A Fladgate Partnership está a renovar as vinhas velhas instaladas em socalcos das suas quintas. O trabalho só irá acabar na próxima geração, já que avança à velocidade de um hectare por ano. Nada que tire o sono a António Magalhães e David Guimaraens, os anfitriões que nos andaram a mostrar os trabalhos que podem trazer de novo o Douro para a “linha justa”. Vitícolamente falando, entenda-se.

 

TEXTO João Paulo Martins FOTOS Anabela Trindade

O grupo Fladgate Partnership dedica-se exclusivamente à produção de Vinho do Porto. No conjunto das grandes empresas do sector é um caso único e sente-se, ao falar com as pessoas da casa, independentemente da função que ali desempenham, um grande orgulho nesta opção. Em tempos a empresa Fonseca Guimaraens teve um vinho branco Douro – a marca Dom Prior – mas, entretanto, foi abandonada a produção.

Após a aquisição da Wiese & Khrön, que tinha uma adega para DOC Douro na zona do Rio Torto, poder-se-ia pensar que se estava a equacionar o aproveitamento das instalações para produzir vinhos tranquilos mas a opção foi, em coerência com a “filosofia da casa”, o alugar dessas instalações a um produtor do Douro, estando assim posta de lado a entrada nesse negócio. Ao falar com David Guimaraens (enólogo), António Magalhães (departamento de viticultura) ou mesmo Adrian Bridge (CEO da empresa) sente-se um grande orgulho e uma defesa intransigente desta opção.

Não foi para tratar desde tema que fomos ao Douro a convite da empresa mas, mesmo não querendo, o tema do sim ou não ao DOC Douro acaba sempre por vir à conversa, formal ou informalmente. E David lá diz, meio a rir, meio a sério, “vocês não me façam falar”, lançando de imediato números e factos para a discussão, a tal discussão que o sector não quer tomar a peito porque uns assobiam para o lado e outros chutam para canto e o IVDP também não cumpre a sua função de juntar ou forçar a discussão entre as partes. E, mesmo sem aprofundar o assunto, basta lembrar, como diz David, que “as regras do funcionamento da região vêm do tempo em que aqui apenas se produzia Porto e hoje o DOC Douro já representa 88.000 pipas e não faltará muito para ultrapassar o Vinho do Porto; isso vai ser dramático para o Porto”. Há que mudar regras e procedimentos? Claro que sim, e urgentemente, mas faltam muitas vontades.

Viemos ao Douro conhecer as novas práticas vitícolas que se estão a operar nas várias quintas da empresa e visitar o enorme complexo de vinificação e estágio que existe na adega da Nogueira, em São João da Pesqueira, agora bem mais alargado.

Segredos e novidades
A Quinta da Terra Feita, situada no vale Mendiz, é um dos segredos da empresa. Não que seja desconhecida ou um nome não falado. Nada disso. Com a marca da quinta faz-se mesmo um dos vintages da Fladgate. O segredo vem do facto de esta quinta não fazer parte dos circuitos turísticos; aqui não vêm visitantes, aqui faz-se Porto à antiga, com lagares de pedra, e os tonéis são também eles bem antigos. Vinhas velhas e métodos ancestrais aqui marcam presença. A nossa visita é inesperada porque inabitual, apanhamos os trabalhos finais da vindima mas ainda fomos a tempo de nos restaurarmos num local idílico, nas margens de um ribeiro, agora praticamente seco. Era o local apropriado para uma feijoada à transmontana? Nem respondo para não fazer crescer água na boca…

Vargellas é outro mundo. A visita demorada às parcelas da quinta foi conduzida por quem sabe: Nicholas Heath, director de marketing da Fladgate. Quinta emblemática da empresa, principal propriedade no Douro Superior, cheia de história e repleta de estórias. Começou por estar dividida em três parcelas, Vargellas de Cima, do Meio e de Baixo – a de Baixo pertencia a Bernardo Brito e Cunha e as de Cima a uma filha de D. Antónia Adelaide Ferreira. Já produzia antes da filoxera mas foi só com o rebentamento do cachão da Valeira e o início do caminho-de-ferro, em 1884, que ganhou outra importância. Após a filoxera tornou-se imperioso renovar os vinhedos e, entre novos proprietários e outras vicissitudes, a quinta acabou por se transformar, em 1896, numa única propriedade, à data com a produção de 4 pipas (hoje tem 200). Em 1905 já tinha 35 pipas e é nos anos 30 do séc. XX que chega à produção próxima da actual. Vargellas sempre funcionou como uma espécie de laboratório sobre castas, vinificações em lagares ou métodos alternativos e co-fermentações, algo muito caro aos técnicos da empresa.

Sabia que…
Casculho é uma casta de que pouco se fala no Douro, mas sabe-se que ali existe desde o séc. XVIII

A adega da Nogueira é um enorme centro de vinificação, mas também um local onde já repousa cerca de metade do stock da empresa. “Tínhamos armazéns dispersos em Gaia e os acessos eram muito difíceis. Por isso mudámos para aqui uma boa parte do stock”, diz David. Aqui, na adega da Nogueira, sob o comando da enóloga Joana Furriel, fazem-se 2,5 dos 6 milhões de litros que a empresa produz no total. O L.B.V. da Taylor’s (900.000 litros) já é totalmente envelhecido aqui.

Será muito quente? Mais do que a temperatura, era a humidade (a falta dela) que poderia ser um problema, mas há imensos aspersores instalados dentro dos armazéns que deitam vapor de água para o ambiente e não se notam quebras por evaporação superiores às que se verificam em Gaia. Aqui na Pesqueira, a inércia térmica de 5 milhões de litros, o pé direito muito alto e as noites frias contribuem para que a evaporação não passe os 1,5% (idêntica à de Gaia), quando nos armazéns tradicionais do Douro chegava aos 6%. É assim provável que outras empresas do sector comecem a repensar o armazenamento dos vinhos (ou parte deles) em função das modificações que Vila Nova de Gaia vai conhecendo, sobretudo na zona ribeirinha, onde a passagem de camiões cisterna é cada vez mais difícil.

Joana mantém uma relação estreita com os fornecedores. A empresa tem cerca de 70, a quem David chama os “viticultores profissionais” porque têm 10 ou mais hectares de vinhedos. Além desses há mais 40 de menor dimensão e Joana é a comandante das operações durante a vindima, em estreita ligação com David e António. As uvas que recebem dos lavradores estão individualizadas e cada produtor participa em todo o processo, da mesa de escolha à fermentação e da encuba ao engarrafamento e acompanham assim o seu próprio vinho. E dele, antes que seja lotado, recebem duas caixas por ano para consumo próprio.

A vinha de sequeiro (sem rega) é a “obrigatória” nas plantações Fladgate

Com um stock tão grande torna-se claro que há por aqui exigente trabalho de tanoaria e David confirma-nos que tem 5 tanoeiros na empresa e que não tem sido difícil contratá-los. De resto, recordo-me que na última visita que fiz a esta adega se estava precisamente a desmontar, limpar e reconstruir os enormes tonéis que tinham chegado à empresa após a compra dos stocks da Borges. Uma tarefa permanente, uma profissão indispensável às empresas de Vinho do Porto.

Os sins e os nãos do PDRITM
Quando visitei pela primeira vez o Douro por motivos profissionais, corria o ano de 1989, a região estava em verdadeira ebulição. Não de agitação social (essa era centenária e não estava em vias de acabar…), mas de entusiasmo. As razões eram válidas e todas entusiasmantes: havia fundos para investir como não mais voltou a verificar-se e, do ponto de vista da investigação, quer a ADVID quer os trabalhos de João Nicolau de Almeida, de Nuno Magalhães e Antero Martins traziam sangue novo e novas perspectivas para a região.

Foi a altura da aplicação do Plano de Desenvolvimento Rural Integrado de Trás-os-Montes (PDRITM), que trouxe os fundos do Banco Mundial aplicáveis ao plantio de 2.500ha de novas vinhas e reconversão de 300ha de vinhas já existentes. O que se vai plantar e como se vai plantar passou a ser então a razão do estudo dos homens da viticultura. E o entusiasmo era enorme, sobretudo porque se estava a começar, de forma sistemática e onde a inclinação o permitisse, a instalação da vinha ao alto que permitiria melhor mecanização dos trabalhos agrícolas, o grande objectivo do financiamento.

Foram esmagadoramente apoiados os projectos de novos plantios (cerca de 2.472ha de novas vinhas), em detrimento das reconversões, quase sempre complicadas e de difícil mecanização (59ha) além de 218ha de transferências de licenças de outras zonas. Isto aumentou 8,4% a área de vinha da região, o que é muito significativo. Vivia-se assim um clima de grande entusiasmo. António Magalhães não esconde: “Eu também fui dos que se entusiasmaram com o projecto, havia muito dinheiro para gastar e pressa em gastá-lo, mas cometemos muitos erros de que agora estamos a tentar recuperar.”

Na altura aconselhava-se o plantio de 3.000 plantas por hectare, quando no socalco tradicional a média rondará as 5.100 plantas/ha. Para se compensar a menor densidade proibiu-se o porta-enxertos antigo e tradicional (resistente à secura e que induz menor produção), sendo substituído por porta-enxertos mais produtivos. Foi, segundo Magalhães, um erro crasso. Essas vinhas do PDRITM, que agora já são vinhas velhas, têm uma produção muito baixa por hectare e não beneficiam em nada de ter pouca densidade. E conclui: “A tradição do Douro, que estamos agora a retomar, é a alta densidade de plantas por hectare e pouca produção por pé, o que ajuda a equilibrar. Nestas novas plantações estamos a ter uma densidade de 5.350 plantas/há, o que, para vinhas não regadas, é determinante na qualidade final das uvas.”

Quem hoje passa nas estradas do Douro e as conhece há muitos anos, percebe que tem havido muita reconversão de vinhas ao alto para vinhas em patamares e, neste sentido, a estratégia seguida para a aplicação do plano do PDRITM pode considerar-se um fracasso. As reconversões de vinhas são práticas habituais na região, mas hoje poucas são as que não respeitam as curvas de nível, no fundo a técnica antiga. Muito se progrediu neste campo e a surriba é hoje feita com enorme precisão. Dito por outras palavras, estamos a regressar a técnicas antigas, mas adaptando-as com os avanços tecnológicos que temos à disposição. Hoje sabemos mais de solos, temos mais noção das exigências de cada uma das castas usadas e existe a preocupação com a penosidade do trabalho manual. Por isso, os novos socalcos procuram resolver estes e outros problemas.

Socalcos de nova geração
Magalhães é claro ao falar destes novos socalcos. Têm de estar adaptados a vinhas não regadas, ponto fulcral da filosofia da casa. “Só regamos a vinha no primeiro ano para que ela se adapte e crie raízes. São cerca de 50 litros por pé. Depois disso falamos em vinhas de sequeiro, a tradição da região que queremos manter.” Porquê esta prática quando a rega se está a disseminar pela região é a pergunta que fica, mas Magalhães e David estão cientes de que “para fazer Vinho do Porto, e apenas Vinho do Porto como é o caso da nossa empresa, acreditamos ser indispensável que estejamos a falar de vinhas não regadas”.

Os erros cometidos com as plantações de finais dos anos 80 estão agora a ser corrigidos

Já no que respeita à recuperação de socalcos com muros de pedra e à sua recustosa manutenção ficámos a saber que a atribuição da classificação da Unesco terá sido determinante para a manutenção dos muros de pedra, uma das imagens emblemáticas da região. Mas também aqui há novidades, iniciadas em 2002 quando a empresa resolveu levar por diante um projecto ambicioso de recuperação de vinhas em socalcos com muros de pedra. Projecto a longo prazo, “que só vai acabar na próxima geração, porque há 360ha de vinha, dos quais 58 em socalcos tradicionais, e só reconvertemos um hectare por ano”.

Os socalcos pré-filoxéricos foram pensados para uma era sem mecanização, em que todo o trabalho era manual. Preservar socalcos obriga assim a novos conceitos que diminuam o trabalho manual, ainda que na própria manutenção dos muros se gaste muito dinheiro e tempo. É que “sem pensar no custo da pedra, recuperar um metro quadrado de muro custa 60 euros e demora 4,5 horas de trabalho”: “Temos três pedreiros a trabalhar em reconstrução de muros e usamos nestes trabalhos mão-de-obra que está disponível nas alturas em que há menos trabalho na vinha e, curiosamente, temos jovens interessados nesta tarefa.”

A Fladgate estagia no Douro cerca de metade do stock de Vinho do Porto.

As novas propostas em termos de viticultura podem resumir-se assim: reformulação dos socalcos com a supressão da última fila de cepas do socalco antigo, o que permite o alargamento do espaço entre socalcos e passagem de máquinas para os tratamentos a fazer; aumento da densidade de plantação, voltando a uma prática antiga que apontava para mais de 5000 pés de vide por hectare; recuperação dos antigos porta-enxertos indutores de baixa produção e resistentes à secura; plantação das castas por talhão mas tirando partido do que já sabemos sobre cada uma delas – por exemplo, a Tinta Roriz é agora plantada em terrenos muito pobres, contrariando assim a sua tendência natural para a produção excessiva e, além disso, é colocada em terrenos bem arejados que diminuam a tendência para as doenças de míldio e oídio.

Manter a diversidade das castas é outra preocupação, não já na fórmula antiga (misturadas na vinha) mas sim por talhões, todos eles identificados pela cor do poste. Assim, num hectare de vinha podemos ter várias castas, cada uma com algumas linhas. Podem assim ser vindimadas ao mesmo tempo e percebe-se melhor o desempenho de cada casta. Depois, na adega, segue-se uma fermentação conjunta. Segundo David “a co-fermentação das castas é absolutamente determinante para o Vinho do Porto e por isso a preocupação é mais com a diversidade do que com o facto de elas estarem aleatoriamente misturadas na mesma vinha”. Já quanto ao património genético, Magalhães tem mantido algumas castas antigas que, ou por mal compreendidas ou por mal estudadas do ponto de vista genético, ainda estão no limbo. É o caso do Casculho (casta tardia e já referenciada desde o séc. XVIII), Moreto, Malvasia Preta, Cornifesto e uma outra, com o curioso nome de Tinta Malandra. Cá continuam e no futuro se verá o que poderão dar.

Os novos socalcos, com mais espaço de trabalho para as máquinas não obstam a que se continue nas entrelinhas a trabalhar com tracção animal, tradição que a Fladgate faz questão de preservar. Visitámos e observámos este trabalho na Quinta do Junco, com uma óptima localização e muita vinha velha, o que justificou a intervenção agora levada a efeito. Não é de esperar que a Fladgate se dedique também à criação de cavalos; bastam-lhe os dois machos que tem contratados para este trabalho.

A visita terminou com um jantar na Quinta de Vargellas, por baixo da latada, que o tempo ainda corria quente. E, para a digestão, nada como participar na última lagarada que teve lugar e com a qual se fechou a vindima. No dia seguinte, o rancho veio fazer a entrega do ramo, ao som do acordeão, agradecendo ao senhor da quinta o trabalho e prometendo voltar para o ano. Allistar Robertson, ex-CEO mas ainda membro não executivo da administração, faz esse papel como ninguém. E retribui com um almoço opíparo, pelo menos a ver pelos vinhos brancos servidos, de E. Guigal, um dos produtores emblemáticos das Côtes-du-Rhône. E esta, hã?

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