HERDADE DO MONTE DA RIBEIRA: O mosaico vivo da Vidigueira

RIBEIRA

A Herdade do Monte da Ribeira, à qual foi, posteriormente, anexada a Herdade do Farrobo, constitui uma área total de 1100 hectares, localizados em Marmelar, na Vidigueira, sub-região do território vitivinícola do Alentejo. Este número está distribuído pela serra do Mendro, com 600 hectares, o olival, com 210, e a vinha, com 43, entre outras […]

A Herdade do Monte da Ribeira, à qual foi, posteriormente, anexada a Herdade do Farrobo, constitui uma área total de 1100 hectares, localizados em Marmelar, na Vidigueira, sub-região do território vitivinícola do Alentejo. Este número está distribuído pela serra do Mendro, com 600 hectares, o olival, com 210, e a vinha, com 43, entre outras zonas que compõem a manta de retalhos desta enorme extensão de terra. Há uma imensa paisagem a explorar na companhia de Mariana Carmona e Costa, diretora agrícola e oleóloga da Casa Agrícola HMR, e descendente da família proprietária, Nuno Elias, enólogo e diretor de produção, e António Maria Aleixo, responsável pela produção agrícola. A Casa Agrícola HMR, à qual pertence esta propriedade, faz parte da Fundação Carmona e Costa.

A introdução é feita por Nuno Elias, que começa por explicar a origem da referida extensão de montanhas, que se prolonga no lado norte da propriedade. “É uma zona de encontro de mini falhas tectónicas, que deram origem a esta elevações, com cerca de 400 metros de altitude e é nesta correnteza que está a barragem do Alqueva.” A serra do Mendro forma uma barreira natural que impede a passagem do vento, situação benéfica para a vinha, uma vez que “a junção de temperatura alta com a deslocação do ar seca tudo”, explica o nosso cicerone. Mesmo no verão, quando o termómetro regista altas temperaturas, “mesmo que haja aqui uma nortada, ela não entra. Então, só temos calor e forma-se uma humidade natural relativa matinal, mas como não há deslocação de ar, mantém-se e as cepas sofrem menos”, afirma o enólogo. No inverno, os nevoeiros tomam conta da paisagem até perto das 10h00. “Felizmente, isso já não é comum a partir do ciclo da planta, a partir de maio. Portanto, temos boas condições para que não se formem tantos fungos nas plantas”, continua Nuno Elias.

A respeito do míldio, a escassez de chuva no Alentejo durante o período vegetativo é vantajosa. “No caso do oídio este precisa de mais humidade relativa aqui existem condições matinais que são propícias e necessitam de um acompanhamento mais efetivo”, informa. Em contrapartida, as chuvas registadas na primavera deste ano de 2025 deram origem a condições favoráveis à vinha, “quer ao nível da hidratação, reposição de trabalho de campo, como lhe chamamos, quer ao nível das pragas. Não se previa que o efeito das chuvas fosse tão benéfico”, reforça Nuno Elias, já que abundância pluvial suprimiu a reprodução da cigarrinha e do aranhiço, dois inimigos das plantas.

António Maria Aleixo, responsável pela produção agrícola, Mariana Carmona e Costa, directora agrícola e oleóloga, e Nuno Elias, enólogo e director de produção.

 

Eficiência hídrica

São três as barragens da Herdade da Ribeira do Monte, as quais favorecem a autonomia na rega. Este passo foi dado após a compra desta propriedade alentejana por Vítor Carmona e Costa, fundador da atual Casa Agrícola HMR – então Companhia Agrícola de Desenvolvimento – e tio-avô de Mariana Carmona e Costa. A estreia aconteceu com a barragem de Marmelar, construída no curso da ribeira de Marmelar, com localização próxima à adega. Possui uma bacia de 50 km2.

Numa quota de 100 metros situada na outrora Herdade do Farrobo, está outra barragem, que “raramente atinge a quota máxima”. Próximo do limite da propriedade está a Barragem dos Patos. Funciona quase como reserva e não raras vezes, a partir de meio de setembro, quando surge a ameaça da escassez das chuvas, é necessário recorrer a esta para regar o olival. O transvase de água efetuado de umas barragens para as outras é efetuado através da energia produzida pelos painéis solares. “Neste momento, as restantes barragens são complementares e isso permite-nos ter autonomia entre os 80% e os 90% em área de regadio, isto é, para a vinha e para o olival”, elucida a nossa anfitriã.

“A chuva faz a diferença na agricultura”, pronuncia-se Nuno Elias, para quem “um fruto que seja acompanhado com hidratação durante o período do amadurecimento tem mais qualidade do que o fruto que ficou à míngua do amadurecimento”. Mariana Carmona e Costa acrescenta as vicissitudes inerentes à competição existente entre a cobertura do solo com a videira em anos de um menor registo de pluviosidade. Nos anos em que chove, essa luta é inexistente, mas impera o corte quase sucessivo da cobertura, “devido à quantidade de água da chuva no solo, que fez com que cresça em demasia”.

Por outro lado, face às temperaturas muito altas associadas a solos pobres e a secas cíclicas, o envelhecimento prematuro das videiras tem vindo a tornar-se um problema. Segundo Nuno Elias, a rega, mesmo gota a gota, adia esta realidade. A água permite que se mantenham “vivas durante a hibernação, que vai até março, e tenham energia para refazerem a sua camada foliar. Para manter uma empresa ativa e lucrativa, temos um ponto de substituição, daí já não termos plantas tão antigas.” A vinha plantada inicialmente, em finais da década de 1980, foi convertida. A vinha mais velha data de 1998. “Se o Alentejo não estiver na região produtora de vinhos mais extrema, está perto!”

Solos diferentes

“Apesar de não ter uma altitude considerável”, a serra do Mendro “deu origem a tipos de solos diferentes”, continua Nuno Elias. De acordo com o enólogo, alguns solos contêm magma e muitos minerais na composição. “Temos manganês fora da escala e o manganês é antagonista do potássio. Por isso, há que ter cuidado com algumas castas. Com o tempo, conseguimos lidar com estas especificidades dos solos que aqui temos.” Por outro lado, os solos são maioritariamente pobres, característica que compromete o aporte nutricional das plantas. Como consequência, “praticamente todo o nosso encepamento produz pouco”.

A contraposição a este cenário acontece na Vinha do Pivot, de 15 hectares, localizada no sopé da serra. Chama-se assim, “porque existia ali um pivot de milho de 30 hectares, que posteriormente se dividiram, em partes iguais, em vinha e em olival”, expõe. É composta por solos de aluvião, com argila ali depositada graças à erosão dos solos da serra do Mendro. “É um solo mais rico, mais fértil e a vinha tem mais vigor. Temos boa capacidade de campo, porque, quando chove, a água fica retida e fica disponível por mais tempo para as plantas”, sublinha.

A Vinha do Farrobo, de oito hectares e cujo nome que se deve Herdade do Farrobo, a segunda propriedade adquirida e anexada à Herdade do Monte da Ribeira, apresenta “uma espécie de solo intermédio”, com calhau rolado e “algum aluvião”, o que leva Nuno Elias a considerar que, em tempos, a ribeira de Marmelar, um afluente do rio Guadiana, passou por ali. “É um solo bastante permeável e com boa drenagem”, destaca. O solo muito pobre está na área da vinha mais velha, submetida a várias replantações. “Era terra de azinho, de difícil trato, daí a opção por várias técnicas de campo, como coberturas, enrelvamentos”, revela o enólogo.

Mudanças, ensaios e perseverança

Sobre as castas, Nuno Elias refere os momentos mais marcantes, ao longo dos quais o fator qualidade é determinante. O primeiro ocorre no final da década de 1980, com a estreia da vinha sob recomendação da Direção-Geral da Agricultura. Segundo António Maria Aleixo, esta cultura ocupa, inicialmente, 50 hectares. “Estavam divididos ao meio, com as castas tintas no lado esquerdo e as brancas no lado direito”.

As castas eleitas para a vinha inicial eram comuns ao Ribatejo e Alentejo, como as tintas Castelão, Aragonez e Trincadeira. Quanto às brancas, a aposta recai nas variedades locais, como Antão Vaz, Tamarez, Trincadeira das Pratas, Alicante Branco. A enologia fica nas mãos de João Portugal Ramos e são plantadas a Cabernet Sauvignon, a Arinto e a Alicante Bouschet. Mantém-se um rácio de 80% de castas autóctones, com a Alfrocheiro, a Trincadeira, a Moreto e a Aragonez, nos tintos; a Tamarez, a Antão Vaz e a Roupeiro, nas brancas. Introduzem-se algumas experiências, como a Cabernet Sauvignon, um caso de sucesso, e a Riesling. Esta “não vingou, porque o clima era demasiado seco, o que interferia na acidez natural da casta. Foi convertida a Arinto”, reforça o enólogo. Entretanto, na década de 1990, a adega é construída de raiz e equipada com o sistema de operações por gravidade. “Foi muito pioneira na altura e por aconselhamento de João Portugal Ramos”, reforça Mariana Carmona e Costa. Com a passagem do tempo, são incluídas novas máquinas, para dar resposta às exigências de cada fase. António Maria Aleixo ingressa na equipa em 1998 e, no ano seguinte, é a vez de Nuno Elias entrar no universo da Casa Agrícola HMR.

Por volta do ano 2010, a administração da Fundação Carmona e Costa transita para os sobrinhos de Vítor Carmona e Costa e Maria da Graça Carmona e Costa. É registada a admissão de Luís Duarte, que ainda hoje assume a função de enólogo consultor. O encepamento é submetido a ajustes. Nas castas brancas, à Antão Vaz, Roupeiro e Arinto, junta-se a Alvarinho e a Verdelho; nas tintas, aumentam, gradualmente, a área da Alicante Bouschet, “que se tem revelado muito interessante em anos quentes”, salienta Nuno Elias. Mantém-se a Cabernet Sauvignon, plantada em 1998.

No âmbito das experiências positivas, Nuno Elias enaltece a Petit Verdot. Plantada em 2011, confere longevidade ao vinho tinto. “No Alentejo, os vinhos tintos têm uma tendência de iniciarem a sua vida logo muito macios, porque a maturação é mais extensa ou, às vezes, vão para a sobrematuração, e os taninos ficam logo muito maduros. Se o vinho é totalmente bebível em novo, cedo vai cair o potencial de guarda elevado. Por isso, precisamos de castas que, no início, tenham um tanino fino, mas domável, e que esteja lá mais tarde. A Petit Verdot foi uma das castas que melhor triunfou neste contexto e é usada em 30% ou 40% em lotes com estágios”, esclarece. Aqui, dá como exemplo o Marmelar tinto, referência topo de gama do portefólio vínico da casa.

Sub-região de brancos

Nos encepamentos mais recentes da Herdade do Monte da Ribeira, constam a Sousão e a Tinta Miúda. A respeito da primeira, há uma parcela de vinha denominada Ensaio 1, pois “é preciso perceber como a casta se comporta neste terroir e também verificar se, agronomicamente, se torna ou não um problema”, adianta Mariana Carmona e Costa. Em relação à segunda, o enólogo denota otimismo relativamente “ao comportamento da planta e ao resultado da vinificação. Portanto, o futuro trará novidades para mostrar”.

Apesar das castas tintas ocuparem a vinha em 75%, Nuno Elias está convicto de que a sub-região da Vidigueira apresenta condições especiais para vinhos brancos. O destaque vai para a Antão Vaz. “Embora seja um fruto que, analiticamente, não é muito interessante, porque carece de acidez, depois, expressa uma série de características no copo, as quais dificilmente se consegue obter com outras castas.” Ao volume de boca, o enólogo aponta a consistência, de ano para ano, desta variedade, mesmo sob as oscilações térmicas. “Não é uma casta para os mais fracos, já que, muitas vezes, se chega a meio da vindima e regista 10 graus. É preciso que a fase final do ano agrícola seja favorável, ou seja, que não chova até meados de setembro, para que a maturação se complete.”

Não obstante a tipicidade da Antão Vaz, a Arinto é muito importante no encepamento da Herdade do Monte da Ribeira. Representa sucesso, quer a solo, quer em lote com a casta-rainha da Vidigueira, devido à acidez que lhe é característica. A Alvarinho, uma das favoritas do enólogo, porque dá corpo a vinhos longevos, também entra nesta linha, embora produza metade das demais brancas. Em suma, “prevejo que, para bons casos de sucesso, esta região mantenha a Antão Vaz sempre presente, para manter a sua identidade, mas sempre com uma casta nobre, que a ajude, de forma a chegar ao mercado de forma consistente.”

A terceira fase da Casa Agrícola HMR está a dar os primeiros passos num momento controverso para o universo do vinho. “É tudo volátil, cíclico. O que hoje é bom, amanhã muda. Estamos num mercado que depende de gostos, que é de modas. Durante 20 anos, falamos da passagem de brancos para tintos. Agora, passamos de tintos para brancos. É preciso entrar numa constante mudança. Ao mesmo tempo, é necessário ter os pés bem assentes na terra, porque o que estamos a fazer mal agora, a seguir vai estar bem”, reflete Nuno Elias.

A vindima e o vinho

A Casa Agrícola HMR é um bom exemplo de vitivinicultor: possui vinha e produz vinho com uvas próprias na adega da Herdade do Monte da Ribeira, onde é engarrafado. A vindima é manual e mecânica. “Curiosamente, estamos muito satisfeitos com os resultados da vindima mecânica, que nos permite fazer 100% vindima noturna, com temperaturas de chegada à adega muito inferiores à da vindima diurna, e é mais rápida”, confessa Nuno Elias. Em cerca de 15 minutos, a matéria-prima colhida na vinha está no tegão. “As uvas são descarregadas, desengaçadas, passam pelo permutador, para arrefecer até aos 10 graus, sejam brancas ou tintas e nenhum vinho leva engaço.”

Na gama de entrada, a Pousio Selection, constituída por branco, tinto e rosé, Nuno Elias destaca este último, uma vez que é feito a partir de mosto de lágrima de uvas tintas. Esta segue para as cubas de inox, onde é submetida, por um mês, a bâtonnage. “É 100% seco, tem zero açúcar residual e é muito gastronómico. Embora seja gama de entrada, este rosé é equivalente a muitas altas gamas”, revela o enólogo. Os Pousio Reserva branco e tinto são caracterizados pelos estágios em madeira, respectivamente, de seis e 12 meses. Os lotes são feitos após a prova final.

As edições limitadas, composta por varietais e lotes, resultam de “um Alicante extraordinário” da colheita 2020, conhecido por Parcela 98, que desperta a atenção para outras variedades de uva. É o caso da Arinto, elaborada a solo para um vinho branco, bem como a dar corpo a um lote, ao lado da Alvarinho. A Touriga Nacional e a Syrah são tidas, igualmente, em consideração na versão monocasta.

Fora da gama Pousio, está a “super-premium” Marmelar, nome eleito “em homenagem à terra onde está a propriedade”. São um branco e um tinto “muito especiais”, remata Nuno Elias.

RIBEIRA

Do olival tradicional à sebe

A compra da Herdade do Monte da Ribeira ocorre a 8 de agosto de 1986 e a Herdade do Farrobo é adquirida no princípio da década seguinte, por Vítor Carmona e Costa, tio-avô de Mariana Carmona e Costa. “Era um agro-industrial com uma paixão enorme pela terra. Costumo dizer, por brincadeira, que a propriedade é o prolongamento da horta que tinha na casa de Alcabideche”, no concelho de Cascais. A partir de então, refugia-se na herdade juntamente com a mulher, Maria da Graça Carmona e Costa, “uma apaixonada e uma expert em arte contemporânea em Portugal. Foi mecenas da arte no país”. Os sobrinhos são igualmente bem-vindos, sobretudo no verão.

Ainda a vinha não estava plantada, já o olival tradicional de sequeiro da Herdade do Monte da Ribeira, com cerca de 110 hectares e composto por muitas árvores milenares, mostra o seu vigor. As variedades são, maioritariamente, Galega, além de Bico de Corvo, “mix entre o Zambujeiro e a Galega, meio alongada e não se retira muito azeite”, em conformidade com a nossa anfitriã, e Verdeal. Em 2000, chega a vez da plantação do olival intensivo de regadio, um total de 76 hectares, “com, maioritariamente, Cobrançosa e apontamentos de Cordovil e Picual”. O olival de sebe de Arbequina foi plantado em 2003 e 2008, correspondendo a uma área de 24 hectares. “Está distribuído por duas parcelas: na Herdade do Monte da Ribeira, com 14 hectares, e na Herdade do Farrobo com 10 hectares”, afirma Mariana Carmona e Costa. Esta decisão é tomada com base no aumento da capacidade de armazenamento de água, o qual se deve às barragens existentes na propriedade.

Eis o outro mundo de Mariana Carmona e Costa, profunda conhecedora de todos os recantos da propriedade, serra do Mendro inclusive, onde estão dispostos dois apiários de um apicultor de Moura. “Em troca, recebemos uma parte do mel de rosmaninho por ano.” Em 2003, começa a pós-graduação em olivicultura, azeitona e azeitona de mesa, no Instituto Superior Agrónomo, de Lisboa, já depois de terminar a formação em viticultura e enologia na Universidade de Évora.

A par com o sucessivo aumento da área total de olival, hoje com 210 hectares, passam de produtores de uva, para produtores de azeite e azeitona vendidos a granel. Quando se apercebe do potencial do produto, a nossa anfitriã questiona sobre a eventual feitura de um lote deste líquido dourado. O nome? Pousio, predominante no portefólio vínico da casa. O lote experimental sai em 2013. Três anos depois, avança para o mercado, com o Pousio Premium e, em 2019, surge o Pousio Clássico. A empresa aposta forte na venda do azeite embalado num garrafão escuro, com capacidade de três e cinco litros. Em 2022, aparece Pousio Homenagem Oliveiras Centenárias, aquando do projeto Olivares Vivos, que incide na atribuição do certificado europeu face ao compromisso dos olivicultores a respeito da preservação da biodiversidade. Todo o azeite é extra virgem.

Líquido dourado

Antes da produção, é efetuada a monitorização das amostras de todas as variedades de azeitona. O objetivo é “avaliar o teor de matéria seca, a gordura e a humidade, para vermos se estão no ponto”, informa Mariana Carmona e Costa, que permanece muito tempo no campo, contando com o desempenho de António Maria Aleixo. A campanha começa com a apanha da Arbequina dos olivais em sebe, a qual demora cinco dias. A Galega também é colhida muito cedo, em outubro, para obter uma azeitona mais verde e com sabores “a frutos secos, como a amêndoa, mais amargos”. No geral, conseguem-se “notas mais positivas nos nossos azeites e também temos mais a certeza que têm uma acidez mais baixa. Quanto mais tarde é a apanha, maior é o grau de acidez”, assegura a nossa anfitriã. Morosa, a campanha termina entre dois meses e os dois meses e meio, com a Cordovil, a Cobrançosa e a Picual, pelo meio, concluindo com as parcelas de Verdeal do olival de sequeiro.

O transporte adequado e assegurar as condições do lagar são imperativas em prol da produção de um azeite de qualidade. O lagar está na Vidigueira, para onde são levadas por variedade. A extração do azeite é feita a frio. Depois “fica tudo separado por depósitos por variedades e por zonas da propriedade. Mesmo dentro das Arbequinas, separamos as das duas parcelas, porque conferem particularidades diferentes às azeitonas”, garante. Segue-se a prova sensorial de todos os depósitos, com o diretor de lagar e o mestre lagareiro. Traçados os perfis, Mariana Carmona e Costa avança para os blends. A média anual é de aproximadamente 800 toneladas.

“Equiparo o azeite ao sumo de laranja, em que o ponto ótimo é o momento da extração. A partir daí, vai perdendo, a pouco e pouco, as propriedades, ao contrário da maior parte dos vinhos. Por isso, é importante preservar o azeite da melhor maneira, em local escuro”, aconselha. Estes cuidados permitem minimizar a degradação do azeite, produto “rico em antioxidantes, em polifenóis e clorofila”. A estas recomendações, Mariana Carmona e Costa soma a importância da literacia ligada ao azeite. É crucial “que as pessoas experimentem azeites de norte a sul, porque o clima muda muito, as terras mudam muito, para verem o que mais gostam com determinados pratos e, acima de tudo, educarem os filhos, porque é uma gordura super saudável”

Ao contrário do vinho, o negócio do azeite revela maior desperdício, daí que o custo de produção seja maior. A seleção do recipiente é igualmente relevante, pois há que preservar o produto. Uma embalagem bonita chama a atenção, sobretudo para oferecer, mas convém que se esteja ciente da durabilidade do azeite, ou não fosse o extra virgem ideal para finalizar um prato: “o mais intenso, para a massa ou um gaspacho, o mais plano, para peixe de mar fresco, assado no forno, e os mais picantes para a batata, o queijo fresco de cabra ou a salada.”

RIBEIRA

Regeneração e biodiversidade

“Temos um mosaico e uma diferenciação bastante grande” na propriedade, tal como se comprova do alto do miradouro da serra do Mendro, virado para a Herdade do Monte da Ribeira, onde o rio Guadiana corta e planície deste Alentejo quase sem fim. Mariana Carmona e Costa quer preservar este património da melhor maneira, para “deixar, às futuras gerações, melhor do que encontramos aqui, quando viemos para aqui trabalhar”.

A transição para a agricultura de sustentabilidade com práticas regenerativas marca a nova era da Herdade do Monte da Ribeira, para tornar os solos mais resilientes e de modo a evitar a erosão. A introdução do rebanho de ovelhas, prática iniciada há quatro anos, é outra das práticas com resultados positivos, assim como a utilização de maquinaria adequada a esta iniciativa. Ao mesmo tempo, “é preciso manter o ecossistema, preservar o mosaico que temos em prol da qualidade, temos olival, vinha, zonas de mato, de azinho, caça, a serra, linhas de água”, enumera António Maria Aleixo. A flora e a fauna do Mendro estão a ser analisados, com o apoio de consultores, a favor da biodiversidade.

O desvelo estende-se aos trabalhadores do campo. “Tentamos ter, ao máximo, pessoas das aldeias vizinhas e priorizar os filhos e as famílias, para lhes darmos trabalhos a eles, mas as gerações mais novas não querem trabalhar no campo, os mais velhos estão a reformar-se e os pais não querem os filhos a trabalhar na agricultura. Somos forçados a recorrer a prestações de serviço. Estamos num momento de viragem”, remata a nossa anfitriã.

(Artigo publicado na edição de Novembro de 2025)

CASA DA RÉSSA: O espelho de Folgosa do Douro

Casa da Réssa

Porquê no Douro? Pela “vinha com aquela beleza, o quadro que nos proporciona”. A justificação é dada por Alexandre Dias, o empresário que, após o regresso a terras lusas, a pouco e pouco, foi investindo na região demarcada mais antiga do mundo, mais concretamente na margem sul do rio que lhe empresta o nome, pois […]

Porquê no Douro? Pela “vinha com aquela beleza, o quadro que nos proporciona”. A justificação é dada por Alexandre Dias, o empresário que, após o regresso a terras lusas, a pouco e pouco, foi investindo na região demarcada mais antiga do mundo, mais concretamente na margem sul do rio que lhe empresta o nome, pois a Casa da Réssa está localizada na Folgosa do Douro, no concelho de Armamar, distrito de Viseu, na sub-região do Baixo Corgo.

É um projeto recente, iniciado em 2019, com a aquisição da Vinha das Lages, de três hectares, um prelúdio de uma história que, agora, reúne “40 hectares de terra, entre olival, mato e 25 hectares de vinha. É casa que abriga todas aquelas parcelas que consegui juntar”. Uma manta de retalhos constituída por mais de 50 parcelas, de diferentes tamanhos e formatos, e pela Quinta da Médica comprada na totalidade.

A admiração pelo trabalho de enologia de Paulo Nunes determinou a escolha por parte de Alexandre Dias para a Casa da Réssa. “Filho deste território do Baixo-Corgo”, nas palavras do empresário, Paulo Nunes sente-se em casa neste projeto vitivinícola, ou não fosse a Vinha das Lages avistada da casa dos pais. “Conheço este emaranhado de vinhas, de parcelas, com vertentes voltadas a nascente, a norte, a nascente e a sul”, descreve, acrescentando a riqueza de um património vinhateiro coassociado com vinhas mais recentes. A localização estende-se entre os 170 e os 700 metros de altitude, com solos de xisto, mais abaixo, e a transição para granito, mas acima na orografia.

Casa da Réssa
Alexandre Dias, proprietário da Casa da Réssa

 

A Casa da Réssa é um projeto iniciado em 2019, em Folgosa do Douro. Reúne “40 hectares de terra, entre olival, mato e 25 hectares de vinha. É casa que abriga todas aquelas parcelas que consegui juntar”

 

Vinhos de parcela

O objetivo deste projeto “é isolar cada vez mais as parcelas, para fazer vinhos de parcela”, declara Paulo Nunes, com o propósito de evidenciar a diversidade do Douro. Com a silhueta paisagística desta região como ponto de partida para a explicação, o enólogo expõe as diferenças evidentes entre as cotas, com o Vale do Douro predominantemente xistoso e sem ventilação, dando origem a mais calor e humidade; e o planalto, denominado Monte Raso, caracterizado pelos solos de granito e as noites frias. Logo, as uvas vindimadas nas cotas mais baixas apresentam uma componente mais quente, de maior extração, enquanto as que são colhidas mais acima resultam em vinhos com uma componente mais fresca e uma acidez mais marcante.

Estas diferenças querem-se vincadas nos vinhos da Casa da Réssa. “Quisemos desconstruir um paradigma que o Douro vive, o qual vem de uma era de globalização, em que houve a necessidade de criar um padrão dos vinhos do Douro. Acho que fazer vinhos do Douro, no meu entender, não é a mesma coisa que fazer vinhos do Porto. Deveria haver duas regiões demarcadas”, defende Paulo Nunes, explicando que a produção de vinhos DOC Douro difere da produção de Vinho do Porto.

Além das vinificações feitas por parcela, o enólogo enaltece o trabalho efetuado na escolha das barricas, no sentido de “reunir o máximo de tanoarias que há, com diferentes queimas, diferentes tostas e diferente grão. Não temos duas barricas iguais da mesma tanoaria”. Este trabalho de precisão deve-se à abertura de Alexandre Dias, para quem o objetivo é “criar vinhos que sejam o espelho da essência daquele território (…) de fruta pura e alma rústica”. Talvez seja este o motivo pelo qual foi eleito o nome Casa da Réssa, “palavra do Douro e do Minho, que significa réstia de sol”.

A seleção de barricas baseia-se em queimas, tostas e grãos diferentes. “Não temos duas barricas iguais da mesma tanoaria”, afirma o enólogo Paulo Nunes

 

Património duriense

As vinhas antigas da Casa da Réssa são um legado de enorme importância para Paulo Nunes, o qual está nas mãos de João Costa, enólogo responsável pela adega e quem zela por todo o trabalho de campo. Dão corpo a um trio DOC Douro. Para comprovar tamanha dedicação a este legado, a equipa de enologia escolheu uvas “de um conjunto alargado de castas”, segundo Paulo Nunes, como Fernão Pires, Viosinho, Verdelho, Malvasia Fina, Malvasia Rei, colhidas em vinhas velhas localizadas em altitude, para fazer o Casa da Réssa Reserva branco 2022.
Embora a Touriga Nacional, a Touriga Franca e a Tinta Barroca constem na matriz do Casa da Réssa Reserva tinto 2021, este vinho também é feito a partir de uvas colhidas em vinhas velhas. Já o Casa da Réssa Grande Reserva tinto 2021 se traduz num field blend de vinhas velhas localizadas entre os 400 e os 500 metros de altitude. Para reforçar o carácter desta referência vínica, Paulo Nunes incluiu o engaço na equação, porque “dá-me mais camadas, texturas, ângulos, que me agradam particularmente” e submeteu o vinho a estágio apenas em barricas de madeira.

Mas o portefólio da Casa da Réssa não fica por aqui. Há um Porto Vintage 2023 e um Porto Colheita branco 2022. Sobre este último, o enólogo principal destaca o facto de ser “uma oportunidade para chegar a outros mercados”, uma vez que se trata de um tipo de vinho com mais acidez e mais equilíbrio, a somar ao prestígio atribuído ao Vinho do Porto. Ambas as referências são feitas a partir de uvas próprias e a ideia é, de acordo com Paulo Nunes, “trabalhar os vinhos do Porto com indicação de idade”.

(Artigo publicado na edição de Novembro de 2025)

 

Os retratos da vindima

Vindima

Na CARMIM, em Reguengos, Tiago Garcia e Rui Veladas confiam na longevidade dos tintos de 2025 + Uvas extremamente sãs, com óptimo estado sanitário. Brancas vindimadas mais cedo, com bela acidez e equilíbrio, resultando em vinhos citrinos, frutados e delicados. Nas uvas tintas, destaque para as castas mais tradicionais, como Aragonez, Trincadeira e Alicante Bouschet, […]

Na CARMIM, em Reguengos, Tiago Garcia e Rui Veladas confiam na longevidade dos tintos de 2025

+ Uvas extremamente sãs, com óptimo estado sanitário. Brancas vindimadas mais cedo, com bela acidez e equilíbrio, resultando em vinhos citrinos, frutados e delicados. Nas uvas tintas, destaque para as castas mais tradicionais, como Aragonez, Trincadeira e Alicante Bouschet, com muito boa maturação fenólica, concentração e taninos de qualidade, condições ideais para potenciar o estágio dos vinhos nas barricas.

As elevadas temperaturas na primeira semana de Agosto e a elevada humidade noturna das semanas seguintes resultaram em maturações menos homogéneas para algumas castas, como a Touriga Nacional e a Touriga Franca, dando origem a alguns vinhos menos equilibrados.

 

Vindima
Tiago Garcia e Rui Veladas

Na Cooperativa Agrícola de Pegões, a experiência e conhecimento de Jaime Quendera são determinantes

+ Muita chuva entre Janeiro e Maio, deixando os solos bem nutridos e permitindo um ciclo vegetativo equilibrado, praticamente até às vindimas. Uvas de excelente qualidade em todos os aspectos enológicos: bom fruto significa bom vinho. Vindima em condições secas, possibilitando colheita faseada, sem stress e sem o risco de podridões ou outros problemas que habitualmente surgem com a chuva nesta fase.

Menos 25% de uvas face à média dos últimos cinco anos. As chuvas abundantes causaram a ocorrência de míldio nas vinhas menos cuidadas, originando alguma perda da matéria-prima. Este cenário foi agravado pela fraca nascença, inferior ao habitual, e ainda por episódios de escaldão no final de Julho e início de Agosto, coincidentes com a onda de calor que afectou Portugal durante mais de 20 dias.

Vindima
Jaime Quendera

 

Em Valle Pradinhos, um ícone de Trás-os-Montes, Rui Cunha faz vinhos desde 1997

+ Início da vindima, a 1 de Setembro, com a Tinta Roriz para rosé, antes da Gewürztraminer, algo inédito em 27 anos! Maior quantidade de uvas brancas que em 2024. Nas castas tintas, bagos mais pequenos (em média menos 10% do peso de 200 bagos quando comparado com 2024), o que originou vinhos tintos com muito boa cor e uma belíssima estrutura.

Menor produção nas castas tintas, com menos cerca 15% face a 2024. Maior percentagem de uvas-passas, o que obrigou a uma menor velocidade do tapete de escolha, para permitir uma selecção da uva em condições. Número elevado de mão de obra estrangeira, implicando menor velocidade no corte e necessidade de explicação diária sobre o que não vindimar (netas).

 

Vindima
Rui Cunha

 

Director de enologia do grupo Bacalhôa, Francisco Antunes seguiu a vindima em várias regiões

+ No Douro, a excelente maturação, a qualidade dos taninos, a intensidade aromática e estrutura da Touriga Nacional. Em Setúbal, as maturações faseadas, com bela acidez e concentração, e destaque para Chardonnay, Fernão Pires, Merlot e Cabernet. No Alentejo, brancos exuberantes e frescos, e tintos poderosos de Alicante Bouschet. Na Bairrada, óptimas bases de espumante a partir de 11 de Agosto e tempo seco, que permitiu esperar pela Baga até final de Setembro, para excelentes tintos de guarda.

Florações complicadas e menor produção no Douro e na Merlot da Bairrada. Vaga de calor, com alguma desidratação em certas castas tintas do Douro e Setúbal, e maturação precoce da Cabernet no Alentejo. Quebra de produção na Moscatel de Setúbal, devido ao escaldão. No Alentejo, forte chuvada com granizo, na primeira semana de Agosto, afectou alguns talhões virados a norte.

 

A casta Alicante Bouschet é estruturante na Reynolds Wine Growers e nos tintos criados por Nelson Martins

+ Boa maturação fenólica, com bela acidez e teores alcoólicos moderados, originando vinhos elegantes, frescos e de taninos maduros. Nos brancos, destaca-se a fresca exuberância citrina da Arinto. Nos tintos, a elegância da Trincadeira e a fruta e intensidade da Syrah. A chuva de 7 de Setembro e a descida das temperaturas proporcionaram à Alicante Bouschet uma das melhores maturações dos últimos anos, assegurando tintos de notável estrutura e longevidade.

A vinha registou uma baixa frutificação devido à recuperação da tempestade de granizo ocorrida em 2024. O final de Julho e o início de Agosto, com temperaturas máximas acima dos 40º C e médias acima dos 30º C, prejudicaram o bom enchimento do bago, resultando numa perda de 40% da produção esperada.

 

Vindima
David Guimaraens

 

David Guimaraens, da Fladgate Partnership, está contente com os vinhos, mas zangado com os responsáveis durienses

+ A qualidade geral dos vinhos do Porto tintos. Considerando as temperaturas altas do verão e a ausência total de chuva a partir de Maio, produziram-se, ainda assim, vinhos fortificados, com uma intensidade de cor tremenda, mas mantendo uma exuberância aromática frutada, que lhes confere bastante elegância e os torna muito atractivos.

A falência económica dos viticultores durienses de média dimensão, que se dedicam à produção e comercialização de uvas. A incompetência colectiva do sector, desde as associações de comerciantes e produtores aos órgãos governativos do Douro. A conivência, que beneficia alguns e permite que a mesma videira possa, enganosamente, manifestar duas Denominações de Origem na mesma colheita.

 

Na Quinta das Bágeiras, Frederico e Mário Sérgio Nuno estão seguros de que 2025 será ano memorável de tintos

+ Apesar de estar abaixo de um ano médio, a produção foi significativamente superior a 2024. Vindima sem chuva, com maturação plena, originando uvas sãs, equilibradas e de excelente qualidade. As condições climatéricas proporcionaram às uvas tintas, e em especial à Baga, um desempenho extraordinário. Tudo indica que será uma das melhores colheitas de tintos da última década.

Ano desafiante no controlo do míldio, devido às chuvas persistentes até final de Maio. Pouca chuva e temperaturas muito elevadas em Julho e Agosto, conduzindo a vindima precoce nas castas brancas. Algumas castas brancas com acidez menor do que o habitual na região, ainda que a consistência de outras castas tenha equilibrado os lotes.

Jorge Serôdio Borges e Sandra Tavares da Silva fizeram da Wine & Soul uma referência no Douro

+ Excelente maturação fenólica, após o arrefecimento das noites a partir da segunda semana de Setembro. Maturações suaves, vinhos extremamente frescos e com excelente equilíbrio. Vinhas velhas em perfeita harmonia, mostrando a sua resiliência e aptidão para superarem anos desafiantes. Vinhos muito surpreendentes, vibrantes, com frescura e elegância.

Primavera com elevada precipitação e grande pressão fúngica, o que levou a uma ligeira quebra de produção, principalmente associada ao míldio. Quebra de produção acentuada pelas três vagas de calor em Junho, Julho e Agosto. Em Agosto, tivemos 10 dias consecutivos acima dos 40º C, o que, no caso das vinhas mais novas, foi muito impactante em termos de produção.

 

As vinhas velhas da serra de São Mamede são um tesouro para Tiago Correia e Diogo Vieira, da Altas Quintas

+ Disponibilidade hídrica nos solos, com as chuvas da Primavera e início do Verão. Apesar do calor de Julho e Agosto, não houve escaldão acentuado. Início da vindima a meio de Agosto, com uvas brancas de excelente equilíbrio ácido. Alicante Bouschet mais precoce que o habitual, com excelente maturação fenólica e frescura impressionante. Castelão obteve maturação fenólica com teores de álcool perto dos 12%.

O Verão começou mais tarde, no entanto com temperaturas médias mais altas e amplitudes diárias menores. Algumas castas tintas tiveram dificuldade na maturação, apenas desbloqueada após as chuvas que ocorreram no início de Setembro.

Vindima
Tiago Correia e Diogo Vieira

 

A vindima sem chuva deu a Paulo Nunes as condições ideais para tomar decisões atempadas

+ 2025 foi um dos raros anos em que o clima de Setembro e Outubro permitiu a decisão de vindima não condicionada pelas chuvas típicas do equinócio, especialmente gravosas em regiões como a Bairrada e o Dão. O tempo seco em Setembro e Outubro possibilitou sanidade inequívoca da uva e vindima orientada pela qualidade polifenólica. Excelente equilíbrio entre acidez e açúcares, esperando-se grandes vinhos.

Chuvas intensas até Abril provocaram quebras de produção significativas, com problemas na floração que levaram a vingamento menos positivo. O calor intenso de Julho e Agosto provocou algum stress hídrico, especialmente em vinhas mais novas e de exposição solar mais intensa. Alguma atipicidade no ciclo natural de maturação, levando o local a ser mais importante do que a casta na decisão de vindima.

 

Vindima
Paulo Nunes

 

Na Quinta da Gaivosa, Domingos e Tiago Alves de Sousa fazem balanço muito positivo

+ Reservas de água acumuladas fizeram face ao calor estival, com o calendário vitícola a recuperar consideravelmente. Uma das vindimas mais serenas de sempre, sem qualquer condicionamento, aguardando o momento de cada vinha. DOC Douro equilibrados, frescos, sólidos, com imensa qualidade e longevidade. Breve pico de calor na segunda quinzena de Setembro, que trouxe a concentração e intensidade para os vinhos do Porto.

Nascença em contra-ciclo face à bem mais abundante colheita anterior, quebra acentuada por primavera extremamente chuvosa, com impacto na floração, elevada pressão fitossanitária e algum atraso nas etapas iniciais do ciclo vegetativo. A quantidade ressentiu-se, com produção 17% abaixo da média dos últimos 5 anos e 29% abaixo de 2024.

(Artigo publicado na edição de Novembro de 2025)

RIBEIRO SANTO: Um quarto de século para celebrar

Ribeiro Santo

Carlos Lucas, natural de Coimbra, enólogo e produtor vitivinícola, tem motivos para comemorar. A Ribeiro Santo completa 25 anos e o filho, Diogo Lucas, com a mesma idade, integra, desde este ano, a equipa desta casa pertencente à região vitivinícola do Dão. Mas o nosso anfitrião volta um pouco atrás no tempo, para explicar a […]

Carlos Lucas, natural de Coimbra, enólogo e produtor vitivinícola, tem motivos para comemorar. A Ribeiro Santo completa 25 anos e o filho, Diogo Lucas, com a mesma idade, integra, desde este ano, a equipa desta casa pertencente à região vitivinícola do Dão. Mas o nosso anfitrião volta um pouco atrás no tempo, para explicar a origem da designação que abrange as sub-marcas da empresa, mais concretamente a 1995, ano da compra da propriedade da casa da família, a Quinta do Ribeiro Santo, situada em Oliveira do Conde, no concelho de Carregal do Sal. De acordo com as palavras do proprietário, o nome advém do copioso ribeiro, que nunca seca.

Esta quinta mantém o núcleo vinhateiro de Carlos Lucas, enquanto produtor de vinho, que, além da vinha ali existente, preparou a terra para, em 1997, plantar mais videiras, com base no rigor apreendido na juventude, em França. “A primeira colheita foi, portanto, em 2000”, da qual o enólogo detém uma dezena de garrafas de vinho feito a partir da casta Encruzado. A vinha totaliza, atualmente, dez hectares.

Ribeiro Santo

No próximo ano vão passar a ter 70 hectares de vinha. Graças à compra de 10 Hectares, em Tábua, onde vão plantar apenas a casta Encruzado.

Sobre a identidade da Ribeiro Santo, já naquela época, matéria sensível aos olhos do produtor, revela que foi criada pela empresa inglesa Amphora Design. “O primeiro rótulo da primeira colheita foi feito por esta empresa de design, hoje famosíssima no mundo”, enfatiza. Quanto ao lançamento da referência vínica, feita a partir da casta-rainha do Dão, Carlos Lucas optou por fazê-lo na The Wine Society, espaço de venda de vinhos a retalho mais antigo do Reino Unido. “Ainda hoje é nosso cliente”, acrescenta.

As colheitas sucederam-se e contribuíram para o crescimento do portefólio da Ribeiro Santo. Numa primeira fase, os tintos registam maior número de garrafas, sobre os quais Carlos Lucas destaca as colheitas de 2003 e 2005. “Mas também temos brancos e, nessa altura, só tinha Encruzado”, avança.

Novo capítulo

O ano de 2011 simbolizou o começo de uma nova era da Ribeiro Santo, com a fundação da Magnum Wines. Para além da revitalização do nome Ribeiro Santo, Carlos Lucas reforçou a aposta no portefólio da casa e materializou, em 2014, a construção de uma adega na Quinta do Ribeiro Santo. Em 2018, comprou a Quinta de Santa Maria. A propriedade, de dez hectares, situada em Cabanas de Viriato, no concelho de Carregal do Sal, próximo do rio Dão, mantém a vinha plantada, em finais dos anos 90 do século XX, pelo próprio, a qual ocupa cinco hectares.
“Em 2020, 2021, a Ribeiro Santo passou a ser uma das mais importantes da região vitivinícola e de seis hectares crescemos para 60 hectares de vinha.” De dois funcionários passou para 40 e a pequena empresa tornou-se uma média empresa. “É assim que a queremos manter, porque eu não quero ser o maior produtor de vinhos do Dão”, enfatiza o empresário, que se define como “profissional desta área a tempo inteiro”, trabalhando de corpo e alma para a Ribeiro Santo, desde 2019. “No próximo ano, passaremos a ter 70 hectares de vinha, porque compramos dez hectares, em Tábua, só para plantar Encruzado”, informa.

Entretanto, Carlos Lucas adquiriu uma propriedade com 40 hectares de vinha, em Oliveirinha, concelho de Carregal do Sal, próximo do rio Mondego, na confluência entre a IC 12 com a EN 234, a dois passos do caminho de ferro da Beira Alta e a cerca de 300 metros do apeadeiro, uma mais-valia para os clientes do futuro restaurante instalado na casa original. Segundo o empresário, o foco estará na cozinha tradicional, com o bacalhau e o cabrito a receberem o devido protagonismo.

 

Além deste espaço de restauração, este imóvel irá acolher a sede da empresa, uma loja de vinhos e tapas, com esplanada na varanda, e terá um túnel subterrâneo de acesso à nova unidade de vinificação do projeto Ribeiro Santo. De arquitetura contemporânea e desenhada em prol da eficiência energética, foi construída de raiz este ano e acaba de ser estreada nesta vindima. A referida passagem subterrânea vai facilitar a visita à sala de barricas e a dinamização da sala de provas da adega dividida, ainda, por um extenso espaço reservado às cubas e ao armazém, cuja capacidade dará resposta à produção anual de vinho da empresa. Sem esquecer os vinhos de nicho. “São muitas referências e todas elas com muito tempo de guarda”, revela Carlos Lucas.

É nesta fase que entra Diogo Lucas. Embora faça parte da equipa, o empresário esclarece que a empresa não é de cariz familiar. “Estes 25 anos traduzem a minha filosofia de vida e de trabalho, que é fazer bem feito. Desde o dia em que nasceu, o objetivo da Ribeiro Santo é ser distinta, não se massificar e não se banalizar.” Neste contexto, enaltece a importância da parte social da empresa, dando como exemplo o almoço confecionado diariamente para todos, sem descurar a qualidade de vida em Carregal do Sal.

Tudo pela região

A carreira profissional de Carlos Lucas está intrinsecamente ligada à região do Dão. Começou como enólogo na Adega Cooperativa de Nelas, em 1991. “Fazia oito milhões de litros” e foi “o primeiro enólogo a tempo inteiro numa adega cooperativa do Dão”, declara. No ano seguinte, implementou uma reforma marcante nesta instituição constituída por associados: decidiu disponibilizar um dos tegões só para a Touriga Nacional, no sentido de valorizar a casta, um tegão só para brancos e um outro para as restantes castas tintas, “onde entrava 80% das uvas”.

Encetou a visita aos produtores, que evidenciou a valorização das castas tintas em detrimento das brancas. “Ainda tenho garrafas de tintos da Adega Cooperativa [de Nelas], vinhos com trinta e pouco anos e que fazem as delícias de quem os bebe. O Dão é o que me corre nas veias”, sublinha o empresário, que faz uma leitura mais positiva a respeito deste território vitivinícola, outrora “muito massificado”, mas que, “agora, voltou a encontrar-se”, graças a “muito bons produtores, porque “uma região não se faz com um produtor. Uma região faz-se com um conjunto de produtores que regula uma qualidade média-alta. Neste momento, o Dão tem muita regularidade na qualidade do seu vinho”.

A mesma opinião é partilhada por Diogo Lucas, que assume a gestão da Magnum Wines, bem como a responsabilidade dos departamentos comercial e de comunicação dentro da empresa, sendo o elo entre a equipa de produção e os mercados: “O Dão é único em Portugal e até fora do contexto português. Muitas vezes, tendemos a classificar os territórios pela distância do Atlântico, em que os vinhos das zonas costeiras são mais frescos, com menos álcool e mais acidez, e os mais distantes são de clima continental, mais intensos. Mas, se pensarmos no Dão, o Dão é uma região que foge à norma nesse aspeto, porque tem a proteção das serras”, como a da Estrela, do Açor, Caramulo, Buçaco, de Leomil, da Lapa, de Montemuro… Para o mais recente elemento desta casa, formam uma proteção, que “acaba por mitigar o efeito do Atlântico e o efeito continental vindo de Espanha”.

Por exemplo, em Cabanas de Viriato, a Quinta de Santa Maria, inserida num planalto, com uma altitude média a rondar os 500 metros, beneficia de boa exposição solar e ventilação constante, fatores determinantes para um ciclo vegetativo positivo. “Os solos são graníticos, brancos, rochosos e pouco férteis, com presença frequente de afloramentos de quartzo, resultantes de filões quartzíticos que cruzam a zona”. A textura é rígida e “a drenagem é excelente”. Tudo junto, favorece “a produção de uvas com alta concentração fenólica e boa acidez, ainda que com baixos rendimentos”, continua. Face a este cenário, Diogo Lucas adianta que as castas tintas são as mais indicadas nesta zona. “A exposição solar e o ciclo de maturação permitem boa evolução fenólica, sem comprometer a frescura nem o equilíbrio dos vinhos.”

Nas localidades de Oliveira do Conde e Oliveirinha, onde as altitudes oscilam entre os 500 e os 650 metros, as vinhas estão plantadas, muitas vezes, em zonas “com exposições a norte, que ajudam a moderar a intensidade solar”. A amplitude térmica é mais reduzida quando comparada a Cabanas de Viriato, “a pluviosidade ronda os 700 milímetros anuais e a humidade relativa é elevada nos meses frios, embora com boa circulação de ar, o que evita excesso de pressão de doenças”, condições que contribuem para o equilíbrio entre acidez e maturação. Já os solos “são graníticos de textura franco-arenosa, com alguma profundidade e presença moderada de matéria orgânica (…). Apresentam boa drenagem, mas também alguma capacidade de retenção de água, uma mais-valia em anos mais secos. A composição revela baixos níveis de potássio disponível, o que ajuda a manter a acidez das uvas brancas”. Como tal, é, de acordo com Diogo Lucas, uma “zona especialmente indicada para castas brancas, como o Encruzado, que aqui expressa frescura, mineralidade e boa estrutura”.

Em suma, estão reunidas as condições para o enrelvamento natural e a supressão de herbicidas em qualquer uma das vinhas de Carlos Lucas.

 

A plenitude da casta-rainha

Dos vários anos dedicados ao Dão, Carlos Lucas dedicou-se a fazer um trabalho de seleção das castas, no sentido de conferir mais-valias na produção vínica do território. A variedade de uva Encruzado é representativa da identidade do Dão e eleita como protagonista no universo da Ribeiro Santo. “O meu pai também teve um trabalho importante nesta seleção, com a seleção e a divulgação da Encruzado em vinho extreme”, realça Diogo Lucas.

“Parte da minha vida enológica e da minha equipa tem sido dedicada a fazer cada vez melhores vinhos brancos, em que o Dão nunca apostou muito, porque os outros produtores dedicaram-se sempre muito aos tintos”, revela o empresário à Grandes Escolhas. A crescente aposta neste tipo de vinho reflete-se no aumento de área destinada à casta-rainha deste território vitivinícola por parte do nosso anfitrião, ou seja, Carlos Lucas reúne 17 hectares de vinha reservados à Encruzado, a qual vai passar para 27 hectares em 2026. Aliás, “metade das nossas referências são vinhos brancos”, reforça.

“Gostamos mesmo muito de vinhos brancos e de Encruzado. Vou ao restaurante e 90% dos vinhos que bebo são brancos. Para mim, a Encruzado podia ser um Premier Cru. Faço pelo Encruzado, pelo que a casta me dá. Aprendi a gostar de brancos, assim como aprendi a gostar de tintos”, expõe Carlos Lucas. Para Diogo Lucas, esta variedade de uva branca é de extrema importância no Dão. A afirmação é feita com base numa prova cega de vinhos feitos a partir de “castas históricas do Dão”. Esta missão foi realizada, há pouco tempo, no Centro de Estudos de Nelas. “Facilmente, toda a gente concordou que o vinho com maior equilíbrio, o mais prazenteiro, era, sem sombra de dúvidas, o Encruzado. É a única casta do Dão que, consistentemente, apresenta resultados de vinhos de qualidade superior. Depois também tem a ver com o lado vitícola, pois é uma casta muito resistente ao calor.”

Embora não considerem que seja ainda um problema no âmbito da Ribeiro Santo, as alterações climáticas vão ser um desafio, daí que o caminho seja apostar nas castas mais resistentes ao calor, “e o Encruzado tem essa particularidade”, remata.

 

Ribeiro Santo
Carlos Lucas com o enólogo Bernardo Santos

Quem é Diogo Lucas

Confessa que, desde cedo, iniciou as tarefas associadas ao trabalho vitivinícola e à produção de vinho. Tendo em conta a época em que a Ribeiro Santo se consolidou ainda mais no mundo do vinho, Diogo Lucas revela que desde jovem procurou ajudar, conjugando a escola com o tempo livre, para se dedicar ao negócio do pai. No currículo, a experiência vitivinícola é muito ampla, vai do engarrafamento à rotulagem, passando pela poda e pela vindima, pela carta de trator e manuseio da empilhadora, e pelo trabalho dedicado às barricas. “As novas tinham uma risca vermelha e o meu filho lixava-as, para ficarem bonitinhas. Comprei duas ou três lixadeiras, mas tu estragaste tudo [risos]”, conta Carlos Lucas, com orgulho.

Sem descurar a importância da vinha, o gestor da empresa denota preferência pela adega, como o momento de decisão mais interessante deste universo, desde a receção da uva, “que cria expectativa” à feitura do vinho. Mas, “tentei ‘fugir’, porque não tinha a certeza se seria esta a minha vocação”. Galgou a fronteira de Portugal, para estudar uma área que nada tinha a ver com enologia, mas “não estar, em setembro, nas vindimas, fez-me uma confusão enorme”. Paralelamente, incrementou o gosto pelas provas de vinhos. “Em casa bebemos vinho de várias regiões do mundo e cultivamos muito a vontade de conhecer coisas novas.”

Nos tempos da pandemia, trabalhou, em Londres, com Lance Foyster, Master of Wine, que importa vinhos. “Foi quando percebi que queria trabalhar na área dos vinhos, enquanto produtor e, neste momento, aliado ao meu pai. Regressei de Londres com outra visão. Investi mais nos estudos.” Fez o mestrado em Gestão, na Nova SBE, em Lisboa, e, agora, dedica-se à gestão da empresa. “Gerir uma empresa é fundamental, principalmente hoje em dia, com o mercado incerto e muito dinâmico”, justifica, dizendo que está de volta a 100% à Ribeiro Santo. “Está a ser uma oportunidade de muita aprendizagem – o meu pai é o meu grande mentor – e há um investimento muito grande na futura geração. Aliás, também estou a ajudar a empresa a viver uma nova etapa”, remata.

Equipa jovem

“Faço parte de uma geração que ajudou a mudar o setor do vinho em Portugal, a qual começou um pouco antes, com João Portugal Ramos, no Alentejo. Depois, apareceram o Anselmo Mendes e o Paulo Laureano, bem como o Jorge Moreira…”, assevera Carlos Lucas, que expressa felicidade de cada vez que prova colheitas com 30 anos. “Dediquei-me, de alma e coração, ao sector do vinho. Sempre fui enólogo, nunca fiz outra coisa na vida.” Afinal, esta não era de todo uma área que estava associada à atividade da família e o melhor retorno que tem é ouvir os comentários positivos da parte dos filhos. “Na altura, não sabia se era assim tão bom, porque não havia bitola, não tive um mestre. Fui responsável por milhões de garrafas desta região e por muitas outras de outras regiões do país”, conta. E do mundo, com Montpellier, no sul de França, Piemonte, no norte de Itália, ou Priorat, na Catalunha.

Sobre o percurso profissional, que soma 34 vindimas, Carlos Lucas revela o gosto de trabalhar em equipa. “Ao contrário de muitos enólogos, que não se lhes conhece gente à volta, nunca quis trabalhar sozinho. Formei muitos jovens. Um deles é o Tiago Macena”, enólogo candidato a Master of Wine. “Esse legado, essa riqueza eu procuro passar para os jovens”, frisa Carlos Lucas, que também se assume como criativo e “essa parte criativa é o que eu quero e estou a transmitir a esta juventude”, diz, referindo-se não apenas a Diogo Lucas, mas também ao enólogo Bernardo Santos, natural de Leiria e que, desde há sete anos, trabalha com Carlos Lucas, e a Natacha Barreto, engenheira química nascida em Aveiro, responsável pela vertente da investigação relacionada com os vinhos e que, no âmbito do protocolo estabelecido entre a empresa e a instituição de ensino, faz a ponte com a Universidade de Aveiro. Sem esquecer o enólogo bairradino Carlos Rodrigues, um dos grandes alicerces da casa, e “que trabalha comigo desde sempre”. Porém, todo o trabalho na adega é assegurado pelos mais novos. “Não poderia ter escolhido melhor professor”, remata Diogo Lucas.

A prova de uma vida

Uma viagem pela história da marca Ribeiro Santo contada em vinhos. Foi isso que foi proposto a Carlos Lucas, um desafio que o produtor abraçou com entusiasmo, quase como a prova de uma vida. As garrafas vieram da sua coleção e foram abertas no momento, com todos os riscos inerentes, pois a grande maioria destes vinhos não era provada há muitos anos, ninguém sabia em que estado se encontravam. Misturámos brancos e tintos, conceitos, perfis e segmentos de preço, indo dos entrada de gama aos mais raros e ambiciosos. A viagem teve o seu início, como deve ser, pelo princípio, com um vinho de 2000, Encruzado, por sinal. E terminou com alguns vinhos já engarrafados e que só irão para o mercado daqui a alguns anos.

Enquanto as garrafas desfilavam, percebemos os vários estádios do projecto Ribeiro Santo: a busca da afirmação inicial, com vinhos vigorosos e concentrados, a barrica bem presente; a procura de novos caminhos, com referências como E.T. e Envelope; e a busca da perfeição, do rigor, com alterações de perfil nas referências mais clássicas. São 25 anos de vinhos que nos mostram muito de um projecto, de uma marca, de uma pessoa. Vamos lá, então.

Ribeiro Santo Encruzado branco 2000. Era um vinho de gama média, sem madeira (“não havia dinheiro…”), dourado na cor, amendoado no nariz, seco e austero, com perfeita acidez a segurá-lo; muito citrino e limonado. Ainda um belo vinho, com bastante alma, a entregar muito prazer (18 pontos). Ribeiro Santo Escolha branco 2007. A marca viria a dar origem, mais tarde, ao Vinha da Neve. Encruzado, com 5% de Cerceal, agora já com barrica. Sente-se a madeira fumada, num registo, muito avelanado, expressando o estilo da época. Excelente acidez, firme, salino, largo, vibrante (18). Ribeiro Santo Escolha branco 2009. A barrica está bem mais moderada do que no 2007 (já não eram novas…), num registo perfumado, floral, muito elegante, fino. Tem excelente textura e cremosidade, de final citrino, vibrante, seco, longo (18,5). Ribeiro Santo branco 2010. É o entrada de gama dos brancos, custava então 2,50 euros. Mais evoluído que os anteriores, com notas de folha de chá, mas ainda vivo, graças à boa acidez; muito interessante como branco com idade (17).

Ribeiro Santo Vinha da Neve 2014. Já da era moderna da casa, com uma nova adega. Os topos passaram a barricas de 500 litros. Jovem ainda na cor e no aroma, com fruto delicado, especiaria, barrica perfeitamente integrada. Textura cremosa, num perfil bem encorpado, mas com acidez fina e incisiva, de final citrino, vibrante, longo (18,5). Envelope branco 2016. Um branco definidor, em vários sentidos. A nova marca, posicionada acima do Vinha da Neve, pressupunha classe e singularidade, através de vinificações diferentes, nomeadamente o trabalho com borras de decantação guardadas do ano anterior. A cor é incrível, parece ter três anos e não nove. Fantástico nariz, austero, com imensa pederneira, casca de laranja e limão, erva do campo, flores silvestres. Boca finíssima (a barrica não se sente) fresca, elegante, cremosa; um branco fantástico (19).

Ribeiro Santo Grande Escolha branco 2019. A diferença para o Vinha da Neve é que este pretende ser um “Garrafeira do Dão”, com muito tempo de barrica (incluindo carvalho americano, ao estilo Rioja) e garrafa. Encruzado, com 5% de Cerceal, tem imensa especiaria proveniente da barrica, mas esta não se sobrepõe, deixando surgir a fruta citrina, num vinho profundo e rico, com notas de manteiga cortadas por toque salino (18,5). Ribeiro Santo Encruzado Dourado branco 2020. O primeiro desta referência, um Encruzado com curtimenta completa. Tem menos cor do que seria de esperar de um curtimenta, imenso brilho no aroma, pederneira, casca de uva, citrinos de limão e toranja. Seco, sério, com amargos de casca e algum tanino, enorme garra, um branco incisivo, tremendo, com muito para crescer na garrafa (19).

Ribeiro Santo Grande Escolha branco 2023. Muito menos barrica (e menos textura…) do que o 2019, reflectindo o ar do tempo, e sem carvalho americano. Elegante, muito citrino, sério e afinado, um belo vinho branco, com alma do Dão, mas muito jovem ainda (está em estágio), precisa de tempo para crescer (18). Ribeiro Santo Encruzado branco 2024. O Encruzado “de entrada” (são 85 mil garrafas!) é um vinho muito bonito, com uma certa austeridade típica da casta, citrino, boa fruta de laranja e lima, um toque fumado de madeira quanto baste, tudo no sítio, uma verdadeira referência nesta categoria (17).

Ribeiro Santo tinto 2003. O vinho mais simples da marca. Mais de duas décadas depois, mostra o passar do tempo, com evolução notória no aroma, mas ainda com alma na boca, com taninos suaves, acidez equilibrada, mato e caruma (16). Ribeiro Santo Escolha 2005. Na época ainda não tinha madeira, o que terá, talvez, contribuído para a excelente cor que mostra, ainda com fruta no aroma e tanino bem presente na boca. Muito curioso, num perfil pouco comum para aqueles anos, com bastante garra, bela acidez, vibrante, sólido, longo; grande surpresa (18). Ribeiro Santo Grande Escolha 2008. Mais ambicioso, mas bem mais cansado do que o 2005, com evolução notória, toque amargo na boca, muito seco de taninos, em queda. Outra garrafa poderá estar diferente (15,5).

Ribeiro Santo Vinha da Neve tinto 2009. O primeiro Vinha da Neve. Grande nariz, exótico, flores silvestres, fruto negro, menta. Muita estrutura e densidade, bastante extração, representando bem a época; um tinto que se mastiga (18). Ribeiro Santo Grande Escolha tinto 2011. Um ano marcante para Carlos Lucas, com a criação da Magnum Wines. Um tinto “ao estilo de Rioja clássico”, com muita barrica e garrafa. Escuro ainda na cor, imenso no nariz, profundo e rico, fumados e especiaria. Notável textura de boca, num perfil carnudo, mas com bastante frescura, fantástica acidez a equilibrar tudo. Tremendamente jovem, para crescer em garrafa. Claramente, um vinho de afirmação pessoal (19,5). Ribeiro Santo tinto 2012. Na altura, custava 2,50 euros, mas vê-se que era bem mais ambicioso do que isso (a marca precisava de ganhar notoriedade). Muito limpo, ainda com fruto, amora, groselha, muito boa textura, sumarento, com nota de cacau amargo, grande surpresa (17).

Ribeiro Santo E.T. tinto 2013. O primeiro E.T., feito de Touriga e Encruzado, foi um vinho disruptivo, a marcar o início dos produtos diferenciadores na casa. Algo aberto de cor, está contido de aroma, muito elegante, muito delicado, num registo sofisticado, polido, ainda cheio de fruto, com imensa frescura e persistência (18,5). Ribeiro Santo Carlos Lucas/Carlos Rodrigues tinto 2015. Um vinho de reconhecimento ao trabalho “na sombra” de Carlos Rodrigues, está cheio de cor, com aromas complexos de fruto maduro, terra, húmus, cogumelos. Muita textura, muito corpo e densidade, mas muita frescura também, sólido, profundo, vibrante, sério, imensa garra e tensão. Muito jovem ainda, grande vinho (19).

Ribeiro Santo Touriga Nacional tinto 2017. Muito boa cor, madeira em primeiro plano, a fruta madura mais escondida, um curioso lado mentolado. Na boca, sente-se mais o lado de fruta madura, num perfil extraído e concentrado, mas com boa acidez a dar equilíbrio. Firme e seguro, um “Tourigão” (17,5). Ribeiro Santo Envelope tinto 2018. Os tintos Envelope começam a fermentar com engaço e, a meio da fermentação, saem das massas, acabando em barrica. Algo aberto de cor, muito elegante e frutado, framboesa e bagos silvestres, alguns fumados e especiarias. Tem volume e cremosidade, associada a tanino muito fino e discreto. Notável frescura de boca, sofisticado, longo, distinto. Imenso sabor, mas com leveza. (19).

Ribeiro Santo Vinha da Neve tinto 2019. Ainda se pode encontrar em algumas lojas. Bem escuro na cor, como é típico da marca, barrica e fruta de grande qualidade no aroma, imensa garra na boca, potente sem ser bruto, texturado e concentrado, mas ao mesmo tempo muito elegante, preciso, com um lado quase citrino que lhe confere imensa frescura e persistência. Um grande vinho, jovem ainda, a pedir tempo (19).

Ribeiro Santo Grande Escolha tinto 2020. Barrica, tosta, fumo, especiaria, muita riqueza de aroma e sabor, intenso, profundo, sempre com a acidez a equilibrar tudo. Largo, denso, opulento, rico, para durar (18). Ribeiro Santo Vinha da Neve tinto 2021. Menos barrica do que o 2019, mais evidência de fruta, groselha e framboesa, bagas vermelhas, um leve floral, mais elegante e menos potente do que o habitual. Apimentado, muito harmonioso, com tudo no sítio, muita especiaria, precisa de esperar uns anos (18,5). Ribeiro Santo Reserva tinto 2022. Custa entre sete e oito euros e mostra-se bem sumarento, com tostados de madeira bem integrados, taninos polidos, bastante equilibrado, saboroso, largo, muito bem feito (16,5).

Ribeiro Santo Vinha da Neve tinto 2023. Ainda em estágio, há ano e meio em garrafa. Mais Touriga do que o habitual, consuma a viragem iniciada com o 2019, para um estilo mais elegante, mais fino, mais fruta e menos barrica. Excelente fruta silvestre, imensa precisão, notável textura, discreta barrica, mas de superior categoria, mato e caruma, perfeita definição. Um tinto belíssimo que o tempo dirá onde vai chegar (19).

(Artigo publicado na edição de Outubro de 2025)

QUINTA DA ROMANEIRA: Vinhos de origem

Romaneira

A Quinta da Romaneira é uma das maiores do Douro, com nada menos que 412 hectares de área, estendendo-se por três quilómetros de frente de rio. A propriedade atingiu esta dimensão através da sucessiva compra de quintas vizinhas, a partir dos anos 40 do século XX. No entanto, foi apenas desde a sua aquisição, em […]

A Quinta da Romaneira é uma das maiores do Douro, com nada menos que 412 hectares de área, estendendo-se por três quilómetros de frente de rio. A propriedade atingiu esta dimensão através da sucessiva compra de quintas vizinhas, a partir dos anos 40 do século XX. No entanto, foi apenas desde a sua aquisição, em 2004, por um grupo de investidores liderados por Christian Seely, que este património vinhateiro entrou na sua “idade moderna”. Mas o grande momento de viragem viria a ocorrer em 2012, quando o empresário brasileiro André Esteves assumiu a maioria do capital, dando, a Christian Seely e ao enólogo Carlos Agrellos, as ferramentas necessárias para tirar o máximo partido do gigantesco potencial da propriedade.
Essa viragem implicou, entre outros, vários investimentos na viticultura, com destaque para a crescente atenção aos vinhos brancos, aproveitando as zonas mais altas da Quinta da Romaneira. Nos 86 hectares de vinha, a componente de branco tem vindo a aumentar, frequentemente à custa dos tintos, com várias replantações orientadas por Adelino Teixeira, o viticultor da Romaneira. A mais recente implicou o arranque de 6,5 hectares videiras tintas, plantadas junto ao rio, para serem substituídas por novas vinhas de castas brancas em altitude. Assim, a área de branco totaliza, hoje, 12,5 hectares, com exposições várias, de Nordeste e Sul-Poente, em patamares e vinha ao alto.

 

Romaneira

 

No que a brancos respeita, a vinha Pulga (outrora uma quinta autónoma com o mesmo nome) é a mais relevante. As uvas do Pulga Branco provêm de diferentes parcelas situadas entre os 200 e 550 metros de altitude, com exposições predominantes de Poente e Nascente-Sul, permitindo uma diversidade que favorece o equilíbrio e a complexidade do lote final. As vinhas estão implantadas em solos de matriz xistosa, típicos do Douro, com presença de áreas de franco-argiloso, que contribuem para a retenção hídrica e o equilíbrio nutricional das plantas. A casta mais representativa é a Boal do Douro (a Semillon francesa, bastante precoce no clima duriense, exigindo ser colhida cedo), seguida de Rabigato, Viosinho e Gouveio, em videiras plantadas entre 1997 e 2006, com operações de reenxertia entre 2011 e 2021, assegurando, deste modo, a continuidade do potencial produtivo e qualitativo. Segundo Carlos Agrellos, “as altitudes elevadas e as exposições a Poente potenciam a frescura e a acidez natural, enquanto as parcelas a cotas mais baixas e orientadas a Nascente-Sul proporcionam maturação equilibrada e expressão aromática.”

O Quinta da Romaneira Pulga começou a ser ensaiado em 2019 e 2020, mas a colheita de 2021 foi a primeira a chegar ao mercado. Na apresentação do 2024, tive ocasião de provar os anteriores, e a evolução em garrafa destes vinhos, 100% fermentados em barrica, é surpreendente, crescendo bastante com o tempo. Assim, o 2021 (50% Boal, 33% Viosinho, 17% Rabigato) revela leve evolução, mostrando-se gordo e cremoso, mas com imensa frescura e um final longo e salino (18 pontos); já o 2022 (80% Boal, 10% Viosinho, 10% Rabigato), apesar do ano quente, revela um sabor crocante, tenso, muito jovem ainda, com bastante classe (18); com lote muito semelhante ao 2022, o 2023 tem, curiosamente, mais evolução e menos frescura, mas, ainda assim, bastante equilibrado, amplo, convidativo (17,5).

A linha de brancos da Romaneira inicia-se agora no Dona Clara (substitui o anterior varietal de Gouveio e inclui mais castas), seguindo-se o Reserva, terminando, no topo com o Pulga. Carlos Agrellos diz-me que o objectivo é crescer na qualidade do Reserva, diminuindo a quantidade produzida, de forma a posicioná-lo num lugar central do portefólio, mais longe do Dona Clara e mais próximo do Pulga. Um trio de respeito, sem qualquer dúvida.

E os tintos

No entanto, a Quinta da Romaneira é, sobretudo, tintos, numa paleta de castas onde se destaca a Touriga Nacional e que inclui Touriga Francesa, Tinta Roriz, Tinto Cão, Syrah e Petit Verdot. E também aqui quase tudo (tirando o vinho entrada de gama Sino da Romaneira e os Dona Clara e Reserva) está “arrumado” por castas e parcelas. O Touriga Francesa vem da Carrapata, o Tinto Cão da Liceiras, o Petit Verdot do Mirante, por exemplo. Já o Syrah divide-se em duas referências, de tão distintas são as vinhas onde tem origem: Apontador e Malhadal. E a Touriga Nacional vem de três parcelas muito específicas, justificando o nome Três Parcelas. Carlos Agrellos sugeriu uma vertical de Apontador e Três Parcelas, proposta, naturalmente, irrecusável. Antes, algumas notas sobre estes vinhos e a sua origem.

A primeira vinha de Syrah foi plantada em 2005. A casta aguenta bem o calor, mas precisa de muito acompanhamento na maturação. Refere o enólogo que “tem quatro dias para vindimar. Depois disso, vira compota”. É por isso colhida, quase sempre, em final de Agosto ou início de Setembro. O Apontador tinto resulta de duas parcelas localizadas entre os 210 e 340 metros, com exposição Nascente-Sul, favorecendo, nas palavras de Carlos Agrellos, “uma maturação solar directa e consistente, ideal para vinhos tintos de estrutura e concentração.” As vinhas de Syrah foram plantadas em 2005 e o enólogo faz questão de realçar o porta-enxerto (1103P) “resistente e adaptado a condições de seca” e o clone (470), “conhecido pelo seu baixo rendimento e elevado potencial qualitativo. Estas condições resultam em uvas de excelente concentração fenólica, taninos maduros e perfil aromático complexo”, descreve Carlos Agrellos.

Provadas três colheitas, o vinho revelou grande homogeneidade, com o 2019 a evidenciar o lado carnudo da casta, com bela textura, polido e envolvente, rico, afirmativo, saboroso e longo (18); no 2020, sente-se o ano seco e quente, mas, ainda assim, está bem equilibrado, com taninos maduros, apesar de ser menos vibrante no final (17,5); grande nariz tem o 2021, cheio de fruta, com imensa alma, frescura, tanino e leves amargos a dar garra ao final impositivo e apimentado (18,5).
O Três Parcelas é um 100% Touriga Nacional, proveniente, como o nome indica, de três parcelas específicas da Romaneira: Tomba Chapéus, Apontador e Mina. Estas estão localizadas em diferentes altitudes e exposições solares. “As altitudes variam entre as cotas médias e elevadas, proporcionando frescura e elegância, enquanto as diferentes orientações solares permitem uma maturação completa dos compostos fenólicos”, explica Carlos Agrellos.

Aqui pude provar quatro colheitas, a começar pelo 2017, um tinto de excelente aroma, profundo e fino, com apontamentos florais elegantes, menta e especiaria, um vinho requintado, complexo e fresco ao mesmo tempo, e com muito para crescer na garrafa (18,5); no 2018, sente-se um ano fresco, vibrante, com a casta bem evidente, num estilo mais leve, elegante, sofisticado, perfumado e floral, um lado Touriga pouco comum no Douro (18,5); o 2019 foi o primeiro a levar a identificação Três Parcelas e mostra-se um vinho profundo, concentrado, cheio de fruto, com notas de amora madura, sólido, texturado, bem jovem ainda (18); no mercado está o 2020, ainda fechado, concentrado, com taninos gordos e polidos, sente-se o ano, mas, apesar do álcool elevado (15%) tem belo equilíbrio e presença (18).

A diversidade de castas, altitudes, exposições e solos da Quinta da Romaneira, aliada ao conhecimento vitícola e enológico de quem ali trabalha, permite a produção de vinhos que expressam, de forma autêntica, este território, e isso é bem evidente nestas provas. Nas palavras de Carlos Agrellos, “Pulga branco, Apontador Syrah e Três Parcelas Touriga Nacional representam o compromisso da Romaneira com a qualidade, o equilíbrio e a identidade dos vinhos do Douro.”

(Artigo publicado na edição de Outubro 2025)

AXA MILLÉSIMES: Pichon Baron e Suduiraut, esplendor bordalês

Pichon Baron

Quando se fala da AXA Millésimes em Portugal, a memória recai quase inevitavelmente sobre a reputada Quinta do Noval, um nome de peso no Douro. Alguns lembrar-se-ão também da Quinta do Passadouro. Porém, esta divisão da seguradora francesa está na origem de um portefólio internacional de propriedades vitivinícolas históricas, adquiridas numa altura menos favorável, revitalizadas […]

Quando se fala da AXA Millésimes em Portugal, a memória recai quase inevitavelmente sobre a reputada Quinta do Noval, um nome de peso no Douro. Alguns lembrar-se-ão também da Quinta do Passadouro. Porém, esta divisão da seguradora francesa está na origem de um portefólio internacional de propriedades vitivinícolas históricas, adquiridas numa altura menos favorável, revitalizadas e elevadas novamente à excelência.

Nesse conjunto cintilam dois nomes maiores de Bordéus: Château Pichon Baron e Château Suduiraut, ambos presentes na famosa Classificação de 1855. Aos vinhos destas duas propriedades foi dedicada a masterclasse organizada pela Vinitrust e conduzida por Ana Carvalho, embaixadora global da AXA Millésimes.

Pichon Baron, a majestade de Pauillac

Quem percorre a Estrada D2, ao longo do Médoc, conhecida como “Route des Châteaux”, dificilmente passa sem reparar no Château Pichon Baron. Trata-se de um castelo de arquitectura renascentista francesa do século XIX, com duas torres e pináculos simétricos. A sua silhueta, digna de um conto de fadas e reflectida num lago artificial em frente, faz dele um dos postais mais reconhecíveis e fotografados da região.

Fundado no final do século XVII por Jacques de Pichon, barão de Longueville, o château permaneceu nas mãos da família por mais de duzentos anos. Em 1850, uma partilha familiar deu origem ao Château Pichon Baron tal como o conhecemos hoje, erguido por Raoul de Pichon, herdeiro da casa. À sua frente, do outro lado da estrada, fica o Château Pichon Longueville Comtesse de Lalande que outrora pertencia à mesma família.

O século XX trouxe as inevitáveis oscilações da fortuna. Foi em 1987 que a história ganhou novo impulso: a aquisição pela AXA Millésimes marcou o renascimento da propriedade. O Director Técnico Jean-René Matignon, que entrou praticamente na mesma altura, conduziu a transição com sabedoria até 2022, ano em que passou o testemunho a Pierre Montégut, também responsável pela enologia no Château Suduiraut.

Os 75 hectares de vinha, que é uma dimensão média para a região, representam o encepamento clássico de Pauillac com 66% de Cabernet Sauvignon, 27% de Merlot, 5% de Cabernet Franc e 1% de Petit Verdot, sendo que as últimas duas variedades nunca entram no Grand Vin. No passado utilizavam Petit Verdot e Cabernet Franc, mas hoje não, pois “o Cabernet Franc tem manias e o Petit Verdot confere rusticidade ao vinho”. Ainda têm cerca de 1% Semillon, o resultado da selecção massal “importada” do Château Suduiraut, do qual fazem um vinho branco seco. A idade média das videiras ronda os 35 anos, fruto de uma política de replantação anual de cerca de 1% de encepamento.

A vindima é feita manualmente e de forma muito selectiva, ao contrário de um período menos feliz da propriedade, quando a uva era colhida à máquina. A fermentação ocorre separadamente, por parcelas e castas, para isso contam com depósitos de variadíssimas dimensões.

Nos anos 1990, o Grand Vin superava as 300 mil garrafas. Hoje, em busca quase obsessiva pela qualidade, esse número foi reduzido para metade através dos critérios da selecção mais exigentes. Les Griffons de Pichon Baron, criado em 2012, junta-se ao já conhecido Les Tourelles de Longueville, como segundo vinho, mas com perfis distintos. O primeiro espelha a seriedade tânica do Grand Vin; o segundo, mais dominado pelo Merlot, revela-se pronto mais cedo. O uso de barrica nova no Grand Vin corresponde a 80% e é mais moderada nos restantes.

 Château Suduiraut, a doçura repensada

A história de Château Suduiraut começou em 1580, por meio do casamento entre Nicole d’Allard e Léonard de Suduiraut. Os jardins do château, desenhados por André Le Nôtre, o mesmo de Versailles, ainda hoje testemunham grande ambição estética. Ao longo dos séculos, o Château Suduiraut foi passando de mão em mão, até mudou de nome durante algum tempo. A propriedade encontrou novo fôlego, quando foi adquirida, em 1992, pela AXA Millésimes.

Sob a direção técnica de Pierre Montégut, a casa soube adaptar-se à nova realidade: o Sauternes doce, outrora símbolo de luxo e longevidade, nas últimas décadas ia perdendo o terreno na mente do consumidor. O caminho foi claro — manter o grande vinho em doce, mas abrir espaço para a frescura dos brancos secos, também mais económicos em termos de produção e menos dependentes das condições climatéricas. Estes, não podendo levar o nome de Sauternes por imposição legal, surgem sob o rótulo genérico de Bordeaux Blanc Sec. Uma injustiça, talvez, mas uma realidade, por enquanto.

O primeiro branco seco, S de Suduiraut, foi lançado em 2004. Rebaptizado como Lions de Suduiraut, em 2021, assumiu outra ambição. É um blend de Sémillon, Sauvignon Blanc e Sauvignon Gris (casta que Pierre Montégut aprecia bastante por ser menos aromática do que o Sauvignon Blanc e conferir mais corpo), feito com maceração pelicular e fermentação parcial em barrica. A produção ronda as 70 mil garrafas.

Num patamar acima surge o Château Suduiraut Vieilles Vignes, com primeira colheita em 2020, feito a partir das vinhas mais velhas (45 anos) de Sémillon e Sauvignon Blanc. Sujeito a uma prensagem longa, extraindo alguns polifenóis, com fermentação e estágio em barrica (12% nova) de 9 meses.

No capítulo doce, o Château Suduiraut 2010 que provámos tinha 90% Sémillon e 10% Sauvignon Blanc. Em anos recentes, optaram por fazer o vinho exclusivamente com Sémillon, numa afirmação de identidade. A colheita, em várias passagens entre setembro e novembro, antecede um estágio de 20 meses, com 50% de barrica nova.

(Artigo publicado na edição de Outubro de 2025)

Califórnia: Stag’s Leap, um ‘First Growth’ de Napa Valley

Califórnia

Tudo tem um princípio. Podíamos afirmar, com algum critério, que o princípio da história de Stag´s Leap Wine Cellars foi em 1970, com a aquisição da Stag’s Leap Vineyard, mas, na minha opinião, o verdadeiro princípio desta narrativa, assim como para a região de Napa Valley foi, provavelmente, o julgamento de Paris de 1976. O […]

Tudo tem um princípio. Podíamos afirmar, com algum critério, que o princípio da história de Stag´s Leap Wine Cellars foi em 1970, com a aquisição da Stag’s Leap Vineyard, mas, na minha opinião, o verdadeiro princípio desta narrativa, assim como para a região de Napa Valley foi, provavelmente, o julgamento de Paris de 1976.

O julgamento de Paris de 1976 foi uma prova cega de elite, com um júri composto pelos organizadores do evento, os wine merchants Steven Spurrier e Patricia Gallagher, e membros da aristocracia vínica francesa, alguns Chateaux, sommeliers e jornalistas especializados, colocando, lado a lado, Cabernet Sauvignons da Califórnia e First Growth de Bordéus, Chardonnay da Califórnia e Premier e Grand Cru Chardonnay da Borgonha. Tudo às cegas. E o resultado chocou o mundo naquela época!

O The Wall Street Journal escreveu “The 1976 Judgment of Paris had a revolutionary effect, like a vinous shot heard round the world.” E não foi caso para menos. O 1973 Chateau Montelena Chardonnay, de Napa Valley, recebeu a maior honra entre os brancos, enquanto que, nos tintos, o resultado foi o seguinte:

 

Palavras para quê? Impressionante, certo?

E ainda mais impressionante se torna se tivermos em mente que o vinho vencedor saiu de uma vinha, a S.L.V. Vineyard, plantada em 1970, com apenas três anos, portanto, ao passo que a classificação de Bordéus, e os First Growth, foram estabelecidos em 1855.

Foi, pois, com elevadas expectativas, que fomos ao mais recente espaço de provas da cidade de Lisboa, ainda em soft opening, o 1933 by Garrafeira Nacional, localizado no Hotel Tivoli Avenida, onde provamos cinco vinhos de Stag’s Leap Wine Cellars, importados para o nosso país pela Garrafeira Nacional.

O 1933 by Garrafeira Nacional denota requinte e bom gosto. Além de sala de prova, também funciona como uma pequena loja de vinhos nacionais e internacionais, com uma curadoria altamente especializada, e tem o propósito de se tornar uma referência como espaço dedicado a provas de pequena dimensão, em ambiente exclusivo, para produtores de vinho, bem como para pequenos eventos de iniciativa particular relacionados com vinho. É dada ainda a possibilidade aos clientes do Seen by Olivier, na porta ao lado, de adquirirem a garrafa de vinho da sua preferência e consumirem-na no decurso da refeição no restaurante, mediante o pagamento de uma taxa de rolha. Mas vamos ao que interessa.

Califórnia

Os solos são um misto de sedimentos de xisto, areia, barro, gravilha, rocha e material vulcânico. Quanto ao clima, as encostas rochosas de Palisades reflectem o calor que se faz sentir durante o dia

 

Dias quentes, noites frescas

Napa Valley é uma AVA (American Viticultural Area), em si mesmo, e tem-no sido desde que recebeu a designação em 1981. Foi a primeira AVA reconhecida na Califórnia e a segunda nos Estados Unidos. Dentro da Napa Valley AVA existem dezasseis outras AVAs aninhadas, mais pequenas, uma espécie de sub-regiões. São elas: Atlas Peak, Calistoga, Chiles Valley, Coombsville, Diamond Mountain District, Howell Mountain, Los Carneros, Mt. Veeder, Oak Knoll District of Napa Valley, Oakville, Rutherford, St. Helena, Spring Mountain District, Stags Leap District, Yountville e Wild Horse Valley.

Os vinhos de Stags Leap District são conhecidos por serem “um punho de ferro, dento de uma luva de veludo”, em virtude da combinação entre a composição dos solos e o clima.

Os solos são um misto de sedimentos de xisto, areia, barro, gravilha, rocha e material vulcânico. Quanto ao clima, as encostas rochosas de Palisades reflectem o calor que se faz sentir durante o dia, aquecendo a vinha, mais do que em outros locais de Napa Valley, beneficiando, no entanto, das frescas brisas marítimas provenientes da Baía de San Pablo, que, juntamente com o vento característico da zona, arrefecem as plantas durante a noite, contribuindo para o equilíbrio dos níveis de açúcar e acidez. Dias quentes e noites frescas ajudam a prolongar o período de vindima sendo estas as condições ideais para variedades de maturação tardia, como a Cabernet Sauvignon.

 

O objectivo que Warren Winiarski anteviu e definiu como possível consistiu em produzir um vinho no estilo clássico de Bordéus, mas com um sentido de terroir e de identidade 100% Napa Valley

 

O salto para o mundo

“Stag” significa veado, e “Leap” significa salto. A origem do nome Stag’s Leap não está bem documentada, mas reza a lenda do povo nativo-americano Wappo, que o nome do local se ficou a dever a um veado que, em tempos, perseguido e acossado por caçadores, no limite de um penhasco, preferiu dar o seu “Leap of  Faith” (literalmente, salto de fé), em direcção à morte certa, do que ser morto por eles; outra lenda conta a história de um veado que conseguiu iludir toda uma geração de caçadores, desaparecendo sempre, no último instante, através do tal Leap of Faith.

Foi exactamente ao lado da Stag’s Leap Vineyard (S.L.V.) que Nathan Fay plantou a Fay Vineyard, com Cabernet Sauvignon, em 1961. Quando, em 1970, Warren Winiarski teve o seu momento eureka ao provar um dos Cabernets daí provenientes, de imediato comprou a S.L.V.

e fundou a Stag’s Leap Wine Cellars. O objectivo que Warren Winiarski anteviu e definiu como possível consistiu em produzir um vinho no estilo clássico de Bordéus, mas com um sentido de terroir e de identidade 100% Napa Valley. O Cabernet de Nathan Fay conseguia isso, e, como tal, a vinha ao lado também haveria de tornar isso possível. Anos mais tarde, em 1986, Nathan Fay vendeu a Fay Vineyard a Warren Winiarski.

Existem vinhos no mundo, cuja reputação está tão bem estabelecida, que praticamente vivem no reino do icónico. Stag’s Leap, é um desses vinhos.

(Artigo publicado na edição de Setembro de 2025)

Adega de Borba celebra “bodas de vinho”

Adega de Borba

Borba, uma das oito sub-regiões do Alentejo vitivinícola, foi, desde sempre, uma região com uma forte relação com a cultura da vinha e do vinho, legado deixado, há cerca de dois mil anos, pelos romanos. A herança persiste e “os habitantes daqui sempre sobreviveram à custa da uva e do vinho, digamos assim”, afirma Óscar […]

Borba, uma das oito sub-regiões do Alentejo vitivinícola, foi, desde sempre, uma região com uma forte relação com a cultura da vinha e do vinho, legado deixado, há cerca de dois mil anos, pelos romanos. A herança persiste e “os habitantes daqui sempre sobreviveram à custa da uva e do vinho, digamos assim”, afirma Óscar Gato, enólogo principal e membro do conselho de administração da Adega de Borba.

Como tal, em tempos idos, em Borba, os pequenos viticultores vendiam as uvas a outros viticultores e estes, por sua vez, faziam o vinho com matéria-prima própria e comprada. Parte da venda do produto ao consumidor final estava nas mãos dos intermediários, que, no fundo, detinham a mais-valia neste negócio. Mas esta ação nem sempre era consolidada, o que acarretava dificuldades aos produtores, as quais eram acrescidas “com o valor residual recebido em troca do vinho”, recorda Óscar Gato. Este cenário, comum em todo o país e, em particular, neste concelho alentejano quase raiano, determinou o surgimento do movimento do associativismo.
Face a esta realidade, em 1955, um grupo de 12 pessoas procedeu à escritura dos estatutos da Adega Cooperativa de Borba, uma das primeiras a ser constituída em Portugal. Cerca de três anos mais tarde, contavam com a participação de 60 viticultores, que, em 1958, entregaram as uvas todas a esta casa. Esse ano foi marcado pela produção de 500 mil litros de vinho e pela venda direta do produto ao consumidor final. Um ano depois, foi feito o primeiro ‘enogarrafonamento’ do vinho, ou seja, em vez da venda a granel, o vinho passou a ser vendido em garrafão, como explica o enólogo principal, relembrando que, à época, os ditos recipientes eram revestidos, no exterior, com palhinha. Como a reutilização estava tão em voga, o revestimento evoluiu para o plástico, para facilitar a higienização do garrafão. O primeiro enchimento em garrafa aconteceu em 1961, “a então famosa garrafa de litro com as cinco estrelas, que também era reutilizável”, relembra Óscar Gato.

Esta nova era incentivou a Junta Nacional da Vinha e do Vinho a promover um concurso de vinhos anual. A participação nestas competições por parte da Adega de Borba valeu-lhe a conquista de diversas distinções para brancos e tintos, como a recebida pelo célebre Reserva 1983. “Estes prémios alavancavam a notoriedade destes vinhos, de forma que chegassem aos grandes centros urbanos, nomeadamente a Lisboa, onde o consumo era muito maior”, frisa Óscar Gato.

 

Do total de 230 produtores de uva, 100 estão certificados no âmbito do Programa de Sustentabilidade dos Vinhos do Alentejo e, simultaneamente, representam 85% da área total de vinha. “Destes sócios, a maioria começou, há 20 anos, com o sistema de Proteção Integrada”

 

2003, o ano do novo capítulo

Na década de 80 do século XX, a vinha, vincadamente tradicional, coassociada com oliveiras e árvores de fruta, passou a ter uma abordagem diferente, com a criação, em 1985, da Associação Técnica dos Viticultores do Alentejo (ATEVA). Constituída por engenheiros agrónomos, esta entidade tinha – e ainda tem – como objetivo apoiar os viticultores na transição da vinha tradicional para a vinha extreme. Ou seja, “vinha em contínuo, aramada, arrumada e com maiores condições para a mecanização”, esclarece Óscar Gato. Definir as castas principais, de modo a serem as eleitas na reestruturação da vinha, foi outro dos factores postos em prática pela ATEVA.

Um ano antes, em 1984, a Adega de Borba, tinha estabelecido normas quantitativas e qualitativas inerentes à produção. “Foi como arrumar a casa.” Assim, ficaram estabelecidas as operações que o viticultor tinha de aplicar no terreno com a tónica na qualidade do produto. Esta ação foi apenas o preâmbulo do que veio a acontecer poucos anos depois, o surgimento da Comissão Vitivinícola Regional Alentejana (CVRA) criada em 1989. “O primeiro vinho certificado pela CVR a chegar ao mercado foi um vinho branco da Adega de Borba, da colheita de 1989, um VQPRD Borba”, recorda Óscar Gato.

No começo do século XXI, é feito o investimento em infraestruturas, com a ampliação do edifício da adega, no sentido de dar resposta à crescente produção de vinho associada ao aumento do número de associados, tal como o fizeram décadas antes. Acresce a aquisição de barricas e de equipamento de vinificação e engarrafamento moderno e é dado um passo em frente no âmbito da profissionalização dos quadros da adega, com ênfase na parte económico-financeira, no controlo de qualidade, na enologia, bem como na criação da função de diretor-geral, entre outros cargos. “No fundo, foi feita a repartição de responsabilidades dentro da adega”, reforça o enólogo que, a partir de 2003, integra a equipa da casa. Estava aberto o novo capítulo da Adega de Borba, que passou a adotar um vincado carácter empresarial. Porém, as mudanças não ficaram por aqui.

20 anos de sustentabilidade

À época, contabilizavam-se três centenas de sócios. Hoje, são 230. De acordo com Óscar Gato, esta redução deve-se ao crescimento do escalão etário atual dos viticultores, embora haja “alguns jovens com interesse e/ou herança nesta cultura”. O número de associados traduz-se em 2200 hectares de vinha, dos quais 70% estão ocupados por castas tintas, enquanto os restantes 30% estão reservados às brancas, num total de cerca de 40 variedades de uva distribuídas pelas 1600 parcelas espalhadas pelos concelhos de Borba, Estremoz, Sousel, Terrugem (no concelho de Elvas), Vila Viçosa, Alandroal.

Do total de 230 produtores de uva, 100 estão certificados no âmbito do Programa de Sustentabilidade dos Vinhos do Alentejo e, simultaneamente, representam 85% da área total de vinha. “Destes sócios, a maioria começou, há 20 anos, com o sistema de Proteção Integrada e já com cuidados acrescidos na instalação da vinha, na escolha do porta-enxerto mais aconselhado e nas castas que interessam ao viticultor, enquanto produtor de uva, mas também sob o ponto de vista enológico”, elucida Óscar Gato. Do ponto de vista sanitário, o enólogo principal da Adega de Borba destaca a supressão de produtos fitossanitários agressivos para a fauna e a flora, ação assumida desde 2005, na vinha. “Este sistema de Proteção Integrada rapidamente evolui para Produção Integrada, com regras ainda mais exigentes, como o enrelvamento, pelo menos, em linhas intercaladas”, pelo que quando a Adega de Borba passou a fazer parte do Programa de Sustentabilidade dos Vinhos do Alentejo “já vinha com muita sustentabilidade”, ou seja, esta responsabilização ambiental começou muito antes, em 2005. Poupança da água e da energia, reciclagem de cartão, plástico e vidro, controlo natural de temperatura e não inclusão dos aparelhos de ar condicionado são algumas das medidas implementadas desde então.
Óscar Gato dá ainda como exemplo a nova adega. Concluído em 2012, este edifício está munido com claraboia, para facilitar a entrada de luz e minimizar o desperdício de eletricidade; um enorme pé direito, com uma caixa de ar que permite o controlo das amplitudes térmicas, sem ter de se recorrer à instalação de aparelhos de ar condicionado; parte do topo tem enrelvamento, com o propósito manter a baixa temperatura no interior; e as paredes exteriores estão revestidas com alvéolos de mármore, que fazem ensombramento, com a finalidade de evitar a incidência direta da luz solar.

Tudo isto permitiu que Borba fosse a primeira adega cooperativa do Alentejo a ser certificada em uva e em vinho, ambos a 100%, a partir da colheita de 2020, no contexto do Programa de Sustentabilidade dos Vinhos do Alentejo.

“Sempre se consideraram produtores de uva, para fazer vinho. No fundo, os proprietários da adega são os associados”, enaltece Óscar Gato

 

O solo, o clima e as serras

“Podemos afirmar que estamos numa zona privilegiada, porque basicamente estamos entre duas serras, o que acaba por marcar muito o terroir de Borba. A sul, temos a serra d’Ossa e, a norte, está a serra de Portalegre”, descreve Ricardo Silva, enólogo da Adega de Borba desde 2024 e membro do conselho de administração desta casa. Ou seja, cada uma dista, respetivamente e em linha reta, cinco e 50 quilómetros de Borba.
“Além de estarmos entre estas duas serras e de grande parte das nossas vinhas se situar a uma altitude média de 400 metros – estamos num planalto, que é o eixo dos mármores –, que liga Sousel a Vila Viçosa, temos, essencialmente, dois tipos de solos: os argilo-xistosos e os argilo-calcários”, continua Ricardo Silva. O planalto é um maciço calcário que faz a transição para o xisto, dando origem a solos “mais delgados”, nas palavras de Óscar Gato, a sul, e a argila, mais a norte, convertida em solos mais férteis.

O mais recente enólogo da Adega de Borba foca a importância das grandes amplitudes térmicas: “temos dias com 40 °C e noites de 18, 20 °C.” Realça ainda os benefícios dos nevoeiros matinais quase diários na parte sul, onde há um vale, junto à serra d’Ossa. “Isso permite que a maturação das uvas ocorra de uma forma mais controlada. Conseguimos não ter tanta degradação dos ácidos, a maturação fenólica acaba por acompanhar a maturação alcoólica e isto resulta em vinhos com uma acidez mais natural, uma fruta mais pura, mais expressiva. Não temos uvas excessivamente maduras ou muito desidratadas”, declara Ricardo Silva. Estão, assim, reunidas as condições benéficas para a vinha e para o vinho, em relação ao qual Óscar Gato evidencia a frescura conferida pela acidez natural das uvas.
Em jeito de conclusão, o enólogo principal da Adega de Borba enumera três palavras-chave no que toca aos vinhos da Adega de Borba: equilíbrio, estrutura e elegância.

Vindima de filigrana

Desde há seis anos que Óscar Gato e a sua equipa elucidam cada viticultor para a compra de plantas certificadas, com o propósito de ficar com o registo da casta e do clone associado a cada uma, bem como do porta-enxerto, com o respetivo clone. Esta informação permite abrir caminho a experiências no terreno, no sentido de “perceber a adaptação cultural desta casta com este clone, com este porta-enxerto nos diferentes terroirs”, fundamenta o enólogo principal. Ao fim de cinco anos, já é possível obter a informação necessária acerca de cada clone.
“Por isso, é que nós olhamos para esta adega como uma empresa há muitos anos”, reforça Óscar Gato. Neste contexto, ambos falam sobre quão relevante é informar os sócios nas assembleias gerais, em reuniões e nas ações de formação, através das quais todos também têm acesso à grelha de valorização respeitantes a cada variedade de uva, a qual permite otimizar eficazmente a vinha.

À informação, soma-se a mais-valia de segregar e rastrear. A Adega de Borba detém toda a informação sobre cada garrafa que está à venda, assim como o registo acerca de todas as vinhas dos viticultores, através dos cadernos de campo de cada um. Na etapa final, mais concretamente na fase da maturação das uvas, cada associado dirige-se à Adega de Borba, para deixar amostras dos bagos, para análise. “Consoante o resultado obtido, são informados sobre quando a vindima é recomendável”, diz o enólogo principal.
A minúcia do trabalho realizado na Adega de Borba começa na vinha. E a vindima é o expoente máximo da vida de cada viticultor associado. “Apesar da nossa dimensão, conseguimos fazer vinificações separadas, casta por casta, por tipos de solo, em volumes maiores, em volumes mais pequenos, com grande precisão”, assegura Ricardo Silva.

A responsabilização por parte dos associados não fica por aqui. “Todos os sócios têm de entregar a totalidade da uva à adega. Não podem vender uvas a terceiros. Se o fizerem, não estão a cumprir com os estatutos e podem ser excluídos”, afirma Óscar Gato. Em contrapartida, “mesmo em anos difíceis, a adega não compra vinho a terceiros”, garante.
O enólogo principal da casa assegura ainda que os produtores de uvas encaram a Adega de Borba como muito mais do que o local onde é depositada a matéria-prima. “Sempre se consideraram produtores de uva, para fazer vinho. No fundo, os proprietários da adega são os associados”, enaltece Óscar Gato. A somar à venda da uva, cada associado é embaixador do vinho da Adega de Borba, que não assume apenas o papel de receber as uvas e as transformar em vinho. Há ainda o compromisso do pagamento. “Somos das poucas adegas do país a pagar as uvas a tempo e horas. O viticultor vê o trabalho recompensado através do que recebe pelas uvas e essencialmente por receber o dinheiro atempadamente. Antes de começar a vindima do ano seguinte, tem as uvas do ano interior pagas”, afiança Ricardo Silva.

Afiança Óscar Gato: “nós, neste momento, não temos falta de vinho branco para o mercado. Porquê? Porque estamos regulados com o mercado.”

 

Branco ou tinto?

Segundo Óscar Gato, nos anos 1950, Borba teria sensivelmente 50% de castas brancas e 50% de variedades tintas. “Se recuarmos mais no tempo, é provável que cheguemos à conclusão que teríamos 60% de [castas] brancas e 40% de tintas”, analisa. Certo é que, face ao panorama nacional, o vinho tinto foi conquistando terreno, em consequência das exigências do mercado.
No contexto da Adega de Borba, nas últimas duas décadas, o trabalho efetuado a par com os associados tem servido de pêndulo, com o propósito de regular a quantidade de castas brancas e tintas plantadas nas vinhas, consoante as necessidades da casa septuagenária. Afiança Óscar Gato: “nós, neste momento, não temos falta de vinho branco para o mercado. Porquê? Porque estamos regulados com o mercado.”

O teor alcoólico do vinho, muitas vezes determinado pelas condições climáticas, é outra das questões em debate. Contudo, “dentro do Alentejo, somos um bocadinho privilegiados, porque temos a possibilidade de colher uvas brancas, por exemplo, com 11 ou 11,5 °C e com boa maturação, e isso reflete-se na nossa grelha de valorização”, assevera Ricardo Silva. De acordo com esta tabela, os viticultores que entregarem uva entre os 11 e os 13 °C recebem 100% da valorização, enquanto nos tintos a mesma condição é estabelecida às uvas com grau alcoólico entre 12 e 15 °C. Para a base de espumante, o desafio é apresentado a um associado específico, as uvas podem entrar na Adega de Borba com 10,5 °C. Neste caso, “valorizamos a 100%, porque é uma necessidade nossa”, reforça Ricardo Silva.

Na base dos vinhos brancos constam três variedades autóctones do Alentejo: Roupeiro, Rabo de Ovelha e Antão Vaz. A este trio junta-se a Arinto. A Adega de Borba conta igualmente com outras variedades adaptadas a esta sub-região, como Alvarinho, Loureiro, Gouveio, Verdelho, Encruzado, Riesling e Viognier, que representam 10% a 15% do encepamento. Nos tintos, a Aragonez possui, de longe, a maior representatividade no universo dos associados da Adega de Borba. Seguem-se a Syrah, a Alicante Bouschet, a Trincadeira, a Periquita e a Touriga Nacional.

Diversidade e rejuvenescimento

Ao longo dos últimos anos, a Adega de Borba tem alinhado o perfil dos vinhos com o preço. Nas palavras de Óscar Gato, é dada uma atenção especial à relação qualidade/preço: “temos vindo a oferecer diversidade ao nosso consumidor a um preço justo e o preço justo é o reconhecimento do preço real do mercado do vinho.”

Dentro dos 11 milhões de litros de vinho produzidos, em média, todos os anos, Ricardo Silva avança: “temos os nossos produtos tradicionais, mas também temos de ter capacidade de estar atentos às tendências do mercado.” O borbic – produto, cuja base é o Adega de Borba licoroso branco, ao qual são adicionados água tónica q.b., gelo e hortelã – é um desses exemplos. A este segue-se o lançamento, para breve de, pelo menos, dois outros produtos, a pensar na nova geração de consumidores. O enólogo defende a comunicação dirigida aos jovens, através da produção de “vinhos com menor teor alcoólico e uma imagem mais forte”. A gama Senses, nome atribuído aos monovarietais da Adega de Borba, serve como modelo neste contexto, igualmente graças à nova imagem, “totalmente disruptiva”, segundo Ricardo Silva, apresentada ao mercado no dia 6 de agosto, com a colheita Senses Viognier 2024.
Por outro lado, importa evidenciar as joias da coroa da Adega de Borba, como as cinco aguardentes (três bagaceiras e duas vínicas) ou o Reserva, com o icónico rótulo de cortiça, que, com a passagem do tempo, tem vindo a ser modernizado. “Não é uma inovação, mas sim o rejuvenescimento da tradição”, defende Óscar Gato, referindo-se a esta linha, cuja primeira colheita data de 1964.

Já o vinho de talha, processo ancestral adequado aos novos tempos, sobretudo quando o enfoque está no baixo teor alcoólico, é feito desde 2015, ano da primeira colheita do tinto. “Mas nem todos os anos comercializamos vinhos de talha e sobre a alçada do designativo Vinho de Talha Alentejo, só a partir de 2017” A primeira colheita de branco é de 2021.
Naturalmente, são sempre de evidenciar as edições de vinhos mais raros e especiais, como os recentemente apresentados (e provados na edição de junho desta revista) para comemorar, precisamente, os 70 anos da casa: Havendo Tempo, branco de 2023 e tinto de 2021, e Adega Cooperativa de Borba Edição Especial, branco de 2021 e tinto de 2011, este último recuperando a rotulagem dos primeiros anos de atividade da adega.

E como a comida é parte substancial do vinho, o enólogo principal assegura que a Adega de Borba tem capacidade de resposta. Prova maior está no Restaurante Adega de Borba, meca da gastronomia alentejana e da arte de bem cozinhar, situado paredes meias com a loja de vinhos. Eis duas montras do portefólio vínico da casa, que podem ser degustados in situ ou na sala de provas da adega erguida em 2012, a qual dista aproximadamente 350 metros da original.

Adega de Borba

 

Óscar Gato dá ainda como exemplo a nova adega. Concluído em 2012, este edifício está munido (…) um enorme pé direito, com uma caixa de ar que permite o controlo das amplitudes térmicas, sem ter de se recorrer à instalação de aparelhos de ar condicionado

 

Casa septuagenária de boa saúde

A avaliar pela imagem do novo rótulo da gama Senses e pela integração do jovem enólogo Ricardo Silva no conselho de administração, a análise feita à Adega de Borba é promissora. Embora ocupe o cargo há um ano, já faz parte desta casa há 20 anos. “O meu pai é viticultor associado da Adega de Borba. Sempre o acompanhei e estive sempre muito próximo da adega.”

Para Ricardo Silva, foi como voltar às raízes, acima de tudo pelos valores, destacando o rigor e o profissionalismo do trabalho efetuado dentro da Adega de Borba desde 2003. “Por isso, vejo os próximos 70 anos a serem feitos como os últimos 20: a inovar e a não ter medo de experimentar, mas sempre com o sentido crítico e o rigor em relação à viticultura e à gestão, dois elementos fundamentais para que uma cooperativa tenha sucesso. Tudo o resto tem a ver com o trabalho efetuado pela empresa”

Óscar Gato, a exercer funções na Adega de Borba desde 2003, enfatiza a importância de uma cooperativa ser gerida como uma empresa: “tem de haver custos, receitas, despesas… A distribuição é feita pelos donos da cooperativa, que são os associados.” O enólogo principal salienta ainda a importância de manter o interesse dos mais jovens na atividade vitícola, “porque é necessário manter a paisagem vitícola, para evitar a desertificação e garantir a sustentabilidade social, ou seja, preservar a família e quem trabalha na vinha”. Sem esquecer a questão ambiental, fundamental no contexto da proteção do ecossistema e, em particular, das videiras, nem a parte económica, que assegura a permanência da residência dos locais. “Esta passagem de testemunho para as gerações vindouras é fundamental para manter o negócio da uva e do vinho”, remata.

 

(Artigo publicado na edição de Setembro de 2025)