Symington e Esporão são duas das marcas mais admiradas do mundo

Torre do Esporão

Um inquérito realizado a vários líderes de opinião e a 160.000 consumidores de vinho de todo o mundo deu resultados extraordinários para duas empresas e/ou marcas portuguesas. De facto, tanto a Symington como o Esporão conseguiram entrar no top 50 da lista The World’s Most Admired Wine Brands (As marcas de vinho mais admiradas do […]

Um inquérito realizado a vários líderes de opinião e a 160.000 consumidores de vinho de todo o mundo deu resultados extraordinários para duas empresas e/ou marcas portuguesas. De facto, tanto a Symington como o Esporão conseguiram entrar no top 50 da lista The World’s Most Admired Wine Brands (As marcas de vinho mais admiradas do mundo), acabada de editar pela revista inglesa Drinks International.

A Symington ficou no 7º lugar e o Esporão no 13.º lugar no ranking dos The World’s Most Admired Wine Brands 2020. Estes prémios, atribuídos desde 2011, distinguem as marcas de vinho mais conceituadas e prestigiantes do mundo. A Symington ficou à frente de empresas/marcas como Veja Sicilia (Espanha), Cloudy Bay (Nova Zelândia) ou Barefoot (EUA). Ambas as empresas superaram outros nomes sonantes de todo o mundo vínico, como Sassicaia, Cono Sur, Marqués de Riscal, Frescobaldi, Yellow Tail, Château d’Yquem ou Cheval Blanc, ou ainda Robert Mondavi ou Château Pétrus.
Nos três primeiros lugares ficaram a Catena Zapata (Argentina), a australiana Penfolds e a espanhola Torres.

Para a atribuição destes prémios, a Drinks International reuniu um conjunto de especialistas constituída por profissionais da indústria do vinho, desde comerciantes, retalhistas, importadores, bartenders, proprietários de garrafeiras e bares, Masters of Wine, críticos de vinho, jornalistas especializados em vinho e professores de enologia. Depois, com o recurso à Wine Intelligence (empresa especializada em estudos de mercado, estatísticas e consultoria), foram realizadas mais de 160.000 inquéritos a consumidores de vinho de 48 países. Os critérios avaliados passam por qualidade e consistência, relação preço – qualidade, “sentido de lugar” dos vinhos, país de origem ou o tipo de castas produzidas.

Rupert Symington, CEO da Symington Family Estates avança que “este é um fantástico reflexo da reputação que temos contruído ao longo de muitos anos – não apenas como empresa familiar de vinhos com credenciais de qualidade impecáveis, mas também, em nosso entender, um testemunho da nossa reputação de longo prazo e compromisso sério em sermos uma empresa responsável e ética, especialmente agora que nos tornarmos na primeira empresa de vinhos em Portugal com certificação B Corporation. Este reconhecimento chega numa altura difícil para todos a nível mundial – independentemente do país ou setor onde cada um de nós trabalha – e é uma motivação bem-vinda para a nossa equipa que tem respondido de forma notável aos desafios de adaptação à nova realidade criada pelo coronavírus.”

Quanto a João Roquette, o CEO do Esporão disse que “este reconhecimento é particularmente especial para o Esporão, pelo seu caracter global, pela abrangência e qualidade do painel que o atribui e como motivação no momento delicado que o mundo vive. Construir uma marca de vinhos reconhecida em todo o mundo era parte central da visão inicial e ousada dos fundadores do Esporão. Estamos, e continuaremos a realizar essa visão.”

Quinta do Vale Meão: 20 anos e 2 séculos mais tarde

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É difícil de imaginar outra propriedade no Douro com uma história tão rica e gloriosa. Idealizada e construída de raíz por Dona Antónia, mais tarde gerida pela Casa Ferreirinha, dando origem ao mítico Barca Velha, a Quinta do Vale Meão tem o brilho e mérito próprio nas mãos dos descendentes da sua primeira genial proprietária.

TEXTO Valéria Zeferino
FOTOS Anabela Trindade

Este ano a empresa F. Olazabal e Filhos comemorou 20 anos desde a sua criação em 1999, sendo este também o ano que assinalou os primeiros vinhos com o nome da Quinta do Vale Meão. Francisco Xavier de Olazabal (conhecido no meio como Vito) e os seus filhos Francisco (Xito), Jaime e Luísa unem esforços neste projecto familiar, contribuindo cada um com conhecimento e paixão.
Quando felicitei Xito pelos 20 anos, ele modestamente respondeu que isto não é nada, comparativamente com as empresas que fazem 200 anos… Sim, é verdade, a história mais recente desta casa tem apenas duas décadas, mas é justo recordar que a história da Quinta começou no século XIX com a decisão visionária de Dona Antónia Adelaide Ferreira de adquirir um terreno e plantar vinha naquela zona mais agreste e afastada do Douro Superior.

O século XIX – Património de Dona Antónia

O monte Meão sempre foi uma zona com muita arborização, tipicamente mediterrânica. Os habitantes de Vila Nova de Foz Côa e de Seixo de Ansiães iam lá buscar azinheiras para lenha, dividindo o monte a meias, o que, talvez, tenha originado o seu nome.
À procura de terras livres de filoxera, não olhando o afastamento geográfico e dificuldades logísticas da altura, Dona Antónia adquiriu 300 hectares de terreno em 1877. Nem todos acreditavam que este empreendimento seria proveitoso, mas Dona Antónia avançou, sempre firme e confiante. A primeira vinha foi plantada em 1888. Uma barca velha que por perto fazia travessia entre as margens, deu nome a esta vinha, à primeira adega, concluída em 1892 e, mais tarde, ao vinho mítico do Douro.
Como uma adega só não chegava para o volume de produção, em 1895 foi construída outra maior, chamada Adega dos Novos, que é utilizada, com algumas modificações, até à data. O conceito de gravidade, popular nas adegas modernas, foi aplicado naquela altura para facilitar o trabalho face à falta de electricidade.
Na pequena capela junto à casa, ainda hoje vêem-se as paredes salpicadas com mosto nas missas para dar graças – testemunhas das primeiras vindimas na Quinta.

O Século XX – o Barca Velha

Nos meados do século XX, Fernando Nicolau de Almeida, o enólogo da Casa Ferreirinha e o futuro sogro de Vito, alocou todo o seu esforço para produzir um inédito vinho de mesa na região do Vinho do Porto. Escolheu as melhores vinhas do Vale Meão e algumas da zona mais alta de Mêda para conseguir o perfil idealizado. Em 1956 foi lançado o primeiro vinho da colheita de 1952 que teve um grande reconhecimento. Não adoptou o nome da Quinta porque as uvas não eram desta na totalidade, mas batizou o seu vinho como “Barca Velha” para marcar a ligação ao local.
Francisco Javier de Olazabal entrou na Casa Ferreirinha em 1966 e em 1982 sucedeu ao seu pai como Presidente do Conselho de Administração da empresa. Mesmo, quando em 1987, a Sogrape adquiriu a Casa Ferreirinha, manteve a sua posição e mais tarde integrou o Concelho de Administração da Sogrape.
Entretanto, o apego que sentiu à Quinta do Vale Meão, juntamente com os seus filhos, e a vulnerabilidade da posição minoritária na sua posse, motivou-o a reunir as partes indivisas pertencentes aos seus 16 parentes (8 do ramo Olazabal e 8 do ramo Sequeira). Neste processo, contou com ajuda dos primos, que em 1994 venderam as suas partes aos três filhos de Vito.
Na realidade, das mais de 20 quintas pertencentes a Dona Antónia, apenas duas se mantêm inteiramente na posse e sob gestão dos seus descententes – a Quinta do Vale Meão e a Quinta do Vallado.
Assegurando a propriedade total da Quinta, com a qualidade comprovada das vinhas, e sendo o filho Francisco formado em enologia, reuniram-se as condições para construir uma nova história na Quinta do Vale Meão.

Xito, Jaime e Luísa Olazabal.

O Século XXI – a fazer história

O facto de serem descendentes de uma figura lendária na região, não é um mérito por si só. O legado familiar até pode ajudar no arranque, mas não garante o futuro. O verdadeiro mérito da nova geração está no resultado do seu trabalho sem cair na tentação de imitar o que foi feito antes. Uma nova história escreve-se com vinhos de personalidade própria feitos ao longo dos últimos 20 anos.
O impulcionador do projecto foi Xito. Licenciado em Enologia pela UTAD em 1992, inicialmente trabalhou como enólogo na Quinta do Vallado, mas ambicionava fazer algo mais. Tinha as suas ideias claras e uma determinação em avançar com o projecto familiar.
O pai, eticamente, não podia conciliar dois projectos de natureza idêntica. Embora a decisão não tenha sido fácil, ao atingir os 60 anos, optou por apostar na Quinta do Vale Meão e em 1998 rescindir a sua relação profissional com a Sogrape. Abdicou de posição prestigiante numa grande e estável empresa, onde criou muitos laços de amizade, para se tornar num pequeno e desconhecido (no início) produtor de vinhos com todos os riscos associados. Apesar das dúvidas, aceitou o desafio, inspirado pela confiança do filho.
Lembra-se hoje que nem perguntou quais eram as vinhas usadas para o Barca Velha. Mas também não havia um objectivo em perseguir a sua fama, o que se pretendia era produzir vinhos com carácter da Quinta.
Optou-se pelo modelo bordalês, onde o primeiro vinho ostenta o nome da propriedade e o segundo remete para uma marca com ligação forte à sua origem. Assim, do meandro do rio Douro nasceu o segundo vinho da casa. A semelhança fonética entre o Meandro e o Vale Meão é evidente e a sua situação geográfica transparece no mapa.
As uvas da primeira vindima em 1999 foram vinificadas na Quinta do Vallado, porque a Casa Ferreirinha ainda não tinha finalizado a construção de uma nova adega na Quinta da Leda e teve que utilizar a adega da Quinta do Vale Meão. Na vindima de 2000 a Adega dos Novos também foi partilhada: numa parte vinificava a Casa Ferreirinha e noutra a Quinta do Vale Meão.
O ano 2001 tornou-se o momento crucial, pois o mercado aguardava as primeiras colheitas (1999) do Vale Meão e do Meandro. A ansiedade de Vito era grande. Confessa que acordava à noite sem sono e ia provar as amostras, que claro, nestas condições, não lhe sabiam bem e apresentavam todos os defeitos imagináveis. Xito, pelo contrário, manteve-se calmo e confiante.
Os dois vinhos foram lançados na mesma altura. Foi um êxito. A excelente aceitação pela crítica nacional e internacional foi entusiasmante e deu a necessária visibilidade ao projecto.
O grande ano de 2000 no Douro, ajudou a fixar o nível de qualidade no lançamento seguinte. Este também foi o ano do primeiro Vinho do Porto Vintage do Vale Meão.
Naqueles tempos ainda não havia muitos vinhos de mesa no Douro. Tirando o Barca Velha, já existiam os da Quinta do Côtto, Duas Quintas (Ramos Pinto), Quinta da Gaivosa, Niepoort, Quinta do Crasto e pouco mais. Por um lado, era mais fácil destacar-se, por outro, o próprio conceito dos vinhos Douro DOC ainda não tinha muita notoriedade.
Também por isto, em 2002 com base na amizade juntaram-se 5 produtores – Niepoort, Quinta do Crasto, Quinta do Vallado, Quinta Vale D. Maria e Quinta do Vale Meão – e criaram uma união com o descontraído nome de “Douro Boys”, aliando os esforços na promoção da região e dos seus vinhos a nível internacional.
Em 2003 e depois novamente em 2013 os rótulos sofreram uma alteração de imagem. Também em 2013 juntaram ao portefólio o Meandro branco (13 mil garrafas actualmente), feito de Arinto e Rabigato, que veio fazer companhia ao Meandro tinto (207 mil garrafas) e o ícone Quinta do Vale Meão (27 mil garrafas).
Em 2005, Luísa juntou-se ao projecto familiar. Formada em Relações internacionais já tinha trabalhado no Grupo Vranken-Pommery (do qual Rozès e Quinta do Grifo também fazem parte) e foi uma mais valia para a empresa.
Jaime, que trabalhou na banca, juntou-se aos irmãos há 2 anos para abraçar o mercado nacional e enoturismo. A razão principal é a sensação gratificante, em vez de criar um valor momentâneo, de estar a construir algo realmente bom, intemporal, da terra e da família, que fique para gerações vindouras.
Este ano a Quinta do Vale Meão abriu as portas ao enoturismo. Apesar de não ser o core buisiness da quinta, permitiu proporcionar uma experiência única aos enófilos que procuram conhecer melhor a sua impressionante história.
Nos dias de hoje, a casa de traço antigo e muitas memórias, continua a ter vida. No verão enche-se de netos que adoram cá vir; no outono sente-se a azáfama das vindimas. No inverno a lareira espalha o calor para infrentar o frio do clima continental do Douro Superior. A família junta-se à volta da mesa e do vinho. Conversa-se sobre vivências e experiências, onde o vinho está quase sempre presente, a par de histórias, curiosidades e troca de opiniões.
O futuro da quinta e da empresa estará nas mãos dos netos e deverá dar muita satisfação à família e ao Xito, particularmente, ver a sua filha Leonor a estudar engenharia agrónoma no ISA.

As vinhas e os vinhos

A plena confiança de Xito nas suas capacidades como enólogo e produtor não tem nada a ver com a arrogância. Tem a humildade de assumir que ao fim de 20 anos ainda continua a aprender sobre as castas e os terroirs da própria quinta. Experimenta, tira as conclusões e avança. Replanta quando acha que outra casta no mesmo sítio daria melhor fruto; rega, quando é necessário; substitui barricas novas pelas usadas se gosta mais do resultado final. Defende as suas convicções e não se deixa influenciar pela opinião dos outros. É determinado e movido pela busca da perfeição, tal como fazia a sua tetravó.
Francisco aponta três factores que mudaram muito nas últimas duas décadas: viticultura, condições de engarrafamento e de armazenamento. No início, não tendo a própria linha de enchimento, tinham de alugar uma. Os erros nesta fase podem comprometer a evolução de um grande vinho, tal como durante o seu armazenamento. Isto também explica uma certa variabilidade de garrafas das primeiras colheitas.
A vinha, sem dúvida, é um dos alicerces do sucesso. A primeira replantação começou no início dos anos 70. As novas vinhas foram plantadas em talhões por casta com enfoque na Touriga Nacional pelas suas qualidades enológicas e pela boa adaptação aos verões secos e ao stress hídrico do Douro Superior. Mais tarde, entre 1989 e 1994 Xito geriu a replantação de algumas vinhas da Quinta e posteriormente plantações novas em 2007, 2008 e 2011. Com isto e através da aquisição de um terreno adjacente à quinta com cerca de 10 ha, a área de vinha cresceu de 62 para 100 hectares ocupados na sua maioria pelas das duas Tourigas e Tinta Roriz, mas também com Tinta Amarela, Tinta Barroca, Tinto Cão, Alicante Bouschet, Sousão e até castas antigas menos conhecidas e estudadas, como Tinta Francisca e Cornifesto.
Exploraram-se áreas novas, como por exemplo, vinhas viradas a norte ou de altitude, onde se preserva mais a frescura. É o caso da Vinha da Salgueira, de castas misturadas numa cota de 300 metros, plantadas à maneira antiga com densidade de 8 mil pés/ha numa ilha de xisto rodeada de granito. Como se vê, a conquista do Monte Meão, iniciada por Ferreirinha, continua até hoje.
A composição de solos na Quinta do Vale Meão é influenciada pela sua topografia. A falha de Vilariça divide o terreno em duas partes: granito nas encostas do Monte Meão e xisto à nascente, enquanto junto ao rio existem zonas aluviais e de calhau rolado.
Não há dois sítios da vinha com condições iguais e Francisco está convencido que as generalizações no Douro, e mesmo no Douro Superior, são limitativas e não correspondem à realidade. Diferentes exposições e altitudes, multiplicadas pela diversidade de solos e castas plantadas, podem originar combinações quase infinitas. Por isto as vinhas no Vale Meão são vistas mais na óptica de parcelas e não tanto de castas.
Vinifica-se tudo em separado: casta por casta, talhão por talhão. As dezenas de cubas de tamanhos a variar de 3, a 10,5 mil litros permitem fazer vinificações de precisão, estudar cada faceta do seu terroir. Cada vindima origina mais de 100 lotes e foi assim que nasceram vinhos monovarietais das vinhas mais expressivas, os Monte Meão.
O primeiro Monte Meão foi feito em 2009. Touriga Nacional com 25 anos de 3 hectares da Vinha dos Novos plantada no granito, marcava sempre muito o lote. Decidiram dar-lhe maior protagonismo. No início com metade dos bagos inteiros e metade esmagados fica em lagar, onde é pisada a pé para permitir uma extração suave antes de formação de alcóol. As colheitas de 2013 e 2014 fermentaram em barricas, as de 2016 e 2017 em balseiros. Todas depois estagiam em barricas usadas de 225 litros entre 15 e 18 meses. Originam uma Touriga de grande estilo e finesse de que se fazem 8 mil garrafas.
A Tinta Roriz da vinha do Cabeço Vermelho destacava-se sempre de outras parcelas pela maior presença da fruta. É uma vinha com mais de 50 anos plantada nas terraças de aluvião junto ao rio. Desde 2011 tem a possibilidade de se expressar num vinho monovarietal. Este não passa por lagar para evitar demasiada rusticidade, fermenta em cubas de madeira usada e depois estágia cerca de um ano e meio em barricas usadas de 225 litros para amaciar o tanino robusto. Fazem-se 4 mil garrafas/ano.
Em 2013 fizeram o primeiro (e até agora único no Douro) monovarietal de Baga que por cá chama-se Tinta da Bairrada. Da Bairrada não tem quase nada, assumindo um perfil diferente e que lhe fica bem. Sendo uma casta de maturação tardia, plantada num solo de granito do clima mais continental apresenta um comportamento diferente e amadurece muito mais cedo – final de Agosto, início de Setembro e sem ganhar muito grau. Em 2013 foi desengaçada, mas a partir de 2015 fermenta com 50% de bagos inteiros (para extrair menos e suavizar o sabor) e 50% de engaço (para dar estrutura) com pouca maceração e posterior estágio cerca de um ano em barricas usadas de 500 litros. Resulta em vinhos suculentos, elegantes, plenos de sabor e frescura de que enchem apenas 2 mil garrafas por edição.
O Vinho do Porto é uma grande aposta da casa, já pensada em tempos. Há 10 anos deixaram de vender o Vinho do Porto a granel e actualmente dispõem de 450 mil litros de stock a envelhecer na adega da Barca Velha. O Porto representa já quase 10% das vendas anuais. Para o próximo ano preparam-se duas novidades: um Colheita de 1999 e um tawny 10 anos. E nada resume melhor um capítulo de duas décadas do que um brinde com os vinhos da primeira colheita. O Meandro 1999 está ainda muito vivo ao fim de 20 anos, com frescura e tanino ainda bem presente (17); o Vale Meão 1999 em magnum é um autêntico tigre domesticado. Afinação de nariz e largura de boca impressionante, potência com delicadeza aristocrática, tanino ajuizado pelo tempo e uma frescura fantástica (19). A Quinta do Vale Meão é assim.

Uma vertical de Monte Meão

Tive oportunidade de fazer uma prova vertical da marca mais recente da casa, os monovarietais Monte Meão. O resultado mostra bem a diversidade de parcelas e castas (terroirs), no fundo, da quinta. Começando pelo Monte Meão Baga, da Vinha da Cantina: o 2013 revela cor aberta e aroma intenso, macio, suculento e muito fresco (17); mais maduro e pouco falador o 2015, denso e de tanino duro, seco e sério (16,5); no 2016 evidencia-se a fruta doce e sumarenta, também pimenta e chá preto, suculento e longo (17,5). A Vinha dos Novos é a “casa” do Touriga Nacional. Muito bem o 2013, com esteva, mentol, acidez presente e tanino firme, longo e saboroso (17,5); mais austero no nariz e mais fresco na boca o 2014, com tanino mais rebelde muito carácter (17,5); bem distinto o 2016, muito aromático, delicado e elegante, chá preto com bergamota, violetas e fruta carnuda, sedoso, suculento, muito sedutor (18). Finalmente, a Vinha do Cabeço vermelho, onde nasce a Tinta Roriz. Gostei muito do 2013, um tinto em tons de outono, notas de carne, vegetal seco, tanino poderoso envolto em textura aveludada (17,5); mais amigável o 2014, fruta vermelha escondida, toque de especiaria e algo terroso (17); o 2015 está robusto e estruturado, com tanino bruto e esmagador a necessitar polimento pelo tempo (16,5).

 

 

 

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Edição nº 33, Janeiro 2020

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Churchill’s comemora 20 anos na Quinta da Gricha com edição limitada

A Churchill’s lançou duas caixas comemorativas dos 20 anos na Quinta da Gricha. Uma Edição Limitada, de Porto e de Douro, com os três últimos anos do Quinta da Gricha Vintage Port (2015, 2016 e 2017) e do Quinta da Gricha Douro (2014, 2016 e 2017). Fundada em 1981 por John Graham – 5ª geração […]

A Churchill’s lançou duas caixas comemorativas dos 20 anos na Quinta da Gricha. Uma Edição Limitada, de Porto e de Douro, com os três últimos anos do Quinta da Gricha Vintage Port (2015, 2016 e 2017) e do Quinta da Gricha Douro (2014, 2016 e 2017).

Fundada em 1981 por John Graham – 5ª geração da sua família a fazer vinho no Douro – a Churchill’s foi a primeira empresa de vinho do Porto a ser fundada em mais de 50 anos, mantendo-se actualmente como um produtor familiar e independente. Dedicada inicialmente só aos vinhos do Porto, desde a aquisição da Quinta da Gricha em 1999 que a Churchill’s também produz vinhos Douro. “Estamos extremamente entusiasmados por poder partilhar estes vinhos excepcionais e afirmar o Douro como uma das melhores regiões produtoras de vinho do mundo”, afirma John Graham, enólogo e fundador.

Por seu lado, Zoe Graham, filha mais velha do fundador – que veio recentemente assumir a direcção de vendas e marketing da empresa para dar continuidade à tradição familiar – afirma: “Sentimo-nos orgulhosos da nossa equipa Churchill’s que acompanhou estas últimas 20 vindimas na Quinta da Gricha”.

Em pleno coração do Douro, a quinta, com uma vinha de 40 hectares, localiza-se na margem sul do rio, na sub-região do Cima Corgo. Foi baptizada a partir de uma nascente natural (Gricha) que alimenta as vinhas viradas a norte.

José Maria da Fonseca Distribuição comercializa vinhos da Lima&Smith

A José Maria da Fonseca Distribuição vai assegurar, a partir do próximo dia 1 de Abril, a comercialização em território nacional dos vinhos da Lima&Smith, produtor das regiões do Douro e dos Vinhos Verdes. As suas referências já são bem conhecidas, como Covela, Quinta da Boa Vista e Quinta das Tecedeiras. Com este alargamento do […]

A José Maria da Fonseca Distribuição vai assegurar, a partir do próximo dia 1 de Abril, a comercialização em território nacional dos vinhos da Lima&Smith, produtor das regiões do Douro e dos Vinhos Verdes. As suas referências já são bem conhecidas, como Covela, Quinta da Boa Vista e Quinta das Tecedeiras.

Com este alargamento do portefólio, de vinhos de elevada qualidade da região do Douro e do Vinho Verde, a José Maria da Fonseca Distribuição vê assim reconhecido o trabalho desenvolvido nos últimos cinco anos, como refere António Maria Soares Franco, administrador da José Maria da Fonseca com o pelouro de Marketing e Vendas: “Ao fim de cinco anos de franca expansão, conseguirmos alargar o portefólio da José Maria da Fonseca Distribuição com a comercialização dos vinhos de mais um produtor de excelência é sinal de reconhecimento do trabalho que temos desenvolvido. Os vinhos da Lima&Smith são sobejamente conhecidos e apreciados e consideramos que vêm enriquecer e diversificar, ainda mais, o nosso portefólio, acrescentando valor ao serviço que prestamos aos nossos parceiros e clientes”.

Tony Smith, sócio gerente da Lima&Smith, sublinha “esperar com este novo acordo de distribuição levar as marcas da Lima & Smith para um novo patamar no mercado nacional. Partilhando com o nosso novo parceiro a José Maria da Fonseca Distribuição o dinamismo, a preocupação com qualidade e com a ética, pretendemos crescer as vendas das nossas marcas e consolidar a sua notoriedade de Norte a Sul, incluindo as ilhas.”

Kopke personaliza garrafas para o Dia dos Namorados

Com o dia de São Valentim a chegar, a Kopke sugere a personalização de uma das suas garrafas com uma mensagem especial, à escolha. A Casa de vinho do Porto, que pertence ao Grupo Sogevinus, mantém-se fiel ao seu compromisso de colocar os seus vinhos de excelência na garrafa icónica Kopke, com rótulo pintado manualmente, […]

Com o dia de São Valentim a chegar, a Kopke sugere a personalização de uma das suas garrafas com uma mensagem especial, à escolha. A Casa de vinho do Porto, que pertence ao Grupo Sogevinus, mantém-se fiel ao seu compromisso de colocar os seus vinhos de excelência na garrafa icónica Kopke, com rótulo pintado manualmente, uma “Extensão do cuidado singular relativo ao património da marca”, como refere a Kopke em comunicado de imprensa.

Para personalizar a garrafa, há várias vias possíveis: visitar a loja Kopke em Gaia, ir à Flores Wine Shop, ou enviar um e-mail para uma destas com a mensagem que deverá constar no rótulo – até um máximo de 25 caracteres. É possível escolher entre cinco referências de vinho: Tawny 2000, White 2005, Tawny 20 anos, Tawny 30 anos ou Tawny 40 anos.

A Kopke é uma marca que integra o Grupo Sogevinus Fine Wines e foi fundada em 1638, por Nicolau Kopke. Os seus vinhos são produzidos na Quinta São Luiz, situada na sub-região duriense do Cima Corgo, na margem esquerda do rio. A Quinta tem uma área total de 125 hectares, 90 dos quais são plantados com vinhas, algumas com mais de 80 anos.

Quinta do Noval abre loja no cais do Pinhão

A Quinta do Noval anunciou a abertura da sua nova loja no cais do Pinhão, no coração do Douro. A Noval abriu a sua primeira loja em 1995 na margem sul do Douro em Vila Nova de Gaia, no centro histórico do comércio do vinho do Porto. Desde então, tem recebido clientes de todo o […]

A Quinta do Noval anunciou a abertura da sua nova loja no cais do Pinhão, no coração do Douro.

A Noval abriu a sua primeira loja em 1995 na margem sul do Douro em Vila Nova de Gaia, no centro histórico do comércio do vinho do Porto. Desde então, tem recebido clientes de todo o mundo, partilhando com eles a história da Quinta do Noval e dos seus vinhos do Porto. Com a abertura desta nova loja no cais do Pinhão, num antigo armazém de vinho do Porto, a Noval espera adicionar uma nova dimensão à experiência dos que a visitam, desta vez no Douro, mais perto das vinhas que originam a grande qualidade dos seus vinhos, chamando à descoberta do terroir e do carácter único dessas parcelas. Esta nova loja é, assim, um lugar de descoberta, de partilha de informação e, acima de tudo, de prova de vinhos. Uma gama completa de vinhos da Quinta do Noval e de artigos relacionados com o vinho vão estar também à venda na loja.

Christian Seely, Diretor Geral, comentou em comunicado de imprensa: “Um dos muitos desenvolvimentos interessantes nos últimos anos, no Porto e no Douro, foi o aumento importante de visitantes de todo o mundo. Vêm descobrir esta região mágica e provar os seus vinhos. Estamos muito satisfeitos com a expansão da nossa capacidade para os receber nesta nova loja no Douro, e ansiosos por partilhar os nossos vinhos e a nossa paixão pelas vinhas e pela região com todos os que nos visitam”.

A Quinta do Noval Wine Shop situa-se no número 15 da Rua da Praia.

Contacto: Cindy Esteves – +351 933770285 – cindy@quintadonoval.pt
Horário: De Novembro até à Páscoa: 10h30 – 13h00 e 14h00 – 19h30 / Fecha ao domingo e segunda-feira
Da Páscoa até Outubro: 10h30 – 19h30 / Abre todos os dias

Symington cria Fundo de Impacto no valor de 1 milhão de euros

Em 2020, a Symington Family Estates vai celebrar dois marcos históricos: o bicentenário da marca Graham’s e os 350 anos da marca Warre’s. De forma a assinalar estes dois eventos, a empresa criou um Fundo de Impacto, com um compromisso inicial de 1 milhão de euros. O fundo será utilizado primordialmente para apoiar causas de […]

Em 2020, a Symington Family Estates vai celebrar dois marcos históricos: o bicentenário da marca Graham’s e os 350 anos da marca Warre’s. De forma a assinalar estes dois eventos, a empresa criou um Fundo de Impacto, com um compromisso inicial de 1 milhão de euros. O fundo será utilizado primordialmente para apoiar causas de beneficência nas regiões do Douro e do Porto, bem como no Alto Alentejo, por se tratar das zonas onde detém a sede e as suas quintas. As áreas de foco são três: bem-estar e saúde da comunidade, protecção e conservação ambiental e herança cultural e educação.

“Temos sempre procurado gerir a nossa empresa familiar de uma forma que beneficie as pessoas – quer sejam nossos colaboradores ou a comunidade mais alargada. Estamos também comprometidos com a protecção do belíssimo ambiente natural onde trabalhamos as nossas vinhas. Temos reinvestido de forma consistente na região do Douro e temos um longo histórico de apoio a iniciativas sociais nos locais onde trabalhamos. O Fundo de Impacto da Symington é uma maneira de formalizar este compromisso e de assegurar o apoio aos projectos que estão mais alinhados com os nossos valores e onde podemos ter o máximo impacto positivo”, avança Rupert Symington, CEO da Symington Family Estates.

Os actuais parceiros do Fundo de Impacto da Symington incluem as Corporações de Bombeiros Voluntários da Região do Douro (às quais já foram doadas 13 ambulâncias) e a Bagos d’Ouro (uma instituição de beneficência que proporciona educação e oportunidades a crianças com carências no Douro), assim como um novo parceiro que trabalha na área da protecção e conservação ambiental e que será anunciado brevemente. O projecto terá um ciclo de financiamento de doze meses, além de uma contribuição anual adicional da empresa familiar, com o objectivo de assegurar que o valor do fundo aumente, proporcionando um apoio sustentável a longo-prazo para iniciativas chave e para os parceiros.

Dois vizinhos que se miram nas águas do Douro

Na terra onde os homens esculpiram montanhas em nome do vinho, o que não falta são belos locais para estar e apreciar um bom copo. Escolhemos dois, um do lado da estrada mais movimentada, o outro na margem oposta do rio Douro. Cada um deles é um miradouro privilegiado dos encantos do vizinho da frente. […]

Na terra onde os homens esculpiram montanhas em nome do vinho, o que não falta são belos locais para estar e apreciar um bom copo. Escolhemos dois, um do lado da estrada mais movimentada, o outro na margem oposta do rio Douro. Cada um deles é um miradouro privilegiado dos encantos do vizinho da frente.

TEXTO Luís Francisco
FOTOS Ricardo Gomez

Entre a Régua e o Pinhão corre uma das estradas mais cénicas do mundo, a EN222, uns 25 quilómetros de curvas suaves à beira do rio Douro que são, para muitos viajantes, a primeira, e inesquecível, visão que têm da anacrónica paisagem duriense. O rio, antes selvagem, agora domado pelas barragens, flui suavemente mesmo ao lado do asfalto, mas a placidez do espelho de água serve apenas para enfatizar o dramatismo da moldura de encostas talhadas à mão, com as vinhas penduradas sobre o abismo. O vale do Douro é um local mágico e arrebatador.
O mundo há muito que ouvia falar dessas terras longínquas e misteriosas, de onde saíam barcos carregados de pipas, desafiando rápidos e curvas traiçoeiras, rio abaixo, até aos armazéns de Gaia e do Porto onde a alquimia do tempo e a sabedoria dos homens produziam um dos mais espantosos néctares do planeta. O Vinho do Porto era conhecido, mas tudo o resto era apenas um mapa, desenhado ainda nos tempos do Marquês de Pombal, uma mancha de desconhecido num país rústico e periférico.
Mas os tempos mudaram. Hoje o Douro é muito mais do que a história e a sedução do Vinho do Porto. Para começar, porque uma parte significativa da sua produção nos surge agora sob a forma de vinhos tranquilos. Depois, porque os encantos dessas paragens começaram a ser descobertos. Quando, a 14 de Dezembro de 2001, a UNESCO classificou a paisagem natural do Douro Vinhateiro como Património da Humanidade, foi dado o passo decisivo para a afirmação da região como destino turístico.
Hoje, as águas do rio são sulcadas por navios de cruzeiro, as vetustas linhas de comboio ganharam nova clientela, pelas estradas circulam milhares de visitantes. Há até quem chegue de helicóptero às quintas mais selectas, onde superlativas unidades hoteleiras ou alojamentos mais típicos abrem as suas portas, com o copo e o prato sempre sobre a mesa. O vinho moldou esta paisagem arrebatadora e continua a ser o seu grande embaixador, é certo. Mas o Douro do século XXI é uma experiência global dos sentidos.
É uma região enorme, esta que se aninha em torno do terceiro maior rio da Península Ibérica (897km, desde a nascente, a 2160 metros de altitude, na serra de Urbión, Espanha, até à foz, entre o Porto e Gaia) e dos seus afluentes. A Região Demarcada do Douro, criada em 1756 e que reclama o estatuto de mais antiga do mundo, estende-se por cerca de 250.000 hectares, e foi dividida em três sub-regiões: Baixo Corgo, Cima Corgo e Douro Superior, progredindo de Oeste para Leste. Começa em Barqueiros, concelho de Mesão Frio, onde a temperatura média anual ronda os 13,8ºC, com uma precipitação média de 1244mm; e vai até Barca d’Alva, já na fronteira com Espanha, onde os extremos de temperatura são mais vincados (a média anual é de 15,5ºC) e chove muito menos (652mm).

 

Os números e a poesia
A mera observação empírica permite concluir, sem margem para dúvidas, que o movimento turístico é cada vez mais intenso no vale do Douro. Mas há números para sustentar esta percepção. Apesar de as estatísticas oficiais não individualizarem a zona, o relatório anual do Instituto Nacional de Estatística relativo a 2018 destaca o Norte como a região onde se registou um maior aumento de dormidas (8,5%) face ao ano anterior. Sintomaticamente, outra região em que o vinho é cada vez mais um argumento de sedução, o Alentejo, aparece a seguir, com um crescimento de 7,6 por cento. O Norte liderou também no número de novas unidades hoteleiras (mais 10,5%).
No que se refere ao turismo rural e de habitação, outra vez a zona mais setentrional de Portugal a assumir a liderança: o Norte tem mais de um terço (37,8%) da oferta nacional no sector e é também a que regista maior procura no panorama nacional, com 30,1 por cento das dormidas. Mais uma vez, o Alentejo aparece no segundo lugar, com 24,3%. No conjunto do país, os estabelecimentos de turismo no espaço rural e de habitação registaram quase 850 mil hóspedes em 2018, 6,8 por cento mais do que em 2017.
Há procura e a oferta está cada vez mais diversificada. No Douro, os encantos da paisagem e a magia dos vinhos atraem cada vez mais gente e o sector do enoturismo profissionalizou-se a uma velocidade estonteante. Há pouco mais de uma década, contavam-se pelos dedos das mãos as unidades hoteleiras bem estruturadas e quem se “atrevia” a viajar pela região por conta própria facilmente bateria com o nariz na porta de muitas quintas. Hoje, o panorama é completamente diferente. Produtores unem-se para criar rotas comuns, outros colaboram de forma mais ou menos informal; restaurantes, museus e sítios históricos entram nos roteiros; a região abriu as suas portas e por elas passa gente de todo o mundo.
E, no entanto, o Douro continua a ser um espaço de mistérios, de encantamento. Em cada recanto encontramos a paixão dos homens e o rigor austero da Natureza abraçando-se em paisagens inesquecíveis. O Douro Vinhateiro é uma gloriosa insanidade e, à falta de talento próprio, apropriemo-nos da escrita de Miguel Torga: “O Doiro sublimado. O prodígio de uma paisagem que deixa de o ser à força de se desmedir. Não é um panorama que os olhos contemplam: é um excesso da natureza. Socalcos que são passadas de homens titânicos a subir as encostas, volumes, cores e modulações que nenhum escultor, pintor ou músico podem traduzir, horizontes dilatados para além dos limiares plausíveis da visão. Um universo virginal, como se tivesse acabado de nascer, e já eterno pela harmonia, pela serenidade, pelo silêncio que nem o rio se atreve a quebrar, ora a sumir-se furtivo por detrás dos montes, ora pasmado lá no fundo a reflectir o seu próprio assombro. Um poema geológico. A beleza absoluta.”
Vamos até lá.

A Quinta dos Frades é enorme, mas já foi muito maior. Os 200 hectares actuais (75 dos quais de vinha) já foram quase o dobro, até que a barragem de Bagaúste, inaugurada em 1973, fez subir as margens do rio, engolindo de caminho vinhas centenárias. Estamos na margem direita do Douro, a poucos quilómetros da Régua pela EN222, e o portão da propriedade surge-nos um pouco antes da povoação de Folgosa e do seu cais. Entramos e a paisagem parece engolir-nos.
Para quem já esteve no relvado de um grande estádio de futebol, a sensação imediata é que estamos rodeados de anéis de bancadas, mas aqui, junto à adega onde já começaram a chegar as uvas desta vindima, em vez de adeptos ruidosos, o que vemos são plácidas vinhas velhas (cerca de 100 anos) ordenadamente dispostas em linhas sem muros que se alongam até quase fecharem o horizonte. Não há mecanização possível: todo o trabalho tem de ser feito à mão ou com a ajuda de machos.
A quinta está nas mãos da família Ferreira há quatro gerações, mas a sua origem remonta ao século XIII (1256), então propriedade da Ordem de Cister, estabelecida no Mosteiro de Salzedas – os frades, que lhe estão no nome, tinham neste local a possibilidade de produzir vinho, pão e azeite, a que juntavam frutos como as laranjas, os figos ou as amêndoas. Durante décadas, a quinta vendeu a sua produção para grandes casas de Vinho do Porto, mas desde 2008 começou a reservar parte das uvas para as suas marcas próprias, de que faz actualmente cerca de 100.000 garrafas anuais.
Passeamos pela adega, com os seus lagares de granito, o tecto em madeira moderno mas respeitando o visual antigo, uma salinha panorâmica para provas lá ao fundo, os móveis feitos com partes de barricas. É uma adega típica do Douro, desenhada para tirar partido da gravidade, pelo que o patamar inferior é destinado ao armazenamento e lá encontramos 17 balseiros a roçar o século de existência – os maiores têm capacidade para 30.000 litros.
Está na hora de subirmos para conhecer as vinhas, mirar o marco pombalino de 1756 (um dos primeiros a serem colocados na região), provar as uvas e deslumbramo-nos, uma e outra vez, com a grandiosidade da paisagem em volta. Havemos ainda de passar pelo exterior do solar, com o seu jardim romântico, torres com ameias e canhões à porta; e depois vamos saborear os vinhos da quinta numa casa de chá com azulejos mouriscos e um sedutor pátio circular sobre o Douro. Mas é sempre aqui que fica a nossa memória, nesta panorâmica sobre o rio e as encostas que os homens esculpiram.
Do outro lado do rio, mesmo em frente, curioso, as vinhas são diferentes.

QUINTA DOS FRADES
Quinta dos Frades, Folgosa, Armamar
Tel: 254 858 241 | 910 129 112
Mail: enoturismo@predialferreira.pt
Web: www.quintadosfrades.pt
GPS: 41.149134, -7.684180
As visitas carecem de marcação antecipada e a política da quinta é fazer sessões privadas, ou seja, não juntar pessoas que não se conheçam. Mínimo dois participantes, máximo oito, embora já tenham aceite até 12. A quinta está aberta de segunda a sábado e tem dois horários diários para visita, de manhã e à tarde. A prova simples de vinhos custa 15 euros por pessoa; com passeios pela adega e vinhas/marco pombalino passa a 20 euros por pessoa (ou 90 se a opção for provar os vinhos-ícone da quinta). Flexibilidade para acomodar outras pequenas actividades, como passeios pela floresta junto à casa de chá.

Originalidade (máx. 2): 2
Atendimento (máx. 2): 2
Disponibilidade (máx. 2): 1,5
Prova de vinhos (máx. 3): 2,5
Venda directa (máx. 3): 2,5
Arquitectura (máx. 3): 2,5
Ligação à cultura (máx. 3): 2
Ambiente/Paisagem (máx. 2): 2

AVALIAÇÃO GLOBAL: 17,5

Serão uns 200 metros, em linha recta, mas é preciso recuar um pouco na direcção da Régua, transpor o paredão da barragem e enfrentar as curvas da estrada do outro lado do rio para chegarmos à Quinta dos Murças. Não é nada que assuste, mas fica desde já a informação de que nas Murças existe um barco movido a energia solar que pode ir buscar-nos à outra margem… Isto se não optarmos por chegar de comboio e sair mesmo à porta – a quinta tem acesso directo ao apeadeiro de Covelinhas.
Quando lá chegamos, as silhuetas românticas da Quinta dos Frades estendem-se ao longo do horizonte. Atrás de nós, encosta acima, a paisagem tão diferente que apercebemos quando estávamos do outro lado do rio: a Quinta dos Murças tem as mais antigas vinhas verticais do Douro (a primeira data de 1947). Sim, também há algumas que progridem horizontalmente ao longo da vertente, suportadas pelos característicos muros de pedra, mas a imagem de marca deste local são mesmo as vinhas dispostas perpendicularmente à margem.
A quinta tem 155 hectares (48 de vinha), estende-se ao longo de 3,2km de linha de rio e abarca uma diversidade enorme de parcelas, que sobem até cotas bem altas na montanha. Vir para aqui significou o primeiro grande investimento do Esporão fora do Alentejo e a aposta enoturística foi reforçada com a abertura recente de cinco quartos para alojamento. Junto à casa, uma piscina abrigada do vento pisca-nos o olho, mas também se está muito bem na varanda sobre o Douro, ou nos restantes espaços comuns. Os quartos são visualmente simples, condizendo com a atmosfera da casa, mas estão muito bem equipados. A recepção funciona na loja.
Descemos para a adega, com os seus sete lagares em granito, os balseiros e as barricas, enquanto falamos dos vinhos da casa. Fazem-se 700.000 garrafas, contando com a marca Assobio, feita com uvas compradas. Mas se falar é bom, provar é muito melhor. Juntemo-nos a um grupo de representantes de importadores dos EUA para conhecermos melhor o que por aqui se engarrafa. A sala de provas divide o seu espaço em duas áreas: uma de estar, com sofás; a outra de provas, onde encontramos uma grande mesa em madeira (que emula a peça icónica criada para as caves da Herdade do Esporão), estantes com garrafas e um ecrã onde vamos acompanhando o vídeo que nos ajuda a perceber o que temos no copo.
Lá fora, um terreiro com árvores e um repuxo aproxima-nos das águas do Douro. Estamos no final da tarde, o sol está mais suave, os pássaros fazem-se ouvir, as vinhas repousam na sombra das curvas da encosta. Tudo está em descanso nesta paisagem serena, nascida selvagem e amansada pelo suor dos homens.

QUINTA DOS MURÇAS
Covelinhas, Peso da Régua
Tel: 213 031 540 (Esporão)
Mail: reservas.murcas@esporao.com
Web: www.esporao.com/pt-pt/sobre/quinta-dos-murcas/
GPS: 41.153314, -7.688143
O programa de visitas e provas começa na caminhada com prova de vinhos Douro (10 euros por pessoa) e pode ir até aos 50 euros (passeio de barco com prova de vinhos). A visita à adega e vinhas, mais prova de vinhos Douro, custa 20 euros e as refeições saem a 30 euros por pessoa (25 para os hóspedes; crianças: 10 euros). Os quartos single custam 120 ou 140 euros (época baixa/alta), a área familiar (4 pessoas) fica por 230/250 euros, o aluguer da casa completa (10 pessoas) pode ser feito por 600/750 euros.Originalidade (máx. 2): 2
Atendimento (máx. 2): 2
Disponibilidade (máx. 2): 2
Prova de vinhos (máx. 3): 2,5
Venda directa (máx. 3): 2,5
Arquitectura (máx. 3): 2,5
Ligação à cultura (máx. 3): 2,5
Ambiente/Paisagem (máx. 2): 2

AVALIAÇÃO GLOBAL: 18

ESTAÇÃO DE SERVIÇO
No Douro come-se bem e durante algum tempo a oferta de boa mesa não conseguiu acompanhar a explosão de popularidade da região. Isso, no entanto, está a mudar, com novas propostas a aparecerem e casas mais tradicionais a renovarem-se. Na Régua, a porta de entrada do Douro Vinhateiro, não é difícil encontrar boas estações de serviço para reabastecimento sólido. Deixamos-lhe três opções, uma mais económica e tradicional (Cacho D’Oiro), outra multifunções (Castas & Pratos, que é restaurante, wine bar, loja e lounge) e uma terceira que dispensa apresentações (DOC, do chef Rui Paula). Bom apetite! Acompanhe com vinhos da região e, se lhe apetecer respirar fundo para ajudar a digestão, não se esqueça que o sublime miradouro de S. Leonardo da Galafura é mesmo ali ao lado.

DOC – EN 222, Folgosa, Armamar | Tel: 254 858 123 / 910 014 040 | Mail: doc@ruipaula.com

CACHO D’OIRO – Travessa dos Aflitos 120, Peso da Régua | Tel: 254 321 455

CASTAS & PRATOS– Av. José Vasques Osório, Peso da Régua | Tel: 254 323 290 / 927 200 010 | Mail: info@castasepratos.com

Edição nº30, Outubro 2019