Casa Relvas pioneira com selo PSA no azeite

A Casa Relvas, no Alentejo, é pioneira na certificação da sustentabilidade do azeite através da obtenção da certificação do Programa de Sustentabilidade do Azeite (PSA), pela OLIVUM – Associação de Olivicultores e Lagares de Portugal, entidade fundada em 2013. Este reconhecimento assinala a preocupação da empresa no que diz respeito à valorização ambiental, social e […]
A Casa Relvas, no Alentejo, é pioneira na certificação da sustentabilidade do azeite através da obtenção da certificação do Programa de Sustentabilidade do Azeite (PSA), pela OLIVUM – Associação de Olivicultores e Lagares de Portugal, entidade fundada em 2013. Este reconhecimento assinala a preocupação da empresa no que diz respeito à valorização ambiental, social e económica do sector olivícola nacional, acção que contribui para firmar o posicionamento do país como exemplo internacional de boas práticas nesta vertente agrícola.
“Esta certificação representa um passo natural num percurso que a Casa Relvas tem vindo a construir há vários anos e o seu compromisso com a sustentabilidade. Mais do que um reconhecimento externo, o selo PSA valida uma forma de estar no sector, assente na responsabilidade, na melhoria contínua e no respeito pelos recursos naturais, pelas pessoas e pelo território”, declara António Relvas, Co-CEO da Casa Relvas. Este marco surge na sequência de um projecto iniciado em 2022, ano em que este produtor foi a primeira das dez maiores empresas produtoras de vinho do Alentejo a receber a Certificação de Produção Sustentável, desta feita da Comissão Vitivinícola Regional Alentejana.
O PSA é um sistema de certificação independente desenvolvido no sentido de dar resposta à crescente exigência dos mercados internacionais em matéria de sustentabilidade, rastreabilidade e responsabilidade social e ambiental. Todo este trabalho assenta num referencial constituído por 98 critérios distribuídos por 26 capítulos, com o intuito de avaliar as questões inerentes à sustentabilidade no âmbito da produção de azeite.
Azeite biológico para os mais novos

Numa época em que o verdadeiro sabor dos alimentos é tema de debate entre especialistas da área da nutrição e cozinheiros, em especial no que aos hábitos alimentares das crianças diz respeito, eis que surge no mercado um azeite de produção biológica certificada criado especialmente para os mais pequenos. Chama-se Mainovo e é da Mainova, […]
Numa época em que o verdadeiro sabor dos alimentos é tema de debate entre especialistas da área da nutrição e cozinheiros, em especial no que aos hábitos alimentares das crianças diz respeito, eis que surge no mercado um azeite de produção biológica certificada criado especialmente para os mais pequenos. Chama-se Mainovo e é da Mainova, nome reconhecido no mundo vitivinícola no coração do Alentejo.
Quanto às características deste azeite, a Mainova destaca a acidez baixa, o perfil aromático mais suave em relação aos demais e a origem 100% natural. Por isso, e de acordo com o comunicado, “o Mainovo assume-se como um aliado na introdução de novos alimentos, contribuindo para o desenvolvimento de um paladar variado, curioso e equilibrado”.
Para os mais curiosos, a Mainova desenvolveu o audiobook infantil intitulado “As Aventuras do Mainovo” (As aventuras do Mainovo | Podcast on Spotify). Há ainda três receitas elaboradas pela Nutricionista Joana Azevedo Nunes, Mestre em Nutrição Pediátrica e histórias em áudio no site da Mainova (Mainovo).
Produção de azeites Esporão com nova liderança

Integrada na equipa desde 2013, Ana Gaspar é quem está, agora, à frente da produção de azeites. A oleóloga soma já um percurso de 12 anos nesta casa, também produtora de vinhos localizada em Reguengos de Monsaraz, no Alentejo, o que se traduz no amplo conhecimento sobre a matéria, tendo estado envolvida em todas as […]
Integrada na equipa desde 2013, Ana Gaspar é quem está, agora, à frente da produção de azeites. A oleóloga soma já um percurso de 12 anos nesta casa, também produtora de vinhos localizada em Reguengos de Monsaraz, no Alentejo, o que se traduz no amplo conhecimento sobre a matéria, tendo estado envolvida em todas as etapas de produção e qualidade. Deste modo, e de acordo com o comunicado, tem contribuído “de forma decisiva para o desenvolvimento e reconhecimento dos azeites Esporão, tanto dentro como fora de Portugal”.
Com esta nova etapa, o Esporão espera dar continuidade à produção de azeite, trabalho em relação ao qual tem vindo a reforçar a aposta. Fica, para já, a promessa de preservar a identidade deste produto alicerçada na valorização das variedades de azeitona portuguesas, na conjugação entre tradição e inovação, e na ligação com os produtores da matéria-prima.
Altas Quintas: Azeites, borregos e um vinho com mel

O evento teve como objectivo apresentar, a um público diversificado (incluindo lojistas especializados, produtores agro-alimentares, jornalistas, Horeca), os novos lançamentos de algumas das empresas da família Leitão Machado, em particular da vinícola Altas Quintas e da Herdade de Vale Feitoso. Em destaque, dois azeites, a carne de borrego da raça Churra do Campo e um […]
O evento teve como objectivo apresentar, a um público diversificado (incluindo lojistas especializados, produtores agro-alimentares, jornalistas, Horeca), os novos lançamentos de algumas das empresas da família Leitão Machado, em particular da vinícola Altas Quintas e da Herdade de Vale Feitoso. Em destaque, dois azeites, a carne de borrego da raça Churra do Campo e um inédito vinho aromatizado com mel.
José Manuel Fernandes, ministro da Agricultura, convidado para abrir a sessão, referiu, em tom de lamento, aquilo que muitos não dizem, em nome do “politicamente correcto”: “às vezes, parece que temos de justificar a importância da dieta mediterrânica e referir que é património imaterial da humanidade. Às vezes, parece que temos vergonha de dizer que agricultores e caçadores não são inimigos do ambiente, antes pelo contrário, são seus cuidadores…”
Estava dado o mote para a interessantíssima palestra do Cónego José Manuel dos Santos Ferreira, apoiada pelas questões do jornalista Edgardo Pacheco (“mais acostumado a falar sobre assuntos terrenos”, como salientou), em torno do simbolismo do vinho, da oliveira, do azeite, do mel e do cordeiro, elementos centrais na cultura mediterrânica.
O valioso conjunto de telas alusivas à vida de São Jerónimo, que decoram a sacristia, serviram de tema de abertura ao Cónego, abordando a vida deste disseminador da fé cristã nos primeiros tempos do catolicismo, sem escamotear a sua personalidade “difícil, polémica e implacável”, como salientou. Passámos depois ao azeite e à oliveira, árvore austera, de vida longa, que simboliza a salvação e a prosperidade, inúmeras vezes usada como metáfora no Antigo Testamento, símbolo de paz desde há tempos imemoriais. Também o mel tem muitas referências bíblicas, apontado como fonte de energia e com propriedades curativas, ligado à suavidade e à sabedoria.
A palestra do Cónego José Manuel dos Santos Ferreira, apoiada pelas questões do jornalista Edgardo Pacheco, decorreu em torno do simbolismo do vinho, da oliveira, do azeite, do mel e do cordeiro, elementos centrais na cultura mediterrânica
Do vinho, ficámos a saber que já na tradicional refeição da Páscoa judaica, o Seder de Pessach, se consumiam quatro taças de vinho, simbolizando as quatro promessas de Deus aos israelitas. Na liturgia cristã, e na Última Ceia, Jesus deu-lhe nova essência, o cálice da bênção deixa de ser vinho e passa a ser o sangue do sacrifício, fundamental na eucaristia. Como acentuou o Cónego José Manuel dos Santos Ferreira, “não há missa sem vinho”.
Finalmente, o cordeiro. Antes do cristianismo, era símbolo da simplicidade e fragilidade da vida. Na cultura judaica, fez parte do rito sacrificial. E enquanto cordeiro pascal, tem profunda simbologia cristã. O rito do sacrifício desapareceu, mas o simbolismo não, continuando a ser consumido em muitas casas no domingo de Páscoa.
E podemos agora passar aos assuntos terrenos, nos quais, tal como Edgardo Pacheco, me sinto bem mais confortável, sobretudo para escrever sobre.
Altas Quintas e Vale Feitoso
A Herdade do Vale Feitoso, situada em Monfortinho, é uma das maiores propriedades privadas de Portugal, com 7.500 hectares de paisagens preservadas. A herdade tornou-se um extraordinário refúgio de biodiversidade, albergando uma imensidão de fauna e flora ibérica. Comprometida com a recuperação de diversas espécies animais em vias de extinção (o bisonte europeu é uma delas), tem vindo a apostar na produção de azeites, na caça sustentável (Sabor Selvagem é a marca de carne de caça da herdade) e na recuperação da ovelha Churra do Campo, raça de ovinos originária da fronteira entre a Beira Baixa e Espanha e de tal modo ameaçada, que a sua população em Portugal é inferior a mil exemplares, número, como foi salientado, inferior ao do lobo…
Vale Feitoso, em colaboração com um produtor e preparador de carne de ovelha alentejana, tem vindo a recuperar a raça e a comercializar esta carne (apenas se abatem machos, para garantir a reprodução consistente dos efectivos), cuja excelência pudemos comprovar no evento pela mão afinada do chef Vítor Sobral. A carne de borrego da raça Churra do Campo pode desde já ser adquirida nas lojas do El Corte Inglês.
Antes da refeição, no entanto, houve lugar a uma prova dos dois azeites agora lançados, orientada por Edgardo Pacheco. A Herdade de Vale Feitoso tem mais de 200 hectares de oliveiras centenárias, um património que Edgardo, profundo conhecedor da matéria, considera único: “Quando fui pela primeira vez a Vale Feitoso nem queria acreditar na dimensão do olival velho e na profusão de variedades de azeitona, dezenas delas, muitas completamente desconhecidas”, disse. Hoje, está a ser feito, com o Instituto Politécnico de Bragança, um trabalho de investigação e identificação destas variedades. Quanto aos azeites agora lançados, elaborados em lagar próprio, são provenientes de zonas distintas deste olival centenário e de azeitonas colhidas em momentos diferentes. Ambos da safra de 2024, o azeite Altas Quintas é mais suave e frutado, enquanto o Vale Feitoso, oriundo de azeitonas mais verdes e de uma parcela chamada Lavajo, é mais herbáceo, amargo e picante. Já à venda nas lojas especializadas, o primeiro custa €18 (500ml) e o segundo €20.
Também o mel tem muitas referências bíblicas, apontado como fonte de energia e com propriedades curativas, ligado à suavidade e à sabedoria.
Finalmente, o Melitvs. O rótulo lê-se Melitus e o conteúdo da garrafa inspira-se nos vinhos aromatizados com mel que eram comuns na antiga civilização romana. Trata-se do novo produto Altas Quintas, marca consagrada entre os vinhos do Alentejo, nascida na vindima de 2004. Propriedade da família Leitão Machado desde 2023, a Altas Quintas tem a sua vinha e adega nas encostas da serra de São Mamede, Portalegre, onde tira partido de um terroir influenciado pela altitude para produzir vinhos que conjugam qualidade e carácter. Atributos que não faltam ao Melitvs, que combina a frescura habitual dos brancos Altas Quintas com o mel biológico de Vale Feitoso, e que saiu das mãos dos enólogos António Ventura, Tiago Correia e Diogo Vieira. Da colheita de 2024, foi feito com as castas Fernão Pires e Verdelho e estagiou depois numa ânfora de barro. O resultado é surpreendente, revelando um vinho delicado e intenso ao mesmo tempo, com o mel a dar leve doçura compensada por excelente acidez. Prazer, originalidade e história numa garrafa que custa uns módicos €14 (500ml).
Azeite, mel, borrego, vinho. Mais mediterrânico do que isto, é difícil. Como disse, no final do evento, Ricardo Leitão Machado, “somos o que comemos”. Assim seja.
(Artigo publicado na edição de Maio de 2025)
Azeite da Herdade Vale Feitoso vence concurso internacional

O azeite da Herdade de Vale Feitoso foi o vencedor do 14.º Concurso Internacional de Azeite Virgem Extra – Prémios CA OVIBEJA na categoria de Frutado Maduro, competição organizada em Portugal e considerada uma das melhores do mundo. Organizado anualmente pela Associação de Agricultores do Sul (ACOS), com o apoio da Casa do Azeite – […]
O azeite da Herdade de Vale Feitoso foi o vencedor do 14.º Concurso Internacional de Azeite Virgem Extra – Prémios CA OVIBEJA na categoria de Frutado Maduro, competição organizada em Portugal e considerada uma das melhores do mundo.
Organizado anualmente pela Associação de Agricultores do Sul (ACOS), com o apoio da Casa do Azeite – Associação do Azeite de Portugal, a competição teve, este ano, a concurso, 93 amostras de empresas produtoras de Portugal, Alemanha, Israel, Espanha, Grécia, França, Itália, Croácia e Brasil.
Os azeites foram avaliados, às cegas, por um painel de 26 jurados de 10 nacionalidades, presidido pelo professor José Gouveia, um dos grandes especialistas mundiais desta área.
O anúncio e a entrega de prémios decorreram na mais recente Ovibeja, no início de Maio. Os azeite portugueses destacaram-se na competição deste ano, arrecadando nove distinções, duas das quais ouro, uma das quais para o Herdade de Vale Feitoso Azeite Virgem Extra 2024.
A marca tem origem num blend de azeitonas de variedades distintas, entre as quais Cordovil de Castelo Branco, Carrasquenha, Bical e Galega, provenientes de diferentes parcelas, colhidas no início de outubro. No nariz revela um aroma a relva, rúcula e alcachofra. Na boca é bastante intenso e expressivo, com notas amargas e picantes. É indicado para temperar carnes acabadas de sair do forno e peixes grelhados, para além de saladas intensas. Faz sobressair ainda o sabor de uma mousse de chocolate ou de um gelado de frutos secos. Produzido pela Herdade de Vale Feitoso, é comercializado pela Altas Quintas – Exploração Agrícola e Vinícola.
Harmonias: O fabuloso mundo dos azeites

Nada satisfaz mais o português que a ideia de abundância à mesa. O azeite é uma gordura muito especial por isso mesmo e não há melhor recompensa que uma nódoa do ouro líquido na camisa ou na gravata. A técnica mudou muito, mas a glória permanece e faz-se sentir nas grandes e pequenas declinações culinárias. […]
Nada satisfaz mais o português que a ideia de abundância à mesa. O azeite é uma gordura muito especial por isso mesmo e não há melhor recompensa que uma nódoa do ouro líquido na camisa ou na gravata. A técnica mudou muito, mas a glória permanece e faz-se sentir nas grandes e pequenas declinações culinárias. O tempo e o modo pedem azeite novo e em troca obtemos as maiores alegrias.
Das gorduras utilizadas pelo mundo na cozinha, o azeite é porventura a mais sofisticada, pelo simples facto de que intervém, com toda a sua personalidade, tanto no gosto como no aroma.
Não é uma gordura neutra e altera as suas características com o tempo, dois factores a ter em conta em qualquer utilização que se faça. Mas há mais. A cor do azeite não tem qualquer significado quanto a origem, qualidade ou acidez. Isto vale para os que vêem virtude nos azeites de uma certa cor, preterindo uns em relação a outros. É tanto assim quanto a prova de azeite é normalmente feita em gobelês de vidro azul, para que a coloração do conteúdo não influencie o juízo que se está a tentar fazer.
Outra falácia bastante comum é a presunção da acidez a partir da prova em boca. Um erro que se encontra muitas vezes entre os provadores de vinhos, referindo-se à acidez titulada em ácido tartárico ou sulfúrico. Acontece que a acidez do azeite se refere ao teor de ácido oleico, que o nosso sistema gustativo não consegue julgar. Há que não confundir com os amargos de certo azeite, que comunicam informação semelhante mas sem qualquer relação possível entre uma coisa e outra. Já o mesmo não se pode dizer dos aromas, que podemos e devemos julgar livremente com os receptores que utilizamos no quotidiano. É de resto nesta etapa da degustação que avaliamos defeitos nos azeites, caso por exemplo da tulha, ranço e mofo. A tulha tem origem no armazenamento precário e amontoado das azeitonas, que fermentaram por isso mesmo. Já o ranço é devido à oxidação da matéria-prima, e o mofo tem a ver com humidade residual, contaminando e condenando o estado da fruta antes do processo extractivo que origina o azeite. Um azeite defeituoso nunca melhora e vai arruinar todo e qualquer cozinhado que se faça com ele.
A prova de azeite é normalmente feita em gobelês de vidro azul, para que a coloração do conteúdo não influencie o juízo que se está a tentar fazer
Pelas virtudes é que vamos
A prova de azeites é completamente diferente da prova de vinhos e exige prática recorrente. Recomendo um caminho na exploração dos aspectos positivos, mais do que dos negativos de cada azeite. Tal como no vinho, detemo-nos nos aromas primeiro, e procuramos destrinçar as notas de fruta verde, como noz e maçã, das sensações mais maduras como ameixa e dióspiro. Depois temos de colocar no tabuleiro variáveis como especiarias, flores e notas balsâmicas, tal como fazemos com o vinho numa prova. Talvez não seja de imediato, mas em três tempos vai tornar-se especialista e aprender a explorar sem ajuda o fabuloso mundo dos azeites. Desde que seja virgem extra, o sentido de descoberta instala-se rapidamente, para nunca mais nos deixar.
Como tempero de saladas, utilizamos abundantemente um bom azeite e logo os componentes individualizados se manifestam como um instrumento musical numa orquestra. O mesmo acontece com o vinagre, e não é à toa que azeite e vinagre entram juntos à mesa, quase com o mesmo valor de sabor, pois no equilíbrio é que está o ganho. A fritura é manifestação feliz dos pontos positivos de uma gordura na cozinha, ajudando a conservar os alimentos e, ao mesmo tempo, conferindo-lhes a crocância que tanto apreciamos numa boa tempura. O azeite pode, neste caso, ser uma boa influência. Mas, na maioria das situações, um óleo alimentar de origem vegetal consegue melhores resultados. Face aos alimentos crus que estamos a trabalhar, adornados por gorduras abundantes, o conselho de harmonização recai inevitavelmente sobre um Loureiro sem madeira, da região dos Vinhos Verdes. A acidez fixa elevada resolve, o sabor consola. Se acrescentar frutos secos como amêndoas ou nozes, o acréscimo na textura vai encontrar contraponto de luxo no vinho da casta rainha de Ponte de Lima.
A variante lagareiro
A primeira declinação culinária que nos vem à mente, no tocante a azeite e proteína, é a posta de bacalhau assada no forno, bem regada e orlada com bastante alho. Sabores que estão incrustados na nossa alma desde que nascemos, com os quais crescemos bem nutridos e felizes, passando o testemunho para as gerações seguintes. Seja bacalhau, polvo, lulas ou outro ingrediente principal, encontramos esta solução culinária sob a designação “lagareiro”, justamente por ter o azeite como condutor do calor para o cozinhado. Em casa, dizemos apenas que é assado em azeite, mas, de facto, justifica-se alguma reflexão, porque não é exactamente assim.
Aproveito para introduzir alguma entropia – leia-se agitação – no assunto, indo aos postulados que reconhecemos como fundadores do processamento lagareiro. Um Vinhão do Minho ou um Cabernet Sauvignon do Tejo fazem as loas ao assado magistral, conferindo-lhe realeza e novos matizes de sabor. Ultimamente tenho feito experiências com vinhos Chardonnay do Tejo com madeira, exactamente com esta preparação de bacalhau com azeite, e quase sempre resultou. Há que experimentar e provar com persistência. Por muito que se evoque a tradição, sabemos que é coisa incriada e sempre aberta a novos processamentos.
Em tempos idos, enquanto se extraía o azeite novo nos lagares, aproveitava-se para ir lascando, respeitando o colagénio existente em abundância na posta. Em termos de temperatura, estava-se longe da fervura, que, como todos sabemos, é prejudicial à saúde do bacalhau, correndo o risco de secar e encortiçar. Era como se a posta soltasse pétalas de extremo sabor e tenrura. Entretanto, sobre as brasas mortiças repousavam batatas rachadas que, no momento de consumir, se juntava e regavam com o azeite novo e morno. Esta história ficcionada tem um fundo autêntico e situa-se nas Beiras, onde tem raízes a epopeia do bacalhau na mesa portuguesa. Fica maravilhosamente bem com um branco de Fonte Cal da Beira Interior, aliás como qualquer perfil de bacalhau. Gosto de fazer o paralelo com o torricado do Ribatejo. As incisões numa fatia de pão velho em diagonais cruzadas, o alho esfregado e o azeite acabado de fazer, depois enriquecido com pedaços de proteínas diversas, são iguaria digna dos deuses. Talvez nestas circunstâncias devamos orientar-nos para um Fernão Pires de Almeirim, copioso e não muito frio, para que a alquimia de boca se cumpra. Não se deixe intimidar pela eventual desconfiança no bacalhau congelado, em pratos que queremos executar rapidamente pode mesmo ser a solução indicada. Eu tenho, por hábito, demolhar bacalhau seco para depois demolhar a preceito e congelar. Para mim o sal deve pronunciar-se sobre a goma e a única forma de o conseguir é com esta abordagem. Mas há produtos cortados e corrigidos que vão ao encontro dos nossos gostos e bolsas, que dão rendimento muito apreciável em termos de sabor e integração em pratos de forno. Importante é que se cumpra o desígnio inicial, que é ter sempre bom bacalhau na mesa.
As variantes da variante
Em tempos que já lá vão reinou entre nós uma das sérias figuras da alta cozinha, chamado Aimé Barroyer. A cozinha do Pestana Palace, em Lisboa, vibrou e ficou ao rubro diversas vezes, com as criações do grande chef francês. Inesquecível a forma cândida com que Barroyer assumiu a sua perplexidade ante jóias da nossa cozinha, como a massa de pastel de bacalhau. Provei mais de uma dúzia de pratos feitos com a dita massa, a que confesso que nunca havia dado a atenção que o genial chef deu. Talvez a mais incrível de todas tenha sido a sua bola de massa de pastel de bacalhau em cama de percebes. No fundo, tratava-se de uma bola de massa próxima da brandade, que ia a fritar com batata palha à laia de raios de sol e vinha servida em cama de percebes. A experiência vínica mais fascinante que fiz com esta maravilha aconteceu com um Sauvignon Blanc do Douro, talvez mesmo a mais notável das experiências que me foi dado fazer com a casta.
Cebola, azeite e bacalhau são capazes de nos surpreender quando menos esperamos. A preparação dita à moda de Braga é exemplar. Posta de bacalhau frita com cebolada em azeite, batata frita às rodelas, tudo levado ao forno quente por pouco tempo, é uma das formas de perceber as mais valias que a cebola pode ter junto de bom azeite. O Bacalhau à Narcisa preenche praticamente os mesmos requisitos e, na verdade, muitos outros bacalhaus tradicionais bebem todos da mesma fonte sábia e ancestral. A cebola adora vinho branco, se lho soubermos dar, e a maravilha do bacalhau à minhota – outra designação possível do prato – acontece com um Arinto velho. Se for da Bairrada, tanto melhor, pois temos mineralidade forte e desempenho genial com azeite fervido em termos de sabor.
As incisões numa fatia de pão velho em diagonais cruzadas, o alho esfregado e o azeite acabado de fazer, depois enriquecido com pedaços de proteínas diversas, são iguaria digna dos deuses.
E não esqueçamos o galego Brás, que oficiava outrora na sóbola empena que vinha do Tejo e ia até ao céu sempre que houvesse interessados na jornada. Das muitas figuras do meu relicário gastronómico, é de longe aquele a quem mais impus a minha própria fantasia. Nos parcos e tíbios cursos que ministrei, o bacalhau à Brás pontifica, é eterno em nós e é do povo, não admitindo qualquer tipo de discriminação. Peguemos então numa aba fina de bacalhau seco. Esfiapamo-la com pressão da unha do polegar contra a do indicador. Fibra a fibra, vamos libertando os fios do fiel e vamos reparando que o sal vai saindo também. Terminada a empreitada, temos um montinho de sal, que deitamos fora. O passo seguinte é o corte de batatas em juliana fina, que reservamos após passadas por várias águas. Finalmente cortamos cebolas segundo o veio em bitola semelhante à da juliana de batata, que colocamos em sertã grande, mais larga que funda, em azeite virgem extra, lume no mínimo. Quando a cebola amolece, juntamos-lhe a batata, devidamente escorrida. Com a colher de pau, envolvemos ambos os legumes. Entretanto passamos por água corrente abundante, no fio da torneira, o bacalhau esfiapado da etapa inicial. Enxaguamos, e secamos com um pano. Levantamos um pouco o lume, até atingir fervura ligeira, às batatas e à cebola, que nesta altura devem estar chochas e mortiças. Integramos então o bacalhau, envolvendo sempre. Logo que volta a atingir fervura, apaga-se o lume. Deita-se uma gema batida por pessoa, mexendo sempre, deita-se coentros picados e azeitonas pretas e está pronto a servir. Há muitos caminhos para chegar ao objectivo final na cozinha portuguesa. Acompanhe com Bical do Dão com alguma madeira.
Artigo publicado na edição de Dezembro de 2024
Sumagrais com azeite bio

O produtor e enólogo Paulo Coutinho é igualmente um apaixonado produtor de azeite. Localizado junto à Vinha da Fonte, onde nascem os vinhos de produção biológica com a sua marca, o Olival dos Sumagrais, constituído por oliveiras centenárias, foi adquirido por Paulo Coutinho em 2020. Após um período inicial de quarentena, deu-se início à sua […]
O produtor e enólogo Paulo Coutinho é igualmente um apaixonado produtor de azeite. Localizado junto à Vinha da Fonte, onde nascem os vinhos de produção biológica com a sua marca, o Olival dos Sumagrais, constituído por oliveiras centenárias, foi adquirido por Paulo Coutinho em 2020.
Após um período inicial de quarentena, deu-se início à sua conversão para agricultura biológica, agora concluída com a certificação da colheita de 2023. O processo, rigoroso, incluiu não apenas o azeite, mas também confirmação nas oliveiras, por colheitas directas de folha e posterior pesquisa de resíduos. “Finalmente concretizamos o nosso objectivo”, diz Paulo Coutinho. “Sempre ambicionámos a certificação total dos nossos produtos, vinho e azeite”, acrescenta.
Mais impactante do que a certificação, digo eu, é a excelsa qualidade desde azeite produzido a partir destas vetustas oliveiras com as variedades autóctones do Douro. Tem apenas um senão: a minúscula quantidade produzida que, consoante a safra, varia entre as 300 e as 150 garrafas de 500ml. Paulo Coutinho, no entanto, revela ambição para o futuro: “à medida que o olival se dirige ao seu equilíbrio, contamos com um crescimento regular até às expectáveis…400 garrafas!”
O azeite Olival dos Sumagrais Bio (colheita 2023), está disponível por €21 na loja online www.paulocoutinho.wine. Como esta colheita só deu 150 garrafas, é melhor não perder tempo. LL
Herdade do Esporão convida a participar na campanha da azeitona

Para celebrar a chegada do Azeite novo, no próximo dia 23 de Outubro, a Herdade do Esporão preparou um programa especial entitulado “Um Dia de Campanha”. Este programa de enoturismo inclui várias actividades relacionadas com a campanha da azeitona e a produção de azeite — como um passeio pelo olival dos Arrifes, participação na colheita […]
Para celebrar a chegada do Azeite novo, no próximo dia 23 de Outubro, a Herdade do Esporão preparou um programa especial entitulado “Um Dia de Campanha”.
Este programa de enoturismo inclui várias actividades relacionadas com a campanha da azeitona e a produção de azeite — como um passeio pelo olival dos Arrifes, participação na colheita das azeitonas, visita guiada ao lagar e uma prova de azeites acabados de fazer — um café de boas-vindas na herdade logo de manhã e um almoço especialmente preparado para o momento, no Restaurante da Herdade do Esporão.
O almoço, da autoria do Chef Carlos de Albuquerque, terá cinco momentos e será acompanhado por cante alentejano, viola campaniça, e vinhos Esporão.
O programa “Um Dia de Campanha”, que inclui welcome e farewell kit, custa €70 por pessoa (€26 por criança dos 3 aos 12 anos), e as reservas devem ser feitas através dos contactos +351266509280 e reservas@esporao.com, tendo em conta que o a lotação máxima é de 40 participantes, divididos em dois grupos.
Programa completo:
10h30 – Café de boas-vindas
11h00 – Passeio pelo olival dos Arrifes e participação na campanha
(Recomenda-se a utilização de calçado adequado e vestuário confortável)
12h30 – Visita guiada ao lagar e prova de azeite novo (acabado de fazer), com actividade especial para crianças
14h00 – Almoço no Restaurante Herdade do Esporão com menu de cinco momentos harmonizado com dois vinhos Esporão* e acompanhado por cante alentejano e viola campaniça
*de acordo com disponibilidade de stocks











