KOPKE: O mais bem guardado segredo

Kopke

O prelúdio da revelação trouxe-nos três Grandes Reservas da São Luiz, a marca que a Kopke tem vindo a valorizar, sobretudo, prestando especial atenção ao património de vinhas velhas ali plantadas, algumas anteriores a 1930, e no caso dos brancos, noutra sub-região. Quinta de São Luiz Vinhas Velhas Rumilã Grande Reserva tinto 2019 e Quinta […]

O prelúdio da revelação trouxe-nos três Grandes Reservas da São Luiz, a marca que a Kopke tem vindo a valorizar, sobretudo, prestando especial atenção ao património de vinhas velhas ali plantadas, algumas anteriores a 1930, e no caso dos brancos, noutra sub-região. Quinta de São Luiz Vinhas Velhas Rumilã Grande Reserva tinto 2019 e Quinta de São Luiz Vinhas Velhas Grande Reserva tinto 2021 são os dois tintos que tiram partido do património vitícola da propriedade situada no Cima Corgo. Já o branco São Luiz Winemaker’s Collection Reserva Folgazão e Rabigato 2021 resulta de um trabalho que tem sido desenvolvido no Baixo Corgo, dada a inexistência de uvas brancas na Quinta de São Luiz. Aqui, é feita uma escolha apurada de castas brancas oriundas de produtores selecionados e, mais recentemente, da Quinta do Bairro, onde, em 2015, o Kopke Group iniciou um projeto piloto de reconversão de encepamento de tintas para brancas.

A imagem de marca da Quinta de São Luiz reflete a tradição da propriedade de caiar os muros na época da Páscoa, criando um desenho de linhas brancas, que sublinha os patamares, a horografia, prestando homenagem aos DOC Douro da Kopke. O São Luiz Vinhas Velhas Rumilã Grande Reserva tinto 2019 nasce da parcela de vinha homónima e centenária, com produções muito reduzidas, daí que esta colheita esteja limitada a apenas 1.252 garrafas. O ano proporcionou menos intensidade e concentração, o que se traduziu numa melhor perceção da frescura, elegância e até uma certa delicadeza. Nesta vinha, os procedimentos são manuais e minuciosos. A fermentação alcoólica ocorreu sem esmagamento dos bagos, usando 20 por cento do engaço, passado, depois, para barricas de 225 litros, onde fez a fermentação maloláctica. O estágio foi expressivo, traduzindo-se em dois anos em barrica e outros dois em garrafa, para dar corpo a um vinho revelador do conhecimento de que existe uma micro parcela capaz de grandes feitos.

Pequenas parcelas, grandes vinhos

A espinha dorsal do São Luiz Vinhas Velhas Grande Reserva tinto 2021 tem origem em pequenas parcelas com mais de 50 anos, exposição maioritariamente a norte, em cotas baixas (80 metros de altitude) e mais elevadas (400 metros de altitude). O ano de 2021 revelou alguma atipicidade, com um inverno bastante frio e uma primavera instável, com ocorrência de trovoadas e granizos. A vindima em São Luiz iniciou-se em agosto com temperaturas moderadas, tendo a maturação abrandado em setembro, devido à ocorrência de precipitação. Em vinhas velhas de baixíssima produção, todos os detalhes contam, pelo que a escolha do momento correto da vindima é fundamental para o resultado pretendido. A produção de apenas 2.400 garrafas resulta do facto de se realizar uma segunda triagem de uvas para a elaboração dos lotes finais. O vinho foi submetido a um estágio de 16 meses em barrica, tempo esse que lhe conferiu carácter, bem definido pela maior imposição da Sousão, casta que predomina nestas parcelas de vinhas velhas.

É do exterior da Quinta de São Luiz, e mesmo da sub-região, que chegam as uvas de Folgazão e Rabigato que compõem o Winemaker’s Collection. Não possuindo uvas brancas na propriedade, Ricardo Macedo, o enólogo dos vinhos tranquilos do Kopke Group, tem um apurado processo de seleção no Baixo Corgo das uvas destas duas castas, que melhor preenchem o perfil desejado de tensão, frescura e mineralidade. A gama Winemaker’s Collection dá asas ao experimentalismo das equipas de viticultura e enologia, privilegiando a possibilidade de testar diversas castas e o seu desempenho em diversos micro terroirs, de modo a encontrar as melhores expressões. Daqui, resultam sempre edições limitadas e assinadas pelo ‘winemaker’, que, no caso, se traduziu em 3.970 garrafas.

Kopke

Um Porto esculpido com devoção

Se havia casa que podia beneficiar da aprovação pelo Conselho Interprofissional do Instituto do Vinho do Douro e do Porto da menção tradicional DOP Porto com indicação de idade 80 anos, era, sem margem para dúvidas, a Kopke, nascida em 1638, bem antes do Douro se tornar numa região demarcada e regulamentada. Os quase 390 anos da marca conferem-lhe um estatuto especial que um inédito Tawny materializa numa criação demorada (foram três meses de afinação e aperfeiçoamento diário do lote) através da arte de blending e da inclusão, no mesmo, de vinhos de 1900, 1941 e 1947. Tal só é possível, porque existe um espólio que é património vivo e indelével de vinhos do Porto de várias idades, que acompanharam a história e os feitos da humanidade.

Com um longo e meticuloso envelhecimento nas caves da Kopke em cascos sem idade, agora despertados para criar um vinho quase místico, profundamente complexo e emotivo, este Kopke 80 anos é uma perícia de gerações a homenagear, desde os que o vinificaram, passando pelos que o guardaram. até à mais recente equipa de enologia que assumiu a responsabilidade de o acordar, esculpindo algo que merece a nossa mais intensa devoção. Absolutamente perfeito.

(Artigo publicado na edição de Dezembro de 2025)

HERDADE DO PERÚ: Pedaço de charme na sombra da Arrábida

HERDADE DO PERÚ

Quem chega esquece rapidamente ter passado nas zonas mais densamente povoadas e caóticas de Fernão Ferro e da Quinta do Conde, na ligeira subida da estrada de terra batida de acesso à Casa Grande, a principal da Herdade do Perú, património de 300 hectares com localização próxima da Serra da Arrábida. É aquela que João […]

Quem chega esquece rapidamente ter passado nas zonas mais densamente povoadas e caóticas de Fernão Ferro e da Quinta do Conde, na ligeira subida da estrada de terra batida de acesso à Casa Grande, a principal da Herdade do Perú, património de 300 hectares com localização próxima da Serra da Arrábida. É aquela que João Brito e Cunha, o proprietário, decidiu restaurar e transformar em lar há mais de oito anos. Tinha sido ali que brincara, com os seus primos, quando era criança e tinha sido ali que, aos seis/sete anos, se voltara para a avó e dissera que aquela seria sua no futuro, o que acabou por acontecer mais de 40 anos depois. Talvez por isso prefira que o considerem guardião da propriedade, “um lugar maravilhoso, que amo profundamente, ao qual dedico a minha vida”, como gosta de afirmar.

As vinhas foram plantadas por João Brito e Cunha, mas os jardins, ao estilo Versalhes, foram uma iniciativa dos avós. Obedecem aos planos facultados por Gérald Van der Kemp, curador francês, que angariou milhões, no início do século passado, para preservar e restaurar o Palácio de Versalhes e dedicou quase 30 anos a devolver o edifício e os jardins à antiga glória, rastreando obras de arte perdidas e supervisionando reparações, replantações e restauros de pinturas de valor inestimável, após décadas de abandono. “O meu avô era muito amigo dele, que o presenteou, e à minha avó, com um plano dos jardins, que antes não eram assim”, conta o proprietário.

300 anos de história

No dia da escritura, a casa estava completamente vazia, mas João Brito e Cunha decidiu celebrar o acto no seu interior, antes de iniciar a sua restauração, não só para a tornar habitável, mas também para receber casamentos e eventos, o principal negócio da Herdade do Perú. É, hoje, um entroncamento de memórias, com marcas de um passado cuidadosamente reposto e preservado, que se sente nas paredes, nos móveis, nos quadros e nos objectos.

A história da Herdade do Perú começou há cerca de 300 anos, quando António Cremer, intendente e administrador das Fábricas da Pólvora do Reino de Portugal, e sua mulher, Catarina Van Zeller, apaixonados pelo lugar, ali construíram uma das mansões da família, aquela que é hoje a Casa Grande da propriedade. Muito tempo depois, no início do século XX, passou para as mãos da família de João Brito e Cunha, quando os ascendentes a compraram, depois de conquistados pela beleza do edifício, em visita à propriedade cercana de amigos.

Quando cheguei estava, à minha espera, Marta Mendes Esteves, enóloga residente da casa, e os enólogos consultores, Jorge Rosa Santos e Rui Lopes, ambos com cartas dadas em várias empresas de vinhos de Norte a Sul do país. Nesse dia, em que as vindimas iam a meio, com as uvas brancas já colhidas e as tintas a aguardar a apanha, a enóloga contou-me que a Herdade do Perú produz vinhos de forma orgânica e sustentável, com respeito pela natureza, a partir de 12 hectares de vinha. As cerca de 30 ovelhas ali apascentadas contribuem para isso, pois vão para a vinha mal acaba a vindima e ajudam na limpeza dos terrenos, eliminando as infestantes e contribuindo, em simultâneo, para a fertilização dos solos. Quando o ciclo das plantas recomeça, vão para o montado de sobro, que ocupa a maior parte da propriedade.

Casamentos e eventos

O principal negócio da empresa é a organização de casamentos e o turismo rural, com alojamento que dá também suporte aos casamentos, segundo explica João Brito e Cunha. Este ano foram quase 50, dos quais 70% de estrangeiros, sobretudo norte-americanos, mas também de franceses, portugueses e de outras origens, já que a casa está anunciada em vários sites internacionais da especialidade. Há vários espaços para este tipo de eventos, que nasceram a partir dos seus edifícios mais antigos. Um deles é a Casa Grande, mas também existe a nova casa, Bons Ares, e a de Sant’Anna, que fica numa parte mais retirada da propriedade e serve, entre outros, para ocasiões com menor número de pessoas, como as festas de aniversário.

Durante a visita que fizemos por toda a propriedade e outros espaços, Marta Mendes Esteves contou que a última foi a escolhida como lar pelo treinador alemão do Benfica, Roger Schmidt, enquanto esteve no clube. No interior, senti-me como se estivesse em casa, em parte devido à elegância discreta e inspiradora de conforto da decoração dos espaços, em parte por sentir que faria algo muito parecido se construísse uma casa. “Por vezes recebemos famílias dos Estados Unidos para passar férias ou quem queira fazer um fim de semana”, conta a enóloga, salientando que os quartos de todas as casas podem ser alugados. Outra das celebridades que já pernoitou ali foi Madonna. Fotos feitas para a revista Vogue comprovam esta estadia.

Outra das actividades da herdade é o gado bovino Black Angus, rebanho destinado a produzir reprodutores. “Estamos a ver como corre e se faz sentido continuar, ou não”, revela a nossa cicerone. Há também cavalos de raça Lusitano, comprados ainda jovens e formados pelo cavaleiro João Barbosa, sobretudo na disciplina olímpica de dressage ou ensino de competição. Depois de treinados, são vendidos por preços que começam nos 70 mil euros.

Herdade do Perú
A renovada Casa Bons Ares

As primeiras vinhas

João Brito e Cunha afirma ter plantado as primeiras vinhas incentivado pelo amigo Nicholas von Bruemmer, neto do barão suíço von Bruemmer, do Casal de Santa Maria, em Colares. “Foi isso que fiz, primeiro, à volta da casa e, depois, noutras localizações, até aos 12 hectares actuais”. Metade da área de vinha está plantada com as variedades brancas Arinto, Verdelho, Alvarinho, Antão Vaz e Sercial, e inclui uma parcela muito pequena, à frente das cavalariças, de Moscatel de Setúbal. “Nas tintas, temos o Merlot, Cabernet Sauvignon, Syrah, Touriga Nacional, Trincadeira e Castelão”, informa Marta Mendes Esteves, acrescentando que a vinha só começou a ser plantada depois de João Brito e Cunha ter comprado a Herdade do Perú, em 2017.

Os locais de plantação foram seleccionados após análises de solo, não só para escolher os melhores, mas também por razões de ordem estética, já que os primeiros talhões foram plantados ao lado do jardim da Casa Grande. “A presença da vinha dá um destaque na paisagem que as pessoas que cá vêm gostam muito”, salienta a enóloga, dizendo que é nela que está o segredo da qualidade dos vinhos da empresa, daí que haja um grande foco no campo, para garantir que a uva esteja sã e com as características desejadas quando entra na adega.

Rui Lopes diz, por seu turno, que ele e Jorge Rosa Santos acreditam muito na uva, no terroir, mas que também é necessário intervir na adega para que expresse essa característica nos vinhos que origina. “A Serra da Arrábida faz barreira em relação à influência Atlântica e não permite que esta se expresse de forma marcada, dando-nos mais maturação, mais sabor”, explica, acrescentando que “só quem não anda na vinha e não prova as uvas a Sul e a Norte, não verifica que as mais saborosas são as primeiras e as outras têm mais acidez” e que, “se calhar, o lote ideal terá de incluir as duas localizações”. Face a esta conclusão, salienta que ainda há muito por fazer na Herdade do Perú, no sentido de conhecer melhor as vinhas e o terroir. O trabalho feito até agora permitiu fazer o esqueleto, mas é preciso, vindima a vindima, confirmar os dados e ir fazendo ajustes. “Mas vai sempre ser difícil estarmos completamente satisfeitos”, adianta o enólogo.

 

Herdade do Perú
A arte da dressage está a cargo do cavaleiro João Barbosa

Vinhos com terroir e sabor

Na vindima, o rancho está na vinha a partir das sete da manhã. Quando a uva branca chega à adega, há decantação durante 48 horas, “o que é muito importante, para não afectar a parte aromática durante a fermentação”, que decorre em cubas a temperatura controlada, explica Marta Mendes Esteves. A forma como são produzidos os tintos tem a ver, acima de tudo, com as variedades de uva e o destino que lhes é dado. “Como sabemos que as castas Cabernet Sauvignon e Merlot se destinam sobretudo à produção de Private Collection, extraímos um pouco mais por ser um vinho de longevidade”, explica a enóloga, acrescentando: “os tintos Herdade do Perú Colheita são vinhos mais fáceis, com pouco tempo em barrica, e temos de controlar mais as remontagens para não haver tanta extracção.”

Para o futuro está previso o lançamento de um espumante feito a partir de Castelão, um vinho de curtimenta e uma nova marca, Casa dos Netos, destinada a ser consumida nos casamentos, em resposta aos desafios dirigidos à equipa de enologia por parte dos filhos de João Brito e Cunha, que impõe, sempre, a necessidade da casa apenas apresentar, ao mercado, produtos de qualidade. Além de serem servidas nos eventos que decorrem na Herdade do Perú, as 30 mil garrafas produzidas anualmente são comercializadas através de pequenos distribuidores em Leiria, Lisboa, Porto e na Península de Setúbal.

(Artigo publicado na edição de Dezembro de 2025)

QUINTA DO SAMPAYO: A temporada 2.0

Quinta do Sampayo

Vale da Pinta, freguesia do concelho do Cartaxo, integrado no território vitivinícola do Tejo. É uma espécie de planalto, com a floresta a ladear uma extensa propriedade agrícola, cujo início remonta a 1995, ano da compra da Quinta da Caneira, seguindo-se a aquisição da Quinta do Sampayo. O negócio foi efetuado pelo empresário José Júlio […]

Vale da Pinta, freguesia do concelho do Cartaxo, integrado no território vitivinícola do Tejo. É uma espécie de planalto, com a floresta a ladear uma extensa propriedade agrícola, cujo início remonta a 1995, ano da compra da Quinta da Caneira, seguindo-se a aquisição da Quinta do Sampayo. O negócio foi efetuado pelo empresário José Júlio Macedo e dono do Grupo Agroseber.

“Houve um grande investimento por parte do meu pai. Era um homem visionário. Pretendia fazer sempre o melhor e, aqui, queria fazer um dos melhores vinhos do mundo. Por isso investiu o que investiu”. Aquando da plantação das vinhas, nos anos 90 do século XX, foi construída uma primeira adega. Mais tarde, esta foi substituída por outra, “uma adega totalmente visionária, naquele tempo”, conta Ana Macedo, recordando os momentos passados nesta propriedade do Tejo. “Vinha sempre com ele, nas férias e ao fim de semana. Só os dois.”
Em 2022, é ponderada a decisão de colocar a propriedade à venda. Mas antes de avançarem com o negócio, Ana Macedo e o marido, Pedro Emídio, dão a conhecer a Quinta do Sampayo aos dois filhos. “Quando trouxemos os miúdos, foi uma loucura!” Ter espaço para correr e dar azo à brincadeira, explorar o campo e descobrir os ciclos da natureza ao vivo são imagens que a nossa anfitriã recorda com um sorriso rasgado: “foi uma decisão em família.”

Face a este cenário, e após 10 anos de interregno, Ana Macedo e Pedro Emídio, ambos licenciados no curso de Direito, resolvem retomar a atividade centrada na vinha e na produção de vinho. O investimento feito, outrora, por José Júlio Macedo, colocou de parte a eventual necessidade de substituir o equipamento da adega. Porém, quando retomaram o projeto, tiveram de ativar a estação de tratamento de águas residuais (ETAR) da adega. “Em princípio, no próximo ano, vamos ter uma nova ETAR, que permite aproveitar a água residual tratada para a rega”, informa Ana Macedo, que sublinha a importância de toda a equipa da Quinta do Sampayo, da qual fazem parte Marco Crespo e André Domingos, respetivamente, responsáveis pela enologia e pela viticultura desde janeiro de 2025.

 

Solos sãos, plantas sãs

São cerca de 100 hectares de terra dominada por solos argilocalcários, “aqui com mais calcário que é natural”, acrescenta Marco Crespo, com um percurso de 22 anos na enologia. Como tal, as videiras plantadas nas zonas excessivamente alcalinas deixam transparecer algumas dificuldades, motivo pelo qual são tomadas medidas, no sentido de minimizar os efeitos causados pela deficiência de nutrientes.

Mas nem tudo é imperfeito. A localização favorável da Quinta do Sampayo, que se estende numa parte do Vale da Pinta “relativamente alta em relação ao resto da região”, de acordo com André Domingos, responsável pela viticultura, permite que tenha o vento como aliado no “arejamento das plantas”, beneficiando-as “em desfavor das pragas”. Caso contrário, a humidade permaneceria por um número indeterminado de horas nas folhas, o que levaria ao aumento de míldio e oídio, o dueto mais temido pelos viticultores. Em contrapartida, a precipitação, que não é uma constante por aqui – regra geral, o clima é quente e seco –, é considerada uma mais-valia, já que as águas pluviais ficam armazenadas nos solos de barro, favorecendo as videiras, sobretudo, de sequeiro.

Há dois anos, foram dados os primeiros passos no âmbito da agricultura regenerativa, como “trabalhar o solo e renovar o ecossistema, que as práticas agrícolas convencionais degradaram”, elucida André Domingos. O responsável pela viticultura da Quinta do Sampayo referiu algumas práticas implementadas, “como a descompactação, porque estes solos têm um alto teor de argila, por isso compactam muito facilmente só com a água da chuva, para não falar da transitabilidade das máquinas, que são sempre mais, duas, três, quatro toneladas a passar durante a campanha. Vamos atuar por aí, pela descompactação, para oxigenar as camadas inferiores da terra, dar nova vida aos solos, nomeadamente fungos e bactérias aeróbicas, espécies muito importantes na simbiose com a nossa cultura, que é a vinha”, acrescenta.

O enrelvamento é outra das práticas a implementar. Esta ação visa contribuir para a sanidade dos solos. Para o efeito, são introduzidas entre oito a nove espécies de plantas herbáceas, como leguminosas, brássicas, crucíferas, gramíneas, entre as linhas. “Queremos ter uma panóplia grande, para termos aqui diferentes sistemas radiculares”, explica André Domingos. O objetivo é favorecer a biodiversidade local, a par com a instalação de hotéis para insetos, de modo a minimizar a dominância de pragas e, simultaneamente, contribuir para o equilíbrio do ecossistema.
Paralelamente, a equipa de campo está a substituir os tratamentos convencionais por outros, como “extratos de cavalinha, de mimosa, de carvalho, de óleo de laranja, produtos de base mineral”, enumera o responsável pela viticultura da Quinta do Sampayo, que defende a “gestão nutricional de planta a planta, para obter plantas saudáveis, que se defendam melhor de fatores externos – pragas, doenças stress hídrico” e melhorar a qualidade da matéria-prima.

A introdução de outros sistemas de condução, a replantação de videiras e a supressão das parcelas que “ultrapassam o limiar da rentabilidade” são outras das ações estratégicas postas em prática na Quinta do Sampayo, no que à restruturação das vinhas diz respeito. Mas a reconversão requer tempo. Portanto, fica a promessa de tudo ser feito com calma. “Queremos que esta vinha esteja plantada pelo menos, por 40, 50 ou, se possível, por mais anos”, acrescenta André Domingos.

 

“A ideia é fazer vinhos mais leves, mais frescos”, adianta Mário Crespo

 

Foco nas castas brancas e regionais

A par com esta mudança, surge a aposta no aumento da área de vinha de castas brancas nacionais, nomeadamente regionais, como a Trincadeira das Pratas, que consta na lista das variedades a plantar em 2026. “Caiu muito em desuso, porque é uma casta muito mais difícil de trabalhar, mas queremos ir buscá-la, trabalhá-la e trazê-la para a adega”, continua André Domingos. Antão Vaz, Gouveio, Arinto e Fernão Pires fazem igualmente parte deste plano traçado para o próximo ano. Em 2023, foi plantada a Encruzado. “Também temos Chardonnay e Sauvignon Blanc no encepamento, mas não é tanto a linha que queremos seguir”, continua.

Nos tintos, fazem parte a Castelão, a Touriga Nacional, a Aragonez e a Trincadeira Preta. Esta última é muito valorizada pela equipa da Quinta do Sampayo, motivo pelo qual irá ocupar mais área de vinha em 2026, na propriedade. Em suma, a finalidade é optar por castas que se adaptam ao solo e ao clima desta zona do território vitivinícola do Tejo, embora não haja vontade de “eliminar por completo as castas internacionais, pois podem trazer benefícios no futuro”, reforça André Domingos.

A exploração agrícola soma ainda o olival tradicional contíguo à Quinta do Sampayo, com as variedades de azeitona Galega e Cobrançosa, adquirido em 2023. Uma vez que “estava praticamente abandonado”, houve a necessidade de fazer uma poda de rejuvenescimento, por forma a revitalizar as árvores. Apesar de ainda não haver uma previsão para tornar o azeite um produto a incluir no negócio da quinta, é manifestada a vontade de criar uma marca de azeite a comercializar no futuro.

 

O investimento feito, na década de 1990, revela que o então empresário José Júlio Macedo foi um homem visionário, uma vez que o equipamento dá resposta às exigências enológicas atuais

 

Da vinha para a adega

Marco Crespo reforça a afirmação de Ana Macedo em relação à adega: “está perfeitamente atual”. Aqui, entra apenas uva apanhada à mão, sendo a seleção dos cachos feita na vinha: “prefiro que deitem tudo para o chão e tenham muito cuidado na vinha, que levem mais tempo a apanhar, mas apanhem melhor”. Não obstante se traduzir numa tarefa morosa, rentabiliza o tempo entre paredes. “A maioria da uva é vendida”, revela, com a intenção de esclarecer que o foco está na qualidade do vinho, em detrimento da quantidade. “A ideia é fazer vinhos mais leves, mais frescos”, adianta.

Com um portefólio vínico constituído apenas por quatro vinhos – dois brancos e dois tintos –, o responsável pela enologia da Quinta do Sampayo salienta as alterações na vinificação, comparando a colheita de 2023, ano da retoma da produção vínica, com a de 2024. O Quinta do Sampayo branco 2023 foi feito a partir de Arinto e Fernão Pires, sendo, esta última, a casta preferida do responsável pela enologia. Ambas foram vindimadas e fermentadas em conjunto. Parte do lote estagiou por seis meses em barrica. Resultado: “é mais direto e mais complexo, e evoluiu muito bem ao fim de dois anos.” A respeito do Quinta do Sampayo branco 2024, revela que a vindima da Fernão Pires ficou registada a 26 de agosto e a da Arinto foi efetuada a 19 de setembro. Ao contrário da primeira edição, o blend ocorreu antes do engarrafamento, datado de maio de 2025. Nos tintos, enaltece as características da edição de 2023, um vinho feito a partir das castas Castelão, Syrah e Touriga Nacional, submetido a um estágio de seis meses em barricas. “Tem muita fruta silvestre, nada marcado pela madeira e super expressivo”, descreve Mário Crespo.

Outra mudança a enaltecer nesta nova temporada da Quinta do Sampayo é a opção por uma garrafa mais leve: “reduzimos para aquilo que achamos que é sustentável, que é abaixo dos 400 gramas.” A alteração foi extensível aos rótulos, agora com uma imagem mais estilizada. A próxima novidade será um rosé elaborado com as castas tintas Touriga Nacional, Aragonez e Castelão, e estagiado na ânfora feita à mão instalada na adega da propriedade.
No âmbito da exportação, o foco continua no mercado do Reino Unido, a par com a vontade de entrar no Canadá. Por cá, o vinho da Quinta do Sampayo está presente em restaurantes de Santarém, bem como em hotéis de Lisboa e do Algarve.
Eis o início da nova temporada da Quinta do Sampayo, a respeito da qual Ana Macedo declara: “estou muito motivada com este projeto e a minha vida deu uma volta bastante grande, mas para melhor.”

(Artigo publicado na edição de Dezembro de 2025)

 

MENIN: Legado do tempo em prova

Menin

Há cerca de um ano, a Menin Douro Estates lançou 10 vinhos do Porto em simultâneo: cinco brancos e cinco tawnies, com entre os 10 e os 50 anos de envelhecimento. Um feito difícil, que parecia impossível de superar. “Sentimos que tínhamos de dar seguimento a esses vinhos de excelência”, começa por dizer Tiago Alves […]

Há cerca de um ano, a Menin Douro Estates lançou 10 vinhos do Porto em simultâneo: cinco brancos e cinco tawnies, com entre os 10 e os 50 anos de envelhecimento. Um feito difícil, que parecia impossível de superar. “Sentimos que tínhamos de dar seguimento a esses vinhos de excelência”, começa por dizer Tiago Alves de Sousa, enólogo consultor desta casam, “dando um passo ainda maior em frente com o lançamento de dois Portos de 80 anos, um branco e um Tawny”.

São de facto dois vinhos monumentais, com precisão, equilíbrio e uma complexidade notáveis, que foram servidos antes da refeição servida no DOP, restaurante localizado no centro da cidade do Porto. O objetivo deste desafio conjugou-se com a atenção e o destaque merecidos, já que nos foi permitido que ambos permanecessem nos copos durante toda a refeição, para irmos apreciando os aromas inebriantes e as sucessivas nuances que foram apresentando com a passagem do tempo.

No final do almoço, foi fantástico constatar que, mesmo com a temperatura mais elevada, os dois vinhos do Porto são realmente de outra dimensão, pois mantiveram totalmente intacta a singularidade e equilíbrio de cada um. Notável! E que perfume permaneceu na sala. “Estes dois vinhos do Porto 80 anos que agora lançamos são um pedaço de história do Douro, um tesouro, uma peça de ‘relojoaria’, para ser admirada com a reverência que merece”, sublinha Tiago Alves de Sousa.

 

“Estes dois vinhos do Porto 80 anos que agora lançamos são um pedaço de história do Douro, um tesouro, uma peça de ‘relojoaria’”, afirma o enólogo Tiago Alves de Sousa

 

Em busca da excelência no Douro

A Menin nasceu de um sonho: produzir grandes vinhos do Douro e colocá-los no mundo. Este sonho passou a tornar-se realidade em 2018, pelas mãos de Rubens Menin, um dos maiores empresários brasileiros, com uma diversidade de negócios que vai desde a CNN Brasil à banca, passando pela detenção da maior construtora do continente americano. “Tive oportunidade de conhecer todas as regiões vinícolas do mundo e a mais bonita é o Douro”. Beleza que alia a “uma qualidade super especial nos vinhos de mesa, que, no Douro, são relativamente novos e de elevado potencial”, destaca.

Na Menin Douro Estates, com vinhos produzidos em Gouvinhas, na Quinta da Costa de Cima e Quinta do Sol, e na H.O Horta Osório, cujos vinhos são feitos a partir das uvas vindimadas na região do Baixo Corgo, em Santa Marta de Penaguião, a filosofia é a mesma, isto é, totalmente reforçada pela visão de Fásia Braga. Para a diretora-geral da empresa, para quem é crucial produzir vinhos de gama alta, que espelhem o terroir duriense, privilegiando a qualidade ao invés da quantidade. “Estes dois vinhos com 80 anos não são apenas a continuação de um trabalho especial.

São uma afirmação clara do nosso compromisso com a excelência e com o legado duriense. Representam um passo em frente, e ao mesmo tempo, um regresso à origem, à memória, à tradição, à essência do Vinho do Porto”, salienta Fásia Braga.

 

Foram engarrafadas apenas 200 garrafas de meio litro de cada variedade vendidas em caixa de madeira, com o branco ‘vestido’ de prata e o Tawny de ouro

 

Dois hinos à região

Com total carta branca por parte da empresa, e o acesso a lotes muito especiais, a equipa de enologia da Menin Douro Estates, constituída por Tiago Alves de Sousa e Manuel Saldanha, no papel de enólogo residente, lançou-se num trabalho de composição, tendo como base vinhos identificados e adquiridos a pequenos viticultores, para perpetuarem o estágio e, posteriormente, serem trabalhados para o lote final.

A idade mínima de todos os vinhos que compõem os lotes é de 80 anos, traduzindo-se numa complexidade rara, que encerra na riqueza das notas caracterizadas pelas diferentes fases pelas quais o Douro passou no último século. “São dois vinhos que têm a idade a aproximá-los, mas, depois, têm, efetivamente, muitas outras dimensões que, naturalmente, os separam, conferindo a cada um uma identidade muito especial, muito própria”, descreve Tiago Alves de Sousa. O Porto Tawny 80 anos é de facto impressionante. Denota uma complexidade incrível, com notas de caramelo salgado, especiarias exóticas, noz-moscada e laranja confitada. Na boca, é pura harmonia – acidez vibrante, textura sedosa, final interminável. O Vinho do Porto branco não lhe fica atrás. Ainda mais raro, transporta toda a frescura do Baixo Corgo, de onde provém a maior parte dos lotes. Com uma elegância desconcertante, apresenta notas de casca de citrino, flores secas e um toque iodado.

É um vinho com um final interminável. Em suma, ambos são tão complexos, que as notas de prova não lhes fazem provavelmente jus.
Foram engarrafadas apenas 200 garrafas de meio litro de cada variedade vendidas em caixa de madeira, com o branco ‘vestido’ de prata e o Tawny de ouro, honrando, assim, a sua preciosidade e raridade. Durante o almoço foram também servidos três (belíssimos) vinhos Douro DOC, de que daremos nota de prova nesta peça.

(Artigo publicado na edição de Dezembro de 2025)

ASSOCIAÇÃO VIGNERONS: ‘As nossas uvas, os nossos vinhos’

Vignerons

De acordo com o Instituto da Vinha e do Vinho (IVV), entende-se como vitivinicultor-engarrafador “a pessoa singular ou coletiva que elabora vinho a partir de uvas frescas produzidas exclusivamente na sua exploração vitícola, em instalações próprias e exclusivas e que engarrafa nas mesmas ou nas de outrem, em regime de prestação de serviços, assumindo-se como […]

De acordo com o Instituto da Vinha e do Vinho (IVV), entende-se como vitivinicultor-engarrafador “a pessoa singular ou coletiva que elabora vinho a partir de uvas frescas produzidas exclusivamente na sua exploração vitícola, em instalações próprias e exclusivas e que engarrafa nas mesmas ou nas de outrem, em regime de prestação de serviços, assumindo-se como único responsável do produto engarrafado, e de mosto concentrado e mosto concentrado retificado”.

“Se a lei existe, devemos fazê-la cumprir.” Foi com base nesta premissa que Mário Sérgio Nuno, rosto maior da Quinta das Bágeiras, avançou com um movimento que, atualmente, reúne 10 vitivinicultores-engarrafadores de seis regiões do país, para passar dar a conhecer a definição deste ofício, conhecido, em França, como vignerons-independents. A ideia surgiu em junho de 2024, por ocasião dos 35 anos da referida casa bairradina localizada em Sangalhos, no concelho de Anadia. “Grande parte dos produtores que convidei disse que este grupo deveria continuar.” Foi o que fez, criando, a par com os demais produtores envolvidos, os Vignerons de Portugal, sob o lema ‘as nossas uvas, os nossos vinhos’.

Objetivo? Realçar o trabalho realizado com afinco na terra, o cuidado criterioso com as uvas próprias e a atenção aprimorada na feitura do produto final. “Há que falar da nossa genuinidade e da autenticidade dos nossos vinhos. Não são melhores, nem piores do que os vinhos feitos pelos produtores que compram uva ou vinho. Mas o conhecimento que temos das vinhas onde nasceram é único, refletindo-se na forma como as trabalhamos. E isso faz diferença no que entra na garrafa”, elucida Mário Sérgio Nuno.

Trata-se de um trabalho diferenciado quando comparado com o papel desempenhado pelo produtor-engarrafador, o négociant, na língua francesa, que pode comprar uva ou vinho. Mas os Vignerons de Portugal não é um grupo fundado “para ser contra qualquer coisa. No fundo, é para defendermos o nosso conceito e o nosso vinho, e também para promover as marcas de cada um”, adianta o vigneron da Quinta das Bágeiras. Tudo está a ser feito a favor “dos consumidores esclarecidos. Quanto mais claros nós formos na forma como comunicamos, mais perto estamos do sucesso.”

Guardiões de vinhedos

A apresentação decorreu em Lisboa. Marcaram presença as seguintes casas: Vale dos Ares, da região dos Vinhos Verdes, Casas Altas, da Beira Interior, Quinta do Perdigão, Casa da Passarella e Quinta da Alameda, do Dão, Quinta das Bágeiras, da Bairrada, Quinta de Chocapalha, de Lisboa, Quinta da Atela, do Tejo, Rui Reguinga, do Tejo e de Alentejo, e Tapada de Coelheiros, do Alentejo.

Porquê estes 10 vitivinicultores-engarrafadores? É uma forma de mostrar as especificidades de cada região representada pelos elementos que fazem parte deste movimento.
Luís Patrão, enólogo na Tapada de Coelheiros, exploração agrícola localizada em Arraiolos, no Alentejo, levanta uma questão pertinente: “no imaginário das pessoas, quando falamos de um produtor, pensa-se que este trabalha só com uva própria, o que não é a realidade.” Por conseguinte, justifica a necessidade de se afirmarem como “produtores que trabalham exclusivamente com uvas próprias.

Este trabalho exclusivo centra-se no detalhe e isso reflete-se na qualidade do vinho”. Já Rui Reguinga, vitivivinicultor-engarrafador e enólogo, enaltece a figura do vigneron enquanto guardião das vinhas, “a parte mais importante de todo este processo”. O proprietário de 12 hectares de vinhas “muito antigas e visitáveis” com localização privilegiada na serra de São Mamede, distrito de Portalegre, enfatiza a necessidade de cuidar e salvaguardar os aglomerados de videiras, para que estas continuem a ser preservadas pelas gerações futuras. Por tudo isto, salienta a necessidade de traçar a diferença entre o produto final feito a partir de uvas próprias e “os lotes de vinhos comprados com origens que, muitas vezes, não conhecemos”.

Compromisso com a terra

Sandra Tavares da Silva, representante da Quinta de Chocapalha, propriedade vinhateira da família, com localização privilegiada na Aldeia Galega da Merceana, em Alenquer, concelho pertencente à região dos vinhos de Lisboa, vai mais longe. Além de ser “uma forma de estar no mundo dos vinhos”, um vigneron prima por demonstrar “um compromisso muito grande com a terra, o respeito pelo solo e pela água” e o facto de produzir vinho com uvas vindimadas em videiras que estão na sua posse, permite criar “uma identidade muito própria de cada vinho que produzimos”.

Por sua vez, só se torna possível assegurar um resultado de qualidade, “se produzirmos desde a uva até ao vinho”, argumenta Luís Diogo Abrantes, coproprietário da Quinta da Alameda, localizada em Vilar Seco, no concelho de Nelas, Dão. Engenheiro do Ambiente de formação, eleva o profundo respeito pela ecologia e a biodiversidade, e fala sobre as limitações que a decisão de ser vitivinicultor-engarrafador acarreta, uma vez que, “em anos menos bons, temos de garantir a qualidade das vinhas”.

 

“Antes de ser produtor e enólogo” Miguel Queimado é viticultor e agrónomo, daí que as vinhas do projeto familiar Vale dos Ares, na sub-região de Monção, na região dos Vinhos Verdes, continuam a ser cuidadas, mesmo em anos de crise, como o que se vive atualmente no sector do vinho. “Ser vitivinicultor-engarrafador em Portugal não é fácil”, acrescenta Mário Sérgio Nuno, exemplificando que, perante o excesso de vinho na adega, “nós não podemos mandar uma carta a nós próprios a dizer que não queremos mais uvas”. E o inverso também é verdade: “quando, num ano mau, não temos uva suficiente para as nossas necessidades, não podemos comprar ao vizinho”. No entanto, “se queremos crescer, crescemos com os nossos investimentos”, até porque o zelo que se tem com a vinha, “não é nada mais que engarrafar o nosso terroir para o nosso consumidor”, reforça Miguel Queimado. Melhor ainda. Para este nosso entrevistado proveniente do território vitivinícola situado mais a nordeste do país, a agricultura é apenas o início de tudo. Afinal, “quando compram um vinho nosso, estão a apoiar a agricultura e estão a contribuir para que este equilíbrio e esta coesão territorial se mantenha.” Por tudo isto, os Vignerons de Portugal querem prosseguir com esta missão, “especialmente por uma questão de transparência para o consumidor”, assume Luís Diogo Abrantes.

Como “a ideia é rodar por todas as adegas”, segundo Mário Sérgio Nuno, está previsto um evento aberto ao consumidor em geral, na casa de um destes 10 vitivinicultores-engarrafadores, no primeiro sábado de junho do próximo ano.

(Artigo publicado na edição de Dezembro de 2025)

HERDADE DO MONTE DA RIBEIRA: O mosaico vivo da Vidigueira

RIBEIRA

A Herdade do Monte da Ribeira, à qual foi, posteriormente, anexada a Herdade do Farrobo, constitui uma área total de 1100 hectares, localizados em Marmelar, na Vidigueira, sub-região do território vitivinícola do Alentejo. Este número está distribuído pela serra do Mendro, com 600 hectares, o olival, com 210, e a vinha, com 43, entre outras […]

A Herdade do Monte da Ribeira, à qual foi, posteriormente, anexada a Herdade do Farrobo, constitui uma área total de 1100 hectares, localizados em Marmelar, na Vidigueira, sub-região do território vitivinícola do Alentejo. Este número está distribuído pela serra do Mendro, com 600 hectares, o olival, com 210, e a vinha, com 43, entre outras zonas que compõem a manta de retalhos desta enorme extensão de terra. Há uma imensa paisagem a explorar na companhia de Mariana Carmona e Costa, diretora agrícola e oleóloga da Casa Agrícola HMR, e descendente da família proprietária, Nuno Elias, enólogo e diretor de produção, e António Maria Aleixo, responsável pela produção agrícola. A Casa Agrícola HMR, à qual pertence esta propriedade, faz parte da Fundação Carmona e Costa.

A introdução é feita por Nuno Elias, que começa por explicar a origem da referida extensão de montanhas, que se prolonga no lado norte da propriedade. “É uma zona de encontro de mini falhas tectónicas, que deram origem a esta elevações, com cerca de 400 metros de altitude e é nesta correnteza que está a barragem do Alqueva.” A serra do Mendro forma uma barreira natural que impede a passagem do vento, situação benéfica para a vinha, uma vez que “a junção de temperatura alta com a deslocação do ar seca tudo”, explica o nosso cicerone. Mesmo no verão, quando o termómetro regista altas temperaturas, “mesmo que haja aqui uma nortada, ela não entra. Então, só temos calor e forma-se uma humidade natural relativa matinal, mas como não há deslocação de ar, mantém-se e as cepas sofrem menos”, afirma o enólogo. No inverno, os nevoeiros tomam conta da paisagem até perto das 10h00. “Felizmente, isso já não é comum a partir do ciclo da planta, a partir de maio. Portanto, temos boas condições para que não se formem tantos fungos nas plantas”, continua Nuno Elias.

A respeito do míldio, a escassez de chuva no Alentejo durante o período vegetativo é vantajosa. “No caso do oídio este precisa de mais humidade relativa aqui existem condições matinais que são propícias e necessitam de um acompanhamento mais efetivo”, informa. Em contrapartida, as chuvas registadas na primavera deste ano de 2025 deram origem a condições favoráveis à vinha, “quer ao nível da hidratação, reposição de trabalho de campo, como lhe chamamos, quer ao nível das pragas. Não se previa que o efeito das chuvas fosse tão benéfico”, reforça Nuno Elias, já que abundância pluvial suprimiu a reprodução da cigarrinha e do aranhiço, dois inimigos das plantas.

António Maria Aleixo, responsável pela produção agrícola, Mariana Carmona e Costa, directora agrícola e oleóloga, e Nuno Elias, enólogo e director de produção.

 

Eficiência hídrica

São três as barragens da Herdade da Ribeira do Monte, as quais favorecem a autonomia na rega. Este passo foi dado após a compra desta propriedade alentejana por Vítor Carmona e Costa, fundador da atual Casa Agrícola HMR – então Companhia Agrícola de Desenvolvimento – e tio-avô de Mariana Carmona e Costa. A estreia aconteceu com a barragem de Marmelar, construída no curso da ribeira de Marmelar, com localização próxima à adega. Possui uma bacia de 50 km2.

Numa quota de 100 metros situada na outrora Herdade do Farrobo, está outra barragem, que “raramente atinge a quota máxima”. Próximo do limite da propriedade está a Barragem dos Patos. Funciona quase como reserva e não raras vezes, a partir de meio de setembro, quando surge a ameaça da escassez das chuvas, é necessário recorrer a esta para regar o olival. O transvase de água efetuado de umas barragens para as outras é efetuado através da energia produzida pelos painéis solares. “Neste momento, as restantes barragens são complementares e isso permite-nos ter autonomia entre os 80% e os 90% em área de regadio, isto é, para a vinha e para o olival”, elucida a nossa anfitriã.

“A chuva faz a diferença na agricultura”, pronuncia-se Nuno Elias, para quem “um fruto que seja acompanhado com hidratação durante o período do amadurecimento tem mais qualidade do que o fruto que ficou à míngua do amadurecimento”. Mariana Carmona e Costa acrescenta as vicissitudes inerentes à competição existente entre a cobertura do solo com a videira em anos de um menor registo de pluviosidade. Nos anos em que chove, essa luta é inexistente, mas impera o corte quase sucessivo da cobertura, “devido à quantidade de água da chuva no solo, que fez com que cresça em demasia”.

Por outro lado, face às temperaturas muito altas associadas a solos pobres e a secas cíclicas, o envelhecimento prematuro das videiras tem vindo a tornar-se um problema. Segundo Nuno Elias, a rega, mesmo gota a gota, adia esta realidade. A água permite que se mantenham “vivas durante a hibernação, que vai até março, e tenham energia para refazerem a sua camada foliar. Para manter uma empresa ativa e lucrativa, temos um ponto de substituição, daí já não termos plantas tão antigas.” A vinha plantada inicialmente, em finais da década de 1980, foi convertida. A vinha mais velha data de 1998. “Se o Alentejo não estiver na região produtora de vinhos mais extrema, está perto!”

Solos diferentes

“Apesar de não ter uma altitude considerável”, a serra do Mendro “deu origem a tipos de solos diferentes”, continua Nuno Elias. De acordo com o enólogo, alguns solos contêm magma e muitos minerais na composição. “Temos manganês fora da escala e o manganês é antagonista do potássio. Por isso, há que ter cuidado com algumas castas. Com o tempo, conseguimos lidar com estas especificidades dos solos que aqui temos.” Por outro lado, os solos são maioritariamente pobres, característica que compromete o aporte nutricional das plantas. Como consequência, “praticamente todo o nosso encepamento produz pouco”.

A contraposição a este cenário acontece na Vinha do Pivot, de 15 hectares, localizada no sopé da serra. Chama-se assim, “porque existia ali um pivot de milho de 30 hectares, que posteriormente se dividiram, em partes iguais, em vinha e em olival”, expõe. É composta por solos de aluvião, com argila ali depositada graças à erosão dos solos da serra do Mendro. “É um solo mais rico, mais fértil e a vinha tem mais vigor. Temos boa capacidade de campo, porque, quando chove, a água fica retida e fica disponível por mais tempo para as plantas”, sublinha.

A Vinha do Farrobo, de oito hectares e cujo nome que se deve Herdade do Farrobo, a segunda propriedade adquirida e anexada à Herdade do Monte da Ribeira, apresenta “uma espécie de solo intermédio”, com calhau rolado e “algum aluvião”, o que leva Nuno Elias a considerar que, em tempos, a ribeira de Marmelar, um afluente do rio Guadiana, passou por ali. “É um solo bastante permeável e com boa drenagem”, destaca. O solo muito pobre está na área da vinha mais velha, submetida a várias replantações. “Era terra de azinho, de difícil trato, daí a opção por várias técnicas de campo, como coberturas, enrelvamentos”, revela o enólogo.

Mudanças, ensaios e perseverança

Sobre as castas, Nuno Elias refere os momentos mais marcantes, ao longo dos quais o fator qualidade é determinante. O primeiro ocorre no final da década de 1980, com a estreia da vinha sob recomendação da Direção-Geral da Agricultura. Segundo António Maria Aleixo, esta cultura ocupa, inicialmente, 50 hectares. “Estavam divididos ao meio, com as castas tintas no lado esquerdo e as brancas no lado direito”.

As castas eleitas para a vinha inicial eram comuns ao Ribatejo e Alentejo, como as tintas Castelão, Aragonez e Trincadeira. Quanto às brancas, a aposta recai nas variedades locais, como Antão Vaz, Tamarez, Trincadeira das Pratas, Alicante Branco. A enologia fica nas mãos de João Portugal Ramos e são plantadas a Cabernet Sauvignon, a Arinto e a Alicante Bouschet. Mantém-se um rácio de 80% de castas autóctones, com a Alfrocheiro, a Trincadeira, a Moreto e a Aragonez, nos tintos; a Tamarez, a Antão Vaz e a Roupeiro, nas brancas. Introduzem-se algumas experiências, como a Cabernet Sauvignon, um caso de sucesso, e a Riesling. Esta “não vingou, porque o clima era demasiado seco, o que interferia na acidez natural da casta. Foi convertida a Arinto”, reforça o enólogo. Entretanto, na década de 1990, a adega é construída de raiz e equipada com o sistema de operações por gravidade. “Foi muito pioneira na altura e por aconselhamento de João Portugal Ramos”, reforça Mariana Carmona e Costa. Com a passagem do tempo, são incluídas novas máquinas, para dar resposta às exigências de cada fase. António Maria Aleixo ingressa na equipa em 1998 e, no ano seguinte, é a vez de Nuno Elias entrar no universo da Casa Agrícola HMR.

Por volta do ano 2010, a administração da Fundação Carmona e Costa transita para os sobrinhos de Vítor Carmona e Costa e Maria da Graça Carmona e Costa. É registada a admissão de Luís Duarte, que ainda hoje assume a função de enólogo consultor. O encepamento é submetido a ajustes. Nas castas brancas, à Antão Vaz, Roupeiro e Arinto, junta-se a Alvarinho e a Verdelho; nas tintas, aumentam, gradualmente, a área da Alicante Bouschet, “que se tem revelado muito interessante em anos quentes”, salienta Nuno Elias. Mantém-se a Cabernet Sauvignon, plantada em 1998.

No âmbito das experiências positivas, Nuno Elias enaltece a Petit Verdot. Plantada em 2011, confere longevidade ao vinho tinto. “No Alentejo, os vinhos tintos têm uma tendência de iniciarem a sua vida logo muito macios, porque a maturação é mais extensa ou, às vezes, vão para a sobrematuração, e os taninos ficam logo muito maduros. Se o vinho é totalmente bebível em novo, cedo vai cair o potencial de guarda elevado. Por isso, precisamos de castas que, no início, tenham um tanino fino, mas domável, e que esteja lá mais tarde. A Petit Verdot foi uma das castas que melhor triunfou neste contexto e é usada em 30% ou 40% em lotes com estágios”, esclarece. Aqui, dá como exemplo o Marmelar tinto, referência topo de gama do portefólio vínico da casa.

Sub-região de brancos

Nos encepamentos mais recentes da Herdade do Monte da Ribeira, constam a Sousão e a Tinta Miúda. A respeito da primeira, há uma parcela de vinha denominada Ensaio 1, pois “é preciso perceber como a casta se comporta neste terroir e também verificar se, agronomicamente, se torna ou não um problema”, adianta Mariana Carmona e Costa. Em relação à segunda, o enólogo denota otimismo relativamente “ao comportamento da planta e ao resultado da vinificação. Portanto, o futuro trará novidades para mostrar”.

Apesar das castas tintas ocuparem a vinha em 75%, Nuno Elias está convicto de que a sub-região da Vidigueira apresenta condições especiais para vinhos brancos. O destaque vai para a Antão Vaz. “Embora seja um fruto que, analiticamente, não é muito interessante, porque carece de acidez, depois, expressa uma série de características no copo, as quais dificilmente se consegue obter com outras castas.” Ao volume de boca, o enólogo aponta a consistência, de ano para ano, desta variedade, mesmo sob as oscilações térmicas. “Não é uma casta para os mais fracos, já que, muitas vezes, se chega a meio da vindima e regista 10 graus. É preciso que a fase final do ano agrícola seja favorável, ou seja, que não chova até meados de setembro, para que a maturação se complete.”

Não obstante a tipicidade da Antão Vaz, a Arinto é muito importante no encepamento da Herdade do Monte da Ribeira. Representa sucesso, quer a solo, quer em lote com a casta-rainha da Vidigueira, devido à acidez que lhe é característica. A Alvarinho, uma das favoritas do enólogo, porque dá corpo a vinhos longevos, também entra nesta linha, embora produza metade das demais brancas. Em suma, “prevejo que, para bons casos de sucesso, esta região mantenha a Antão Vaz sempre presente, para manter a sua identidade, mas sempre com uma casta nobre, que a ajude, de forma a chegar ao mercado de forma consistente.”

A terceira fase da Casa Agrícola HMR está a dar os primeiros passos num momento controverso para o universo do vinho. “É tudo volátil, cíclico. O que hoje é bom, amanhã muda. Estamos num mercado que depende de gostos, que é de modas. Durante 20 anos, falamos da passagem de brancos para tintos. Agora, passamos de tintos para brancos. É preciso entrar numa constante mudança. Ao mesmo tempo, é necessário ter os pés bem assentes na terra, porque o que estamos a fazer mal agora, a seguir vai estar bem”, reflete Nuno Elias.

A vindima e o vinho

A Casa Agrícola HMR é um bom exemplo de vitivinicultor: possui vinha e produz vinho com uvas próprias na adega da Herdade do Monte da Ribeira, onde é engarrafado. A vindima é manual e mecânica. “Curiosamente, estamos muito satisfeitos com os resultados da vindima mecânica, que nos permite fazer 100% vindima noturna, com temperaturas de chegada à adega muito inferiores à da vindima diurna, e é mais rápida”, confessa Nuno Elias. Em cerca de 15 minutos, a matéria-prima colhida na vinha está no tegão. “As uvas são descarregadas, desengaçadas, passam pelo permutador, para arrefecer até aos 10 graus, sejam brancas ou tintas e nenhum vinho leva engaço.”

Na gama de entrada, a Pousio Selection, constituída por branco, tinto e rosé, Nuno Elias destaca este último, uma vez que é feito a partir de mosto de lágrima de uvas tintas. Esta segue para as cubas de inox, onde é submetida, por um mês, a bâtonnage. “É 100% seco, tem zero açúcar residual e é muito gastronómico. Embora seja gama de entrada, este rosé é equivalente a muitas altas gamas”, revela o enólogo. Os Pousio Reserva branco e tinto são caracterizados pelos estágios em madeira, respectivamente, de seis e 12 meses. Os lotes são feitos após a prova final.

As edições limitadas, composta por varietais e lotes, resultam de “um Alicante extraordinário” da colheita 2020, conhecido por Parcela 98, que desperta a atenção para outras variedades de uva. É o caso da Arinto, elaborada a solo para um vinho branco, bem como a dar corpo a um lote, ao lado da Alvarinho. A Touriga Nacional e a Syrah são tidas, igualmente, em consideração na versão monocasta.

Fora da gama Pousio, está a “super-premium” Marmelar, nome eleito “em homenagem à terra onde está a propriedade”. São um branco e um tinto “muito especiais”, remata Nuno Elias.

RIBEIRA

Do olival tradicional à sebe

A compra da Herdade do Monte da Ribeira ocorre a 8 de agosto de 1986 e a Herdade do Farrobo é adquirida no princípio da década seguinte, por Vítor Carmona e Costa, tio-avô de Mariana Carmona e Costa. “Era um agro-industrial com uma paixão enorme pela terra. Costumo dizer, por brincadeira, que a propriedade é o prolongamento da horta que tinha na casa de Alcabideche”, no concelho de Cascais. A partir de então, refugia-se na herdade juntamente com a mulher, Maria da Graça Carmona e Costa, “uma apaixonada e uma expert em arte contemporânea em Portugal. Foi mecenas da arte no país”. Os sobrinhos são igualmente bem-vindos, sobretudo no verão.

Ainda a vinha não estava plantada, já o olival tradicional de sequeiro da Herdade do Monte da Ribeira, com cerca de 110 hectares e composto por muitas árvores milenares, mostra o seu vigor. As variedades são, maioritariamente, Galega, além de Bico de Corvo, “mix entre o Zambujeiro e a Galega, meio alongada e não se retira muito azeite”, em conformidade com a nossa anfitriã, e Verdeal. Em 2000, chega a vez da plantação do olival intensivo de regadio, um total de 76 hectares, “com, maioritariamente, Cobrançosa e apontamentos de Cordovil e Picual”. O olival de sebe de Arbequina foi plantado em 2003 e 2008, correspondendo a uma área de 24 hectares. “Está distribuído por duas parcelas: na Herdade do Monte da Ribeira, com 14 hectares, e na Herdade do Farrobo com 10 hectares”, afirma Mariana Carmona e Costa. Esta decisão é tomada com base no aumento da capacidade de armazenamento de água, o qual se deve às barragens existentes na propriedade.

Eis o outro mundo de Mariana Carmona e Costa, profunda conhecedora de todos os recantos da propriedade, serra do Mendro inclusive, onde estão dispostos dois apiários de um apicultor de Moura. “Em troca, recebemos uma parte do mel de rosmaninho por ano.” Em 2003, começa a pós-graduação em olivicultura, azeitona e azeitona de mesa, no Instituto Superior Agrónomo, de Lisboa, já depois de terminar a formação em viticultura e enologia na Universidade de Évora.

A par com o sucessivo aumento da área total de olival, hoje com 210 hectares, passam de produtores de uva, para produtores de azeite e azeitona vendidos a granel. Quando se apercebe do potencial do produto, a nossa anfitriã questiona sobre a eventual feitura de um lote deste líquido dourado. O nome? Pousio, predominante no portefólio vínico da casa. O lote experimental sai em 2013. Três anos depois, avança para o mercado, com o Pousio Premium e, em 2019, surge o Pousio Clássico. A empresa aposta forte na venda do azeite embalado num garrafão escuro, com capacidade de três e cinco litros. Em 2022, aparece Pousio Homenagem Oliveiras Centenárias, aquando do projeto Olivares Vivos, que incide na atribuição do certificado europeu face ao compromisso dos olivicultores a respeito da preservação da biodiversidade. Todo o azeite é extra virgem.

Líquido dourado

Antes da produção, é efetuada a monitorização das amostras de todas as variedades de azeitona. O objetivo é “avaliar o teor de matéria seca, a gordura e a humidade, para vermos se estão no ponto”, informa Mariana Carmona e Costa, que permanece muito tempo no campo, contando com o desempenho de António Maria Aleixo. A campanha começa com a apanha da Arbequina dos olivais em sebe, a qual demora cinco dias. A Galega também é colhida muito cedo, em outubro, para obter uma azeitona mais verde e com sabores “a frutos secos, como a amêndoa, mais amargos”. No geral, conseguem-se “notas mais positivas nos nossos azeites e também temos mais a certeza que têm uma acidez mais baixa. Quanto mais tarde é a apanha, maior é o grau de acidez”, assegura a nossa anfitriã. Morosa, a campanha termina entre dois meses e os dois meses e meio, com a Cordovil, a Cobrançosa e a Picual, pelo meio, concluindo com as parcelas de Verdeal do olival de sequeiro.

O transporte adequado e assegurar as condições do lagar são imperativas em prol da produção de um azeite de qualidade. O lagar está na Vidigueira, para onde são levadas por variedade. A extração do azeite é feita a frio. Depois “fica tudo separado por depósitos por variedades e por zonas da propriedade. Mesmo dentro das Arbequinas, separamos as das duas parcelas, porque conferem particularidades diferentes às azeitonas”, garante. Segue-se a prova sensorial de todos os depósitos, com o diretor de lagar e o mestre lagareiro. Traçados os perfis, Mariana Carmona e Costa avança para os blends. A média anual é de aproximadamente 800 toneladas.

“Equiparo o azeite ao sumo de laranja, em que o ponto ótimo é o momento da extração. A partir daí, vai perdendo, a pouco e pouco, as propriedades, ao contrário da maior parte dos vinhos. Por isso, é importante preservar o azeite da melhor maneira, em local escuro”, aconselha. Estes cuidados permitem minimizar a degradação do azeite, produto “rico em antioxidantes, em polifenóis e clorofila”. A estas recomendações, Mariana Carmona e Costa soma a importância da literacia ligada ao azeite. É crucial “que as pessoas experimentem azeites de norte a sul, porque o clima muda muito, as terras mudam muito, para verem o que mais gostam com determinados pratos e, acima de tudo, educarem os filhos, porque é uma gordura super saudável”

Ao contrário do vinho, o negócio do azeite revela maior desperdício, daí que o custo de produção seja maior. A seleção do recipiente é igualmente relevante, pois há que preservar o produto. Uma embalagem bonita chama a atenção, sobretudo para oferecer, mas convém que se esteja ciente da durabilidade do azeite, ou não fosse o extra virgem ideal para finalizar um prato: “o mais intenso, para a massa ou um gaspacho, o mais plano, para peixe de mar fresco, assado no forno, e os mais picantes para a batata, o queijo fresco de cabra ou a salada.”

RIBEIRA

Regeneração e biodiversidade

“Temos um mosaico e uma diferenciação bastante grande” na propriedade, tal como se comprova do alto do miradouro da serra do Mendro, virado para a Herdade do Monte da Ribeira, onde o rio Guadiana corta e planície deste Alentejo quase sem fim. Mariana Carmona e Costa quer preservar este património da melhor maneira, para “deixar, às futuras gerações, melhor do que encontramos aqui, quando viemos para aqui trabalhar”.

A transição para a agricultura de sustentabilidade com práticas regenerativas marca a nova era da Herdade do Monte da Ribeira, para tornar os solos mais resilientes e de modo a evitar a erosão. A introdução do rebanho de ovelhas, prática iniciada há quatro anos, é outra das práticas com resultados positivos, assim como a utilização de maquinaria adequada a esta iniciativa. Ao mesmo tempo, “é preciso manter o ecossistema, preservar o mosaico que temos em prol da qualidade, temos olival, vinha, zonas de mato, de azinho, caça, a serra, linhas de água”, enumera António Maria Aleixo. A flora e a fauna do Mendro estão a ser analisados, com o apoio de consultores, a favor da biodiversidade.

O desvelo estende-se aos trabalhadores do campo. “Tentamos ter, ao máximo, pessoas das aldeias vizinhas e priorizar os filhos e as famílias, para lhes darmos trabalhos a eles, mas as gerações mais novas não querem trabalhar no campo, os mais velhos estão a reformar-se e os pais não querem os filhos a trabalhar na agricultura. Somos forçados a recorrer a prestações de serviço. Estamos num momento de viragem”, remata a nossa anfitriã.

(Artigo publicado na edição de Novembro de 2025)

CASA DA RÉSSA: O espelho de Folgosa do Douro

Casa da Réssa

Porquê no Douro? Pela “vinha com aquela beleza, o quadro que nos proporciona”. A justificação é dada por Alexandre Dias, o empresário que, após o regresso a terras lusas, a pouco e pouco, foi investindo na região demarcada mais antiga do mundo, mais concretamente na margem sul do rio que lhe empresta o nome, pois […]

Porquê no Douro? Pela “vinha com aquela beleza, o quadro que nos proporciona”. A justificação é dada por Alexandre Dias, o empresário que, após o regresso a terras lusas, a pouco e pouco, foi investindo na região demarcada mais antiga do mundo, mais concretamente na margem sul do rio que lhe empresta o nome, pois a Casa da Réssa está localizada na Folgosa do Douro, no concelho de Armamar, distrito de Viseu, na sub-região do Baixo Corgo.

É um projeto recente, iniciado em 2019, com a aquisição da Vinha das Lages, de três hectares, um prelúdio de uma história que, agora, reúne “40 hectares de terra, entre olival, mato e 25 hectares de vinha. É casa que abriga todas aquelas parcelas que consegui juntar”. Uma manta de retalhos constituída por mais de 50 parcelas, de diferentes tamanhos e formatos, e pela Quinta da Médica comprada na totalidade.

A admiração pelo trabalho de enologia de Paulo Nunes determinou a escolha por parte de Alexandre Dias para a Casa da Réssa. “Filho deste território do Baixo-Corgo”, nas palavras do empresário, Paulo Nunes sente-se em casa neste projeto vitivinícola, ou não fosse a Vinha das Lages avistada da casa dos pais. “Conheço este emaranhado de vinhas, de parcelas, com vertentes voltadas a nascente, a norte, a nascente e a sul”, descreve, acrescentando a riqueza de um património vinhateiro coassociado com vinhas mais recentes. A localização estende-se entre os 170 e os 700 metros de altitude, com solos de xisto, mais abaixo, e a transição para granito, mas acima na orografia.

Casa da Réssa
Alexandre Dias, proprietário da Casa da Réssa

 

A Casa da Réssa é um projeto iniciado em 2019, em Folgosa do Douro. Reúne “40 hectares de terra, entre olival, mato e 25 hectares de vinha. É casa que abriga todas aquelas parcelas que consegui juntar”

 

Vinhos de parcela

O objetivo deste projeto “é isolar cada vez mais as parcelas, para fazer vinhos de parcela”, declara Paulo Nunes, com o propósito de evidenciar a diversidade do Douro. Com a silhueta paisagística desta região como ponto de partida para a explicação, o enólogo expõe as diferenças evidentes entre as cotas, com o Vale do Douro predominantemente xistoso e sem ventilação, dando origem a mais calor e humidade; e o planalto, denominado Monte Raso, caracterizado pelos solos de granito e as noites frias. Logo, as uvas vindimadas nas cotas mais baixas apresentam uma componente mais quente, de maior extração, enquanto as que são colhidas mais acima resultam em vinhos com uma componente mais fresca e uma acidez mais marcante.

Estas diferenças querem-se vincadas nos vinhos da Casa da Réssa. “Quisemos desconstruir um paradigma que o Douro vive, o qual vem de uma era de globalização, em que houve a necessidade de criar um padrão dos vinhos do Douro. Acho que fazer vinhos do Douro, no meu entender, não é a mesma coisa que fazer vinhos do Porto. Deveria haver duas regiões demarcadas”, defende Paulo Nunes, explicando que a produção de vinhos DOC Douro difere da produção de Vinho do Porto.

Além das vinificações feitas por parcela, o enólogo enaltece o trabalho efetuado na escolha das barricas, no sentido de “reunir o máximo de tanoarias que há, com diferentes queimas, diferentes tostas e diferente grão. Não temos duas barricas iguais da mesma tanoaria”. Este trabalho de precisão deve-se à abertura de Alexandre Dias, para quem o objetivo é “criar vinhos que sejam o espelho da essência daquele território (…) de fruta pura e alma rústica”. Talvez seja este o motivo pelo qual foi eleito o nome Casa da Réssa, “palavra do Douro e do Minho, que significa réstia de sol”.

A seleção de barricas baseia-se em queimas, tostas e grãos diferentes. “Não temos duas barricas iguais da mesma tanoaria”, afirma o enólogo Paulo Nunes

 

Património duriense

As vinhas antigas da Casa da Réssa são um legado de enorme importância para Paulo Nunes, o qual está nas mãos de João Costa, enólogo responsável pela adega e quem zela por todo o trabalho de campo. Dão corpo a um trio DOC Douro. Para comprovar tamanha dedicação a este legado, a equipa de enologia escolheu uvas “de um conjunto alargado de castas”, segundo Paulo Nunes, como Fernão Pires, Viosinho, Verdelho, Malvasia Fina, Malvasia Rei, colhidas em vinhas velhas localizadas em altitude, para fazer o Casa da Réssa Reserva branco 2022.
Embora a Touriga Nacional, a Touriga Franca e a Tinta Barroca constem na matriz do Casa da Réssa Reserva tinto 2021, este vinho também é feito a partir de uvas colhidas em vinhas velhas. Já o Casa da Réssa Grande Reserva tinto 2021 se traduz num field blend de vinhas velhas localizadas entre os 400 e os 500 metros de altitude. Para reforçar o carácter desta referência vínica, Paulo Nunes incluiu o engaço na equação, porque “dá-me mais camadas, texturas, ângulos, que me agradam particularmente” e submeteu o vinho a estágio apenas em barricas de madeira.

Mas o portefólio da Casa da Réssa não fica por aqui. Há um Porto Vintage 2023 e um Porto Colheita branco 2022. Sobre este último, o enólogo principal destaca o facto de ser “uma oportunidade para chegar a outros mercados”, uma vez que se trata de um tipo de vinho com mais acidez e mais equilíbrio, a somar ao prestígio atribuído ao Vinho do Porto. Ambas as referências são feitas a partir de uvas próprias e a ideia é, de acordo com Paulo Nunes, “trabalhar os vinhos do Porto com indicação de idade”.

(Artigo publicado na edição de Novembro de 2025)

 

Os retratos da vindima

Vindima

Na CARMIM, em Reguengos, Tiago Garcia e Rui Veladas confiam na longevidade dos tintos de 2025 + Uvas extremamente sãs, com óptimo estado sanitário. Brancas vindimadas mais cedo, com bela acidez e equilíbrio, resultando em vinhos citrinos, frutados e delicados. Nas uvas tintas, destaque para as castas mais tradicionais, como Aragonez, Trincadeira e Alicante Bouschet, […]

Na CARMIM, em Reguengos, Tiago Garcia e Rui Veladas confiam na longevidade dos tintos de 2025

+ Uvas extremamente sãs, com óptimo estado sanitário. Brancas vindimadas mais cedo, com bela acidez e equilíbrio, resultando em vinhos citrinos, frutados e delicados. Nas uvas tintas, destaque para as castas mais tradicionais, como Aragonez, Trincadeira e Alicante Bouschet, com muito boa maturação fenólica, concentração e taninos de qualidade, condições ideais para potenciar o estágio dos vinhos nas barricas.

As elevadas temperaturas na primeira semana de Agosto e a elevada humidade noturna das semanas seguintes resultaram em maturações menos homogéneas para algumas castas, como a Touriga Nacional e a Touriga Franca, dando origem a alguns vinhos menos equilibrados.

 

Vindima
Tiago Garcia e Rui Veladas

Na Cooperativa Agrícola de Pegões, a experiência e conhecimento de Jaime Quendera são determinantes

+ Muita chuva entre Janeiro e Maio, deixando os solos bem nutridos e permitindo um ciclo vegetativo equilibrado, praticamente até às vindimas. Uvas de excelente qualidade em todos os aspectos enológicos: bom fruto significa bom vinho. Vindima em condições secas, possibilitando colheita faseada, sem stress e sem o risco de podridões ou outros problemas que habitualmente surgem com a chuva nesta fase.

Menos 25% de uvas face à média dos últimos cinco anos. As chuvas abundantes causaram a ocorrência de míldio nas vinhas menos cuidadas, originando alguma perda da matéria-prima. Este cenário foi agravado pela fraca nascença, inferior ao habitual, e ainda por episódios de escaldão no final de Julho e início de Agosto, coincidentes com a onda de calor que afectou Portugal durante mais de 20 dias.

Vindima
Jaime Quendera

 

Em Valle Pradinhos, um ícone de Trás-os-Montes, Rui Cunha faz vinhos desde 1997

+ Início da vindima, a 1 de Setembro, com a Tinta Roriz para rosé, antes da Gewürztraminer, algo inédito em 27 anos! Maior quantidade de uvas brancas que em 2024. Nas castas tintas, bagos mais pequenos (em média menos 10% do peso de 200 bagos quando comparado com 2024), o que originou vinhos tintos com muito boa cor e uma belíssima estrutura.

Menor produção nas castas tintas, com menos cerca 15% face a 2024. Maior percentagem de uvas-passas, o que obrigou a uma menor velocidade do tapete de escolha, para permitir uma selecção da uva em condições. Número elevado de mão de obra estrangeira, implicando menor velocidade no corte e necessidade de explicação diária sobre o que não vindimar (netas).

 

Vindima
Rui Cunha

 

Director de enologia do grupo Bacalhôa, Francisco Antunes seguiu a vindima em várias regiões

+ No Douro, a excelente maturação, a qualidade dos taninos, a intensidade aromática e estrutura da Touriga Nacional. Em Setúbal, as maturações faseadas, com bela acidez e concentração, e destaque para Chardonnay, Fernão Pires, Merlot e Cabernet. No Alentejo, brancos exuberantes e frescos, e tintos poderosos de Alicante Bouschet. Na Bairrada, óptimas bases de espumante a partir de 11 de Agosto e tempo seco, que permitiu esperar pela Baga até final de Setembro, para excelentes tintos de guarda.

Florações complicadas e menor produção no Douro e na Merlot da Bairrada. Vaga de calor, com alguma desidratação em certas castas tintas do Douro e Setúbal, e maturação precoce da Cabernet no Alentejo. Quebra de produção na Moscatel de Setúbal, devido ao escaldão. No Alentejo, forte chuvada com granizo, na primeira semana de Agosto, afectou alguns talhões virados a norte.

 

A casta Alicante Bouschet é estruturante na Reynolds Wine Growers e nos tintos criados por Nelson Martins

+ Boa maturação fenólica, com bela acidez e teores alcoólicos moderados, originando vinhos elegantes, frescos e de taninos maduros. Nos brancos, destaca-se a fresca exuberância citrina da Arinto. Nos tintos, a elegância da Trincadeira e a fruta e intensidade da Syrah. A chuva de 7 de Setembro e a descida das temperaturas proporcionaram à Alicante Bouschet uma das melhores maturações dos últimos anos, assegurando tintos de notável estrutura e longevidade.

A vinha registou uma baixa frutificação devido à recuperação da tempestade de granizo ocorrida em 2024. O final de Julho e o início de Agosto, com temperaturas máximas acima dos 40º C e médias acima dos 30º C, prejudicaram o bom enchimento do bago, resultando numa perda de 40% da produção esperada.

 

Vindima
David Guimaraens

 

David Guimaraens, da Fladgate Partnership, está contente com os vinhos, mas zangado com os responsáveis durienses

+ A qualidade geral dos vinhos do Porto tintos. Considerando as temperaturas altas do verão e a ausência total de chuva a partir de Maio, produziram-se, ainda assim, vinhos fortificados, com uma intensidade de cor tremenda, mas mantendo uma exuberância aromática frutada, que lhes confere bastante elegância e os torna muito atractivos.

A falência económica dos viticultores durienses de média dimensão, que se dedicam à produção e comercialização de uvas. A incompetência colectiva do sector, desde as associações de comerciantes e produtores aos órgãos governativos do Douro. A conivência, que beneficia alguns e permite que a mesma videira possa, enganosamente, manifestar duas Denominações de Origem na mesma colheita.

 

Na Quinta das Bágeiras, Frederico e Mário Sérgio Nuno estão seguros de que 2025 será ano memorável de tintos

+ Apesar de estar abaixo de um ano médio, a produção foi significativamente superior a 2024. Vindima sem chuva, com maturação plena, originando uvas sãs, equilibradas e de excelente qualidade. As condições climatéricas proporcionaram às uvas tintas, e em especial à Baga, um desempenho extraordinário. Tudo indica que será uma das melhores colheitas de tintos da última década.

Ano desafiante no controlo do míldio, devido às chuvas persistentes até final de Maio. Pouca chuva e temperaturas muito elevadas em Julho e Agosto, conduzindo a vindima precoce nas castas brancas. Algumas castas brancas com acidez menor do que o habitual na região, ainda que a consistência de outras castas tenha equilibrado os lotes.

Jorge Serôdio Borges e Sandra Tavares da Silva fizeram da Wine & Soul uma referência no Douro

+ Excelente maturação fenólica, após o arrefecimento das noites a partir da segunda semana de Setembro. Maturações suaves, vinhos extremamente frescos e com excelente equilíbrio. Vinhas velhas em perfeita harmonia, mostrando a sua resiliência e aptidão para superarem anos desafiantes. Vinhos muito surpreendentes, vibrantes, com frescura e elegância.

Primavera com elevada precipitação e grande pressão fúngica, o que levou a uma ligeira quebra de produção, principalmente associada ao míldio. Quebra de produção acentuada pelas três vagas de calor em Junho, Julho e Agosto. Em Agosto, tivemos 10 dias consecutivos acima dos 40º C, o que, no caso das vinhas mais novas, foi muito impactante em termos de produção.

 

As vinhas velhas da serra de São Mamede são um tesouro para Tiago Correia e Diogo Vieira, da Altas Quintas

+ Disponibilidade hídrica nos solos, com as chuvas da Primavera e início do Verão. Apesar do calor de Julho e Agosto, não houve escaldão acentuado. Início da vindima a meio de Agosto, com uvas brancas de excelente equilíbrio ácido. Alicante Bouschet mais precoce que o habitual, com excelente maturação fenólica e frescura impressionante. Castelão obteve maturação fenólica com teores de álcool perto dos 12%.

O Verão começou mais tarde, no entanto com temperaturas médias mais altas e amplitudes diárias menores. Algumas castas tintas tiveram dificuldade na maturação, apenas desbloqueada após as chuvas que ocorreram no início de Setembro.

Vindima
Tiago Correia e Diogo Vieira

 

A vindima sem chuva deu a Paulo Nunes as condições ideais para tomar decisões atempadas

+ 2025 foi um dos raros anos em que o clima de Setembro e Outubro permitiu a decisão de vindima não condicionada pelas chuvas típicas do equinócio, especialmente gravosas em regiões como a Bairrada e o Dão. O tempo seco em Setembro e Outubro possibilitou sanidade inequívoca da uva e vindima orientada pela qualidade polifenólica. Excelente equilíbrio entre acidez e açúcares, esperando-se grandes vinhos.

Chuvas intensas até Abril provocaram quebras de produção significativas, com problemas na floração que levaram a vingamento menos positivo. O calor intenso de Julho e Agosto provocou algum stress hídrico, especialmente em vinhas mais novas e de exposição solar mais intensa. Alguma atipicidade no ciclo natural de maturação, levando o local a ser mais importante do que a casta na decisão de vindima.

 

Vindima
Paulo Nunes

 

Na Quinta da Gaivosa, Domingos e Tiago Alves de Sousa fazem balanço muito positivo

+ Reservas de água acumuladas fizeram face ao calor estival, com o calendário vitícola a recuperar consideravelmente. Uma das vindimas mais serenas de sempre, sem qualquer condicionamento, aguardando o momento de cada vinha. DOC Douro equilibrados, frescos, sólidos, com imensa qualidade e longevidade. Breve pico de calor na segunda quinzena de Setembro, que trouxe a concentração e intensidade para os vinhos do Porto.

Nascença em contra-ciclo face à bem mais abundante colheita anterior, quebra acentuada por primavera extremamente chuvosa, com impacto na floração, elevada pressão fitossanitária e algum atraso nas etapas iniciais do ciclo vegetativo. A quantidade ressentiu-se, com produção 17% abaixo da média dos últimos 5 anos e 29% abaixo de 2024.

(Artigo publicado na edição de Novembro de 2025)