemplada pela bucha alentejana e um almoço vínico.

Data: Setembro

Preço: €70 e €100 (respectivamente)

Reservas: reservas@quintadoquetzal.com

 

A Herdade do Sobroso, na Vidigueira, dispõe de um conjunto de Wine Tours, com visita à vinha e à adega, e prova comentada de vinhos acompanhada por queijos da região. Destaque para o Wine Tour combinado com almoço tradicional, com um almoço tipicamente alentejano, sob o conceito farm-to-table, e harmonizado com vinhos da herdade.

Data: Setembro

Preço: €35 a €180 (Wine Tours e provas); €75 a €95 (Wine Tour combinado com almoço tradicional)

Reservas: + 351 284 456 116 ou reservas@herdadedosobroso.pt

Editorial: Negra Mole em pedra dura

Editorial

Editorial da edição nrº 1112 (Agosto de 2026) Tanto bate até que fura. A Negra Mole passou décadas a bater à porta do reconhecimento, até conseguir abrir caminho. Não por ser uma casta espampanante no copo, mas através do soft power que lhe é característico. Lembro-me de, em 2012, durante umas férias em Vilamoura, ter […]

Editorial da edição nrº 1112 (Agosto de 2026)

Tanto bate até que fura. A Negra Mole passou décadas a bater à porta do reconhecimento, até conseguir abrir caminho. Não por ser uma casta espampanante no copo, mas através do soft power que lhe é característico.

Lembro-me de, em 2012, durante umas férias em Vilamoura, ter procurado o vinho monovarietal de Negra Mole lançado pela Quinta João Clara, mas os sommeliers nos restaurantes e wine bars encolhiam os ombros: nunca tinham ouvido falar da casta. Acabei por encontrar uma garrafa, curiosamente, em Lisboa.

O reencontro com a Negra Mole aconteceu há alguns anos, num contexto algo sui generis: o Concurso Mundial de Bruxelas. Num flight de amostras surgiu um vinho que se destacava de imediato pela sua cor translúcida. No aroma e na boca era suave e delicado, com uma fruta deliciosa, mas num registo contido. Não exibia uma acidez particularmente elevada, mas não pecava por falta da frescura, apresentando um equilíbrio exemplar dentro deste perfil. Gostei muito do vinho. Percebi que se tratava de uma casta autóctone, mas a Negra Mole nem sequer me ocorreu. Qual não foi, por isso, o meu espanto quando consultei a listagem entregue aos jurados no final da sessão de provas e descobri que era a Negra Mole da Arvad!

Na minha recente incursão pelo Algarve, tive a oportunidade de provar mais vinhos desta casta e rendi-me definitivamente à sua personalidade.

A Negra Mole sempre existiu no Algarve, mas durante décadas esteve fora do seu tempo. Numa época em que se procuravam cor, concentração e músculo, não tinha como se afirmar. Pouco lhe valeu ser uma das castas mais antigas de Portugal; teve de esperar décadas para, finalmente, ser compreendida e valorizada. E, mesmo hoje, não reúne consenso entre os produtores, e, na verdade, a casta é tudo menos consensual.

Tem bagos grandes e soltos, com película fina e polpa mole – daí o nome. Uma das características mais singulares da Negra Mole é a sua heterogeneidade cromática. Ou seja, na mesma videira e, frequentemente, no mesmo cacho coexistem bagos de diferentes cores do negro-azulado ao rosado e ao quase branco, embora todos estejam fisiologicamente maduros. Um palhete feito no cacho!

Pelas suas características, a Negra Mole facilita o trabalho na elaboração de rosés, blanc de noirs ou espumantes, porque, mesmo que se distraia durante a maceração, não passa cor em excesso. Pessoalmente, prefiro-a na sua forma mais pura, como vinho tinto, porque mantém a leveza, mas com maior expressão de sabor e uma cor sem igual, que faz lembrar a toranja. É uma casta com um poder de atracção singular e uma força identitária que lhe permitem assumir o papel de porta-bandeira da região vitivinícola onde nasceu.

Vejam só, quando os importadores internacionais procuram os Chillable Red Wines, em Portugal foram reabilitados os palhetes e claretes, e os produtores procuram fórmulas e castas adequadas à produção de tintos mais leves e apetecíveis, que não exijam um bife ao lado, a Negra Mole surge como a resposta algarvia a esta tendência internacional. É talhada precisamente para este perfil e com um storytelling já feito, não é preciso inventar nada.

Com isto não quero dizer que o Algarve tem que se resumir à Negra Mole, mas espero que haja cada vez mais produtores a descobrir as diferentes facetas desta casta. E espero, daqui a uns anos, poder fazer uma grande prova dedicada exclusivamente à Negra Mole. (V.Z.)

QUINTA DOS ARCOS Vinhos com sotaque francês

Quinta dos Arcos

Assim que passamos a entrada da Quinta dos Arcos, junto à Nacional 379, em Azeitão, o ligeiro declive que percorremos permite-nos visualizar parte do casario desta propriedade localizada na região vitivinícola da Península de Setúbal. Adquirida em 2013, é delimitada por uma área de 77 hectares, dos quais cerca de 13 estão confinados à vinha, […]

Assim que passamos a entrada da Quinta dos Arcos, junto à Nacional 379, em Azeitão, o ligeiro declive que percorremos permite-nos visualizar parte do casario desta propriedade localizada na região vitivinícola da Península de Setúbal. Adquirida em 2013, é delimitada por uma área de 77 hectares, dos quais cerca de 13 estão confinados à vinha, para além do montado, e está, hoje, nas mãos de uma família proveniente de Paris, França. Christine Antunes, que ali nasceu e exerceu advocacia durante 35 anos, radicou-se em Portugal em 2018. O filho mais velho, Rodolphe Antunes Bouquillard, arquiteto de formação, cuja licenciatura foi tirada na capital francesa e o mestrado na Universidade Autónoma de Lisboa, assume o papel de produtor. É, portanto, o responsável pelo projeto de recuperação de alguns dos edifícios, sempre alinhada com a traça da fachada original, enquanto outros já constam no papel e outros estão integrados no plano de reabilitação a médio prazo.

No entanto, a compra da propriedade estava destinada, inicialmente, para fundar centro destinado a autistas, para proporcionar atividades ao ar livre até surgir a ideia de plantar vinha, “porque o meu pai tinha direitos de vinha e eu aceitei os 13 hectares que me proporcionou”, começa por contar a nossa anfitriã. De certa forma, o vinho não é assunto

Christine Antunes: “provei muitos. Acho que tudo o que existe de bom passou por mim, além de vinhos que valem muito dinheiro. Os grandes Bordeaux, os grandes Borgonha… mais tarde, passei a provar vinhos estrangeiros.” Ou seja, referências vínicas produzidas fora de Portugal e França. “Quando vim para Portugal, também provei quase todos os vinhos que são feitos por cá.”

Castas francesas como bandeira

Christine Antunes foi advogada da revista Sommeliers International dirigida, na época pelo escanção Jean Frambourg e era parceira da Association de la Sommellerie Internationale e da Union de la Sommellerie Française. Esta ligação favoreceu o passo seguinte: a plantação da vinha. Isto é, a nossa anfitriã decidiu recorrer a técnicos franceses com provas dadas na viticultura. “Quem aconselhou a vinda dos técnicos franceses à minha mãe, foi o sommelier Philippe Faure-Brac, que se tornou, em 2016, presidente da Union de la Sommellerie Française”, conta Rodolphe Antunes Bouquillard. “Fizeram análises ao solo da propriedade, provaram vinhos da região e acharam que a única forma de fazer a diferença seria optar por castas francesas, até porque se iriam adaptar muito bem aqui”, descreve Christine Antunes.

Merlot, Cabernet Franc e Cabernet Sauvignon, nas tintas; Sauvignon Blanc, nas brancas. Christine Antunes fez questão de incluir uma quinta casta a esta curta lista, a Moscatel Graúdo, “para ter uma variedade representativa da região da Península de Setúbal”, justifica. Dada a indicação dos sítios onde se iria plantar cada variedade – as duas primeiras castas foram plantadas em solos maioritariamente arenosos, enquanto as restantes estão implantadas nas zonas predominantemente argilocalcárias –, deu-se início à plantação da vinha. Este processo demorou aproximadamente dois anos, entre 2014 e 2016, com a Merlot a protagonizar a última plantação.

Depois, foi preciso recorrer a quem sabe a matéria de enologia. A verdade é que Christine Antunes desejava ter António Saramago, decano da enologia no país e nome bem conhecido na Península de Setúbal, na Quinta dos Arcos. “Apresentamos-lhe o projeto da adega, dos vinhos e da vinha.” Entusiasmado, aceitou a proposta, fazendo parte da equipa desde 2024. “Estou cá todos os dias”, afirma o profissional com veemência. E com ele foi a adegueira brasileira, Lariza Camelatto.

“Há muito Sauvignon Blanc, mas eu não tenho de fazer vinhos iguais. Com as mesmas uvas, posso fazer 500 vinhos diferentes, uma força de expressão, porque há várias técnicas de trabalhar as uvas, e dentro dessas técnicas, sobretudo para quem as conhece, pela experiência, podemos pôr na mesa vinhos diferentes”, exemplifica António Saramago.

A vinha está repartida, ora por encostas suaves da Quinta dos Arcos, uma das quais pontilhada por sobreiros e ladeada por montado, ora na pequena planície junto à ribeira que delimita atravessa um dos extremos da propriedade delimitada por floresta, que empresta a quietude à paisagem. A nossa anfitriã refere a importância da fauna neste ecossistema, entre raposas, águas, texugos e javalis.

Devido à ribeira e à influência atlântica sentida na propriedade, “temos de usar produtos para o oídio e o míldio”, combatidos através de tratamentos fitossanitários, “quando estritamente necessário e dependendo do ano”, assegura, “mas, ainda assim, temos de tratar a vinha com produtos mais eficientes, porque os biológicos não são suficientes, sobretudo junto à ribeira”, descreve. No âmbito dos trabalhos da vinha, são utilizados intercepas e o corta-mato, com a finalidade de suprimir o excesso do coberto vegetal, mantendo alguma da vegetação, com o intuito de proteger o solo do sol.

Há 15 ânforas de barro de Impruneta e dois ovos da Fornace Artenova, ambos feitos em Itália, dois balseiros de carvalho francês do Allier e barricas de carvalho de Vosges

 

Estreia é feita com colheita tardia

A vindima ocorre, habitualmente, a meio do mês de agosto. É manual e a seleção dos cachos é efetuada na vinha, “para qualquer tipo de vinho”, reforça Christine Antunes. O mesmo critério rigoroso está implementado na adega, onde a seleção se repete no tapete de escolha.

Tudo estava preparado para que a primeira apanha da uva tivesse lugar em 2018, “mas o escaldão desse ano devastou a uva”. Curiosamente, em novembro desse ano, Christine Antunes constatou que alguns talhões próximos da ribeira tinham uvas com Botrytis cinerea. Incrédula, pois até então não tinha imaginado que fosse possível a propriedade reunir condições para dar origem à podridão nobre, avançou para a produção de uma colheita tardia feita a partir da casta Sauvignon Blanc.

O resultado traduziu-se em 150 litros para consumo próprio. Ao invés das cubas de inox ou de barricas, todo o processo de vinificação foi feito em ânfora, objeto de eleição de Christine Antunes no que à elaboração de vinho diz respeito. “Encontro harmonia entre as castas francesas e as ânforas”, elucida. Esta conclusão vem na sequência de sucessivos ensaios realizados ao longo dos primeiros cinco anos do projeto vitivinícola, “o que contribuiu para o arranque da Quinta dos Arcos”, sublinha.

Não é por acaso que há 15 ânforas na adega, todas feitas a partir de barro de Impruneta, provenientes de Itália. “É dos melhores barros do mundo para ânforas, nos quais fazemos vinhos tardios”, evidencia, referindo-se à colheita tardia.

A exceção foi a produção de um passito, inspirado no célebre vinho italiano feito a partir de uvas desidratadas ao sol, pois a nossa anfitriã é apreciadora deste tipo de vinho. É da colheita de 2025 e foi elaborado com Moscatel Graúdo, “que se encontra em cinco destas ânforas”, sob a supervisão de António Saramago.

 

Ânforas, balseiros e barricas

Vamos por partes. Sangue Real é a designação que consta no rótulo da gama de entrada. Foi atribuído em homenagem a “uma zona específica da propriedade, que já se chamava assim”, esclarece. O mesmo sítio tinha sido, em tempos, ocupado por vinha plantada pelos antigos donos da Quinta dos Arcos, que resultou, em tempos idos, da compra de várias propriedades. No alinhamento do portefólio vínico consta o rótulo Adega das Ânforas. Tal como o nome indica, está reservado aos vinhos feitos nas ânforas. “Todas têm um pez à base de mel, feito em Itália.” Aqui, enquadram-se o Rodolphe’s Merlot 2023, bem como as duas colheitas tardias de 2024: um de Sauvignon Blanc e outro de Moscatel Graúdo

A linha Quinta dos Arcos contempla, por sua vez, vinhos feitos em balseiros e em barricas. É o caso do primeiro vinho deste produtor. Trata-se de uma colheita tardia DOC Palmela de 2020, em que as uvas de Sauvignon Blanc foram vinificadas em inox e submetidas a um estágio de 36 meses em barrica. Neste patamar estão, ainda, o Quinta dos Arcos Reserva tinto 2023, bem como três outros vinhos de 2024: o Sauvignon Blanc, o Sauvignon Blanc Reserva e o Sauvignon Blanc. Os rótulos de todos os vinhos são da autoria de Rodolphe Antunes Bouquillard, que eleva a pintura como forma de expressão vínica, se assim a podemos designar.

Os dois balseiros de 5000 litros dispostos na adega são de carvalho francês do Allier e têm o cunho da Tanoaria JM Gonçalves, situada em Palaçoulo, no concelho de Miranda do Douro, Trás-os-Montes. São usados apenas para tintos – primeiramente para fermentação e, depois da remoção das massas, são reutilizados no processo de vinificação. As uvas de cada variedade são vinificadas a solo e, uma vez que são três, “há uma casta que tem de esperar que uma acabe a fermentação, para ser acolhida”, avança Christine Antunes. As barricas, de 300 litros, foram encomendadas à mesma empresa e são feitas a partir de carvalho de Vosges. Segundo António Saramago, esta madeira é adequada para os vinhos brancos, que aqui fermentam e estagiam. É o caso do Quinta dos Arcos Reserva Sauvignon Blanc. Já o Grande Reserva Sauvignon Blanc 2024, “que já está em garrafa, mas ainda não está comercializado, estagiou em barricas de carvalho francês das Vosges”, acrescenta Rodolphe Antunes Bouquillard.

Os balseiros são usados pela “tendência para aumentar o tempo de estágio, porque estamos a falar de volumes grandes”. A respeito das barricas, “estamos à procura de aromas, de complexidade, de finesse nos brancos”, afirma António Saramago. Juntam-se ainda os dois recipientes em forma oval da Fornace Artenova, produzidos no sul de Florença, Itália, para estágios de vinhos tintos. O interior também é revestido com o mesmo pez das ânforas. “É preciso provar muito”, sublinha o enólogo.

Adega de filigrana

De acordo com as contas feitas pelos novos proprietários, a Quinta dos Arcos foi palco de produção de vinho até à década de 70 do século XX. “Havia esta adega e uma pequena adega”, que, embora degradada, ainda existe. “Servia de apoio a esta e já era mais moderna”, constata Christine Antunes. Os registos fotográficos que possuem indicam a antiguidade dos imóveis. “São anteriores a 1951. Veem-se na fotografia de 1947 e esse prédio [a pequena adega] é posterior, porque não existe nessa fotografia de 1947”, continua.

A adega atual está instalada na outrora primeira adega da propriedade. Foi parcialmente concluída em 2024, ano da estreia na receção da uva e de todo o processo de vinificação. O término aconteceu em 2025. “Todo o vinho que faço na Quinta dos Arcos tem controlo de temperatura. O que é inovador aqui é o caso do barro”, comenta António Saramago, referindo-se às ânforas, acrescentando que os balseiros também estão equipados de sistema de frio, assim como as cubas de inox. “Das ânforas saíram coisas fantásticas. É um componente para que o vinho tenha alguma coisa de diferente”, destaca o enólogo.

Toda a adega foi pensada e desenhada na totalidade por Rodolphe Antunes Bouquillard, quer a arquitetura, quer o sistema tecnológico e de segurança. É provida de detetores de monóxido de carbono, que, em caso de alerta, comandam a abertura automática das portadas espalhadas pelo edifício. “Os pilares azuis têm uma tinta especial, pelo que, se houver um incêndio, faz uma espuma, para abafar o oxigénio”, explica o produtor. A manga azul que atravessa o teto permite aquecer ou arrefecer o ambiente, consoante a necessidade baseada na temperatura registada, a tinta branca que reveste as paredes da adega é antibacteriana e o chão é revestido com resina epóxi. A água usada na adega vai para uma ETAR da propriedade e o teto foi desenhado de modo a reter a água da chuva, com destino a um depósito, disposto no exterior, que a encaminha diretamente para a vinha. Nas traseiras do edifício, estão os geradores de emergência e painéis solares.

Os 13 hectares de vinha são predominados por quatro castas francesas e uma portuguesa, a Moscatel Graúdo

 

Experiências no terreno

Ao lado da adega está o antigo picadeiro do mestre Nuno de Oliveira, em tempos, figura incontornável da cultura equestre portuguesa. O edifício foi igualmente recuperado por Rodolphe Antunes Bouquillard. No interior, os quadros da sua autoria emprestam o colorido às paredes brancas, enquanto a sala do estágio de barricas resulta de uma pequena mostra de um painel de azulejos do século XVIII. Do lado oposto a esta sala, está o armazém, destinado à rotulagem e armazenamento das garrafas. O engarrafamento é feito por intermédio de aluguer.

Em outro edifício está a loja. A abertura prevista para a época de estio deste ano. O teto é digno de contemplação, graças à mestria de Rodolphe Antunes Bouquillard. Em breve, o terraço deste espaço encher-se-á de apreciadores de vinho, que, em contrapartida receberão a oferta da vista para a Serra da Arrábida. Petiscos, queijos e enchidos protagonizarão tábuas que acompanharão os vinhos produzidos na acalmia da Quinta dos Arcos. “Aqui serão feitas as provas de vinho”, informa Christine Antunes ao abrir a porta. Já as provas premium estão pensadas para a mina de água da Quinta dos Arcos recuperada pelo produtor e arquiteto da propriedade. Os programas são complementados por visita à adega e vinha.

Em jeito de conclusão, Christine Antunes deixa uma nota: “vamos aguardar o sucesso com os vinhos. Depois, plantamos a Boal de Setúbal (tem a Sémillon como sinonímia) e alguma Chardonnay, que o senhor engenheiro António Saramago quer, e a Pinot Noir.” E ainda haverá espaço para fundar o centro destinado a pessoas com autismo. Até lá, contemos com dois espumantes no final deste ano da colheita de 2024, um Blanc de Blanc de Sauvignon Blanc e Moscatel Graúdo e um rosé de Cabernet Franc.

(Artigo publicado na edição de Junho de 2026)

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ATAÍDE SEMEDO: A visão de um veterano da Baga

Ataide Semedo

O nascimento de Ataíde Semedo para o sector dos vinhos inicia-se, precisamente, a 1 de Janeiro de 1978. Apreciador das coisas boas da vida errante da juventude e da frequência de um curso de Engenharia Mecânica nos tempos quentes do pós-25 de Abril, Ataíde Semedo vê nas Caves São Domingos, empresa que teve o seu […]

O nascimento de Ataíde Semedo para o sector dos vinhos inicia-se, precisamente, a 1 de Janeiro de 1978. Apreciador das coisas boas da vida errante da juventude e da frequência de um curso de Engenharia Mecânica nos tempos quentes do pós-25 de Abril, Ataíde Semedo vê nas Caves São Domingos, empresa que teve o seu tio-avô como fundador e o seu pai como um dos sócios, um futuro promissor. O pai era industrial metalúrgico e, não obstante ser sócio da empresa bairradina, a ligação ao sector dos vinhos era nula. Ao pai disse que não lhe queria gastar mais o dinheiro num curso superior para o qual não estava fadado e, não querendo despender mais tempo nos bancos da universidade, ruma ao conforto das caves da aldeia de Ferreiros, no concelho de Anadia, que, afortunadamente, estavam paredes meias com a casa de família. Bem melhor opção que ir para a construção civil!

Na faculdade, apenas a cadeira de química o seduzia – observar a magia das reações obtidas a partir das mais diversas combinações. A partir de então, nasce uma vocação, que passa a ser praticada nos laboratórios, apadrinhado pelo enólogo da Caves São Domingos à data, Mário Pato, filho do enólogo homónimo que revolucionou a enologia nacional na primeira metade do século XX.

À data, a Caves São Domingos era liderada por Lopo de Freitas, que defendia a velha prática da Bairrada de comprar vinhos por toda a região, afinando-os na adega, para posterior comercialização. Ataíde Semedo pensava de um modo diametralmente diferente. O mundo já buscava vinhos com outra minúcia e qualidade. Para alcançar isso, mostrava-se necessário controlar o processo desde a vinha à adega, algo que apenas se alcançaria com a aquisição de vinha e um olhar mais presente sobre todas as opções da viticultura. Não tendo logrado convencer a administração da Caves São Domingos de que esse era o caminho correto, Ataíde Semedo ali permanece até 1987, data em que se dá a rutura com a empresa por divergências de estratégia sobre aquilo que entendia ser o futuro da Bairrada enquanto produtora de vinhos absolutamente diferenciadores.

Por conseguinte, em contraciclo com a região, que vivia tempos nebulosos e muitos produtores arrancavam ou abandonavam vinha, Ataíde Semedo entendia que era a melhor altura para investir em vinhas próprias e abandona a empresa.

 

1987, o ano da Rigodeira

A saída de Ataíde Semedo da Caves São Domingos dá-se a 1 de abril de 1987 e o futuro foi gizado nesse mesmo dia. Entregando a carta de demissão pelas nove horas da manhã, em Ferreiros, dirige-se ao Centro de Saúde de Anadia, onde bate à janela do consultório do seu amigo e colega de longa data, Almeida e Silva, médico local, mais conhecido por “Dr. Pardal”, cuja ligação aos vinhos da Bairrada lhe vinha por intermédio da mãe, detentora da “Casa de Saima”, projeto ao qual deu continuidade. Almeida e Silva já há muito que desafiava Ataíde Semedo para um projeto comum e ali, no consultório, fica pré-definido o futuro. Pouco tempo depois, reúnem-se com o reputado médico fogueirense Joaquim Barros, já de idade avançada, propondo-lhe a compra da Quinta da Rigodeira, à época com uma dimensão de seis hectares. A compra faz-se por um preço amigo e com um prazo de pagamento dilatado. Joaquim Barros vê naqueles dois amigos um futuro promissor.

O início é auspicioso. Aquelas vinhas possuem todo o potencial para produzir belos brancos e tintos grandiosos. Logo na primeira colheita, o Quinta da Rigodeira branco ganha o primeiro Prémio do Concurso de Vinhos da Bairrada e o Quinta da Dôna tinto, da colheita de 1991, arrecada distinções em todas as competições nacionais e internacionais, nascendo ali o mito.

O renascimento do Quinta da Dôna

É absolutamente incontornável para a carreira de Ataíde Semedo, e mesmo para a história dos grandes tintos da Bairrada, falar dos Quinta da Dôna. A história, porém, é simples e está conectada com a natureza das coisas. Em 1991, Ataíde Semedo vinifica isoladamente uma parcela da Rigodeira, conhecida como “Quinta da Dôna”. Ao contrário do que é comum nas vinhas velhas da Bairrada, possuindo estas cerca de 70 anos, não há outras castas misturadas com aquela que assume maior preponderância, a Baga. A segunda experimentação da vindima de 1991 é criar dois modelos de tintos distintos: um vinificado com engaço e um segundo vinificado com uva desengaçada. Este último dá origem, após um estágio longo em barricas, ao primeiro e exclusivo Quinta da Dôna.

A designação Quinta da Dôna, escolhida pelos dois parceiros, resulta em várias colheitas memoráveis, entre elas a de 2001, as quais, e à semelhança do distinto Barca Velha, apenas são lançadas para o mercado nos anos em que se atinge o esplendor qualitativo. O projeto Quinta da Rigodeira/Quinta da Dôna termina em 2002, dada a insustentabilidade do mesmo, pela sua dimensão de 23 hectares, excessiva para o modelo de vinhos e espumantes que Ataíde Semedo pretende criar. Nesse ano, ocorre a alienação à Caves Aliança, que fica igualmente detentora das marcas referenciais. Entretanto, há cerca de dois anos, a vinha, de onde eram oriundos os vinhos Quinta da Dôna, é arrancada, presumivelmente por ter atingido o seu tempo máximo de vida com produções de qualidade.

As características daquela vinha eram muito especiais, mas perfeitamente replicáveis para Ataíde Semedo. No renovado projeto em nome próprio, regressa às dimensões originais, com a aquisição da propriedade de Vale de Carros. A marca Quinta da Dôna também lhe regressa às mãos por caducidade do registo da mesma por parte do anterior detentor, mas, para o renascimento das cinzas da marca mítica, havia que apurar as condições naturais que a levassem a resultados semelhantes àqueles que outrora haviam sido alcançados. Nestas coisas de criar qualidade distinta, só o insuperável fator tempo pode trazer a confiança inabalável.

Plantando as vinhas de Vale de Carros em 2001, só em 2018 Ataíde Semedo entende ter alcançado o nível de maturidade das mesmas e da específica parcela de Baga, para poder voltar a, com galhardia, usar a designação Quinta da Dôna a um vinho da sua lavra. Convenhamos, a Baga continua a ser, na Bairrada, uma casta dada a humores muito especiais, alcançando a excelência apenas em anos em que os astros do clima se conluam, para trazer as temperaturas ideais, a pluviosidade no tempo certo e nunca em setembro, e os ventos que afastam as maleitas da vinha e a humidade relativa.

Após a colheita de 2018, a primeira das vinhas novas de Vale de Carros, sucede-se a de 2020, já esgotada, e, depois de um hiato entre 2021 e 2024, torna a surgir a edição de 2025, um ano, a todos os níveis, perfeito, com lançamento previsto para finais de 2027.

Indagado sobre as diferenças entre os clássicos e os atuais Quinta da Dôna, Ataíde Semedo tende a não os diferenciar e explica-nos. A Baga da vinha velha da Quinta da Rigodeira provinha de plantas com produção muito diminuta por natureza. Nas vinhas novas (agora com mais de 20 anos), o produtor mimetiza o comportamento da vinha velha, realizando uma monda muito expressiva – a planta tem, aproximadamente, 15 cachos –, colocando, no chão, uma média de 10 cachos por cepa, deixando apenas cinco. Como uma vinha nova não possui as mesmas reservas de uma vinha velha, a única forma de lhe imitar o comportamento com maior concentração e uma melhor, mais equilibrada e mais precoce maturação, evitando os excessos para não lhe dar um carácter de sobrematuração, preservando-lhe a frescura inerente à sua elevada acidez natural, é, ainda em verde, diminuir-lhe substancialmente a carga. A prática desta monda severa é realizada apenas no melhor talhão de Baga da vinha. Noutros, a monda é muito menos expressiva, permitindo a maturação total de cerca de oito a 10 cachos por videira.

Um Quinta da Dôna, para a roçar a perfeição, tem de ter, em jovem, características em excesso: ácidos, álcool, cor e taninos. E são as reações químicas que se operam no processo de envelhecimento que lhe vão trazer a elegância e a singularidade única de um grande Baga. Uma espécie de pacto de não agressão entre os excessos, para uma paz duradoura e futura.

Há novas tendências de vinhos inteiros, fermentados com engaço, mas cujo perfil não convence Ataíde Semedo. Definitivamente, os taninos libertados pelo engaço nunca são positivos por terem sempre um carácter herbáceo. Um vinho nobre tem de ser desengaçado, a menos que se queira um resultado mais rústico, característica que a Baga já possui em demasia. A sua experiência no Dão, onde colabora com umas das mais reputadas casas da região, mesmo com outras castas tintas, fá-lo não prescindir do desengace. Olha para o engaço como um espinho cravado numa mão. É um elemento estranho e que em nada beneficia, de modo que, o melhor é mesmo extirpá-lo.

Vinha de Vale de Carros

Nas opções e filosofia de Ataíde, nada é fruto do acaso, tal como não o é a aquisição da propriedade de Vale de Carros. A proximidade com a “sua” Rigodeira e a Quinta da Dôna está ocultada por uma pequena faixa de arvoredo. A distância entre ambas está entre os 300 e os 400 metros. Mas o mais relevante para a decisão da compra foi a semelhança na composição dos solos entre as duas propriedades, com uma forte componente de calcário em solos muito pobres, ideais para o plantio da videira, planta a revelar um desempenho maior em condições de stress hídrico e nutritivo.

São cinco hectares onde, de modo rigoroso e objetivo, planta as castas brancas Bical, Cercial da Bairrada e Chardonnay; e as tintas Baga, Touriga Nacional e Pinot Noir. A exposição da propriedade ajuda a moldar a semelhança com a Quinta da Rigodeira, sobretudo para as virtudes que aporta à Baga. A opção pelas outras castas deriva da sua experiência. Para espumantizar, não teve dúvidas. O privilégio de as várias viagens a França lhe terem permitido provar grandes champagnes, retiram-lhe quaisquer dúvidas sobre a óbvia escolha das internacionais Pinot Noir e Chardonnay, variedades melhoradoras da espumantização, com as locais Bical, Cercial e Baga.

A Bical, casta autóctone, surge para dar corpo aos vinhos, enquanto a Cercial traz a frescura e a vibrância, criando o equilíbrio perfeito, não obstante ter uma tendência para a podridão na vinha e oxidação na adega, o que obriga a um trabalho de muita proximidade nos dois locais. De todo o modo, e isso sente-se nos vinhos e espumantes, é a força do terroir que marca indelevelmente o perfil. E Ataíde Semedo já o sabia antes mesmo da aquisição da parcela. O namoro com esta encosta existe desde o tempo em que liderava a Rigodeira. Os antigos falavam muito nela e gabavam-lhe o potencial. Em segredo, e logo após a venda das vinhas antigas que lhe dá a disponibilidade financeira que anteriormente não possuía, começa o processo negocial de aquisição daquela montra, pertencente a 18 viticultores, num rendilhado de pequenas parcelas. Um trabalho árduo que demorou dois anos e meio a ser concluído, com muitas peripécias pelo meio.

As expetativas são elevadas para aquela propriedade de exposição a sul, contemplando-a com o sol desde as primeiras horas da matina até ao pôr-do-sol. As vinhas, muito velhas, estão decrépitas, com uma produção absolutamente residual e de baixa qualidade. Arranca a totalidade da área de vinha logo no ano de aquisição e, um ano mais tarde, em 2003, realiza o primeiro plantio, que requer um cuidado muito especial. Com o rigor que exigia a si próprio, não hesita em enviar todas as varas para um viveirista reputado em França, onde são enxertadas e regressam, já em 2004, em plantas. Os clones das castas portuguesas – Baga, Touriga Nacional, Bical e Cercial – são submetidos a uma seleção massal, todos enxertados nos porta-enxertos por si escolhidos, tendo, na base, a tipologia do solo, o porta-enxerto, as características da casta e o clone da mesma. Da Baga seleciona ainda clones de vinhas muito velhas do Dão; os 35 melhores clones da Estação Vitivinícola da Bairrada e os clones de Bical e Touriga Nacional são oriundos do Centro de Estudos de Nelas, onde conta com a preciosa da engenheira Vanda Pedroso. O mesmo critério de exigência teve-a na escolha dos clones de Pinot Noir e Chardonnay, os mais aptos e exclusivamente utilizados na produção de espumante.

 

Espumantes e Baga

Porque na Bairrada há vida para além dos vinhos de mesa, os espumantes sempre fizeram parte do universo produtivo de Ataíde Semedo. O traquejo técnico trazia-o da conceituada Caves São Domingos. Na Quinta da Rigodeira tinha chegado a engarrafar 30 mil unidades por ano. Com a saída de Almeida e Silva do projeto, fruto de uma atividade profissional intensíssima como médico, aliada à gestão da Casa de Saima, Ataíde Semedo entendeu que estava na altura de abrandar.

Apaixonado pelas castas internacionais Pinot Noir e Chardonnay, Ataíde Semedo nunca escondeu a paixão pelas virtudes da Baga na espumantização, não crendo, no entanto, que a rainha da Bairrada pudesse mostrar, assim, tanta realeza em espumante extreme da casta. Na Rigodeira, a Baga “descorada” entrava, em segredo, nos lotes de Maria Gomes e Bical, correspondendo, à data, a cerca de 30% da composição do espumante.

As vindimas realizadas em Champagne trouxeram-lhe o conhecimento de vinha e adega no processo de espumantização, e a convicção de que, para fazer espumantes de elevada qualidade na Bairrada, as castas Chardonnay e, sobretudo, Pinot Noir são imprescindíveis, ainda que usadas em lote com outras grandes castas locais. Atualmente, o produtor já não usa a Baga para espumantizar, entendendo que a pequena dimensão de área de vinha que detém e a qualidade que possui para vinhos tranquilos, tornaria mal empregue o seu uso nos espumantes. Ora, se escolhe os melhores clones, os melhores porta-enxertos e os melhores solos, tem de potenciar a casta naquilo em que ela é, criar vinhos tintos de referência mundial. E essas virtudes redundam da capacidade de envelhecimento inigualável, após mostrar muita discrição na juventude, com aromas fechados, engrandecendo com a idade, à semelhança do Nebbiollo (casta tinta italiana).

Com as alterações climáticas, a Baga tem saído bastante beneficiada. Há uma notória antecipação da maturação alcoólica, permitindo colher a uva com um teor provável superior a 13% volume sem que daí resulte uma perda da acidez natural da casta, facto que, segundo o produtor, ocorre em situação de sobrematuração (acima de 14% de álcool provável). Ataíde Semedo não crê muito em vinhos tintos elaborados exclusivamente com Baga de baixo teor alcoólico. Note-se que os Quinta da Dôna, dos quais damos como exemplo as colheitas de 2001 ou 1992, que possuem 13,5% volume alcoólico e foram – e são – vinhos enormes, aos quais o tempo emprestou o glamour e a elegância apenas ao alcance dos maiores. Lá para o final de 2027, voltaremos aqui para provar a mesmo muito auspiciosa colheita de 2025, vinho que, certamente, honrará a fama e a glória dos míticos Quinta da Dôna.

(Artigo publicado na edição de Abril de 2026)

ESPECIARIAS: Caril, açafrão e outras orientalidades

ESPECIARIAS

O fascinante mundo das especiarias deve mais aos portugueses do que à primeira vista pode parecer. O vaivém criado pelos muitos trânsitos marítimos e terrestres ocorridos no tempo dos descobrimentos, juntamente com as rotas transatlânticas estabelecidas, tornaram o mundo mais pequeno. A oriente, a história do mundo desenhou-se de forma quase dual da visão mais […]

O fascinante mundo das especiarias deve mais aos portugueses do que à primeira vista pode parecer. O vaivém criado pelos muitos trânsitos marítimos e terrestres ocorridos no tempo dos descobrimentos, juntamente com as rotas transatlânticas estabelecidas, tornaram o mundo mais pequeno. A oriente, a história do mundo desenhou-se de forma quase dual da visão mais antiga. Vale a pena o exercício.

Por muitas voltas que demos ao assunto, haverá sempre quem tenha dúvidas acerca do caril, e de praticamente todas as outras especiarias, e o tempo que passou provocou uma total miscigenação. Troca as voltas a todos os aparentes donos da verdade e torna humildes os mais poderosos. Certo é que desde 1498, quando chegámos à Índia, assentámos praça. Por efeito do Tratado de Tordesilhas, o Brasil passou para o lado português, e a intensidade das relações com a gigante península indiana fortaleceu-se enormemente. Na segunda década do séc. XVI, os portugueses dominavam inteiramente a origem de todas as especiarias, sobrepondo-se à rota até então estabelecida. Dispenso-me do rigor estritamente histórico, para dar um salto gigante até Goa, pelo reduto culinário e gastronómico que representa toda a Índia. Jamais se deixou “invadir” pela restante Índia. Levámos o funcho da Madeira, que encontrou acolhimento junto do anis indiano. Também da América do Sul, via Brasil, fizemos chegar tomate, ananás e batatas, entre outros produtos. E Portugal conseguiu o feito notável de interferir na enorme tradição indiana de cozinhar. O pão e as açordas criaram raízes fortes nessa praça distante. E as massalas – leia-se misturas de especiarias em pó – começaram a viajar com força e aceitação total entre o cantinho luso e o magnífico mundo novo e rico que Goa representava. A malagueta só entrou nos nossos costumes no século XIX. Era “coisa do diabo”. Mesmo assim, influenciou fortemente as bases da cozinha alentejana, tal como a conhecemos e praticamos hoje.

ESPECIARIAS

 

O fabuloso mundo das especiarias

Historicamente, é da Índia que vem a mais abundante e rica utilização de ervas aromáticas e especiarias que conhecemos. No domínio das ervas, sobressaem duas: a folha de coentros, que nós, felizardos ocidentais, conhecemos simplesmente como coentros; e a hortelã pimenta. O grosso da coluna provém da prodigiosa oferta de especiarias que a Índia encerra. As especiarias são, ao fim e ao cabo, uma diversidade grande de elementos secos. Sementes, bagos, vagens, cápsulas, cascas, folhas, botões, pétalas, estigmas ou estames, configuram especiarias que podem valer mais do que ouro. Olhemos para os casos mais comuns, exercício que raramente fazemos.

Folha de louro. Nasce de um arbusto e dá-se bem em toda a parte. Funciona em diversas aplicações, mormente em conjunto com azeite e alho, no caso do inefável bife à portuguesa.

Cardamomo. É uma semente que é indissociável do sabor indiano autêntico. Dá-se bem no sul da Índia, em Ceilão, Tailândia e Guatemala, e confere um sabor forte e ligeiramente balsâmico a todas as aplicações. Produz um óleo viscoso de sabor intenso, um cineol flexível em termos de aplicação. Esta semente tem uma de duas configurações possíveis: cardamomo negro, componente nuclear da massala garam, e cardamomo verde, também conhecida como a rainha das especiarias. Esta última é uma das mais caras e aromáticas especiarias do mundo. É muito utilizado em doçaria.

Cássia e canela. A cássia e a canela são, por assim dizer, as cascas das respetivas árvores. Infelizmente, o consumidor é frequentemente levando a consumir uma e outra indistintamente, mas não pode haver maior logro. A cássia provém da China, enquanto a canela é originária do Ceilão. Claro que há muitas semelhanças e, claro, que uma e outra especiarias podem vir de outras partes do globo. No entanto, atentando à forma mais pura e valiosa, o sistema é este. Ilhas Seycheles, Brasil e Indonésia produzem excelente canela, mas o ideal é mesmo conseguir chegar ao nível máximo.

Malagueta. Da família capsicum, provém originalmente da América do Sul e viajou para toda a parte, ganhando forma e função entre os diferentes povos. Oscila entre veneração e condenação, e é estruturante na cozinha indiana. Na Tailândia também é muito importante. Utilizado como intensificador de sabor, é mais saudável do que o sal. E entre outras virtudes, permite uma certa profilaxia geral em relação a algumas doenças. Nos piripiris que faço, jamais retiro as sementes; elas fazem parte.

Cravinho. Provém de uma árvore, toda ela muito aromática. Consumimos o cravinho seco e o nome que lhe damos decorre da configuração de prego. É fundamental utilizar com moderação nos cozinhados, pois tende a dominar todo o sabor. Um dente de cravinho é suficiente para um tacho médio de ensopado de borrego, por exemplo.

Sementes de coentros. É a especiaria mais abundante da Índia, da qual o país exporta mais de 80 mil toneladas por ano. Secas e passadas pelo almofariz, exala impressões cítricas impressionantes. É, por isso, um excecional intensificador de sabor. Utilizo juntamente com um pouco de cardamomo, para produzir um substituto doméstico do sal. Passadas pelo forno quente, ganham uma dimensão exótica muito saborosa.

Cominhos. Utilizamo-los na produção de vários enchidos tradicionais, em particular de morcelas e chouriços de sangue. São especiarias muito antigas. Há mais de 4.500 anos que a Síria e o Egito a produzem com abundância e proveito. É duradoura: há relatos de sementes presentes nos túmulos dos faraós que estavam ainda em boas condições de consumo. São excelentes como componentes  de marinadas diversas.

Folha de caril. Em termos aromáticos, a semelhança com o pó de caril é muito grande e, como pasta, chega a fazer as vezes. Funciona muito bem com peixe fresco; gosto particularmente de utilizar com ovas grelhadas ou cozidas. Fresca, a folha de caril pode utilizar-se até com manteiga. É impressionante a sua flexibilidade.

Funcho. Especiaria de raiz eminentemente europeia. É doce e fortemente aromática. Além disso, é hiperabundante, encontramo-la pelas bordas dos caminhos de campo. Temos rebuçados e mezinhas diversas à base de funcho. Quando seco, integra muito bem misturas de especiarias como o caril. Tem de ser utilizado em pequenas proporções.

Feno-grego. Utilizada com abundância no norte da Índia, é uma especiaria de que se aproveita tanto as sementes, como as folhas. Nas províncias do Gujarate e Punjab, tem diversas aplicações na saúde e é considerada como fundamental em estufados longos de carne. Rogan Josh, por exemplo, não vive sem esta especiaria.

Levístico. Provém de uma planta de flores vermelhas e perfume intenso, semelhante ao tomilho. Não convivemos muito com a planta, mas seguramente já lhe sentimos o cheiro em marinadas, molhos e pratos cozinhados.

Noz moscada. Está presente em todas as configurações de caril e damos-lhe uso muito frequente em purés e massas. Na doçaria nacional, também tem as suas utilizações usuais.

Sementes de mostarda. Também se chama grãos de mostarda e é, nas variantes amarela e branca, utilizada para produzir o condimento de mostarda. Pode ser mais ou menos pungente, consoante os acrescentos que lhe damos.

Pimenta. É a especiaria das especiarias na cozinha indiana. O mundo inteiro utiliza a pimenta a par com o sal nas suas cozinhas domésticas. Ombreia com a malagueta na popularidade e ainda é fonte importante de rendimento para a Índia. Há diversos sucedâneos e todos eles fazem parte dos ingredientes fundamentais das nossas casas.

Açafrão. Ingrediente chave e nobre nas melhores misturas de especiarias. Obtém-se em quantidades muito reduzidas a partir dos filamentos da flor crocus sativus. Para ter a noção da raridade, são precisas 70 mil flores para obter meio quilo de açafrão. É mais cara e mais exótica do que a trufa branca, por exemplo. Custa oito euros por grama. Apesar de tradicional na culinária portuguesa, espanhola, italiana e indiana, caiu em desuso, optando-se pela curcuma. Mas, claro, que não é a mesma coisa.

Sementes de sésamo. Utiliza-se muito em óleo, farinha e diretamente. Na utilização direta, vale a pena aquecê-la no forno ou numa sertã seca. Tem um poder aromático forte.

Vamos ao caril?

Posto que entendemos que um caril é feito a partir de massalas ou misturas de especiarias, podemos passar a algumas configurações frequentes. Percorremos, numa primeira instância, as formas mais frequentes de caril indiano. O tikka masala é um dos mais populares e consiste de pedaços grelhados de frango, com um molho cremoso e suave. Tem um sabor cítrico e não é normalmente picante. Um branco de Fernão Pires do Tejo pode resolver bem a contenda.

Já o vindaloo é um prato goês, feito com vinagre, malagueta e alho. O nome decorre de uma corruptela de vinha de alhos, uma preparação bem portuguesa, que pode ser picante. Aqui pode ser instrumental um Castelão da Península de Setúbal. A questão do picante leva-nos a ter algumas precauções quanto à harmonização vínica. Mas, basicamente, quando intensificamos o picante, devemos também aumentar o grau alcoólico do vinho, isto porque a perceção do picante na boca resulta em micro-feridas e o álcool vai permitir sará-las de imediato. A água nada resolve e até pode ser contraproducente.

A preparação korma é suave, cremosa e aromática, e utiliza iogurte, natas ou nozes na sua base. Regressamos, por isso, ao vinho branco, para chegar à harmonização feliz. Deve ter estágio em madeira e, de preferência, ser jovem. Um Arinto de Bucelas fermentado em barrica pode ser uma excelente ideia. Importante é que espevite a selva aromática que está no prato.

O caril de Madras é vermelho e é feito com malagueta, cominhos e sementes de coentros. Pode ser muito picante, e cabe ao vinho debelar esse capital avassalador. Sugiro um Cabernet Sauvignon de Lisboa, as experiências que tenho feito com os vinhos da Quinta do Sanguinhal têm resultado. Denotam, além disso, um perfil balsâmico que tem muito a ver com a cozinha indiana. O caril goês de frango é feito com leite de coco, pode ser ou não picante e é delicioso. É, de resto, o que se faz nos lares portugueses com mais frequência. A solução vínica que melhor funciona é um Touriga Nacional jovem do Dão. Frescura e de novo a selva aromática de que precisamos.

O Rogan Josh, que já referi, é um prato complexo e profundo da região de Caxemira. É feito com borrego e tem a particularidade de incluir feno-grego na composição. Aprendi com um grande mestre indiano, que produziu a mistura à minha frente, e depois cozinhou-o na perfeição. É normalmente picante, dependendo da tolerância dos comensais. Aconselho um tinto do Douro com madeira, com alguma idade. A ligação é garantida. O caril Saag é quase vegan e tem por base folhas verdes de espinafres, pelo que aconselho vivamente um vinho branco da casta Fonte Cal. Alguns produtores da Beira Interior estão a fazer vinhos que parecem ter sido concebidos para este caril. O caril Dhamsala, de forte influência peruana, é outro grande prato e é feito com lentilhas e vegetais. Este sim, é inteiramente vegano e curiosamente gosta de vinho tinto. Um Jaen novo do Dão faz uma excelente harmonização.

ESPECIARIAS

Um pulo até à Tailândia

Na grande e estreita língua de território que é a Tailândia, o caril é um caso muito sério. Aliás, todo o país é um caso muito sério. Leite de coco e erva-príncipe estão na base de quase todos, o que, do ponto de vista da harmonização, é um tremendo desafio. O caril verde é o mais rico em especiarias e é feito com malaguetas verdes, manjericão e sementes de coentros. Não é demasiado picante, mas temos de estar preparados para o caso – quase sempre – de isso acontecer. Dado o património aromático contido no caril verde, optamos por um Sauvignon Blanc de Colares. Complexidade e exotismo garantidos e, além disso, o toque salino, que é sempre bem vindo.

Um caril tailandês é altamente calórico. O caril vermelho é o mais picante de todos e, na base, encontramos malaguetas vermelhas fortes, erva-príncipe e gengibre. Precisa, por isso, de um tinto bem copioso, pelo que o Alentejo é a opção correta. A casta Alicante Bouschet pode ser um bom caminho. O segredo é, como sempre, provar e medir forças com a solução encontrada. Boas experiências!

(Artigo publicado na edição de Março de 2026)

Chefe David Jesus junta-se à Quinta do Vallado

O chefe de cozinha David Jesus juntou-se à Quinta do Vallado para liderar novo projeto gastronómico na Ribeira do Porto e renovar proposta dos hotéis de enoturismo. A parceria entre a Quinta do Vallado e David Jesus origina um novo capítulo na vertente gastronómica da Quinta do Vallado, que inclui os hotéis da Régua e […]

O chefe de cozinha David Jesus juntou-se à Quinta do Vallado para liderar novo projeto gastronómico na Ribeira do Porto e renovar proposta dos hotéis de enoturismo.

A parceria entre a Quinta do Vallado e David Jesus origina um novo capítulo na vertente gastronómica da Quinta do Vallado, que inclui os hotéis da Régua e de Foz Côa e o mais recente projeto na Ribeira do Porto.

O chefe português, actualmente chef e proprietário do restaurante Seiva, em Leça da Palmeira, conhecido pela sua cozinha vegetariana e sustentável, irá assinar a carta do Wine Bar e Restaurante do novo projeto da Quinta do Vallado, além de renovar as cartas dos dois hotéis com criações que respeitam as raízes do Douro, mas com uma identidade inovadora.

No coração da Ribeira do Porto, o novo espaço da Quinta do Vallado inclui uma loja de vinhos e sala de provas. Trata-se de um projeto assinado pelo arquitecto Francisco Vieira de Campos, que irá ocupar quatro pisos de um edifício histórico do século XVIII, restaurado em 2024.

Com vista privilegiada sobre o Douro e traços arquitetónicos originais, como arcadas em pedra, vitrais, tectos trabalhados e azulejos históricos, o novo projeto pretende ser um tributo ao Douro e à sua identidade.

Os três vinhos galardoados com o melhor vinho foram Vala da Barca 2022 de Maçanita Vinhos entre os vinhos brancos, Costureiro Garrafeira 2019 nos tintos e o Porto Vale da Tábua 50 Anos entre os vinhos fortificados.

De um total de 92 vinhos em prova, o Júri de 10 elementos, composto por jornalistas especializados e representantes do comércio de retalho, sommeliers e restaurantes, apreciou brancos, tintos e vinhos fortificados, dividindo-se estes entre Moscatel do Douro e Portos.

Sendo este concurso parte integrante da feira Vinhos & Sabores dos Altos, organizada pelo Município de Alijó e com produção da Grandes Escolhas, em rigor da verdade nem todos os vinhos concorrentes traduzem com rigor a sua origem “nos altos”, referindo-se esta expressão aos que são produzidos no planalto de Alijó, uma vez que os limites do concelho vão muito para além do referido planalto e chegam às margens do Douro e Tua. De igual modo também foram admitidos na feira e no concurso outros “altos”, provenientes dos municípios vizinhos de Carrazeda de Ansíães, Murça e Vila Flor.

Apurados os resultados, foram atribuídos um total 26 medalhas entre ouro e prata, para além da eleição do melhor vinho em cada categoria.

Segue a lista de todos os vinhos premiados.

Categoria Vinho BRANCO
Melhor Vinho Vale da Barca 2022 Maçanita Vinhos
Medalha de Ouro Casttêdo Valley Oaked Reserva 2022 Casttêdo Valley – Maria Luísa Seixas Pinto Marantes
Pormenor Reserva 2023 Pormenor Vinhos
Quinta de Martim 2019 Casa Agrícola Águia de Moura
Quinta do Noval Reserva 2023 Quinta do Noval
Soulmate Alvarinho Grande Reserva 2021 Cortes do Tua Wines
Medalha de Prata Amarrotado 2023 Amarrotado Wines
Costa Boal Chardonnay 2022 Costa Boal Family Estates
Família Silva Branco 2023 Branco Wines Family
Lugar da Corredoura 2021 Casa do Piàska
Má Vida 2022 Carlos Rua
Categoria Vinho TINTO
Melhor Vinho Costureiro Garrafeira 2019 Foz do Tua
Medalha de Ouro Bardino 2021 João M. Soares Pires
Costa Boal Homenagem Grande Reserva 2015 Costa Boal Family Estates
Pedigree 2019 Branco Wines Family
Pintas Character 2022 Wine and Soul
Submerso 2023 Submerso Vinhos
Medalha de Prata Fonte da Perdiz Grande Reserva 2020 Adega Cooperativa de Alijó
Lugar da Corredoura Touriga Nacional Reserva 2022 Casa do Piàska
Pandemic Wine 2020 Carlos Rua
Quinta de Santa Eugénia Grande Reserva 2020 Soc. Agr. Quinta de Santa Eugénia
Tactus 2020 Vinhos de Favaios
Categoria Vinhos Fortificados
Melhor Vinho Vale do Tábua Porto 50 anos Vale do Tábua
Medalha de Ouro Adega de Favaios Moscatel Colheita 2000 Adega de Favaios
Fragulho Tawny 10 anos Casa dos Lagares
Alijó Moscatel Reserva Adega Cooperativa de Alijó

Millèsime: A grande festa dos espumantes

Millesime

A Câmara Municipal de Anadia, como organizadora do Millèsime, que mais uma vez contou com a colaboração da Grandes Escolhas, está de parabéns e presta um serviço assinalável aos vinhos portugueses! Dificilmente se encontra uma simbiose mais perfeita entre localização, cenários, ambiente, festa e o objecto do evento, neste caso os espumantes, do que aqui. […]

A Câmara Municipal de Anadia, como organizadora do Millèsime, que mais uma vez contou com a colaboração da Grandes Escolhas, está de parabéns e presta um serviço assinalável aos vinhos portugueses!

Dificilmente se encontra uma simbiose mais perfeita entre localização, cenários, ambiente, festa e o objecto do evento, neste caso os espumantes, do que aqui. Pelo terceiro ano consecutivo no emblemático Hotel Palace da Curia, que evoca em cada um dos seus traços a época gloriosa do turismo termal das primeiras décadas do século XX, os espumantes portugueses encontraram o seu lugar de afirmação e demonstraram, aos milhares de visitantes que ocorreram à Curia, uma qualidade já transversal a muitas regiões do país.

Millesime

Esta será, talvez, a primeira constatação que o visitante pode verificar in loco, perante a exposição de mais de uma centena e meia de referências que os 49 expositores (record absoluto) deram a provar.

Produzem-se hoje, em Portugal, espumantes de grande qualidade em quase todas regiões vitivinícolas. É verdade que a Bairrada continua a dominar em número produtores e em volume e jogava em casa e aproveitou a oportunidade para mostrar uma pluralidade de estilos e apostas que demonstram uma vitalidade crescente. É também verdade que Távora-Varosa não perdeu o ensejo de confirmar que tem um terroir único para a produção de grandes espumantes. Mas por todo o lado, do Minho ao Alentejo, das Beiras ao Tejo, do Dão à Península de Setúbal, o Millesime comprovou o interesse maior que os espumantes nacionais têm despertado nos consumidores, com o consequente aumento sustentável do seu consumo e a afirmação consistente da sua qualidade.

O Millèsime é festa, espalha uma alegria contagiante e consegue a proeza de comunicar e satisfazer as espectativas dos vários públicos que o visitam, sejam consumidores ou profissionais. Tem visitas institucionais de peso, como o Ministro Adjunto e Coesão Territorial, o Secretário de Estado do Turismo e outras individualidades. Tem diversão, animação e evocação do passado charmoso, entretendo os que se deixam seduzir pelo lado lúdico da festa. Tem boa oferta gastronómica, provando que os espumantes são dos vinhos mais transversais em termos de harmonização, e também provas comentadas de vinhos e harmonizações para os que querem saber mais e experimentar novos sabores e sensações. E tem um lado profissional que ficou patente no seu prolongamento a segunda feira de manhã (uma novidade desta edição), período exclusivamente reservado a compradores, e no almoço de convívio que se seguiu e na conversa entre enólogos e produtores proporcionada pelo convite a Marta Lourenço, enóloga da Murganheira e da Raposeira, que partilhou a sua experiência e saber na produção de espumantes com alguns dos seus colegas.

Duas conclusões se podem tirar desta edição 2025 do Millèsime: os espumantes portugueses estão a vencer a velha batalha contra a sazonalidade do seu consumo e têm um futuro auspicioso pela frente. Tchiiim!