SOALHEIRO: De alma regenerada

Soalheiro

Hoje, quando chegamos à Soalheiro, percebemos que estamos perante uma empresa que voa positivamente baixinho, de olhos postos na terra, onde tudo começa e se constrói a partir dela. Maria João Cerdeira, quer queira, quer não, é o rosto de uma nova forma de entendimento da criação de vinhos, que não se dissocia, nem por […]

Hoje, quando chegamos à Soalheiro, percebemos que estamos perante uma empresa que voa positivamente baixinho, de olhos postos na terra, onde tudo começa e se constrói a partir dela. Maria João Cerdeira, quer queira, quer não, é o rosto de uma nova forma de entendimento da criação de vinhos, que não se dissocia, nem por um momento, do sonho inicial dos pais: erguer algo que os fixasse ao lugar que os viu nascer, Melgaço, criando riqueza suficiente para lhes permitir ali permanecer e, ao mesmo tempo, possibilitar que outros como eles fizessem o mesmo.

Em 2018, ano da primeira visita deste vosso cronista à Soalheiro, já ela se colocava, ainda que nos bastidores, na liderança viva e serena de uma equipa em constante movimento. Assumindo a condição, nunca viu na figura feminina uma fragilidade. A educação que lhe foi dada, nunca a limitou por ser mulher, antes lhe deu, desde cedo, muita liberdade aliada à responsabilidade de que tinha de mostrar rigor e muito profissionalismo. Numa casa desde cedo ligada à viticultura, decidiu começar pela medicina veterinária, e com ela cresceu.

Há bem mais de uma década, o pai, João António Cerdeira, pioneiro da plantação de Alvarinho estreme em Melgaço, desafiou-a a coordenar toda a viticultura da família. Desde o princípio, Maria João Cerdeira não desejou procurar outros destinos. Melgaço estava-lhe no sangue e, concluídos os estudos, ali se fixou, diz ela, para todo o sempre. A obstinação e uma elevada consciência ambiental fizeram-na contrapor um outro desafio ao progenitor: assumiria o legado, sob a condição de lhe ser permitido converter todas as vinhas para modo de produção biológico, exigência que, à primeira vista, parecia um contrassenso, conhecendo-se as características da região dos Vinhos Verdes, garantidamente a mais pluviosa de todas as regiões vitivinícolas portuguesas. Contrariamente ao que antevia, a sua proposta foi prontamente aceite por João António Cerdeira, que lhe deu total confiança e liberdade para essa concretização.

Primeiras vinhas

A ousadia da decisão de João António Cerdeira só se estranharia a quem o não conhecesse. Em 1974, foi o responsável e pioneiro pela alteração da paisagem de Melgaço. A vinha de bordadura, sem rentabilidade, foi por ele abandonada e, em seu lugar, faz nascer as chamadas primeiras vinhas de Alvarinho naquele território, à semelhança do que já se fazia na vizinha Monção. A obtenção de um rendimento satisfatório das pequenas parcelas era fundamental para evitar o êxodo migratório, tão comum no início dos anos 70 do século XX.

Já casado, em 1971, com Palmira, João António Cerdeira possuía a firme esperança de que aquela terra havia de lhes garantir o futuro. No ano da revolução, inicia a sua própria. As terras de milho minguavam as gentes. Ali, à beira de casa, numa parcela que os antigos chamavam de Soalheiro, ergueu esteios de cimento, rodeando, cada um deles, de seis pequenas videiras atadas aos postes. Da vizinhança, apenas se observava a plantação de postes que se assemelhavam a cruzes, uma bizarria que motivava conversas jocosas por parte dos agricultores manietados pelos antigos costumes do empobrecimento com alegria. Volvidos quatro anos, a vinha florescia e produzia abundantemente, permitindo à família Cerdeira obter um pecúlio significativo com a venda de uva à Adega de Monção. Parte desta matéria-prima era guardada para as experiências de vinificação de João António Cerdeira, enólogo por autodidatismo e empirismo herdado dos seus pais. O sucesso evidente, converte a outrora vizinhança reticente que, mimetizando as práticas do pioneiro, pintam as suas pequenas parcelas do verdejante Alvarinho, começando ali a alteração da paisagem de Melgaço.

A garagem foi, a partir de 1978, o centro de vinificação. Em 1982, nasce a marca Soalheiro e os primeiros vinhos rotulados da casa. À primeira vinha, poucos metros abaixo da residência familiar, o casal vai, por herança familiar e aquisição, agregando parcelas adjacentes e a Soalheiro vai crescendo, mantendo a raiz na casa de família, entretanto convertida em adega.

Quando, em 2004, Maria João Cerdeira assume a viticultura, o processo de conversão inicia-se imediatamente. O conhecimento, porém, ainda era limitado, e, sentindo essa necessidade de adquirir a vertente científica que lhe permitisse apreender os porquês da natureza, embrenha-se na especialização académica em viticultura biológica, regenerativa e biodinâmica. Nesse processo, certificado em 2006, há todo um pragmatismo de levar a ciência à terra. As vicissitudes do clima do Alto Minho não se compadecem com romantismo absoluto. Desde logo, criam-se protocolos rigorosos e métodos de atuação, que passaram pela criação de estações meteorológicas e modelos de controlo de pragas. O rendilhado dos 18 hectares de pequenas parcelas detidas pela Soalheiro, somado às cerca de 700 outras parcelas, num total de 100 hectares, que integram o total de vinhas controladas pela empresa, determinam um nível de profissionalismo imenso, ainda que os trabalhos de maior exigência, inovação, experimentalismo e, também, maior risco, sejam exclusivamente realizados nas vinhas próprias da empresa. Se a inovação tem um custo, é assumido exclusivamente pela casa. Para os produtores de uva fica a preocupação com a rentabilidade, fator essencial de sustentabilidade humana do território e fórmula exata para evitar o seu abandono.

Miguel Alves é o responsável de viticultura e coordenador dos viticultores do Clube dos Produtores, traduzido em 200 as famílias que o integram e produzem as uvas do universo Soalheiro

 

O clima e a importância dos solos

O microclima associado à Soalheiro é, de certo modo, transversal a todo o vale do rio Minho. As parcelas exploradas vão mais além e estendem-se por mais dois vales, os dos rios Mouro e Gadanho. O clima, notoriamente continental e pluvioso, é complexo e exige conhecimento científico apurado, conjugado com capacidade de atuação rápida e eficaz. Os solos variam de composição do vale para as cotas mais elevadas: no vale predominam os franco-arenosos, de elevada fertilidade, na altitude, dão lugar ao granito.

Os solos e a sua diversidade são a paixão maior de Maria João Cerdeira. As vinhas do vale, da qual as Primeiras Vinhas são exemplo, caracterizam-se por uma vegetação permanente de suporte de vida e sanidade da videira. Um olhar atento rente ao chão permite observar azevém, língua-de-ovelha e dente-de-leão (sinal de compactação dos solos), hortelã (revelador de um pH ácido e solo fértil e húmido), aveia selvagem…

A interpretação dos solos, a sua composição, compactação ou teor de humidade são analisados por Maria João Cerdeira por mera visualização das plantas que espontaneamente ali brotam. Reconhece-se, por confirmação igualmente científica, que a videira beneficia da biodiversidade e a sua correta interpretação e preservação permite aumentar o seu tempo médio de vida, que, com cargas elevadas, pode esgotar-se ao fim de duas décadas. Por conseguinte, há que intervir apenas e só se for necessário. Qualquer ação mais agressiva, encurta substancialmente a vida de uma videira e pode ter consequências graves no ecossistema. O conhecimento é fundamental neste novo paradigma da sub-região que, no espaço de 50 anos, assistiu a uma mudança tremenda na paisagem, outrora ocupada por sementeiras e, atualmente, ocupada quase na totalidade por vinha.

 

Clube dos Produtores

Subindo a uma das elevações que rodeiam o vale, é possível ver parte da manta de retalhos tricotada a diversos tons de verde. Ali se encontram parte das parcelas de vinhas do Clube dos Viticultores, uma associação informal constituída por cavalheiros, viticultores, imbuídos de um espírito comum que, empiricamente, trilha todos os requisitos da agricultura regenerativa, aquela que acima da sustentabilidade, melhora o ecossistema envolvente. Ali não há solos nus. A Alvarinho ainda é um bom negócio, produzindo por hectare uma média de oito a dez mil quilos.

O Clube dos Viticultores foi idealizado por João António Cerdeira nos idos anos 80 e, volvidos mais de 40 anos, vem crescendo. São 200 as famílias que dele fazem parte e produzem as uvas do universo Soalheiro, o que mostra a dimensão social de um projeto cuja sustentabilidade só é possível pela rentabilização da atividade. A Alvarinho é, provavelmente, a uva mais bem paga no território nacional continental. Em 2025, a Soalheiro pagou 1,30 euros por cada quilo de uva que entrou na adega. E é nessa relação de respeito e compromisso que se sustenta o conceito do referido clube, valorizando-se a exclusividade e a diferenciação, em que a Vinha Velha é superiormente remunerada. Estas práticas têm permitido não só que não haja abandono das terras, mas também contribuem para que a área de plantio da vinha de Alvarinho tenha aumentado em Melgaço.

A importância do Clube dos Viticultores foi recentemente imortalizada num livro editado pela Soalheiro, dando rosto aos 200 viticultores que preenchem esta comunidade coesa de dignificação de um território valiosíssimo.

Projeto Germinar

É neste contexto social que germinam projetos integradores. Germinar é o projeto que nasce em 2019, no Clube de Produtores, com o associado viticultor António Matos, cujas vinhas se encontram no sopé do Monte de Faro, já fora da sub-região de Monção e Melgaço. Neste projeto de solidariedade social, a Alvarinho é preterida em nome da Loureiro, casta que melhor vinga fora desta sub-região.

António Matos abandonou a carreira como assistente social para se dedicar à viticultura. Porém, o altruísmo, a vontade de recuperar pessoas com adições, fá-lo abraçar, com a Soalheiro, este projeto de reabilitação humana e integração, onde o trabalho na viticultura surge como o paliativo recuperador. Hoje, o Germinar, financiado pela Soalheiro, conta com quatro participantes que vencem os fantasmas do dia a dia junto das vinhas das quais nasceu o vinho homónimo.

 

Vinhas de altitude

Quando entramos na moderna adega da Soalheiro, somos levados a observar uma maquete que simula a visão aérea de todo o território da região. A orografia é diversa e as vinhas dispõem-se pelas variadas altitudes, entre as mais próximas dos rios até às mais inóspitas altitudes, dissemelhança que obriga uma metodologia precisa e presença constante da equipa de vitivinicultura da empresa. Com vinhas no vale e em altitude, os tempos de maturação divergem muito de parcela para parcela e a marcação de vindimas requer uma planificação perfeita num puzzle de pequenos retalhos, cada qual com a sua personalidade e temperamento.

No Soalheiro Clássico, trabalha-se com uvas oriundas do Vale e de Altitude, variando a percentagem de um e de outro em cada colheita, no sentido de manter uma homogeneidade no perfil. Subindo do vale para as montanhas adjacentes, a partir dos 300 até aos 500 metros de altitude, encontramos as parcelas destinadas ao Granit. Solos mais pobres, totalmente o oposto dos vales férteis do Minho, que tendem a conferir aos vinhos uma perceção de maior seriedade, mineralidade e tensão. Maior acidez e pH mais baixo é comum nestes vinhos. Os atuais limites de 500 metros de altitude serão, a breve trecho, alterados. As alterações climáticas criam desafios e o futuro está a ser salvaguardado com experimentações.

Saindo do vale do rio Minho para o vale do rio Mouro, a paisagem modifica-se e, nas cotas altas, a vinha desaparece do olhar, subsistindo o mato rasteiro e a forragem que alimenta os bovinos de raça Cachena e os equídeos de raça Garrana que por ali vagueiam em liberdade.

O campo experimental

A Vinha da Branda da Abeleira é um verdadeiro desafio aos limites da viticultura e, por isso mesmo, é assumida integralmente pela Soalheiro. A cultura da vinha busca agora a intromissão nos territórios da transumância das brandas (residências de altitude dos pastores, ocupadas durante a primavera e o verão) e inverneiras (habitação dos pastores localizadas nas cotas mais baixas e ocupadas durante o rigor do inverno).

A Vinha da Branda da Abeleira é um campo experimental situado a 1100 metros de altitude, que, por ora, não projeta a produção convencional de uva. Estamos perante uma vinha que visa aprofundar o conhecimento e a resistência da Alvarinho em cotas muito elevadas, numa parcela sujeita a todos os rigores das estações do ano, sobretudo dos invernos gélidos, que transforma a vinha num manto branco de neve.

Motivada pelas notórias alterações climáticas, a Branda da Abeleira foi plantada há sete anos. Tem permitido demonstrar diversas conclusões a nível das amplitudes térmicas, perceção dos solos, sua composição xistosa e granítica e mutações microbiológicas, que levaram a algumas intervenções nos solos. Atualmente, volvida uma primeira fase, existe já conhecimento que, por exemplo, conduziu a uma multiplicação de microrganismos que podem auxiliar à sobrevivência da videira em condições extremas.

Miguel Alves é o responsável de viticultura e o maestro que coordena os viticultores do Clube dos Produtores. O semblante mostra que as alterações climáticas são uma evidência que urge assumir. Durante o ano, os dias com picos de calor têm aumentado substancialmente, com impacto significativo no ciclo vegetativo da planta. Portanto, a Vinha da Branda é já um reflexo de antecipação do futuro, promovendo o conhecimento sobre o comportamento da videira em cotas onde jamais foi plantada.

Asun Caballo e a cave de inovação  

Regressados à adega, encontramos Asun Caballo, a enóloga que, após vaguear   pela Bodegas Gramona, Valdeorras, Chile, aportou na Soalheiro há quase sete anos e por lá permanece. Na verdade, Asun Caballo é quase vizinha. Mora numa povoação galega do outro lado do rio Minho, donde, do terraço de casa, avista a Soalheiro. Os estudos foram concluídos em Tarragona, porém, a uva e o vinho fazem parte da tradição familiar, pois os pais, desde sempre, produziram e venderam uva, tendo também raízes pesqueiras, tal qual como a família Cerdeira.

A filosofia de criação de vinhos de baixa intervenção, fá-la comungar em pleno com Maria João Cerdeira. Mais do que a intervenção, valoriza-se a possibilidade do experimentalismo na adega e na Cave de Inovação, na multiplicidade de vasilhame usado – recipientes de diversos formatos e composições, entre foudres, barricas de carvalho francês, novas e usadas, tonéis de castanho muito velhos, ovos e cubas de cimento, ânforas, vidro. Nesta cave, tudo é permitido em nome do processo criativo, plasticidade e exploração dos limites da Alvarinho, se é que existem. Um dos desafios mais recentes passa pela recuperação das barricas originais da Soalheiro, as relíquias de castanho onde tudo começou. Encontradas numa casa nas vizinhanças, estão agora a ser recuperadas, por forma a replicar uma espécie de pecado original da empresa.

Mosto Flor, vinho da equipa Soalheiro, elaborado normalmente a partir de vinhas velhas em cotas mais elevadas, Terra Mater, onde o cimento surge incorporado num vinho que, para a enóloga, tão bem define o vale de Monção e Melgaço, espumantes que, na Soalheiro, existem desde 1995, sendo o primeiro elaborado pelo Método Clássico, exclusivamente de uva Alvarinho, produzido na Península Ibérica, ou os vibrantes Pet-Nat, que buscam palatos mais joviais, são alguns dos projetos-exemplo que brotam na cave do Soalheiro.

No fim, e com muito ainda por dizer, fica a ideia de um Soalheiro como expressão genuína de um ecossistema, de uma comunidade de raízes, sotaque e valores num território que se regenera através de um coletivo. Mais de 40 colaboradores, 200 famílias de viticultores reunidas numa comunhão de preservação.

(Artigo publicado na edição de Julho de 2026)

Manuel Pinheiro homenageado pelo trabalho desenvolvido nos Vinhos Verdes

Manuel Pinheiro

O actual Presidente da Comissão Vitivinícola Regional (CVR) do Dão, Manuel Pinheiro, foi distinguido, em Valença, com uma Menção de Mérito, na categoria “Marketing, Promoção e Internacionalização”, no âmbito dos Prémios Vinhos do Atlântico 2026. Esta homenagem foi prestada graças ao trabalho desenvolvido entre 2000 e 2022, no que concerne à afirmação dos Vinhos Verdes […]

O actual Presidente da Comissão Vitivinícola Regional (CVR) do Dão, Manuel Pinheiro, foi distinguido, em Valença, com uma Menção de Mérito, na categoria “Marketing, Promoção e Internacionalização”, no âmbito dos Prémios Vinhos do Atlântico 2026. Esta homenagem foi prestada graças ao trabalho desenvolvido entre 2000 e 2022, no que concerne à afirmação dos Vinhos Verdes nos mercados internacionais, enquanto Presidente da Comissão de Viticultura da Região dos Vinhos Verdes. Durante este período, firmou, de acordo com o comunicado, “a consolidação dos Vinhos Verdes como uma das principais regiões exportadoras de vinho de Portugal, liderando uma estratégia de valorização da marca, de abertura de novos mercados e de promoção das castas autóctones como elemento diferenciador da região”.

O percurso de Manuel Pinheiro inclui o exercício de funções como Presidente da Associação Nacional das Denominações de Origem Vitivinícolas (ANDOVI), a Vice-Presidência do Comité Europeu das Empresas de Vinhos e como membro do Conselho Consultivo do Instituto da Vinha e do Vinho.

A Vinhos do Atlântico é uma iniciativa de cooperação entre a Galiza e a Região Demarcada dos Vinhos Verdes e tem como objectivo homenagear personalidades, instituições e projectos que contribuíram para o desenvolvimento, valorização e projeção internacional dos vinhos de influência atlântica do Noroeste da Península Ibérica.

Região dos Vinhos Verdes com novo site

Vinhos Verdes

Por ocasião do 117º aniversário da demarcação, constituída através da publicação da Carta de Lei de 18 de Setembro de 1908, a Região dos Vinhos Verdes apresenta o novo site institucional. A aposta reforçada na comunicação orientada para o consumidor estende-se desde a região à instituição, passando pela vinha, pelos vinhos e pelo enoturismo, tema […]

Por ocasião do 117º aniversário da demarcação, constituída através da publicação da Carta de Lei de 18 de Setembro de 1908, a Região dos Vinhos Verdes apresenta o novo site institucional. A aposta reforçada na comunicação orientada para o consumidor estende-se desde a região à instituição, passando pela vinha, pelos vinhos e pelo enoturismo, tema associado à oferta dinamizada pela Rota dos Vinhos Verdes. Sem esquecer os perfis dos vinhos produzidos neste território, as nove sub-regiões, as castas, as possibilidades de harmonização e receitas de Chefes conceituados, entre outras informações.

Mantém-se a matriz técnica e as funcionalidades pensadas para os operadores económicos da região, bem como as temáticas e os procedimentos associados à viticultura, a par com a informação acerca da certificação, a sustentabilidade, a formação da Academia dos Vinhos Verdes ou a actualização dos controlos de maturação para a vindima. Para explorar o site, basta aceder através do link www.vinhoverde.pt

Vinhos verdes

Vinhos Verdes premeiam os melhores de 2025

vinhos verdes

A Casa dos Vinhos Verdes – Palacete Silva Monteiro, no Porto, foi palco da cerimónia de entrega de prémios do Concurso de Vinhos da Região Demarcada dos Vinhos Verdes, que distinguiu 79 vinhos em 12 categorias, entre as mais de 260 amostras em competição. Destaque para o Alvarinho Deu-la-Deu Reserva 2023, o Quinta das Pirâmides […]

A Casa dos Vinhos Verdes – Palacete Silva Monteiro, no Porto, foi palco da cerimónia de entrega de prémios do Concurso de Vinhos da Região Demarcada dos Vinhos Verdes, que distinguiu 79 vinhos em 12 categorias, entre as mais de 260 amostras em competição.

Destaque para o Alvarinho Deu-la-Deu Reserva 2023, o Quinta das Pirâmides Reserva Alvarinho 2021 e o Dona Paterna Alvarinho Bruto 2021, vinhos galardoados com a Grande Medalha de Ouro da edição 2025.

Promovido anualmente pela Comissão de Viticultura da Região dos Vinhos Verdes (CVRVV), com o apoio da CA Seguros, o Concurso de Vinhos da Região Demarcada dos Vinhos Verdes registou, nesta edição, um incremento de 9% nas inscrições face ao ano anterior, com destaque para o crescimento dos vinhos inscritos nas categorias Grandes Vinhos com Estágio (11%) e Vinhos Espumantes (56%).

“É muito interessante perceber como as categorias de vinhos com estágio e espumantes ganham mais destaque nesta edição do Concurso, mostrando que a Região dos Vinhos Verdes está a apostar em segmentos premium que registam uma afirmação crescente no mercado”, destaca Dora Simões, Presidente da CVRVV. “Em simultâneo, e de ano para ano, o número de agentes económicos inscritos tem vindo também a aumentar, o que confirma uma vontade dos produtores submeterem os seus produtos à avaliação de um júri que junta profissionais de vários mercados estratégicos, enólogos, imprensa e provadores certificados para, em prova cega, escolherem os vinhos que melhor representam cada categoria”, acrescenta.

Em prova cega estiveram 268 amostras, entre as quais o júri destacou três vinhos com a Grande Medalha de Ouro, 15 com Ouro e 61 com Prata.

As amostras a concurso foram avaliadas por um júri constituído por 45 jurados: Catherine Fallis (USA), Jason Heller (USA, Nappa), Kathleen MCNeil (Canadá), Bento Amaral, Ana Faria (IVDP), Paulo Pinto (IVDP), Miguel Martelo (CVR Dão), Luís Pedro (CVR Alentejo), Ana Miquelino (CVR Távora Varosa), Daniela Almeida (CVR Bairrada), Tim Hogg (Universidade Católica), Isabel Afonso (IPVC), Agostinha Marques (Associação Portuguesa de Viticultura e Enologia), João Lourenço (Associação Portuguesa de Escanções), José Augusto Moreira, Ana Isabel Pereira e Manuel Carvalho (Jornal Público), José João Santos e Marc Barros (Revista de Vinhos), Rui Miguel Graça (Correio do Minho), enólogos da Junta de Recurso da CVRVV e enólogos convidados da Região dos Vinhos Verdes, para além da Câmara de Provadores da CVRVV.

Dora Simões reconduzida nos Vinhos Verdes

Os novos Órgãos Sociais da Comissão de Viticultura da Região dos Vinhos Verdes (CVRVV), para o mandato 2025-27, acabam de ser eleitos e reconduzem a Direcção Executiva constituída por Dora Simões (Presidente), Armando Fontainhas (Vogal da Produção) e Óscar Meireles (Vogal do Comércio). Luis Braga da Cruz foi eleito Presidente do Conselho Geral e António […]

Os novos Órgãos Sociais da Comissão de Viticultura da Região dos Vinhos Verdes (CVRVV), para o mandato 2025-27, acabam de ser eleitos e reconduzem a Direcção Executiva constituída por Dora Simões (Presidente), Armando Fontainhas (Vogal da Produção) e Óscar Meireles (Vogal do Comércio). Luis Braga da Cruz foi eleito Presidente do Conselho Geral e António Barbeitos Presidente do Conselho Fiscal.

Dora Simões é natural do Porto e licenciada em English for International Business pela University of Central Lancashire, no Reino Unido. Tem um percurso profissional de mais de 25 anos, onde se destacam funções de relevo no sector dos vinhos, desde gestão de Marketing na Europa Central da Ernest & Julio Gallo Winery, à Direcção-Geral da ViniPortugal ou a Presidência da Direcção da Comissão Vitivinícola Regional Alentejana (CVRA). Inicia agora o segundo mandato de três anos na liderança da CVRVV.

Por sua vez, Luís Braga da Cruz é natural de Coimbra e formou-se em Engenharia Civil pela Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto, em 1965, onde foi Professor Catedrático Convidado em dois períodos distintos: entre 1977 e 1986, e de 2003 a 2012.

Para além da carreira académica, desempenhou várias funções administrativas e de gestão, bem como uma extensa actividade associativa. Em 2001, tomou posse como Ministro da Economia do XIV Governo Constitucional, cargo no qual se manteria até 2002. Entre 2005 e 2006, desempenhou funções como Deputado à Assembleia da República. Mais recentemente, presidiu o Conselho de Administração da Fundação de Serralves, entre 2010 e 2015 mantendo, ao longo dos anos e em paralelo com as funções de gestão em diversas instituições, a sua dedicação à viticultura.

Entrevista com Dora Simões: “O ‘novo’ estilo de Verde precisa de um nome”

Dora Simões

Desde há pouco mais de dois anos assume na região dos Vinhos Verdes funções semelhantes às que desempenhou no Alentejo. Existindo certamente, desafios comuns às duas regiões, o que é que, no seu entender, principalmente as distingue em termos de mercado, estrutura produtiva ou organização institucional, por exemplo? Em termos de organização e tradição de […]

Desde há pouco mais de dois anos assume na região dos Vinhos Verdes funções semelhantes às que desempenhou no Alentejo. Existindo certamente, desafios comuns às duas regiões, o que é que, no seu entender, principalmente as distingue em termos de mercado, estrutura produtiva ou organização institucional, por exemplo?

Em termos de organização e tradição de uma região, faz diferença ter 116 anos ou ter 25 anos de região demarcada, marco que eu ainda celebrei no Alentejo. Embora a idade não altere a produção de vinho em si, altera a história de uma região e introduz condicionantes na forma de a gerir. Mas, de uma forma geral, enquanto entidade certificadora, as coisas estão tão harmonizadas que, embora podendo existir “afinações” diferentes, os procedimentos são hoje muito idênticos de região para região. Haverá sempre coisas a melhorar, mas os standards estão muito bem definidos.

O mercado dos Vinhos Verdes e do Alentejo é muito distinto?

O mercado onde se opera é igual, a comunicação e a narrativa é que são muito diferentes. O apelo ao consumo é distinto. Passámos uma época em que o vinho tinto cobria a grande maioria das preferências do mercado, e hoje isso está a mudar. Não existem dados muito evidentes sobre quanto é que mudou, mas existe uma percepção clara de mudança. A sazonalidade de consumo que outrora existiu nos brancos e que condicionou os Vinhos Verdes esbateu-se muito.

O que mais a surpreendeu nos Vinhos Verdes quando começou a aprofundar o seu conhecimento sobre a CVRVV, a região, os produtores, o mercado?

Em primeiro lugar, a Comissão é uma casa muito bem montada e foi muito bem orientada durante muito tempo.  Tornou-se assim fácil o envolvimento e o trabalho com a generalidade dos departamentos. É uma entidade bastante orientada para a promoção, com um departamento de marketing bem estruturado e com conhecimento do mercado. No que diz respeito à fiscalização e controlo da região, está hoje a um nível que quase nenhuma região em Portugal tem. A região e os seus produtores têm igualmente uma larga experiência de mercados internacionais. Os produtores são profissionais, viajam muito, vão às feiras, conhecem as especificidades de cada mercado. E isto é algo que mudou imenso nas últimas décadas.

Quando eu estava na ViniPortugal, em 2004, lembro-me do que era o Vinho Verde e sei aquilo que é hoje. Claro que a mudança é transversal às várias regiões, mas esta tremenda evolução “comercial” é muito evidente nos Vinhos Verdes. Há muito a fazer, sempre, mas o nível de profissionalização da região dos Vinhos Verdes, quando comparado com outras, é muito elevado.

O perfil dos produtores é muito variado…

O tecido empresarial é muito pulverizado. É salutar que esta seja uma região com operadores relativamente grandes. Mas existe, entre os muito grandes e os muitos pequenos, uma faixa de operadores médios tremendamente dinâmicos. Acho que o mercado nacional tem uma fraca percepção dessa dinâmica, porque muitos produtores de Vinho Verde trabalham, sobretudo, para exportação. E muitos, exportam largas centenas de milhar de garrafas. E, depois, temos os mais pequenos, que produzem frequentemente menos de 50 mil garrafas.

Dora Simões

“Os dois perfis de Verde são bastante distintos. E é fundamental que o consumidor saiba o que está dentro da garrafa antes de fazer a compra”

 

A área de vinha (pouco menos de 17.300 hectares) caiu bastante na década de 2010. A produtividade, porém, aumentou significativamente, devido as reestruturações e ganhos de eficiência. Ainda assim, tirando a sub-região de Monção e Melgaço, onde o preço da uva é bem mais elevado do que a média da região, pode uma família de lavradores viver de vender uvas?

Depende muito da dimensão da propriedade. Infelizmente temos poucos ou nenhuns estudos sobre isso. Não sabemos que dimensão é necessária para poder dar condições de vida a uma família de viticultores. Lembro-me que quando do estudo Porter se falava em entre cinco a sete hectares, para originar um rendimento um pouco acima do salário mínimo. Passaram 20 anos e hoje a área necessária será certamente acima disto.

Quanto ao decréscimo da área de vinha, é importante termos em conta duas coisas. Primeiro, é verdade que há muita gente a abandonar, mas também há um grande processo de consolidação, ou seja, há muitos produtores profissionais a adquirir vinhas a outros viticultores. Por outro lado, o decréscimo do número oficial de vinha plantada tem igualmente a ver com a crescente eficiência da fiscalização. Há muita vinha abandonada há muito, de que só em anos recentes tem sido dado baixa.

No entanto, não deixa de ser evidente, para quem conhece a região, que o preço médio praticado na compra da uva não é o mais adequado. Deveria ser mais elevado para acomodar os gastos de uma viticultura que não é fácil. Ainda que, sendo baixo, o preço está longe de ser dos mais baixos comparado com outras regiões de Portugal. Até é bastante acima da média.

Por tudo isso, e respondendo em concreto à sua questão, com a dimensão média da propriedade na região não é fácil ser-se viticultor e viver de produzir e vender uva. Acredito que seja preciso bem mais de uma dezena de hectares. Mas também acontece que muitos são viticultores a tempo inteiro depois de uma carreira bem sucedida noutras áreas de actividade. E não é apenas por saudosismo ou paixão pela terra. Depois de terem feito a reconversão da vinha, com o claro aumento de produtividade, esta passou a, pelo menos, compensar os gastos que com ela têm. O Alvarinho de Monção e Melgaço é, claro, um caso raro. Aí não é preciso ter uma área de vinha muito grande para o retorno ser compensador.

A produção de Verde tinto parece estar em contínuo decréscimo. Na vindima de 2023, em conjunto com os rosés, valeu cerca de 11,5 milhões de litros versus 72 milhões de vinho branco. Sabendo-se que os rosés estão em crescendo, isso significa que a queda dos tintos, outrora líderes na região, é maior ainda. Está o Verde tinto condenado?

Espero que não. Mas sem dúvida que está em risco de extinção. E temos de inverter esta curva decrescente, que é perigosíssima. Se na região nunca tivesse existido tradição de uva tinta, até se podia entender. Mas não é o caso, antes pelo contrário. O risco de perder a uva tinta significa também o risco de se perder diversidade genética, de se perder o conhecimento das castas, da sua aptidão e do seu contributo para o futuro da região. Os rosés estão, e ainda bem, a crescer, mas sem as uvas tintas não conseguimos fazer rosé. E com os tintos assentes quase exclusivamente numa casta, o Vinhão, também não se consegue fazer grande diversidade de rosé e, muito menos, no estilo que hoje conquista os mercados. Os brancos e rosés estão na moda e os tintos em baixo. Mas isso é hoje. Como sabemos, estas vagas mudam e, por vezes, de forma rápida. E se nós estamos com uma produção residual de uva tinta podemos vir a ter dificuldades no futuro.

Na CVRVV procuramos sensibilizar os produtores para este problema e sentimos a responsabilidade de ajudar a inverter esta situação. Temos dado passos para se perceber melhor as diversas uvas tintas da região, avaliando o seu potencial para a produção de rosés e de tintos mais leves e elegantes. Não precisamos de castas de fora para isso. Acreditamos que temos uma grande variedade de castas tintas autóctones, que temos de estudar e perceber até onde podem ir. Temos uma agenda de investigação e desenvolvimento na EVAG (Estação Vitivinícola Amândio Galhano) e estamos particularmente focados nas castas tintas. Aí realizamos investigação aplicada, realizando microvinificações com algumas castas minoritárias no sentido de perceber quais as mais indicadas para tintos e rosés, em distintos perfis. E todos os anos os vinhos produzidos são provados por um pequeno grupo de especialistas. Com as conclusões desse trabalho, vamos na EVAG criar material vegetativo, para poder disponibilizar varas ou enxertos-prontos. A ideia é gerar informação técnica (vinha, adega e prova) credível e consistente, e colocá-la à disposição dos produtores, para que possam olhar para essas castas minoritárias como opções válidas para desenvolver o seu negócio.

A exportação representa cerca de 60% do negócio dos Vinhos Verdes. Mas também o mercado nacional tem tido um bom desempenho. O preço médio, no entanto, continua abaixo da média nacional, alinhado com Lisboa, acima de Setúbal e Tejo, mas abaixo das restantes regiões. O Vinho Verde está ainda demasiado barato?

Sim, é um facto. Infelizmente, há tradições negativas que demoram a quebrar e este é um caso, existe a convicção generalizada de que “aquele vinho” tem aquele preço. Mas isso parte também do produtor. Conhecemos vários produtores que trabalham em diferentes regiões e eles próprios posicionam os seus Vinhos Verdes a um preço mais baixo. Podem argumentar que as pessoas não estão dispostas a pagar mais por um Vinho Verde. Mas é precisamente isso que nós temos de combater. Claro que isso só se consegue tendo produtos equiparáveis. E é aí que esta questão do assumir de dois estilos de Vinho Verde, um mais “tradicional” e popular, outro mais ambicioso e longevo, se torna fundamental. E, mesmo assim, mesmo fazendo grandes Vinhos Verdes brancos, temos de ter a noção de que, no mundo inteiro, e com raras excepções, o preço médio do vinho branco é inferior ao do tinto. Ou seja, há dois degraus difíceis que é preciso subir, e esse é um trabalho colectivo que é necessário fazer.

 A CVRVV tem procurado comunicar esse conceito dos dois estilos de Vinho Verde. Mas essa distinção não está plasmada na lei. Não existe um designativo na rotulagem, um nome que os diferencie aos olhos do consumidor. Como se pode passar a mensagem sem esse suporte?

Não tem sido um assunto fácil, e quando da passagem de “pasta” por parte da anterior direcção da CVRVV, este foi-me indicado como tema de urgente resolução. Fundamentalmente, não tem havido acordo entre os produtores para o nome desta “nova” categoria de Vinho Verde. Vamos lançar um inquérito aos agentes económicos, para perceber a sua opinião. Mas, Direcção e Conselho Geral, entendemos que é fundamental existir essa designação. Até porque os dois produtos, o Verde mais “clássico”, leve, com “borbulha” e alguma edulcoração, e o Verde mais moderno, seco, intenso e longevo, são bastante distintos. E é fundamental que o consumidor saiba o perfil que está dentro da garrafa antes de fazer a sua compra. Porque, caso contrário, poderá haver um risco de desilusão, que vai jogar contra um ou outro produto.

Uma coisa tão simples e básica quanto ter ou não ter gás adicionado é algo que o consumidor só percebe depois de abrir a garrafa…

Claro, e isso não pode continuar. Há que assumir estes dois perfis como características intrínsecas dos produtos, ter orgulho neles, mas evidenciar essa diferença com um designativo, uma palavra, na rotulagem. Claro que encontrar o nome certo exige consenso e os consensos são difíceis de alcançar. Mas é preciso urgentemente fazê-lo. E mesmo que o nome não seja perfeito, é preferível ajustar mais tarde do que não actuar agora, continuando a limitar a ambição do Vinho Verde, em termos dos mercados e preços que pode atingir. Isto é absolutamente prioritário.

Durante muitas e muitas décadas o Vinho Verde “vendeu-se” como um produto “único no mundo”, diferente de todos os outros, o que lhe permitiu correr numa pista à parte, sem concorrência. O dano colateral, no entanto, foi colá-lo à imagem de um produto simples, popular, pouco “exigente”, se quisermos. Neste início de 2025, como é que o Vinho Verde quer ser visto pelos consumidores?

Temos de saber jogar com tudo isso. O facto de o Vinho Verde mais “tradicional” ter alguma simplicidade, ser leve, poder ser bebido de forma descontraída, é-nos muito útil para cativar uma faixa jovem de mercado que está a “fugir” do vinho mais “complicado”. Mas precisamos também da outra categoria mais ambiciosa, para nos batermos de igual para igual com aqueles que são considerados grandes vinhos do mundo. Precisamos de ganhar valor. E temos a forma ideal de o fazer, através nas nossas castas, Alvarinho, Loureiro, Avesso, etc. Comunicar através da casta é mais facilmente compreensível, mais facilmente exportável. Em resumo, precisamos de fazer passar a mensagem, internamente, entre os produtores, e para o exterior, para os consumidores.

Dora Simões

“A sazonalidade de consumo que outrora existiu nos brancos e que condicionou os Vinhos Verdes esbateu-se muito”

 

Foi no seu consulado à frente da CVR Alentejo que foi desenvolvido e implementado o Plano de Sustentabilidade dos Vinhos do Alentejo (PSVA), que se tornou uma referência nacional e internacional. Como está a região dos Vinhos Verdes em termos de sustentabilidade ambiental?

Quando esta direcção tomou posse, havia já um plano de sustentabilidade em marcha, ainda não implementado. Coincidindo com o início deste mandato, surgiu igualmente o Referencial Nacional de Sustentabilidade do Instituto da Vinha e do Vinho, um conjunto de orientações transversais não adaptado especificamente a cada região. No que ao Vinho Verde respeita, acreditamos que fazer um plano novo, de raiz, tal como se fez no Alentejo, será estar a trabalhar sobre algo que já existe. Assim, o que foi decidido foi adoptar o Referencial Nacional como base para quem quiser medir a sua evolução nesta área, podendo depois certificar-se neste Referencial ou noutro que possa ser mais interessante para o seu negócio. Paralelamente, contratámos um especialista em sustentabilidade que tem, como primeira tarefa, acompanhar os produtores na utilização do Referencial Nacional e na preparação para o cumprir.

Depois, o segundo passo vai ser definir e implementar uma parte específica para o Vinho Verde. Dou-lhe um exemplo: os recursos hídricos. Aqui estamos tão habituados a ver água que parece que não existem carências hídricas. Mas elas existem e são imensas. E falta-nos o conhecimento – que porventura existe noutras regiões há muito habituadas a ter pouca água – para tirar o melhor partido da água. Precisamos, hoje, de aprender a gerir a escassez. Outro exemplo: pelas suas condições climáticas, nos Vinhos Verdes fazemos mais tratamentos do que noutras regiões. Ao mesmo tempo começam a aparecer doenças a que não estávamos acostumados. A região precisa de criar um programa de tratamentos sustentáveis muito mais específico do que o existente no Referencial Nacional.

Adicionalmente, a certificação no Referencial Nacional precisa de ser mais promovida a nível nacional e mundial. Os produtores necessitam de ver vantagens económicas e comerciais concretas em aderir ao Referencial Nacional. É que existem diversas certificações mundiais, com grande promoção associada.  E uma empresa vai aderir às que lhes parecerem mais vantajosas para o seu negócio, por exemplo, em função dos mercados onde mais vende.

Que méritos vê no modelo orgânico e na sua aplicação a uma região de clima atlântico, como a dos Vinhos Verdes?

Daquilo que vemos na região, temos pouquíssimas empresas a adoptar o modelo de produção biológica. E temos até uma ou outra que já o tiveram e abandonaram. Nesta região, é difícil, ainda que não impossível, cumprir um modelo orgânico. E torna-se muito complicado cumprir tudo durante três anos e, depois, vem um mau ano climático que obriga a falhar as regras e cumprir de novo todo o ciclo. Por outro lado, temos uma situação muito gravosa que tem a ver com a flavescência dourada. Não há região onde a flavescência esteja instalada que consiga cumprir facilmente com os standards do biológico: vai ter de fazer tratamentos. Quem não o fizer pode estar a colocar em risco não apenas a sua própria produção – porque as vinhas vão morrer – mas também as vinhas dos vizinhos. Daí que seja muito importante a questão da Sustentabilidade, porque é um modelo que permite fazer melhor e de forma mais equilibrada, com benefícios para a vinha e para o próprio negócio. Claro que um modelo bio ou biodinâmico não é de todo impossível: mas apenas em áreas muito pequenas e facilmente geríveis.

Um dos maiores sucessos do seu antecessor foi levar de vencida aquela que ficou conhecida como “Guerra do Alvarinho”. Em seu entender, os ganhos para ambas as partes (produtores de Monção e Melgaço e restantes produtores da região) foram suficientes para pacificar esta questão? Ou a relativa autonomia conquistada por Monção e Melgaço ainda é de menos para uns e de mais para outros?

Se olharmos para os números que nos são fornecidos pelos selos de certificação, o segmento que mais aumenta é precisamente o do Alvarinho, produzido em Monção e Melgaço, sobretudo, mas também fora da sub-região. E até com o crescimento de vinhos de nicho, bem valorizados, como é o caso do espumante de Alvarinho. Com o acordo que foi feito no passado, foi também alocada uma verba para a promoção da sub-região de Monção e Melgaço, verba essa que, com a colaboração da CVRVV, tem sido utilizada de forma muito positiva, com inúmeras ações e visitas por parte de jornalistas e compradores. Os resultados positivos são evidentes.

Dora Simões

“O Verde tinto está em risco de extinção. E temos de inverter esta curva decrescente, que é perigosíssima”

 

Esse caminho de progressiva autonomia desenvolvido por Monção e Melgaço pode e deve ser estendido às restantes sub-regiões?

Para isso, os produtores dessas regiões têm de o querer. Quando olhamos para os números de certificação com sub-região (identificada na rotulagem), Monção e Melgaço está à frente, a enorme distância do Lima, que vem a seguir. Mas depois não há muito mais. E são nove sub-regiões nos Vinhos Verdes! Portanto, a vontade dos produtores não parece ser evidenciar a sub-região onde produzem, preferindo ficar apenas com a denominação Vinho Verde.

A Dora Simões já correu o mundo do vinho em funções muito distintas, O que é mais difícil? Convencer o comprador de um supermercado inglês a referenciar o seu produto ou gerir um Conselho Geral de uma CVR?

Nunca me tinham feito essa pergunta… Apesar de tudo, penso que é mais difícil ser produtor. Exige uma resiliência enorme: implica ouvir muitas recusas, não conseguir atingir objectivos, ter de gerir um negócio a céu aberto com imensos imponderáveis. Produzir vinho é um risco. Muitas destas novas categorias de bebidas (a kombucha, por exemplo) são fáceis de fazer, implicam muito menos investimento e não dependem da natureza. Mas chegam à prateleira e custam o mesmo que o vinho.

É certo que fazer parte da direcção de uma CVR pode ter aspectos ingratos e não tem muitas das recompensas de ser produtor. Aqui ninguém está à espera de levar uma palmadinha das costas por ter conseguido isto ou aquilo. Mas isso faz parte da função. Ser produtor de vinho é bem mais exigente.

Sei que não vai mencionar marcas, mas qual a casta ou perfil de Vinho Verde que mais aprecia no copo?

Na verdade, sou muito eclética quanto a perfis de vinho. Aprecio estilos muito diversos, por vezes dependendo do momento. Mas estou mais acostumada, até pelo tempo que passei na Alemanha, a beber vinhos brancos com fruta, frescura e potencial de longevidade. Aqui, Alvarinho e Loureiro, por exemplo, enquadram-se muito bem.

(Artigo publicado na edição de Janeiro de 2024)

Anselmo Mendes fecha 2024 com presença em 60 países

Anselmo Mendes

O produtor de vinhos, Anselmo Mendes, fechou o ano de 2024 com 80% de quota de exportação e presença em 60 países. No final de um período desafiante para o sector vitivinícola nacional e internacional, a marca manteve o seu estatuto de referência na produção de Vinhos Verdes, sobretudo das castas Alvarinho e Loureiro. Para […]

O produtor de vinhos, Anselmo Mendes, fechou o ano de 2024 com 80% de quota de exportação e presença em 60 países. No final de um período desafiante para o sector vitivinícola nacional e internacional, a marca manteve o seu estatuto de referência na produção de Vinhos Verdes, sobretudo das castas Alvarinho e Loureiro.

Para Anselmo Mendes, o fundador e enólogo da empresa, “2024 foi um ano de grande progresso e realização”, porque se expandiu a sua área de vinha e reforçou a equipa de viticultura, “um passo estratégico para assegurar a qualidade” dos vinhos que coloca no mercado. Para além disso, “a vindima do ano passado foi excepcional, talvez a melhor deste século, garantindo vinhos que reflectem o melhor do terroir e a nossa dedicação”.

A marca teve também reconhecimentos nacionais e internacionais significativos em 2024. Um deles foi para a referência Muros de Melgaço, que celebrou 25 anos, pois figurou no Top 100 Vinhos do Mundo da revista norte-americana Wine Enthusiast. Outro foi o Loureiro Private ter sido eleito o melhor vinho branco varietal do ano no Concurso Vinhos de Portugal. Para além disso, o Contacto 2023 conquistou o título de Alvarinho mais bem pontuado no Brasil, com 94 pontos atribuídos pela revista Adega.

Reconhecido pela qualidade dos vinhos que produz e pela forma surpreendente e consistente como inova, Anselmo Mendes combina o recurso a técnicas ancestrais, como a curtimenta, com métodos de vinificação ousados, como a fermentação de Alvarinho em cascos de carvalho. Os seus vinhos são o resultado de uma longa e fiel ligação à terra, de um espírito experimentalista e estudioso e de uma filosofia de respeito pelo ecossistema, com base na produção integrada de uvas.

Para 2025, a marca prepara-se para continuar o seu crescimento sustentável, fortalecendo a presença dos seus vinhos das castas Alvarinho e Loureiro em mercados estratégicos como Estados Unidos, Canadá e Brasil. O enoturismo será também uma prioridade, com a expansão da oferta na Quinta da Torre, tal como o lançamento de vinhos inovadores que têm sido cuidadosamente amadurecidos ao longo dos anos.

Sogrape: Quinta de Azevedo, Vinhos assentes na história

Quinta de Azevedo

Muito provavelmente, a primeira recordação de qualquer português sobre a história do nosso território, anterior à nacionalidade, está ligada à palavra da antiga professora ou professor da escola primária, hoje denominada primeiro ciclo de escolaridade. Atualmente, os manuais digitais e os quadros multimédia substituíram os livros com magras ilustrações e o quadro negro com letras […]

Muito provavelmente, a primeira recordação de qualquer português sobre a história do nosso território, anterior à nacionalidade, está ligada à palavra da antiga professora ou professor da escola primária, hoje denominada primeiro ciclo de escolaridade. Atualmente, os manuais digitais e os quadros multimédia substituíram os livros com magras ilustrações e o quadro negro com letras gordas desenhadas pela letra irrepreensível da professora. Ainda assim, dependendo do maior ou menor virtuosismo profissional e da atenção dos alunos, há algo que não mudou: a boca semiaberta ou os olhos bem despertos pela surpresa e admiração dos discentes quando ouvem falar pela primeira vez dos tempos do Conde D. Henrique, do Condado Portucalense e da sua descendência. Os edifícios deste período histórico nem sempre são de fácil acesso a todos os alunos de Portugal. Mas o Norte do país continua a apresentar inúmeros pontos de referência dos tempos que ficaram perdidos nos interstícios da história de Portugal. Um magnífico exemplo é a Casa-solar dos Azevedo, datada do século XI, localizada na freguesia de Lama, próximo de Barcelos, que foi utilizada pela primeira vez por D. Guido Viegas de Azevedo, rico-homem do tempo do conde D. Henrique.

A Casa-solar dos Azevedo foi, literalmente, o berço ancestral desta família que governou um vasto território que se estendia desde o além Cávado até Braga e Lanhoso. Desta família despontaram cavaleiros que ajudaram a construir e consolidar o reino de Portugal, depois em África e na Índia. Mais tarde, geraram altos embaixadores que firmaram alianças e tratados nas várias cortes europeias. No século XX, o brilho histórico começou a desvanecer-se e, em 1936, o Solar foi vendido em hasta pública.

De ruína, a quinta imponente

Em 1982, a Sogrape adquiriu o Solar, pela mão de Fernando Guedes. Estava praticamente em ruínas, e compreendia a torre do século XI, reedificada no primeiro quartel do século XVI, o corpo residencial do século XVIII, com a varanda colunada sobre o jardim e o edifício do século XIX.
Durante quatro anos, Fernando Guedes e a sua mulher, auxiliados pelo arquiteto Eduardo Rangel, dirigiram as obras de restauro e decoração do solar utilizando mobiliário e peças do século XVII e XVIII. O esforço e o desvelo aplicados na requalificação do imóvel pela família Guedes foram de tal ordem que este rapidamente se transformou, como referiu Fernando da Cunha Guedes, neto de Fernando Guedes e atual líder da Sogrape, “na menina dos olhos do meu avô que manteve e obrigava a manter em perfeito estado de conservação”.

Foi igualmente realizado um estudo profundo sobre a adaptação das castas aos 23 hectares dos terrenos iniciais da propriedade, tendo-se optado por um primeiro encepamento alicerçado nas castas Loureiro e Arinto que, em 2007, contabilizava 11,7 hectares. Atualmente, e depois de várias replantações, a Quinta de Azevedo tem 24 hectares de vinha, de um total de 34, alicerçada em duas castas: Loureiro e Alvarinho. A primeira ocupa a maior área de plantação, 23 hectares, e a segunda apenas 10 hectares. Existe ainda um campo experimental com cerca de um hectare que congrega, nas palavras do enólogo Diogo Sepúlveda, “um lote de seis castas mais aptas a resistir às alterações climáticas: Arinto e Sauvignon Blanc, entre outras”.

Curiosamente, a aquisição da propriedade, em 1982, e posterior requalificação da Quinta do Azevedo marcou o início de uma longa e famosa lista de compras de inúmeros projetos vínicos nacionais e internacionais. Pouco tempo depois, em 1987, a Sogrape adquiriu, num sonante e muito mediatizado negócio, a empresa A. A. Ferreira, marcando a entrada no setor do vinho do Porto e passou a integrar, no seu portefólio os vinhos, já muito reconhecidos e ambicionados pelos consumidores, da simbólica e histórica Casa Ferreirinha. Em 1995, a Sogrape integrou a Forrester, detentora da marca Offley, reforçando a sua presença no setor do Vinho do Porto e guindando-se a uma das maiores empresas exportadoras do setor. Dois anos depois completa a aquisição da Herdade do Peso, no Alentejo e da Finca Flichman, localizada na Argentina, mais propriamente na região de Mendoza. Com este último passo iniciou-se uma estratégia aquisitiva de cariz verdadeiramente internacional. O novo milénio consolidou a presença da empresa no setor do vinho do Porto e a sua estratégia internacional com a aquisição da marca Sandeman, que incluía vinhos do Porto, Jerez e Brandy. Em 2008 adquiriu a Viña Los Boldos, no Chile e, em 2012, estendeu as operações a Espanha com a aquisição das Bodegas LAN que, para além da operação principal, na região de Rioja, se estendeu às Rías Baixas, Rueda e Ribera del Duero.

Diogo Sepúlveda, líder dos departamentos de enologia de Mateus, Vinhos Verdes, Dão e Lisboa da Sogrape

 

Uma nova imagem e filosofia para os novos vinhos da Quinta de Azevedo

A apresentação dos novos vinhos da Quinta de Azevedo decorreu, como não podia deixar de ser, no piso térreo da torre original do atual solar, onde tínhamos à nossa espera Fernando da Cunha Guedes, diretor executivo da Sogrape. Este apresentou o enólogo Diogo Sepúlveda como alguém que “detém um conhecimento de mais de 15 anos do setor, com percurso profissional que inclui vasta experiência internacional, com projetos desenvolvidos em Portugal e no estrangeiro” e, por isso, assumiu a liderança dos departamentos de enologia de Mateus, Vinhos Verdes, Dão e Lisboa.

Os novos vinhos apresentados representam um reposicionamento para a marca Quinta de Azevedo, dotando-a de maior ambição, e possuem diversas características em comum. Em primeiro lugar, as uvas utilizadas em todas as referências foram produzidas em conformidade com as diretrizes de produção integrada de agricultura sustentável, definidas pela Organização Internacional de Luta Biológica contra Organismos Nocivos. A segunda característica é ostentarem a classificação Regional Minho. “Esta nomenclatura foi muito debatida internamente e acabou por ser a adotada”, referiu Diogo Sepúlveda. Por último, as referências apresentadas revelaram uma nova rotulagem mais cuidada e apelativa para o consumidor.

Começámos a prova pelo Quinta de Azevedo Loureiro Escolha, da colheita de 2022. O enólogo relembrou que “foi um ano com acumulados de precipitação inferiores à média dos últimos três anos e com uma primavera e verão muito quentes”. As uvas foram prensadas suavemente a baixas temperaturas e o vinho estagiou durante seis meses sobre as borras com batonnage frequente. Parte do lote estagiou em barricas usadas de carvalho francês.

Em seguida provou-se o Quinta do Azevedo Escolha Alvarinho, do ano 2023 que, segundo as palavras do enólogo, “foi fruto de um inverno bastante chuvoso, que depois se revelou muito seco, conduzindo a uma vindima muito precoce”. Uma pequena parte do lote estagiou em toneis e barricas usadas de carvalho francês.
Para o final estava reservada a estrela do trio. Trata-se de um vinho de lote composto por 70% de Alvarinho e 30% da casta Loureiro, do ano de 2023. Após a fermentação alcoólica, estagiou durante oito meses em toneis de 1200 litros e barricas de 500 litros de carvalho francês de primeira e segunda utilização. Uma pequena parte do lote estagiou sobre borras em depósito de inox para preservação de toda a frescura. Este verdadeiro topo de gama (€30), até agora inexistente no portefólio Quinta de Azevedo, mostra-se um vinho ainda muito jovem, seco e revela um perfil capaz de compaginar untuosidade e frescura.

Os vinhos agora chegados ao mercado espelham a ambição da Sogrape na região dos Verdes onde, com a marca Gazela, é um “player” de referência nos vinhos de maior volume e pretende claramente sê-lo também nas categorias mais exclusivas. Assim, a vetusta Casa-solar dos Azevedo, agora renovada e vestida de vinhedos, volta a inscrever o seu nome na história, desta vez na narrativa vínica do país e do mundo pela mão da maior empresa nacional do setor.

*Nota: O autor escreve de acordo com o novo acordo ortográfico.

(Artigo publicado na edição de Novembro de 2024)