GRANDE PROVA: Arinto de Norte a Sul

Arinto

Casta muito vetusta em Portugal, foi descrita pela primeira vez em 1712 por Vincenzo Alarte, na obra Agricultura das Vinhas, onde é referida como uma variedade serôdia. A sua grande variabilidade intravarietal, sobretudo na região do Oeste, com destaque para Bucelas, não deixa dúvidas quanto à sua antiguidade e provável origem nacional. Ao longo do […]

Casta muito vetusta em Portugal, foi descrita pela primeira vez em 1712 por Vincenzo Alarte, na obra Agricultura das Vinhas, onde é referida como uma variedade serôdia. A sua grande variabilidade intravarietal, sobretudo na região do Oeste, com destaque para Bucelas, não deixa dúvidas quanto à sua antiguidade e provável origem nacional. Ao longo do tempo, foi-se espalhando por várias regiões do país, sendo mencionada por diversos autores na Beira, no Douro, na Estremadura e no Minho (1790), em Évora, Arruda, Torres Vedras, Colares e Carcavelos (1866/67), e em Portalegre (1900).

Os progenitores da Arinto continuam, oficialmente, a ser um mistério genético. Segundo a explicação do investigador e curador do INIAV – Instituto Nacional de Investigação Agrária e Veterinária, Jorge Cunha, embora existam estudos baseados em nove marcadores moleculares (chamados microssatélites), estes permitem estabelecer compatibilidades genéticas, mas não são suficientes para confirmar, de forma inequívoca, um parentesco directo. Em bases de dados científicos, como o Vitis International Variety Catalogue (VIVC), a Arinto permanece sem pedigree confirmado. Apesar de ter adquirido algumas sinonímias em terras por onde se espalhou é, ainda assim, mais conhecida pelo seu nome original. Pode mencionar-se apenas um sinónimo relevante, Pedernã, oficialmente reconhecido na região do Minho, embora, actualmente, muitos produtores prefiram usar Arinto nos rótulos. O mais importante é não a confundir com outras castas homónimas: a Arinto do Interior, no continente, e a Arinto dos Açores (igual à Terrantez da Terceira), com as quais não tem qualquer ligação genética.

 

Historicamente gloriosa

Esta casta branca foi outrora muito famosa, fortemente associada à zona da sua origem, Bucelas. No século XIX, exportava-se vinho feito a partir de Arinto para Inglaterra, o qual era vendido nos pubs a copo, ao mesmo nível do Vinho do Porto, Xerez, Champagne ou Claret, como descreve o comerciante e escritor britânico Charles Tovey, no seu livro Wine and Wine Countries, em 1862.

A referência aos vinhos de Bucelas também surge no livro do escritor e jornalista britânico Henry Vizetelly, Facts about Port and Madeira, publicado em 1880, caracterizando-os como “notavelmente frescos no sabor, com um ligeiro tom esverdeado na cor (…) os vinhos mais antigos eram mais redondos e aromáticos; o seu sabor, mais pronunciado, deixava um final macio, com notas de amêndoa. Certamente não é fácil encontrar vinhos mais puros do que estes. Sendo os melhores vinhos da sua classe, eram enviados para Inglaterra sob a designação El Rey – Royal Bucellas Hock”. O mesmo autor, viajando até Bucelas, recorda-se de provar “um Arinto muito seco e com carácter de noz, com um final agradavelmente picante.”

Hoje, não só em Bucelas, mas em toda a região vitivinícola de Lisboa, embora não seja a casta mais plantada, a Arinto continua a ser muito importante em termos de qualidade e é apreciada por numerosos produtores, que a utilizam em vinhos monovarietais.

 

Expansão territorial

Uma das grandes vantagens da casta é que ela não se importa de viajar para outras paragens e consegue adaptar-se a solos e condições mais diversos: desde os argilo-calcários, nas regiões de Lisboa e da Bairrada, aos xistosos, no Douro, passando pelos graníticos, no Minho e pelos de natureza mais variada, no Alentejo. Por onde passa, leva sempre o seu cartão de visita: a capacidade de construir vinhos com uma estrutura ácida vibrante, mesmo em climas mais quentes, onde esta característica é particularmente apreciada.

Na região do Tejo, a Arinto é parceira frequente da Fernão Pires que, por vezes, carece de frescura natural. Antonina Barbosa, enóloga e Directora-Geral da Falua, confessa ser uma grande defensora da casta e já há mais de dez anos que produz os vinhos Reserva com Arinto, reconhecendo a sua aptidão para criar grandes vinhos, bem como o seu potencial de envelhecimento. Sabe também que esta casta pode revelar-se muito diferente consoante o local: um vinho de Arinto da sub-região do Campo distingue-se do da Vinha do Convento, com calhau rolado e uma boa drenagem.

Na Bairrada, mostra o seu lado mais salino e calcário, com uma frescura nervosa, criando um perfil mais vertical e austero do que em Bucelas. E isto sentiu-se bem na prova. O produtor Carlos Campolargo também sempre apreciou a casta, desde que, ainda jovem, provou os vinhos trazidos em garrafões de Bucelas.

No Alentejo, a Arinto é absolutamente indispensável como team player, sendo campeã na acidez entre as suas parceiras alentejanas: Antão Vaz, Roupeiro, Perrum e outras.

O produtor Julian Reynolds conta a sua história de “namoro” com a casta. Provou Arinto numa tasca em Portalegre, no início dos anos 2000, e ficou encantado, pensando logo em plantar. No entanto, um conhecido da área de distribuição desaconselhou-o, dizendo que era “uma casta vulgar e que fazer um vinho com ela estragaria o nome Reynolds”. Felizmente, ignorou o conselho, percebendo que “o perfil da serra lhe imprime uma expressão diferente da de outras zonas”.

Nuno Elias, enólogo da Casa Agrícola HMR, sublinha a consistência da Arinto, uma característica que, na sua opinião, é extremamente importante para um vinho monovarietal. “A casta tem de dar um óptimo resultado, pelo menos, oito em 10 anos; com Arinto, eu tenho o histórico de bons vinhos, tenho a qualidade hoje e sei que amanhã também a terei”, afirmou.

No Douro, a Arinto não é tão difundida quanto as variedades típicas da região, como Rabigato, Códega, Viosinho, Códega do Larinho e Gouveio, entrando estatisticamente na categoria de “outras castas”. Provavelmente por isso, quando a Menin lançou o seu primeiro Arinto Grande Reserva, houve dúvidas sobre se faria sentido colocar o nome da casta no rótulo. A verdade é que o vinho sempre se mostrou muito aromático e com imenso carácter, convencendo os enólogos e o produtor de que era justo colocar o nome da casta no rótulo, contou o enólogo consultor da casa, Tiago Alves de Sousa.

Na região dos Vinhos Verdes, embora a Arinto esteja bem presente, em termos de notoriedade tem de competir com duas estrelas, a Alvarinho e a Loureiro, que a ultrapassam em plantação e fama. Por isso, o Arinto surge com menos protagonismo nos rótulos, embora seja frequente em lotes. Desempenha muito bem o seu papel nas sub-regiões um pouco afastadas da influência atlântica directa, como Basto e Baião, onde entra em blends com Azal.

Na vinha

Casta muito vigorosa, que, se não for controlada pelo porta-enxerto ou pela baixa fertilidade do terreno, desenvolve grande expressão vegetativa. Devido às folhas grandes, beneficia da desfolha precoce, evitando a compactação da folhagem. “Não é tão produtiva como a Antão Vaz, mas também não há aflição, como no caso da Alvarinho ou Verdelho”, explica Nuno Elias. A produtividade, naturalmente, depende do clone, mas, em geral, é generosa se for bem conduzida. Caso contrário, a videira investe na produção de lenha, podendo tornar-se aneira. A produção recomendada varia entre os 4500 e 8000 litros por hectare.

Em alguns clones, produz particularmente mal nos gomos basais (na base do sarmento). Por isso, o tipo de poda tem que ser adaptado, sendo preferível optar por poda longa ou mista, o que implica maior exigência em mão de obra. Os cachos são grandes, mas poucos por cepa, com bagos pequenos e muito compactos. Para além do míldio, do oídio e de outras doenças criptogâmicas (provocadas por fungos e organismos semelhantes), a casta é muito sensível à cigarrinha verde e à traça. No Alentejo, ainda é sujeita aos ataques do aranhiço amarelo, que, tal como a cigarrinha verde, representa um problema nas regiões quentes e secas. “Desparram as plantas”, conta Nuno Elias, referindo-se à diminuição da área foliar funcional. “Mas no ano passado, com as chuvas intermitentes durante o verão, correu melhor.”

A Arinto prefere solos bem drenados e é relativamente resistente ao stress hídrico. “Película rija, resiste à falta de água”, afirma Antonina Barbosa. Porém, “sendo sensível ao escaldão, a gestão da folhagem é importante”, acrescenta António Maçanita, que trabalha com a casta no Alentejo, no Douro e na região de Lisboa. “Não fica em passa, mas sim uma uva verde escaldada”, exemplifica. Durante o período entre o pintor e a maturação, o enólogo costuma provar os bagos, onde “primeiro aparece fruta neutra, que não sabe a uva, podia ser qualquer outra fruta”. Espera até que o sabor fique definido. Antonina também prefere decidir a data de vindima pela prova do bago, mesmo que analiticamente a uva já esteja pronta. Ao contrário da Fernão Pires, que perde a acidez e queima aromas em 48 horas, a Arinto pode esperar até atingir o equilíbrio na componente aromática, sem comprometer a sua frescura ácida, pois, quando ainda está ligeiramente verde, é muito neutra.

A vindima no Tejo e no Alentejo ocorre, geralmente, desde a última semana de Agosto até à primeira de Setembro. No Douro, realiza-se entre a primeira e a terceira semanas de Setembro, dependendo do ano. Na região de Lisboa, acontece no final de Setembro, já depois de algumas castas tintas.

 

A famosa acidez

A frescura ácida é o cartão de visita da Arinto. Mas, mais do que isso, é a qualidade da acidez e a capacidade de a preservar que merece destaque. Carlos Campolargo, comparando a Arinto com outra casta bairradina, a Cercial, nota que esta última tem maior acidez, mas “a da Arinto é mais rica e constante”. Em estudos comparativos com outras castas alentejanas, como Antão Vaz, Roupeiro, Perrum e Rabo de Ovelha, a Arinto apresenta consistentemente valores de acidez total significativamente mais altos e pH mais baixos, mesmo quando o seu teor de álcool provável também é elevado. Noutras castas, a acidez tende a ter uma forte correlação inversa com o teor de álcool, ou seja, só pode ser elevada em vinhos com baixos teores alcoólicos.

Curiosamente, os mesmos estudos revelaram que a Arinto apresenta relativamente baixo teor de ácido málico, mas um teor elevado de ácido tartárico. Esta distinção é importante: o ácido málico tende a degradar-se durante a maturação da uva, principalmente através da respiração das células do bago, o que se acentua em ambientes quentes. Em contraste, o ácido tartárico é muito mais estável, o que permite à casta conservar a sua frescura ácida mesmo em períodos de maturação avançada, conferindo consistência e equilíbrio aos vinhos produzidos.

 

Na adega

A Arinto há muito que conquistou os enólogos e produtores pela sua plasticidade. Como define Nuno Martins da Silva, enólogo consultor em várias casas da região de Lisboa, “é uma variedade interpretativa, que permite múltiplas abordagens. Tolera bem uma gestão criteriosa do oxigénio e pode beneficiar de curtimentas, desde que suportadas por matéria-prima adequada. Adapta-se e expressa-se com consistência em diferentes vasilhas – inox, cimento ou madeira”. Esta opinião é agregadora e geralmente partilhada por quem conhece bem a casta.

Não sendo exuberante, a Arinto “é uma casta muito pura em termos aromáticos”, descreve Sandra Tavares, enóloga consultora na Quinta da Chocapalha. Possui ainda muitos precursores aromáticos nas películas, pelo que a maceração pelicular pré-fermentativa faz todo o sentido, enfatizando a expressão olfactiva.

Normalmente, com o pH muito baixo (e na Arinto isto não é difícil), a sensibilidade à oxidação é baixa. Contudo, e apesar de ser uma casta branca, pode apresentar teores relativamente elevados de compostos fenólicos, especialmente se houver extracção mais intensa na prensagem ou contacto prolongado com as películas. Estes fenólicos são os principais responsáveis pelo escurecimento ainda em mosto (do amarelo-dourado ao acastanhado) e criam o potencial de oxidação ao longo do tempo. Mas há uma maneira de evitar isto: em vez de proteger o mosto do oxigénio, é deixá-lo oxidar ligeiramente no início, permitindo que os compostos instáveis precipitem logo. Por isso, António Maçanita não adiciona o sulfuroso até ao fim da fermentação, deixando que esta oxidação inicial controlada cumpra o papel de estabilização natural do mosto.

O grau alcoólico provável do mosto é variável consoante o local onde a vinha se encontra instalada, apresentando uma média de 11% em regiões com influência marítima e de 13% em regiões mais quentes, mantendo sempre a acidez firme. O enólogo da Adega Mãe, Diogo Lopes, considera que a Arinto “é bem talhada para fermentação e estágio em barrica, mesmo a madeira nova não se sobrepõe”.  Sandra Tavares prefere barricas muito usadas, praticamente neutras e estágios longos, sendo neste caso 24 meses, e mais 12 em garrafa.  Carlos Campolargo trabalha com barricas usadas de 5 a 6 anos e muito usadas de 10 a 12 anos, e fermenta com leveduras indígenas. Não se importa se, em algumas barricas, ocorre fermentação maloláctica “se lhe apetecer”. Chama a Arinto de “casta deliciosa” e lembra que também é excelente para a base de espumante.

Nuno Martins da Silva também procura “fermentações espontâneas, lentas, a temperaturas em torno dos 20 °C, em casco, seguidas de estágio nesses mesmos cascos sobre borras finas e intermédias.” Vê “a fermentação maloláctica como uma decisão estruturante e dependente do perfil que se procura em cada vinho”. Muitos recorrem a bâtonnage para aumentar a estrutura e a textura do vinho.

Em suma, embora a Arinto tenha sido fortemente associada a Bucelas, pouco a pouco foi perdendo essa dependência histórica e geográfica, afirmando-se noutros territórios vitivinícolas pelo seu próprio mérito. Por outras palavras, temos uma grande casta a nível nacional, capaz de interpretar a região sem perder o seu carácter, cuja qualidade deriva das suas virtudes intrínsecas e da habilidade do produtor em a trabalhar.

Arinto em números

A nível nacional, é a segunda casta branca mais plantada, a seguir à Fernão Pires. Segundo dados recentes do Instituto da Vinha e do Vinho, ocupa 6084 hectares, o que corresponde a cerca de 4% da área de vinha.

Na viragem do século, a Arinto ainda não figurava entre as 15 castas mais plantadas e praticamente não tinha protagonismo nas regiões vitivinícolas do país, incluindo a Estremadura (actual região de Lisboa), onde reinava a Fernão Pires, acompanhada por Vital, Malvasia Rei, Seara Nova e Alicante Branco. Apenas no Minho, a Arinto tinha alguma preponderância, ocupando 3171 hectares (8%).

Hoje, a casta apresenta-se com destaque em várias regiões: no Minho ocupa 2788 hectares (12%), sendo a terceira casta mais plantada, depois da Loureiro e da Alvarinho; no Alentejo é a segunda, ocupando 1042 hectares (5%), a seguir à Antão Vaz; na região de Lisboa mantém-se no segundo lugar das castas mais plantadas, com 538 hectares (3%), enquanto a Fernão Pires continua a assumir a liderança incontestável, com 11% das plantações; no Tejo ocupa 239 hectares (2%), sendo igualmente a número dois na lista das variedades mais plantadas, logo a seguir à Fernão Pires, apresentando valores muito semelhantes na Beira Interior. No Douro e noutras regiões, estatisticamente, a sua presença não tem expressão significativa.

(Artigo publicado na edição de Abril de 2026)

 

VENÂNCIO DA COSTA LIMA: 112 anos de uma história viva

Venâncio da Costa Lima

“Esta adega foi fundada em 1914 pelo Senhor Venâncio da Costa Lima. Na altura, tinha 22 anos. Com essa idade, iniciou-se na área de comércio de vinho, cereais e azeite. Uns anos depois, deixou o negócio do azeite e dos cereais, e dedicou-se só à produção e comercialização de vinhos.” A introdução é feita por […]

“Esta adega foi fundada em 1914 pelo Senhor Venâncio da Costa Lima. Na altura, tinha 22 anos. Com essa idade, iniciou-se na área de comércio de vinho, cereais e azeite. Uns anos depois, deixou o negócio do azeite e dos cereais, e dedicou-se só à produção e comercialização de vinhos.” A introdução é feita por Elsa Sousa, responsável pelo enoturismo da Venâncio da Costa Lima, empresa familiar situada na Quinta do Anjo, lugar pertencente ao concelho de Palmela e à região da Península de Setúbal. Homem de negócios empreendedor e visionário, Venâncio da Costa Lima adquiriu espaços comerciais – as tabernas, de então – no referido território vitivinícola, os quais eram dados à exploração. Objetivo? Vender o vinho produzido na adega homónima. “Atualmente, seria um franchising”, afirma a nossa cicerone em tom de brincadeira.

O sucesso estava garantido: “entre os anos 30 e 50 do século passado, éramos a segunda maior adega da região.” Elsa Sousa contextualiza o cenário socioeconómico desses tempos firmados na cultura da vinha e do vinho: “só aqui, na Quinta do Anjo, havia entre 10 a 15 adegas a funcionar. Neste momento, a produzir e a comercializar só há uma, a nossa.”

Quando Venâncio da Costa Lima morre, não havia descendência direta. Por conseguinte, deixou o legado a seis sobrinhos. Quatro gerações mais tarde, são os primos Joana Vida e João Vida, gerentes, e Carlota Lima, que faz parte da equipa de enoturismo, os representantes da quarta geração da centenária empresa familiar, com 35 funcionários permanentes. “E ainda temos cá um elemento da terceira geração, o pai da Carlota, que é Filipe Matos”, evidencia João Vida, referindo-se ao responsável pela área comercial.

Venâncio da Costa Lima
Venâncio da Costa Lima deixou o seu legado a seis sobrinhos

Uva de 10 produtores locais

Em consequência das partilhas e com a passagem do tempo, a Venâncio da Costa Lima deixou de ter vinha na sua posse. Quanto à área total inerente à plantação de videiras detidas pelo então fundador da empresa, “teria de ser uma área razoavelmente grande, dado que foi o segundo maior produtor [de vinho] daquela altura”, afirma João Vida. A compra da uva entrava, em simultâneo, na equação deste negócio familiar. Paralelamente, o número de produtores de uva tem vindo a diminuir.

Hoje, “temos viticultores com os quais estabelecemos uma ligação desde há muito tempo”, revela Joana Vida, que conta com 10 produtores de uva locais, o que perfaz uma área de vinha total de aproximadamente 100 hectares, com especificidades de solos e orientações distintas. A vinha plantada há mais tempo tem mais de 50 anos e é de Castelão. Em relação à quantidade de matéria-prima reunida na adega, aquela “varia muito de ano para ano”, continua João Vida.

No enquadramento da localização atual das vinhas, a área maior está concentrada no Lau, localidade situada no concelho de Palmela. Os solos são arenosos, uma mais-valia para a casta Castelão, que, na região da Península de Setúbal, ocupa 2.935 hectares, representando 58% do encepamento de castas tintas, segundo dados fornecidos pela Comissão Vitivinícola Regional da Península de Setúbal. Porém, as temperaturas altas registadas, durante o verão, neste território vitivinícola, põem em alerta permanente os responsáveis da Venâncio da Costa Lima. Joana Vida explica que o calor causado pelo sol nos solos arenosos reflete na planta, provocando escaldões na vinha. “A altura crítica é antes da passagem para a fase do pintor [quando as uvas mudam de cor e dá-se início à maturação]”.

Em contrapartida, “não há uma amplitude tão grande, o que permite uma boa maturação da Castelão”, salvaguarda Eduardo Silva, enólogo da empresa desde 2024. Embora na legislação da Comissão Vitivinícola Regional da Península de Setúbal impere que 2/3 desta casta faça parte do lote de um tinto DO Palmela, no portefólio vínico desta adega a Castelão é usada a 100% nos seguintes vinhos tintos: Venâncio Costa Lima, Venâncio Costa Lima Reserva, Pioneiro e Rubrica Reserva.

De volta aos solos, o caso muda de figura nas vinhas da Serra do Louro, parte integrante do Parque Nacional da Serra da Arrábida, “porque os solos são argilocalcários”, justifica a gerente.

Venâncio da Costa Lima
Eduardo Silva, enólogo, e Joana Vida, representante da quarta geração da família do fundador

Acompanhamento planeado

Para minimizar os contratempos na vinha, a Venâncio da Costa Lima arranca com o acompanhamento aos 10 viticultores na fase do pintor, com o controlo da maturação, a verificação da acidez e avaliação da produção. Esta missão é partilhada por João Vida, Eduardo Silva e Carlos Dias, enólogo que presta apoio à empresa no âmbito da viticultura. O passo seguinte baseia-se na elaboração de um plano que incide no controlo de maturação. Os enólogos fazem a recolha por casta e efetuam a análise de laboratório. A finalidade consiste em traçar um calendário inerente à entrega da matéria-prima na adega, o qual é comunicado a posteriori a cada viticultor.

Independentemente desta tarefa assegurada pela empresa, “todos os viticultores são acompanhados por técnicos da AVIPE [Associação de Viticultores do Concelho de Palmela]. São engenheiros agrónomos, que aconselham e ajudam os viticultores a garantir um protocolo de produção integrada, ou seja, só tratam a vinha quando é necessário e com as substâncias ativas permitidas”, elucida João Vida. Os produtos fitofarmacêuticos adicionados à vinha são controlados pela referida entidade através de uma conta corrente, informação essa que é passada à empresa, por forma a conduzir os trabalhos em concordância.

Ao contrário do que acontecia há duas décadas, a vindima tem vindo a começar entre 10 e 15 de agosto, porque se a maturação da Moscatel Roxo e a acidez estão no ponto, impera a apanha. Esta casta é a primeira a dar entrada na adega Venâncio da Costa Lima, para dar corpo aos vinhos generosos, seguindo-se as outras variedades brancas (Fernão Pires, Verdelho e Arinto) e, posteriormente, as tintas (Castelão, Touriga Nacional, Aragonez e Syrah). O ciclo fecha com a colheita da Moscatel de Setúbal igualmente utilizada na produção de generosos.

João Vida relembra que a Moscatel Roxo esteve em vias de extinção, porque amadurece muito cedo, enquanto a Castelão entra na fase de maturação mais tarde, tendo em conta que ambas as variedades estavam misturadas na vinha. “Por isso, a vinificação era feita com todas as castas, mas a Moscatel Roxo já estava comida pelas abelhas e pelos pássaros.” A recuperação da casta beneficiou com a plantação a solo, para que passasse a ser vindimada em separado e, de seguida, facilitar a vinificação. Hoje, os vinhos Moscatel Roxo de Setúbal são os ex-libris da região, onde, atualmente, ocupa uma área de vinha de 66 hectares, num universo de 7.500 hectares, de acordo com a Comissão Vitivinícola Regional da Península de Setúbal. “Na adega, também representa 10%”, comunica João Vida.

Produto de excelência

Quer no Moscatel de Setúbal, quer no Moscatel Roxo de Setúbal, a vinificação das respectivas uvas é igual, ou seja, depois de esmagada e desengaçada, é colocada dentro do depósito, onde faz uma ligeira fermentação durante 24 horas. Findo este período, abafa-se com “aguardente selecionada pela Comissão Vitivinícola Regional da Península de Setúbal em conjunto com outras adegas. É álcool vínico, porque tem de ser o mais neutra possível”, esclarece Eduardo Silva. Após este procedimento, o processo de maceração pelicular, dentro do depósito, decorre até abril do ano seguinte. Este método “é muito importante pois, através de extração alcoólica, todos os aromas e sabores vão passar da uva para o líquido. Na primavera, abrem-se finalmente os depósitos de Moscatel e vai para prensa”, explica Joana Vida.

A experiência determina se a opção é apostar num Moscatel jovem ou se o resultado denota potencial para fazer um estágio mais prolongado. No caso dos moscatéis de Setúbal, o líquido obtido permanece em depósito de inox e sem estágio em madeira, para que o resultado revele “os aromas primários da casta: os aromas de flor de laranjeira, o do mel e a frescura, os descritores mais usuais neste caso. É quase como um perfume”, descreve a gerente. No âmbito do Moscatel Roxo de Setúbal, este “fica mais tempo a ganhar aromas, para ser um produto excelência”, declara enólogo, em barricas de carvalho francês de 225 e 250 litros, anteriormente usadas em vinho tinto, “porque não nos interessa que a madeira marque muito; é mais para potenciar a micro-oxigenação”, explana João Vida. O objetivo é evidenciar a elegância e a complexidade aliada aos aromas terciários.

À mesa, e segundo a nossa anfitriã, os moscatéis jovens são recomendados para aperitivo ou na companhia de uma “sobremesa com mais acidez ou com o ananás, ou abacaxi, por exemplo, ou queijos curados, salgados e gordurosos”. Já o Moscatel Roxo combina melhor com bolos de nozes ou chocolate; os mais velhos são para apreciar com calma e à temperatura ambiente, no inverno; no verão, o frigorífico é um bom aliado.

Para lá da fronteira de Portugal, é de recordar que esta empresa familiar já conquistou, por cinco vezes, o lugar cimeiro na competição Muscat du Monde. Esta estreia teve lugar em 2011, com o Moscatel de Setúbal Reserva 2006. “Este concurso alavancou a Venâncio da Costa Lima e alavancou a região e o produto, que passou a figurar com maior firmeza nos fortificados de Portugal”, realça Joana Vida. A proeza repetiu-se em 2017, com o Moscatel Roxo 2013, em 2020, com o Moscatel Roxo Reserva da Família 2016, em 2022, com o Moscatel Roxo Reserva da Família 2018, e em 2023, com o Moscatel de Setúbal 2019. Fora os moscatéis da empresa distinguidos no Top 10 e com medalhas de ouro deste concurso mundial.

Desafios de uma empresa centenária

“O facto de sermos uma empresa familiar antiga e com muita gente acarreta alguns desafios”, avança Joana Vida. Por outro lado, este cariz familiar aporta “confiança ao nosso consumidor, quer ao nosso cliente, quer ao nosso importador, quer ao mercado. É uma empresa que vai celebrar 112 anos”, sublinha. Em cima da mesa, está em destaque as alterações do mercado, com as quais o sector do vinho tem vindo a deparar amiúde. De acordo com a gerente, esta mudança ocorreu há 10, 15 anos, quando a Venâncio da Costa Lima começou a deparar-se com pedidos de “vinhos mais frescos”. Portanto, maior frescura e grau alcoólico mais baixo são duas variáveis alinhadas com a antecipação das vindimas. Neste contexto, controlo de maturação é o factor mais relevante, por forma a se conseguir um grau alcoólico mais baixo e maior frescura no vinho. “É nesta fase do controlo na vinha que entra o Carlos Dias”, acrescenta.

Mas uma vez que os moscatéis são a referência desta adega centenária, nem sempre é fácil fomentar a compra por parte do consumidor. Por esse motivo, enoturismo tem vindo a ser desenvolvido neste sentido, apesar de não ser a única solução. Esta prática é complementada pela venda em grandes superfícies e pela exportação que se resume a 5%. Os principais mercados são os Estados Unidos, o Brasil e a Europa, nomeadamente Países Baixos, Reino Unido e França. “Tanto o Moscatel de Setúbal como o Moscatel Roxo são vinhos de nicho, são difíceis de exportar”, razão pela qual “no Reino Unido vendemos para um importador que vende uísques e conhaques”, argumenta Joana Vida. A respeito do moscatel em Portugal, está “mais estável do que o vinho, porém difícil”. Já o grande volume é destinado para a restauração.

Em suma, “o sector do vinho atravessa grandes desafios, nomeadamente em relação às questões legais, de saúde, do álcool. Portanto, é preciso que estejamos sempre atualizados.”

Enoturismo desde 2015

A adega original da Venâncio da Costa Lima mantém-se à beira da estrada, com amplas janelas, através das quais, em tempos idos, os viticultores descarregavam a uva com o auxílio de uma forquilha. As paredes grossas protegem os lagares em pedra, a destilaria, bem como o desengaçador, a máquina pasteurizadora e a bomba manual antigas, as ânforas argelinas, os tonéis e os depósitos em cimento. “Era aqui que se faziam, estagiavam, loteavam e engarrafavam os vinhos. Hoje em dia, serve para o enoturismo e o armazenamento de moscatel. Dos melhores vinhos”, revela Joana Vida. Agora, é a guardiã dos moscatéis com 40 e mais anos e está destinado a experiências vínicas.

Das experiências descritas no site da empresa, destacam-se duas: “Da queijaria à adega” e “Das grutas ao vinho”. A primeira inicia-se com uma visita à vizinha queijaria Fernando & Simões, seguindo-se a harmonização de quatro referências vínicas da casa com três queijos de curas distintas, a par com uma tábua bem composta por doces locais, frutos secos e especiarias. A segunda iniciativa incita a um passeio pedestre até aos sepulcros neolíticos existentes no Parque Natural de Arrábida, durante o qual se atravessa a aldeia. Julho é o mês ideal para esta caminhada, já que permite observar a flor do cardo.

Joana Vida revela que Elsa Sousa é uma cozinheira de mão cheia. Quem conhece, sabe quão saborosas são as batatas de molho toucinho servidas em taças de barro, pelas 11h00, na vinha, no âmbito da atividade associada às vindimas, a qual está disponível na devida época do ano. Quem se inscreve, sabe que esta iniciativa é para levar a sério, daí a necessidade de se retemperar forças já depois das boas-vindas das 08h00. “Fazemos tudo o mais genuinamente possível”, assevera a gerente da empresa, que reforça a junção da gastronomia local (pão, queijos, enchidos, sopas tradicionais) com os vinhos da Venâncio da Costa Lima. “As harmonizações que fazemos não é só porque gostamos de bola podre ou de queijo de Azeitão. Há todo um estudo por trás e uma tentativa de ligar sempre a algo que diz respeito à região”, salienta.

O número médio de visitas tem vindo aumentar, graças à proximidade com a capital do país, que permite uma viagem com duração entre 30 a 40 minutos. “Temos estado a absorver o excesso de turismo de Lisboa e Sintra, e temos muitas agências que nos estão a ver como uma alternativa de confiança”, adianta a nossa anfitriã. Sem esquecer o facto de todos os espaços serem acessíveis a pessoas com mobilidade reduzida, pois a visita à adega faz parte de cada ação realizada no contexto do enoturismo.

Visita guiada à adega

A ampliação da adega ocorreu em três fases ao longo das gerações seguintes, para dar resposta às necessidades da empresa. Pelo meio, foi criada a zona da vinificação e a de receção das uvas. Por fim, foi edificada a nave principal, onde estão instalados o armazém, o laboratório, a zona de loteamento e a de expedição. Acrescem as secções de enchimento, com duas linhas para garrafas, barril de inox e de madeira, e de embalagens, bem como as que estão reservadas à rotulagem. Na Venâncio da Costa Lima movimentam-se três milhões de litros de vinho por ano, já que, além da uva vinificada, é comprado vinho previamente selecionado e posteriormente loteado. Trata-se de “um produto de consumo rápido”, para o qual “não se pretende grandes variações de perfil”, informa João Vida, ao contrário do que acontece com o vinho engarrafado.

À medida que nos aproximamos da adega mais antiga, chegamos ao espaço onde estão instaladas enormes cubas de inox, que, em 2009, vieram substituir os depósitos de cimento subterrâneos. São “os pulmões” da Venâncio da Costa Lima. Armazenam o vinho produzido, o comprado e o que está a estagiar. “Manter esses volumes todos é um dos maiores desafios financeiros da empresa”, justifica Joana Vida. Há ainda outro espaço de armazenamento sob a linha de enchimento. No piso inferior ao da loja, a temperatura baixa e a humidade, favoráveis à estabilidade do vinho, propiciam o repouso de tranquilos e fortificados em barris.

Pelo meio, a visita é feita a outro espaço de memórias desta centenária empresa familiar, tal como acontece com a oficina de tanoaria, espaço desativado em 2019, já depois de o octogenário Fernando Rubino ter cessado a função de tanoeiro. O futuro reserva, aqui, um núcleo museológico dedicado a esta profissão, com uma mostra constituída pelo buraco do fogacho (fogueira), os utensílios associados a este ofício – o balde de parafina e o funil, o enxó, o martelo de pena ou os ferros de marcar os barris, entre outros – e as cartolas (vasilha de madeira de pequenas dimensões) de castanho.

As memórias de tempos idos reavivam-se uma vez mais quando é dada a conhecer uma das relíquias do fundador da empresa. Trata-se da viatura da norte-americana DeSoto, produzida pela Chrysler, com o registo do ano de 1948. A cor azul em nada teria passado despercebida cada vez que Venâncio da Costa Lima percorria as ruas da Quinta do Anjo. “O meu pai lembra-se de ir a Fátima, neste carro, com Venâncio da Costa Lima, sentado num banquinho, que punham aqui atrás”, recorda Joana Vida.

(Artigo publicado na edição de Março de 2026)

BARBEITO: O luxo de sempre

Barbeito

O concerto de Ano Novo realizado pela Orquestra Filarmónica de Viena, todas as manhãs do dia 1 de Janeiro, tem lugar no cenário incomparável da Sala Dourada do Wiener Musikverein. Assistir pessoalmente deverá ser, certamente, uma experiência tão inesquecível, quanto difícil para lá poder chegar. Não é um processo simples, pois grande parte dos lugares […]

O concerto de Ano Novo realizado pela Orquestra Filarmónica de Viena, todas as manhãs do dia 1 de Janeiro, tem lugar no cenário incomparável da Sala Dourada do Wiener Musikverein. Assistir pessoalmente deverá ser, certamente, uma experiência tão inesquecível, quanto difícil para lá poder chegar. Não é um processo simples, pois grande parte dos lugares estão reservados à realeza, à aristocracia e às elites europeias, passando de geração em geração, por sucessão dinástica e apenas uma parte está destinada ao público. O problema é que os bilhetes não se podem comprar na bilheteira ou na Internet ou, pelo menos, não directamente. É preciso ter sorte e ser um dos escolhidos pelo sorteio especialmente realizado para o efeito em Março, para o qual uma pessoa tem de se inscrever previamente, para poder assistir ao concerto ao vivo.

Perdoe-me o leitor a comparação ousada, mas assim é, também, salvas as devidas distâncias e proporções, com o Madeira Wine Experience, que já teve edições no Palácio de Seteais ou na histórica Casa dos Penedos, sempre na lindíssima Vila de Sintra.

Generosa exclusividade

O Madeira Wine Experience (MWE) é uma prova exclusivamente dedicada ao Vinho Madeira, criada por Paulo Cruz, também ele mentor do Porto Extravaganza – para muitos, a grande escola de Vinho do Porto em Portugal –, e pelo seu sócio e amigo, Paulo Henrique Bento. A ideia nasceu no Bar do Binho, localizado na Praça da República, em pleno Centro Histórico de Sintra, do qual Paulo Cruz é proprietário. Foi fundado pelo bisavô e tem permanecido na família desde 1927. Conta com uma colecção imensa de vinhos generosos, desde alguns do século XVIII até outros mais recentes. É lá que Mr. Cruz se dedica, diariamente, a educar, ensinar e dar a provar os melhores vinhos fortificados do mundo.

À semelhança do Extravaganza, o MWE é um evento muito exclusivo, intimista e dedicado. Os habitués são já uma espécie de família dos vinhos. Registam as datas no calendário de um ano para o outro, não falham uma edição e ficam sempre pasmados a cada nova revelação. Assim foi com a edição de 2025. O leitor sente-se, por favor.

Na primeira parte da prova tivemos Ricardo Diogo, da Vinhos Barbeito, e o precioso ajudante, Sérgio Marques, a ensinarem-nos a fazer o blend do estratosférico Vinho Madeira, com o rótulo Barbeito O Americano Malvasia 50 Anos. Ensinar como?! Perguntarão. Tínhamos seis provetas de vidro à nossa frente, cada uma com cada um dos vinhos utilizados para compor o lote final do Barbeito O Americano, a saber: Malvasia de 2005 (casco 58, meio doce, 25% do lote), Malvasia de 2009 (casco 303, meio seco, 12% do lote), Malvasia 40+ Anos (tanque 99ª MEF, 18% do lote), Malvasia 30+ Anos (garrafão 92 FV/RR, 22% do lote), Malvasia 100+ Anos (garrafão 6 LV/Reitor, 17% do lote – “o vinho-chave do lote”, segundo Ricardo Diogo), Malvasia 2012 (casco 158, 6% do lote).

À medida que fomos provando, fomos ouvindo a(s) história(s) de cada um dos vinhos, para sentirmos os diferentes níveis de aromas, as texturas, a acidez, os açúcares, a intensidade e a concentração, e colocando, na exacta medida, a percentagem indicada de cada um dentro duma nova proveta de vidro até completarmos os 100% do lote.

Feito o blend, provamos, lado a lado, com o verdadeiro Barbeito O Americano Malvasia 50 Anos. O momento traduziu-se numa experiência única e fascinante, onde pudemos verificar um vinho acabado de lotear, mas ainda por finalizar, e o mesmo vinho, devidamente finalizado, colado e filtrado, e já com um ano de afinamento em garrafa. As semelhanças eram evidentes, mas, como é óbvio, faltava a perfeição só atingida com o tempo em garrafa.

Barbeito
Ricardo Diogo e Sérgio Marques

Uma novidade e um desafio

Um dos momentos altos da tarde-noite, foi o lançamento mundial do Barbeito Pai António Verdelho 50 Anos, o vinho de homenagem de Ricardo Diogo a seu pai, um homem que não gostava de Vinho Madeira, mas, pasme-se, a quem a mulher, mãe de Ricardo, graciosamente, nunca parou de perguntar, ao longo do casamento, se a desejava acompanhar sempre que tomava um Vinho Madeira.

Após o ligeiro coffee break, para conversarmos e darmos algum lastro ao estômago, que neste tipo de provas as cuspideiras ficam sempre vazias, bem como tempo à equipa para substituir copos e preparar tudo para a segunda parte, Ricardo Diogo e o Sérgio Marques sentaram-se, como os demais de nós, para uma prova de 11 vinhos Madeira. Tudo às cegas. A prova foi conduzida por Paulo Henrique Bento, com Mr. Cruz na presidência. A saber: Barbeito Malvasia Lote Especial 30 Anos (engarrafado em 2006), Barbeito Vó Vera Malvasia 30 Anos (engarrafado em 2016), Companhia Vinícola da Madeira Verdelho 1934, Leacock Boal Solera 1851, Justino’s Boal 1934, Blandy´s Bual 1954, Quinta da Consolação Malvasia Roxa 1907, Padre Vale Malvasia Seca 1902, Borges Boal 1875, Barbeito Malvasia 1875 (engarrafado na década de 1970), e Barbeito Malvasia 1875 (engarrafado em 2020). Destaque para o Blandy’s Bual de 1954, um dos melhores anos de sempre na Madeira e destaque maior para o grandioso trio de 1875, monumentais, complexos, profundos, vivos, vibrantes e longos; são vinhos para a eternidade.

A ideia deste artigo não é irritar o leitor ou fazer-lhe pirraça ao falar de vinhos únicos e de uma prova tão exclusiva, mas a própria natureza dos vinhos assim o exige, pois muitas das garrafas provadas eram exemplares únicos e a generalidade dos vinhos provados não está sequer à venda. Aquilo que os leitores interessados podem fazer, se me é permitida a sugestão, é fixar o nome das marcas em prova, porque algumas das casas têm outras colheitas memoráveis, mais recentes. Quanto a poder fazer parte de uma destas edições, é apenas uma questão de fazer uma visita ao Bar do Binho, em Sintra, falar com Paulo Cruz e aguardar em lista de espera. É muito difícil, mas não há outra maneira.

Porém, o verdadeiro mote deste artigo, que tanto gosto me deu a escrever, é divulgar o trabalho único e incomparável que Paulo Cruz e Paulo Henrique Bento fazem há vários anos, no que toca à divulgação e promoção dos vinhos fortificados de Portugal, especialmente numa fase tão difícil como a que os vinhos generosos estão a atravessar, porque, como se diz à boca cheia, no final de cada edição de Extravaganza ou Madeira Wine Experience, “se estes dois gajos não fazem, mais ninguém faz!” Talvez não seja inteiramente assim, mas que anda lá muito perto, disso não tenhamos a menor dúvida.

(Artigo publicado na edição de Fevereiro de 2026)

QUINTA DE PANCAS: Um clássico de Lisboa a renascer

Pancas

A história tem demonstrado que bons negócios no sector de vinho acontecem, quando um grupo com capacidade de investimento e visão de longo prazo, e não de lucros imediatos (que, na realidade, é pouco provável nesta área), adquire uma propriedade com história e reputação, entretanto mal gerida, mas com potencial de recuperar a fama pretérita. […]

A história tem demonstrado que bons negócios no sector de vinho acontecem, quando um grupo com capacidade de investimento e visão de longo prazo, e não de lucros imediatos (que, na realidade, é pouco provável nesta área), adquire uma propriedade com história e reputação, entretanto mal gerida, mas com potencial de recuperar a fama pretérita. Nestes casos, ganham todos, incluindo os enófilos, porque podem voltar a beber os vinhos que outrora lhes encheram as medidas. É o caso da Quinta de Pancas, localizada no concelho de Alenquer, que, agora, integra o universo da WineStone.

O projecto organiza-se em dois níveis: a liderança cabe a Vasco Rosa Santos, director de operações, e a David Baverstock, director de enologia. No terreno, a Quinta de Pancas é acompanhada por Vasco Costa, enólogo e responsável de viticultura, cujo percurso passou por casas como Val d’Algares, Casa Santos Lima e Segur Estates, e por Francisco Garcia, enólogo residente, que traz experiência da Quinta do Rol e da Adega de Redondo.

A boa casa à família torna

Fundada em 1495, a Quinta de Pancas conheceu vários proprietários ao longo da sua história. Em tempos pertenceu à família Guimarães, um ramo da família Mello, que hoje detém o grupo WineStone. A partir de 2006 integrou a Companhia das Quintas, enquanto o Solar de Pancas foi vendido separadamente à família Philimore, em 2008. Antes de ser adquirida pelo grupo, a propriedade esteve sob gestão da sociedade de Miguel Pais do Amaral (AHS Investimentos).

A WineStone já “namorava” esta quinta desde 2020. A aquisição concretizou-se em 2023 e incluiu as vinhas e a produção, mas tornou-se pública só em janeiro de 2024. O negócio foi motivado por três razões: uma histórica sentimental, ligada ao passado familiar da quinta; outra baseada nos valores intangíveis da marca e no potencial do terroir; e uma terceira, meramente prática, relacionada com o acesso a uma região produtiva, capaz de sustentar o negócio, sobretudo na exportação.

Na vinha, encontraram uma disparidade evidente: “o que era bom, era muito bom, e o que era mau, era péssimo”, explica Vasco Rosa Santos. Neste contexto, a reabilitação da vinha tornou-se uma prioridade. A vindima de 2023 foi assegurada pelos enólogos da WineStone. As uvas brancas já haviam sido vendidas pelo anterior proprietário, o que obrigou a recorrer à uva comprada, enquanto as uvas tintas foram colhidas e vinificadas pela equipa do grupo.

A propriedade precisa de investimentos elevados. A antiga adega, em estado de degradação, deixou de ser funcional e não oferece segurança. Por conseguinte, a vinificação realiza-se numa adega alugada e o engarrafamento e armazenamento do produto acabado são feitos no centro logístico do grupo, em Vendas Novas. Um conjunto de pequenos armazéns, onde antigamente se produzia vinho particular, será recuperado e destinado ao enoturismo. Além disso, pretende-se realizar uma investigação histórica mais pormenorizada sobre a Quinta de Pancas, uma vez que, com mudanças de proprietários ao longo dos anos, muita informação se perdeu.

Serra, vinhas e castas

Situada no concelho de Alenquer, junto à aldeia de Pancas, a quinta fica quase na fronteira entre as regiões de Lisboa e do Tejo, beneficiando de dias quentes moderados e noites frescas. A Serra de Montejunto protege as vinhas dos ventos e das massas de ar atlântico que chegam do Noroeste. As nuvens acumulam-se “agarradas” à crista da serra e o ar, que desce para o lado sul, tende a ser mais quente e seco, reduzindo a precipitação, um efeito clássico de sombra pluviométrica. No dia da nossa visita à propriedade, pudemos observar este fenómeno, quando fomos às vinhas.

Mesmo assim, a proximidade do Atlântico (situado a 30 quilómetros em linha recta) faz-se sentir através de nevoeiros e neblinas, que deixam as folhas molhadas durante horas. Com temperaturas amenas, isto torna-se um resort para fungos. Segundo Vasco Costa, a precipitação anual é elevada, nunca inferior a 600 milímetros, podendo atingir os 800 milímetros. Com esta pluviosidade, as vinhas não necessitam de rega.

As vinhas estendem-se num grande anfiteatro ondulado, virado a Norte e Nordeste, com fileiras que descem pelas encostas entre os 250 e os 120 metros de altitude. A inclinação é bastante acentuada, chegando aos 40%. Por um lado, proporciona uma melhor exposição solar, maior circulação de ar e escoamento de água, mas, por outro, dificulta o trabalho na vinha e limita o uso de máquinas, sobretudo em períodos chuvosos.

“Tirando a Bairrada, os solos em Portugal são, maioritariamente, ácidos, e aqui são argilo-calcários, com pH alto”, refere Vasco Costa. Com bastante pedregosidade por baixo, oferecem boa drenagem, mas também apresentam desafios: alguns nutrientes ficam indisponíveis para a planta, acumulando-se no solo, o que se foi agravando com uso desmedido de fertilizantes. Após a aquisição, encontraram o terreno em mísero estado, motivo pelo qual uma das primeiras preocupações da equipa da WineStone foi a implementação de práticas que melhorassem o solo. Estas medidas passam por evitar adubos minerais, aumentar a matéria orgânica e corrigir a falta de nutrientes a nível foliar, doseando-os através de análises de seiva nas alturas críticas do ciclo vegetativo: antes da floração, depois do vingamento e no início do pintor.

A vinha também precisa de muita intervenção, pois, “passou por várias mãos e cada um fez o que quis”, explica o responsável de viticultura. De momento, toda a plantação está a ser convertida de cordão para vara, isto é, em vez de braços permanentes ao longo dos anos, a madeira produtiva passa a ser renovada anualmente. É uma viticultura mais exigente, mas que permite um maior controlo sobre a planta e evita cortes grandes na videira, que abrem o caminho a doenças de lenho. Dá mais trabalho na altura da poda. Vasco lamenta a dificuldade em arranjar pessoas na região que saibam podar em vara, acabando por trazê-las do Norte do país.

A Quinta de Pancas conta com 53 hectares de vinha, dos quais 15 são plantados com castas brancas. Entre as tintas, as castas privilegiadas são Cabernet Sauvignon (35%) e Touriga Nacional (25%), seguidas por Syrah (10%), Merlot (10%) e pequenas parcelas de Alicante Bouschet, Castelão, Touriga Franca e Petit Verdot. Quanto às brancas, predominam a Arinto (60%) e a Chardonnay (38%), com uma pequena presença de Vital. O Castelão será reenxertado com outras castas, pois os clones são antigos, altamente produtivos e pouco compatíveis com vinhos de maior ambição – dariam, eventualmente, para um rosé.

Actualmente, a vinha apresenta uma produtividade que ronda as oito toneladas por hectare, um valor relativamente baixo para a região. Depois da recuperação da vinha, o objectivo é elevá-la para as 12 toneladas por hectare nas castas que toleram este incremento sem comprometer a qualidade, como a Arinto, enquanto o Chardonnay, destinada a vinhos de topo de gama, será limitada a cerca de cinco toneladas por hectare.

Pancas

Quatro gamas do portefólio

Em termos de lógica do portefólio, existem quatro gamas, em que os vinhos monovarietais de Cabernet Sauvignon e Chardonnay continuam a ter um grande destaque. O Reserva funciona como uma espécie de entrada de gama, mas num patamar superior, pois ainda há o Pica Bagos destinado ao retalho e feito com uva comprada. Embora 95% do Reserva seja produzido com uva própria, ambos os vinhos irão manter o nome “Pancas”, para uniformização da marca (hoje, o tinto ainda se chama “Quinta de Pancas”). Nas colheitas futuras, o nome “Quinta de Pancas” será reservado aos vinhos monovarietais e para o Grande Reserva.

Os Reserva, branco e tinto, estagiam durante seis meses em barrica. No tinto privilegia-se um perfil pouco extractivo. Recorre-se à micro-oxigenação para amaciar os taninos e o tornar mais apelativo em novo. No terceiro dia da fermentação, as grainhas normalmente caem no fundo da cuba e são retiradas, para não conferir amargor, nem adstringência. O processo termina também sem películas. Esta abordagem garante uma menor extracção no geral e uma textura mais macia. Volume de produção engloba 50.000 garrafas de branco e 50.000 de tinto.

Os monovarietais Quinta de Pancas Cabernet Sauvignon e Chardonnay procuram expressar o carácter varietal. “Quando falamos de castas internacionais, o importante é manter a sua identidade. A região de Lisboa consegue fazê-lo com algumas castas francesas”, explica Vasco Rosa Santos. O Chardonnay resulta de uvas de um lote de dois talhões com vinhas de idade já madura, com aproximadamente 30 anos, vinificadas separadamente. Parte do vinho fermentou em barricas de carvalho francês novas, mas de maior capacidade (500 litros), e usadas de 225 litros com mais de dez anos. Outra parte fermentou em cuba de inox, sendo depois transferida para o estágio em barricas usadas de 225 litros. O Cabernet Sauvignon 2022 estagiou oito meses em barricas usadas de carvalho francês. A produção ronda as 12.000 garrafas de Chardonnay e cerca de 35.000 garrafas de Cabernet Sauvignon.

Os Grande Reserva são vinhos bivarietais, combinando uma casta portuguesa e uma internacional. No branco, a Chardonnay fermentou em barrica nova e usada de carvalho francês e a Arinto em cuba de inox, terminando a fermentação em barricas usadas de 225 litros. Seguiu-se o estágio sobre borras por oito meses. No tinto, o Cabernet Sauvignon e a Touriga Nacional tiveram abordagens diferentes: mais extracção no primeiro, para assegurar uma boa evolução em garrafa, e temperatura de fermentação mais baixa, no caso da Touriga, privilegiando a definição aromática. Em termos de estágio, a Cabernet passou por barricas novas e de segundo ano, enquanto a Touriga estagiou em barricas mais antigas. Foram produzidas 6.500 garrafas de Grande Reserva branco e 6.600 garrafas do tinto.

Os Special Selection são pensados como a expressão máxima da Cabernet Sauvignon e da Chardonnay, sendo lançados apenas em anos de qualidade excepcional e implicando uma seleção particularmente rigorosa de barricas para a definição do lote final. A produção mais recente é limitada a cerca de 2.700 garrafas de Special Selection Chardonnay e 3.000 garrafas de Cabernet Sauvignon.

(Artigo publicado na edição de Fevereiro de 2026)

CASA SANTOS LIMA: O gigante discreto

Casa Santos Lima

Alenquer, há muitos anos numa reportagem de vindima. Próximo de Lisboa, era o sítio mais fácil para visitar um verdadeiro compêndio de castas, bem como sua sequência de maturação e recolha. Foi em 2005. Ddeixem-me citar, desse artigo, a ordem de colheita das várias castas: Pinot Noir (T), Fernão Pires (B), Chardonnay (B), Vital (B), Sauvignon Blanc […]

Alenquer, há muitos anos numa reportagem de vindima. Próximo de Lisboa, era o sítio mais fácil para visitar um verdadeiro compêndio de castas, bem como sua sequência de maturação e recolha. Foi em 2005. Ddeixem-me citar, desse artigo, a ordem de colheita das várias castas: Pinot Noir (T), Fernão Pires (B), Chardonnay (B), Vital (B), Sauvignon Blanc (B), Viosinho (B), Seara Nova (B), Rabo de Ovelha (B), Merlot (T), Trincadeira (T), Camarate (T), Syrah (T), Touriga Franca (T), Tinta Roriz (T), Castelão (T), Cabernet Sauvignon (T), Tinto Cão (T), Preto Martinho (T), Arinto (B), Touriga Nacional (T), Tinta Barroca (T), Alicante Bouschet (T), Alfrocheiro (T), Caladoc (T), Sousão (T), Moscatel (B) e Tinta Miúda (T).

Nesta viagem de 20 anos percebe-se que, já naquela época, a filosofia da casa era, acima de tudo, diversificar. A estratégia não era de sucesso evidente, havia muitos outros produtores a apostar no contrário: num vinho forte, construir aí a marca e, depois, introduzir variedade a partir desse ponto focal. Seria fazer o tinto X, depois o X Reserva, a seguir o X branco, depois o X Touriga Nacional, e talvez ficar por aí.

Vejamos, o paradigma dos vinhos de sucesso em Bordéus é parecido: 300 mil garrafas do Château Blah, 30 mil do Petit Blah, feito com as vinhas mais novas, e o resto da produção é vendido a granel ou engarrafado discretamente com a Denominação de Origem (DO) em grande evidência no rótulo. Objectivo? Não estragar o prestígio nem o preço do Château, que faz quantidade a sério a multiplicar por bom preço. Na Borgonha, a estratégia também é enfatizar a notoriedade dos melhores vinhos, mas com o foco na raridade e particularidade de cada um dos terroirs, que podem ser minúsculos, originando pouquíssimas garrafas, posteriormente disputadas como jóias por apreciadores ávidos de exclusividade e luxo.

Em contrapartida, a Casa Santos Lima cedo escolheu e se especializou num rumo alternativo: alargar a gama, construir muitas marcas, muitas castas, muitos lotes, diversificar mercados, sempre com preços contidos, apostando em grandes quantidades com margens pequenas, organizando o crescimento da empresa a partir daí.

 

O mote da Casa Santos Lima: “atender às necessidades dos clientes e adaptar-se às rápidas mudanças nas tendências do mercado”

Para lá das 200 referências

José Luís Oliveira e Silva está na liderança desde 1995. Reformou-se nesse ano de uma carreira na banca de investimento, que incluiu períodos de trabalho em França e Inglaterra. Já em jovem gostava de acompanhar os trabalhos da quinta, com grandes extensões de vinha, mas não tinha vinho engarrafado. Logo de início, optou por criar várias marcas que tiveram sucesso imediato, como o Palha Canas ou o Quinta das Setencostas. O topo de gama Touriz era um nome feliz. Reflectia a sua composição feita a partir de Touriga Nacional, Touriga Franca e Tinta Roriz e espelhava um novo interesse do público português nas castas e suas diferenças enológicas. Também desde cedo apareceram os monovarietais da Casa Santos Lima, uma espécie de biblioteca de estudo, cujos temas estão listados acima.

Além da variedade, a Casa Santos Lima sempre manteve uma estratégia de preços muito contidos, mesmo que cada vinho tivesse uma margem bastante pequena. O negócio fazia-se na multiplicação. Portanto, era preciso apostar incisivamente na venda. Para tal, a estratégia era encarar cada mercado como um desafio específico. Dentro de cada país, a diversificação era muitas vezes feita com várias marcas para vários distribuidores.

Não há pruridos quanto ao tipo de embalagem, que abrange, hoje, a garrafa de vidro, o bag-in-box, a Tetra Pack ou os mais recentes pouches (ou bagnuns, bolsas de plástico de litro e meio com uma torneira, como a dos bag-in-box, e que têm a vantagem de caberem facilmente no frigorífico). Os vedantes das garrafas de vinho podem ser de rolha de cortiça inteiriça, rolha técnica ou rosca de metal. Em 2025 as roscas suplantaram a cortiça e, dentro da cortiça, 70% são rolhas técnicas.

O número de marcas foi crescendo, o número de vinhos de cada marca também. No total, são mais de 200 referências diferentes distribuídas por algumas dezenas de marcas. Perguntei a José Luís como conseguia criar tantos nomes e ele respondeu-me com simplicidade: “moro em Lisboa e todos os dias venho para a quinta. São 40 minutos para cada lado. Tenho muito tempo para pensar em nomes.” Alguns são sensacionais, como os blockbusters Red Blend (que melhor nome para um tinto de lote?) ou Duas Uvas (cujas iniciais 2U se lêem em inglês Para Ti), duas das marcas que vendem mais de dois milhões de garrafas cada uma.

As marcas “umbrella” Bons-Ventos e Lab (de Labrador) vendem, respectivamente, três e quatro milhões de garrafas, nos vários tipos de vinho, entre tintos, brancos, rosés, varietais e lotes. Todo este universo é de milhões. O vinho de produção mais pequena é o tinto topo de gama Utopia, com cerca de três mil garrafas. Das 200 referências, cerca de 40 são submetidos a estágio em barrica. Na região de Lisboa, esses vinhos estão, quer na Quinta da Boavista, quer nas instalações da vizinha Adega Cooperativa da Merceana.

 

90% da produção anual vai para 60 mercados dos cinco continentes, a qual se divide em 60% para a Europa e 40% para o resto do mundo

Exportação para 60 mercados

Globalmente, os números são impressionantes. A Casa Santos Lima produz, por ano, é de cerca de 30 milhões de garrafas, vendidos nas várias embalagens. 90% da produção é exportada, para um total de 60 mercados activos espalhados pelos cinco continentes. Na Europa, fica 60% destas vendas. O resto do mundo encaixa 40%. A percentagem de vinho vendido em garrafa é de 70%; e em bag-in-box e outros formatos é de 30%. Os mercados escandinavos têm uma forte preferência por estes últimos. Em muitos destes países nórdicos, notavelmente a Finlândia, a Casa Santos Lima tem vários lugares no top 10 dos vinhos mais vendidos, incluindo os três primeiros lugares. Os maiores mercados são Brasil, Bélgica, Canadá, Finlândia, Alemanha, Noruega, Portugal, Suécia, Reino Unido e Estados Unidos da América. Os tipos de vinho dividem-se por 77% de vinho tinto, 17% de vinho branco e 6% de rosé.

O enorme pavilhão de engarrafamento e expedição da Quinta da Boavista tem 12 mil metros quadrados e, além das linhas de engarrafamento, armazena cerca de três milhões de garrafas, quantidade que roda mensalmente, com cada peça a funcionar como um relógio. Há várias linhas de engarrafamento: uma que enche nove mil garrafas por hora, mas tem um set-up relativamente demorado, e outras duas mais lentas, usadas nos tempos mortos da principal e para marcas de mais reduzida quantidade. Muitas posições da linha tinham um trabalho desgastante, rotineiro e mecânico. Por isso, foram substituídos por robots modernos e incansáveis. Tarefas banais, como abrir uma grelha de cartão, para separar as garrafas umas das outras dentro da caixa de cartão, podem ser repetitivas e dadas a erros, para além de serem lentas, fastidiosas e desmotivantes. Se a tecnologia pode intervir e poupar aos humanos desse suplício, é bem-vinda. Os empregos não vão desaparecer, vão apenas evoluir para tarefas mais valorosas.

Um outro exemplo é o sistema robotizado para aceder ao armazém e trazer as bobinas de rótulos necessárias para os próximos engarrafamentos, parecido com o de algumas farmácias automatizadas. Muito impressionante, mesmo para uma pessoa como eu, que já visitei ao longo de décadas, muitas, muitas adegas.

 

A percentagem de vinho vendido em garrafa é de 70%. Em bag-in-box e outros formatos é de 30%

Mais de 700 hectares de vinha

O crescimento da Casa Santos Lima conduziu a investimentos sucessivos em várias regiões do país. Sob a batuta de José Luís Oliveira e Silva, o aumento da produção na região de Lisboa não fazia muito sentido, uma vez que a empresa já era responsável pela certificação de mais de metade dos vinhos da Comissão Vitivinícola da Região de Lisboa. Aliás, o mesmo é verdade para a DO Alenquer e IPR (Indicação de Proveniência Regulamentada) Algarve.

Na região de Lisboa a extensão de vinha chega aos 464 hectares. A expansão começou em 2011, com uma parceria, de longo prazo, com a Quinta de Porrais, no Douro, com o controlo de 100 hectares de vinha e consultoria enológica do famoso Xito Olazabal. Em 2013, avançaram para o Algarve, mais concretamente para próximo de Tavira, com 55 hectares de vinha. No ano seguinte, adquiriram a Quinta de Vila Verde, em Lousada, na região dos Vinhos Verdes, com 50 hectares de vinha, e fizeram uma parceria no Alentejo, com a exploração de 100 hectares de vinha, perto de Beja. Em 2022, avançaram para mais duas regiões: 18 hectares de vinha na ilha do Pico e 25 hectares de vinha em São João de Areias, no Dão. O total da área de vinha ultrapassa os 700 hectares.

Os vinhos são feitos em 12 adegas diferentes por uma equipa de 12 enólogos, aos quais se juntam enólogos estagiários na altura das vindimas. Chegaram a ser 20, mas, hoje em dia, tem sido mais difícil encontrar esse número. Segundo Vasco Martins, administrador responsável pela enologia, há algum esfriar em relação ao interesse dos jovens nestes lugares. A vindima é longa e sempre muito trabalhosa. Na Casa Santos Lima, começa em meados de Julho, no Algarve, e termina a meio de Outubro, nos Vinhos Verdes e no Dão.

A estrutura da equipa conta com dois directores que, tal como Vasco Martins, estão baseados na Quinta da Boavista. Manuel Lobo Carvalho é o responsável pelas regiões do Pico, Alentejo, Algarve, Vinhos Verdes e Dão. Hermano Veloso dirige as vindimas da região de Lisboa. Vasco Martins lidera pessoalmente as vindimas no Douro, contando ainda com a consultoria de Xito Olazabal. Além destes três, há um enólogo residente em cada região, e ainda outros dois na sede, para tratar de tarefas mais administrativas.

O desafio, obviamente, é coordenar uma equipa desta dimensão numa estrutura de produção com tamanha diversidade de locais, complexidade de terroirs e enorme variedade de marcas e vinhos de cada marca. Segundo José Luís Oliveira e Silva, para alguns vinhos de maior volume há uma base comum, que depois é adaptada para compor os lotes, que dão origem aos diferentes vinhos. O mote é sempre “atender às necessidades dos clientes e adaptar-se às rápidas mudanças nas tendências do mercado”. De “cada” mercado. Um exemplo curioso é a produção de vinho kosher, que obriga à vinda de um rabi, para dirigir todo o processo e fazer com as suas próprias mãos muitas das tarefas e manipulações necessárias. Entre tintos e brancos, contam-se já 100 mil garrafas anuais.

 

Lotes afinados e preços competitivos

As regiões têm diferentes exigências, em particular em relação ao engarrafamento. No Pico, Algarve e Douro, os vinhos são engarrafados localmente, enquanto os das outras regiões são convergidos para as adegas centrais, na zona de Alenquer, para simplificar os processos, controlar custos e optimizar a logística.

De entre as duas centenas de referências da Casa Santos Lima, na minha visita, pude provar uma amostra representativa dos vinhos, a qual me permitiu percorrer todas as regiões. Fiquei muito impressionado com a qualidade e carácter dos vinhos. Uma empresa desta dimensão tem acesso a massas vínicas excepcionais e demonstra que, com ambição e talento, é possível oferecer topos de gama que ombreiam com os melhores vinhos do país. Em algumas das denominações conseguem fazê-lo por um preço muito competitivo, seguindo a estratégia escolhida há 30 anos. Mas também é fascinante a qualidade que conseguem oferecer nos milhões de litros de vinho que fazem e muito interessante perceber que, em cada gama, os lotes são afinados para irem ao encontro de mercados específicos.

É ainda de louvar a autenticidade e respeito pelo carácter de cada uma das regiões. Muitos vinhos mostram o local de origem, apresentando uma autenticidade que vai ao encontro das expectativas e justifica a aposta em colocar mais pontos no mapa de Portugal. Os preços macios facilitam ainda a exploração da vasta gama da Casa Santos Lima, todo um prazer sensorial e intelectual.

Se alguma coisa dificulta essa tarefa é a falta de uma unidade, uma identificação, uma marca da casa. Já percebemos que isso não é defeito, é feitio. Muitos destes vinhos são concorrentes uns dos outros num determinado mercado e isso faz da gama um puzzle, que o apreciador pode tentar completar. Os enigmas são divertidos. Portanto, deixo um para o meu leitor: descobrir e provar o vinho que mais me fascinou, um prazer guloso que está descrito abaixo. Ao trabalho! Depois conte.

(Artigo publicado na edição de Fevereiro de 2026)

 

 

MÁRCIO LOPES WINEMAKER: O norte como destino

Marcio Lopes

Quando refletimos sobre um trabalho a realizar com um produtor, não podemos limitar-nos a debitar dados estatísticos sobre número de hectares, garrafas produzidas ou referências criadas. O modo de olhar terá de ser mais sensitivo, emotivo, transparecendo não apenas o vinho que se prova, mas o modo como se chegou até ali. Os millennials são, atualmente, a maior […]

Quando refletimos sobre um trabalho a realizar com um produtor, não podemos limitar-nos a debitar dados estatísticos sobre número de hectares, garrafas produzidas ou referências criadas. O modo de olhar terá de ser mais sensitivo, emotivo, transparecendo não apenas o vinho que se prova, mas o modo como se chegou até ali. Os millennials são, atualmente, a maior geração consumidora de vinho em países como os Estados Unidos. Contudo, este novo perfil de consumidor já não se satisfaz com meras degustações ou provas técnicas. Pelo contrário, procura experiências mais completas de contacto direto com o território, que abarquem uma maior plenitude sensorial e emocional. A cultura do vinho é isso mesmo, um compêndio de emoções e razões que tanto dissecam o produto, como expõem a nu quem o cria, mostrando, inclusive, as naturais fragilidades humanas.

O Caminho

Convidando Márcio Lopes a abordar o caminho percorrido desde 2010, a timidez vence-o, optando por criar uma metáfora desse percurso em capítulos, onde cada vinho conta uma história poética de revivalismo. Mas há mais para lá desta rota, ou não fosse O Caminho um vinho construído à volta da aprendizagem que se sedimentou, dos métodos de vinificação que foi apreendendo, das castas que foi estudando no decurso do ofício de enólogo. O Alvarinho, aos seus olhos, encontra-se ali na parcela certa e redunda num vinho que também espelha as pessoas especiais com quem se tem cruzado ao longo desta jornada. A primeira vindima do projeto nome próprio ocorre em 2010, com apenas 2000 garrafas de Pequenos Rebentos Alvarinho, em Melgaço, na região dos Vinhos Verdes, e 600 garrafas de Proibido, em Foz Côa, na sub-região do Douro Superior. Este início do percurso surge com uma vinha pertencente ao sogro, produtor dos vinhos D. Paterna, ainda que o espírito libertário sempre lhe insinuasse seguir um caminho de crenças solitárias.

A primeira vindima de Márcio Lopes é feita ainda durante os tempos da faculdade, ao lado do primeiro mestre, Anselmo Mendes, na antiga adega. À data, já figura de proa da enologia nacional, Anselmo Mendes recomenda Márcio Lopes como enólogo residente num agrupamento de produtores de Viana do Castelo, onde veio a permanecer até 2007. No ano seguinte, ruma à Austrália, para abrir horizontes sobre vinhos do mundo. No regresso, vai trabalhar para o Ribatejo, onde permanece apenas por nove meses. O destino estava-lhe traçado a norte…

Márcio Lopes insiste em preservar a vinha de enforcado, sistema de condução ancestral existente na região dos Vinhos Verdes

 

Os Primeiros Rebentos

A necessidade leva Márcio Lopes a fazer-se à vida na venda e distribuição de vinho. Começou do zero. Pegou nas parcas economias, comprou 20 caixas de vinho a um amigo produtor e lançou-se nas vendas. Nesse dia, apenas lhe restava pecúlio para colocar uns litros de combustível no automóvel; no seguinte, já tinha as primeiras caixas vendidas. Adquiriu mais duas dezenas de caixas e, ao final do mês, a vida já lhe sorria de outro modo.

Durante uns tempos, as vendas foram correndo de feição, mas o chamamento da terra seduzia-o. Em 2010, após uma longa conversa com a mulher, Cláudia Codesso, em que contabiliza todos os receios, alia a distribuição com a produção e cria os primeiros vinhos em Melgaço e no Douro. Às 2600 garrafas produzidas no primeiro ano somaram-se muitas mais, resultando num incremento traduzido em 15 mil em 2015. Contudo, o negócio ainda não era viável, nem lhe permitia viver somente dele. O crescimento mostrava-se indispensável. Por conseguinte, em 2017, duplica a produção para 70 mil garrafas. O drama existencial, não obstante o risco assumido, era tremendo. A hipótese do fracasso nas vendas e a incapacidade de não poder honrar os compromissos assolava Márcio Lopes. Talvez por isso tenha evitado, durante muitos anos, colaboradores, preferindo assumir a solo todos os desígnios da atividade.

Entretanto, em 2015, surge no horizonte a Vinha Velha do Pombal, localizada em Foz Côa, nas cercanias de outras parcelas onde já adquiria uva. O que lhe era oferecido era extremamente convidativo. A 500 metros de altitude, com exposição nascente e norte, os quatro hectares possuíam um riquíssimo património de vinha velha e uma multiplicidade de castas que garantiam a originalidade do que dali pudesse brotar. Foi a resiliência quem o orientou num processo de paciência, perante a reticência da proprietária duriense de lhe vender a vinha.

A venda concretizou-se, mas as incertezas continuavam a pairar. A falta de mão-de-obra já era uma doença que corroía a região. Márcio Lopes acumulava a viticultura com enologia, a responsabilidade comercial e a gestão da empresa. A vinha trazia-lhe exigência acrescida de dali querer retirar algo sublime e diferente. Desde a compra, respeitando o padrão do que deseja produzir, ainda só conseguiu lançar duas colheitas, estando, presentemente, a lançar a terceira, num horizonte de uma década volvida após a aquisição. Um critério que, segundo explicou, leva-o a estar há mais de dois meses a tentar elaborar o lote ideal, para definir o próximo Garrafeira.

 

A raiz do Princípio do Mundo 

Nos Vinhos Verdes, a obra nasce, igualmente, a partir da preservação revivalista de práticas ancestrais, onde as Vinhas de Ramada e as Vinhas de Enforcado são parte relevante de um património cultural que Márcio Lopes insiste em preservar, evitando que caiam no esquecimento do tempo e desapareçam. A Vinha de Enforcado, localizada em Telões, Amarante, de onde são colhidas as uvas para produzir o Pequenos Rebentos Selvagem, é um sistema de condução de vinha que remontará à Idade Média e que vingou no norte de Portugal, particularmente na atual região dos Vinhos Verdes. Eram práticas das famílias mais humildes, consistindo no cultivo das videiras nos limites das parcelas agrícolas, deixando o interior destas para o cultivo dos cereais, hortícolas ou culturas forrageiras, estas últimas destinadas à alimentação do gado. Neste sistema, as videiras trepam por postes vivos, as árvores cujos ramos sustentam a planta, que cresce, em muitos casos, ao longo de 10 a 12 metros.

A explosão demográfica ocorrida nos anos 50 do século passado levou a uma expansão deste sistema de condução de vinha. Salazar proibia o crescimento da vinha nas melhores terras aráveis, levando a que a capacidade e o engenho dos agricultores optasse pela vinha trepadeira a crescer, envolvendo as árvores. Hoje, são raras estas vinhas, às quais Rogério de Castro apelida de “Viticultura de vento”, sistema que, expondo a videira a um maior arejamento, torna menor a necessidade de tratamentos fitossanitários, poupando em mão de obra e produtos. Porém, este sistema de condução de vinha gera muitos desequilíbrios de maturação. A expertise de alcançar o equilíbrio dentro dos desequilíbrios – uvas com 6% a 7% de teor alcoólico provável e níveis de acidez alucinantes – tem de se iniciar dentro da vinha, com a finalidade de evitar correções posteriores, porque a Azal é uma casta de ciclo longo, mostra-se fundamental realizar uma desfolha substancial na altura da floração e, em início ou meados de julho, há que proceder a uma monda expressiva, para adiantar a maturação das uvas, de modo que o seu perfeito estado para a vindima ocorra antes do equinócio e das primeiras chuvas, trágicas para uma casta que, a acrescer, produz cachos muito compactos e, por isso, mais sensíveis à podridão. O Selvagem também revolucionou os procedimentos de adega no modo como se trabalha a casta, porque antes de trabalharem a desfolha, o surgimento de alguma podridão nos cachos obrigava ao desengace bago a bago. Hoje, tal já não é necessário. A fermentação é feita em ânforas de barro cru que, por força da libertação de cálcio, precipitam o tartárico e reduzem o excesso de acidez. O caráter redutivo da Azal é igualmente suprimido pelo estágio em barricas de carvalho português de maior porosidade. Não se pense, no entanto, que este procedimento foi encontrado no primeiro embate com a casta e a vinha. Foi da tentativa/erro, ação através da qual se encontraram soluções e, a montante, muito vinho se perdeu.

As vinhas velhas da região minhota são alvo da busca exploratória de Márcio Lopes. Trabalhando com cerca de 50 viticultores e em mais de 200 parcelas, o conhecimento sobre o acervo vitivinícola torna-se extenso. O Pequenos Rebentos Vinhas Velhas surge de uma dessas vinhas, pouco atraentes para o agricultor devido à baixa produção, mas extremamente atrativas para Márcio Lopes. Plantada em 1989, somente com a casta Loureiro, ia ser arrancada pelo proprietário, que nela via pouco rendimento. O enólogo tomou conta desta vinha, com sistema de condução em bardo, plantada em solos bastante compactos de argila. Dali idealizou a produção de um vinho exigente. A dimensão da matéria-prima imperava rigor e qualidade. Daí ter-se promovido, no processo de vinificação, um trabalho de barrica cuidado, por meio da seleção de exemplares de grão extremamente fino, com três e quatro anos de uso. Uma receita que resultou de modo gratificante num vinho feito a partir de uvas vindimadas numa vinha sem grande reconhecimento, nem atratividade, em termos de localização (entre Braga e Famalicão), mas que, em termos individuais, se veio a mostrar diferenciada. Isto, não obstante a produção ridícula. Se, num ano simpático, Márcio Lopes retira dali 2500 quilos de uva, 2025 trouxe-lhe somente uma colheita de 1.000 quilos, que se traduzirá em 600 garrafas da referência.

Ainda acerca da região dos Vinhos Verdes, a Márcio Lopes muito dizem as castas tradicionais do verde tinto: Alvarelhão, Cainho Tinto, Boçal e, sobretudo, Bastardo. Não sendo a aposta segura e convincente para os produtores da região, a Bastardo é uma uva com grande significado para o enólogo, que ainda a procurou na Ribeira Sacra, onde produziu o Telegrafo, cuja primeira edição, de 2017, ficou limitada a 350 garrafas. A segunda edição é da colheita de 2023. Ou seja, Márcio Lopes valoriza a exploração das variedades mais antigas da região, tendo apostado e valorizado o trabalho realizado pelos especialistas em ampelografia, Teresa Mota e Pedro Malheiro, em parceria com a PORVID (Associação Portuguesa para a Diversidade da Videira). O exercício coerente desta constante busca das práticas e castas ancestrais tem-se mostrado essencial, no sentido de minorar o risco de desaparecerem por força da uniformização dos territórios em detrimento da tradição.

Já o Pequenos Rebentos Touché é oriundo de apenas uma ramada de vinha em Melgaço, com uma produção que ronda os 2.000 e os 2.500 quilos por meio hectare. A maioria das vinhas que arrenda estão longe do radar dos grandes operadores, isto é, ao procurar parcelas com características muito específicas, encontra matéria-prima que lhe permite contrariar tabus associados à dureza e rusticidade das uvas tintas dos Vinhos Verdes, criando, neste caso, um tinto de intensa delicadeza, fino e muito elegante, revelando consistência desde a sua primeira edição.

Por sua vez, a inspiração cinéfila do Viagem ao Princípio do Mundo transcende a metáfora da obra do realizador Manoel de Oliveira. Há nele um regresso às origens, à Alvarinho e à exponenciação das suas virtudes, num registo interpretativo muito pessoal e íntimo dos vinhos que se escondem no nariz, para se afirmarem na boca, vincando o experimentalismo no uso de barricas de Jerez, com o vinho a evoluir por baixo de um “véu” de flor.

O Douro é o berço 

O ano de 2025 também se revelou um prenúncio de morte, com o inesperado fim da Centenária, a vinha localizada na Mêda, localizada na sub-região do Douro Superior, a qual dava origem ao branco de altitude Permitido Centenária. Não obstante os esforços, as perdas foram irreparáveis, obrigando a um trabalho de recuperação que está em curso. Era uma vinha singular, com mais de 15 castas plantadas, no final do século XIX, a 800 metros de altitude, em solo extremo de granito. Fica-nos a colheita de 2022, agora provada e que antecede as derradeiras colheitas de 2023 e 2024. Para além disso, permanece apenas a memória, a mesma memória de infância que transportou Márcio Lopes para o Douro-berço.

No início, e sempre com a vertente financeira presente, Márcio Lopes encontrava a opção mais razoável no Douro Superior, onde o preço de arrendamento ou aquisição de vinha é, ainda hoje, mais atrativa. O património genético está nas vinhas de Vale Mendiz e de Foz Côa, onde ainda há áreas significativas da casta da sua eleição, a Bastardo, não escondendo a paixão por vinhas onde estão clones antigos de Tinta Roriz, com menor expressão de cor.

No Douro, Márcio Lopes projeta o futuro da região e procura já criar vinhos que o antecipem. A respeito do Proibido Déjà Vu, o enólogo antevê-o com as castas tradicionais Touriga Nacional, a conferir-lhe a componente aromática, a Tinta Roriz, o esqueleto do vinho, o Alvarelhão, que lhe aporta a frescura, e a Tinta da Barca, com a amplitude. A interpretação é, uma vez mais, evitar correções posteriores à vindima, usando as castas mais propensas à resistência ao fenómeno incontornável do aquecimento global.

Nas criações, não há imutabilidade, mesmo nos vinhos que, aparentemente, possuem o caráter mais clássico (duriense). O Proibido Grande Reserva espelha essa evolução de perfil, colheita após colheita, mostrando-se, hoje, mais aberto na cor e com uma perceção de madeira mais ténue, o que também implicou uma adaptação por parte das câmaras de provadores e entidades certificadoras. Aqui, estamos na presença de um vinho elaborado a partir de uvas colhidas num conjunto de vinhas velhas do Douro Superior, com idades entre os 40 e 80 anos, e castas muito variadas, como Tinta Francisca, Tinta Amarela, Sousão, entre diversas videiras de variedades não identificadas.

A maturidade do projeto determina, em 2019, que Mário Lopes desça do Douro Superior para a sub-região do Cima Corgo, onde o processo contemplativo e explorador o leva ao Proibido Vale do Rio Pinhão, numa vinha a que chama “parque de diversões” para entusiastas do vinho. Gastão Taveira, o proprietário, abriu-lhe as portas para este paraíso de diversas e distintas parcelas de terraços pré-filoxéricos, com exposições norte e sul, e altitudes baixas, entre os 150 e 200 metros. É aqui que encontra uma Tinta Roriz distinta para deslumbrar.

Ao assinar o Proibido Garrafeira, vinho de opulência clássica duriense, com um estágio de sete anos em garrafa, encontra o seu oposto no Proibido Vinha Velha do Pombal, um tratado de elegância e leveza, enraizado numa vinha de antologia. Com exposição nascente, beneficia das brisas serenas e das temperaturas moderadas, onde quase não entram os tratamentos, mostrando a fruta no estado mais puro, numa parcela onde rareia a água e a vinha é obrigada a um trabalho de esforço e profundidade na busca de nutrição. Plantada em 1957, produziu umas diabólicas 666 garrafas. Estamos perante um perfil raro no Douro, exalando uma outra história tão própria, que obriga Márcio Lopes a possuir várias referências, cada uma delas muito singular e, por isso mesmo, a merecer um capítulo distinto.

(Artigo publicado na edição de Fevereiro de 2026)

RUINART: A quintessência do espírito de Champagne

Ruinart

Acedemos ao 4 Rue de Crayères através de um caminho como que escondido, parecendo esculpido directamente no calcário. As primeiras impressões são fortemente sensoriais, desde a brancura do giz ao azul do céu, passando pelo verde das copas das árvores. À medida que percorremos esse caminho, emerge o Pavilhão Nicolas Ruinart, desenhado pelo arquitecto japonês […]

Acedemos ao 4 Rue de Crayères através de um caminho como que escondido, parecendo esculpido directamente no calcário. As primeiras impressões são fortemente sensoriais, desde a brancura do giz ao azul do céu, passando pelo verde das copas das árvores. À medida que percorremos esse caminho, emerge o Pavilhão Nicolas Ruinart, desenhado pelo arquitecto japonês Sou Fujimoto, um magnífico edifício calcário, todo ele aerodinâmico, com curvas suaves, longas linhas horizontais, inspirado na evanescência das bolhas de champagne, esculpidas pela luz. O telhado, assimétrico, forma uma curva e lembra a redondeza de uma bolha de champagne. Mudando gradualmente do transparente para o subtil opaco, criando a impressão do borbulhar num copo de champagne. A janela imensa emoldura a vista do pátio principal, para as maravilhosas fachadas do século XIX da Maison Ruinart.

Mas, sob toda esta beleza e grandiosidade, estão as caves, as famosas Crayères, classificadas como Património Mundial da UNESCO, e nada nos prepara verdadeiramente para tão grande monumentalidade. As caves estão a 38 metros de profundidade e possibilitam o acesso a oito quilómetros de túneis, pedreiras desactivadas, de pedra calcária e giz, algumas datadas da Era Medieval. Aqui, o ar é fresco e húmido, o som que se ouve é apenas o murmúrio do tempo. É onde milhares, ou milhões, de garrafas alinhadas – a Ruinart nunca revela os números de garrafas produzidas ou em cave – aguardam, pacientemente, os seus momentos de fama.

Expressão artística

Fundada em 1729, em plena Era das Luzes, a Maison Ruinart nasceu da ideia pioneira de fazer do champagne uma expressão cultural e uma arte de viver. Nicolas Ruinart, inspirado pelas visões de seu tio, o monge beneditino Dom Thierry Ruinart, fundou a primeira casa, da região de Champagne, oficialmente dedicada a este vinho com bolhas mágicas, que então passou a ser servido nas coroações dos Reis de França e no Palácio Real, e a encantar as demais cortes europeias.

Ao longo da história, a Maison Ruinart sobreviveu a crises e guerras, incluindo o bombardeamento das suas vinhas e edifícios durante a ocupação alemã, para além do roubo e delapidação quase total do seu stock de garrafas. Contudo, sempre conseguiu erguer-se e estar à altura dos desafios, sem nunca perder de vista a inovação e o desenvolvimento tecnológico, sempre numa busca incessante pela excelência e perfeição dos seus champagnes.

Dirigida pela família Ruinart até 1963, integra, desde 1987, o grupo do segmento de luxo LVMH (Louis Vuitton Moet Hennessy). A luz, o branco e a transparência tornaram-se símbolos da sua estética e do seu vinho, e a Chardonnay, casta que define a sua assinatura, é trabalhada como metáfora dessa luminosidade: um reflexo líquido da elegância e da precisão. A Ruinart conseguiu construir uma linguagem e um estilo muito próprios e distintos, sempre alicerçados na mais completa harmonia entre tradição, vanguarda e criatividade.

O ‘Petit R’ é, claramente, disso um exemplo maior. Trata-se de uma experiência gastronómica e visual, um show multimédia, imersivo e esteticamente encantador, que pudemos desfrutar durante o jantar na Maison. Ao mesmo tempo, é uma visão contemporânea de acontecimentos passados, da história de Champagne vista através da Maison Ruinart. Através da personagem ‘Petit R’, criada pelo artista japonês Kanako Kuno – sempre a tal ligação à arte, presente em todos os momentos definidores –, a história é contada em cima da mesa, literalmente. O mundo inteiro cabe no prato, a toalha transforma-se num ecrã gigante, onde tudo se desenvolve. As figuras dos animais e das pessoas ganham tridimensionalidade, saltam do prato, rodopiam, contam histórias. Tudo funciona de forma sincronizada até ao ponto em que ‘Petit R’ abre uma garrafa de champagne e se ouve o som bem real da rolha a saltar: é um sommelier que abre uma garrafa, verdadeira, em perfeita sincronia de tempo!

Ruinart

Caroline Fiot, a primeira mulher com a função de Cellar Master na região de Champagne, liderou o estudo do impacto da luz no Blanc de Blancs e a criação da Second Skin Case

 

A segunda pele

Na alvorada dos seus 300 anos – a Maison Ruinart celebrará o seu tricentenário em setembro de 2029 –, dois factores importantíssimos são alvo de dedicação máxima na Maison Ruinart: sustentabilidade e impacto das alterações climáticas em Champagne. Quanto ao primeiro, destaca-se a criação do estojo Second Skin, literalmente uma ‘segunda pele’ para a garrafa Ruinart, que as envolve à sua forma. De acordo com a marca, esta é “composta por 99% de papel (1% é cola), feito de fibra de madeira proveniente de florestas geridas ecologicamente na Europa, e é nove vezes mais leve que a anterior geração de gift boxes, reduzindo a pegada de carbono das embalagens em 60%.” Além da componente ecológica, a Second Skin protege o vinho da luz, é resistente à humidade e “permanece intacta num frapê de gelo até três horas”, refere a Ruinart. De cor branca, tem um padrão em relevo a invocar as Crayères, as caves calcárias da Maison.

Uma palavra é devida a Caroline Fiot, nova Cellar Master da Ruinart, que sucede a Frédéric Panaïotis, falecido este ano, num contexto delicado. Entrou na Ruinart em 2016, participou no comité de prova, supervisionou fermentações e liderou projetos de investigação, como o estudo do impacto da luz no Blanc de Blancs e a criação da Second Skin Case, embalagem sustentável que substitui o tradicional estojo em papel. É, também, a primeira mulher a desempenhar tais funções na história da região de Champagne.

História e inovação

Hoje em dia, talvez mais do que nunca, seja na região de Champagne, seja no mundo, torna-se necessário (re)pensar os nossos estilos de vida, a nossa cultura enraizada e, talvez, questionar o nosso conhecimento. E em vez de querermos que a natureza se adapte às nossas necessidades, talvez seja bom pensarmos em adaptar-nos àquilo que a natureza tem para nos oferecer.
Esta foi a grande mensagem que eu retive nesta minha viagem a Reims e à Ruinart. Há, de facto, trabalho muito sério a ser feito para adaptar a região às alterações climáticas, que vieram para ficar, e quando vemos uma das regiões vínicas mais fortes e mais unidas do mundo a trabalhar em conjunto para alcançar um determinado objectivo, vemos que a coisa é mesmo para levar a sério. No entanto, já havia sinais. É uma coisa antecipada, e que vem sendo pensada e testada há já vários anos, basta estarmos atentos ao que nos rodeia, o que, na maioria das vezes, se revela o mais difícil.

Ora vejamos. Grande parte do sucesso de Champagne deve-se à utilização mais ou menos generalizada do estilo non-vintage, expressão traduzida na mistura entre vinhos de reserva e o vinho da colheita mais recente, uma espécie de receita seguida pela grande maioria dos produtores de Champagne, das Big Marques aos pequenos vignerons. No fundo, pretende-se mitigar ou eliminar o mais possível o efeito colheita, ou seja, nos anos mais frios, quando as uvas são mais ácidas, porque não conseguem atingir pontos de maturação adequados, incorpora-se mais vinhos de reserva no blend, de modo a adicionar estrutura e complexidade à frescura e energia da nova colheita, ao passo que, em anos mais quentes, se incorpora menos vinhos de reserva, pois pretende-se manter a juventude da nova colheita.

De um modo geral, tem sido este o caminho percorrido na região até há bem pouco tempo. Porém, o impacto das alterações climáticas têm vindo a traduzir-se num registo consecutivo de fruta mais madura, ano após ano, e num aumento médio real de 1,2% de álcool nas uvas nos últimos 30 anos.

O novo normal

A grande diferença de uma região como Champagne é que, ao invés de olhar para as alterações climáticas como uma ameaça, decidiu encará-las como uma oportunidade. E, de repente, o estilo non-vintage, e até a própria dosage, deixaram de fazer tanto sentido, ou nenhum mesmo. Atualmente, é quase tudo produzido em estilo vintage, com nuances introduzidas pelas Reservas Perpétuas quando utilizadas, e, graças aos maiores níveis de açúcar nas uvas, Champagnes Brut Nature ou Extra Brut são a nova normalidade.

Assim, tudo nos começa a fazer sentido, quando a Krug criou o estilo multi-vintage das suas Grand Cuveés, quando Charles Heidsieck começou a identificar o ano base no contra-rótulo, a Laurent-Perrier criou a Cuvée Ultra Brut num estilo super seco e, mais recentemente, a icónica Maison Louis Roederer abandonou definitivamente o estilo non-vintage da sua Cuvée Brut Premier, criando a Collection, um blend de multi-vintages identificados.

E a Ruinart? Aí está a Cuvée Blanc Singulier, por enquanto só disponível em França, mas que, provavelmente, num futuro não muito longínquo, talvez venha a ser a nova normalidade da Ruinart, enquanto que a de hoje, o icónico Blanc de Blancs, talvez passe a ser a excepção. Aguardemos com serenidade e sempre com champagne no copo!

(Artigo publicado na edição de Janeiro de 2026)

QUINTA DO PESSEGUEIRO: O Douro gracioso

Quinta do Pessegueiro

Graciosidade talvez seja a palavra que melhor define a Quinta do Pessegueiro no seu conjunto, aqui englobando vinhos, arquitectura, imagem, forma de estar e receber. Localizada em Ervedosa do Douro, concelho de São João da Pesqueira, a propriedade foi adquirida, em 1991, por Roger Zannier, empresário francês que criou um gigante têxtil orientado para a […]

Graciosidade talvez seja a palavra que melhor define a Quinta do Pessegueiro no seu conjunto, aqui englobando vinhos, arquitectura, imagem, forma de estar e receber. Localizada em Ervedosa do Douro, concelho de São João da Pesqueira, a propriedade foi adquirida, em 1991, por Roger Zannier, empresário francês que criou um gigante têxtil orientado para a moda infantil e que acabou por conhecer o Douro no âmbito das suas visitas profissionais a Portugal, ali decidindo deixar a sua “marca”. Em 2003, com o apoio do genro Marc Monrose, borgonhês de gema, ligado à terra e ao vinho, Zannier deu início à reconversão das vinhas existentes e à plantação de novas áreas, com sucessivas intervenções em 2007, 2008, 2011 e, mais recentemente, em 2021. A construção da adega, localizada numa zona mais alta da propriedade, arrancou em 2008, ficando terminada em 2010, ano da primeira colheita. Trata-se de um projecto arquitectónico arrojado da autoria de Artur Miranda e Jacques Bec, com a área de vinificação e armazenagem a estender-se por cinco pisos, de forma a aproveitar ao máximo a gravidade e a excluir a bombagem de massas e líquidos, contando, para tal, com a ajuda de uma cuba elevatória.

Quinta do Pessegueiro

A casa principal é também um alojamento de charme, aberto ao turismo, integrando-se na rede de unidades Zannier Private Estates e Hotels

 

Em 2012 terminou a reconstrução do edifício principal da quinta, localizado a três quilómetros da adega. Esta bela casa integra-se perfeitamente na paisagem, num estilo que une a tradição duriense com um design mais moderno, acima de tudo ao nível de interiores. Além de apoiar a estrutura de trabalho da propriedade, o edifício é também um alojamento de charme, aberto ao turismo, integrando-se na rede de unidades Zannier Private Estates e Hotels, espalhadas por França, Espanha, Namíbia, Maurícias, Cambodja e Vietname.

No dia-a-dia da Quinta do Pessegueiro, sobretudo a partir de 2008, e com impacto decisivo no que toca à estratégia, da arquitectura, da imagem e, claro, dos vinhos, têm estado envolvidas três outras pessoas: Célia Varela, Directora-Geral, que acompanhou o nascimento e desenvolvimento do projecto; João Nicolau de Almeida, enólogo responsável pelos vinhos da casa desde a primeira hora; e Hugo Helena, Director de Viticultura e Enologia que, desde 2010, trabalha em estreita colaboração com o enólogo.

Três parcelas

As vinhas da Quinta do Pessegueiro abrangem 28 hectares em produção, distribuídos por três propriedades distintas. A Teixeira é a maior e mais próxima da adega, com 18 hectares, exposta a noroeste, com uma altitude que varia entre 75 e 418 metros. Parte das vinhas foram plantadas no início dos anos 80 do século XXI e, desde 2011, decorreram novas replantações com inúmeras castas. Ali foram igualmente recuperados socalcos pré-filoxera e plantado meio hectare com mais de 30 castas, que deverá originar, no futuro, um field blend muito especial. A seguir vem a vinha do Pessegueiro, propriamente dita, de nove hectares de vinhedos em encostas íngremes viradas a oeste, entre os 197 e os 355 metros de altitude. Vinhas velhas com mais de 110 anos (1,5 hectares) e vinhas plantadas há mais de 40 anos compõem esta área, onde as uvas amadurecem mais tarde. Finalmente, a Afurada tem apenas um hectare, acima dos 500 metros de altitude e com exposição sul.

Em termos de encepamento, predomina, nos tintos, a Touriga Nacional, seguindo-se Touriga Franca, Tinta Roriz, Sousão e Tinto Cão. Numa fase mais recente, plantaram-se outras tintas tradicionais mais raras (Tinta da Barca, Tinta Amarela, Rufete, Alicante Bouschet) e apostou-se decididamente nas uvas brancas, com destaque para Rabigato, pouco comum nesta zona do Cima Corgo, mas que os dois enólogos apreciam particularmente pela vivacidade e frescura, e Folgasão. Todas as plantações foram feitas a partir de seleção massal própria, não foi utilizada seleção clonal.

As três propriedades possuem também, como é habitual no Douro, velhas oliveiras, com as variedades Madural, Cobrançosa, Verdeal, Picual e Carrasquenha. Da apanha manual com extração a frio, a quinta produz um azeite de superior qualidade. E na Teixeira, algumas colmeias permitem, igualmente, uma pequena produção de mel, reforçando, assim, a biodiversidade do terroir, contribuindo, ao mesmo tempo, para o equilíbrio do ecossistema.

Pureza e elegância

A abordagem vitícola e enológica de João Nicolau de Almeida, aqui totalmente apoiada por Hugo Helena, é bem conhecida: vinha velha sempre que seja boa, agricultura biológica, vinificação clássica. Assim se tem feito na Quinta do Pessegueiro, onde, por exemplo, herbicidas não entram nas vinhas, um desafio acrescido face aos diferentes modelos de plantação existentes, que vão dos patamares de um bardo à vinha ao alto, passando por parcelas não mecanizadas com muros tradicionais.

Tradicional é também a vinificação, com a fermentação a decorrer com leveduras indígenas, privilegiando-se lagares de granito com pisa a pé, balseiros de madeira para os tintos e cubas inox e pipos de 600 litros para os brancos. Na adega, os vinhos são separados por parcelas, permitindo exaltar cada uma das suas singularidades, depois conservadas em cubas de pequena dimensão. A ausência total de bombagem (a cuba elevatória é preciosa) permite manter a fruta no seu estado mais puro.

A pureza da fruta é precisamente aquilo que mais marca, e impressiona, os vinhos da Quinta do Pessegueiro. Numa produção relativamente pequena – cerca de 100 mil garrafas, entre Douro e Porto –, esta expressão de fruta é transversal às várias referências, acompanhada de evidente frescura, leveza, equilíbrio e elegância. Estes vinhos, brancos ou tintos, não se destacam pela grande estrutura ou potência, antes pela notável finura e pela absoluta proporção. Parece estar tudo no sítio certo. É esta precisão, esta graciosidade, que define a forma de ser e estar da Quinta do Pessegueiro. Num mercado onde a oferta é gigante e onde não é fácil conjugar qualidade e diferença, isto tem de valer alguma coisa.

(Artigo publicado na edição de Janeiro de 2026)