Entrevista com Dora Simões: “O ‘novo’ estilo de Verde precisa de um nome”

Dora Simões

Desde há pouco mais de dois anos assume na região dos Vinhos Verdes funções semelhantes às que desempenhou no Alentejo. Existindo certamente, desafios comuns às duas regiões, o que é que, no seu entender, principalmente as distingue em termos de mercado, estrutura produtiva ou organização institucional, por exemplo? Em termos de organização e tradição de […]

Desde há pouco mais de dois anos assume na região dos Vinhos Verdes funções semelhantes às que desempenhou no Alentejo. Existindo certamente, desafios comuns às duas regiões, o que é que, no seu entender, principalmente as distingue em termos de mercado, estrutura produtiva ou organização institucional, por exemplo?

Em termos de organização e tradição de uma região, faz diferença ter 116 anos ou ter 25 anos de região demarcada, marco que eu ainda celebrei no Alentejo. Embora a idade não altere a produção de vinho em si, altera a história de uma região e introduz condicionantes na forma de a gerir. Mas, de uma forma geral, enquanto entidade certificadora, as coisas estão tão harmonizadas que, embora podendo existir “afinações” diferentes, os procedimentos são hoje muito idênticos de região para região. Haverá sempre coisas a melhorar, mas os standards estão muito bem definidos.

O mercado dos Vinhos Verdes e do Alentejo é muito distinto?

O mercado onde se opera é igual, a comunicação e a narrativa é que são muito diferentes. O apelo ao consumo é distinto. Passámos uma época em que o vinho tinto cobria a grande maioria das preferências do mercado, e hoje isso está a mudar. Não existem dados muito evidentes sobre quanto é que mudou, mas existe uma percepção clara de mudança. A sazonalidade de consumo que outrora existiu nos brancos e que condicionou os Vinhos Verdes esbateu-se muito.

O que mais a surpreendeu nos Vinhos Verdes quando começou a aprofundar o seu conhecimento sobre a CVRVV, a região, os produtores, o mercado?

Em primeiro lugar, a Comissão é uma casa muito bem montada e foi muito bem orientada durante muito tempo.  Tornou-se assim fácil o envolvimento e o trabalho com a generalidade dos departamentos. É uma entidade bastante orientada para a promoção, com um departamento de marketing bem estruturado e com conhecimento do mercado. No que diz respeito à fiscalização e controlo da região, está hoje a um nível que quase nenhuma região em Portugal tem. A região e os seus produtores têm igualmente uma larga experiência de mercados internacionais. Os produtores são profissionais, viajam muito, vão às feiras, conhecem as especificidades de cada mercado. E isto é algo que mudou imenso nas últimas décadas.

Quando eu estava na ViniPortugal, em 2004, lembro-me do que era o Vinho Verde e sei aquilo que é hoje. Claro que a mudança é transversal às várias regiões, mas esta tremenda evolução “comercial” é muito evidente nos Vinhos Verdes. Há muito a fazer, sempre, mas o nível de profissionalização da região dos Vinhos Verdes, quando comparado com outras, é muito elevado.

O perfil dos produtores é muito variado…

O tecido empresarial é muito pulverizado. É salutar que esta seja uma região com operadores relativamente grandes. Mas existe, entre os muito grandes e os muitos pequenos, uma faixa de operadores médios tremendamente dinâmicos. Acho que o mercado nacional tem uma fraca percepção dessa dinâmica, porque muitos produtores de Vinho Verde trabalham, sobretudo, para exportação. E muitos, exportam largas centenas de milhar de garrafas. E, depois, temos os mais pequenos, que produzem frequentemente menos de 50 mil garrafas.

Dora Simões

“Os dois perfis de Verde são bastante distintos. E é fundamental que o consumidor saiba o que está dentro da garrafa antes de fazer a compra”

 

A área de vinha (pouco menos de 17.300 hectares) caiu bastante na década de 2010. A produtividade, porém, aumentou significativamente, devido as reestruturações e ganhos de eficiência. Ainda assim, tirando a sub-região de Monção e Melgaço, onde o preço da uva é bem mais elevado do que a média da região, pode uma família de lavradores viver de vender uvas?

Depende muito da dimensão da propriedade. Infelizmente temos poucos ou nenhuns estudos sobre isso. Não sabemos que dimensão é necessária para poder dar condições de vida a uma família de viticultores. Lembro-me que quando do estudo Porter se falava em entre cinco a sete hectares, para originar um rendimento um pouco acima do salário mínimo. Passaram 20 anos e hoje a área necessária será certamente acima disto.

Quanto ao decréscimo da área de vinha, é importante termos em conta duas coisas. Primeiro, é verdade que há muita gente a abandonar, mas também há um grande processo de consolidação, ou seja, há muitos produtores profissionais a adquirir vinhas a outros viticultores. Por outro lado, o decréscimo do número oficial de vinha plantada tem igualmente a ver com a crescente eficiência da fiscalização. Há muita vinha abandonada há muito, de que só em anos recentes tem sido dado baixa.

No entanto, não deixa de ser evidente, para quem conhece a região, que o preço médio praticado na compra da uva não é o mais adequado. Deveria ser mais elevado para acomodar os gastos de uma viticultura que não é fácil. Ainda que, sendo baixo, o preço está longe de ser dos mais baixos comparado com outras regiões de Portugal. Até é bastante acima da média.

Por tudo isso, e respondendo em concreto à sua questão, com a dimensão média da propriedade na região não é fácil ser-se viticultor e viver de produzir e vender uva. Acredito que seja preciso bem mais de uma dezena de hectares. Mas também acontece que muitos são viticultores a tempo inteiro depois de uma carreira bem sucedida noutras áreas de actividade. E não é apenas por saudosismo ou paixão pela terra. Depois de terem feito a reconversão da vinha, com o claro aumento de produtividade, esta passou a, pelo menos, compensar os gastos que com ela têm. O Alvarinho de Monção e Melgaço é, claro, um caso raro. Aí não é preciso ter uma área de vinha muito grande para o retorno ser compensador.

A produção de Verde tinto parece estar em contínuo decréscimo. Na vindima de 2023, em conjunto com os rosés, valeu cerca de 11,5 milhões de litros versus 72 milhões de vinho branco. Sabendo-se que os rosés estão em crescendo, isso significa que a queda dos tintos, outrora líderes na região, é maior ainda. Está o Verde tinto condenado?

Espero que não. Mas sem dúvida que está em risco de extinção. E temos de inverter esta curva decrescente, que é perigosíssima. Se na região nunca tivesse existido tradição de uva tinta, até se podia entender. Mas não é o caso, antes pelo contrário. O risco de perder a uva tinta significa também o risco de se perder diversidade genética, de se perder o conhecimento das castas, da sua aptidão e do seu contributo para o futuro da região. Os rosés estão, e ainda bem, a crescer, mas sem as uvas tintas não conseguimos fazer rosé. E com os tintos assentes quase exclusivamente numa casta, o Vinhão, também não se consegue fazer grande diversidade de rosé e, muito menos, no estilo que hoje conquista os mercados. Os brancos e rosés estão na moda e os tintos em baixo. Mas isso é hoje. Como sabemos, estas vagas mudam e, por vezes, de forma rápida. E se nós estamos com uma produção residual de uva tinta podemos vir a ter dificuldades no futuro.

Na CVRVV procuramos sensibilizar os produtores para este problema e sentimos a responsabilidade de ajudar a inverter esta situação. Temos dado passos para se perceber melhor as diversas uvas tintas da região, avaliando o seu potencial para a produção de rosés e de tintos mais leves e elegantes. Não precisamos de castas de fora para isso. Acreditamos que temos uma grande variedade de castas tintas autóctones, que temos de estudar e perceber até onde podem ir. Temos uma agenda de investigação e desenvolvimento na EVAG (Estação Vitivinícola Amândio Galhano) e estamos particularmente focados nas castas tintas. Aí realizamos investigação aplicada, realizando microvinificações com algumas castas minoritárias no sentido de perceber quais as mais indicadas para tintos e rosés, em distintos perfis. E todos os anos os vinhos produzidos são provados por um pequeno grupo de especialistas. Com as conclusões desse trabalho, vamos na EVAG criar material vegetativo, para poder disponibilizar varas ou enxertos-prontos. A ideia é gerar informação técnica (vinha, adega e prova) credível e consistente, e colocá-la à disposição dos produtores, para que possam olhar para essas castas minoritárias como opções válidas para desenvolver o seu negócio.

A exportação representa cerca de 60% do negócio dos Vinhos Verdes. Mas também o mercado nacional tem tido um bom desempenho. O preço médio, no entanto, continua abaixo da média nacional, alinhado com Lisboa, acima de Setúbal e Tejo, mas abaixo das restantes regiões. O Vinho Verde está ainda demasiado barato?

Sim, é um facto. Infelizmente, há tradições negativas que demoram a quebrar e este é um caso, existe a convicção generalizada de que “aquele vinho” tem aquele preço. Mas isso parte também do produtor. Conhecemos vários produtores que trabalham em diferentes regiões e eles próprios posicionam os seus Vinhos Verdes a um preço mais baixo. Podem argumentar que as pessoas não estão dispostas a pagar mais por um Vinho Verde. Mas é precisamente isso que nós temos de combater. Claro que isso só se consegue tendo produtos equiparáveis. E é aí que esta questão do assumir de dois estilos de Vinho Verde, um mais “tradicional” e popular, outro mais ambicioso e longevo, se torna fundamental. E, mesmo assim, mesmo fazendo grandes Vinhos Verdes brancos, temos de ter a noção de que, no mundo inteiro, e com raras excepções, o preço médio do vinho branco é inferior ao do tinto. Ou seja, há dois degraus difíceis que é preciso subir, e esse é um trabalho colectivo que é necessário fazer.

 A CVRVV tem procurado comunicar esse conceito dos dois estilos de Vinho Verde. Mas essa distinção não está plasmada na lei. Não existe um designativo na rotulagem, um nome que os diferencie aos olhos do consumidor. Como se pode passar a mensagem sem esse suporte?

Não tem sido um assunto fácil, e quando da passagem de “pasta” por parte da anterior direcção da CVRVV, este foi-me indicado como tema de urgente resolução. Fundamentalmente, não tem havido acordo entre os produtores para o nome desta “nova” categoria de Vinho Verde. Vamos lançar um inquérito aos agentes económicos, para perceber a sua opinião. Mas, Direcção e Conselho Geral, entendemos que é fundamental existir essa designação. Até porque os dois produtos, o Verde mais “clássico”, leve, com “borbulha” e alguma edulcoração, e o Verde mais moderno, seco, intenso e longevo, são bastante distintos. E é fundamental que o consumidor saiba o perfil que está dentro da garrafa antes de fazer a sua compra. Porque, caso contrário, poderá haver um risco de desilusão, que vai jogar contra um ou outro produto.

Uma coisa tão simples e básica quanto ter ou não ter gás adicionado é algo que o consumidor só percebe depois de abrir a garrafa…

Claro, e isso não pode continuar. Há que assumir estes dois perfis como características intrínsecas dos produtos, ter orgulho neles, mas evidenciar essa diferença com um designativo, uma palavra, na rotulagem. Claro que encontrar o nome certo exige consenso e os consensos são difíceis de alcançar. Mas é preciso urgentemente fazê-lo. E mesmo que o nome não seja perfeito, é preferível ajustar mais tarde do que não actuar agora, continuando a limitar a ambição do Vinho Verde, em termos dos mercados e preços que pode atingir. Isto é absolutamente prioritário.

Durante muitas e muitas décadas o Vinho Verde “vendeu-se” como um produto “único no mundo”, diferente de todos os outros, o que lhe permitiu correr numa pista à parte, sem concorrência. O dano colateral, no entanto, foi colá-lo à imagem de um produto simples, popular, pouco “exigente”, se quisermos. Neste início de 2025, como é que o Vinho Verde quer ser visto pelos consumidores?

Temos de saber jogar com tudo isso. O facto de o Vinho Verde mais “tradicional” ter alguma simplicidade, ser leve, poder ser bebido de forma descontraída, é-nos muito útil para cativar uma faixa jovem de mercado que está a “fugir” do vinho mais “complicado”. Mas precisamos também da outra categoria mais ambiciosa, para nos batermos de igual para igual com aqueles que são considerados grandes vinhos do mundo. Precisamos de ganhar valor. E temos a forma ideal de o fazer, através nas nossas castas, Alvarinho, Loureiro, Avesso, etc. Comunicar através da casta é mais facilmente compreensível, mais facilmente exportável. Em resumo, precisamos de fazer passar a mensagem, internamente, entre os produtores, e para o exterior, para os consumidores.

Dora Simões

“A sazonalidade de consumo que outrora existiu nos brancos e que condicionou os Vinhos Verdes esbateu-se muito”

 

Foi no seu consulado à frente da CVR Alentejo que foi desenvolvido e implementado o Plano de Sustentabilidade dos Vinhos do Alentejo (PSVA), que se tornou uma referência nacional e internacional. Como está a região dos Vinhos Verdes em termos de sustentabilidade ambiental?

Quando esta direcção tomou posse, havia já um plano de sustentabilidade em marcha, ainda não implementado. Coincidindo com o início deste mandato, surgiu igualmente o Referencial Nacional de Sustentabilidade do Instituto da Vinha e do Vinho, um conjunto de orientações transversais não adaptado especificamente a cada região. No que ao Vinho Verde respeita, acreditamos que fazer um plano novo, de raiz, tal como se fez no Alentejo, será estar a trabalhar sobre algo que já existe. Assim, o que foi decidido foi adoptar o Referencial Nacional como base para quem quiser medir a sua evolução nesta área, podendo depois certificar-se neste Referencial ou noutro que possa ser mais interessante para o seu negócio. Paralelamente, contratámos um especialista em sustentabilidade que tem, como primeira tarefa, acompanhar os produtores na utilização do Referencial Nacional e na preparação para o cumprir.

Depois, o segundo passo vai ser definir e implementar uma parte específica para o Vinho Verde. Dou-lhe um exemplo: os recursos hídricos. Aqui estamos tão habituados a ver água que parece que não existem carências hídricas. Mas elas existem e são imensas. E falta-nos o conhecimento – que porventura existe noutras regiões há muito habituadas a ter pouca água – para tirar o melhor partido da água. Precisamos, hoje, de aprender a gerir a escassez. Outro exemplo: pelas suas condições climáticas, nos Vinhos Verdes fazemos mais tratamentos do que noutras regiões. Ao mesmo tempo começam a aparecer doenças a que não estávamos acostumados. A região precisa de criar um programa de tratamentos sustentáveis muito mais específico do que o existente no Referencial Nacional.

Adicionalmente, a certificação no Referencial Nacional precisa de ser mais promovida a nível nacional e mundial. Os produtores necessitam de ver vantagens económicas e comerciais concretas em aderir ao Referencial Nacional. É que existem diversas certificações mundiais, com grande promoção associada.  E uma empresa vai aderir às que lhes parecerem mais vantajosas para o seu negócio, por exemplo, em função dos mercados onde mais vende.

Que méritos vê no modelo orgânico e na sua aplicação a uma região de clima atlântico, como a dos Vinhos Verdes?

Daquilo que vemos na região, temos pouquíssimas empresas a adoptar o modelo de produção biológica. E temos até uma ou outra que já o tiveram e abandonaram. Nesta região, é difícil, ainda que não impossível, cumprir um modelo orgânico. E torna-se muito complicado cumprir tudo durante três anos e, depois, vem um mau ano climático que obriga a falhar as regras e cumprir de novo todo o ciclo. Por outro lado, temos uma situação muito gravosa que tem a ver com a flavescência dourada. Não há região onde a flavescência esteja instalada que consiga cumprir facilmente com os standards do biológico: vai ter de fazer tratamentos. Quem não o fizer pode estar a colocar em risco não apenas a sua própria produção – porque as vinhas vão morrer – mas também as vinhas dos vizinhos. Daí que seja muito importante a questão da Sustentabilidade, porque é um modelo que permite fazer melhor e de forma mais equilibrada, com benefícios para a vinha e para o próprio negócio. Claro que um modelo bio ou biodinâmico não é de todo impossível: mas apenas em áreas muito pequenas e facilmente geríveis.

Um dos maiores sucessos do seu antecessor foi levar de vencida aquela que ficou conhecida como “Guerra do Alvarinho”. Em seu entender, os ganhos para ambas as partes (produtores de Monção e Melgaço e restantes produtores da região) foram suficientes para pacificar esta questão? Ou a relativa autonomia conquistada por Monção e Melgaço ainda é de menos para uns e de mais para outros?

Se olharmos para os números que nos são fornecidos pelos selos de certificação, o segmento que mais aumenta é precisamente o do Alvarinho, produzido em Monção e Melgaço, sobretudo, mas também fora da sub-região. E até com o crescimento de vinhos de nicho, bem valorizados, como é o caso do espumante de Alvarinho. Com o acordo que foi feito no passado, foi também alocada uma verba para a promoção da sub-região de Monção e Melgaço, verba essa que, com a colaboração da CVRVV, tem sido utilizada de forma muito positiva, com inúmeras ações e visitas por parte de jornalistas e compradores. Os resultados positivos são evidentes.

Dora Simões

“O Verde tinto está em risco de extinção. E temos de inverter esta curva decrescente, que é perigosíssima”

 

Esse caminho de progressiva autonomia desenvolvido por Monção e Melgaço pode e deve ser estendido às restantes sub-regiões?

Para isso, os produtores dessas regiões têm de o querer. Quando olhamos para os números de certificação com sub-região (identificada na rotulagem), Monção e Melgaço está à frente, a enorme distância do Lima, que vem a seguir. Mas depois não há muito mais. E são nove sub-regiões nos Vinhos Verdes! Portanto, a vontade dos produtores não parece ser evidenciar a sub-região onde produzem, preferindo ficar apenas com a denominação Vinho Verde.

A Dora Simões já correu o mundo do vinho em funções muito distintas, O que é mais difícil? Convencer o comprador de um supermercado inglês a referenciar o seu produto ou gerir um Conselho Geral de uma CVR?

Nunca me tinham feito essa pergunta… Apesar de tudo, penso que é mais difícil ser produtor. Exige uma resiliência enorme: implica ouvir muitas recusas, não conseguir atingir objectivos, ter de gerir um negócio a céu aberto com imensos imponderáveis. Produzir vinho é um risco. Muitas destas novas categorias de bebidas (a kombucha, por exemplo) são fáceis de fazer, implicam muito menos investimento e não dependem da natureza. Mas chegam à prateleira e custam o mesmo que o vinho.

É certo que fazer parte da direcção de uma CVR pode ter aspectos ingratos e não tem muitas das recompensas de ser produtor. Aqui ninguém está à espera de levar uma palmadinha das costas por ter conseguido isto ou aquilo. Mas isso faz parte da função. Ser produtor de vinho é bem mais exigente.

Sei que não vai mencionar marcas, mas qual a casta ou perfil de Vinho Verde que mais aprecia no copo?

Na verdade, sou muito eclética quanto a perfis de vinho. Aprecio estilos muito diversos, por vezes dependendo do momento. Mas estou mais acostumada, até pelo tempo que passei na Alemanha, a beber vinhos brancos com fruta, frescura e potencial de longevidade. Aqui, Alvarinho e Loureiro, por exemplo, enquadram-se muito bem.

(Artigo publicado na edição de Janeiro de 2024)

Anselmo Mendes fecha 2024 com presença em 60 países

Anselmo Mendes

O produtor de vinhos, Anselmo Mendes, fechou o ano de 2024 com 80% de quota de exportação e presença em 60 países. No final de um período desafiante para o sector vitivinícola nacional e internacional, a marca manteve o seu estatuto de referência na produção de Vinhos Verdes, sobretudo das castas Alvarinho e Loureiro. Para […]

O produtor de vinhos, Anselmo Mendes, fechou o ano de 2024 com 80% de quota de exportação e presença em 60 países. No final de um período desafiante para o sector vitivinícola nacional e internacional, a marca manteve o seu estatuto de referência na produção de Vinhos Verdes, sobretudo das castas Alvarinho e Loureiro.

Para Anselmo Mendes, o fundador e enólogo da empresa, “2024 foi um ano de grande progresso e realização”, porque se expandiu a sua área de vinha e reforçou a equipa de viticultura, “um passo estratégico para assegurar a qualidade” dos vinhos que coloca no mercado. Para além disso, “a vindima do ano passado foi excepcional, talvez a melhor deste século, garantindo vinhos que reflectem o melhor do terroir e a nossa dedicação”.

A marca teve também reconhecimentos nacionais e internacionais significativos em 2024. Um deles foi para a referência Muros de Melgaço, que celebrou 25 anos, pois figurou no Top 100 Vinhos do Mundo da revista norte-americana Wine Enthusiast. Outro foi o Loureiro Private ter sido eleito o melhor vinho branco varietal do ano no Concurso Vinhos de Portugal. Para além disso, o Contacto 2023 conquistou o título de Alvarinho mais bem pontuado no Brasil, com 94 pontos atribuídos pela revista Adega.

Reconhecido pela qualidade dos vinhos que produz e pela forma surpreendente e consistente como inova, Anselmo Mendes combina o recurso a técnicas ancestrais, como a curtimenta, com métodos de vinificação ousados, como a fermentação de Alvarinho em cascos de carvalho. Os seus vinhos são o resultado de uma longa e fiel ligação à terra, de um espírito experimentalista e estudioso e de uma filosofia de respeito pelo ecossistema, com base na produção integrada de uvas.

Para 2025, a marca prepara-se para continuar o seu crescimento sustentável, fortalecendo a presença dos seus vinhos das castas Alvarinho e Loureiro em mercados estratégicos como Estados Unidos, Canadá e Brasil. O enoturismo será também uma prioridade, com a expansão da oferta na Quinta da Torre, tal como o lançamento de vinhos inovadores que têm sido cuidadosamente amadurecidos ao longo dos anos.

Sogrape: Quinta de Azevedo, Vinhos assentes na história

Quinta de Azevedo

Muito provavelmente, a primeira recordação de qualquer português sobre a história do nosso território, anterior à nacionalidade, está ligada à palavra da antiga professora ou professor da escola primária, hoje denominada primeiro ciclo de escolaridade. Atualmente, os manuais digitais e os quadros multimédia substituíram os livros com magras ilustrações e o quadro negro com letras […]

Muito provavelmente, a primeira recordação de qualquer português sobre a história do nosso território, anterior à nacionalidade, está ligada à palavra da antiga professora ou professor da escola primária, hoje denominada primeiro ciclo de escolaridade. Atualmente, os manuais digitais e os quadros multimédia substituíram os livros com magras ilustrações e o quadro negro com letras gordas desenhadas pela letra irrepreensível da professora. Ainda assim, dependendo do maior ou menor virtuosismo profissional e da atenção dos alunos, há algo que não mudou: a boca semiaberta ou os olhos bem despertos pela surpresa e admiração dos discentes quando ouvem falar pela primeira vez dos tempos do Conde D. Henrique, do Condado Portucalense e da sua descendência. Os edifícios deste período histórico nem sempre são de fácil acesso a todos os alunos de Portugal. Mas o Norte do país continua a apresentar inúmeros pontos de referência dos tempos que ficaram perdidos nos interstícios da história de Portugal. Um magnífico exemplo é a Casa-solar dos Azevedo, datada do século XI, localizada na freguesia de Lama, próximo de Barcelos, que foi utilizada pela primeira vez por D. Guido Viegas de Azevedo, rico-homem do tempo do conde D. Henrique.

A Casa-solar dos Azevedo foi, literalmente, o berço ancestral desta família que governou um vasto território que se estendia desde o além Cávado até Braga e Lanhoso. Desta família despontaram cavaleiros que ajudaram a construir e consolidar o reino de Portugal, depois em África e na Índia. Mais tarde, geraram altos embaixadores que firmaram alianças e tratados nas várias cortes europeias. No século XX, o brilho histórico começou a desvanecer-se e, em 1936, o Solar foi vendido em hasta pública.

De ruína, a quinta imponente

Em 1982, a Sogrape adquiriu o Solar, pela mão de Fernando Guedes. Estava praticamente em ruínas, e compreendia a torre do século XI, reedificada no primeiro quartel do século XVI, o corpo residencial do século XVIII, com a varanda colunada sobre o jardim e o edifício do século XIX.
Durante quatro anos, Fernando Guedes e a sua mulher, auxiliados pelo arquiteto Eduardo Rangel, dirigiram as obras de restauro e decoração do solar utilizando mobiliário e peças do século XVII e XVIII. O esforço e o desvelo aplicados na requalificação do imóvel pela família Guedes foram de tal ordem que este rapidamente se transformou, como referiu Fernando da Cunha Guedes, neto de Fernando Guedes e atual líder da Sogrape, “na menina dos olhos do meu avô que manteve e obrigava a manter em perfeito estado de conservação”.

Foi igualmente realizado um estudo profundo sobre a adaptação das castas aos 23 hectares dos terrenos iniciais da propriedade, tendo-se optado por um primeiro encepamento alicerçado nas castas Loureiro e Arinto que, em 2007, contabilizava 11,7 hectares. Atualmente, e depois de várias replantações, a Quinta de Azevedo tem 24 hectares de vinha, de um total de 34, alicerçada em duas castas: Loureiro e Alvarinho. A primeira ocupa a maior área de plantação, 23 hectares, e a segunda apenas 10 hectares. Existe ainda um campo experimental com cerca de um hectare que congrega, nas palavras do enólogo Diogo Sepúlveda, “um lote de seis castas mais aptas a resistir às alterações climáticas: Arinto e Sauvignon Blanc, entre outras”.

Curiosamente, a aquisição da propriedade, em 1982, e posterior requalificação da Quinta do Azevedo marcou o início de uma longa e famosa lista de compras de inúmeros projetos vínicos nacionais e internacionais. Pouco tempo depois, em 1987, a Sogrape adquiriu, num sonante e muito mediatizado negócio, a empresa A. A. Ferreira, marcando a entrada no setor do vinho do Porto e passou a integrar, no seu portefólio os vinhos, já muito reconhecidos e ambicionados pelos consumidores, da simbólica e histórica Casa Ferreirinha. Em 1995, a Sogrape integrou a Forrester, detentora da marca Offley, reforçando a sua presença no setor do Vinho do Porto e guindando-se a uma das maiores empresas exportadoras do setor. Dois anos depois completa a aquisição da Herdade do Peso, no Alentejo e da Finca Flichman, localizada na Argentina, mais propriamente na região de Mendoza. Com este último passo iniciou-se uma estratégia aquisitiva de cariz verdadeiramente internacional. O novo milénio consolidou a presença da empresa no setor do vinho do Porto e a sua estratégia internacional com a aquisição da marca Sandeman, que incluía vinhos do Porto, Jerez e Brandy. Em 2008 adquiriu a Viña Los Boldos, no Chile e, em 2012, estendeu as operações a Espanha com a aquisição das Bodegas LAN que, para além da operação principal, na região de Rioja, se estendeu às Rías Baixas, Rueda e Ribera del Duero.

Diogo Sepúlveda, líder dos departamentos de enologia de Mateus, Vinhos Verdes, Dão e Lisboa da Sogrape

 

Uma nova imagem e filosofia para os novos vinhos da Quinta de Azevedo

A apresentação dos novos vinhos da Quinta de Azevedo decorreu, como não podia deixar de ser, no piso térreo da torre original do atual solar, onde tínhamos à nossa espera Fernando da Cunha Guedes, diretor executivo da Sogrape. Este apresentou o enólogo Diogo Sepúlveda como alguém que “detém um conhecimento de mais de 15 anos do setor, com percurso profissional que inclui vasta experiência internacional, com projetos desenvolvidos em Portugal e no estrangeiro” e, por isso, assumiu a liderança dos departamentos de enologia de Mateus, Vinhos Verdes, Dão e Lisboa.

Os novos vinhos apresentados representam um reposicionamento para a marca Quinta de Azevedo, dotando-a de maior ambição, e possuem diversas características em comum. Em primeiro lugar, as uvas utilizadas em todas as referências foram produzidas em conformidade com as diretrizes de produção integrada de agricultura sustentável, definidas pela Organização Internacional de Luta Biológica contra Organismos Nocivos. A segunda característica é ostentarem a classificação Regional Minho. “Esta nomenclatura foi muito debatida internamente e acabou por ser a adotada”, referiu Diogo Sepúlveda. Por último, as referências apresentadas revelaram uma nova rotulagem mais cuidada e apelativa para o consumidor.

Começámos a prova pelo Quinta de Azevedo Loureiro Escolha, da colheita de 2022. O enólogo relembrou que “foi um ano com acumulados de precipitação inferiores à média dos últimos três anos e com uma primavera e verão muito quentes”. As uvas foram prensadas suavemente a baixas temperaturas e o vinho estagiou durante seis meses sobre as borras com batonnage frequente. Parte do lote estagiou em barricas usadas de carvalho francês.

Em seguida provou-se o Quinta do Azevedo Escolha Alvarinho, do ano 2023 que, segundo as palavras do enólogo, “foi fruto de um inverno bastante chuvoso, que depois se revelou muito seco, conduzindo a uma vindima muito precoce”. Uma pequena parte do lote estagiou em toneis e barricas usadas de carvalho francês.
Para o final estava reservada a estrela do trio. Trata-se de um vinho de lote composto por 70% de Alvarinho e 30% da casta Loureiro, do ano de 2023. Após a fermentação alcoólica, estagiou durante oito meses em toneis de 1200 litros e barricas de 500 litros de carvalho francês de primeira e segunda utilização. Uma pequena parte do lote estagiou sobre borras em depósito de inox para preservação de toda a frescura. Este verdadeiro topo de gama (€30), até agora inexistente no portefólio Quinta de Azevedo, mostra-se um vinho ainda muito jovem, seco e revela um perfil capaz de compaginar untuosidade e frescura.

Os vinhos agora chegados ao mercado espelham a ambição da Sogrape na região dos Verdes onde, com a marca Gazela, é um “player” de referência nos vinhos de maior volume e pretende claramente sê-lo também nas categorias mais exclusivas. Assim, a vetusta Casa-solar dos Azevedo, agora renovada e vestida de vinhedos, volta a inscrever o seu nome na história, desta vez na narrativa vínica do país e do mundo pela mão da maior empresa nacional do setor.

*Nota: O autor escreve de acordo com o novo acordo ortográfico.

(Artigo publicado na edição de Novembro de 2024)

Aveleda: O vinho entre jardins

Aveleda

O uso da palavra jardins no título desta peça não é ocasional. O espaço ocupado pela quinta da Aveleda é todo ele um pequeno paraíso: árvores centenárias, vegetação luxuriante, fontes e riachos que nos tranquilizam, pavões a chamar as pavoas e (menos bucólico, digamos…) cães a correr atrás de cabritos para lhes ferrarem os dentes […]

O uso da palavra jardins no título desta peça não é ocasional. O espaço ocupado pela quinta da Aveleda é todo ele um pequeno paraíso: árvores centenárias, vegetação luxuriante, fontes e riachos que nos tranquilizam, pavões a chamar as pavoas e (menos bucólico, digamos…) cães a correr atrás de cabritos para lhes ferrarem os dentes e obrigarem os primos Guedes, na liderança da empresa, a correria desenfreada para salvar o animal! Para tranquilizar o leitor, podemos afirmar que o bicho foi salvo e o cão devidamente admoestado. A jardinagem é aqui levada muito a peito. São cinco os trabalhadores que zelam para que tudo por aqui esteja devidamente cuidado, incluindo as roseiras que, trepando árvores acima, se lembraram de florir a cinco metros de altitude. Esta exuberância vegetativa também já a tínhamos conhecido na casa da família, em Avintes, onde se nota o mesmo cuidado e o mesmo empenho dos seus membros que, como comprovámos, sabem os nomes de todas as plantas e a idade, ainda que aproximada, de todas as árvores. Estamos assim num microcosmos, rodeado de muitas vinhas, quase todas pertencentes à Aveleda.

150 anos de história
A empresa, que completou já 150 anos de história e é responsável pela produção de cerca de 20 milhões de garrafas/ano, não deixou de procurar novos vinhos, novas abordagens das castas de que dispõe, e alargou mesmo a sua zona de interesse e intervenção a outras regiões do país, como a Quinta da Aguieira (Bairrada) em primeiro lugar e, mais tarde, com aquisições no Douro e no Algarve.
Alguns dos ícones da casa mantêm a sua fama e prestígio, como a aguardente Adega Velha, agora em várias versões de diferentes idades, e cujo stock repousa, tranquilamente, em armazém próprio, onde nos contemplam cerca de 300 cascos. Todos os anos se destila e, ainda que o mercado dos destilados não conheça hoje o brilho de outrora, a marca Adega Velha continua a ser uma referência. A marca Casal Garcia, rótulo emblemático dos Vinhos Verdes, ultrapassa os 10 milhões de garrafas/ano e é verdadeiramente o ex-libris da casa. Nascida em 1939 continua a ser um vinho que leva, para fora, o nome do país.
A equipa foi reforçada recentemente com a contratação de Diogo Campilho (ex-quinta da Lagoalva) para a área de enologia, onde colabora com Susete Rodrigues, que já estava na empresa. A ancestral ligação à casta Loureiro, muito forte nesta zona dos Verdes, tem vindo a ser complementada com uma aposta cada vez mais evidente no Alvarinho. Joga-se, aqui, depois um puzzle com várias componentes: como lidar com as castas em terrenos de xisto e de granito? Como combinar, no lote final, as duas variedades para que o resultado expresse o local de onde vieram? E, na adega, como poderá ser possível criar modelos diferentes, jogando, por exemplo, com as borras e respectiva percentagem dentro das cubas? E se quisermos usar barricas para fermentação ou estágio, como poderemos conseguir equilibrar o lote, não prejudicando o perfil próprio de cada casta? Nada disto é fácil, até porque actualmente trabalham com 15 parcelas diferentes de Alvarinho, espalhadas pela região e estaremos muito errados se pensarmos que lá porquanto a região seja a mesma (Vinhos Verdes) e os perfis se assemelham; até a decisão do momento de vindima pode determinar o estilo do vinho que se obtém. Por aqui estão a fazer vindimas nocturnas de algumas castas e a começar em meados de Agosto. Só assim se consegue que o vinho seja mais fiel à casta e ao território.
Seguindo as novas tendências, na Aveleda está-se a trabalhar com menores teores de sulfuroso, o que é facilitado pelo pH mais baixo e acidez mais alta características da região, no caso da vindima ser feita no momento certo. A regra de não haver regra é levada a peito. Por exemplo, há vinhos que apenas estagiam no inox, caso do Aveleda Alvarinho e o Aveleda Loureiro mas já os Solos de Xisto e Solos de Granito fermentam em inox e aí estagiam com as borras por um período mais longo, sem contacto com a madeira. O Parcela do Roseiral, por sua vez, fermenta em inox e cerca de 30% estagia em barrica.

Ventos da moda
Os ventos da moda voltaram a trazer os vinhos brancos para a ribalta e a procura mantém-se intensa, mas hoje os consumidores exigem mais precisão, melhor definição do carácter de cada vinho, mais equilíbrio entre acidez e corpo e mais pureza de fruta. Tudo somado, pode dizer-se que o desafio é enorme, mas poderá ser, cremos, muito compensador para quem tem de tomar decisões. E à refeição pudemos também usufruir de alguns vinhos muito velhos que fomos buscar às caves da casa mas… já se sabe que a célebre frase continua válida: não há bons vinhos velhos, há boas garrafas de vinhos velhos! E assim foi, mas o verdadeiro enófilo não vira a cara a uma garrafa, com ou sem rótulo!
Os anfitriões, Martim e António Guedes, que nos guiaram toda a visita, fizeram questão de apresentar também a segunda edição de um branco-homenagem que funciona como o topo de gama de todo o portefólio dos Vinhos Verdes da casa. Trata-se de um vinho que resulta de um lote entre Alvarinho e Loureiro, que combina bem a fermentação em inox com a barrica. É um branco luxuoso, a um preço que está muito longe de ser de ourivesaria. Justa homenagem a Manoel Pedro Guedes, antepassado e que herdou, em 1870, a quinta da Aveleda. Foi aí que tudo começou.

(Artigo publicado na edição de Junho de 2024)

Sub-região de Monção e Melgaço celebra aniversário de certificação exclusiva

O selo de certificação é a materialização da particularidade e caráter de uma sub-região que continua a senda de afirmação na liderança do segmento de vinhos de grande qualidade da região dos Vinhos Verdes.

A Associação de Produtores de Alvarinho celebrou o 7º Aniversário da criação do selo de certificação exclusivo da sub-região de Monção e Melgaço, com uma prova coletiva na Escola do Vinho do World Of Wine, em Vila Nova de Gaia. A prova dirigida a enófilos, profissionais e jornalistas, dividiu-se em dois momentos distintos. O primeiro […]

A Associação de Produtores de Alvarinho celebrou o 7º Aniversário da criação do selo de certificação exclusivo da sub-região de Monção e Melgaço, com uma prova coletiva na Escola do Vinho do World Of Wine, em Vila Nova de Gaia.

A prova dirigida a enófilos, profissionais e jornalistas, dividiu-se em dois momentos distintos. O primeiro envolveu um momento mais intimista intitulado “Meet the Producer”. Seguiu-se uma masterclass com produtores de referência do território: Anselmo Mendes, Quinta do Regueiro, Valados de Melgaço, Soalheiro, Quinta de Santiago, Dom Ponciano, Provam, Cortinha velha, Vinhos Bagagem, Poema, Quinta da Pedra, Vale dos Ares e Quinta do Mascanho.

O selo de certificação é a materialização da particularidade e caráter de uma sub-região que continua a senda de afirmação na liderança do segmento de vinhos de grande qualidade da região dos Vinhos Verdes. A sub-região tem mais de 2000 viticultores e cerca de 50 produtores, que todos os dias procuram desvendar e partilhar os mistérios do seu território, os diferentes solos, as diferentes altitudes, as diferentes exposições e vinhos.

Barcos Wines: A Revolução do Loureiro

Barcos Wines

Se, há uns anos, por uma questão de justiça e equidade, a, até então, Adega Cooperativa de Ponte da Barca consagrou na sua designação social a sua vila contígua, Arcos de Valdevez, hoje, por força da importância dos mercados externos e de uma comunicação mais fluída e perceptível, a cooperativa assume o “naming” de Barcos […]

Se, há uns anos, por uma questão de justiça e equidade, a, até então, Adega Cooperativa de Ponte da Barca consagrou na sua designação social a sua vila contígua, Arcos de Valdevez, hoje, por força da importância dos mercados externos e de uma comunicação mais fluída e perceptível, a cooperativa assume o “naming” de Barcos Wines. Com 36 mercados externos onde coloca os seus vinhos, a Barcos Wines foca-se cada vez mais numa missão de internacionalização, assumindo-se como uma instituição de vertente essencialmente exportadora, colocando o nome Vinho Verde nos quatro cantos do mundo. Uma aposta que o Director Geral, José Antas Oliveira, reputa de muito positiva, contribuindo para a notoriedade do produto e da Adega.
Fundada em 1963, a cooperativa tem como associados os agricultores de Ponte da Barca e Arcos de Valdevez, contribuindo, cada uma destas povoações, equitativamente e em percentagens idênticas com as uvas que elaboram os seus vinhos.
Num território de minifúndio, a Adega possui cerca de 800 associados, os quais representam 900 hectares de vinha em produção de uva. A média por agricultor não ultrapassa o hectare e meio. Uma realidade que se vem alterando perante uma nova visão de obtenção de maior rentabilidade da vinha. O crescente abandono da actividade por agricultores mais idosos tem levado à alienação dessas propriedades a produtores mais jovens e profissionais, que concentram agora propriedades mais extensas, diminuindo custos e aumentando os rendimentos. São estes novos produtores, com áreas que podem ultrapassar os seis hectares, que representam o futuro do Vale do Lima e a maior profissionalização dos procedimentos da Adega. A última década trouxe também uma política sistemática de valorização do preço pago pela uva, sobretudo motivada pelo aumento substancial dos custos de produção e pelo incentivo à continuidade da atividade económica, através da angariação de novos viticultores. Neste campo, o contributo do departamento de viticultura da Adega tem sido fundamental, quer no acompanhamento às novas plantações, com submissão dos projetos VITIS, quer no aconselhamento na escolha das videiras a plantar, análise de solos ou definição das melhores exposições solares na plantação. As próprias videiras são adquiridas na Adega, seguindo um critério de escolha prévio feito pelo departamento de viticultura. Essa definição conjunta da planificação tem dado bons frutos. No âmbito dessa cooperação de proximidade, e só nos últimos 10 anos, a Adega submeteu ao VITIS mais de 500 hectares de vinha a plantar.

 

Num território de minifúndio, a Adega possui cerca de 800 associados, que representam 900 hectares de vinha.  Os vinhos brancos representam cerca de 80 a 85% da produção, cabendo 10% a rosados e apenas 5% aos vinhos tintos.

 

Loureiro “on”, Vinhão “off”
Há actualmente um fenómeno paradigmático e que representa uma mudança significativa do encepamento que, não obstante a maior rentabilidade económica, está a causar o definhamento daquela que já foi a casta mais importante do Vale do Lima, Vinhão.
Sabemos pela história que o Vinhão, nos séculos XVIII e XIX, dominava a paisagem vinhateira e representava o grosso das exportações, sobretudo para o Reino Unido. O director geral e responsável de enologia, José Antas de Oliveira, não precisa ir tão longe e recorda que, ainda há 20 anos, as castas tintas eram maioritárias na sub-região, com as brancas a terem uma expressão menor. Hoje, os vinhos brancos na Adega representam cerca de 80 a 85% da produção, cabendo 10% à produção de rosados e apenas 5% aos vinhos tintos. Dir-se-á que é a procura que demanda as regras e, nesta cooperativa virada para o exterior, é a crescente busca de vinhos brancos leves e frescos que define, não apenas as estratégias da Adega, mas igualmente de todo o Vale do Lima. Os números são claros e não permitem visões apenas emocionais: a Barcos Wines exporta 75% da sua produção e, no primeiro trimestre do ano corrente, perante a contração do mercado nacional, o volume de exportação já subiu para os 88% da produção global. E, aqui, são os brancos quem mais ordena, seguidos ainda de longe pelos rosados que se vão impondo com uma quota ascendente.

 

São 6,5 milhões de unidades, entre vinho engarrafado e Vinho Verde certificado em lata, tendo a região percebido a importância destes novos formatos, criando regulamentação específica.

 

O futuro dos tintos
E que futuro se avizinha para o Vinhão? A preocupação existe e a consciência de que, no futuro, esta casta outrora bandeira de toda a região, pode tornar-se rara e, numa abordagem alarmista, até desaparecer do encepamento minhoto, faz soar os alarmes. O Vinhão tradicional é, cada vez mais, um lampejo do passado. De forte pendor rústico, o seu consumo cinge-se à região e a um consumidor mais velho e saudosista. Os jovens já não lhe mostram a devoção dos antigos e o seu consumo retrai-se. A Adega está consciente dessa viragem e pretende assumir as rédeas do renascimento da casta. Se o perfil tradicional não atravessa fronteiras, há que o subjugar a novas formas de vinificação que, não lhe retirando a identidade aromática e gustativa do “verde tinto”, retiram-lhe a rusticidade, subtraindo-lhe o mais intenso contacto com as películas no processo fermentativo, criando vinhos de cor menos retinta, menos extraídos, com menor teor alcoólico e, sobretudo, mais elegantes e contemporâneos. Esta nova abordagem nasce em 2017, com as referências Reserva dos Sócios Vinhão, com estágio em barricas de carvalho francês, ou o espumante Naperão Vinhão Bruto, este elaborado pelo método charmat. Esta abordagem diferenciada do Vinhão tem permitido, num contexto internacional, e perante a sua exuberância de fruta, juventude e cor mais aberta, compará-lo aos Beaujolais ou Gamay. E, é nesta perspectiva de encontrar outro modo de abordar a vinificação do Vinhão que se tentará, presente e futuramente, combater a sua cada vez menor expressão nas vinhas, encontrando nas suas potencialidades, novas formas de o preservar. Aliado a esta nova abordagem, a Adega assumiu também a responsabilidade cultural da sua preservação, aumentando o preço pago pela uva, superior ao pago pela Loureiro, como forma de incentivar o incremento da produção e desmotivando o seu arranque para produção de uvas brancas. Os dados estão lançados para assegurar o futuro desta casta cheia de autenticidade e potencial. E a Adega assume essa responsabilidade de a fazer renascer.
Contudo, o Loureiro veio para ficar e reinar. A sua elegância, a frescura dos vinhos que dela nascem, o forte pendor mineral, para além de ser “amiga” do produtor graças à sua graciosidade para produzir em quantidade e qualidade, tornam-na hoje rainha absoluta e incontestada de todo o Vale do Lima.

 

 

Barcos Wines
José Antas Oliveira, enólogo e director geral da Barcos Wines.

A espumantização na Adega já leva 8 anos, tendo-se optado pelo Método Charmat, de modo a vincar o perfil das castas e da tradição de vinhos jovens, frescos, frutados e de consumo mais rápido.

 

Lata, pet nat, curtimenta, premium…
A Adega tem sido um foco de pioneirismo e inovação, antecipando tendências e desbravando mercados. Actualmente produz 6,5 milhões de unidades, entre vinho engarrafado e vinho verde certificado em lata, tendo a região, e bem, percebido a importância destes novos formatos, criando regulamentação que permite a sua certificação, levando o nome “Vinho Verde” a todo o mundo. Com meio milhão de latas produzidas, a Adega vê neste segmento de negócio já não um nicho, mas uma realidade económica muito significativa nas contas. A certificação marca o compromisso inalienável com a região e é mais uma bandeira que se hasteia nos melhores mercados brasileiros e americanos, denotando-se um crescimento acentuado noutros, como a Alemanha, Polónia, Estónia ou México.
Brasil e Estados Unidos levam hoje a dianteira nos mercados preferenciais da Adega. O “país irmão” tem, nos últimos anos, liderado as exportações e, acredita a Direcção, com uma tendência de crescimento absolutamente notável.
José Antas Oliveira não deixa de salientar a vertente experimentalista e inconformada que existe nas equipas de viticultura e enologia que lidera. A potenciação do Loureiro, nos últimos 10 anos passou não apenas pelo cada vez maior conhecimento e rigor técnico no volume, mas igualmente pela séria aposta no segmento Premium. Do pensamento ao acto foi apenas um piscar de olhos. Hoje o Loureiro veste-se com diferentes roupagens e surge em versões espumantizadas, nos Pet Nat, em vinhos com maceração pelicular ou vinhos de curtimenta. Dentro desta vertente experimental, surgem também os diferentes estágios em madeira, utilizando diversos materiais – carvalho, castanho português e acácia – com resultados distintos, revelando a plasticidade da casta e, também, o seu potencial de longevidade com imensa qualidade e sem perda de singularidade e distinção. Não obstante a Adega privilegiar o volume, a robustez financeira tem permitido criar produtos diferenciados, em pequena escala, também eles destinados a nichos, até agora, com pleno sucesso, aportando maior notoriedade à Cooperativa e permitindo-lhe reforçar as posições nos mercados internacionais habituais e, ao mesmo tempo, entrar em novos e mais exigentes espaços.
A espumantização na Adega já leva oito anos, tendo-se optado pelo Método Charmat de modo a vincar o perfil das castas e também as práticas tradicionais da região de criar vinhos mais jovens, mais frescos, frutados e de consumo mais rápido. A identidade da Sub-Região, que dá os primeiros passos na produção de espumantes, passa pelos monovarietais de Loureiro e Vinhão. A categoria espumante já representa entre 20 a 30 mil garrafas de venda anual, e com foco no mercado nacional, sendo um segmento que está em crescimento e que pode ser mais uma alternativa na afirmação da versatilidade desta Adega que já completou 60 anos desde a sua criação.
A dinâmica de criatividade e sensibilidade ao futuro próxima está solidamente reflectida na Adega. Necessidades dos mercados, lançamento de novos produtos, antecipação de tendências, de hábitos de consumo, nomeadamente, de redução do teor alcoólico dos vinhos e redução da pegada ecológica, são constantes do seu quotidiano. Entretanto, e porque o mundo continua a girar a uma velocidade estonteante, a Adega continua a realizar investimentos avultados, mantendo-se na linha da frente da inovação e vanguarda que a tornam ponta de lança da valorização e promoção do verdejante território do Vale do Lima.

(Artigo publicado na edição de Junho de 2024)

João Portugal Ramos reforça presença nos Vinhos Verdes

João Portugal Ramos

O produtor irá começar a produzir vinhos da casta Loureiro no Vale do Lima, em parceria com o Paço do Cardido, onde a empresa começou o seu percurso nos Verdes, em 2010. “Esta é uma região com um clima e terroir com muito para oferecer, pois é propícia à produção de vinhos brancos frescos, com […]

O produtor irá começar a produzir vinhos da casta Loureiro no Vale do Lima, em parceria com o Paço do Cardido, onde a empresa começou o seu percurso nos Verdes, em 2010. “Esta é uma região com um clima e terroir com muito para oferecer, pois é propícia à produção de vinhos brancos frescos, com muita qualidade” explica o enólogo João Portugal Ramos a propósito desta nova parceria na Região dos Vinhos Verdes.

A transferência da operação dos Vinhos Verdes de Monção e Melgaço para Ponte de Lima, através da parceria com a família Portela Morais, permitirá ao Grupo reforçar a sua presença nesta região, e um maior controlo sobre a vinha e matéria-prima. João Portugal Ramos acredita que só assim é possível assegurar a qualidade reconhecida nos seus vinhos, mas também dar resposta a um mercado exigente e que dá cada vez mais protagonismo à casta Loureiro.

Os primeiros vinhos do Grupo, vinificados na adega pertencente ao Paço do Cardido, sairão já da vindima deste ano e virão completar uma gama que já conta com um vinho Alvarinho e dois espumantes da mesma casta. As novidades serão reveladas no final do ano.

WineStone: Grupo José de Mello cria holding e investe no Douro e Vinhos Verdes

WineStone

No sector do vinho, o Grupo José de Mello já não significa apenas “Ravasqueira”. Oitenta anos depois da aquisição, pela família José de Mello, da propriedade em Arraiolos, Monte da Ravasqueira, que viria a ser a base deste projecto alentejano, o grupo cria uma holding de investimentos, WineStone, e anuncia as primeiras apostas: as propriedades […]

No sector do vinho, o Grupo José de Mello já não significa apenas “Ravasqueira”. Oitenta anos depois da aquisição, pela família José de Mello, da propriedade em Arraiolos, Monte da Ravasqueira, que viria a ser a base deste projecto alentejano, o grupo cria uma holding de investimentos, WineStone, e anuncia as primeiras apostas: as propriedades Quinta do Retiro Novo e Quinta do Côtto, no Douro; Paço de Teixeiró, na região dos Vinhos Verdes; e a marca de vinho do Porto Krohn.

A WineStone vem reforçar, segundo o grupo, a vontade de crescimento “em diferentes áreas da actividade económica” e de posicionamento “no top 3 da liderança do sector do vinho”.

Num evento para a imprensa (que aconteceu no dia 17 de Outubro), o Grupo José de Mello descortinou, ainda, outros objectivos ambiciosos: crescer, até 2030, pelo menos dois dígitos percentuais por ano; passar dos actuais 21 milhões de euros anuais, em facturação, para 60 milhões; e duplicar as exportações, dos 30% de hoje para 60%.

Em relação à Quinta do Retiro Novo e à respectiva marca Krohn, foi feita aquisição directa, enquanto que na Quinta do Côtto, na mesma região, e no Paço de Teixeiró, nos Vinhos Verdes, foi feito um contrato de exploração total, sem terem sido revelados valores ou prazos. As equipas das propriedades agora adquiridas e geridas serão mantidas, mas David Baverstock, recentemente integrado na Ravasqueira, assume a liderança de toda a enologia. O reconhecido enólogo confessou, à Grandes Escolhas, que já supervisionou a vindima deste ano nas três regiões.

Além da entrada do grupo numa nova categoria de vinhos, vinho do Porto, com a marca Krohn, a WineStone — que apresenta Pedro Pereira Gonçalves como Presidente Executivo — vai também trazer desenvolvimento do segmento de vinhos “luxury”, como dito pelos próprios, mas o maior foco será “no meio da pirâmide”, os vinhos “premium”.

Pedro Pereira Gonçalves liderou, nos últimos anos, o processo de desenvolvimento e afirmação da Ravasqueira. “O nosso principal objectivo é desenvolver uma estratégia de crescimento com ambição, consistência e sustentabilidade, numa perspetiva de longo prazo, para conseguirmos produzir e comercializar vinhos de qualidade em todas as regiões em que estamos presentes, com marcas admiradas pelos consumidores dos diferentes segmentos, no mercado nacional e com impacto nos mercados internacionais”, afirma o Presidente Executivo da WineStone.

Já Salvador de Mello, Presidente Executivo do Grupo José de Mello, reforça que “a criação da nova plataforma de negócios WineStone representa mais um passo na concretização da nossa ambição de crescimento e constitui também um desafio para assumirmos, a exemplo das outras áreas de negócios em que estamos presentes, uma posição de liderança no sector do vinho”.

A WineStone garante, adicionalmente, que tenciona vir a entrar na região de Lisboa e expandir a acção no Alentejo, bem como desenvolver enoturismo no Douro.