RESTAURANTE LAURENTINA: Onde o amigo continua fiel

É o caso do restaurante Laurentina – O Rei do Bacalhau, que acaba de comemorar o seu cinquentenário. O Laurentina será provavelmente o mais antigo restaurante de Lisboa em actividade dedicado ao bacalhau. Tudo começou quando  o então jovem António Pereira, natural do Fundão, com fortes raízes na Beira Baixa e com pouco mais de 20 anos, partiu para Moçambique onde, passado algum tempo, fundou um restaurante em Lourenço Marques (hoje Maputo). Ali desenvolveu durante duas dezenas de anos uma paixão pela gastronomia. Começou por aperfeiçoar a preparação do bacalhau, inspirando-se nas receitas da sua terra natal, com alguma influência dos sabores africanos. Quando, após a independência da ex-colónia, regressa à metrópole, em 1976, é natural que a opção fosse continuar a actividade, replicando e desenvolvendo o conceito que tinha criado.

Aparece assim, em Lisboa, já na Avenida Valbom, a poucos metros onde, hoje, se encontra o Laurentina. O nome é uma homenagem aos habitantes da capital moçambicana (os laurentinos), ao mesmo tempo que evocava a mais popular cerveja da terra. É quando se muda para a porta ao lado, com o n.º 71 A, em 1986, que assume orgulhosamente a designação “O Rei do Bacalhau”. Para além de assinalar uma evidência – o restaurante ganhou fama entre os clientes pela forma como o ‘fiel amigo’ era ali venerado –, a designação assume um compromisso sério de máximo respeito pela matéria-prima, procurando os melhores fornecedores e garantindo uma consistência que desafiou o tempo. Os filhos, actualmente, à frente do negócio, fazem questão de mostrar como as couves, o azeite, as batatas, as frutas, entre outros ingredientes, continuam a vir da Beira Baixa, honrando assim o legado do fundador.

Com a deterioração da saúde do Pai António, os filhos, Marco e Rita, assumem a direcção do restaurante por volta dos anos 2004/2005. Não lhes foi difícil o encargo, já que ali cresceram e desde pequenos ali comeram e praticamente viviam no dia-a-dia. Marco e Rita Pereira depressa perceberam que a melhor maneira de preservar a obra do Pai e a sua identidade é fazer evoluir o projecto. Sem nunca comprometerem a herança, respeitando receitas e saberes acumulados, foram introduzindo novos pratos e, sobretudo, remodelado totalmente o espaço. Quem entra no Laurentina não deixa de se sentir confortável, com a qualidade da amesendação, a simpatia do atendimento, a decoração clássica do espaço, em que as paredes com um jardim vertical emprestam uma sensação de frescura e sofisticação. O espaço é suficientemente amplo e diversificado para o cliente sentir-se à vontade. Com 60 lugares no rés-do-chão, 100 na cave a que se juntam mais 40 na frondosa esplanada, não faltam opções.

A oferta do menu é bastante ampla. Cobre algumas das mais populares receitas que eram esperadas num restaurante temático e também dispõe de alternativas em peixes frescos da costa, polvo, carnes e opções vegetarianas. Mas é de facto em torno do ‘fiel amigo’, aqui exclusivamente proveniente das águas frias e cristalinas da Islândia, que a ementa se desdobra em declinações tentadoras. Em recente visita, tivemos a oportunidade de provar as pataniscas, servidas como aperitivo, finas, de formato redondo, crocantes, secas de óleo e com bom equilíbrio entre massa, cebola, salsa e lascas. De segunda a sexta-feira, há pratos do dia com preços mais moderados (à volta de €18). O destaque vai, contudo, para os pratos de resistência que, na ocasião, tivemos oportunidade de experimentar. A saber:  O popular bacalhau à Brás, húmido quanto baste, com o ovo cremoso e envolvente e batata palha muito crocante feita na casa; o bacalhau alto assado (duas pessoas/€58), um posta do lombo de altura absolutamente descomunal, com batata a murro e verdura salteada; a couvada de bacalhau à Pereira da Laurentina (duas pessoas/€52), prato de assinatura e especialidade maior da casa, confeccionado à maneira da Beira, com produtos da região, em que as couves e batatas servem de cama a outra peça do lombo gigante, tudo envolvido dentro de um tacho de barro fumegante; e, não podia faltar, o arroz de bacalhau ao estilo malandrinho, bago carolino gordo e bem envolvido numa calda com espinafres e tomate. Há outras opções clássicas como o à Minhota, com broa, natas e espinafres, o lascado especial (preços médios a rondar os €25). Os sabores moçambicanos continuam presentes, com a moqueca de bacalhau (€26,50) e os camarões tigre à moçambicana (€45). Uma das inovações introduzidas recentemente foi uma carta de sobremesas ambiciosa e uma lista de vinhos bem adequada à oferta gastronómica.

 

Laurentina – O Rei do Bacalhau

Av. Conde de Valbom, 71 A, Lisboa

Tel.: 962 959 725 / 217 960 260

Horário: de Segunda-feira a Sábado, das 12h00 às 16h00 e das 19h00 às 23h00 Encerra: Domingos e feriados

Preço médio: €40

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