Editorial da edição nrº 1112 (Agosto de 2026)
Tanto bate até que fura. A Negra Mole passou décadas a bater à porta do reconhecimento, até conseguir abrir caminho. Não por ser uma casta espampanante no copo, mas através do soft power que lhe é característico.
Lembro-me de, em 2012, durante umas férias em Vilamoura, ter procurado o vinho monovarietal de Negra Mole lançado pela Quinta João Clara, mas os sommeliers nos restaurantes e wine bars encolhiam os ombros: nunca tinham ouvido falar da casta. Acabei por encontrar uma garrafa, curiosamente, em Lisboa.
O reencontro com a Negra Mole aconteceu há alguns anos, num contexto algo sui generis: o Concurso Mundial de Bruxelas. Num flight de amostras surgiu um vinho que se destacava de imediato pela sua cor translúcida. No aroma e na boca era suave e delicado, com uma fruta deliciosa, mas num registo contido. Não exibia uma acidez particularmente elevada, mas não pecava por falta da frescura, apresentando um equilíbrio exemplar dentro deste perfil. Gostei muito do vinho. Percebi que se tratava de uma casta autóctone, mas a Negra Mole nem sequer me ocorreu. Qual não foi, por isso, o meu espanto quando consultei a listagem entregue aos jurados no final da sessão de provas e descobri que era a Negra Mole da Arvad!
Na minha recente incursão pelo Algarve, tive a oportunidade de provar mais vinhos desta casta e rendi-me definitivamente à sua personalidade.
A Negra Mole sempre existiu no Algarve, mas durante décadas esteve fora do seu tempo. Numa época em que se procuravam cor, concentração e músculo, não tinha como se afirmar. Pouco lhe valeu ser uma das castas mais antigas de Portugal; teve de esperar décadas para, finalmente, ser compreendida e valorizada. E, mesmo hoje, não reúne consenso entre os produtores, e, na verdade, a casta é tudo menos consensual.
Tem bagos grandes e soltos, com película fina e polpa mole – daí o nome. Uma das características mais singulares da Negra Mole é a sua heterogeneidade cromática. Ou seja, na mesma videira e, frequentemente, no mesmo cacho coexistem bagos de diferentes cores do negro-azulado ao rosado e ao quase branco, embora todos estejam fisiologicamente maduros. Um palhete feito no cacho!
Pelas suas características, a Negra Mole facilita o trabalho na elaboração de rosés, blanc de noirs ou espumantes, porque, mesmo que se distraia durante a maceração, não passa cor em excesso. Pessoalmente, prefiro-a na sua forma mais pura, como vinho tinto, porque mantém a leveza, mas com maior expressão de sabor e uma cor sem igual, que faz lembrar a toranja. É uma casta com um poder de atracção singular e uma força identitária que lhe permitem assumir o papel de porta-bandeira da região vitivinícola onde nasceu.
Vejam só, quando os importadores internacionais procuram os Chillable Red Wines, em Portugal foram reabilitados os palhetes e claretes, e os produtores procuram fórmulas e castas adequadas à produção de tintos mais leves e apetecíveis, que não exijam um bife ao lado, a Negra Mole surge como a resposta algarvia a esta tendência internacional. É talhada precisamente para este perfil e com um storytelling já feito, não é preciso inventar nada.
Com isto não quero dizer que o Algarve tem que se resumir à Negra Mole, mas espero que haja cada vez mais produtores a descobrir as diferentes facetas desta casta. E espero, daqui a uns anos, poder fazer uma grande prova dedicada exclusivamente à Negra Mole. (V.Z.)




