Os Tavares da Silva compraram a Quinta de Chocapalha em meados dos anos 80. Foi em leilão de partilhas e a partir daí a vida mudou. Ficaram para trás outras vidas, mas não se perdeu o essencial: a unidade do núcleo familiar. Hoje continua a ser de família que falamos. E não há aplausos que cheguem para apoiar projectos destes.

 

TEXTO João Paulo Martins FOTOS João Cutileiro

PASSOU uma dúzia de anos desde a última vez que tinha estado em Chocapalha. E como a memória às vezes é fraca, dei comigo a voltar para trás no carro pensando que me tinha enganado na estrada, porque se tratava de uma estrada de terra, pormenor que não me tinha ficado na memória. Dir-se-ia que este regresso à terra da família Tavares da Silva não obrigava a tanta fidelidade à ruralidade de outrora, mas registamos com apreço este pormenor. E é de pormenor que falamos quando entramos na casa bem antiga e de traça rural portuguesa, no cuidado em manter o que é de manter, apesar do que isso implica de frio a entrar por baixo da porta. É que isolamentos térmicos nunca foram o forte das casas portuguesas e, à conta disso, o número de lareiras e aquecedores acaba por ser enorme.

O pai, Paulo, ex-oficial da Marinha, abandonou as lides marítimas e instalou-se, perto mas sem mar à vista, sendo agora as vinhas, as pêras (9 hectares) e as maçãs (em modo de gradual substituição) que lhe tomam todo o dia. E ao passear com ele nas vinhas – 50ha, num total de 70ha da propriedade – ficamos a saber onde há videiras com esca (doença de lenho), onde há pegadas de javalis (já os viu em bandos de 15…), onde se escondem as perdizes, qual a parcela em que há uma melhor adaptação da casta ao solo e à exposição e onde vamos ter de substituir isto por aquilo. Conhece cada palmo do terreno, todo ele muito argiloso, o que mantém a humidade do solo e permite ter vinhas sem rega. Por aqui stress hídrico não é assunto…

Ao seu lado andam duas filhas: Sandra e Andrea. Sandra, sempre em trânsito entre o Douro e Chocapalha, a responsável técnica dos vinhos e quem mais mudança e confusão traz à família – pelas opções de castas, pelas decisões do planta e do arranca, pelas compras dos equipamentos, pelos lotes e pela “cara” que tem que dar pelos vinhos, enquanto enóloga responsável. Mas não está sozinha e Miguel Cavaco, enólogo residente, segura este barco (passe a expressão em família de marinheiro…) que não tem parado de crescer e já longe vai a primeira vindima (em 2000). E foi esse crescimento que obrigou à construção de uma adega, uma obra notável pela inserção na paisagem e que permite um trabalho bem mais profissional do que a velhinha e antiga adega que conheci na minha primeira visita à quinta.

São as dores do crescimento, mas isso apenas reflecte a consistência do projecto com a permanente supervisão da folha Excel por parte da irmã Andrea, que controla o backoffice da empresa e que não tem de percorrer o país de lés-a-lés porque o trajecto é apenas desde Lisboa. É essa curta distância que entusiasmou Alice, a mãe, o elo agregador do núcleo familiar, que se sente bem porque não estar assim tão longe da vida urbana e ter uma pacatez bucólica de fazer inveja a qualquer citadino inveterado.

Quando se decidiu plantar vinhas, as opções e orientações da então Comissão Vitivinícola iam para as castas tradicionais da região, como a Tinta Miúda, o Castelão, a que se poderiam juntar a Preto Martinho, Seminário e muitas outras que por aqui eram usadas. Mas esses tempos mudaram e Paulo orgulha-se de ter plantado aqui há 30 anos – na altura com os conselhos de Luiz Carvalho – a Touriga Nacional, com garfos do Dão que trouxe do Centro de Estudos de Nelas. Datando da mesma época temos vinhas de Arinto, que agora passará a ser sempre um vinho varietal, tendo deixado de entrar na quase totalidade dos outros brancos. É a casta mais tardia, com maturações muito lentas, “a última das brancas a ser vindimada e já quando as tintas vão a meio”.

Nas opções iniciais contaram-se castas estrangeiras brancas, como Chardonnay e Sauvignon Blanc, algo que Sandra justifica: “Eram importantes para conseguirmos entrar nos mercados externos mas, de há 10 anos para cá, deu-se uma inversão e agora lá fora só querem as castas portuguesas. Por ironia, as castas estrangeiras continuam a vender-se bem por cá.” Também aqui existe a mal amada Tinta Roriz, mas Sandra não desarma: “Se plantada nos locais certos – mais pobres, que induzam pouca produção, e mais arejados, onde as doenças fúngicas ataquem menos –, dá grandes vinhos, eu gosto muito.”

Pelos vistos mudaram os gostos dos importadores mas mudou também o perfil que se pretende para os vinhos. Outrora havia aqui brancos muito marcados pela madeira nova e hoje as barricas novas entram em percentagem muito pequena. Continua a usar-se a fermentação e estágio nas barricas mas agora pretende-se uma maior complexidade que deriva do estágio e da bâtonnage e menos das notas de tosta. Torna-se assim obrigatório manter ensaios permanentes (dores de cabeça para quem investe…) sobre que tipos de madeiras, com que capacidade, que quantidade se tem de comprar anualmente, qual o tempo de estágio em garrafa após o engarrafamento, etc, etc.

Indo ao encontro das novas tendências, alguns brancos, como o Reserva e o CH, estão a chegar mais tarde ao mercado, dando-lhes mais tempo de garrafa, e por isso de um deles é a colheita de 2015 que começa agora a ser comercializada. Numa região tendencialmente geradora de vinhos com alta acidez, não há razão nenhuma para que os vinhos não vivam bem em garrafa e isso foi bem evidente nos vinhos mais antigos que provámos: um Arinto de 2009 anda austero e com leves notas apetroladas, complexo e que mais uma vez vem dar razão aos que acham que (talvez com um antepassado comum) a casta Arinto tem algum parentesco com o Riesling alemão. Não confirmamos nem desmentimos. Já o Chocapalha Reserva branco 2010, ainda herdeiro da época em que a barrica nova impunha a sua lei, não deixou de se mostrar muito bem, carregado na cor, com notas de compota e fruta em calda, mas ao qual o tempo conferiu um perfil acetinado, gordo e cheio de classe, daqueles que seguramente serão grandes companheiros de queijos de pasta mole.

O conceito de agricultura é o chamado modo orgânico, muito próximo por isso do modo biológico. “Fazemos uma intervenção mínima na vinha mas não queremos fazer vinhos naturais; são vinhos que viajam mal e que duram pouco; provados no próprio local da produção até podem ser interessantes mas no fim da viagem já perderam qualidades” diz-
nos Sandra.

O dia estava calmo e sem vento, coisa rara por aqui. E na Aldeia Galega por lá andavam alguns dos muitos estrangeiros que se têm vindo instalar por aqui, dando crédito à tese que diz que Portugal está na moda. Diz-se nos mentideros que por aqui “montaram tenda” para estarem mais perto da fonte. “Palha quê? No, no, mim querer blanco, usted tiene? Rojo tiene? Pur supuesto, benga…”

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