José de Sousa: o guardião das talhas tem a palavra

Em meia dúzia de anos o vinho de talha virou moda e são muitos os produtores, no Alentejo e não só, que já colocaram no mercado brancos e tintos feitos integralmente em potes de barro. Curiosamente, ou talvez não, a maior adega de talhas de Portugal foi dos últimos a fazê-lo. Valeu a pena esperar. […]

Em meia dúzia de anos o vinho de talha virou moda e são muitos os produtores, no Alentejo e não só, que já colocaram no mercado brancos e tintos feitos integralmente em potes de barro. Curiosamente, ou talvez não, a maior adega de talhas de Portugal foi dos últimos a fazê-lo. Valeu a pena esperar.

 

TEXTO Luís Lopes FOTOS Ricardo Palma Veiga

A casa José de Sousa, em Reguengos de Monsaraz, é não apenas a maior e mais imponente adega de talhas existente em Portugal, como também a de maior presença histórica, remontando a 1878, pelo menos, a produção continuada de vinho com objectivos comerciais. Na magnífica adega de tectos abobadados encontram-se, alinhadas, nada menos do que 114 talhas de barro, algumas bicentenárias, com capacidades entre os 1200 e os 2000 litros, mais algumas “tarefas” (potes mais pequenos, de 300 litros, tradicionalmente utilizados para atestos).

Em 1986, quando a empresa José Maria da Fonseca adquiriu aos descendentes de José de Sousa Rosado Fernandes a emblemática adega de Reguengos, produtora do clássico Tinto Velho José de Sousa, restavam pouco mais de 30 ânforas de barro na chamada “Adega dos Potes”. Domingos Soares Franco e o seu adegueiro da época pesquisaram, avaliaram e compraram, na vizinhança de Reguengos e por todo o Alentejo, a pouco e pouco, as largas dezenas de talhas necessárias para devolver à adega de José de Sousa o esplendor de outrora.

Vale a pena contextualizar na época este processo de recuperação da adega tradicional de José de Sousa, feito pela família Soares Franco. É verdade que a tradição de fazer vinho em talhas se manteve desde sempre e até hoje no Alentejo, nomeadamente nas casas particulares e nas tabernas. Mas a talha, como processo de vinificação integrado numa empresa vinícola, tinha pura e simplesmente deixado de existir. E gastar tempo e dinheiro a comprar e recuperar talhas, no final dos anos 80, era encarado pelo sector do vinho como, no mínimo, capricho inconsequente, quando não mesmo disparate completo. A história vive de ciclos, é bem verdade, e hoje assiste-se a uma intensa procura de talhas por parte de antigos e modernos produtores alentejanos, com os raros potes em boas condições ainda disponíveis (já não se fabricam…) a atingirem valores astronómicos. Acredito que os Soares Franco olhem para todo este frenesim em torno das talhas com um sorriso nos lábios…

Clássicos e modernos
É evidente que uma adega de talhas, por maior e mais imponente que seja, não pode satisfazer as necessidades em vinhos do Alentejo de uma empresa com a ambição e dimensão de José Maria da Fonseca. Após a aquisição de José de Sousa, foi construída, ao lado da Adega dos Potes, uma instalação de vinificação moderna para receber as uvas da empresa e as adquiridas a lavradores locais. A vinha original necessitava de cuidados especiais (a parcela mais antiga que ainda mantém belos esteios de granito foi plantada em 1952) e passou por um longo processo de restruturação e plantação, existindo hoje 72 hectares em plena produção. A castas plantadas nas vinhas de José de Sousa são as tintas tradicionais: Trincadeira, Aragonez e, sobretudo, Grand Noir, uma tintureira que era no passado e continua a ser hoje a base dos melhores vinhos da casa. É na conjugação das duas adegas, a antiga e a moderna, que se produz o portefólio alentejano da empresa, nomeadamente os vinhos Montado, Ripanço, José de Sousa, José de Sousa Mayor e J de José de Sousa. As talhas intervêm apenas nos três últimos vinhos citados. O José de Sousa
é maioritariamente fermentado em depósitos inox, com uma pequena parte de talha e lagar. Já as versões Mayor e J, utilizam uvas desengaçadas à mão em mesas tradicionais de ripas de madeira (“ripanço”), e metade do mosto, das películas e cerca de 30% do engaço (depende dos anos) vão para as talhas. O resto é fermentado em lagar.

Sabia que…
As talhas alentejanas eram fabricadas sobretudo em São Pedro do Corval, Beringel e Campo Maior.

No portefólio comercial de José de Sousa faltava, porém, um vinho integralmente feito em talha. Surgiu agora, e em dose dupla, branco e tinto, de 2015, com a marca Puro Talha. O tinto utilizou as clássicas Grand Noir, Aragonês, Trincadeira e um pouco de Moreto. Para o branco foram usadas as não menos tradicionais Manteúdo, Diagalves e Antão Vaz. Num e noutro caso, as uvas utilizadas foram fermentadas em conjunto nas talhas. No branco, a fermentação decorreu sem engaço. Após a fermentação, o vinho ficou sobre as massas até Novembro, sendo depois passado para outra talha onde esperou alguns meses, protegido da oxidação por uma película de 2 cm de azeite, como era usual na vinificação antiga. Já o tinto foi fermentado com 30% de engaço em talhas de 1600 litros, permaneceu igualmente sobre as massas até Novembro e, após a prensagem, uma parte voltou às talhas e outra foi para barricas de 500 litros feitas em madeira de castanho.

Em conjunto com as novas colheitas das referências José de Sousa, Mayor e J, também agora lançadas no mercado, os Puro Talha vêm dar mais exclusividade a um portefólio de vinhos alentejanos de grande nível, que leva bem alto o nome de uma casa que soube conciliar, como poucas, a tradição e a modernidade, mantendo o toque de diferenciação hoje em dia tão valorizado por apreciadores de todo o mundo.

Tapada de Coelheiros: A paixão pela planície

Foi de repente. Como todas as paixões à primeira vista. Entre ver e comprar pouco tempo mediou. Depois de muito viajar, este casal de brasileiros decidiu que não precisava de procurar mais. E ficou. Há assim vida nova nos Coelheiros. Com Luís Patrão no comando técnico, a Tapada vai renovar-se sem perder a identidade.   […]

Foi de repente. Como todas as paixões à primeira vista. Entre ver e comprar pouco tempo mediou. Depois de muito viajar, este casal de brasileiros decidiu que não precisava de procurar mais. E ficou. Há assim vida nova nos Coelheiros. Com Luís Patrão no comando técnico, a Tapada vai renovar-se sem perder a identidade.

 

TEXTO João Paulo Martins FOTOS Ricardo Palma Veiga

NUMA extensa área de 800 hectares cabe quase tudo, mas nos Coelheiros há uma atractiva diversidade que cativou os actuais donos logo na primeira visita que fizeram, em 2015. Gabriela Accioli, de ascendência italiana, e Alberto Weisser, com antepassados suíços e alemães, queriam mudar-se para a Europa e Portugal sempre tinha sido uma hipótese. Mas foi quando começaram a viajar pelo interior que perceberam que havia muito mais do que Lisboa e Algarve para conhecer. E foi assim que souberam de um monte que estava à venda na zona de Igrejinha, Arraiolos, e resolveram visitar. Coelheiros era perto e da visita nasceu a atracção.

Viram e gostaram, sobretudo da diversidade e do potencial dos Coelheiros. A maior parte da propriedade está em montado de sobro e por lá se passeiam veados e gamos – cerca de 130 – e 700 ovelhas. Existem também 40ha de nogueiras, um sonho concretizado da anterior proprietária Leonilde e, claro, 50ha de vinhas. Foi esta variedade e dimensão que tornaram a decisão de aquisição mais fácil. Depois de muito viajarem, de terem vivido muitos anos em Nova Iorque, Alberto e Gabriela resolveram que precisavam de um poiso, de um local que fosse ao mesmo tempo tranquilo mas não demasiado longe da grande cidade e do aeroporto, uma vez que Alberto ainda tem de viajar com alguma frequência. “Aqui é o local onde já durmo mais noites, é assim que eu conto. E irá ser cada vez mais no futuro.”

As paixões eram várias, a do vinho é comum, ele tem uma fixação quase obsessiva por queijos e Gabriela confessa mesmo: “Sonho com comida, sou louca por gastronomia.” Melhor se compreende assim a “química” que se estabeleceu entre eles e a herdade. A produção biológica e a apicultura são projectos a curto prazo. E Gabriela, com os conhecimentos que tem no mundo da cozinha, irá animar os Coelheiros com convidados, workshops e o que mais adiante se verá.

Renovação em marcha
O interesse pelo vinho encontrou também aqui razões de sobra para a compra. Sempre são 50 hectares de vinha, o que já é uma dimensão bem interessante. Destes, 30 estão em produção, 10 foram arrancados, sobretudo por razões de doenças de lenho, e outros 10 foram já plantados de novo. Foi feita a zonagem da vinha e identificadas quatro zonas distintas, sempre num solo de base granítica mas com variações que agora são levadas em conta nas novas plantações.

As primeiras vinhas foram aqui plantadas em 1982 (antes disso apenas havia pecuária e cereais) por Joaquim Silveira, então proprietário, e António Saramago, enólogo e responsável pelos vinhos até à entrada de Luís Patrão. Luís veio do Esporão, onde trabalhou com David Baverstock, e comanda agora os destinos técnicos da herdade, com o conselho de António Saramago, que assegura: “O futuro tem de ser assegurado e por isso a contratação do Luís é muito positiva.” Continua amigo da casa e é visita sempre bem recebida. Os coelhos, que deram nome à propriedade, eram criados para depois serem largados na propriedade para caça, mas foram abatidos após uma terrível febre hemorrágica que os dizimou. A criação não foi retomada.

Emblemática na propriedade é a vinha de Cabernet Sauvignon, cujos garfos vieram de Margaux, e que ocupa actualmente 4 dos 8ha daquela casta. Chegarão até aos 10ha de Cabernet. Na vinha existe também Alicante Bouschet, Petit Verdot, Trincadeira, Aragonez, Merlot e, mais recentemente, Touriga Nacional, Touriga Franca e Tinta Miúda. Já nos brancos vai haver mudanças: o Chardonnay foi arrancado e a última colheita foi o de 2016. “Não creio que seja uma casta interessante para este solo e clima”, diz Luís Patrão. Arinto e Roupeiro são as castas clássicas mas agora têm também Antão Vaz e Verdelho.

O portefólio vai sofrer grandes mudanças. Vão acabar quase todas as marcas, ficando apenas as clássicas, Tapada de Coelheiros (normal e garrafeira), uma segunda marca Coelheiros e vinhos com nome de vinha – o primeiro será o Vinha do Taco. O Garrafeira passará a ter mais estágio em cave e o 2012 só deverá sair em 2019.

Na adega íamos gelando na câmara de fermentação de vinhos brancos em cascos de 500 litros. A filosofia passa pela utilização cada vez maior de barricas usadas, procurando obter vinhos mais frescos e menos marcados pelo carvalho. Falando em quantidade, Coelheiros passará a representar 150.000 a 200.000 garrafas, em vez das 400.000 que tinha antes (com muito vinho adquirido fora). Na cave de estágio de tintos, além das barricas de 500 litros há também tonéis (foudres) austríacos da marca Schneckenleitner. Os vinhos tintos terão assim 6 meses de estágio em barrica e um em tonel. A vindima deste ano foi, como em todo o lado, muito precoce: começaram a 16 de Agosto e terminaram a 28; no ano passado começaram a 28 de Agosto e terminaram a 22 de Setembro. Coisas do clima.

Ao balcão do Botequim
Conheci os actuais donos dos Coelheiros por acaso. Eu estava em Évora em 2015 a fazer as provas para o meu guia de vinhos de 2016 e fui almoçar a um dos meus locais preferidos, o Botequim da Mouraria. Muito difícil de arranjar lugar já que apenas tem balcão e são uns 8 lugares disponíveis. O facto é que naquele dia consegui. Na ponta do balcão estava um casal de brasileiros. Como é muito fácil haver conversas cruzadas entre todos os convivas, logo o senhor da casa informou quem eu era e a conversa pegou. “Oi cara, que te parecem as vinícolas por aqui? Nós gostamos de visitar, tem alguma sugestão?” Não lembro já o que referi, mas foram eles que avançaram: os Coelheiros valerá a pena a visita? Sim, claro, terei respondido, disse que conhecia bem, que já tinha visitado, que era uma propriedade já com uma história para contar. Gostaram do que ouviram mas, em boa verdade, não teria sido necessário o meu conselho porque, soube no dia seguinte, tinham fechado a compra de Coelheiros no dia do nosso encontro. É claro que o segredo é a alma do negócio mas esta história estava bem viva na memória dos dois que, logo que me viram, lembraram que já nos conhecíamos do Botequim. Só em Évora.

Vinhos degustados
A prova que fizemos durante a visita não foi muito extensa em virtude do encurtamento do portefólio. A marca Coelheiros em branco tem agora 3.000 garrafas mas no futuro próximo passarão a ser entre 8.000 e 10.000. Cerca de 70% do mosto fermenta em inox e o restante em barrica nova. No futuro aponta-se para o uso da barrica usada de 500 litros e apenas 10 a 20% de barrica nova. Fermenta em câmara frigorífica. No Tapada de Coelheiros branco há a pretensão de o ter 8 meses em barrica e um ano em garrafa. Assim, o da colheita de 2017 apenas irá para o mercado em 2019. O de 2016 foi totalmente fermentado em barrica nova de 500 litros. O Chardonnay 2016 é editado pela última vez, também ele totalmente fermentado em barrica nova.

Nos tintos temos um Coelheiros com 12 meses de estágio em barrica usada. A produção é de 10.000 garrafas mas a pretensão é chegar às 50.000. Os tintos provêm todos de vinhas de sequeiro mas no futuro haverá uma Touriga Nacional regada (já plantada). No tinto Tapada de Coelheiros temos Cabernet Sauvignon e 40% de Alicante Bouschet, com uma produção de 35.000 garrafas. Do Vinha do Taco estão em estágio os 2012, 14 e 16. Produção limitada a 3.600 garrafas. Esta chegada tardia ao mercado é intencional. O Garrafeira será lançado apenas em 2019. A distribuição em Portugal está entregue à Heritage Wines e no Brasil é assegurada pela Mistral.

Ir à Terceira e voltar

Fomos aos Açores “mergulhar” na colecção de um terceirense amante dos vinhos. Não “limpámos” a garrafeira (são demasiadas garrafas), mas provámos algumas dezenas que já ninguém sabia exactamente em que condição poderiam estar. E tivemos boas surpresas.   TEXTO João Paulo Martins FOTOS DR CONHECI António Maio há alguns anos num evento de vinho e […]

Fomos aos Açores “mergulhar” na colecção de um terceirense amante dos vinhos. Não “limpámos” a garrafeira (são demasiadas garrafas), mas provámos algumas dezenas que já ninguém sabia exactamente em que condição poderiam estar. E tivemos boas surpresas.

 

TEXTO João Paulo Martins FOTOS DR

CONHECI António Maio há alguns anos num evento de vinho e desde logo se criou um clima de cumplicidade vínica que tem durado até hoje. Desde então já orientei várias provas na ilha Terceira para consumidores locais e descobri mesmo que alguns deles eram meus velhos conhecidos cujo paradeiro desconhecia. À sua volta António foi juntando um conjunto de amigos que, de simples apreciadores, ganharam coragem para ir mais longe, saber mais e ter um prazer extra na prova dos vinhos. O gosto de António, esse, não é tão antigo assim, já que durante anos e anos a enofilia não lhe dizia muito, apesar de vir de uma tradição familiar onde o vinho estava presente. O pai tinha uma pequena vinha onde cultivava vinho de cheiro (o chamado “americano”), que depois vendia para o Pico, mas aquele vinho não lhe agradava e por isso não bebia. O facto de o vinho avinagrar ao fim de poucos meses também não ajudava. As caixas das prendas natalícias iam-se acumulando e… nada, até aos 35 anos pode dizer-se que era abstémio.

Foi com a viragem do século e o surgimento das grandes marcas que hoje povoam o nosso imaginário que António começou a beber e a gostar. Nasceu então o gosto do coleccionismo, a vontade de ter todas as edições dos grandes vinhos, do Barca Velha ao Vale Meão, do Vinha Maria Teresa ao Chryseia. O gosto pelas colecções e a cave foram aumentando, bem mais do que o consumo aconselhava. Mas esse tempo já passou e hoje já não é por aí que António quer seguir; parou de comprar em quantidades, embora mantenha o gosto de ter as colecções completas. A disponibilidade de espaço que tinha ajudou ao vício e as caixas de vinho multiplicam-se em todos os cantos da casa.

E agora? Que fazer?
António não nasceu para negociante de vinhos e por isso não compra com o intuito de vender. Mas não esconde o desejo de um dia poder abrir com os filhos um wine bar em Angra onde possa escoar muito do vinho que tem em cave, que estima poder rondar as 9.000 garrafas. Mas como isso é ideia associada à reforma, o assunto vai ter de esperar mais uns anos. O vinho, esse, pelo que vimos, vai aguentar bem a prova do tempo porque está quase todo guardado em ambiente frio e o próprio clima ameno da ilha ajuda a que a evolução seja lenta mesmo para as caixas que não estão na cave fria. Foi aqui que andámos, por sugestão do próprio, a juntar um conjunto de vinhos para a prova que decorreu no mês de Agosto em sua casa. Todos de férias, tempo agradável e clima a pedir a reunião de amigos para a prova.

Sabia que…
Se não tiver boas condições de guarda, não vale a pena armazenar os seus vinhos durante muito tempo

António começou por apreciar sobretudo tintos, mas considera-se agora cada vez mais brancófilo e é com orgulho que diz que foi grande contribuinte pelo gosto do Vinho do Porto que agora existe por aquelas paragens insulares. Ele próprio não perde uma grande prova aqui em Lisboa, tirando partido das muitas viagens que por razões profissionais tem de fazer ao continente. O gosto também foi mudando e agora é o equilíbrio que mais o seduz num vinho; ganhou, entretanto, o apreço pelos vinhos velhos e alguns deles foram também provados nesta ocasião. Quanto aos vinhos pelos quais tem mais carinho e que considera mais valiosos não hesita em referir a colecção completa dos Quinta do Crasto Vinha Maria Teresa (também em jeito de homenagem à sua mulher, Teresa). Nos vinhos do Porto ficaram-lhe dois na memória: o Constantino Colheita 1910 e o Ramos Pinto 1924. Madeiras? Aqui António não hesita: o Blandy’s Bual 1920. De caras! Responde de imediato.

E quanto aos néctares da Terceira não tem dúvidas: a vinda de Anselmo Mendes para os Biscoitos orientar a produção é uma oportunidade para que os vinhos ganhem outra dimensão.

Uma prova e tanto
De Lisboa fomos três: Luís Lopes, Nuno Oliveira Garcia e eu próprio. Da lista inicial proposta acabámos por seleccionar alguns que mais raramente temos provado no âmbito das nossas provas temáticas. Não fomos felizardos com alguns vinhos por apresentarem problemas de rolha, uma percentagem muito mais elevada do que o habitual, atribuível, creio, a um mero acaso. Ainda assim, foram 36 vinhos que se mostraram bem, ainda que em patamares de qualidade muito diversa. Dos anos 70 sobrou apenas um Colares Viúva Gomes 1974, mas já muito débil. Outros que tinham sido re-rolhados estavam cheios de problemas de gosto a rolha (TCA). Nos anos 80 tivemos um pouco mais de sorte com um Quinta do Carmo Garrafeira 87 em grande, grande forma, um Aliança Garrafeira 1985 ainda vivo e um Reserva 85 João de Santarém da Adega Cooperativa de Torres Vedras, magro e muito débil, uma mera curiosidade. Bem melhor a prestação dos anos 90 com três vinhos do Douro com classificação idêntica (16): Torna Grande 1999, Cabeça de Burro 1997 e Lello Garrafeira 1995; com 16,5 o Cartuxa 1998. Ainda desta década, mas em patamar bem mais acima, o Duas Quintas Reserva 1991, Tapada do Chaves 1992, D’Avillez Garrafeira 1998 e Fojo 1996 (todos com 17,5); excepcionais o Crasto Reserva 1999 e o Ferreirinha Reserva Especial 1997 (com 18 pontos).

Da primeira década deste século chegaram à prova muitos e bons vinhos. Destacamos dois pela excepcional prova que deram, o VT 2004 e o Batuta 2001 (ambos 18,5). Depois seguiu-se daí para baixo um conjunto alargado de vinhos: Anselmo Mendes Alvarinho branco 2007, Filipa Pato Cercial branco 2005, Quinta de Pancas Premium 2000, Quinta da Leda 2000, ME e JBC Selections 2001 (todos com 17,5); Esmero 2003, Muros Antigos Alvarinho branco 2007, Conde Vimioso Reserva 2000 (com 17); PL/LR branco 2008, Esporão branco 2006, Esporão Alicante Bouschet 2002, Quinta do Zambujeiro 2002 e Campo Ardosa RRR 2000 mereceram 16,5. E com 16, os Redoma branco 2006, Quinta dos Carvalhais Encruzado 2007, Campolargo 2002 e Quanta Terra 2001.

Para terminar, e em jeito de alerta para quem tem vinhos mais antigos em casa, refiro que nos deparámos com 10 vinhos contaminados por problemas de rolha e mais 4 já passados ou com defeito de prova grave. Em resumo, guardar vinhos tem muitas vezes a sua recompensa, e um branco ou tinto velhos podem originar momentos de excepção. Mas é preciso estar atento.

Um coleccionador recomenda
Nos anos que leva de coleccionador de vinhos, António Maio percebeu que há erros que se podem pagar caro e por isso deixa aqui algumas recomendações. Em primeiro lugar qualquer coleccionador nos Açores tem de estar preparado para a eventualidade dos tremores de terra. Assim, se os vinhos estiverem em prateleiras e já fora das caixas originais, é bom ter uma rede metálica à frente da prateleira que evite que as garrafas caiam para o chão quando a terra tremer. Em segundo lugar a temperatura da cave: se não tem possibilidade de ter uma cave fria não guarde vinhos por muitos anos; procure ter de vários segmentos — vinhos do quotidiano, de gama média e alta, sempre num equilíbrio entre a compra e o consumo. Ter em atenção onde se compram os vinhos, para termos a certeza que não há fraudes (elas são mais frequentes do que imaginamos nas grandes marcas). Por fim, o complemento de uma boa colecção são os bons acessórios: decantadores, bons copos e boa companhia. E para que não se deite tudo a perder, muito cuidado com a temperatura de serviço.

Bio-Infantado: novos vinhos de uma quinta com história

A Quinta do Infantado conta já com um portefólio generoso de Vinho do Porto e Douro, parte dele com selo biológico. Foram seis as novidades lançadas no restaurante DOP, no Porto: três tintos, um Tawny e dois Vintage.   TEXTO Mariana Lopes FOTO Anabela Trindade NOTAS DE PROVA Luís Lopes SITUADA no Vale de Gontelho, […]

A Quinta do Infantado conta já com um portefólio generoso de Vinho do Porto e Douro, parte dele com selo biológico. Foram seis as novidades lançadas no restaurante DOP, no Porto: três tintos, um Tawny e dois Vintage.

 

TEXTO Mariana Lopes FOTO Anabela Trindade NOTAS DE PROVA Luís Lopes

SITUADA no Vale de Gontelho, a 4 quilómetros do Pinhão, a Quinta do Infantado guarda um pedaço rico de História. Erguida em 1816, destinou-se ao Rei D. Pedro IV de Portugal e primeiro do Brasil, mas quem lá deu o “grito do Ipiranga” foram os irmãos Luís e António Roseira, que, em 1979, impulsionaram o engarrafamento do seu próprio Vinho do Porto, quebrando assim o monopólio das casas exportadoras de Vila Nova de Gaia.

A propriedade está nas mãos da família Roseira desde 1904, e o seu rosto mais visível (e audível…) é João Roseira, que conhece e sente a quinta como ninguém e muito tem feito, sobretudo ao longo dos últimos 15 anos, para levar pelo mundo a imagem da marca, desde há dois anos com o apoio na enologia do seu primo Álvaro Roseira, acompanhando a enóloga residente Fátima Ribas e o consultor Luís Soares Duarte.

A propriedade detém 46 hectares de vinha de solo xistoso, dos quais 12 em regime biológico e 34 em viticultura sustentável. As castas existentes são mais de 20 e, apesar da presença de uvas brancas e tintas, a Quinta do Infantado ainda só produz vinhos (DOC Douro) tintos. Com práticas de viticultura e enologia pouco ou nada interventivas, é filosofia de João Roseira e de toda a equipa Infantado “respeitar as uvas e o vinho”, sendo que “equilíbrio, elegância e frescura são mais importantes para a Quinta do Infantado do que álcool, poder, extracção ou taninos”. É este o perfil que Luís Soares Duarte, que acompanha o projecto desde 1996, tenta imprimir nos vinhos.

A três dias do Port Wine Day (evento anual de promoção internacional do Vinho do Porto), João Roseira organizou um jantar vínico no DOP com vinhos novos e outros nem tanto. Para iniciar, acompanhando a burrata com favo de mel e caviar, um Porto Old Dry White que veio dos confins da adega e não está à venda (infelizmente, a coisa era boa…); depois, para o polvo com puré de batata fumada e ravioli de legumes, as novidades Quinta do Infantado Biológico tinto 2012 e Quinta do Infantado tinto 2015. Quase a chamar o Outono, vieram Milhos à Transmontana com o vinho Roseira tinto 2011 e o novo Quinta do Infantado Reserva tinto 2012 e, para os queijos e a sobremesa, três Porto acabados de sair: Vintage 2015, Vintage 1997 em Magnum (re-lançamento neste tipo de garrafa) e Tawny Reserva Biológico. Terminou-se a refeição a revisitar o belo Quinta do Infantado Tawny 2007.

Seis vinhos lusos na lista Top 100 da Wine Enthusiast

The Enthusiast 100

Um Vinho do Porto, dois tintos e três brancos, todos de produção portuguesa, conseguiram entrar na lista “The Enthusiast 100”, acabada de publicar pela revista americana Wine Enthusiast. Esta é uma das revistas mais influentes no outro lado do Atlântico e por isso os vinhos aqui colocados acabam por ter vantagem na comercialização. Este é […]

Um Vinho do Porto, dois tintos e três brancos, todos de produção portuguesa, conseguiram entrar na lista “The Enthusiast 100”, acabada de publicar pela revista americana Wine Enthusiast. Esta é uma das revistas mais influentes no outro lado do Atlântico e por isso os vinhos aqui colocados acabam por ter vantagem na comercialização.
Este é o terceiro ranking top 100 da revista, depois dos Best Buys – para os vinhos com maior relação preço/qualidade – e dos Cellar Selections – vinhos com grande potencial de guarda.
Refira-se que os vinhos neste “The Enthusiast 100” foram seleccionados entre mais de 23.000 vinhos avaliados durante 2017, oriundos de quase todos os países produtores de vinho. A redacção considera este ranking o “best-of-the-best” e inclui vinhos de 17 países; a pontuação média é de 94 pontos e o preço médio orça os 35 dólares no mercado americano.
Em 2016 foram seis os vinhos portugueses na lista e em 2015 foram cinco. Mas em nenhum ano (de nossa memória) os brancos portugueses terem conseguido atingir a maioria dos distinguidos.
Pode encontrar a lista completa no site da Wine Enthusiast 

Vinhos portugueses no The Enthusiast 100
9º
Taylor Fladgate Porto Tawny 325 Anniversary (97 pontos – The Fladgate Partnership)
13º  Pêra-Manca Alentejo branco 2014 (95 pontos – Fundação Eugénio de Almeida)
24º Monte da Ravasqueira Vinha das Romãs Reg. Alentejano tinto 2014 (94 pontos – Soc. Agr. Dom Dinis)
34º Mouchão Ponte das Canas Alentejo tinto 2012 (93 pontos – Vinhos da Cavaca Dourada)
56º Quinta da Rede Douro Grande Reserva branco 2015 (93 pontos – Quinta da Rede)
74º Aveleda Reserva da Família Bairrada branco 2015 (92 pontos – Aveleda)

Uma questão de aromas

O que significa ser perfumista? E o que pode isso ter em comum com o vinho? Lourenço Lucena, o primeiro perfumista português a lançar um perfume de autor para o mercado, o Acqua di Portokáli, mostrou nos que as duas dimensões não são assim tão intocáveis.   TEXTO Mariana Lopes FOTOS Ricardo Palma Veiga e […]

O que significa ser perfumista? E o que pode isso ter em comum com o vinho? Lourenço Lucena, o primeiro perfumista português a lançar um perfume de autor para o mercado, o Acqua di Portokáli, mostrou nos que as duas dimensões não são assim tão intocáveis.

 

TEXTO Mariana Lopes FOTOS Ricardo Palma Veiga e cortesia Embassy

A nossa conversa teve lugar na Embassy Niche Perfumery, numa rua paralela à Avenida da Liberdade. Um projecto do modelo Ricardo Claudino, esta perfumaria abriu em Dezembro de 2016 com a promessa de democratização da perfumaria de nicho. A loja, de ambiente leve e descongestionado, apresenta uma decoração minimalista a fazer jus à classe dos frascos dispostos nas estantes, tão largo é o compasso entre eles, como demanda a beleza tão própria de cada um.

Lourenço Lucena, o primeiro e único “nez” português, membro da Société Française des Parfumeurs, começou por nos explicar as tipicidades que põem o “nicho” na “perfumaria”, afirmando que “é o elevar da perfumaria ao seu expoente, onde o limite é a ambição do perfumista criador e da sua visão para o perfume. É uma perfumaria, por natureza, muito mais livre, inusitada e irreverente”. Sem precisar de incentivo, continuou: “É a diferença entre um enólogo que trabalha para uma casa de vinho que já tem uma forte história, tendo de fazer os vinhos sob uma narrativa imposta, e o enólogo que trabalha com um produtor que lhe permite começar do zero e o instiga a inovar”. É certo que esta “haute couture” dos aromas está, por defeito, direccionada para compradores que fazem do perfume uma das suas prioridades orçamentais, com um preço médio que vai dos cem euros para cima.

Quem é Lourenço Lucena?
O entusiasta dos cheiros veio do marketing, ainda mantendo a sua empresa na área (de nome Blug), embora com inovações que se ligam ao perfumismo. É formado em Composição de Perfumes pela escola Cinquième Sens, em Paris, e fez o seu primeiro perfume ainda no início dessa formação, um perfume corporativo para a EDP. Esta criação surgiu no seguimento do novo conceito de marketing que Lourenço originou, o Sensorial Branding, que se prende com a criação de uma identidade sensorial para as marcas, em que o marketing deixa de ser puramente visual e ganha dimensões olfactivas e auditivas. Além deste tipo de trabalho, Lourenço também cria perfumes em regime de marca branca para lojas, marcas ou pessoas (normalmente públicas) que queiram lançar o seu perfume, e perfumes personalizados, para clientes que desejem ter o seu próprio, e único, aroma. Mas a sua criatividade não acaba aqui. Lucena é, também, Mr. Smell, marca do próprio que proporciona “scented dinners” (jantares perfumados ou aromatizados). Isto são jantares conceito, normalmente direccionados a empresas, nos quais, baseado num tema escolhido pelo anfitrião, Lourenço associa um conjunto de aromas a esse tema e, em parelha com um chef, é criada uma refeição inspirada nesses aromas.

Uma vocação, mas não um dom
“Qualquer pessoa pode chegar a perfumista…”, revelou Lourenço, “obviamente, é preciso ter uma apetência natural, um gosto especial pelos perfumes e pelos aromas, mas é algo que se educa”. Para o criador, estas coisas sempre fizeram parte da sua vida, de uma forma especial. Pré-adolescente, gastou as suas primeiras mesadas em música e em perfumes, mas advertiu que uma formação específica é necessária. “Qualquer indivíduo pode ser enólogo se fizer a sua formação, poderá é ser um bom ou um mau enólogo. Aqui é a mesma coisa”, disse. Lourenço terminou a academia, em Paris, há onze anos. Em Portugal, este tipo de curso não existe, apesar de ser possível chegar a perfumista com licenciatura em Química, embora isso dê apenas as bases mas, para Lucena “não basta saber as fórmulas e as moléculas, é preciso ter uma noção de estética, do belo, de harmonia”, e uma grande capacidade de memorização de matérias-primas, pois “da mesma forma que um enólogo tem de ter muito presente determinadas castas e a maneira como se conjugam umas com as outras, eu também tenho de saber como cheira a Rosa da Turquia e a diferença entre o Vetiver do Haiti e o Vetiver de Java. É essencial para visualizar o resultado a que se quer chegar”. Esse resultado, porém, nem sempre é o que o perfumista imaginou pois, tal como as diferentes uvas, as diversas matérias-primas de um perfume originam efeitos díspares consoante as conjugações. E consegue-se chegar a produtos semelhantes com diferentes conjuntos, como um bom Alvarinho que, com alguma idade, expressa as notas de querosene tão características de um Riesling, por exemplo.

Sabia que…
O Vetiver é uma erva gramínea originária da Ásia, mas cultivada hoje em diversas partes do mundo. O óleo essencial extraído de suas raízes é a base de muitos perfumes…

Perguntámos a Lourenço se gosta de vinho, e o “nez” anuiu. Revelou-nos que assistiu, inclusive, há uns anos, a uma formação de prova. Contou, de forma engraçada, que durante as provas identificava aromas no vinho que nunca passavam pela cabeça do formador, como benjoim (resina procedente de uma árvore exótica e autóctone da Sumatra, com aplicabilidades em incenso, gastronomia e perfumaria).

O perfumista tem pena que as duas áreas não se toquem mais, apesar de, em muitos pontos, andarem lado a lado. Com a cabeça a fervilhar de ideias, disse-nos “a indústria do vinho teria algo a ganhar se incorporasse profissionais da perfumaria, talvez na assistência à enologia. A composição de um perfume tem muito que ver com a forma como um enólogo compõe um vinho, pelo menos na parte sensorial, na de acertar e afinar o blend”. Curiosamente, depois de termos tropeçado no seu blog, já desactivado há muito tempo, apercebemo-nos que a maneira como Lourenço descreve um perfume é parecida com a do jornalista que prova vinho, como se vê no seguinte excerto:

“O primeiro contacto [com o perfume] revela o lado fresco e ligeiramente provocante pela presença de anis estrelado da tailândia, da jaca, um fruto asiático pouco conhecido em Portugal, o zimbro e o absinto. De seguida, sentimos as notas de camurça, as aromáticas folhas de tabaco, o absoluto de café e o buchu da África do Sul. Notas mais quentes que equilibram as mais frescas iniciais e preparam esta composição para as notas finais marcadamente envolventes, confortáveis e masculinas de que se destacam o absoluto de patchuli, as madeiras de carvalho e cedro do Texas e, ainda, o pau-ferro da Costa Rica, uma madeira mais ácida mas bastante aromática que no conjunto com as restantes madeiras fecham esta composição, respeitando a individualidade de cada matéria sem sobreposições.”

O perfume Acqua di Portokáli
Passada uma década do término da sua formação, tornou-se óbvio para Lourenço Lucena que o passo seguinte seria o lançamento do seu próprio perfume. Assim, depois de oito meses de ensaios, surgiu o Acqua di Portokáli, o primeiro perfume de um perfumista português. Lançada no passado mês de Julho, esta Eau de Parfum deve o seu nome à antiga fórmula académica de perfumes chamada “Água de Portugal”. “Portokáli” é, também, a palavra grega para “laranja”. Baseado nestas duas premissas, e homenageando a Laranja do Algarve (muito apreciada na perfumaria antiga), Lourenço criou a sua própria fórmula, dando protagonismo aos citrinos. As suas matérias-primas são a laranja, o limão (que pretende acalmar a força da laranja), a bergamota (muito usada em perfumaria para conferir sofisticação, subtileza e elegância), a rosa branca (fornece uma nota algo empoeirada) e o cedro (de notas fumadas, vem dar consistência final e corpo).

O frasco de 100ml de Acqua di Portokáli custa 120 euros e está à venda na Embassy Niche Perfumery (Rua Rodrigues Sampaio 89, Lisboa), no site da marca (www.acquadiportokali.com) e, a partir do dia 15 de Setembro, no Porto.

Para Lourenço, tanto o perfume como o vinho têm que ver com o prazer dos sentidos: “Escolhemos um perfume como escolhemos um vinho, aquele que mais nos agrada e que nos provoca sensações positivas. Ambos têm esse lado mágico e muito pessoal”.

O Castelão de Ermelinda Freitas: Quinta da Mimosa e Leo d’Honor

Uma empresa que não tem parado de crescer em modo exponencial desde o momento em que se lançou na venda de vinho com marca própria. Muito trabalho e empenho de quatro gerações de mulheres construíram a enorme reputação de que esta casa desfruta hoje. Duas das suas marcas homenageiam a uva castelão, casta emblemática da […]

Uma empresa que não tem parado de crescer em modo exponencial
desde o momento em que se lançou na venda de vinho com marca própria. Muito trabalho e empenho de quatro gerações de mulheres construíram a enorme reputação de que esta casa desfruta hoje. Duas das suas marcas homenageiam a uva castelão, casta emblemática da região de Palmela: Quinta da Mimosa e Leo d’Honor.

 

TEXTO João Afonso FOTOS João Neuman

A Casa Ermelinda Freitas foi criada em 1920 por Deonilde Freitas, a quem sucedeu Germana Freitas, que por sua vez deu o lugar a Ermelinda Freitas, mãe de Leonor Freitas, que hoje gere esta enorme empresa.

Quatro gerações de mulheres que se entregaram à produção de uva e vinho em Fernando Pó, um dos principais “terroirs” da uva Castelão em Palmela. Estas quatro gerações, com grande destaque para a última, representada por Leonor Freitas, são um exemplo do enorme empenho e perseverança que conseguiu inverter e transformar as origens rurais da família numa potestade vitivinícola nacional.

Em 1997, já com Leonor Freitas na gerência da firma, deu-se o pontapé de saída com o engarrafamento próprio e assim nasceu o primeiro Terras do Pó tinto. A partir daqui foi sempre a fazer contas de somar, não só na área de vinha como também na produção e venda de vinho. Aquela atinge hoje os 450 hectares e a venda anual de vinho (entre produção própria e vinho comprado) anda pelos 12 milhões de litros (bem longe do milhão de litros de 1997). No momento é a empresa que mais vinho vende na região de Palmela, detendo inclusivamente um importante cunho social ao comprar uvas a centenas de viticultores locais. Visitámo-la em busca de uma prova vertical dos seus melhores vinhos da casta Castelão.

Vinhas velhas para grandes vinhos
A minha primeira observação no caminho para a adega foi a quantidade de vinhas velhas de sequeiro plantadas em solos de areia branca, que me acompanharam por um par de quilómetros antes de chegar ao destino. Rasteiras, retorcidas, verdejantes num ano de seca extrema. “Tudo funciona aqui” – pensei. Logo depois vim a saber que a maioria destes tesouros vitícolas pertencem à casa Ermelinda Freitas.

É de duas destas vinhas, com muitas dezenas de anos de idade, que vêm os dois tintos 100% Castelão que provei e que representam a tradição e a vocação da casa.

Os Quinta da Mimosa vêm da quinta com o mesmo nome, onde se encontra uma vinha de Castelão com cerca de 60 anos de idade, e o Leo d’Honor de uma pequena vinha, designada por Vinha da Casinha, uma parcela que podia ser “mãe” da anterior.

A casta Castelão, ex-libris vitícola da família Freitas, que Leonor considera ser “uma importantíssima herança” dos seus antepassados, parece ter uma origem meio espanhola (Jaen branco) e meio portuguesa (Alfrocheiro).

É boa produtora e a videira e cacho são bem arejados, permitindo resistir bem aos fungos. Tem a película muito resistente ao escaldão, factor determinante nestes solos de areia branca que reflectem intensamente a reverberação solar. Apenas desilude quando a produção se excede. Nesse caso, temos vinhos com pouca cor e pouco grau e com um certo cunho verde e vegetal. Por isto mesmo, quando falamos em uva Castelão devemos equacionar também a sua produção.

Perguntei ao enólogo de Leonor Freitas, Jaime Quendera, qual era produção por hectare máxima desta casta antes de deixarmos para trás a qualidade de vinho. Quendera, que suspeito ter tanta habilidade para fazer vinho como para fazer contas, respondeu-me como sempre o fez, de um modo extremamente pragmático e objectivo: acima das 14 toneladas/hectare a uva não dá para nada. De 10 a 14 ton./ha dá para vinho até 1,99€; entre 6 a 10 ton/ha dá para vinho de 3 a 4€ e abaixo de 5 toneladas vamos para os vinhos de topo. Maior clareza é difícil – concluí. Os vinhos em prova vêm de vinhas velhas de sequeiro, da casta Castelão, com produções que por vezes não atingem as 4 toneladas por hectare.

Para Leonor Freitas, esta casta, que reserva para os seus vinhos de topo de gama, continua a ser a imagem principal da região e, se até há 3 anos plantavam outras castas (“porque só tínhamos Castelão” – refere), hoje voltam à casta paradigma de Palmela quando reestruturam vinhas velhas. Aqui também se opta por manter parte da área antiga intocada, de modo a manter uma área significativa de vinha velha para os melhores vinhos da casa.

Sabia que…
A casta Castelão é um ex-libris vitícola da família Freitas, que a considera uma “importantíssima herança”

Os dois tintos de Castelão
Ambas as marcas são lançadas a partir de 1999, e o Leo d’Honor só sai quando preenche os requisitos exigidos pelo enólogo Jaime Quendera. “Todos os vinhos de topo têm a sua filosofia, este tem de ser sempre um vinho maduro, com boa extracção e evolução longa em garrafa antes de ser lançado a público.” Foram apenas cinco as colheitas de Leo d’Honor até ao momento. O stock encontra-se esgotado e ainda não se sabe se vai haver 2013. A decisão sairá apenas para o ano.

O Leo d’Honor começou por ser feito em lagar, mas agora recorre às cubas para aumentar o período de maceração e a respectiva extracção. Ambos os vinhos estagiam em barrica nova de carvalho (a empresa possui mais de 4.000 barricas), sendo que o Quinta da Mimosa utiliza mais americano do que francês e o Leo d’Honor quase tudo francês. As malolácticas são feitas em cuba e o vinho vai para barricas apenas no Inverno. Um estágio de 18 meses para o Leo d’Honor e de cerca de metade disso para o Quinta da Mimosa.

Provámos todos os Leo d’Honor e os Quinta da Mimosa das colheitas em que não foi lançado o topo de gama. Os Leo d’Honor são sempre mais concentrados e tânicos do que os Quinta da Mimosa. Porém, cada um no seu estilo, encontrei elevada qualidade em ambas as marcas. E o carácter de Palmela e da uva Castelão bem vincados.

Na senda de José Maria dos Santos
De origem humilde, José Maria dos Santos tirou o bacharel em veterinária. Visitava amiúde a riquíssima viúva do Barão de São Romão, a Baronesa Maria Cândida Ferreira Braga (filha de outra importante fortuna – o capitalista Alexandre José Ferreira Braga), para dar assistência médica à sua cadelinha de estimação. A relação acabou por se tornar mais pessoal e veterinário e baronesa casaram-se.

José Maria dos Santos viria a revelar-se um extraordinário gestor de uma das maiores fortunas do Reino de Portugal de finais de oitocentos e início de novecentos, tornando-se um caso de estudo do empreendorismo agrícola da época. Plantou a maior vinha do mundo em Rio Frio, o maior montado na Herdade de Palma e o maior olival da Península Ibérica na colossal Herdade dos Machados. As vinhas, que se estendiam da Herdade de Rio Frio até ao Poceirão, junto a Fernando Pó, onde a empresa Ermelinda Freitas detém uma importante área de vinha, terão sido as primeiras com forte cunho comercial a serem plantadas nas areias.

José Maria dos Santos, secundado mais tarde por José Rovisco Pais na Herdade de Pegões, levaria até aos seus vastos projectos agrícolas centenas de trabalhadores/colonos oriundos do Litoral Centro e Baixo Mondego (chamados “Caramelos”), que desbravariam brejos para semear searas e grandes extensões de vinha, viabilizando uma importante área agrícola, até então nunca explorada.

Os antepassados de Leonor Freitas chegaram precisamente entre os colonos que iriam plantar as primeiras vinhas. Como ela própria refere: “Sempre fomos uma família de muito trabalho e resiliência; por vezes, quando penso em tudo o que fizemos para chegar até aqui, eu própria fico admirada.”

Ervideira: espíritos irrequietos

A família Leal da Costa produz vinhos no Alentejo desde os anos 90, mas a história é bem mais longa. No centro está Duarte Leal da Costa, o elemento da empresa familiar que assegura, desde o início, a gestão do projecto. Um espírito desassossegado, pronto para somar novidades ao portefólio vínico, sempre à procura da […]

A família Leal da Costa produz vinhos no Alentejo desde os anos
90, mas a história é bem mais longa. No centro está Duarte Leal da
Costa, o elemento da empresa familiar que assegura, desde o início,
a gestão do projecto. Um espírito desassossegado, pronto para
somar novidades ao portefólio vínico, sempre à procura da diferença.

 

TEXTO António Falcão NOTAS DE PROVA Valeria Zeferino FOTOS Ricardo Palma Veiga

AMIEIRA Marina, Alqueva, 16 de Abril de 2016. Uma multidão de pessoas aguarda junto à rampa de entrada de barcos que um tractor puxe algo que parece vir das entranhas da água. Ao fim de algum tempo, o motor acelera, a corda mexe-se e uma caixa plástica de generosas dimensões sobe lentamente a rampa. A multidão aplaude. Por lá estavam bombeiros, autoridades locais, curiosos e muitos jornalistas, alguns com câmaras de televisão. Ao fim de hora e meia a rampa enche-se de caixas e a operação é dada por terminada.

Um barco a cerca de 100 metros parece ser o centro de controlo de todo o aparato. Vêem-se mergulhadores na água, mas à proa do barco uma figura gesticula e dá orientações. Reconheço-o imediatamente. É Duarte Leal da Costa, que minutos depois está em terra. Este aparato mediático assenta-lhe como uma luva. E ele sabe bem porquê: o vinho que tinha repousado durante vários meses nas profundezas do Alqueva – Conde de Ervideira Reserva tinto 2014 – acabou por esgotar no mercado, em velocidade recorde, cerca de 30.000 garrafas, a cerca de 14 euros cada.

Este episódio ilustra bem a cabeça frenética do gestor da Ervideira (ervideira.pt). Mas existem mais exemplos: o lançamento do primeiro branco de uvas tintas, alguns anos antes, de seu nome Invisível. Todos os anos esgota, apesar de as quantidades crescerem desde a primeira colheita, de 13.000 (2009) para 60.000 (2016). E a preços a rondar os 9 euros! A Ervideira foi também o primeiro produtor do Alentejo a apresentar um espumante rosé. Outro exemplo é ainda, mais recentemente, o das novas fornadas de vinhos que já foram também para o fundo do Alqueva, incluindo espumantes em várias versões.

Se Duarte é um empreendedor sempre em ebulição, o seu ‘companheiro’ de todos os dias, o enólogo Nelson Rolo, consegue estar à altura. No povo diz-se que se junta “a fome à vontade de comer”…

Investir forte em novas vinhas
Mais do que ‘fait divers’, estes episódios acabam por ser outra forma de levar o negócio para a frente. E isso é a outra faceta de Duarte: homem atento às contas, sabe controlar os custos da exploração ao milímetro. Basta vê-lo a manobrar a máquina de calcular. E por isso fica fulo quando vê vinhos abaixo do preço de custo nas grandes superfícies: “Como é possível?! Esta gente não sabe fazer contas?!”

Contas é outra coisa que está agora a fazer. Por outras razões, relacionadas com as vinhas. Duarte quer dar um pulo para a frente na qualidade dos vinhos, e também conseguir aumentar o preço médio de venda. Agora é a altura certa. A empresa está bem financeiramente, facto que lhe dá muito orgulho, e há assim dinheiro para investir. Parte da vinha está a precisar de renovação, não só para introduzir novas videiras a substituir algumas já cansadas, mas também para alterar castas que melhor assegurem o aumento na qualidade. Uma boa parte da vinha resultou de decisões tomadas há muitos anos e hoje sabe-se muito mais do que na altura. Por outro lado, têm existido problemas de Esca, uma doença do lenho (incurável) que tem dado várias dores de cabeça.

Duarte disse-nos que quer reestruturar cerca de 100 dos 160 hectares de vinha. Estamos a falar de um forte investimento, especialmente se pensarmos que plantar um hectare, para ele, não custa menos de 13.000 euros. Custo aproximado total? Mais de 1 milhão de euros! A maioria da nova vinha vai ficar na Herdade do Monte da Ribeira, ao pé de Alvito, no concelho da Vidigueira. Em detrimento da Herdadinha, em Reguengos, que alberga a adega, uns 65 quilómetros mais a norte (por estrada). Uma das razões para esta ‘transferência’ está na área e na disponibilidade de água. Em Alvito a área não só é muito maior como também a herdade é atravessada por um enorme canal abastecido pela albufeira do Alvito (que recebe do Alqueva) e por isso não há aqui qualquer falta de água. Na Herdadinha, mais a norte, a água do Alqueva só irá chegar lá para 2020…

Preparar a terra
As obras já começaram, e em força. Umas parcelas já têm vinha nova e outras estavam em preparação para receber vinha. Um tractor de rasto de generosas dimensões ripou a terra em cruz e estava nesta altura a surribar. A primeira operação rasga a terra em profundidade, com o auxilio de um dente. A surriba é feita depois com o auxilio de uma enorme charrua que vira a terra, expondo uma camada de solo que está escondida há muito. E depois entra matéria orgânica…

A quantidade de rocha que tem saído é notável. As pedras maiores são removidas à máquina. As outras são trituradas na passagem de outra máquina. Como falamos sobretudo de xisto, uma rocha que se desfaz facilmente, não há grande problema. Mas o feitor, Narciso Campaniço, diz-nos que uma variedade de xisto, de cor rosa, não parte facilmente e vai acabar por ser removido à mão.

Felizmente, não falta mão-de-obra. A Ervideira tem em permanência uma boa equipa, na maioria constituída por mulheres, de várias idades, uma raridade nos tempos que correm. Esta equipa faz todo o trabalho de campo, dos amanhos de vinha à colocação de postes e arames. Duarte tem muito orgulho na sua equipa, conhece os elementos um a um mas, pelo que vi, também é exigente. No dia em que por lá passamos, tinha interrompido as férias para pagar ordenados. Como faz religiosamente todas as semanas…

Aumentar a qualidade
A nível de qualidade, a troca é benéfica para a exploração. Castas antigas, com pouco interesse enológico estão a ser substituídas por outras mais consentâneas com os índices de qualidade pretendidos. Por exemplo, Castelão e Moreto estão de saída. Nos brancos vai aumentar a área de Alvarinho e Arinto, duas variedades que têm provado muito bem no acompanhamento da predominante Antão Vaz, tornando os lotes mais frescos. A casta banca Perrum é das que perde: “As videiras envelheceram precocemente”, diz-nos Duarte. A mudança total estará pronta até 2019. Duarte e Nelson ainda não sabem ao certo todas as castas a plantar e, ao almoço, discutiam as opções. Para além das faladas, a tinta Touriga Franca parece uma escolha segura. Até lá, as reestruturações vão continuar e por isso as decisões finais podem esperar…

Mas nem tudo pode esperar: o planeamento da vindima é prioritário. Nelson Rolo faz todos os anos um autêntico dossier com o destino a dar a todas as uvas em função da marca de vinho. E este ano a coisa é mais complicada porque, com menos área de vinha, a Ervideira teve que comprar uvas a fornecedores locais. O dossier contempla todas as marcas – do S de Sol até ao Conde d’Ervideira Private Selection, passando pelo incontornável Invisível.

As novas apostas
As quintas já são da família há gerações (existem vinhos de 1880!). Um dos seus ascendentes foi o Conde da Ervideira, personagem do séc. XIX que, pela sua genica empresarial, foi nobilitado pelo rei D. Carlos. A exploração de marcas próprias começou no início deste século, depois de um cliente das uvas então produzidas ter cancelado o contrato poucos meses antes da vindima. Duarte, à frente da Ervideira desde 1988, fala com a mãe e os cinco irmãos e, num sufoco, decidem avançar com produção própria. Uma adega é construída em tempo recorde e, a partir daí, a casa nunca mais parou. A produção foi aumentando, o mesmo acontecendo às vendas e aos prémios que os vinhos foram conseguindo. É mesmo caso para dizer que “há males que vêm por bem”.

Com a reestruturação nas vinhas a produção tem descido mas com as novas vinhas em velocidade de cruzeiro Duarte espera alcançar ou superar o milhão de garrafas. Vai levar uns anos, mas a adega já está a sofrer alterações com, por exemplo, a entrada de novas cubas de inox. Com mais espaço para fermentação e estágio, Nelson Rolo vai aproveitar para fazer vinhos com mais calma, até porque tudo é fermentado casta a casta. Duarte gostaria ainda de criar uma sala de provas mais ampla e embelezar a adega. Para já está apenas em plano. Os outros investimentos – vinha e adega – têm prioridade…

A Ervideira é ainda conhecida por duas fortes apostas recentes: enoturismo e lojas próprias. No primeiro caso, a loja da adega recebe milhares de visitas todos os anos, oferecendo provas desafiantes e com originalidade. No dia da nossa visita, um grupo de enófilos estrangeiros tentava decidir qual o vinho de que mais gostavam. Afinal, os vinhos, provados às cegas, eram iguais, apenas variava a temperatura de serviço.

Esta loja e as duas outras existentes – em Reguengos e Évora – geram já uma facturação muito interessante, das mais significativas entre os polos de enoturismo do Alentejo. Finalmente, os mercados externos têm também ajudado ao crescimento da empresa, mas obrigam a muitas viagens e a semanas fora de casa. Mas não há alternativa…

Rumo ao futuro
Dir-se-ia que o pragmatismo deste gestor, ou mesmo a sua irreverência ou frontalidade, seria um factor de afastamento no meio dos seus pares. Na verdade, nada disso acontece: do que ouvimos no meio, Duarte Leal da Costa é daqueles produtores que congrega simpatias. A sua capacidade de trabalho é admirada, bem como o seu fair play e, porque não, o seu contagiante dinamismo.

Os vinhos nascidos das terras da Ervideira parecem perceber isto e ninguém os pode apelidar de pouco sérios, mesmo os mais baratos. Os perfis privilegiam a elegância e a moderação alcoólica, como podemos constatar pelas provas anexas, da faixa superior do portefólio da Ervideira. Mas, acredito, vamos certamente apreciar ainda mais os vinhos que irão surgir com as novas vinhas em produção. Basta aguardar mais um pouco…