Rumo a um futuro melhor

[vc_row type=”in_container” full_screen_row_position=”middle” scene_position=”center” text_color=”dark” text_align=”left” overlay_strength=”0.3″ shape_divider_position=”bottom”][vc_column column_padding=”no-extra-padding” column_padding_position=”all” background_color_opacity=”1″ background_hover_color_opacity=”1″ column_shadow=”none” column_border_radius=”none” width=”1/1″ tablet_text_alignment=”default” phone_text_alignment=”default” column_border_width=”none” column_border_style=”solid”][vc_column_text]A Beira Interior é uma região com múltiplas facetas na produção de vinho. Mas uma grande força vai-se mantendo, que é o domínio das cooperativas na produção de vinho. A Cooperativa Beira Serra é das mais pequenas […]

[vc_row type=”in_container” full_screen_row_position=”middle” scene_position=”center” text_color=”dark” text_align=”left” overlay_strength=”0.3″ shape_divider_position=”bottom”][vc_column column_padding=”no-extra-padding” column_padding_position=”all” background_color_opacity=”1″ background_hover_color_opacity=”1″ column_shadow=”none” column_border_radius=”none” width=”1/1″ tablet_text_alignment=”default” phone_text_alignment=”default” column_border_width=”none” column_border_style=”solid”][vc_column_text]A Beira Interior é uma região com múltiplas facetas na produção de vinho. Mas uma grande força vai-se mantendo, que é o domínio das cooperativas na produção de vinho. A Cooperativa Beira Serra é das mais pequenas e há alguns anos alterou um rumo que perdurava há décadas. E em boa hora o fez…

TEXTO António Falcão
FOTOS Ricardo Gomez

Rumamos a Vila Franca das Naves, povoação do concelho de Trancoso, distrito da Guarda. Esta¬mos a norte do enorme Parque Natural da Serra da Estrela, que engloba a mais alta serra de Portugal Continental, mas, curiosamente, aqui o terreno nem sequer é montanhoso. Estamos numa espécie de planalto – mas, para que não existam dúvidas, o nosso altímetro ronda quase sempre os 550 metros. Paisagem tipicamente agrícola, com pequenas vinhas espalhadas um pouco por todo o lado, alguma floresta e muito granito à vista. Mesmo muito. Terras pobres, portanto. Enfim, nada que seja estranho à região da Beira Interior, que a sul, na Beira Baixa, encosta ao Alto Alentejo, e a Norte, junto a Figueira de Castelo Rodrigo, se aproxima do Douro. O Dão está a sul, também muito perto, especialmente das zonas vitícolas encostadas à Serra da Estrela. Gouveia, por exemplo, está a menos de 40 quilómetros em linha recta.
Não é preciso perguntar a ninguém do local para adivinhar que estas são terras de clima fresco, mas seco, que provocam maturações lentas. E é exactamente isso que nos diz João Guerra: “já cheguei a vindimar a 20 de Outubro (a casta Touriga Nacional). Nós somos os últimos a vindimar na região”. João Guerra tem vinhas a mais de 700 metros de altitude. Médico de família local, João Guerra é o presidente da Beira Serra Vinhos, o nome comercial da Cooperativa Beira Serra (beiraserravinhos.pt), que lhe dá um toque mais sofisticado e, ao mes¬mo tempo, indica a proximidade à Serra da Estrela, e, porque não, a vizinhança às serras da Marofa e Malcata[/vc_column_text][/vc_column][/vc_row][vc_row type=”in_container” full_screen_row_position=”middle” scene_position=”center” text_color=”dark” text_align=”left” overlay_strength=”0.3″ shape_divider_position=”bottom”][vc_column column_padding=”no-extra-padding” column_padding_position=”all” background_color_opacity=”1″ background_hover_color_opacity=”1″ column_shadow=”none” column_border_radius=”none” width=”1/1″ tablet_text_alignment=”default” phone_text_alignment=”default” column_border_width=”none” column_border_style=”solid”][image_with_animation image_url=”40418″ alignment=”” animation=”Fade In” border_radius=”none” box_shadow=”none” max_width=”100%”][/vc_column][/vc_row][vc_row type=”in_container” full_screen_row_position=”middle” scene_position=”center” text_color=”dark” text_align=”left” overlay_strength=”0.3″ shape_divider_position=”bottom”][vc_column column_padding=”no-extra-padding” column_padding_position=”all” background_color_opacity=”1″ background_hover_color_opacity=”1″ column_shadow=”none” column_border_radius=”none” width=”1/1″ tablet_text_alignment=”default” phone_text_alignment=”default” column_border_width=”none” column_border_style=”solid”][vc_column_text]UMA ADEGA COM 63 ANOS DE IDADE
A adega nasceu em 1956 mas até 2000, mais ou menos, viveu sobretudo do vinho a granel. Tinha grandes clientes e Joaquim Gamboa, o director executivo da casa, ainda se lembra de ouvir falar desses tempos: “toda a gente nos vinha comprar vinho branco e rosé. O Mateus Rosé, por exemplo, chegou a sair daqui já em garrafa. E saía muito vinho para espumantes, também”. A estratégia foi funcionando durante várias décadas, mas não deixou a adega rica. Entretanto, mudanças nos mercados e a concorrência de produtores mais poderosos, como a vizinha adega de Pinhel, por exemplo, com quase 20 milhões de litros (uma das maiores do país), ditou mudanças de estratégia no início do século. Diz Joaquim Gamboa que “a partir de 2000, as direcções entenderam começar a engarrafar algum”. Ao que parece, este vinho ia-se venden¬do, mas sem grandes resultados. Joaquim Gamboa fala da falta de notoriedade nas marcas e pouca agressividade comercial. Já no final da década, os associados votaram numa nova direcção e entraram Joaquim Gamboa, João Guerra e Jorge Lucas. Corria o ano de 2013.
Os três directores são associados da cooperativa, mas Joaquim Gamboa, que passou cerca de 40 anos em Lisboa e chegou a ter uma garrafeira na capital (Culto do Vinho), arrancou, entretanto, uma parte da vinha que herdou. Pouco percebia de agricultura e o pai, ainda nestas terras, foi o principal ‘responsável’: “isto não é vida para vocês”, dizia ele enquanto o enxotava das tarefas do campo. Mas Gamboa regressou a Vila Franca das Naves e é aqui que é feliz. Uma das vinhas sobreviventes tem provavelmente mais de um século.[/vc_column_text][/vc_column][/vc_row][vc_row type=”in_container” full_screen_row_position=”middle” scene_position=”center” text_color=”dark” text_align=”left” overlay_strength=”0.3″ shape_divider_position=”bottom”][vc_column column_padding=”no-extra-padding” column_padding_position=”all” background_color_opacity=”1″ background_hover_color_opacity=”1″ column_shadow=”none” column_border_radius=”none” width=”1/2″ tablet_text_alignment=”default” phone_text_alignment=”default” column_border_width=”none” column_border_style=”solid”][vc_column_text]UMA NOVA ERA COMEÇA EM 2013
Corria 2013 e a nova direcção decide gerir a cooperativa como uma empresa. Sabendo que o mercado de granel tinha os dias contados, começa a apostar cada vez mais no vinho engarrafado (ou em bag in box). E decide voltar-se cada vez mais para a qualidade.
Joaquim recorda: “Mudámos rótulos, mudámos garrafas, alterámos a imagem da cooperativa. Tomámos iniciativas de marketing e promoção dos vinhos, investimos muito em feiras, mas apenas no mercado nacional. Mas sabe¬mos que promover marcas leva anos…”
As mudanças não ficaram por aqui. “As coisas estavam muito degradadas quando entrámos”, diz João Guerra. A direcção decide por isso investir na área técnica, tanto na fermentação como no armazenamento. Por exemplo, os antigos depósitos de cimento foram revestidos a epoxy e levaram placas de frio. Este ano comprou-se uma linha de engarrafamento. Tudo a pouco e pouco, porque o dinheiro é escasso.
A estratégia passou ainda pelos recursos humanos. Houve um melhor aproveitamento do enólogo consultor Carlos Silva, que já exercia aqui há uns anos. Carlos, na altura da equipa da Vines & Wines, trabalha sobretudo na vizinha região do Dão e é um técnico tão à vontade com grandes volumes como em pequenas tiragens de vinhos de quinta. Para o ajudar na adega está Artur Figueiredo, o enólogo residente. Esta dupla, com os novos equipamentos, tem conseguido tirar melhor partido das uvas que chegam todos os anos à adega de Vila Franca das Naves. Ou seja, a qualidade média dos vinhos foi melhorando. Mas há ainda muita margem para crescer…[/vc_column_text][/vc_column][vc_column column_padding=”no-extra-padding” column_padding_position=”all” background_color_opacity=”1″ background_hover_color_opacity=”1″ column_shadow=”none” column_border_radius=”none” width=”1/2″ tablet_text_alignment=”default” phone_text_alignment=”default” column_border_width=”none” column_border_style=”solid”][divider line_type=”No Line” custom_height=”30″][divider line_type=”No Line” custom_height=”30″][image_with_animation image_url=”40420″ alignment=”” animation=”Fade In” border_radius=”none” box_shadow=”none” max_width=”100%”][/vc_column][/vc_row][vc_row type=”in_container” full_screen_row_position=”middle” scene_position=”center” text_color=”dark” text_align=”left” overlay_strength=”0.3″ shape_divider_position=”bottom”][vc_column column_padding=”no-extra-padding” column_padding_position=”all” background_color_opacity=”1″ background_hover_color_opacity=”1″ column_shadow=”none” column_border_radius=”none” width=”1/1″ tablet_text_alignment=”default” phone_text_alignment=”default” column_border_width=”none” column_border_style=”solid”][vc_column_text]UMA QUESTÃO DE NOTORIEDADE
O passado negro começa a ficar para trás, mas a Beira Serra Vinhos enfrenta diversos desafios importantes para o futuro próximo. O primeiro é criar maior notoriedade nas suas marcas de topo da casa: Fora de Jogo, Boa Pergunta e Óptima Pergunta. João Guerra – na altura na Assembleia Geral (órgão não executivo) – assistiu à origem destes exóticos nomes. O primeiro surgiu por um mau motivo: por questões legais e desleixo, a empresa perdeu a marca Vilas Francas, forte na altura, e alguém disse que estavam agora “Fora de Jogo” no mercado. Nas discussões à volta destes temas, alguém colocou uma questão pertinente e surgiu o comentário: “essa é uma boa pergunta”. “Boa pergunta?” para aqui e para ali, e logo ali se decidiu avançar com a marca, que chamava a atenção. Daí até passar para o Óptima Pergunta foi um pequeno passo, dentro do mesmo conceito, uma espécie de ‘upgrade’ e o vinho mais caro da casa.
O outro grande desafio tem mais a ver com a demografia que com o negócio. De facto, poucas regiões sofrerão os custos da interioridade como esta: a maioria da população está envelhecida e não se sabe quantos serão os viticultores que estarão em condições de tratar dos vinhedos da região. Na realidade, são cerca de 400 os associados que entregam uva na Beira Serra, com data programada e geralmente por castas. Mas inscritos estão cerca de um milhar. “Como o cadastro não foi actualizado, mui¬tos sócios morreram, entretanto, ou arrancaram a vinha, ou saíram da região”, diz Gamboa. O panorama actual divide-se, de grosso modo, desta forma: de um lado muitos sócios já idosos com cerca de 1 hectare e ainda com força para tratarem da vinha, quase sempre velha; depois, alguns jovens com 4 ou 5 hectares, que reestruturaram a vinha; e meia dúzia que têm áreas superiores e também possuem vinhas reestruturadas. As castas mais tradicionais – as brancas Fonte Cal e Síria e a tinta Rufete, por exemplo – estão a desparecer a pouco e pouco, à medida que as vinhas velhas vão desaparecendo. Uma estratégia seria pagar melhor estas uvas, mas a Beira Serra não tem condições para isso. Mesmo o preço base para as uvas, numa base de quilo e grau alcoólico provável de 10 graus, ronda os 21 cêntimos. Mas poderá chegar aos 30 e mais cêntimos, com uvas de bom grau de Touriga Nacional, por exemplo. A Tinta Roriz também tem bonificação. As boas uvas de vinhas velhas acabam por compor os lotes dos melhores vinhos, mas não têm especiais bonificações.
Para piorar as coisas, os anos de 2017 e 2018 foram madrastos para os viticultores locais. Condições climatéricas adversas fizeram com que a produção descesse substancialmente. E, finalmente, começa a existir uma preocupante falta de mão-de-obra, especialmente na vindima. Este, infelizmente, começa a ser um problema nacional…[/vc_column_text][/vc_column][/vc_row][vc_row type=”in_container” full_screen_row_position=”middle” scene_position=”center” text_color=”dark” text_align=”left” overlay_strength=”0.3″ shape_divider_position=”bottom”][vc_column column_padding=”no-extra-padding” column_padding_position=”all” background_color_opacity=”1″ background_hover_color_opacity=”1″ column_shadow=”none” column_border_radius=”none” width=”1/1″ tablet_text_alignment=”default” phone_text_alignment=”default” column_border_width=”none” column_border_style=”solid”][vc_column_text]À PROCURA DE FAMA
Este grupo heterogéneo de que falámos atrás coloca na adega cerca de 4 mil toneladas de uva, o correspondente a mais de 3 milhões de litros de vinho. Cerca de um terço para vinho branco, o resto para tinto.
Para garrafa vai cerca de um terço da produção e a direcção sabe que existe aqui muita margem para crescer. O problema, aparente¬mente, não está na qualidade dos vinhos. Joaquim Gamboa explica: “os nossos vinhos são muito bons e mesmo os Beira Serra colheita (como o Colheita Seleccionada e o Selecção dos Sócios) batem-se contra alguns reservas de outras regiões. O nosso problema número 1 é o rótulo dizer Beira Interior…”. Pior ainda, tem histórias que, segundo ele, comprovam isto.
O médico João Guerra sabe que é assim, mas o problema tem raízes mais fundas: “esta zona é desprotegida, mesmo no contexto do que é o interior de Portugal”. Joaquim Gamboa reforça: “Não queremos dinheiro a fundo perdido, não acredito nisso; basta-nos linhas de crédito com juros razoáveis”.
Ambos os directores sabem dos riscos do abandono da propriedade na Beira Interior. “Ainda hoje veio aqui um sócio a dizer que já não tem força para tratar da vinha e disse-nos que vai arrancá-la. Nós não podemos fazer nada”, diz o director. E acrescenta: “se hoje fechássemos portas, metade dos cafés e casas comerciais fechavam também”. João Guerra acha que as próprias câmaras municipais poderiam dar uma ajuda.[/vc_column_text][/vc_column][/vc_row][vc_row type=”in_container” full_screen_row_position=”middle” scene_position=”center” text_color=”dark” text_align=”left” overlay_strength=”0.3″ shape_divider_position=”bottom”][vc_column column_padding=”no-extra-padding” column_padding_position=”all” background_color_opacity=”1″ background_hover_color_opacity=”1″ column_shadow=”none” column_border_radius=”none” width=”1/1″ tablet_text_alignment=”default” phone_text_alignment=”default” column_border_width=”none” column_border_style=”solid”][image_with_animation image_url=”40421″ alignment=”” animation=”Fade In” border_radius=”none” box_shadow=”none” max_width=”100%”][/vc_column][/vc_row][vc_row type=”in_container” full_screen_row_position=”middle” scene_position=”center” text_color=”dark” text_align=”left” overlay_strength=”0.3″ shape_divider_position=”bottom”][vc_column column_padding=”no-extra-padding” column_padding_position=”all” background_color_opacity=”1″ background_hover_color_opacity=”1″ column_shadow=”none” column_border_radius=”none” width=”1/1″ tablet_text_alignment=”default” phone_text_alignment=”default” column_border_width=”none” column_border_style=”solid”][vc_column_text]UMA REGIÃO COM MUITO POTENCIAL
Os pensamentos negativos ficam para trás. João Guerra quer focar-se nos positivos: “Temos coisas muito boas, muita sustentabilidade: eu, por exemplo, faço produção integrada há mais de 30 anos! E gastamos muito menos produtos fitossanitários que em várias outras regiões do país. Este ano, por exemplo, apenas fiz três tratamentos!”. Vinhos com poucos químicos é música para os ouvidos de muitos consumidores. Tal como a frescura. João Guerra sabe que o clima desta região potencia vinhos brancos e tintos muito frescos e longevos, é verdade, mas tintos com tendência para mostrarem taninos aguerridos e alguma adstringência. Por isso, ‘suavizar’ os vinhos é uma parte do trabalho da equipa de enologia, mas não só. É frequente membros da direcção estarem presentes na feitura dos lotes e J. Gamboa justifica: “quem anda lá fora sabe melhor aquilo que os consumi¬dores gostam”.
Outro desafio vai para a comercialização. A casa tem alguns agentes na zona de Lisboa e outras zonas do país, mas Gamboa tem pena que não consigam fazer uma maior promoção do vinho da Beira Serra. “faz-nos falta um vendedor na zona de Lisboa”. Para o estrangeiro também vai bastante vinho, especialmente para França: o ano passado saiu para a terra dos gauleses quase 1 milhão de euros de vinho! A grande maioria, infeliz¬mente, vinho muito barato. “Muito rosé para as francesas”, diz Gamboa, mas sobretudo para abastecer o mercado da saudade.[/vc_column_text][/vc_column][/vc_row][vc_row type=”in_container” full_screen_row_position=”middle” scene_position=”center” text_color=”dark” text_align=”left” overlay_strength=”0.3″ shape_divider_position=”bottom”][vc_column column_padding=”no-extra-padding” column_padding_position=”all” background_color_opacity=”1″ background_hover_color_opacity=”1″ column_shadow=”none” column_border_radius=”none” width=”1/1″ tablet_text_alignment=”default” phone_text_alignment=”default” column_border_width=”none” column_border_style=”solid”][vc_column_text]RUMO A UM FUTURO MELHOR
“Desde 2013 a casa tem crescido muito em notoriedade”, diz Gamboa. “Conseguimos arrumar a casa. Este ano vamos distribuir 500.000 euros aos sócios e note que foi um ano de pouca produção”, acrescenta João Guerra.
Existe ainda um projecto para enoturismo, a fazer em conjunto com a Comissão da Beira Interior, que está a criar a Rota dos Vinhos. Uma casa dos anos 60 dentro do parque da adega poderá assim ser recuperada e convertida em loja de vinhos e merchandising.
São boas notícias, mas Joaquim e João sabem bem que muito há ainda para fazer. Mas, afastando de vez maus pensamentos, João Guerra não hesita: “esta casa é para continuar. E para contribuir que a região da Beira Interior tenha o lugar que merece no panorama vitícola nacional”.[/vc_column_text][/vc_column][/vc_row][vc_row type=”in_container” full_screen_row_position=”middle” scene_position=”center” text_color=”dark” text_align=”left” overlay_strength=”0.3″ shape_divider_position=”bottom”][vc_column centered_text=”true” column_padding=”no-extra-padding” column_padding_position=”all” background_color_opacity=”1″ background_hover_color_opacity=”1″ column_shadow=”none” column_border_radius=”none” width=”1/1″ tablet_text_alignment=”default” phone_text_alignment=”default” column_border_width=”none” column_border_style=”solid”][nectar_animated_title heading_tag=”h6″ style=”color-strip-reveal” color=”Accent-Color” text=”VINHOS EM PROVA”][vc_column_text]

[/vc_column_text][vc_column_text]

Edição Nº27, Julho 2019

[/vc_column_text][/vc_column][/vc_row]

Luz Verde para a Herdade das Servas

[vc_row type=”in_container” full_screen_row_position=”middle” scene_position=”center” text_color=”dark” text_align=”left” overlay_strength=”0.3″ shape_divider_position=”bottom”][vc_column column_padding=”no-extra-padding” column_padding_position=”all” background_color_opacity=”1″ background_hover_color_opacity=”1″ column_shadow=”none” column_border_radius=”none” width=”1/1″ tablet_text_alignment=”default” phone_text_alignment=”default” column_border_width=”none” column_border_style=”solid”][vc_column_text]Há mais de três séculos que a família Serrano Mira produz vinho no Alentejo. Agora, a Herdade das Servas deu um passo gigante de 450 quilómetros e assumiu o desafio dos Vinhos Verdes. Razão e emoção conjugaram-se […]

[vc_row type=”in_container” full_screen_row_position=”middle” scene_position=”center” text_color=”dark” text_align=”left” overlay_strength=”0.3″ shape_divider_position=”bottom”][vc_column column_padding=”no-extra-padding” column_padding_position=”all” background_color_opacity=”1″ background_hover_color_opacity=”1″ column_shadow=”none” column_border_radius=”none” width=”1/1″ tablet_text_alignment=”default” phone_text_alignment=”default” column_border_width=”none” column_border_style=”solid”][vc_column_text]Há mais de três séculos que a família Serrano Mira produz vinho no Alentejo. Agora, a Herdade das Servas deu um passo gigante de 450 quilómetros e assumiu o desafio dos Vinhos Verdes. Razão e emoção conjugaram-se numa história cujo primeiro capítulo vínico acaba de sair para o copo.

TEXTO Luís Francisco
NOTAS DE PROVA Luís Lopes
FOTOS Savage

A pergunta andou sempre no ar, mas acabou por surgir já no final da visita, uma chuva miudinha a juntar toda a gente debaixo do telheiro no exterior da adega  “O que faz um alentejano na região dos Verdes?” E a resposta foi imediata: “Vinho!” Com um sorriso, Luís Serrano Mira, um dos líderes do projecto familiar Herdade das Servas, definia assim a primeira aposta deste produtor secular fora do seu Alentejo. Fazer vinho, como sempre, mas agora com “o desafio de o fazer numa região diferente”.
A ideia já tinha alguns anos e a oportunidade surgiu em 2017, com a aquisição da Casa da Tapada, uma propriedade entre Amares e Fiscal, com 24 hectares, 12 dos quais de vinha. Os valores do negócio estão protegidos por uma cláusula do contrato de aquisição, mas, sabendo-se que a quinta, propriedade da Fuji, estava à venda por 3,5 milhões de euros, pode ter-se uma noção mais aproximada dos montantes envolvidos. “Há muitos anos que andávamos à procura… Agora reuniram-se as condições”, explica Luís Serrano Mira.
A Casa da Tapada é um local de muita história e extraordinária beleza natural. Mandada construir em meados do século XVI – por Francisco Sá de Miranda, poeta que introduziu o soneto nas letras portuguesas , a mansão, toda em pedra, recebeu melhoramentos no século XVII e foi ampliada no século XIX, dando forma final a um belo e imponente edifício rodeado de jardins, vinhas e arvoredo. À volta, um conjunto de construções secundárias e uma enorme capela (data de 1618) constituem o núcleo urbano, que domina um pequeno vale plantado com vinhas e a encosta sobranceira, onde as uvas dividem protagonismo com uma mata centenária.
Ao investimento inicial na aquisição da Casa da Tapada, seguiu-se recentemente a decisão de reestruturar as vinhas, que estavam plantadas em socalcos muito estreitos, dificultando a viticultura moderna. Numa primeira fase, foram arrancados entre sete e oito hectares de vinha, na abrupta vertente da montanha (o desnível entre a parte mais baixa da quinta e o topo ronda os 80 metros) e as máquinas afadigam-se agora a criar plataformas mais extensas que receberão os novos vinhedos. “Tínhamos aqui uns 30 patamares, queremos criar apenas três ou quatro”, revela Luís Serrano Mira.
Muito trabalho pela frente, até porque, como explica Ricardo Constantino, o enólogo das Servas, “é preciso retirar primeiro a camada de solo fértil que está por cima, para a recolocar depois de feitas as movimentações de terras”. Paulatinamente, e apesar das complicações causa¬das pela chuva miudinha que teima em cair, escavadoras, tractores e camiões vão cumprindo a tarefa.[/vc_column_text][/vc_column][/vc_row][vc_row type=”in_container” full_screen_row_position=”middle” scene_position=”center” text_color=”dark” text_align=”left” overlay_strength=”0.3″ shape_divider_position=”bottom”][vc_column column_padding=”no-extra-padding” column_padding_position=”all” background_color_opacity=”1″ background_hover_color_opacity=”1″ column_shadow=”none” column_border_radius=”none” width=”1/2″ tablet_text_alignment=”default” phone_text_alignment=”default” column_border_width=”none” column_border_style=”solid”][vc_column_text]CHEGAR ÀS 350 MIL GARRAFAS
O encepamento, maioritariamente (nove hectares) constituído por Loureiro, a variedade emblemática do vale do Cávado, mas também com Alvarinho, deverá ser complementado com a plantação de algum Arinto, casta “globetrotter” da paisagem vínica portuguesa e que nesta região é conhecida como Pedernã. “Queremos ser um produtor que acrescente valor à região. O tempo dirá se o consegui¬mos, mas, acima de tudo, queremos integrar-nos sem pressa, mostrando que temos uma filosofia correcta e esperando que as pessoas percebam isso”, assume Luís Serrano Mira.
A última colheita Casa da Tapada era de 2009 e saiu para o mercado em 2011. Daí para cá, as uvas foram sendo vendidas a outros produtores. Até ao ano passado, já com a equipa de enologia da Herdade das Servas aos comandos. Com o selo de 2018, saíram para o mercado 80.000 garrafas, repartidas por duas marcas: CT, um monovarietal de Loureiro; e Casa da Tapada, um blend de Loureiro e Alvarinho. Ambos são DOC Vinhos Verdes e a intenção é “crescer para o dobro já em 2019 e depois de forma segura até às 350.000 garrafas/ano”. Um número interessante, a juntar aos 1,2 a 1,5 milhões anuais que vêm dos 350 hectares de vinha não regada em Estremoz.[/vc_column_text][/vc_column][vc_column column_padding=”no-extra-padding” column_padding_position=”all” background_color_opacity=”1″ background_hover_color_opacity=”1″ column_shadow=”none” column_border_radius=”none” width=”1/2″ tablet_text_alignment=”default” phone_text_alignment=”default” column_border_width=”none” column_border_style=”solid”][image_with_animation image_url=”40408″ alignment=”” animation=”Fade In” border_radius=”none” box_shadow=”none” max_width=”100%”][/vc_column][/vc_row][vc_row type=”in_container” full_screen_row_position=”middle” scene_position=”center” text_color=”dark” text_align=”left” overlay_strength=”0.3″ shape_divider_position=”bottom”][vc_column column_padding=”no-extra-padding” column_padding_position=”all” background_color_opacity=”1″ background_hover_color_opacity=”1″ column_shadow=”none” column_border_radius=”none” width=”1/1″ tablet_text_alignment=”default” phone_text_alignment=”default” column_border_width=”none” column_border_style=”solid”][vc_column_text]Para cumprir estes objectivos – e tendo em conta que mais de metade da vinha está a ser reestruturada – será preciso, no futuro imediato, comprar uva na região. “Temos o compromisso assente, para aquisição de uvas cultivadas em regime de produção integrada. Compraremos essencialmente Loureiro, porque o Casa da Tapada é um vinho de mercado mais restrito; o CT é que é de divulgação geral”, resume Luís Serrano Mira, que assume a enologia destes vinhos, em permanente ligação com Ricardo Constantino, já com muito “pano para mangas” nas Servas, a 450 quilómetros de distância…
Para dar corpo a esta dupla ambição de fazer bom vinho e crescer no mercado, a Casa da Tapada conta com uma adega onde a capacidade instalada é de 180.000 litros na zona de fermentação e de outros tantos na zona de armazenagem. Ainda há muito para fazer, mas os planos estão traçados: recolocar os lagares de granito, que estão noutra zona do complexo, equipar a cave para espumante e barricas numa zona subterrânea (tem uma extensão de horta e jardim sobre a cobertura) e aumentar a área coberta da adega em 700 metros quadrados, ganhando mais espaço para armazenamento e englobando uma pequena construção ali ao lado, onde existem lavabos.[/vc_column_text][/vc_column][/vc_row][vc_row type=”in_container” full_screen_row_position=”middle” scene_position=”center” text_color=”dark” text_align=”left” overlay_strength=”0.3″ shape_divider_position=”bottom”][vc_column column_padding=”no-extra-padding” column_padding_position=”all” background_color_opacity=”1″ background_hover_color_opacity=”1″ column_shadow=”none” column_border_radius=”none” width=”1/1″ tablet_text_alignment=”default” phone_text_alignment=”default” column_border_width=”none” column_border_style=”solid”][image_with_animation image_url=”40407″ alignment=”” animation=”Fade In” border_radius=”none” box_shadow=”none” max_width=”100%”][/vc_column][/vc_row][vc_row type=”in_container” full_screen_row_position=”middle” scene_position=”center” text_color=”dark” text_align=”left” overlay_strength=”0.3″ shape_divider_position=”bottom”][vc_column column_padding=”no-extra-padding” column_padding_position=”all” background_color_opacity=”1″ background_hover_color_opacity=”1″ column_shadow=”none” column_border_radius=”none” width=”1/1″ tablet_text_alignment=”default” phone_text_alignment=”default” column_border_width=”none” column_border_style=”solid”][vc_column_text]NATUREZA MÁGICA
Mas a Casa da Tapada, classificada como Imóvel de Interesse Público em 1977, é muito mais do que uma unidade agrícola (onde, já agora, também crescem as famosas laranjas de Amares). A beleza intrínseca do local e das construções feitas pelo Homem fundem-se num cenário de grande harmonia, onde o peso da história se faz notar para onde quer que olhemos. Fontes, estátuas em pedra, jardins românticos, uma capela de enormes dimensões e com vetustos retábulos em madeira trabalhada (a necessitarem de restauro, tarefa que a família Serrano Mira pretende assumir), construções secundárias onde avulta a magnífica varanda de madeira da Casa da Eira.
Existem neste edifício quatro quartos, a que se juntam mais 11 no edifício principal. Isto parece talhado à medida de um hotel de charme em ambiente rural… “Verdade”, concede o nosso anfitrião. “Mas o alojamento não é a nossa prioridade em termos de enoturismo. Para já, abrimos a loja e vamos começar a apostar nas visitas. Por enquanto ainda não são pagas, mas passarão a ser assim que entre ao serviço uma pessoa dedicada a essa área.” E é exactamente para a loja que Luís Serrano Mira conduz a comitiva da visita à Casa da Tapada.
É uma casinha (de pedra granítica, claro), já identificada com a tabuleta Loja da Quinta, e onde encontramos meias pipas a servirem de mesas para provas, sofás, alfaias agrícolas, cestos de vime e estantes de madeira com as garrafas das referências da casa em exposição. E também temos aqui três grandes cartazes, que identificam as aves frequentadoras da propriedade: são seis predadores diurnos, outros tantos nocturnos e mais 28 espécies de passarada. Se isto já faz salivar os observadores de aves, acrescente-se um “pequeno” detalhe: o cenário que acolhe esta biodiversidade é um espanto!
Quase metade da quinta (dez hectares) está ocupada por uma mata centenária, que se pode percorrer usando a estrada empedrada que vai até ao topo. Ao longo do percurso encontramos sobreiros gigantes, pinheiros portentosos, araucárias imponentes, um mar de fetos cobrindo o chão. Se está a imaginar-se em Sintra ou no Buçaco, é isso mesmo. Até o pormenor das erupções rochosas de blocos arredondados de granito reforça essa impressão. Mas há mais: fontes, zonas com mesas em pedra para piqueniques, uma capela no meio das rochas. E, para completar a experiência, lá no alto, junto a um portão que também dá acesso à propriedade, a estrada alarga-se num verdadeiro miradouro sobre as vinhas e as construções da quinta. Para trás de nós está a serra Amarela, sobre a esquerda os primeiros contrafortes do Gerês.[/vc_column_text][/vc_column][/vc_row][vc_row type=”in_container” full_screen_row_position=”middle” scene_position=”center” text_color=”dark” text_align=”left” overlay_strength=”0.3″ shape_divider_position=”bottom”][vc_column column_padding=”no-extra-padding” column_padding_position=”all” background_color_opacity=”1″ background_hover_color_opacity=”1″ column_shadow=”none” column_border_radius=”none” width=”1/2″ tablet_text_alignment=”default” phone_text_alignment=”default” column_border_width=”none” column_border_style=”solid”][vc_column_text]MEMÓRIAS DE FAMÍLIA
Regressamos ao edifício principal da quinta, até porque a chuva, que concedeu tréguas para este passeio, começa a cair com mais intensidade. Altura para rodear a mesa e provar os vinhos da casa, que confirmam a sensação de frescura e o perfil mineral que se recolhem da paisagem em redor.
Para além das duas referências que agora saem para o mercado, a família Serrano Mira não adianta, para já, outros planos em concreto. Mas a decisão de plantar Arinto e as obras na cave de espumantes são indicadores de que haverá novidades, pelo menos a médio prazo. E, ao servir, no final da refeição, a aguardente vínica Casa da Tapada, Luís Serrano Mira mostrou outra pista. Apesar de já não se fazer há anos, ainda pode ser encontrada no comércio, a preços que rondam os 100 euros, e a ideia de provar este “espírito” 100% Loureiro, com envelhecimento em torno dos 20 anos, foi “perceber o potencial da aguardente vínica de Loureiro, pensando no que um dia poderá vir”…
Mas voltemos à pergunta inicial. Porque é que um produtor “nado e criado” no Alentejo se lança no desafio de fazer vinho numa região tão diferente como a dos Verdes? “Há a questão empresarial, claro.[/vc_column_text][/vc_column][vc_column column_padding=”no-extra-padding” column_padding_position=”all” background_color_opacity=”1″ background_hover_color_opacity=”1″ column_shadow=”none” column_border_radius=”none” width=”1/2″ tablet_text_alignment=”default” phone_text_alignment=”default” column_border_width=”none” column_border_style=”solid”][image_with_animation image_url=”40413″ alignment=”” animation=”Fade In” border_radius=”none” box_shadow=”none” max_width=”100%”][/vc_column][/vc_row][vc_row type=”in_container” full_screen_row_position=”middle” scene_position=”center” text_color=”dark” text_align=”left” overlay_strength=”0.3″ shape_divider_position=”bottom”][vc_column column_padding=”no-extra-padding” column_padding_position=”all” background_color_opacity=”1″ background_hover_color_opacity=”1″ column_shadow=”none” column_border_radius=”none” width=”1/1″ tablet_text_alignment=”default” phone_text_alignment=”default” column_border_width=”none” column_border_style=”solid”][vc_column_text]A família Serrano Mira quer crescer no negócio dos vinhos e surgiu esta oportunidade. Mas há também um lado emocional”, concede Luís. “Em casa dos meus avós, por força da amizade com a família Coelho, que era de Vila Nova de Famalicão e produtora de vinho, o Verde sempre esteve à nossa mesa. Isso e jesuítas e pão-de-ló da Trofa!”
Essa ligação emocional também pesou na decisão de adquirir a Casa da Tapada. De Estremoz a Amares são cerca de 450 quilómetros de distância, mas a viagem no espaço faz-se também no tempo, rumo às recordações da infância. É que o vinho faz-se com uvas, mas também de emoções.[/vc_column_text][/vc_column][/vc_row][vc_row type=”in_container” full_screen_row_position=”middle” scene_position=”center” text_color=”dark” text_align=”left” overlay_strength=”0.3″ shape_divider_position=”bottom”][vc_column centered_text=”true” column_padding=”no-extra-padding” column_padding_position=”all” background_color_opacity=”1″ background_hover_color_opacity=”1″ column_shadow=”none” column_border_radius=”none” width=”1/1″ tablet_text_alignment=”default” phone_text_alignment=”default” column_border_width=”none” column_border_style=”solid”][nectar_animated_title heading_tag=”h6″ style=”color-strip-reveal” color=”Accent-Color” text=”VINHOS EM PROVA”][vc_column_text]

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Edição Nº27, Julho 2019

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Corton-Charlemagne, brancos em modo de excelência

[vc_row type=”in_container” full_screen_row_position=”middle” scene_position=”center” text_color=”dark” text_align=”left” overlay_strength=”0.3″ shape_divider_position=”bottom”][vc_column column_padding=”no-extra-padding” column_padding_position=”all” background_color_opacity=”1″ background_hover_color_opacity=”1″ column_shadow=”none” column_border_radius=”none” width=”1/1″ tablet_text_alignment=”default” phone_text_alignment=”default” column_border_width=”none” column_border_style=”solid”][vc_column_text] Há vinhos famosos e depois… há os Grand Cru da Borgonha. TEXTO E NOTA DE PROVA João Paulo Martins FOTOS cortesia do produtor Ao contrário dos tintos, os Grand Cru brancos da Borgonha são poucos e […]

[vc_row type=”in_container” full_screen_row_position=”middle” scene_position=”center” text_color=”dark” text_align=”left” overlay_strength=”0.3″ shape_divider_position=”bottom”][vc_column column_padding=”no-extra-padding” column_padding_position=”all” background_color_opacity=”1″ background_hover_color_opacity=”1″ column_shadow=”none” column_border_radius=”none” width=”1/1″ tablet_text_alignment=”default” phone_text_alignment=”default” column_border_width=”none” column_border_style=”solid”][vc_column_text]

Há vinhos famosos e depois… há os Grand Cru da Borgonha.

TEXTO E NOTA DE PROVA João Paulo Martins
FOTOS cortesia do produtor

Ao contrário dos tintos, os Grand Cru brancos da Borgonha são poucos e fáceis de identificar. Todas as áreas de brancos Grand Cru são de diminutas dimensões; a maioria está situada a volta da célebre vinha Montrachet (7,99 ha) que, de tão famosa, acabou por dar o seu nome para as vinhas vizinhas que também se reclamam do mesmo título: Bâtard-Montrachet, Chevalier-Montrachet, Criots Bâtard-Montrachet e Bienvenues Bâtard-Montrachet. Fora deste núcleo apenas temos Corton-Charlemagne. Numa Borgonha mais alargada teremos também de incluir os Grand Cru de Chablis que são sete. Foi em 1936/7 que se fez a demarcação e hierarquização das parcelas da Borgonha. De então para cá nada mudou, como é apanágio dos franceses, com algumas parcelas a reclamarem o estatuto de Grand Cru mas…estão a pregar no deserto! Corton-Charlemagne (ou uma pequeníssima quantidade que apenas refere Charlemagne) é, de longe a maior área de Grand Cru com um pouco mais de 52 ha de vinhas plantadas com Chardonnay e a casa Louis Latour é a maior proprietária com 11 ha; muitos outros produtores e “maisons de négoce” são também detentores de parcelas nesta grande vinha, encimada pelo bosque de Corton e onde anualmente se produzem à volta de 300 000 garrafas de branco. Os Hospices de Beaune e Bonneau du Martray são também importantes proprietários. A fama, essa, remonta à época d Carlos Magno (séc. VIII) que aqui mandou plantar branco em vez de tinto, a gosto da sua mulher. Como é normal na região, as várias marcas têm reconhecimento público muito diverso e por isso os preços podem ter variações muito significativas, em função da procura e da limitada oferta. Mesmo ao lado das vinhas do branco estão as vinhas plantadas com Pinot Noir que também perfazem uma larga área de tintos Grand Cru, a maior área da Borgonha com a classificação máxima e que corresponde a cerca de 500 000 garrafas/ano. Nos rótulos poderão aparecer outras indicações que se referem às (muitas) parcelas existentes dentro da AOC Corton. Nada fácil como se sabe…
A boa exposição e as características do solo permitem produzir um branco muito rico, muito concentrado e que tem imensa longevidade, reconhecida por vários autores que identificam estes bancos como os mais longevos da Borgonha. Aqui estamos a beber Borgonha, não estamos a provar Chardonnay. É essa a grande virtude da região e é a bandeira que os borgonheses orgulhosamente ostentam. Caros? Sim! Raros? Não tanto como outros Grand Cru e por isso o lamento é apenas relativo a um dos lados da equação! E quando falamos de brancos famosos no mundo, estes estão na primeira linha das escolhas, justificadamente presentes no Passeio da Fama.

[/vc_column_text][/vc_column][/vc_row][vc_row type=”in_container” full_screen_row_position=”middle” scene_position=”center” text_color=”dark” text_align=”left” overlay_strength=”0.3″ shape_divider_position=”bottom”][vc_column centered_text=”true” column_padding=”no-extra-padding” column_padding_position=”all” background_color_opacity=”1″ background_hover_color_opacity=”1″ column_shadow=”none” column_border_radius=”none” width=”1/1″ tablet_text_alignment=”default” phone_text_alignment=”default” column_border_width=”none” column_border_style=”solid”][vc_column_text]

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Edição Nº26, Junho 2019

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Colecção – O templo do deus Whisky

A paixão de Alfredo Gonçalves pelo whisky vem desde os seus tempos em Angola, quando começou a juntar garrafas que trazia das muitas viagens ao estrangeiro. Décadas de dedicação criaram um espólio notável do que se vai destilando pelo mundo. Hoje, em Lisboa, mora uma das maiores colecções privadas do planeta de garrafas e artigos […]

A paixão de Alfredo Gonçalves pelo whisky vem desde os seus tempos em Angola, quando começou a juntar garrafas que trazia das muitas viagens ao estrangeiro. Décadas de dedicação criaram um espólio notável do que se vai destilando pelo mundo. Hoje, em Lisboa, mora uma das maiores colecções privadas do planeta de garrafas e artigos ligados ao whisky.

Texto: Luís Francisco
Fotos: Ricardo Gomez

A 20 de Dezembro de 2005, o Livro Guinness dos Recordes emitiu um certificado: “Alfredo Gonçalves, de Lisboa, Portugal, juntou 10.500 garrafas de whisky diferentes e dos mais diversos formatos. A sua colecção está aberta ao público na sua loja Whisky & Co, em Lisboa, Portugal.” Quase década e meia depois, o número de garrafas subiu para perto das 13.000 e, apesar a de entidade que regista os recordes não ter respondido em tempo útil ao pedido de esclarecimento enviado pela “Grandes Escolhas”, esta é, certamente, uma das maiores colecções privadas de garrafas de whisky no mundo.
Alfredo, com 90 anos, continua a frequentar o templo dedicado à bebida que sempre foi a sua paixão, mas a condução dos negócios e a gestão do museu estão agora nas mãos dos filhos. O certificado do Guinness de 2005 continua lá, emoldurado, num dos poucos centímetros quadrados de espaço não ocupado por garrafas ou outros artigos alusivos ao whisky. Actualizá-lo implica a elaboração de um novo dossier e essa é uma tarefa que leva o seu tempo… Apesar da ajuda de Alfredo Gonçalves, cuja memória prodigiosa lhe permite desfazer dúvidas e omissões, os filhos ainda estão a “ganhar coragem” para deitarem mãos à tarefa.
Quem o assume é Luísa Gonçalves, que nos recebe nas instalações da Whisky & Co, ali entre o Campo Pequeno e Entrecampos. Quem entra na loja, bem organizada e de visual bem equilibrado entre a funcionalidade moderna e a beleza rústica de elementos tradicionais, mal pode imaginar o que está lá ao fundo, nas salas por trás do balcão. São três divisões, literalmente forradas a whisky… Um local único, belíssimo, de uma magia muito especial. A verdadeira essência da Whisky & Co. Sim, porque o museu não nasceu por causa da loja; o processo foi exactamente o oposto: existe loja porque havia uma colecção.
À entrada, as melhores e mais prestigiadas marcas estão à venda. Lá dentro, aguarda-nos uma surpresa incrível, marcada desde logo pela divisão inicial, dedicada ao bourbon (whisky norte-americano). Os americanos têm destas coisas e, pelos vistos, adoram engarrafar a sua bebida favorita das mais inacreditáveis formas e feitios.
Há telefones, camiões, botas, peças em porcelana, motivos de Natal, estátuas de Elvis Presley (com música!), Marylin Monroe, uma reconstituição do célebre duelo no OK Corral… E pares que dançam, animais, o Space Shuttle, carros dos bombeiros, tractores, comboios, capacetes, trenós, barcos, carroças, aviões e helicópteros, carrinhos de mão e bicicletas. Nem vale a pena continuar – o melhor será mesmo passar por lá e descobrir, prateleira após prateleira, sala após sala, o mundo incrível das garrafas de whisky que são tudo menos garrafas.

Whisky do Nepal

Passamos à segunda sala, onde as vitrinas exibem magníficas garrafas e do tecto pendem canecas. Logo à entrada temos o “registo” da família, com uma garrafa do ano de nascença de cada um dos membros – Alfredo e a sua mulher, Alice, numa prateleira; os quatro filhos, noutra; os seis netos, abaixo. Junto à entrada, a secção dedicada aos whiskies japoneses (quem viu o filme “Lost in Translation”, de Sophia Coppola, conhece pelo menos uma: Suntory); no resto do espaço reinam os maltes escoceses e irlandeses.
A colecção está organizada por destilarias e as peças notáveis vão surgindo por todo o lado. Os Family Casks da Glenfarclas de 1952 a 1994, as pequenas amostras que fazem pensar numa loja de perfumaria, algumas garrafas que são armas (adagas, espingardas), outras dedicadas a pilotos de Fórmula 1 (David Coulthard ou Jim Clark, por exemplo), exemplares artísticos em vidro branco modelado nas mais diversas formas (globos, barcos, elefantes, sapatos, etc…).
Mas é na terceira sala, dedicada aos blends, que estão os exemplares mais antigos da colecção. Foi aqui que o museu começou a ganhar forma. “No princípio”, explica Luísa, “tudo isto estava em casa, depois veio para aqui e foi ocupando cada vez mais espaço.” Neste momento, dirá um leigo, não cabe mais nada, mas há sempre maneira de ir arrumando e rearrumando, encaixando mais alguma peça neste puzzle fantástico. E, por falar em peças, eis que deparamos com dois tabuleiros de xadrez de grandes dimensões em que as figuras, claro, são recipientes de whisky.
Num dos cantos, uma área particularmente curiosa da colecção: os whiskies de países menos habituais. Genericamente, há cinco “escolas” de whisky reconhecidas internacionalmente: Escócia, Irlanda, EUA, Canadá e Japão. Mas isso nunca impediu ninguém de emular o seu estilo favorito e isso explica que encontremos aqui rótulos da Áustria, da Argentina, de Angola, do Brasil, da Bélgica, de Marrocos, da Turquia, da Índia, do Chile, da Jamaica, de Cuba, do Egipto, do Butão, da Bulgária, do Nepal, do Laos, do Paquistão, da Tailândia, do Vietname, do Sri Lanka, da Nova Zelândia… Entre muitos outros.
Portugueses, também. Várias garrafas de whisky Ricardo (engarrafado por Celestino Dias Sardinha, de Encarnação, Mafra); ou o Old Anchor, das Fábricas Âncora, em Lisboa. Do “famoso” “whisky de Sacavém” é que nem sinal…
Adiante. Colecção completa da Guerra dos Tronos? Sim. Todos os presidentes dos EUA? Confere. Dezenas de papas diferentes? Estão lá. Rótulos espectaculares com imagens da autoria de pintores escoceses, em séries subordinadas a temas como “The Sea” ou “The Animals”. Um armário de miniaturas. Garrafas envoltas em cabedal, cantis, pequenas barricas, baldes de gelo e caixas sobre os expositores, até chegarem ao tecto. Uma garrafa de Jameson numerada e com o nome “Alfredo Gonçalves” no rótulo.

Tudo começou em Angola

Algumas das peças aqui expostas podem valer muito dinheiro – um leigo dificilmente as distingue no meio de tanta coisa vistosa, mas algumas garrafas da colecção estão avaliadas em milhares de euros. E, no entanto, o museu tem entrada gratuita. “Nunca cobrámos”, explica Luísa. “Para o fazermos, acho que teríamos de oferecer outras condições, tornar a exposição mais didática. Talvez um dia…”
Quem visita a loja pode sempre solicitar a entrada nas salas das traseiras e, mediante disponibilidade de quem está a atender, circular por entre estes testemunhos da universalidade da bebida espirituosa mais popular no mundo. Um casal de jovens noruegueses faz exactamente isso, espantando-se com as peças que surgem a cada passo. Quanto a nós sentamo-nos para conversar um pouco sobre as histórias que estão por trás desta notável colecção.
Alberto Gonçalves já não se sente em condições de enfrentar a exposição mediática, mas Luísa e José Carlos, o outro filho que trabalha na Whisky & Co, recordam que tudo começou nos anos 1960, quando o pai estava em Angola. “Ele gostava muito de descobrir novos whiskies e em Angola não havia muita coisa. Como tinha uma agência de viagens, andava muito pelo mundo e ia comprando umas garrafas. Não se bebia todo e ele foi guardando.” Em 1975, na sequência do processo de descolonização, Alberto e a família regressaram a Portugal e ele conseguiu trazer consigo muitas das garrafas que começara a coleccionar.
“Até 2001, quando a loja abriu, era uma colecção exclusivamente particular. Depois abrimos este espaço e começamos a aceitar visitas, grupos pequenos – e tem de ser assim, porque não pode haver muita gente naquele espaço. Os corredores são apertados e basta um descuido para alguma coisa se partir”, explica Luísa.
No princípio, a maior parte das raridades e peças curiosas eram adquiridas durante as viagens pelo mundo, viagens em que Luísa foi muitas vezes a companhia do pai. Pormenor curioso: por uma razão ou por outra, ela nunca foi à Escócia… “É uma vergonha!”, assume, com um sorriso. A partir do momento em que a loja abriu, a colecção recebeu um grande impulso: fornecedores, amigos, contactos, muita gente começou a contribuir. “E também houve muitas garrafas compradas na Garrafeira Nacional, que a dada altura era o único sítio onde se encontravam algumas marcas.”
De uma maneira ou de outra, Alberto foi juntando artigos ligados ao whisky. Hoje serão perto de 13.000 garrafas e, ainda que sem ver renovado o reconhecimento oficial lavrado por escrito em 2005, esta continua a ser uma das maiores colecções privadas do género no mundo. Imperdível.

TEMPLOS DE GARRAFAS

No mundo do colecionismo, as quase 13.000 garrafas exibidas nas instalações da Whisky & Co, em Lisboa, são um dos números mais impressionantes a nível mundial. Mas há outros. Em Itália, nos arredores de Veneza, Diego Sandrin, proprietário do bar Lion’s Whisky, exibe uma colecção que pode andar entre os 20.000 e os 25.000 exemplares. O mais famoso museu do género é o The Scotch Whisky Experience, em Edimburgo, que junta quase 4000 garrafas – o espólio pertence à distribuidora Diageo, que o adquiriu ao colecionador brasileiro Claive Vidiz. Em Sassenheim, na Holanda, estão cerca de 3000 garrafas, das mais raras do mundo (o museu, integrado nas instalações de uma empresa de investimentos, adequadamente chamada Scotch Whisky International, exibe a colecção do italiano Valentino Zagatti). Finalmente, e porque isto de ver é bonito, mas beber é ainda melhor, os fanáticos do whisky não podem perder uma visita ao bar do Hotel Skansen, na ilha sueca de Öland: lá poderão escolher entre 1179 marcas diferentes.

 

Edição Nº26, Junho 2019

O engarrafamento

Um dos mais determinantes passos na produção de vinho. Estamos na época do ano em que há “engarrafamentos” nos engarrafamentos de vinho. Todos querem ter cubas ou depósitos vazios para receber a próxima vindima e é uma azáfama de Norte a Sul na compra de garrafas, rolhas e prestações de serviços. Texto: João Afonso O […]

Um dos mais determinantes passos na produção de vinho. Estamos na época do ano em que há “engarrafamentos” nos engarrafamentos de vinho. Todos querem ter cubas ou depósitos vazios para receber a próxima vindima e é uma azáfama de Norte a Sul na compra de garrafas, rolhas e prestações de serviços.

Texto: João Afonso

O engarrafamento tem por fim acondicionar o vinho num vasilhame que assegure a conservação das suas características organolépticas por um período de tempo mais ou menos longo.

Passos e atos

O enxaguamento é o primeiro passo importante do engarrafamento. Deverá ser rápido, eficaz e, acima de tudo, a água utilizada deverá ser de ótima qualidade ou mesmo ser esterilizada ou ozonada.

O enchimento pode ser considerado, como o momento de maior importância no processo de engarrafamento. Deve ser estéril e garantir que o vinho contacta o mínimo com o oxigénio. A enchedora deve manter um débito constante de enchimento, sem reduções ou interrupções e não pode formar espuma dentro da garrafa.

No fim a rolhagem. A rolhadora faz um ligeiro vácuo no gargalo, que evita a oxidação do vinho e pressão no interior da garrafa antes de introduzir a rolha com rapidez. O espaço em vazio deixado entre o vinho e a rolha deve cumprir as normas especificadas no modelo da garrafa.
Com os equipamentos existentes nas linhas de engarrafamento actuais podemos ao mesmo tempo que engarrafamos, ‘pasteurizar’ o vinho, retirar álcool por osmose inversa, retirar acidez volátil, estabilizar o vinho…. Só ainda não se consegue transformar um “entrada de gama” num “super premium”. Mas com tempo….

António Ventura, enólogo

A opinião de António Ventura

Para além de alguma contaminação, que em boa parte está excluída pela grande eficácia dos equipamentos modernos e também pela profissionalização deste sector e respetivos serviços, a grande preocupação num engarrafamento é o oxigénio. Devemos evitar ao máximo a sua intrusão no vinho no ato de enchimento da garrafa, ou com azoto ou com vácuo. Principalmente nos vinhos brancos. Um engarrafamento deficiente de vinho branco não só prolonga muito a chamada “doença de garrafa”, como não permite à posteriori uma recuperação total do vinho sujeito a esse deficiente engarrafamento.

 

 

Edição Nº26, Junho 2019

Tintos de Setúbal: Um sucesso sem segredos

A Península de Setúbal é uma região multifacetada, mas também um enorme sucesso comercial, assente num perfil de vinhos de que toda a gente gosta. Desde tintos com relação preço-qualidade absolutamente irresistível até ao que de melhor se produz em Portugal. Terra de Castelão, mas também das ubíquas Syrah e Touriga Nacional, e até do […]

A Península de Setúbal é uma região multifacetada, mas também um enorme sucesso comercial, assente num perfil de vinhos de que toda a gente gosta. Desde tintos com relação preço-qualidade absolutamente irresistível até ao que de melhor se produz em Portugal. Terra de Castelão, mas também das ubíquas Syrah e Touriga Nacional, e até do Alicante Bouschet cada vez mais utilizado. Uma região que é um festim para os sentidos.

TEXTO Nuno de Oliveira Garcia

FOTOS Ricardo Gomez

Entre Almada, a sul de Lisboa, e Santiago do Cacém na fronteira com o Alentejo, é tudo área geográfica do vinho Regional Península de Setúbal. É, portanto, uma extensão significativa, ainda que não seja uma das maiores regiões nacionais. Por outro lado, e apesar do cultivo da vinha ocorrer de forma dispersa por toda a região, existem dois núcleos principais com características orográficas distintas: um a Sul e Sudoeste, zona montanhosa e recortada por vales, formada por serras (a da Arrábida, a mais conhecida) e montes (o de Palmela, em destaque); a outra, prolonga-se em extensa planície junto ao rio Sado e não muito distante do rio Tejo. Com maior precisão encontramos dois terroirs clássicos, os calcários da Serra da Arrábida e as areias de Fernando Pó, com primazia para o segundo ao nível da superfície com vinhedo.
Na região, a vinha é abundantemente plantada, sendo um dos seus principais cultivos. Basta percorrer de carro a autoestrada A2, ou as estradas N4 e N10, para se ter a sensação clara da imersão numa zona vitivinícola. Não espanta, por isso, também que as tradições de vinho sejam profundamente enraizadas – terão sido os Fenícios e os Gregos os primeiros a introduzir a vinha nas encostas da Arrábida e na zona ribeirinha do Tejo, cultivo depois impulsionado pelos Romanos e os Árabes –, com centenas de propriedades a dispor de adega e de cave, ambas, tradicionalmente, afastadas da casa principal. De resto, são muitas as pequenas vinhas no meio de outras de maior dimensão. Mesmo a mais breve passagem por Palmela, Vila Fresca de Azeitão, Pegões ou Fernando Pó, confirma a tese de que o vinho nesta região tem uma importância popular enorme.
Um clima verdadeiramente mediterrânico – muito próximo do subtropical com fracas amplitudes térmicas e influenciado pela proximidade do mar e das bacias hidrográficas do Tejo e do Sado – solos com diferentes rendimentos (desde areias pouco produtivas a calcários compactos e férteis), e a utilização de castas que permitem elevadas produções mantendo qualidade (Syrah ou Alicante Bouschet), fazem da região um paradigma recente de sucesso. Atualmente, dos 9400 hectares em produção, mais de 6200 hectares encontram-se aptos à produção de vinho certificado. Igualmente determinante para o sucesso da região tem sido a reconversão de vinhas dos últimos anos, cada vez mais se recorrendo a material vegetativo selecionado (com potencial quantitativo e qualitativo), bem como a democratização da utilização de rega da vinha devido ao clima quente e seco de verão e à baixa retenção de água de grande parte dos solos, sobretudo das areias.

Um sucesso no mercado

Também ao nível da aceitação por parte dos consumidores, a Península de Setúbal dá cartas e, com quase 15 anos a escrever sobre vinhos (inaugurei o primeiro blog de vinhos em Portugal em 2005), nunca conheci um consumidor que não gostasse dos vinhos desta região. Actualmente, e apenas quanto a vinhos certificados, a região é a que mais vende em Portugal depois do Alentejo e Minho, ficando mesmo à frente do Douro. E, note-se, trata-se de uma tendência em progressão tendo sido, em 2018, a região que mais cresceu em relação a anos anteriores. De 2005 para cá a produção de vinho tem aumentado, sendo que, no que respeita a vinho certificado, a subida é mesmo estratosférica, tendo triplicado em pouco mais de 10 anos! Com tantos aspectos favoráveis, a este respeito, pode até afigurar-se surpreendente o número relativamente pequeno de produtores com vinhos certificados e engarrafados, mas isso explica-se pelo facto de existirem fortes players na região que, perante tanto sucesso, são obrigados a comprar muita uva, caso da Casa Ermelinda Freitas, José Maria da Fonseca e Bacalhôa, para além de importantes Adegas Cooperativas, como Pegões e Palmela. Apesar desta realidade poder diminuir a versatilidade da oferta de produtos da região, a verdade é que a tem tornado rentável para os pequenos viticultores, sem impedir que novos produtores apareçam. Tal é bem visível nesta prova que contou com vinhos de projectos relativamente recentes como seja Damasceno, Herdade da Arcebispa, e Herdade da Barrosinha. Igualmente importante é realçar a presença de vinhos de perfil mais atlântico, da margem sul do rio Sado, do qual são bons exemplos José Mota Capitão e Brejinho da Costa (Resigon), prova de vitalidade e do surgimento de novos caminhos na região.

Castelão domina, Syrah cresce

Ao nível do encepamento, o domínio das castas tintas – 78% do total – é manifesto, o que se explica, em parte, pela hegemonia do Castelão (ver Caixa) ocupando cerca de 60% do encepamento total da Península de Setúbal. A par do Castelão, a Aragonez e a Syrah são largamente plantadas (a área de Syrah tem mesmo crescido significativamente nos últimos anos), sendo a omnipresente Touriga Nacional a quarta casta mais plantada. Por outro lado, a casta branca mais representativa da região – o Moscatel de Alexandria –, plantado de preferência na serra, mas também cada vez mais nas areias, é sobretudo utilizado para a produção do famoso generoso. Isso significa que o papel dos vinhos brancos, por vezes, fica relegado para segundo plano, apesar de tanto a Fernão-Pires como a Arinto (e até a Verdelho, aposta mais recente) proporcionarem vinhos de qualidade e originalidade.
Na prova realizada foi possível discernir os vinhos mais tradicionais com a utilização exclusiva, ou quase, de Castelão proveniente de solos de areia, daqueles com pendor mais moderno e até experimentalista. Na primeira vertente, resultou muito claro uma linha clássica com a casta a lembrar alguns tintos de Montepulciano e de Maremma (Toscana, em ambos os casos), sobretudo no desenho dos taninos e no perfil gastronómico evidente, por vezes quase rústico. São tintos com óptima capacidade de envelhecimento e acidez firme, disso não temos dúvidas e a nossa experiência na prova de Castelão com muitos anos em garrafa demonstra-o. Nesta toada, para além do Primo (versão sofisticada de Castelão) e do Leo d’ Honor (perfil clássico muito concentrado), apreciámos muito o vigor e carácter do Reserva da Herdade da Espirra (bela surpresa). Igualmente em destaque estiveram alguns vinhos mais conceptuais, com a utilização de várias castas a privilegiar a elegância e a complexidade que só um lote pode, colheita após colheita, proporcionar. Caso notório do Hexagon (excelente edição), mas também do Herdade da Arcebispa Grande Reserva e do Damasceno Reserva.
O conjunto da prova, resultou na confirmação da capacidade da região para produzir não apenas “best sellers” mas também tintos de muito grande nível, expressando em terroirs e estilos distintos. O sucesso nunca acontece por acaso…

A CLÁSSICA CASTELÃO

É certamente a casta tinta mais cultivada no sul de Portugal, com boa capacidade de adaptação a diferentes condições climáticas. Na região da Península de Setúbal, ainda é conhecida por Periquita, nome que terá tido origem na propriedade chamada Cova da Periquita, localizada em Azeitão, onde José Maria da Fonseca a plantou por volta de 1830. Apesar de se dar bem tanto na serra como na planície, todos os enólogos que contatámos afirmaram que os melhores tintos provém dos terrenos arenosos e das vinhas velhas da região, podendo mesmo ser equacionada plantação em pé-franco. De tal forma está ligada à região que, para a produção dos vinhos tranquilos tintos DO Palmela, é obrigatória a inclusão de, pelo menos, dois terços de Castelão. São vinhos geralmente estruturados, com fruto, acidez e sabor em boca, com notas mais complexas de pinhão, bolota ou castanha. Regra geral, apresentam boa capacidade de envelhecimento num perfil clássico e tendencialmente seco (dependendo, obviamente, da enologia), originando uma curiosa nota citrina com o passar dos anos. Para mais detalhe, veja-se o artigo de MW Dirceu Vianna na edição de Abril.

Edição Nº26, Junho 2019

O sonho do Marquês

Não é fácil falar de Rioja sem referir a Marqués de Riscal. E, definitivamente, não se fala de arquitectura de adega sem se apontar este produtor. Um gigante da região, que não poupa na qualidade dos vinhos. TEXTO Mariana Lopes FOTOS Marqués de Riscal O caminho do aeroporto de Bilbau para Elciego, onde se encontram […]

Não é fácil falar de Rioja sem referir a Marqués de Riscal. E, definitivamente, não se fala de arquitectura de adega sem se apontar este produtor. Um gigante da região, que não poupa na qualidade dos vinhos.

TEXTO Mariana Lopes

FOTOS Marqués de Riscal

O caminho do aeroporto de Bilbau para Elciego, onde se encontram as “bodegas” Marqués de Riscal, faz-se por estradas rápidas rodeadas por grandes aflorações rochosas e vegetação de tons verdes. Uma hora e meia de viagem que dá para lavar a vista, em que o cenário induz uma espécie de acalmia. Entretanto, começamos a pensar nessas rochas e em como será assim o solo da Rioja e da zona onde estão as vinhas da Marqués de Riscal. Errado! À medida que vamos ficando mais perto, começa a aparecer um argilo-calcário bem evidente para nos lembrar que a diversidade também assiste à Espanha vitivinícola.

Bodegas de los Herederos del Marqués de Riscal, é o nome. Em 1858, D. Guillermo Hurtado de Amézaga, o dito Marquês, fundou ali em Elciego a adega que lhes daria origem. O seu filho, D. Camilo, continuou o negócio, um diplomata e editor liberal, proprietário do jornal El Día, que acabou por se apaixonar profundamente pela arte de fazer vinho. Estes não tardaram em convidar um mestre adegueiro francês, Jean Pineau, para que os métodos bordaleses fossem ali aplicados. Na verdade, o sonho de D. Guillermo era construir um autêntico “château” à maneira francesa naquelas terras, que à data tinham o nome Finca de Torrea. Assim o fez, implementando técnicas científicas à frente do seu tempo, tanto na vinha como na adega, e na engenharia dos edifícios. Colocou ao seu dispor, inclusive, uma tanoaria para que o seu vinho descansasse nas melhores barricas.

Em 1862, já estavam a ser engarrafados os primeiros vinhos, bem antes do reconhecimento oficial da Rioja como Denominação de Origem Controlada (em Espanha “Calificada”), que se deu em 1991, apesar de a região em si já existir e produzir há um par de séculos. É uma região com uma área de vinha plantada total de mais de 61 mil hectares, e a Marqués de Riscal, na sub-região de Rioja Alavesa, utiliza uvas de 1500, sendo 500 dos quais próprios e os restantes de fornecedores controlados pela empresa. Mais de metade desses vinhedos, todos de uvas tintas e vindimados manualmente, estão em regime orgânico, apesar das garrafas ainda não o ostentarem e lá não pode faltar, pela importância que tem nesta DOC, a uva Tempranillo (a nossa Tinta Roriz), que representa 92% da produção de Riscal. Predominante, é uma uva de ciclo curto e cultivo sensível, tanto em Portugal como no país vizinho. Depois, a variedade Graciano, de amadurecimento tardio, vigorosa e bastante produtiva, está presente em 7% e confere as notas de bosque aos vinhos. Também a uva Mazuelo, de carácter mais rústico e, actualmente, a desaparecer, se encontra em quantidades residuais, oferecendo frescura e notas especiadas. A Cabernet Sauvignon, por sua vez, também desempenha um papel bastante importante nos tintos destas bodegas, mas a situação não é simples, pois esta casta tão popular no Mundo já não pode ser plantada na Rioja, proibida pelo conselho regulador da Denominação. No entanto, há uma excepção: por ter sido plantada nos solos da Marqués de Riscal muito antes da criação da região vitivinícola, é autorizada a sua utilização nos vinhos desta casa, desde que não conste em rótulos e fichas técnicas e enquanto apenas aquelas parcelas lá plantadas existam. Escusado será dizer que são videiras cuidadas com muita preocupação. Assim, quando se lê “e outras”, no rol de castas escrito numa garrafa deste produtor, já sabemos que estamos perante uma percentagem de Cabernet Sauvignon. Curiosa também é a idade das vinhas: as mais novas com 15 anos e a mais velha de 1902. De facto, é o produtor com mais vinhas de idade superior a 80 anos, em toda a Espanha e, segundo os próprios, “com maior número de vinhas plantadas antes de 1970, em todo o Mundo”.

Bastante mais tarde, a Marqués de Riscal chegou à Rueda, começando a fazer vinho branco nesta região em 1972, tendo sido impulsionadora da criação desta Denominação de Origem em 1980. A uva autóctone Verdejo era (e é) a eleita, como não poderia deixar de ser, mas a empresa introduziu ali a francesa Sauvignon Blanc, em 1974, para dela também fazer vinhos monovarietais.

La Ciudad del Vino

Este espírito vanguardista é algo que se perpetuou ao longo das gerações seguintes desta família. Sempre com a ambição de liderar o movimento tecnológico da Rioja, a Marquês de Riscal instalou, em 1995, a primeira mesa de escolha de uva da região. Cinco anos depois, começaram a ampliar as instalações de vinificação, onde trabalham 120 pessoas em permanência, que incluem um pavilhão impactante de 125 depósitos de inox, com capacidade para 20 mil quilos, onde fermentam, separadamente, 10 milhões de quilos de uva, por ano. Os padrões de qualidade da matéria-prima da empresa são altos, e é por isso que a qualidade geral, para tanto vinho, é muito elevada. As uvas que não correspondem a esses padrões, são vendidas a outros produtores, e tudo é aproveitado: várias prensagens com destino a vários vinhos, e as películas das uvas para cosmética e fertilizantes naturais.

Na parte antiga da adega, construída em pedra arenisca, encontram-se depósitos de betão onde toda a pisa é feita a pé. Lá fora, não passam despercebidas as muitas paredes verdes que ajudam a climatizar os labirintos que escondem 37 mil barricas. São todas de 225 litros, pois assim a Rioja o ordena, de carvalho americano (para as gamas mais baixas) e francês (para os vinhos mais ambiciosos).
Em 2006, com a finalização do hotel, todo o recinto foi inaugurado como La Ciudad del Vino. E que hotel! Assinado pelo arquitecto canadiano Frank O. Gehry, é uma autêntica escultura em tamanho gigante, cujas cores ondulantes se vêm de longe, na estrutura de titânio e aço: o rosa, a representar o vinho, o dourado, da malha que cobre a garrafa mais famosa do produtor, e o prateado, que simboliza a cápsula. “Tinha de ser algo que estivesse bem integrado com o terreno, as vinhas, com o povo de Elciego e a catedral. Tinha de ser festivo e apaixonante porque, acima de tudo, o vinho é alegria e prazer”, foi a declaração de O. Gehry. Os 43 quartos de luxo passarão, em breve, a 57, numa experiência que inclui um SPA Caudalie e dois restaurantes premium. Um deles, o Gastronómico Marqués de Riscal, galardoado com uma Estrela Michelin, é conduzido pelo chef Francis Paniego, o primeiro da Rioja com Estrela.
Com as Sierras de la Demanda e de Cantabria em plano de fundo, este hotel e a adega trazem 120 mil visitantes por ano àquele sítio, tendo grande impacto também no turismo da região. Um projecto de mais de 40 milhões de euros, que vale cada cêntimo.

 

Vinhos surpreendentes

Honrando o legado familiar, Francisco (Paco) Hurtado de Amézaga é o director técnico da empresa, na Rioja, e o seu filho Luís faz a enologia da parte Rueda. São 12 milhões de garrafas, no total, sete na primeira região e cinco na segunda, das quais 60% vai para 103 países. Em Portugal, a distribuidora Vinalda representa seis das referências do portefólio Marqués de Riscal: Sauvignon Blanc Bio branco, Limousin branco, Reserva tinto, Grande Reserva tinto, Baron de Chirel tinto e Proximo tinto. Com a filosofia “drinkability”, este produtor junta quantidade a uma qualidade surpreendente. Só do Marqués de Riscal Reserva, o tinto icónico da casa com a sua malha dourada envolta na garrafa, são feitos 4 milhões de exemplares por ano. Falamos de um vinho já com alguma seriedade. Importante é referir que, em Espanha, um vinho só pode ser Reserva se sair da adega passados três anos do seu ano de colheita, tendo um de ser de estágio em garrafa. De outros mais ambiciosos ainda, como o topo de gama Frank Gehry tinto, são feitas cerca de 3000 garrafas, apenas quando o ano assim o justifica.
Nunca tendo deixado de prosperar, a Marqués de Riscal é um exemplo de um grande negócio gerido de maneira exemplar, desde o vinho ao enoturismo. Fazer milhões é com eles, sem sacrificar qualidade, pelo contrário. Se fosse vivo, o Marquês D. Guillermo haveria de estar orgulhoso.

Edição Nº26, Junho 2019

 

Os vinhos dos Paulistas

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Ninguém iria adivinhar que, a 10 quilómetros do centro de Lisboa, se estão a fazer vinhos especiais. E que este é um projecto ‘fora da caixa’, quase de inspiração… digamos… divina.

TEXTO António Falcão NOTAS DE PROVA João Paulo Martins FOTOS Ricardo Gomez

A terra chama-se Apelação e era, até 2013, uma das freguesias do concelho de Loures. Não há muito que enganar: trata-se de um ambiente típico de arredores de Lisboa, com uma mistura de casas antigas e muitos prédios modernos, especialmente de construção económica. Pelo meio, um enorme terreno murado alberga a Quinta Rainha dos Apóstolos. É aqui que estão as instalações da congregação Paulista. No seio da igreja católica, os Paulistas estão encarregues da comunicação, incluindo edições em papel. “Ou seja, evangelizamos através da comunicação”, diz-nos o padre José Carlos Nunes, à frente desta congregação. Os Paulistas possuem várias edições, em vários formatos (veja aqui) e uma rede de seis livrarias.
Ora, calhou que o padre José Carlos, em diversos eventos, fosse conhecendo dois técnicos ligados à vinha e ao vinho. E as conversas iam surgindo, ao mesmo tempo que a amizade. Como diz o sacerdote, “a amizade traz bons frutos”, e desta vez deu mesmo: Um belo dia, António Cláudio, especialista em viticultura, e Filipe Sevinate Pinto, enólogo, desafiaram o padre Nunes a plantar vinha na quinta. Afinal, a congregação, que é internacional, presente em 38 países, precisa de vinho de missa. E, à parte a água, o vinho, convém não esquecer, é o líquido mais referenciado na Bíblia (a seguir à água). E, como se isso não bastasse, foi o vinho que constituiu o primeiro milagre de Jesus, que transformou água em, note-se, bom vinho. Ora, havendo espaço e fundos para isso, porque não avançar para uma vinha?

Nasce uma vinha

Regressemos um pouco atrás: houve de facto uma vinha neste local, mas apenas para subsistência dos locais. Nesta quinta chegaram a viver, nos anos 50, cerca de 70 seminaristas e 12 padres; existiam mesmo dois caseiros, um para o gado, outro para a agricultura. Nos anos 80 começaram a escassear as vocações, os caseiros foram-se embora e a vinha ficou ao abandono.
E eis que chega 2014. Decidida a plantação, António e Filipe escolheram as castas a plantar, no pressuposto de que as uvas teriam de ir para dois lados: vinhos de consumo (branco e tinto), e vinhos de missa (licoroso). Antes da decisão final, os técnicos provaram alguns vinhos de missa, só para verem o estilo. E a escolha foi para a casta branca Malvasia, num clone “muito amoscatelado”, isto é, a pender para aromas mais intensos e adocicados. António sabe do que fala porque é ele o distribuidor dos Viveiros Rauscedo, um dos fornecedores de plantas mais prestigiados do mundo, com origem em Itália. “Esta Malvasia é uma casta terpénica, que nos permite fazer macerações longas e vinhos com longevidade”, adianta Filipe. Ao lado da Malvasia, entrou a cada vez mais popular Alvarinho, direccionada sobretudo para o vinho não-generoso. Nos tintos ficou a casta Merlot e um bocadinho de Alicante Bouschet. Esta última faz um pouco o papel do Cabernet Franc no lote com Merlot, tão típico de Saint Emillion. Filipe tem excelentes experiências com Merlot na Quinta de São Sebastião e achou que aqui se iria dar bem.
Não foi planeado, mas o primeiro pé de videira foi plantado a 13 de Maio de 2014, 97 anos depois da primeira aparição em Fátima. Foi escolhida a parte mais fácil, mais plana e desmatada. Pareceu milagre, mas as plantas pegaram muitíssimo bem e já houve uvas no ano seguinte! O entusiasmo foi tanto que ficou decidido plantar mais vinha, que entrou na encosta, que teve de ser desmatada. O padre José Carlos explica: “o reino de Deus, simbolizado com vinha, tem que ser expandido”. No total estão agora quatro hectares mas existe mais algum terreno para ampliações. A comunidade, de apenas 9 membros permanentes, ajuda no que pode no amanho da vinha e na vindima. Menos mal que António Cláudio, que supervisiona a vinha, mora a 5 minutos, e existe ainda uma espécie de feitor, que trata de todos os espaços verdes. Nos trabalhos maiores contrata-se gente, até porque alguns membros da congregação são já de idade avançada. Em contrapartida, reza-se muito no seio da vinha e a mesma é benzida todos os anos. Talvez por isso seja tudo muito natural: “evitamos ao máximo o uso de produtos químicos; queremos tudo o mais biológico possível”, refere o padre José Carlos. António Cláudio reforça: “esta zona é boa e a vinha não é problemática; aliás, as maturações mostram-se até agora muito homogéneas”. Tudo a correr de feição, portanto.

Falta a adega

A quinta teve em tempos uma adega e os restos ainda por lá estão, incluindo algumas velhas pipas em ruínas. Enquanto a adega não é restaurada (se é que alguma vez irá acontecer), as uvas para os brancos e tintos são vinificadas na Quinta de São Sebastião, onde Filipe dirige a enologia. As uvas para o vinho de missa vão para a Quinta do Piloto, em Palmela, onde existem melhores condições para o trabalho com a aguardente. Diz Filipe Sevinate Pinto que a designação “vinho de missa é um bocado genérica e simples; é um vinho puro, sem aditivos, que normalmente se faz como um licoroso, para não se estragar”. Não leva, portanto, qualquer aditivo salvo aguardente: nem sulfuroso, correctores de acidez ou de outros, etc. Este é o primeiro vinho de missa feito por uma congregação.
Neste momento, António e Filipe estão em processo de aprendizagem e vão variando estilos e lotes. O primeiro vinho para o mercado será o de 2017, que será disponibilizado nas livrarias da congregação (só vinho de missa) e outros mercados (branco e tinto). No caso do vinho de missa, e segundo as leis canónicas, faltava a autorização do Cardeal Patriarca de Lisboa. A marca já foi decidida e será Vinha de São Paulo mas os rótulos estão em fase de produção.
O ideal agora era trazer cá o Papa Francisco, para abençoar a vinha. Pode parecer uma quimera, mas nunca se sabe: afinal, o padre José Carlos é o tradutor do Papa em Portugal…

NA FOTO

Equipa abençoada: Filipe Sevinate Pinto, António Cláudio e o padre José Carlos Nunes.

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Edição Nº26, Junho 2019

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