Assim que passamos a entrada da Quinta dos Arcos, junto à Nacional 379, em Azeitão, o ligeiro declive que percorremos permite-nos visualizar parte do casario desta propriedade localizada na região vitivinícola da Península de Setúbal. Adquirida em 2013, é delimitada por uma área de 77 hectares, dos quais cerca de 13 estão confinados à vinha, para além do montado, e está, hoje, nas mãos de uma família proveniente de Paris, França. Christine Antunes, que ali nasceu e exerceu advocacia durante 35 anos, radicou-se em Portugal em 2018. O filho mais velho, Rodolphe Antunes Bouquillard, arquiteto de formação, cuja licenciatura foi tirada na capital francesa e o mestrado na Universidade Autónoma de Lisboa, assume o papel de produtor. É, portanto, o responsável pelo projeto de recuperação de alguns dos edifícios, sempre alinhada com a traça da fachada original, enquanto outros já constam no papel e outros estão integrados no plano de reabilitação a médio prazo.
No entanto, a compra da propriedade estava destinada, inicialmente, para fundar centro destinado a autistas, para proporcionar atividades ao ar livre até surgir a ideia de plantar vinha, “porque o meu pai tinha direitos de vinha e eu aceitei os 13 hectares que me proporcionou”, começa por contar a nossa anfitriã. De certa forma, o vinho não é assunto
Christine Antunes: “provei muitos. Acho que tudo o que existe de bom passou por mim, além de vinhos que valem muito dinheiro. Os grandes Bordeaux, os grandes Borgonha… mais tarde, passei a provar vinhos estrangeiros.” Ou seja, referências vínicas produzidas fora de Portugal e França. “Quando vim para Portugal, também provei quase todos os vinhos que são feitos por cá.”
Castas francesas como bandeira
Christine Antunes foi advogada da revista Sommeliers International dirigida, na época pelo escanção Jean Frambourg e era parceira da Association de la Sommellerie Internationale e da Union de la Sommellerie Française. Esta ligação favoreceu o passo seguinte: a plantação da vinha. Isto é, a nossa anfitriã decidiu recorrer a técnicos franceses com provas dadas na viticultura. “Quem aconselhou a vinda dos técnicos franceses à minha mãe, foi o sommelier Philippe Faure-Brac, que se tornou, em 2016, presidente da Union de la Sommellerie Française”, conta Rodolphe Antunes Bouquillard. “Fizeram análises ao solo da propriedade, provaram vinhos da região e acharam que a única forma de fazer a diferença seria optar por castas francesas, até porque se iriam adaptar muito bem aqui”, descreve Christine Antunes.
Merlot, Cabernet Franc e Cabernet Sauvignon, nas tintas; Sauvignon Blanc, nas brancas. Christine Antunes fez questão de incluir uma quinta casta a esta curta lista, a Moscatel Graúdo, “para ter uma variedade representativa da região da Península de Setúbal”, justifica. Dada a indicação dos sítios onde se iria plantar cada variedade – as duas primeiras castas foram plantadas em solos maioritariamente arenosos, enquanto as restantes estão implantadas nas zonas predominantemente argilocalcárias –, deu-se início à plantação da vinha. Este processo demorou aproximadamente dois anos, entre 2014 e 2016, com a Merlot a protagonizar a última plantação.
Depois, foi preciso recorrer a quem sabe a matéria de enologia. A verdade é que Christine Antunes desejava ter António Saramago, decano da enologia no país e nome bem conhecido na Península de Setúbal, na Quinta dos Arcos. “Apresentamos-lhe o projeto da adega, dos vinhos e da vinha.” Entusiasmado, aceitou a proposta, fazendo parte da equipa desde 2024. “Estou cá todos os dias”, afirma o profissional com veemência. E com ele foi a adegueira brasileira, Lariza Camelatto.
“Há muito Sauvignon Blanc, mas eu não tenho de fazer vinhos iguais. Com as mesmas uvas, posso fazer 500 vinhos diferentes, uma força de expressão, porque há várias técnicas de trabalhar as uvas, e dentro dessas técnicas, sobretudo para quem as conhece, pela experiência, podemos pôr na mesa vinhos diferentes”, exemplifica António Saramago.
A vinha está repartida, ora por encostas suaves da Quinta dos Arcos, uma das quais pontilhada por sobreiros e ladeada por montado, ora na pequena planície junto à ribeira que delimita atravessa um dos extremos da propriedade delimitada por floresta, que empresta a quietude à paisagem. A nossa anfitriã refere a importância da fauna neste ecossistema, entre raposas, águas, texugos e javalis.
Devido à ribeira e à influência atlântica sentida na propriedade, “temos de usar produtos para o oídio e o míldio”, combatidos através de tratamentos fitossanitários, “quando estritamente necessário e dependendo do ano”, assegura, “mas, ainda assim, temos de tratar a vinha com produtos mais eficientes, porque os biológicos não são suficientes, sobretudo junto à ribeira”, descreve. No âmbito dos trabalhos da vinha, são utilizados intercepas e o corta-mato, com a finalidade de suprimir o excesso do coberto vegetal, mantendo alguma da vegetação, com o intuito de proteger o solo do sol.
Há 15 ânforas de barro de Impruneta e dois ovos da Fornace Artenova, ambos feitos em Itália, dois balseiros de carvalho francês do Allier e barricas de carvalho de Vosges
Estreia é feita com colheita tardia
A vindima ocorre, habitualmente, a meio do mês de agosto. É manual e a seleção dos cachos é efetuada na vinha, “para qualquer tipo de vinho”, reforça Christine Antunes. O mesmo critério rigoroso está implementado na adega, onde a seleção se repete no tapete de escolha.
Tudo estava preparado para que a primeira apanha da uva tivesse lugar em 2018, “mas o escaldão desse ano devastou a uva”. Curiosamente, em novembro desse ano, Christine Antunes constatou que alguns talhões próximos da ribeira tinham uvas com Botrytis cinerea. Incrédula, pois até então não tinha imaginado que fosse possível a propriedade reunir condições para dar origem à podridão nobre, avançou para a produção de uma colheita tardia feita a partir da casta Sauvignon Blanc.
O resultado traduziu-se em 150 litros para consumo próprio. Ao invés das cubas de inox ou de barricas, todo o processo de vinificação foi feito em ânfora, objeto de eleição de Christine Antunes no que à elaboração de vinho diz respeito. “Encontro harmonia entre as castas francesas e as ânforas”, elucida. Esta conclusão vem na sequência de sucessivos ensaios realizados ao longo dos primeiros cinco anos do projeto vitivinícola, “o que contribuiu para o arranque da Quinta dos Arcos”, sublinha.
Não é por acaso que há 15 ânforas na adega, todas feitas a partir de barro de Impruneta, provenientes de Itália. “É dos melhores barros do mundo para ânforas, nos quais fazemos vinhos tardios”, evidencia, referindo-se à colheita tardia.
A exceção foi a produção de um passito, inspirado no célebre vinho italiano feito a partir de uvas desidratadas ao sol, pois a nossa anfitriã é apreciadora deste tipo de vinho. É da colheita de 2025 e foi elaborado com Moscatel Graúdo, “que se encontra em cinco destas ânforas”, sob a supervisão de António Saramago.
Ânforas, balseiros e barricas
Vamos por partes. Sangue Real é a designação que consta no rótulo da gama de entrada. Foi atribuído em homenagem a “uma zona específica da propriedade, que já se chamava assim”, esclarece. O mesmo sítio tinha sido, em tempos, ocupado por vinha plantada pelos antigos donos da Quinta dos Arcos, que resultou, em tempos idos, da compra de várias propriedades. No alinhamento do portefólio vínico consta o rótulo Adega das Ânforas. Tal como o nome indica, está reservado aos vinhos feitos nas ânforas. “Todas têm um pez à base de mel, feito em Itália.” Aqui, enquadram-se o Rodolphe’s Merlot 2023, bem como as duas colheitas tardias de 2024: um de Sauvignon Blanc e outro de Moscatel Graúdo
A linha Quinta dos Arcos contempla, por sua vez, vinhos feitos em balseiros e em barricas. É o caso do primeiro vinho deste produtor. Trata-se de uma colheita tardia DOC Palmela de 2020, em que as uvas de Sauvignon Blanc foram vinificadas em inox e submetidas a um estágio de 36 meses em barrica. Neste patamar estão, ainda, o Quinta dos Arcos Reserva tinto 2023, bem como três outros vinhos de 2024: o Sauvignon Blanc, o Sauvignon Blanc Reserva e o Sauvignon Blanc. Os rótulos de todos os vinhos são da autoria de Rodolphe Antunes Bouquillard, que eleva a pintura como forma de expressão vínica, se assim a podemos designar.
Os dois balseiros de 5000 litros dispostos na adega são de carvalho francês do Allier e têm o cunho da Tanoaria JM Gonçalves, situada em Palaçoulo, no concelho de Miranda do Douro, Trás-os-Montes. São usados apenas para tintos – primeiramente para fermentação e, depois da remoção das massas, são reutilizados no processo de vinificação. As uvas de cada variedade são vinificadas a solo e, uma vez que são três, “há uma casta que tem de esperar que uma acabe a fermentação, para ser acolhida”, avança Christine Antunes. As barricas, de 300 litros, foram encomendadas à mesma empresa e são feitas a partir de carvalho de Vosges. Segundo António Saramago, esta madeira é adequada para os vinhos brancos, que aqui fermentam e estagiam. É o caso do Quinta dos Arcos Reserva Sauvignon Blanc. Já o Grande Reserva Sauvignon Blanc 2024, “que já está em garrafa, mas ainda não está comercializado, estagiou em barricas de carvalho francês das Vosges”, acrescenta Rodolphe Antunes Bouquillard.
Os balseiros são usados pela “tendência para aumentar o tempo de estágio, porque estamos a falar de volumes grandes”. A respeito das barricas, “estamos à procura de aromas, de complexidade, de finesse nos brancos”, afirma António Saramago. Juntam-se ainda os dois recipientes em forma oval da Fornace Artenova, produzidos no sul de Florença, Itália, para estágios de vinhos tintos. O interior também é revestido com o mesmo pez das ânforas. “É preciso provar muito”, sublinha o enólogo.
Adega de filigrana
De acordo com as contas feitas pelos novos proprietários, a Quinta dos Arcos foi palco de produção de vinho até à década de 70 do século XX. “Havia esta adega e uma pequena adega”, que, embora degradada, ainda existe. “Servia de apoio a esta e já era mais moderna”, constata Christine Antunes. Os registos fotográficos que possuem indicam a antiguidade dos imóveis. “São anteriores a 1951. Veem-se na fotografia de 1947 e esse prédio [a pequena adega] é posterior, porque não existe nessa fotografia de 1947”, continua.
A adega atual está instalada na outrora primeira adega da propriedade. Foi parcialmente concluída em 2024, ano da estreia na receção da uva e de todo o processo de vinificação. O término aconteceu em 2025. “Todo o vinho que faço na Quinta dos Arcos tem controlo de temperatura. O que é inovador aqui é o caso do barro”, comenta António Saramago, referindo-se às ânforas, acrescentando que os balseiros também estão equipados de sistema de frio, assim como as cubas de inox. “Das ânforas saíram coisas fantásticas. É um componente para que o vinho tenha alguma coisa de diferente”, destaca o enólogo.
Toda a adega foi pensada e desenhada na totalidade por Rodolphe Antunes Bouquillard, quer a arquitetura, quer o sistema tecnológico e de segurança. É provida de detetores de monóxido de carbono, que, em caso de alerta, comandam a abertura automática das portadas espalhadas pelo edifício. “Os pilares azuis têm uma tinta especial, pelo que, se houver um incêndio, faz uma espuma, para abafar o oxigénio”, explica o produtor. A manga azul que atravessa o teto permite aquecer ou arrefecer o ambiente, consoante a necessidade baseada na temperatura registada, a tinta branca que reveste as paredes da adega é antibacteriana e o chão é revestido com resina epóxi. A água usada na adega vai para uma ETAR da propriedade e o teto foi desenhado de modo a reter a água da chuva, com destino a um depósito, disposto no exterior, que a encaminha diretamente para a vinha. Nas traseiras do edifício, estão os geradores de emergência e painéis solares.
Os 13 hectares de vinha são predominados por quatro castas francesas e uma portuguesa, a Moscatel Graúdo
Experiências no terreno
Ao lado da adega está o antigo picadeiro do mestre Nuno de Oliveira, em tempos, figura incontornável da cultura equestre portuguesa. O edifício foi igualmente recuperado por Rodolphe Antunes Bouquillard. No interior, os quadros da sua autoria emprestam o colorido às paredes brancas, enquanto a sala do estágio de barricas resulta de uma pequena mostra de um painel de azulejos do século XVIII. Do lado oposto a esta sala, está o armazém, destinado à rotulagem e armazenamento das garrafas. O engarrafamento é feito por intermédio de aluguer.
Em outro edifício está a loja. A abertura prevista para a época de estio deste ano. O teto é digno de contemplação, graças à mestria de Rodolphe Antunes Bouquillard. Em breve, o terraço deste espaço encher-se-á de apreciadores de vinho, que, em contrapartida receberão a oferta da vista para a Serra da Arrábida. Petiscos, queijos e enchidos protagonizarão tábuas que acompanharão os vinhos produzidos na acalmia da Quinta dos Arcos. “Aqui serão feitas as provas de vinho”, informa Christine Antunes ao abrir a porta. Já as provas premium estão pensadas para a mina de água da Quinta dos Arcos recuperada pelo produtor e arquiteto da propriedade. Os programas são complementados por visita à adega e vinha.
Em jeito de conclusão, Christine Antunes deixa uma nota: “vamos aguardar o sucesso com os vinhos. Depois, plantamos a Boal de Setúbal (tem a Sémillon como sinonímia) e alguma Chardonnay, que o senhor engenheiro António Saramago quer, e a Pinot Noir.” E ainda haverá espaço para fundar o centro destinado a pessoas com autismo. Até lá, contemos com dois espumantes no final deste ano da colheita de 2024, um Blanc de Blanc de Sauvignon Blanc e Moscatel Graúdo e um rosé de Cabernet Franc.
(Artigo publicado na edição de Junho de 2026)
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