Quinta de Ventozelo voltou a vencer o Concurso Tomate Coração de Boi do Douro

tomate

A 11ª edição do Concurso Tomate Coração de Boi do Douro já tem um vencedor. Trata-se da Quinta de Ventozelo, que voltou a repetir o feito alcançado no ano passado. Esta conquista reforça a aposta da propriedade duriense na valorização do terroir, dos produtos locais e das tradições da região. A horta biológica de Ventozelo, espaço […]

A 11ª edição do Concurso Tomate Coração de Boi do Douro já tem um vencedor. Trata-se da Quinta de Ventozelo, que voltou a repetir o feito alcançado no ano passado. Esta conquista reforça a aposta da propriedade duriense na valorização do terroir, dos produtos locais e das tradições da região.

A horta biológica de Ventozelo, espaço que está sob a coordenação da equipa agrícola da Quinta de Ventozelo, liderada por Tiago Maia, “beneficia de condições excepcionais para o cultivo deste fruto e conta com o cuidado diário de profissionais que garantem que o tomate chega à cozinha no seu melhor momento”, declara, em comunicado, José Guedes, Chef responsável pelo restaurante Cantina, do Ventozelo Hotel & Quinta.

Por sua vez, João Gonçalves, Presidente da Comunidade Intermunicipal do Douro (CIM Douro), reconheceu que a certificação do TCBD “é um caminho que é preciso percorrer”, lembrando que o envolvimento desta entidade neste projeto “traduz a vontade” manifestada pelos 19 municípios de criar mais valor no Douro.

Além da Quinta de Ventozelo, o júri, presidido por Francisco Pavão, nome de referência na promoção de produtos do território do Douro e Trás-os-Montes, nomeou a Quinta de Medim (2º lugar) e a Quinta do Crasto (3º lugar). A selecção dos vencedores foi feita com base em critérios, como aroma, sabor, textura e harmonia.

 

Já temos Master of Wine!

tiago macena

Tiago Macena é o primeiro português a tornar-se Master of Wine, título atribuído pelo Institute of Masters of Wine, uma das mais prestigiadas e superlativas qualificações profissionais internacionais do mundo do vinho. Para o sector vitivinícola nacional é considerado um marco importante, na medida em que reforça a presença de profissionais portugueses nos principais circuitos […]

Tiago Macena é o primeiro português a tornar-se Master of Wine, título atribuído pelo Institute of Masters of Wine, uma das mais prestigiadas e superlativas qualificações profissionais internacionais do mundo do vinho. Para o sector vitivinícola nacional é considerado um marco importante, na medida em que reforça a presença de profissionais portugueses nos principais circuitos internacionais de conhecimento, avaliação e comunicação de vinho.

Recordamos que o enólogo Tiago Macena iniciou o percurso no Institute of Masters of Wine em 2012, retomando os estudos em 2017, contando, durante parte deste processo, com a orientação brasileiro Dirceu Vianna Junior MW. Ciente do impacto que a existência de um Master of Wine português poderia ter na projeção internacional do sector, a ViniPortugal acompanhou e apoiou Tiago Macena, que, em 2023, se tornou o primeiro português a superar a componente prática do exame final.

Paralelamente, nos últimos anos, Tiago Macena tem colaborado em iniciativas da Wines of Portugal em diferentes mercados, através de provas comentadas, acções dirigidas a profissionais e actividades de formação dedicadas aos vinhos portugueses, bem como enquanto jurado do Concurso Vinhos de Portugal.

Frederico Falcão, Presidente da ViniPortugal, declarou em comunicado que “o conhecimento, a credibilidade e a rede internacional associados ao título podem contribuir para aumentar o reconhecimento dos nossos vinhos e para promover a diversidade das regiões, das castas e dos produtores portugueses a públicos profissionais cada vez mais qualificados”, acrescentando o seguinte: “este resultado tem também um significado importante para uma nova geração de profissionais portugueses. Demonstra que existe, em Portugal, conhecimento técnico, experiência e capacidade para alcançar os níveis de exigência mais elevados do sector internacional do vinho. Esperamos que este percurso incentive outros profissionais a procurar qualificações desta natureza”.

Licenciado em Engenharia Agronómica pelo Instituto Superior de Agronomia, com especialização em Viticultura e Enologia, Tiago Macena desenvolveu a sua carreira como enólogo e consultor, com actividade em diferentes regiões vitivinícolas portuguesas. Com o intuito de aprofundar conhecimento, apostou ainda na componente de formação, comunicação e apresentação dos vinhos portugueses em Portugal e no estrangeiro. A obtenção deste título permite a Tiago Macena integrar oficialmente o Institute of Masters of Wine e utilizar a designação Tiago Macena MW.

Trafaria (Com) Prova está de volta dias 4, 5 e 6 de Setembro

trafaria

Trafaria (com) Prova está de regresso para três dias de festa com degustação de vinhos e petiscos, provas de vinho comentadas, visitas guiadas ao centro histórico e animação de rua no passeio ribeirinho da Trafaria. 4,5 e 6 de Setembro – Entrada livre com opção de compra de copo de degustação por 5€ Exposição e degustação […]

Trafaria (com) Prova está de regresso para três dias de festa com degustação de vinhos e petiscos, provas de vinho comentadas, visitas guiadas ao centro histórico e animação de rua no passeio ribeirinho da Trafaria.

4,5 e 6 de Setembro – Entrada livre com opção de compra de copo de degustação por 5€

Exposição e degustação de vinhos | degustação de tapas e petiscos | espaço cultural e exposições | animação de rua | DJ

Com a presença de empresas produtoras de vinhos representativas do melhor da produção nacional e de restaurantes locais, com oferta de pequenos pratos de petiscos, de acordo com o receituário habitual da casa.

Provas comentadas e gratuitas (mediante inscrição em: inscricoes@grandesescolhas.com) por críticos da revista Grandes Escolhas.

trafaria 2026

Crónica: O Douro em brancos a chamar por nós

douro

Em Murça, estamos em terras de brancos. Por aqui, são eles que marcam o compasso dos dias. Isso é claramente uma virtude numa época em que a tendência aponta mais para este tipo de vinhos. Daí a importância crescente do evento Brancos na Praça, que teve este ano a 4ª edição. Não será fácil dividir […]

Em Murça, estamos em terras de brancos. Por aqui, são eles que marcam o compasso dos dias. Isso é claramente uma virtude numa época em que a tendência aponta mais para este tipo de vinhos. Daí a importância crescente do evento Brancos na Praça, que teve este ano a 4ª edição.

Não será fácil dividir o Douro em zonas estanques, do tipo aqui brancos, ali tintos, aqui Touriga Francesa, acolá Rabigato. Ainda assim, começa a fazer sentido falar de áreas onde algumas castas e alguns tipos de vinho ganham mais preponderância. Isso é visível quer em zonas especialmente vocacionadas para produzir certos tipos de vinho do Porto, como o Cima Corgo, quer em áreas onde os brancos se dão especialmente bem. Historicamente, sabemos que a região sempre produziu muita uva branca que se destinava ao Porto branco, mas a História também nos disse que esse tipo de Porto nunca foi devidamente valorizado, uma vez que preenchia objectivos simples, destinando-se a ser servido como aperitivo, algo muito valorizado pelo mercado francês, por exemplo. Mas os tempos mudaram e a região, que nasceu para os DOC Douro, muito associada aos vinhos feitos com as uvas que não preenchiam o benefício, foi, aos poucos, descobrindo que as mesmas uvas brancas usadas para fazer o simples Porto branco, afinal também poderiam originar vinhos de muito boa qualidade. Foi assim que, em meados dos anos 90, várias empresas de Vinho do Porto se abalançaram a fazer vinhos brancos, secos e cheios de personalidade, com técnicas até então pouco ou nada utilizadas, como a fermentação em barrica, o estágio também em madeira, descobrindo virtudes em castas até então menosprezadas.

 

Varietais de Arinto no Douro são raros. Este é particularmente aromático na boca. A colheita anterior parece ter evoluído rapidamente

 

Uma nova febre tomou conta da região e os brancos começaram a surgir como se, até aí, estivessem escondidos debaixo das pedras. A febre não foi passageira e veio para ficar; e, hoje, o número de marcas e de produtores que se interessam pelos brancos não cessa de aumentar. Foi neste quadro de busca das melhores zonas e parcelas mais originais que Murça emergiu como zona com condições perfeitas para a produção de vinhos brancos: localização que joga com a altitude e o clima mais ameno, boa quantidade de vinhas velhas de castas misturadas (que continua a ser o maná para os grandes vinhos) e boa disponibilidade de uvas. Não tardou que vários produtores se começassem a interessar por Murça, vindo aqui comprar uvas para elaborarem os seus melhores lotes.

E foi do interesse dos produtores pela região e do empenho da Câmara Municipal que nasceu o evento Brancos na Praça, totalmente dedicado aos vinhos brancos e a que responderam quer os produtores locais, quer as empresas que nesta zona também se abastecem de uvas. O evento vai na 4ª edição e decorreu a 29 e 30 de Maio últimos.

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Um dos pontos de interesse do certame são duas provas de vinhos brancos orientadas pelo autor destas linhas. Com uma assistência (mediante inscrição) que tem crescido em número todos os anos, organizam-se duas provas de brancos: uma de vinhos de Douro/Murça versus grandes vinhos do mundo e outra, mais específica, de brancos de Murça versus brancos originais do resto do país. Mas o certame não se esgota nestas provas: há um workshop sobre azeites de Murça (Francisco Vilela) e há percursos comentados nos vários stands orientados por Teresa Gomes. O espaço, desta vez bem mais amplo, acolheu uma população muito interessada, que também pôde comprar vinhos, algo sempre muito apelativo para os consumidores.

Murça está a fazer o seu trabalho, procurando o reconhecimento da valia dos seus vinhos no conjunto dos brancos do Douro. Tal reconhecimento não pode deixar de passar pela valorização do preço das uvas. Não há meio termo. Essa é a condição sine qua non para que o prestígio do vinho tenha correspondência na valorização do trabalho e na qualidade de vida de quem o produz. E a resposta-refúgio que muitas vezes se ouve a quem compra uvas, tipo “estou a pagar acima do preço do mercado”, não é suficiente, uma vez que no Douro se pagam as uvas a preços que não compensam o granjeio. A frase não é “pagar acima”, é pagar três ou quatro vezes o preço habitual do mercado. E quem começar a fazer isso vai perceber que a concorrência não poderá deixar de acompanhar a tendência. E, a ser assim, até se percebe melhor que as garrafas dos grandes brancos de Murça custem 100 ou mais euros. De outra forma, é um pouco escandaloso, convenhamos. (JPM)

Quinta do Crasto abre as portas para uma série de jantares vínicos exclusivos

quinta do crasto

A Quinta do Crasto decidiu abrir as portas da sua casa para uma experiência vínica exclusiva, reservada a um número muito restrito de convidados que a queiram descobrir por inteiro. Numa série de apenas três jantares vínicos, conduzidos por quem todos os dias contribui para escrever a história desta propriedade, os participantes terão a oportunidade […]

A Quinta do Crasto decidiu abrir as portas da sua casa para uma experiência vínica exclusiva, reservada a um número muito restrito de convidados que a queiram descobrir por inteiro.

Numa série de apenas três jantares vínicos, conduzidos por quem todos os dias contribui para escrever a história desta propriedade, os participantes terão a oportunidade de conhecer as pessoas e a visão que deram origem a alguns dos vinhos mais emblemáticos da Quinta do Crasto.

O jantar de harmonização, irá juntar à mesa membros da família Roquette e das equipas de viticultura, enologia e enoturismo, para partilhar memórias e curiosidades.

A primeira edição acontece já no dia 20 de Agosto, com um menu cuidadosamente elaborado para harmonizar com uma seleção de vinhos do Douro e do Porto, que incluem algumas das referências mais conhecidas da Quinta do Crasto e também colheitas especiais. O menu e as harmonizações mudam em todas as datas, tornando cada experiência única.

quinta do crasto

À mesa, com os convidados, estarão Miguel Roquette, administrador da Quinta do Crasto, Tiago Nogueira, responsável pela viticultura, Cátia Barbeta, enóloga, e Gilberto Rodrigues, diretor de turismo, para apresentar cada um dos vinhos e abrir caminho a perguntas, comentários e reflexões.

Tudo isto acontece na casa de família e o terraço panorâmico, debruçado sobre o vale do Douro, numa atmosfera descontraída, onde o vinho, a gastronomia e o ambiente de partilha que naturalmente se cria à volta da mesa dão origem a conversas informais sobre o Douro, a filosofia da Quinta do Crasto e a responsabilidade – mas também o privilégio – de produzir vinho numa paisagem classificada como Património Mundial pela UNESCO.

Os jantares vínicos repetem-se nos dias 24 de Setembro e 22 de Outubro, sempre com menus distintos e diferentes convidados da equipa da Quinta do Crasto, permitindo aos participantes descobrir novas histórias, novos vinhos e diferentes perspetivas sobre a propriedade. Para garantir o ambiente intimista que se pretende, as sessões estão limitadas a 20 pessoas.

Cada jantar tem o custo de 175€ por pessoa e para participar é necessária marcação prévia, que pode ser feita através do e-mail enoturismo@quintadocrasto.pt ou do contacto telefónico +351 937 760 572. Para saber mais sobre a Quinta do Crasto e os seus vinhos, consultar www.quintadocrasto.wine ou www.heritagewines.pt.

RESTAURANTE LAURENTINA: Onde o amigo continua fiel

Laurentina

É o caso do restaurante Laurentina – O Rei do Bacalhau, que acaba de comemorar o seu cinquentenário. O Laurentina será provavelmente o mais antigo restaurante de Lisboa em actividade dedicado ao bacalhau. Tudo começou quando  o então jovem António Pereira, natural do Fundão, com fortes raízes na Beira Baixa e com pouco mais de […]

É o caso do restaurante Laurentina – O Rei do Bacalhau, que acaba de comemorar o seu cinquentenário. O Laurentina será provavelmente o mais antigo restaurante de Lisboa em actividade dedicado ao bacalhau. Tudo começou quando  o então jovem António Pereira, natural do Fundão, com fortes raízes na Beira Baixa e com pouco mais de 20 anos, partiu para Moçambique onde, passado algum tempo, fundou um restaurante em Lourenço Marques (hoje Maputo). Ali desenvolveu durante duas dezenas de anos uma paixão pela gastronomia. Começou por aperfeiçoar a preparação do bacalhau, inspirando-se nas receitas da sua terra natal, com alguma influência dos sabores africanos. Quando, após a independência da ex-colónia, regressa à metrópole, em 1976, é natural que a opção fosse continuar a actividade, replicando e desenvolvendo o conceito que tinha criado.

Aparece assim, em Lisboa, já na Avenida Valbom, a poucos metros onde, hoje, se encontra o Laurentina. O nome é uma homenagem aos habitantes da capital moçambicana (os laurentinos), ao mesmo tempo que evocava a mais popular cerveja da terra. É quando se muda para a porta ao lado, com o n.º 71 A, em 1986, que assume orgulhosamente a designação “O Rei do Bacalhau”. Para além de assinalar uma evidência – o restaurante ganhou fama entre os clientes pela forma como o ‘fiel amigo’ era ali venerado –, a designação assume um compromisso sério de máximo respeito pela matéria-prima, procurando os melhores fornecedores e garantindo uma consistência que desafiou o tempo. Os filhos, actualmente, à frente do negócio, fazem questão de mostrar como as couves, o azeite, as batatas, as frutas, entre outros ingredientes, continuam a vir da Beira Baixa, honrando assim o legado do fundador.

Com a deterioração da saúde do Pai António, os filhos, Marco e Rita, assumem a direcção do restaurante por volta dos anos 2004/2005. Não lhes foi difícil o encargo, já que ali cresceram e desde pequenos ali comeram e praticamente viviam no dia-a-dia. Marco e Rita Pereira depressa perceberam que a melhor maneira de preservar a obra do Pai e a sua identidade é fazer evoluir o projecto. Sem nunca comprometerem a herança, respeitando receitas e saberes acumulados, foram introduzindo novos pratos e, sobretudo, remodelado totalmente o espaço. Quem entra no Laurentina não deixa de se sentir confortável, com a qualidade da amesendação, a simpatia do atendimento, a decoração clássica do espaço, em que as paredes com um jardim vertical emprestam uma sensação de frescura e sofisticação. O espaço é suficientemente amplo e diversificado para o cliente sentir-se à vontade. Com 60 lugares no rés-do-chão, 100 na cave a que se juntam mais 40 na frondosa esplanada, não faltam opções.

A oferta do menu é bastante ampla. Cobre algumas das mais populares receitas que eram esperadas num restaurante temático e também dispõe de alternativas em peixes frescos da costa, polvo, carnes e opções vegetarianas. Mas é de facto em torno do ‘fiel amigo’, aqui exclusivamente proveniente das águas frias e cristalinas da Islândia, que a ementa se desdobra em declinações tentadoras. Em recente visita, tivemos a oportunidade de provar as pataniscas, servidas como aperitivo, finas, de formato redondo, crocantes, secas de óleo e com bom equilíbrio entre massa, cebola, salsa e lascas. De segunda a sexta-feira, há pratos do dia com preços mais moderados (à volta de €18). O destaque vai, contudo, para os pratos de resistência que, na ocasião, tivemos oportunidade de experimentar. A saber:  O popular bacalhau à Brás, húmido quanto baste, com o ovo cremoso e envolvente e batata palha muito crocante feita na casa; o bacalhau alto assado (duas pessoas/€58), um posta do lombo de altura absolutamente descomunal, com batata a murro e verdura salteada; a couvada de bacalhau à Pereira da Laurentina (duas pessoas/€52), prato de assinatura e especialidade maior da casa, confeccionado à maneira da Beira, com produtos da região, em que as couves e batatas servem de cama a outra peça do lombo gigante, tudo envolvido dentro de um tacho de barro fumegante; e, não podia faltar, o arroz de bacalhau ao estilo malandrinho, bago carolino gordo e bem envolvido numa calda com espinafres e tomate. Há outras opções clássicas como o à Minhota, com broa, natas e espinafres, o lascado especial (preços médios a rondar os €25). Os sabores moçambicanos continuam presentes, com a moqueca de bacalhau (€26,50) e os camarões tigre à moçambicana (€45). Uma das inovações introduzidas recentemente foi uma carta de sobremesas ambiciosa e uma lista de vinhos bem adequada à oferta gastronómica.

 

Laurentina – O Rei do Bacalhau

Av. Conde de Valbom, 71 A, Lisboa

Tel.: 962 959 725 / 217 960 260

Horário: de Segunda-feira a Sábado, das 12h00 às 16h00 e das 19h00 às 23h00 Encerra: Domingos e feriados

Preço médio: €40

Editorial: Negra Mole em pedra dura

Editorial

Editorial da edição nrº 1112 (Agosto de 2026) Tanto bate até que fura. A Negra Mole passou décadas a bater à porta do reconhecimento, até conseguir abrir caminho. Não por ser uma casta espampanante no copo, mas através do soft power que lhe é característico. Lembro-me de, em 2012, durante umas férias em Vilamoura, ter […]

Editorial da edição nrº 1112 (Agosto de 2026)

Tanto bate até que fura. A Negra Mole passou décadas a bater à porta do reconhecimento, até conseguir abrir caminho. Não por ser uma casta espampanante no copo, mas através do soft power que lhe é característico.

Lembro-me de, em 2012, durante umas férias em Vilamoura, ter procurado o vinho monovarietal de Negra Mole lançado pela Quinta João Clara, mas os sommeliers nos restaurantes e wine bars encolhiam os ombros: nunca tinham ouvido falar da casta. Acabei por encontrar uma garrafa, curiosamente, em Lisboa.

O reencontro com a Negra Mole aconteceu há alguns anos, num contexto algo sui generis: o Concurso Mundial de Bruxelas. Num flight de amostras surgiu um vinho que se destacava de imediato pela sua cor translúcida. No aroma e na boca era suave e delicado, com uma fruta deliciosa, mas num registo contido. Não exibia uma acidez particularmente elevada, mas não pecava por falta da frescura, apresentando um equilíbrio exemplar dentro deste perfil. Gostei muito do vinho. Percebi que se tratava de uma casta autóctone, mas a Negra Mole nem sequer me ocorreu. Qual não foi, por isso, o meu espanto quando consultei a listagem entregue aos jurados no final da sessão de provas e descobri que era a Negra Mole da Arvad!

Na minha recente incursão pelo Algarve, tive a oportunidade de provar mais vinhos desta casta e rendi-me definitivamente à sua personalidade.

A Negra Mole sempre existiu no Algarve, mas durante décadas esteve fora do seu tempo. Numa época em que se procuravam cor, concentração e músculo, não tinha como se afirmar. Pouco lhe valeu ser uma das castas mais antigas de Portugal; teve de esperar décadas para, finalmente, ser compreendida e valorizada. E, mesmo hoje, não reúne consenso entre os produtores, e, na verdade, a casta é tudo menos consensual.

Tem bagos grandes e soltos, com película fina e polpa mole – daí o nome. Uma das características mais singulares da Negra Mole é a sua heterogeneidade cromática. Ou seja, na mesma videira e, frequentemente, no mesmo cacho coexistem bagos de diferentes cores do negro-azulado ao rosado e ao quase branco, embora todos estejam fisiologicamente maduros. Um palhete feito no cacho!

Pelas suas características, a Negra Mole facilita o trabalho na elaboração de rosés, blanc de noirs ou espumantes, porque, mesmo que se distraia durante a maceração, não passa cor em excesso. Pessoalmente, prefiro-a na sua forma mais pura, como vinho tinto, porque mantém a leveza, mas com maior expressão de sabor e uma cor sem igual, que faz lembrar a toranja. É uma casta com um poder de atracção singular e uma força identitária que lhe permitem assumir o papel de porta-bandeira da região vitivinícola onde nasceu.

Vejam só, quando os importadores internacionais procuram os Chillable Red Wines, em Portugal foram reabilitados os palhetes e claretes, e os produtores procuram fórmulas e castas adequadas à produção de tintos mais leves e apetecíveis, que não exijam um bife ao lado, a Negra Mole surge como a resposta algarvia a esta tendência internacional. É talhada precisamente para este perfil e com um storytelling já feito, não é preciso inventar nada.

Com isto não quero dizer que o Algarve tem que se resumir à Negra Mole, mas espero que haja cada vez mais produtores a descobrir as diferentes facetas desta casta. E espero, daqui a uns anos, poder fazer uma grande prova dedicada exclusivamente à Negra Mole. (V.Z.)

CONVERSAS A COPO: Maria João Vieira Pinto

O que marca uma marca de vinho? Marca a diferença, a ousadia, o não ser de ‘fórmula’, em que o perfil não muda ano após ano, apesar da muita chuva ou do sol a pique. Acha que construir uma marca de vinho é mais desafiante do que construir marcas noutros sectores? De todo. A criação, […]

O que marca uma marca de vinho?

Marca a diferença, a ousadia, o não ser de ‘fórmula’, em que o perfil não muda ano após ano, apesar da muita chuva ou do sol a pique.

Acha que construir uma marca de vinho é mais desafiante do que construir marcas noutros sectores?

De todo. A criação, lançamento e construção de uma marca é um desafio gigante, seja em que sector for. Claro que em mercados mais saturados e pulverizados, como é o dos vinhos em Portugal – com centenas de marcas em todas as regiões –, o trabalho fica redobrado. Mas uma marca é uma marca, um ecossistema onde o produto, o preço, a distribuição e comunicação se encaixam para chegar a um público e, no final, ganhar o seu espaço, a sua quota.

O vinho é talvez um dos produtos onde emoção, território e marca coexistem de forma particularmente forte. Enquanto observadora do universo do marketing, como vê hoje a construção das marcas de vinho em Portugal?

É incontável o actual número de marcas de vinhos portugueses, em todas as regiões, e que só é um bom reflexo de um mercado dinâmico. Mas, a verdade é que o espaço é curto para tantas. A exportação é uma das vias para a sobrevivência ou, claro, a construção de marca. E têm sido várias as que têm feito um bom caminho, sendo que nunca bastará ter uma marca forte. É preciso presença na distribuição e no HoReCa, assim como comunicação contínua e alinhada. Olhando para os últimos anos, acho mesmo que as marcas portuguesas, neste sector, têm vindo a fazer um belo trabalho.

Um vinho precisa sobretudo de ser bom… ou de contar uma boa história?

É como tudo, lá está. Já não basta que o hotel seja bom, mas que tenha uma narrativa, já não chega que o restaurante seja de topo, se, no final, não resultar numa experiência… Isto é o que o mercado tem vindo a dizer, sendo que, no final, vale o que vale. Em relação à pergunta, um vinho deveria ser – antes de tudo – bom. Mas há muitos exemplos no mercado que têm vindo a afirmar-se e a crescer em pouco tempo, a contar histórias reais ou não. Uma boa história vende. E, nos vinhos, há sempre belas histórias para contar, basta saber procurá-las e saber partilhá-las. Ou seja, um bom vinho vende per si, desde que a crítica o diga. Mas uma história, às vezes, ajuda a vender mais depressa o produto.

Marca presença em lançamentos e provas vínicas. Recorda-se de algum vinho ou de momento vínico que a tenha marcado particularmente? E porquê?

Por acaso recordo um momento, bem simples, mas que mantenho na memória, porque me permitiu perceber o vinho em causa e o seu potencial. Há uns anos, numa apresentação do Invisivel (o branco de uvas tintas), da Ervideira, casou-se o vinho a diferentes temperaturas – desde gelado ao seu estado normal – com diferentes pratos, entre sushi, peixe mais temperado e carne. Ao mostrar a plasticidade do vinho, este momento simples, mas prático, fez-me entendê-lo muito melhor do que, por vezes, algumas longas dissertações sobre acidez e leveduras.

Se pudesse deixar um conselho às marcas de vinho portuguesas sobre comunicação e relevância futuras, qual seria?

É tão difícil dar conselhos, quando se está de fora. O Dirk [Niepoort] costuma dizer que não se deve ter medo de arriscar. Eu sublinho e acredito, mesmo, que quando se quer ser uma marca no vinho não há erros, há aprendizagens. É essencial sair do conforto, acreditar que é na diferença que se ganha e que fazer mais do mesmo ou igual aos outros é só uma estratégia a curto prazo. Depois, comunicação contínua, para vários públicos, e formação desses mesmos públicos.

(Artigo publicado na edição de Julho de 2026)