Pelo meio de silêncios e de encostas de vinha, descansa a Quinta do Portal. Com uma nova gama “unlocked” e a imagem renovada dos vinhos que já conhecemos, as razões são mais do que muitas para revisitar o produtor.

 

TEXTO Mariana Lopes NOTAS DE PROVA Luís Lopes FOTOS Anabela Trindade

O moderno edifício central, em tons de tijolo vermelho, combina com as folhagens das estações frias. Linhas rectas e arcos de circunferência a acompanhar a orografia do solo, espaços abertos e descampados no topo, são traços de um arquitecto cujo estilo não engana. A autoria é de Álvaro Siza Vieira e a obra remonta a 2009. Com xisto e cortiça na sua composição, é mais um excelente exemplo de como as técnicas e as estéticas modernas se podem integrar em perfeita harmonia com a natureza. Em textos que, mais tarde, viriam a ser publicados em livro (“Traço de Tinto”), João Mansilha Branco, um dos proprietários, escreveu sobre a construção:

“O betão entusiástico a fundir-se na terra, Convivendo com as raízes de outras plantas que nos habitam desde tempos imemoriais, Com outros nomes, frutos e pores-do-sol, Sinto! Este esquiço, risco, rabisco é mais do que isso. É um traço de tinto!”

Traço de história
A Quinta do Portal, desde sempre com a família Branco, existe desde a década de 80 do século XIX. Até 1994, vendiam as uvas e faziam Vinho do Porto para consumo e, maioritariamente, para guarda. A partir desse ano, com a entrada do enólogo Paulo Coutinho, arrancou a produção de vinhos Douro, moscatéis, espumantes e Late Harvest, a somar aos Porto, dos quais se começou a fazer negócio, vendendo, inclusive, o stock anterior como Tawny velhos. A cerveja artesanal também se juntou ao portfólio, entretanto. Para tornar isto possível, a área foi totalmente reconvertida entre 1995 e 1997. A aldeia de Celeirós, em Sabrosa, no Cima Corgo do Douro, é onde fica a propriedade, rodeada pelas outras quatro quintas da empresa: Confradeiro, dos Muros, da Abelheira e da Manuela. A quinta principal, que dá o nome aos vinhos e à empresa, tem cerca de 15 hectares e a particularidade de ser delimitada por muro em todo o seu perímetro, uma curiosidade na região. Na totalidade, as cinco quintas perfazem 104 hectares de vinha e há parcelas dos 200 aos 550 metros de altitude e em todas as exposições solares.

Vinhas, barricas e outros esquiços
Pedro Mansilha Branco, proprietário e director de exportação, e Paulo Coutinho, receberam-nos no último dia de Outubro. De um ponto alto, de onde conseguimos ver todas as quintas, contemplámos a paisagem em conversa. De um lado e do outro, os ouriços dos castanheiros a rebentar e as azeitonas a pedirem para ser colhidas. “A Touriga Nacional representa 40% do encepamento dos tintos e está presente nas cinco quintas”, disse Paulo Coutinho. Apesar disso, a Tinta Roriz é a casta tinta em que mais apostam e dela têm sete hectares. A Touriga Franca é residual e a Tinta Barroca tem protagonismo pois, segundo Paulo, “aqui tem um carácter diferente”.

Destas quatro fazem vinhos estreme, além dos de lote. Na Quinta da Abelheira têm Moscatel Galego (também origina um monocasta) e outras variedades menos usuais na região, como Sauvignon Blanc, Verdelho e Alvarinho. Com seis hectares, a Viosinho é a uva branca com mais expressão na propriedade, sendo “uma das principais manchas do Douro”, e a Gouveio é uma das que merece maior atenção por parte de Paulo, juntamente com a Malvasia Fina, que, como explicou o enólogo, “é fundamental para dar corpo aos vinhos brancos”. A Rabigato também faz parte da lista.

Numa viagem ao interior do armazém de estágio e envelhecimento, pudemos contemplar aquilo que são quase 5000 metros quadrados de uma edificação de aço e betão, com uma simplicidade que é, ao mesmo tempo, pragmática e poderosa. As divisões e corredores que lá se integram parecem, elas próprias, portais para outro sítio qualquer. Para o pavilhão maior, entramos por um patamar superior, e daí vemos os corredores de barricas de três níveis, perfeitamente simétricos ao erro e paralelos às arestas da besta de concreto. É aí que reparamos numa barrica diferente. Paulo Coutinho criou uma de exposição, misturada com as outras, mas com vidro no lugar dos tampos, para que se pudesse ver o seu interior e o sarro que fica numa barrica usada, causado pela precipitação dos sedimentos. Para isso, colocou uma lâmpada led na parte traseira e um filtro de cor escarlate.

Foram estas mesmas “ganas” de algo novo que o levaram a criar a gama Unlocked. Segundo o próprio, “é uma filosofia diferente, mais moderna”, uma outra abordagem a um branco Viosinho, um branco Malvasia Fina e um rosé de várias colheitas (2008 a 2012, de Roriz e Nacional) e três anos de estágio em borras frescas. Não são vendidos em separado mas sim num pack com os três, tendo sido feitas apenas 1.000 garrafas de cada.

Enoturismo, ecoturismo
Desde 1997 que a Quinta do Portal recebe visitantes. Actualmente, 10.000 a 12.000 por ano participam nas visitas guiadas e provas. O hotel, por sua vez, abriu em 2006 e mistura o rústico com o moderno, tanto na Casa das Pipas como na Casa do Lagar, que tem este nome porque esconde, no seu interior, um antigo lagar comunitário de azeite, agora recuperado. O xisto é elemento sempre presente nos doze quartos e nas outras divisões, como a sala panorâmica e a biblioteca vínica. Em frente à Casa das Pipas, um “jardim gastronómico” de cariz biológico e sustentável, onde podemos encontrar plantas aromáticas, pimentas, frutos e outras maravilhas.

Manuel Januário, o gestor hoteleiro da casa, é ele próprio um convite à estadia, pela sua simpatia natural. Sob a sua alçada tem, também, o restaurante, cuja cozinha é liderada pelo jovem chef Milton Ferreira, num estilo tradicional português e duriense com um toque moderno. Polvo assado com batata doce, creme de castanhas com chouriço, vitela com beterraba e cremoso de nabiças e pudim de pão com Vinho do Porto – eis o menu que degustámos quando da nossa visita, harmonizado com os vinhos da casa por Paulo Coutinho. Todos os pratos estavam absolutamente bem feitos, as texturas e os sabores a combinar de forma sublime, com matéria-prima de supra qualidade.

No cair da noite veio o frio, mas o semblante da obra edificada mostrou-se ainda mais bonito à meia-luz, e o sol pôs-se sabendo que a fitávamos tão gelados como admirados. E foi assim que pediu às mantas de vinha que aconchegassem a adega, prometendo que o dia nasceria outra vez.

Deixe o seu comentário

Please enter your comment!
Please enter your name here