Projectos de família: Dona Matilde e Lagares

Na região duriense têm lugar todo o tipo de projectos, das grandes empresas ao pequeno produtor, dos grandes investimentos estrangeiros às heranças de família que se querem preservar. Foi neste ambiente familiar que fizemos uma pequena visita a dois produtores do Douro. Os pergaminhos são muitos, mas actualmente é muito difícil “puxar” por eles para […]

Na região duriense têm lugar todo o tipo de projectos, das grandes empresas ao pequeno produtor, dos grandes investimentos estrangeiros às heranças de família que se querem preservar. Foi neste ambiente familiar que fizemos uma pequena visita a dois produtores do Douro. Os pergaminhos são muitos, mas actualmente é muito difícil “puxar” por eles para levar o negócio para a frente. Por isso há tradições a manter e outras a descartar. A bem do Douro e das gerações que a seguir pegarão, também elas, nesses projectos. Que se querem sempre familiares.

 

TEXTO João Paulo Martins FOTOS Anabela Trindade

PEGO no telefone e disco o número para falar com Manuel Ângelo Barros, então administrador da empresa de Vinho do Porto Barros Almeida. Passavam dois minutos das 17h30. Tive azar. Atende-me o segurança e diz-me: “Já não está cá ninguém, agora só amanhã.” Era assim que algumas empresas familiares do Vinho do Porto funcionavam e a Barros era um bom exemplo. Era tradição da casa e assim se manteve até à venda da empresa à Sogevinus. O facto de à época não existirem telemóveis facilitava a vida a quem ali trabalhava; depois das 17h30, adeus e amanhã é outro dia. E é muito provável que esta prática remontasse a 1914, quando a empresa Barros foi fundada pelos antepassados de Manuel Ângelo.

A ligação ao vinho é, como se vê, secular e a própria Quinta Dona Matilde, que acabou por readquirir à Sogevinus em 2006, foi comprada em 1927. Quem vai da Régua para o Pinhão e olha para a margem norte não pode deixar de notar a imensa frente de rio que esta quinta tem. Aqui ainda há uma paisagem variada, desde terrenos de mato rasteiro a mortórios e vinhas reconstruídas, actualmente a perfazerem 28 hectares. Da importância desta propriedade – 93ha ao todo – fala a primeira demarcação pombalina, que a incluiu, em 1756.

Essa herança e a preservação da mesma estão no sangue de Manuel Ângelo, que dedicou toda a vida ao Vinho do Porto e já tem no seu filho, Filipe Barros, o continuador entusiasta do projecto. O projecto é que não prevê uma aposta forte no Vinho do Porto, apesar das 100 pipas de benefício que têm. Até agora declararam os vintages de 2007, 09 e 11. E o 16? Talvez, diz Manuel Ângelo, cauteloso. Muitas das uvas desse benefício são vendidas à Taylor’s. A própria marca Feuerheerd, que Manuel Ângelo tinha comprado à Barros Almeida, acabou por ser vendida à empresa Barão de Vilar, que agora comercializa Porto com aquele nome. Os vinhos do Porto Colheita que possam aparecer com o nome Dona Matilde são adquiridos fora.

“Vinificamos as uvas em conjunto, acreditamos que é assim que se expressa o terroir da quinta Dona Matilde”

E para DOC Douro a quinta tem de quase tudo, desde vinhas velhas com 60 a 80 anos de idade até vinhas mais recentes, onde crescem as castas habituais da região e muita Tinta Amarela, esta mais vulgar nesta zona do Douro mas com uma maturação precoce de cerca de 10 dias em relação às outras, “o que é uma grande complicação”. Aqui, diz-nos o enólogo João Pissarra, “apostamos tudo no field blend, vinificamos as uvas em conjunto, uma vez que acreditamos que é assim que melhor se pode expressar o terroir” e, logo acrescenta o responsável da viticultura, José Carlos Oliveira, “não regamos nada, só nos dois ou três primeiros anos da vinha é que a rega é obrigatória”. – “Mas isso é fácil aqui, no Douro Superior já acredito que sem rega seria impossível.”

Numa viticultura de produção integrada, com recurso mínimo a produtos para tratamentos, também se usam as técnicas antigas: “Nas vinhas mais velhas usamos o macho para a mobilização do terreno e nas outras com frequência uma capinadeira para desbaste de erva.” A quinta, entretanto, foi objecto de renovação e agora já há instalações capazes de receber visitantes e, em breve, turistas. O projecto, esse, está em boas mãos e a família Barros veio para ficar.

São lagares, Senhor…
Aparentemente são lagares iguais a tantos outros que existem pela região, mas uma observação mais minuciosa diz-nos que estamos perante uma obra faraónica. Provavelmente será por isso que se chama Quinta dos Lagares. É que, além dos lagares
de granito, todos os suportes dos barrotes de madeira do tecto são em volumosas pedras graníticas, de tamanhos diferentes. Estas diferenças significam que foram feitos de propósito e cada um tem uma altura diferente. Quando foram feitos? De onde veio a pedra? Talvez Favaios, dizem-nos, com a pouca certeza que a nebulosa história passada autoriza. E nesse recuo à procura das origens vamos esbarrar no marco pombalino que ali existe e atesta a qualidade e antiguidade da quinta. Depois de várias vicissitudes, a quinta veio parar, em 1920, à família Lencart, na posse de quem se mantém até hoje.

A localização da quinta é, no mínimo, espectacular, com uma vista de 360º, e as vinhas velhas são uma mais-valia que por aqui todos querem preservar. Pedro Lencart e sua mulher, Isabel Sarmento, estão a levar por diante um projecto que inclui o vinho mas também o azeite, a cortiça e o mel e o turismo. Tudo isto gerindo um património de 70 hectares de quinta, com 27 de vinha, 12 de olival em produção biológica e 31 de floresta. Os cinco herdeiros alugaram as instalações à empresa criada por Pedro e Isabel e, com a renovação da adega (em que se mantiveram os lagares), iniciou-se a comercialização dos vinhos e azeites.

A quinta dos Lagares veio parar, em 1920, à família Lencart, na posse de quem se mantém até hoje.

A produção de Vinho do Porto também está na calha. O benefício é vendido à família Symington. Manter os lagares sim, manter a pisa a pé é mais complicado, como nos diz Luís Leocádio, enólogo: “Vamos pôr robots nos lagares porque a falta de mão-de-obra não tem solução. Actualmente a versão mais recente dos lagares é mais um volteador, o que promove a extracção. Não é a reprodução da pisa a pé mas funciona bem. Vai ser essa a opção”, diz-nos.

Aqui, à cota de Favaios, é possível fazer vinhos de tipo diversificado e tirar partido das boas vinhas velhas de que dispõem. Um dos vinhos, o Lagares VV44, é exactamente a expressão disso, proveniente de vinhas plantadas em 1944, com as castas misturadas e onde pontificam, ainda que em pequena percentagem, castas como Cornifesto, Marufo, Tinta Aguiar, Bastardo, Moreto, Mourisco de Semente. Projecto novo com bases muito antigas, por aqui conserva-se o que é de conservar e inova-se onde é preciso. O Douro e os consumidores agradecem.

Alentejo Tinto por menos de €5: muitos e bons

[vc_row type=”in_container” full_screen_row_position=”middle” scene_position=”center” text_color=”dark” text_align=”left” overlay_strength=”0.3″ shape_divider_position=”bottom”][vc_column column_padding=”no-extra-padding” column_padding_position=”all” background_color_opacity=”1″ background_hover_color_opacity=”1″ column_shadow=”none” column_border_radius=”none” width=”1/1″ tablet_text_alignment=”default” phone_text_alignment=”default” column_border_width=”none” column_border_style=”solid”][vc_column_text] A excelente relação qualidade/preço dos vinhos do Alentejo é certamente um dos factores que conduzem a região ao top das preferências dos apreciadores nacionais. Um lugar de onde não deverá tão cedo ser destronada, a julgar […]

[vc_row type=”in_container” full_screen_row_position=”middle” scene_position=”center” text_color=”dark” text_align=”left” overlay_strength=”0.3″ shape_divider_position=”bottom”][vc_column column_padding=”no-extra-padding” column_padding_position=”all” background_color_opacity=”1″ background_hover_color_opacity=”1″ column_shadow=”none” column_border_radius=”none” width=”1/1″ tablet_text_alignment=”default” phone_text_alignment=”default” column_border_width=”none” column_border_style=”solid”][vc_column_text]

A excelente relação qualidade/preço dos vinhos do Alentejo é certamente um dos factores que conduzem a região ao top das preferências dos apreciadores nacionais. Um lugar de onde não deverá tão cedo ser destronada, a julgar pela quase meia centena de tintos que trouxemos à nossa mesa de provas.

 

TEXTO João Afonso FOTOS Ricardo Palma Veiga[/vc_column_text][vc_row_inner column_margin=”default” text_align=”left” el_class=”remove-space-vinhos”][vc_column_inner column_padding=”no-extra-padding” column_padding_position=”all” background_color_opacity=”1″ background_hover_color_opacity=”1″ column_shadow=”none” column_border_radius=”none” width=”1/1″ column_border_width=”none” column_border_style=”solid”][vc_column_text]PORTUGAL está na moda e o Alentejo também. Esta é uma terra de grandes oportunidades e de enormes e diversificados recursos. O Alentejo produz boa parte da matéria-prima para o sector corticeiro mais próspero do mundo; está num lugar de destaque nos “radares” turísticos internacionais; tem um sector oleícola pujante, culturas de regadio em força, produção intensiva de excelente carne que apoia uma não menos famosa gastronomia e um sector vitícola extremamente dinâmico e a preparar-se para mais um grande salto.

Qualidade, imagem e preço competitivo é isso que os consumidores buscam e encontram nos vinhos alentejanos. E por menos de €5 há muitos e bons por onde escolher.

Uma região sempre em alta
Muito mudou o Alentejo nas últimas décadas! Só para se ter uma ideia, em 1979 existiam no Alentejo 12.500 hectares de vinha e 14 empresas vinícolas. Hoje já ultrapassou os 22.000 hectares de vinha e existem cerca de 360 agentes produtores e engarrafadores.

Vários factores contribuíram para um continuado crescimento vitícola: uma região de latifúndio e a possibilidade de se criarem facilmente grandes extensões de vinha mecanizável e com baixos custos de produção; a orografia que, sendo geralmente mais plana, permite um muito maior rendimento de trabalho com a consequente redução de custos; a tecnologia de irrigação que hoje acompanha toda a nova plantação, assegurando não só o pleno vingamento das plantas mas também um controlo quase perfeito da sua produção; e, por último, um clima extraordinário para a produção de vinho, com um tempo normalmente quente e seco durante grande parte da vindima, que minimiza as doenças e assegura uma grande quantidade de excelente matéria-prima.

Há muitos anos que o Alentejo domina o mercado nacional de vinhos. Segundo uma análise feita pelo IVV, baseada nos últimos dados Nielsen, o Alentejo vendeu 44 milhões de litros em 2016 (44% do total de vinho certificado vendido em Portugal) e, ainda que tenha baixado 3% do volume de vendas em Portugal (de 46,1 para 44,6 milhões de litros), na facturação teve um aumento de valor de 7.112.000€ (de 179,1 para 186,2 milhões de euros). Aliás este é um quadro comum a todo o país, com um significativo aumento vendas e de valor no ano de 2016 relativamente a 2015.

O Alentejo mantém-se destacado no primeiro lugar de vendas, seguido pela região dos Vinhos Verdes, com 17, 6 milhões de litros e 71 milhões de euros de vendas, e pela Península de Setúbal, com 13,7 milhões de litros vendidos e 45,4 milhões facturados.

Ao que tudo indica, o Alentejo irá continuar líder no futuro próximo, não só pelas enormes vantagens geográficas e climáticas de que falámos mas também porque muitas das principais empresas portuguesas do sector não só reforçam continuamente a sua aposta na região, com aumento da área de vinha e maior produtividade vitícola, como chegam todos os anos novas empresas prontas a investir forte.

Sabia que…
Foi nas minas alentejanas de Aljustrel e S. Domingos que Júlio César, governador da Lusitania, conseguiu ouro suficiente para voltar a Roma e se tornar Imperador no ano 60 A.C.

As castas do Alentejo
As tendências vitícolas mudam com alguma regularidade e o Alentejo não é excepção. Ora se segue o mercado,nora se faz frente à concorrência através da inovação. Sennos anos 1980 o Aragonez, o Castelão e a Trincadeira eram as castas tintas mais plantadas, no início deste século foram substituídas na preferência pela Touriga Nacional, Syrah e Alicante Bouschet. Em anos recentes, outras variedades tomam lugar no topo da lista dos produtores. Desde há dois anos que as novas licenças de plantação de vinha nacional não podem ultrapassar, no total, 1% da área existente. Na quota nacional, cada denominação de origem tem a sua quota regional. Em 2016 houve um crescimento de apenas 100 hectares de vinha no Alentejo, mas em 2017 haverá um aumento de 800 hectares (aprovados, mas ainda não confirmados) para 1.600 hectares de candidaturas.

Como a vontade de plantar é muito superior ao permitido, os projectos são hierarquizados. E na candidatura de 2017, o programa VITIS já valoriza a plantação de castas portuguesas. Neste último quadro de apoio, os projectos que plantam castas nacionais são valorizados e assim a Syrah (entre outras castas francesas) foi despromovida dos encepamentos mais recentes. O Alicante Bouschet (casta de origem francesa e adopção portuguesa) domina agora as novas plantações, seguido pela Touriga Nacional, Touriga Franca e Aragonez. A grande novidade é a Touriga Franca, que, perfeitamente adaptada aos calores fortes de Verão, pode paulatinamente e a curto prazo passar a fazer parte substantiva deste Alentejo em constante renovação.

A vinha do Alentejo
• 21.250 hectares de vinha (77,24% tinto e 22,76% branco), da qual a esmagadora maioria é vinha nova regada (14.520 hectares)
• 8 variedades de uva
• Aragonez, Trincadeira, Alicante Bouschet, Syrah, Touriga Nacional, Castelão, Cabernet Sauvignon, Alfrocheiro, Moreto, Touriga Franca e Petit Verdot perfazem 96,02% do total de vinha tinta.
• Roupeiro, Antão Vaz, Arinto, Rabo-de-Ovelha, Fernão Pires, Manteúdo, Verdelho, Gouveio, Diagalves, Alvarinho e Viognier somam 89,42% do total de vinha branca.

Os vinhos Premium
Uma prova de tintos do Alentejo inclui assim uma grande heterogeneidade de vinhos, oriundos de diferentes castas e com diferentes perfis de aromas e sabores. Os vinhos em prova, com preço de retalho, globalmente, entre os €3,50 e os €5, integram uma oferta orientada para consumidores que buscam vinhos com qualidade muito evidente, que se destacam dos chamados “entrada de gama”.

Como nos disse o produtor Tiago Cabaço, “tentamos fazer um tinto para os clientes mais exigentes, com mais cor e mais estrutura, e que evoluiu bem em garrafa mas que custa pouco dinheiro”. Já Alexandre Relvas Júnior (Herdade de S. Miguel) adianta que, “como o ano de 2016 não foi fácil”, o vinho deste segmento recebeu inclusivamente várias barricas inicialmente destinadas ao tinto de patamar superior, o Reserva.

Mas, por norma, estes tintos não têm barrica. O vinho Sossego, por exemplo, tem apenas estágio em inox, como confirmou Luís Cabral de Almeida, o enólogo responsável pelos vinhos da Sogrape no Alentejo, e a vinificação foi propositadamente conduzida num registo “suave”, visando um tinto fácil de beber.

Este registo é sublinhado por Luís Duarte (um dos enólogos mais experientes do Alentejo): “Um tinto desta gama deve ter algum volume, não ter peso, ser pouco ácido ou amargo, pouco complexo e ter fundamentalmente fruta! Vinificações conduzidas com delicadeza, principalmente se as castas largam muito tanino, como a Aragonez.” No caso do Quintas de Borba, nova marca da Adega Cooperativa local, o enólogo Óscar Gato diz ter procurado “um tinto mais ambicioso, com estágio de 9 meses em barricas de 1ª e 2ª utilização”.

Neste quadro, Bernardo Cabral, enólogo do tinto Vicentino, usa uma técnica mais extractiva para algumas castas e mais amaciadora para outras. Depois, no final, o lote faz o resto. Outra ressalva de Luís Duarte, a este mesmo propósito, é que não há vinhas nem castas concretas para este tipo de vinho. “Há países em que tudo está perfeitamente formatado – para vinhos com terroir ou sem ele – aqui vamos tentando fazer o melhor possível e depois da vindima vamos  rovando, selecionando e arrumando os vinhos por categorias”.

As castas dominantes nestes tintos são Aragonez, Touriga Nacional e Alicante Bouschet, que depois podem ser acompanhadas pela Syrah, para dar mais complexidade, ou por Trincadeira, para dar mais frescura – e assim se vai construindo um vinho que nos oferece muito por um
preço moderado. Esta é uma categoria considerada “de volume”, mas onde a qualidade é perfeitamente percepcionada pelo consumidor.[/vc_column_text][/vc_column_inner][/vc_row_inner][/vc_column][/vc_row][vc_row type=”in_container” full_screen_row_position=”middle” scene_position=”center” text_color=”dark” text_align=”left” overlay_strength=”0.3″ shape_divider_position=”bottom”][vc_column column_padding=”no-extra-padding” column_padding_position=”all” background_color_opacity=”1″ background_hover_color_opacity=”1″ column_shadow=”none” column_border_radius=”none” width=”1/1″ tablet_text_alignment=”default” phone_text_alignment=”default” column_border_width=”none” column_border_style=”solid”][nectar_animated_title heading_tag=”h6″ style=”color-strip-reveal” color=”Accent-Color” text=”Em Prova”][vc_column_text]


[/vc_column_text][vc_column_text]

Edição Nº4, Agosto 2017

[/vc_column_text][/vc_column][/vc_row]

Touriga Franca: a uva que todos querem

A Touriga Franca está na moda. Ainda que ligada sobretudo ao Douro, de norte e sul do país a sua área de vinha tem crescido enormemente nos últimos anos, estando à beira de ser a casta tinta mais plantada em Portugal. Tem tudo a seu favor, na vinha e na adega. E uma estória fantástica […]

A Touriga Franca está na moda. Ainda que ligada sobretudo ao Douro, de norte e sul do país a sua área de vinha tem crescido enormemente nos últimos anos, estando à beira de ser a casta tinta mais plantada em Portugal. Tem tudo a seu favor, na vinha e na adega. E uma estória fantástica que poucos conhecem.

 

TEXTO João Afonso FOTOS Ricardo Palma Veiga e cortesia dos produtores

CHAMADA Touriga Francesa durante largas décadas, a casta passou no final do séc. XX a Touriga Franca, para que a sua origem não fosse erradamente relacionada com França. Em termos vitícolas é muito resistente ao oídio e ao míldio (com o senão de atrair a traça da uva), produz sempre bem e com muita qualidade. E representa uma das poucas castas portuguesas que agrada simultaneamente ao viticultor e ao enólogo.

Tem uma característica peculiar. Em uva não sabe a nada e em vinho sabe a tudo. É uma alquimia difícil de explicar, mas assim acontece. A uva tem muito pouco sabor quando provada do cacho, mas o vinho tem bastante intensidade e qualidade de aromas e sabores.

É também uma casta termófila, que necessita de muito calor para amadurecer convenientemente as suas uvas. O Vale do Douro é o ‘terroir’ do seu fenótipo. Ali nasceu esta uva e se foi moldando à terra e ao clima. Contudo, hoje espalhada por todo o país, origina igualmente excelentes resultados em zonas similares ao Douro, mais quentes e secas. Os vinhos que produz são em geral fortemente estruturados, juntam elegância, complexidade e solidez, respeitam o ‘terroir’ e revelam grande potencial para crescer em garrafa. Por tudo isto, não espanta que a Touriga Franca seja querida por um cada vez maior número de produtores, dentro e fora do Douro.

“A Touriga Franca é uma casta que saiu melhor do que os pais”, como muito bem resume António Magalhães, viticólogo da empresa Fladgate Partnership, uma das maiores casas exportadoras de Vinho do Porto (Taylor’s, Fonseca, Croft, etc.). A frase aparentemente enigmática deste prestigiado técnico duriense, explica-se com uma estória que ele conhece melhor do que ninguém.

Nascida em tempos difíceis
As palavras são minhas, mas a estória foi-me contada por António Magalhães, com quem tenho trocado longas e entusiásticas conversas acerca da Touriga Franca.

O nascimento da Touriga Franca deve-se à perseverança humana. A perseverança do viticultor duriense da segunda metade do séc. XIX, na busca de soluções para a devastadora praga da filoxera.

Não é necessário grande esforço de imaginação para sentirmos a angústia dos viticultores durante as décadas de 70 e 80 dos anos de 1800. Era como se hoje chegássemos ao Douro e deparássemos com a mortandade generalizada dos vinhedos deste Património Mundial da Humanidade. Visão apocalíptica que grassava por toda a Europa vinhateira levou a que governos, instituições, estudiosos e curiosos juntassem esforços para tentar fazer frente ao insecto que mordia e infectava as raízes das videiras, precipitando-lhes a morte.

Em França, país líder dos estudos anti-filoxera, a escola de hibridação de Alexis Millardet e Georges Couderc (mais tarde, em 1893, feitos Comendadores da Ordem de Cristo pelo nosso Rei D. Carlos) desenvolve cruzamentos entre espécies americanas e europeias para encontrar plantas produtoras de boas uvas e resistentes à praga. De Portugal são escolhidas três castas – Touriga, Mourisco Preto e Moreto – para hibridarem com a Vitis rupestris (da qual a sub-espécie rupestres du Lot seria um dos principais porta-enxertos americanos a serem adotados pelo Douro e pela viticultura portuguesa em geral, na recuperação vinhateira pós-filoxera). Esta escola influenciaria todo o pensar vitícola em Portugal.

Alfredo Allen (1º Visconde de Vilar d’Allen, título criado em 1866 pelo Rei D. Luis I) presidia à Comissão Anti- Filoxérica do reino na época aguda do ataque.

Nos vários estudos e experiências que acompanhava, propunha propagar por semente variedades portuguesas mais resistentes à praga e variedades americanas capazes de produzir um “vinho tolerável”. Mas, acima de tudo, queria promover a hibridação entre estas, de modo a obter novas plantas capazes de resistir à praga.

No moroso decorrer dos trabalhos, A. Allen fez notar ainda que a casta Mourisco e a Tinto Cão eram mais resistentes à filoxera. E os seus serviços reproduziram videiras a partir destas sementes. A Alvaraça, outra casta deste Douro antigo, juntou-se-lhes depois nas experiências.

Os “Mouriscos de Semente” de Albino de Sousa
Das poucas castas escolhidas pela investigação portuguesa e francesa para a criação de novas variedades, uma destacava-se de todas as outras – a Mourisco. Além de resistente à praga, era a única que apesar de dioica era funcionalmente monoica e fêmea. Esta peculiaridade tornava-a muito receptiva ao cruzamento com o pólen de outras variedades.

Sabia que…
Um “híbrido” resulta de um cruzamento entre duas espécies. A hibridação continua hoje, orientada sobretudo para a criação de novas castas resistentes às doenças fúngicas do oídio e do míldio

Daqui é fácil “fazer as contas” do pensamento vitícola daquela atribulada época: “Como o Mourisco é mais resistente à praga e como a Touriga é a nossa melhor casta (“the finest” como se lhe referiu o Barão de Forrester nos tempos anteriores à filoxera), há que cruzar o pólen masculino da Touriga com o gineceu feminino da Mourisco.” Daqui nasceram os chamados ‘Mouriscos de Semente’, assim designados desde o seu surgimento, algures entre finais do século XIX e principio de XX. Nascidos da ‘mãe Mourisco’ e do ‘pai Touriga’.

Na frente da luta filoxérica, conviviam duas facções: a da ciência, das instituições governamentais; e a do empirismo, nascida da sensibilidade e a argúcia dos produtores locais. Neste último bastião evidencia-se um lavrador duriense, Albino de Sousa Rebelo, estudioso e autodidacta que, segundo depoimentos verbais e documentais, viria a suplantar os conhecimentos técnicos e científicos das Comissões Filoxéricas, na sua Quinta da Barca (ao lado da Quinta da Romaneira).

António Magalhães tem cópia do passaporte de um jovem Albino de Sousa, de Paradelinha (Sabrosa), que embarcara em 1874 para Marselha, eventualmente em busca dos estudos avançados da escola francesa de hibridação, à semelhança do que fez o Barão de Roeda, John A. Fladgate, dois anos antes. Sensível, inteligente e habilidoso, Albino de Sousa é referido por Duarte de Oliveira (um dos autores de “Ampelographie: traite génerale de Viticulture” publicado no início de 1900 por Pierre Viala), que lhe atribui o feito de ter criado a casta Tinta da Barca em Paradelinha (Sabrosa), um dos dois “Mouriscos de Semente” que surtiriam dos cruzamentos de Albino de Sousa.

Uma casta que mudou o Douro
A atribuição da criação da Touriga Francesa a Albino de Sousa surge num único testemunho verbal de um vinicultor de Soutelo do Douro, Manuel Russo, que “o confessou, faz anos, em modo testamentário ou em desafio missionário” a António Magalhães e David Guimaraens, convidados para a festa do seu octogésimo aniversário. Segundo Manuel Russo (já falecido), foi Albino de Sousa quem criou a Touriga Franca (Francesa naquele tempo). O êxito vinícola alcançado por estes ‘Mouriscos de Semente’ na reconversão vitícola do Douro pós-filoxérico foi decisivo na definição do portfólio varietal do novo Douro, como o comprovam, por exemplo, e de modo perentório, as parcelas de vinha velha do Pulverinho e da Renova do Depósito da Quinta de Vargellas.

O cruzamento entre variedades: quando a videira se encontra em floração retira-se a caliptra (órgão protector do aparelho reprodutor da flor da videira) e polvilha-se o gineceu da flor (casta) “mãe” com o pólen da casta “pai”. Depois protegem-se as frutificações com sacos de malha muito fina. Dos bagos que nascem e amadurecem retiram-se as grainhas ou sementes, que mais tarde se semeiam e delas nasce a nova planta que poderá sair mais à “mãe”, ou mais ao “pai”, ou a nenhum deles. É por causa desta enorme incerteza que as videiras se propagam sempre por estaca e nunca por semente.

Os nomes por que são hoje conhecidos estes ‘Mouriscos de Semente’ só décadas mais tarde viriam a ser definidos. A família de Albino de Sousa Rebello caiu em desgraça durante a década de 30 de 1900 por escândalo de adulteração de vinho nos seus armazéns, acompanhado por trágica revolta do povo que incendiou os edifícios, levando inclusiva e eventualmente ao suicídio de um dos seus filhos. Sem descendência (nenhuma das suas três filhas teve filhos) e carregando o peso da ignomínia, a família foi esquecida e afastada dos anais da história vitivinícola do Vale do Douro, para a qual tanto parece ter contribuído. Ainda que sem provas conclusivas, tudo indica na verdade que a ele se deverá a criação das variedades Tinta da Barca e da Touriga Francesa, hoje Touriga Franca.

As castas terão perdido o nome de ‘Mouriscos de Semente’ por volta da década de 40, eventualmente na época de Álvaro Moreira da Fonseca, e uma delas, “a que saiu ao pai” passou a chamar-se Touriga Francesa (provavelmente em homenagem à Escola de Hibridação Francesa que tanto inspirou os trabalhos de investigação em Portugal), para a distinguir da Touriga (que, entretanto, tomou o apelido de “Nacional”). E o outro Mourisco “que saiu à mãe”, por força do “povo”, tomou o nome de Tinta da Barca, porque veio da Quinta da Barca, onde ganhou protagonismo regional, ainda que Duarte de Oliveira tentasse batizá-la, mas sem sucesso, como “Albino de Sousa”.

E aqui fica mais uma prova de que tantas vezes as desgraças do presente melhoram o futuro. A filoxera mudou o Douro. Não temos memória do Douro antigo e nunca poderemos medir se perdeu ou ganhou com a filoxera, mas uma coisa é certa: o desastre vitícola levou à criação da Touriga Franca, uma das melhores castas tintas portuguesas.

A Colecção da Família da Quinta do Piloto

É uma quinta com grandes pergaminhos, quase tantos como os da família Cardoso, há quatro gerações a produzir vinho na região da Península de Setúbal. A actual geração explora cerca de 230 hectares de vinha, já engarrafa há vários anos, mas só uma pequena parte das uvas é dirigida à marca Quinta do Piloto.   […]

É uma quinta com grandes pergaminhos, quase tantos como os da família Cardoso, há quatro gerações a produzir vinho na região da Península de Setúbal. A actual geração explora cerca de 230 hectares de vinha, já engarrafa há vários anos, mas só uma pequena parte das uvas é dirigida à marca Quinta do Piloto.

 

TEXTO António Falcão NOTAS DE PROVA Nuno Oliveira Garcia FOTOS Ricardo Palma Veiga

A quinta está localizada na periferia de Palmela, mesmo junto à rotunda que marca a saída para a Quinta do Anjo. Estamos em plena região da Península de setúbal, portanto. A orografia é em encosta, por vezes ingrime (chamam ao sítio Serra do Louro), mas a implantação dos edifícios está muito bem conseguida, com uma magnífica vista para a planície que vai dar a Lisboa, perfeitamente visível a uns bons 25 quilómetros de distância. O generoso pátio proporciona esta vista e muito mais. E foi por isso o local escolhido por Filipe Cardoso, o gestor da Quinta do Piloto, para fazer a apresentação das suas principais novidades vínicas. Uma mesa corrida, debaixo de uma frondosa árvore, foi o cenário eleito.

Filipe começou por falar da vinha: a maioria está na planície, em terrenos típicos de areia. São 3 herdades, uma das quais (Fonte da Barreira) com vinhas velhas de 40 a 70 anos com as castas tradicionais da região (Castelão, Fernão Pires, e o Moscatel de Setúbal e Moscatel Roxo). Ao lado da quinta, alguma vinha, em solos argilo-calcários, que conferem mais leveza e frescura aos vinhos que as areias. A idade das vinhas é, como a maioria, ainda relativamente jovem. Quem gere a vinha é Humberto Cardoso, pai de Filipe, engenheiro agrónomo de formação.

Esta dupla tem assim bem mais de um milhar de toneladas de uva para escolher, de um grande conjunto de castas, nacionais e internacionais. O melhor vai para a Quinta do Piloto, onde é vinificada na adega da própria quinta. Estranhamente, pouco inox existe. Em vez disso, predominam as adegas argelinas, em cimento pintado. Este sistema de fermentação tem aqui décadas largas de idade e usa uma forma de vinificação fora do normal, remontando as massas de forma automática (com a pressão da fermentação) e sem necessidade de energia. Muito amigo do ambiente, portanto. Um contra, contudo, é a dificuldade em controlar a temperatura de fermentação. Filipe Cardoso reserva este sistema para os tintos de Castelão, casta que afirma se dar “muito bem” com o sistema. E ainda bem, porque uma parte generosa do encepamento é de facto Castelão… Esta é, aliás, a casta do coração de Filipe: “Gostava de revitalizar a grandeza do Castelão”, disse-nos o enólogo.

Brancos e outras castas tintas vão para outra adega, também próxima. Filipe assegura que tudo é feito da maneira mais normal possível, sem recurso a grandes operações enológicas.

Apontar para cima
A marca nasceu em 2008 mas o primeiro vinho saiu em 2013: tratou-se do branco Piloto Collection Roxo de 2012, o único não-generoso até à data da casta Moscatel Roxo. O vinho teve muito sucesso, que garantiu a saída das outras colheitas seguintes. A gama Piloto Collection está apenas destinada a varietais, mas a casa criou Reservas branco e tinto (agora com a marca Quinta do Piloto) e, agora, a Colecção da Família, os novos topos de gama. Foram eles, aliás, as estrelas da festa. Especialmente dois Moscatéis muito raros. Tão raros, aliás, que apenas se fazem 25 garrafas por ano de cada: um Moscatel de Setúbal e um Moscatel Roxo. Os vinhos de base têm largas décadas de idade e são originários de barricas reservadas à família, que seriam ‘refrescados’ anualmente com mais moscatéis. Esses atestos terminaram em 2002. A raridade destes néctares trouxe consigo preços elevados: 650 e 900 euros para o Setúbal e Roxo, respectivamente, em garrafas de meio litro. Vinhos sublimes, está bom de ver, que temos aqui oportunidade de provar em primeira mão. Mais acessíveis ao comum dos mortais estão os outros dois da ‘família’: o branco de 2014 e o tinto de 2013. O primeiro, com Arinto e Antão Vaz fermentados em madeira nova, com perfil suave e sedutor. O tinto usa predominantemente Castelão de vinhas com cerca de 60 anos e mostrou-se em grande forma, constituindo a grande surpresa da prova. Este vinho tem estrutura para aguentar 24 meses de barrica e nunca sai para o mercado com menos de 10 meses em garrafa. Um grande tinto, sem dúvida.

Filipe Cardoso e o seu pai vão trilhando o seu caminho, de forma segura mas determinada. Os vinhos vão demonstrando esta evolução, no sentido positivo. E certamente muitas e boas surpresas virão ainda desta equipa nos próximos anos.

Anselmo Mendes, everywhere

Anselmo Mendes

“A minha vida não é fazer vinho, é experimentar”, disse-nos Anselmo Mendes, imediatamente antes de nos dar a provar 26 vinhos. Passados trinta anos de carreira na enologia e na viticultura, foi na cidade do Porto que percorremos as experiências engarrafadas.   TEXTO Mariana Lopes NOTAS DE PROVA Luís Lopes FOTOS Anabela Trindade DA região […]

“A minha vida não é fazer vinho, é experimentar”, disse-nos Anselmo Mendes, imediatamente antes de nos dar a provar 26 vinhos. Passados trinta anos de carreira na enologia e na viticultura, foi na cidade do Porto que percorremos as experiências engarrafadas.

 

TEXTO Mariana Lopes NOTAS DE PROVA Luís Lopes FOTOS Anabela Trindade

DA região berço e de outras mais, uns que já se encontram no mercado, outros que ainda não e alguns que nunca chegarão a sair do ventre, ensaios para perceber melhor a ciência e a constante mutação dos factores, foram os desafios à mesa. Desde 1987 que Anselmo é cientista. Foi nesse ano que o engenheiro agrónomo começou, em Monção, na adega artesanal dos seus pais, a ensaiar a fermentação de Alvarinho em madeira com diferentes origens, tostas e tamanhos, e foram dez anos disso. Na altura tinha 24 anos e, com a ajuda da sua bolsa de estudo de 60 contos, comprou duas barricas para o efeito. Hoje, continua exactamente com o mesmo espírito estudioso e aberto, sem preconceitos, e o seu rigor técnico é directamente proporcional à sua criatividade no vinho.

Começámos com uma vertical de Muros de Melgaço (Alvarinho), desde a colheita de 2011 até à de 2016, uma das novidades da noite. Foi o primeiro vinho de Anselmo, estreado em 1998, e o seu “mais afinado”, que teve mais oportunidades de aprimorar por ter tido mais vindimas. A fermentação e o estágio deste vinho são feitos em madeira e sobre a totalidade das borras.

Depois veio a prova dos ensaios de Alvarinho em diferentes terroirs. “Sempre me fascinou a expressão da terra no vinho”, ouvimos de Anselmo que, em 2015, começou a estudar 25 parcelas, de Melgaço a Valença. O objectivo foi observar as influências de diferentes origens de solo, textura, altitude e outros. Pudemos verificar a grande diversidade da região nas seis amostras que provámos. Prova número três: o ensaio sobre a curtimenta. Conhecido por fazer curtimenta (parcial ou total) em muitos dos seus brancos, Anselmo trouxe-nos quatro Alvarinho feitos com este método, entre eles o Anselmo Mendes Tempo 2015. Este vinho mostra a técnica bastante aperfeiçoada, em que a curtimenta foi máxima, mas metade feita com os cachos inteiros e o restante com os mesmos desengaçados e esmagados.

De seguida, “As voltas do Alvarinho”, com o vinho Alvarinho 2 2 1. Duas regiões, dois enólogos, um vinho. Feito em parceria com Diogo Lopes, da Adega Mãe, os dois fundiram duas expressões distintas da casta, com origem em vinhas de Monção e de Lisboa e fermentada em madeira usada. O resultado foi um vinho primoroso e elegante, mas muito firme, já provado na edição de Junho da VINHO Grandes Escolhas com 18 pontos.

O vinho que veio por esta altura surgiu por causa de pêssegos. Algures na Beira Interior, Anselmo ajudou um produtor do fruto a reavivar o pomar e reparou que no mesmo terreno havia três hectares de vinha muito velha, quase abandonada. Comprou as uvas dessas videiras e delas nasceu o Anselmo Mendes Beira Interior 2014, um monocasta Síria que lançou agora para o mercado.

Foi então que viajámos até aos Açores, em mais uma parceria Anselmo-Diogo, com origem na Adega Cooperativa de Biscoitos (de que agora tomam conta), na Ilha Terceira. O Magma 2015 e o Muros de Magma 2015 são dois Verdelho com plena expressão da influência atlântica, sobretudo da componente salina, um autêntico espelho do terroir. Belos vinhos, já provados, igualmente, na edição de Junho desta revista.

A sétima prova foi de Alvarelhão, uma casta “responsável pelo sucesso dos tintos de Monção desde o século XIV”. Desde 2000 que Anselmo Mendes estuda a casta, que deu origem aos vinhos que apreciámos: o espumante Muros Antigos 2009, o tinto Pardusco 2015, o Pardusco Private Selection 2012 e o Alvarelhão 2016, um blanc de noirs ainda em estágio. Uma das características desta uva é conferir cor muito leve aos tintos, o que torna os vinhos visualmente diferentes.

Finalmente, os projectos do Dão e do Douro. Da primeira região, o Quinta de Silvares 2015, oriundo de uma vinha com mais de 30 anos, por ele recuperada com as típicas Touriga Nacional, Alfrocheiro, Tinta Roriz e Jaen. Um tinto com a fruta das Tourigas muito exuberante, e a leveza e frescura do Alfrocheiro e do Jaen. Do Douro, o Anselmo Mendes Não Convencional 2012. Este vinho irrepetível vai buscar o seu nome à escolha das castas, escolhidas cepa a cepa numa vinha quase centenária. A opção recaiu em todas menos as habituais durienses: Tinta Carvalha, Tinta da Barca, Rufete, Tinta Francisca, Alicante Bouschet e Cornifesto, entre outras. O álcool mais baixo (12,5%) do que o habitual na região ajuda a reforçar o perfil “não convencional”.

A vinha da Quinta da Torre, com 35 hectares de Alvarinho, é o investimento maior de Anselmo Mendes.

O mundo de Anselmo Mendes extravasa assim em muito a sua região de origem (chega até ao Brasil, onde faz vinho na Serra Catarinense) mas é em Monção e Melgaço que está o centro de tudo. E também o grande investimento da sua vida profissional. A Quinta da Torre, adquirida há menos de um ano, já tem 35 hectares de Alvarinho e chegará aos 45 em 2018, tornando este produtor/ investigador/enólogo no maior viticultor individual desta nobre variedade.

O regresso à Quinta de Pancas

Tenho na memória os monovarietais tintos da Quinta de Pancas da década de 90 ou, já no novo milénio, o Chardonnay & Arinto, um bálsamo entre os brancos com barrica da então região Estremadura (hoje Lisboa). Depois de alguma indefinição, a propriedade mais conhecida de Alenquer volta a apresentar uma gama completa de vinhos, com […]

Tenho na memória os monovarietais tintos da Quinta de Pancas da década de 90 ou, já no novo milénio, o Chardonnay & Arinto, um bálsamo entre os brancos com barrica da então região Estremadura (hoje Lisboa). Depois de alguma indefinição, a propriedade mais conhecida de Alenquer volta a apresentar uma gama completa de vinhos, com uma qualidade irrepreensível.

 

TEXTO Nuno de Oliveira Garcia FOTOS Ricardo Palma Veiga

COMECEMOS pelo mais importante, ou seja, pelos vinhos; nunca, até hoje, a Quinta de Pancas nos tinha presenteado com uma gama tão vasta, ambiciosa e cheia de qualidade. Vejamos: as entradas de gama – Pancas e Quinta de Pancas, branco e tinto – são irresistíveis no perfil sério e gastronómico, e também no preço; os Reserva – branco e tinto, também – mostram-se consistentes e seguem a linha de seriedade dos irmãos mais acessíveis, permitindo ainda a guarda em garrafa por alguns anos; e o tinto Grande Reserva 2013, que será lançado até ao final deste ano, é um dos melhores tintos já provados da casa, com muitos anos pela frente e um polimento nunca antes vistos.

E temos ainda os novos monovarietais que estão para sair – Syrah, Merlot, Touriga Nacional e Cabernet Sauvignon, mas também Vital, Arinto e Chardonnay – que, provados agora, fazem já jus à fama dos Special Selection tintos da década de 90, com a vantagem de terem um perfil mais sofisticado e moderno. O estreme Vital é uma grande novidade na gama Reserva, e vale a pena prová-lo não apenas por ser dos poucos varietais da casta existentes
no mercado, mas também pelo seu lado de fruta exótica, quase terpénica, irresistível junto de pratos orientais picantes. Na mesma gama, o Chardonnay entra diretamente para os melhores do país, com enorme tensão, à qual se soma a complexidade habitual num vinho em que metade das barricas fizeram fermentação malolática (responsável pelo aumento de volume e de untuosidade do vinho). Nos tintos, e como já realçamos, o destaque segue por inteiro para o Grande Reserva que, na colheita de 2013, consegue superar largamente os bons registos das duas colheitas anteriores. Importa destacar ainda o regresso em grande estilo do monovarietal Cabernet Sauvignon, talvez o tinto mais famoso da propriedade, cuja versão em prova – na colheita de 2015, e ainda em estágio de garrafa – mostrou-se absolutamente soberba.

O principal responsável desta mudança é Frederico Gomes, um dos valores mais seguros da enologia nacional, que, por já trazer consigo a experiência de quase duas décadas de vindimas, tem um olhar simultaneamente tranquilo e confiante. Frederico é, atualmente, o responsável máximo da enologia da Quinta de Pancas em Lisboa (sendo Gilberto Marques o enólogo-residente, bem como na Quinta do Cardo, Beira Interior, com Luís Leocádio como enólogo residente), supervisiona tambémos trabalhos na Quinta da Fronteira (Douro Superior) e na Herdade da Farizoa (Borba, Alentejo), e ainda de mais um par de propriedades; é caso para dizer: imagine-se os quilómetros que faz por mês.

Apesar de tudo, Frederico tem um low-profile desconcertante, bem patente quando o confrontámos com as reformas que conseguiu levar a cabo nas várias propriedades espalhadas pelo país, e em relação às quais nos afirmou que se limitou a fazer o que lhe era pedido. E o que lhe foi pedido? Melhorar todas as quintas – na vinha, na adega, e nos vinhos –, o que implicou também alterar dezenas de procedimentos no processo de vinificação, ajudar na redefinição das novas gamas das várias quintas (com os bons resultados, bem visíveis, por exemplo, na Quinta do Cardo), e fazer voltar a brilhar uma das jóias da coroa – a Quinta de Pancas.

E o seu maior desafio, aquele onde depositou todos os seus esforços, confidencia-nos com um brilho nos olhos, foi precisamente o facelift empregue nesta histórica propriedade fundada em 1498 a menos de 50 quilómetros a noroeste de Lisboa. E não é caso para menos. Vejamos uma amostra da lista dos trabalhos realizados: fez-se a transição de algumas vinhas para biológico; analisou-se todas as barricas existentes, uma a uma de forma a combater o brett (contaminação que pode acarretar aromas desagradáveis nos vinhos) detetado na adega; e redefiniram-se os parâmetros de viticultura de cada um dos 50ha de vinha para ficarem adequados aos diferentes posicionamentos dos vinhos na gama (privilegiando, assim, as melhores videiras em relação às quais todos os cuidados são dedicados privilegiando produções muito baixas). Tudo isto num momento e contexto em que eram muitas as alterações, e até conturbações, no seio do grupo empresarial do qual a propriedade faz parte. É obra, dizemos nós!

Pois bem, da Quinta de Pancas espera-se agora o melhor; mais novidades vínicas em todas as gamas para saciar um público com saudades da marca lisboeta, bem como o lançamento de vinhos capazes de projetar a excelência de algumas das vinhas da propriedade, com destaque evidente para o Cabernet Sauvignon. E não estranhe o leitor pugnar-se aqui pela aposta nesta casta francesa em terras lusas, pois tenho para mim (e Frederico Gomes concorda, com um sorriso modesto) que a Quinta de Pancas é uma das raras propriedades em Portugal apta a produzir vinhos na linha dos Super-Tuscanos italianos, ou seja, aliando as castas francesas (e, em especial, as de Bordéus, como é o caso do Cabernet Sauvignon que domina o encepamento da quinta) a solos e climas do sul da Europa. É provar para comprovar!

Quinta da Pacheca 2.0

Não é fácil um produtor tradicional suplantar-se e tornar-se um produtor moderno e cheio de novidades. Em poucos anos foi isso que a Quinta da Pacheca conseguiu alcançar. Sem renegar um passado consistente, e sem alienar uma marca que é um símbolo de qualidade, a Quinta da Pacheca está hoje melhor do que nunca.   […]

Não é fácil um produtor tradicional suplantar-se e tornar-se um produtor moderno e cheio de novidades. Em poucos anos foi isso que a Quinta da Pacheca conseguiu alcançar. Sem renegar um passado consistente, e sem alienar uma marca que é um símbolo de qualidade, a Quinta da Pacheca está hoje melhor do que nunca.

 

TEXTO Nuno de Oliveira Garcia FOTOS Cortesia do produtor

NUM primeiro olhar, pouca coisa mudou… Mantêm-se José Serpa Pimentel no pelouro comercial e Maria Serpa Pimentel na área da enologia. Todavia, mal os vinhos caem nos copos, há um mar de diferenças em relação ao passado recente. Novos vinhos, muitos vinhos novos, brancos e rosés como antes nunca tínhamos provado e tintos muito aprumados, ambiciosos mesmo, de grande categoria.

A Quinta da Pacheca é uma marca sólida da região duriense. Bem próxima da Régua, do outro lado da margem, é uma propriedade de prestígio com 57 hectares sitos não muito longe da fronteira entre o Baixo e o Cima Corgo, com referências desde 1738. Há alguns anos, esteve na liderança da primeira vaga do turismo na região, com a alienação de terrenos para o então Aquapura (Vale de Abraão) e com a inauguração de um pequeno hotel de charme na propriedade (The Wine House Hotel) que nunca teve o sucesso que merecia. Os primeiros passos estavam, contudo, lançados com a mais nova geração da família Serpa Pimentel aos comandos de todo o projeto, e os vinhos – então essencialmente tintos, dada a localização a baixa altitude e num terroir quente – não desapontavam. Um feliz golpe de asa viria, contudo, a surgir um pouco depois, com o investimento realizado pelos empresários Maria do Céu Goncalves e Paulo Pereira. Podemos mesmo afirmar que esse acontecimento mudou para melhor quase tudo no projeto, mantendo-se muita da moldura e do capital humano já existente. O hotel melhorou o seu já óptimo nível, e passou a ter mais visibilidade, e os vinhos também viram a qualidade a aumentar.

A verdade é que a Quinta da Pacheca deixou de ser autossuficiente, e isso fez com que se procurassem novas vinhas e quintas, inclusivamente em pleno Cima Corgo (junto ao rio Pinhão) e mesmo do Douro Superior (muito próximo de Foz Côa). Esta nova política permitiu não só ir buscar uvas brancas a cotas altas junto a Sabrosa (como sucede com tantos outros produtores), como utilizar uvas tintas de terroirs muito diferentes, inclusivamente do Douro Superior. Não que isso seja uma novidade, pois essa é a opção – e a razão do sucesso – de vários dos melhores viticultores da região (em DOC e em Portos, diga- se). E, assim, os vinhos Quinta da Pacheca passaram a ter apenas a marca Pacheca (o que, ademais, facilita nos mercados internacionais), e a qualidade dos néctares aumentou e muito!

Não há dúvida de que ser um produtor duriense permite ir buscar o que melhor faz a região, e que não faz sentido estar-se circunscrito aos limites de uma quinta. Basta pensar que são raríssimos (menos de meia dúzia, com a Quinta da Gaivosa e a Quinta do Vallado à cabeça) os casos de uma única propriedade na região capaz de fazer, simultaneamente, grandes brancos e tintos. Em suma: vida longa para a nova vida da Quinta da Pacheca é o que desejamos!

Alves de Sousa: Um pioneiro do Douro moderno

A calma deste homem é desarmante. Mas a sua argúcia é quase lendária. Tal como o seu prestígio. Com 25 anos de vinhos em seu nome, Domingos Alves de Sousa é uma figura incontornável do Douro. E os seus vinhos também!   TEXTO António Falcão NOTAS DE PROVA Luis Lopes FOTOS Ricardo Palma Veiga EM […]

A calma deste homem é desarmante. Mas a sua argúcia é quase lendária. Tal como o seu prestígio. Com 25 anos de vinhos em seu nome, Domingos Alves de Sousa é uma figura incontornável do Douro. E os seus vinhos também!

 

TEXTO António Falcão NOTAS DE PROVA Luis Lopes FOTOS Ricardo Palma Veiga

EM 1992, um produtor duriense fazia o seu primei­ro vinho tinto DOC Douro, que lançou alguns anos depois com o nome de Quinta da Gaivosa. Desde aí, Domingos Alves de Sousa passa de completo desconhecido do grande público para um sólido estrelato na região do Douro (e não só). Pelo meio está um percur­so com milhentas estórias e grandes vinhos durienses.

Tradição familiar
A família de Alves de Sousa tem longas tradições na pro­dução de Vinho do Porto. Pelo menos século e meio. Tal como os seus colegas produtores, esta casa vinificava as suas uvas e vendia o vinho às grandes casas de Vinho do Porto. A tradição é longa mas persistia o anonimato, porque não havia qualquer marca. A história começou a dar a volta nos anos 80 do século passado, quando Do­mingos teve de assumir, por doença de seu pai, as rédeas da gestão da propriedade familiar, a Quinta da Gaivosa, no Baixo Corgo.

A terminar o curso de engenharia civil e posteriormente o estágio, Domingos vivia na altura no Porto. A gestão era feita, portanto, a alguma distância da terra. Surge então a hipótese de adquirir uma vinha contígua, a Quinta do Vale da Raposa. Domingos fala com a mulher e decidem avançar, no pressuposto de que não seria mais possível controlar o negócio a partir do Porto. O casal muda-se então para o Douro, corria o ano de 1987. A ideia era fazer uma ‘campanha’ a dez anos. Com os pés e mãos no xisto duriense, Domingos teve de alterar radicalmente a sua vida. Agora era a sério…

Com os pés no Douro
Na verdade, não havia assim tanta coisa de novo para Domingos Alves de Sousa: “Foi aqui que nasci, e foi aqui que estudei”, relembra ele. Videiras, vindimas e adegas não eram para ele fenómenos estranhos. Mais importante ainda era o sonho que começava paulatinamente a nascer na mente do produtor. Fazer vinho próprio, com a sua marca. Poderia ter sido Vinho do Porto mas a crise dos anos 90 neste sector levou-o ainda mais para o caminho do vinho do Douro.

Inicia a reestruturação de algumas vinhas e, com apoios comunitários, amplia e renova a adega, preparando-a para o futuro. Faltava o conhecimento: “A partir daí resol­vi fazer alguma formação profissional nesta área, inclusive um pequeno curso na UTAD [Universidade de Vila Real] de viticultura e enologia, e um master de vinhos na Uni­versidade Católica; conjuguei isso com visitas ao estran­geiro, em especial à região de Bordéus, para ver alguns châteaux”, revela-nos. E pensa: “Se eles conseguem, por­que não nós, que temos um património que é o Vinho Porto, um dos melhores vinhos do mundo?”

Absorve muitos conhecimentos, forma ideias, consolida o projecto ainda em forma de sonho. O problema era montar tudo numa região que conhecia muito bem como fazer um fortificado mas pouco histórico tinha na produ­ção de vinhos DOC… Alves de Sousa tomou como refe­rência uma marca histórica da região e pensou assim: “Se possível, queríamos ser tão bons ou melhores que eles”. Quem era? Domingos não revela… Mas não é difícil adi­vinhar, a fasquia estava muito alta.

Os primeiros vinhos
Domingos Alves de Sousa reconhece que este empreen­dimento, para ter sucesso, precisa de know-how técnico: “O melhor que eu tive foi a consciência de que sabia pouco. Assim, quis rodear-me de profissionais que, com a minha orientação, compensaram as minhas ignorâncias.” Contratou assim um técnico de vinha – Jorge Dias – e um jovem enólogo pouco conhecido, de seu nome Anselmo Mendes. O material de marketing foi também entregue a profissionais.

Domingos sabia, no seu íntimo, que as uvas tinham muito potencial mas nunca tal havia sido testado. Começam en­tão as experiências de vinificação: em 1992 sai o primeiro Quinta da Gaivosa. Este vinho conseguiu ser num evento em Londres o melhor vinho português; e nas listas do crí­tico Oz Clark ficou nos 30 ‘best buys’ do mundo. “Foi um grande estímulo”, relembra Domingos. Numa feira para importadores, em Vila Real, investe num stand único, que parecia uma casa, e consegue três mercados de uma as­sentada. O seu maior cliente foi logo a exportação, um feito inédito no Douro e, em muita medida, no restante Portugal vínico. “Diria mesmo que o nosso mercado co­meçou de fora para dentro. Não foi propositado, mas a oportunidade surgiu e foi aproveitada”, revela o produtor.

Outras colheitas vão surgindo, incluindo brancos. O pri­meiro Branco da Gaivosa veio da vindima de 1996. Neste período, o negócio estava ainda sustentado na venda de Vinho do Porto. Mas Domingos opta antes por vender as uvas, ganhando uma maior capacidade de vinificação para os DOC Douro. Calha bem porque Alves de Sousa vai adquirindo mais vinhas a familiares: primeiro a Quinta da Estação, depois a Quinta da Aveleira (onde, aliás, nas­ceu); de seguida a Quinta das Caldas, junto ao Douro, e finalmente a Quinta da Oliveirinha, no Cima Corgo, a úni­ca quinta fora da sua sub-região. “E pelo meio nem con­tabilizo as pequenas parcelas”, diz-nos. No final, Alves de Sousa gere um património com mais de uma centena de hectares de vinha.

Sabia que…
A Gaivosa já era destacada pela qualidade dos seus vinhos em documentos do século XVIII, redigidos pelo pároco de Santa Marta de Penaguião.

Solidificação do projecto
Apesar dos meios modestos, Alves de Sousa não para e os vinhos vão saindo, ano após ano, da velha adega da Gaivosa. E marcas. Os prémios também. Em 1999, a “Re­vista de Vinhos” atribui-lhe o título de Produtor do Ano, uma efeméride que Domingos não esquece: “Cometi o sacrilégio (mas foi sentido) de dizer, no meio de 400 pessoas, ‘eu mereço’. Nos dias seguintes tive de ouvir os meus colegas (risos).”

Afinal, repetiu o feito em 2006. Nessa altura já estava com ele o filho Tiago, recém-saído do curso de enologia da UTAD. Fazendo parceria com Anselmo Mendes, Tia­go foi dar a folga que o pai precisava para alargar a sua curiosidade natural: diz ele que, “para além da tradição, gosto de inovar”. E começaram mais experiências: pri­meiro com vinhos monovarietais e bivarietais. A intenção era preparar o perfil dos vinhos para o futuro, quando as vinhas velhas acabassem.

A inovação foi também para outro ramo, com a vinifica­ção de parcela por parcela, vinha por vinha. E começaram assim a sair os primeiros vinhos de vinha: Vinha do Lor­delo e Abandonado são os casos paradigmáticos. Este último, diz Domingos, já foi muito iniciativa de Tiago, que não deixou arrancar a vinha ‘abandonada’. O próprio Al­ves de Sousa Reserva Pessoal tinto é, parcialmente, um vinho de vinha e tem a particularidade de só sair para o mercado um mínimo de 7 anos após a vindima. O mes­mo acontece com a versão em branco, um vinho muito especial, fermentado em processo oxidativo. Domingos graceja com o toque ‘revolucionário’ do vinho: “Não é para toda a gente e devia ser vendido com um manual de instruções.” Estes vinhos só aparecem em anos excep­cionais mas, quando a natureza ajuda, a empresa conse­gue um feito incrível: apresentar 8 ou 9 novos vinhos de muito alta qualidade (e preços a condizer). O principal responsável é a Gaivosa, a jóia da coroa do clã Alves de Sousa. Esta quinta possui características únicas: vinhas em altitude na zona mais fresca do Douro e uma mistura de vinhas novas com outras de idade abaixo dos 100 anos. A enologia da casa é tradicionalmente minimalista, deixan­do falar as uvas.

O Vinho do Porto
Faltava dar o derradeiro passo: depois de décadas a pro­duzir Vinho do Porto (e a deixar alguns em stock), Alves de Sousa acaba por fazer o seu primeiro em 1999, um LBV Quinta da Gaivosa. O primeiro Vintage da marca é de 2003 e só bem mais tarde vieram os Tawny 10 e 20 anos. Com alguns Ruby, de mais baixo preço, pelo meio, e com a marca Quinta das Caldas. Para breve estará um Tawny 30 anos. Tiago diz-nos que este pas­so seria inevitável: “Douro e Porto são duas expres­sões da mesma região; e queremos estar em ambas.”A produzir cada vez mais e melhor, a equipa vai aumen­tando, com a inclusão de mais membros da família. Dois irmãos de Tiago prestam assistência na área do design. Outros três elementos da família trabalham nas instala­ções da nova adega da Gaivosa, que começou a funcionar na vindima de 2015. Esta obra foi, sem dúvida, o realizar de um grande sonho. Depois das vinhas, Domingos pode finalmente fazer nascer a adega com que sonhava, com equipamentos de topo e outras condições de trabalho. Segundo ele, “permite-nos ir um bocado mais longe”.

Epílogo
Necessariamente reduzida, esta peça contou a história de um verdadeiro pioneiro do Douro moderno, um ex­poente da região, cujo nome leva a todo o mundo. Em 25 anos, Alves de Sousa e a sua família e equipa criaram um projecto de excelência que, acreditamos, está longe de ter atingido o cume. A curiosidade e a vontade de inovar continuam por cá e serão mesmo reforçadaa pela inevitável entrada de sangue novo. Mas mesmo o ‘pai Domingos’, como os filhos carinhosamente lhe chamam, está aí para durar. Com os seus 68 anos, Domingos não hesita: “Sinto-me com muita força e tenciono continuar presente enquanto isto me der prazer.”

 

25 anos de Gaivosa

Nascido na colheita de 1992, o tinto Quinta da Gaivosa é a “bandeira” da casa Alves de Sousa, o seu vinho mais conhecido e prestigiado dentro e fora de portas. Vinte e cinco anos passados sobre a sua criação, uma prova vertical de todos os Gaivosa mostra bem a consistência e singularidade de um dos mais notáveis vinhos do Douro.


LEMBRO-ME
bem do primeiro Quinta da Gaivosa, de 1992. Também seria difícil esquecê-lo. Naquela época, os vinhos de qualidade do Douro não eram tantos assim. Para além das marcas da Ferreira, do Côtto, da Pacheca, que simbolizavam o “Douro clássico”, o “Douro moderno” dava os primeiros passos neste iní­cio dos anos 90 através, sobretudo, do Duas Quintas, da Quinta de La Rosa e do Quinta da Gaivosa. Só em final da década, em 1999, esse movimento teria continuidade com a Quinta do Vallado, Redoma, Vale Meão, e a emer­gência dos chamados Douro Boys.

Do Gaivosa de 1992, recordo a fruta elegante, a frescu­ra e também a barrica impositiva, até excessiva. 25 anos passados, a madeira esbateu-se e a finura e elegância permaneceram, com muito boa acidez a segurar o con­junto (17). Mais cheio e concentrado está o 1994, sólido, austero, com grande frescura de boca, firme, vibrante, ainda em muito boa forma (17,5). O 1995 está fantástico. Quando surgiu no mercado, foi várias vezes vencedor das provas em que eu participei, e hoje mantém intactos to­dos os seus predicados: cheio, envolvente, com taninos de seda, excelente equilíbrio, profundo, pleno de classe (18,5). 1997, foi outro grande ano de Gaivosa, o vinho está super aveludado, cheio de presença e complexida­de, com o carácter elegante e fresco da marca bem vinca­do, longo, sofisticado (18). Curiosamente (ou talvez não, porque a colheita foi bem diferente), o 1999 está mais evoluído do que o anterior, mas ainda a dar muito prazer a beber, polido, equilibrado, fresco (17).

Oriundo de um ano muito prometedor, o Gaivosa 2000 era aguardado, quando do seu lançamento no mercado, com grande expectativa, mas recordo que as primeiras amostras que recebi foram uma desilusão: o vinho estava contaminado por brettanomyces, micro-organismo que pode provocar os desagradáveis aromas a couro molha­do, o vulgarmente chamado “suor de cavalo”. Vim de­pois a saber que havia dois engarrafamentos desse vinho e o segundo, provado uns meses mais tarde, revelou um Gaivosa 2000 esplendoroso e sem traços de “brett”. Pro­vado agora, o 2000 (do segundo engarrafamento, claro!), manteve o perfil: opulento, acetinado, ainda com bastan­te fruta, profundo e rico, um grande vinho (18).

O ano de 2003 marcou uma viragem no processo de cria­ção do tinto da Quinta da Gaivosa. O vinho sempre foi feito das vinhas velhas da propriedade (hoje com mais de 80 anos, plantadas com cerca de 20 castas diferentes), mas até aí o Gaivosa resultava apenas da escolha das me­lhores barricas de cada ano. A partir da vindima de 2003, as diversas parcelas de vinha da quinta passaram a ser vinificadas em separado, em depósitos mais pequenos. Os diferentes vinhedos começaram assim a evidenciar as suas particularidades e os enólogos (Anselmo Mendes, desde o início, e a partir daqui já com o contributo de Tiago Alves de Sousa) puderam selecionar as mais indi­cadas para a manutenção do estilo Gaivosa, assente na elegância e frescura. Destacaram-se então as parcelas das cotas mais altas (400/500 metros) e expostas a poente, que ainda hoje constituem a base do vinho.

O clima de 2003 mostra o seu lado quente no Gaivosa, profundo e apimentado, encorpado, mas ainda assim com acidez suficiente para manter harmonia e longo fim de boca (17). Já o 2005 é outra música, apesar de ter sido um ano seco. Ainda com muito fruto, bagas e compotas, esteva, pimentas, tabaco, concentrado mas fresco, muita presença (18). Saltamos três anos (curiosamente, não hou­ve 2007, um bom ano no Douro) para o 2008, um tinto cheio de cor, fruto ainda jovem e exuberante, elegantes notas florais e vegetais, taninos sedosos, muito bonito e expressivo (18). Já o 2009 é um perfeito contraste, fecha­do, austero, concentrado, com sugestões terrosas, cre­moso mas a passar por uma fase indecisa, a precisar de mais algum tempo para mostrar para onde vai (17,5). O 2011 é um portento, um tinto que tirou o máximo parti­do de um ano de invulgar qualidade: muito jovem ainda, cheio de cor, bastante complexo de aromas e sabores (amoras, ervas do campo, balsâmicos, terra), com taninos perfeitos, enorme profundidade e elegância, um vinho de guarda por excelência (19). No conjunto, doze vinhos de elevado nível que espelham todo o carácter de um gran­de nome do Douro.