Beira Interior distinguiu os melhores vinhos

São já conhecidos os vinhos premiados no concurso “Escolha da Imprensa” integrado na feira Vinhos & Sabores da Beira Interior que decorreu em Pinhel de 15 A 17 de Novembro, certame organizado pelo Município de Pinhel e pela CVR da Beira Interior. Este concurso, que contou com a colaboração da Grandes Escolhas, foi aberto a […]
São já conhecidos os vinhos premiados no concurso “Escolha da Imprensa” integrado na feira Vinhos & Sabores da Beira Interior que decorreu em Pinhel de 15 A 17 de Novembro, certame organizado pelo Município de Pinhel e pela CVR da Beira Interior.
Este concurso, que contou com a colaboração da Grandes Escolhas, foi aberto a vinhos brancos, rosados, tintos e espumantes de produtores presentes na feira e contou cerca de 60 vinhos inscritos que foram avaliados por um júri de especialistas que incluiu jornalistas, bloggers, sommeliers e restaurantes.
Na hora de revelar os resultados o director do concurso Luis Lopes, enalteceu a grande qualidade média dos vinhos da Beira Interior, assente nas suas castas identitárias, sobretudo a Síria e Fonte Cal para os vinhos brancos e a Rufete para os tintos, o que lhes confere um forte caracter e grande frescura, a que não é alheio a altitude média das suas vinhas.
De acordo com o regulamento, foram distinguidos com o Grande Prémio Escolha da Impresa na categoria Vinhos Brancos o Aforista Beira Interior Reserva 2022, da Agrodaze e na categoria Vinhos Tintos o Beyra Beira Interior Grande Reserva 2021, de Rui Roboredo Madeira Vinhos.
Foram ainda revelados e entregues os respectivos diplomas aos vinhos distinguidos com o Prémio Escolha da Imprensa.
Nos brancos: Souvall Villamayor Beira Interior Grande Reserva 2023, Quinta do Cardo Biológico Beira Interior Síria Grande Reserva 2021, Boa Pergunta Beira Interior Colheita Selecionada 2022, doispontocinco Beira Interior 2020, Quinta Vale do Ruivo Beira Interior 2022, Quinta da Ribeira da Pêga Beira Interior Síria 2022, Quinta da Biaia Biológico Beira Interior Síria Reserva 2020, Castelo Rodrigo Beira Interior Síria 2023 e Ethos Natureza da Serra Terras da Beira 2022. Nos vinhos rosados foi premiado o Bal da Madre Biológico Beira Interior Touriga Nacional 2023. Na categoria Vinhos Tintos, os distinguidos foram: Quinta dos Termos Talhão da Serra Beira Interior Rufete Reserva 2021, Anjo da Guarda Beira Interior Grande Reserva 2021, Beyra Vinhas Velhas Beira Interior 2022,
Entrevinhas Beira Interior Touriga Nacional Reserva 2022, Solares de Pinhel Beira Interior Grande Reserva 2021, Raya Terras da Beira 2018, Raya Terras da Beira 2018, Quinta do Cardo Biológico Beira Interior Superior 2021, e Casas Altas Beira Interior Rufete 2021.
A cerimónia de anuncio dos resultados e entrega dos diplomas decorreu durante o primeiro dia da feira Beira Interior Vinhos & Sabores.
Quinta dos Frades: Os segredos das vinhas velhas

Nunca me canso de percorrer a estrada que segue a margem esquerda do rio Douro entre o Pinhão e a Régua, mesmo nesta época do ano, a da vindima, em que há muito mais veículos na estrada e gente por terras do Douro. É difícil resistir a não parar para mais uma foto a uma […]
Nunca me canso de percorrer a estrada que segue a margem esquerda do rio Douro entre o Pinhão e a Régua, mesmo nesta época do ano, a da vindima, em que há muito mais veículos na estrada e gente por terras do Douro. É difícil resistir a não parar para mais uma foto a uma paisagem única que muda com as estações do ano, ainda por cima agora que há mais pessoas nas vinhas a fazer o seu maneio, e a colher as uvas porque estão no ponto certo de maturação e é preciso levá-las à adega.
A certo ponto da estrada, na margem esquerda, é difícil não notar a Quinta dos Frades. Pela sua extensão, pelo seu edificado histórico, sempre bem pintado e de ar sólido, e pelas suas vinhas, que acompanham as curvas do rio e da serra, aqui e ali entremeadas com jardins, pomares, hortas e áreas de bosque. As suas origens parecem remontar ao século 13, depois de as terras terem sido doadas aos monges do Mosteiro de Santa Maria de Salzedas. Depois de séculos de gestão monástica, a propriedade foi arrematada em hasta pública por Jerónimo Souza, 1º Barão de Folgosa, permanecendo na sua família durante mais um século até ser por Delfim Ferreira, um dos investidores e industriais mais importantes da economia portuguesa do século passado, que detinha, entre outras, a Companhia Hidroelétrica do Norte de Portugal, empresa que fornecia electricidade aos distritos de Braga, Bragança, Vila Real e Viseu. Foi, depois, encetado um processo de reabilitação e modernização das infraestruturas de produção e lazer da Quinta dos Frades.
Mas a propriedade era, sobretudo, uma quinta de fim de semana, onde os bisavós de Aquiles Ferreira do Brito, 53 anos, administrador delegado da Predial Ferreira & Filhos, empresa proprietária das Quintas dos Frades, em Folgosa, e do Castelo, em Santa Marta de Penaguião, vinham de tempos em tempos. “Naquela altura não se olhava muito para as despesas de manutenção”, diz o responsável, acrescentando que o início do segundo milénio e a estagnação do benefício, “que era aquilo que apoiava muito a agricultura no Douro, e com os custos a subir, entendeu-se que a empresa devia investir na criação de uma marca de vinhos de mesa”. Isso aconteceu quando foi convidado, por outro membro desta empresa familiar, para gerir a empresa e encetar esse novo caminho. A primeira colheita comercializada foi a de 2011, e todo o processo iniciado naquela altura contribuiu para colocar a empresa e a suas marcas no radar do mercado.
Os primeiros vinhos
Os primeiros vinhos foram produzidos com o apoio dos enólogos Anselmo Mendes e João Silva e Sousa e, mais tarde, apenas com o primeiro. Depois foi preciso começar a vendê-los e Aquiles de Brito entrou, no mercado, “inicialmente com o apoio de alguns distribuidores regionais, fazendo algumas provas e apresentações, procurando destacar que os nossos eram vinhos de valor acrescentado e não para vender em volume”, conta, acrescentando que as marcas foram surgindo, depois, no portefólio da Quinta dos Frades à medida que se iam conhecendo as vinhas e as características das suas parcelas. Algumas foram dando origem às referências que existem actualmente. Mas o processo aconteceu sem uma metodologia sustentada para a sua criação e construção. Por isso, marcas da empresa como a Vinha dos Deuses ou Vinha dos Santos não têm hoje nenhuma explicação ou ligação à casa, que permita, a quem compra os vinhos, fazer essa associação, revela Aquiles de Brito, salientando que está agora a desenvolver, com a sua equipa e o apoio de uma empresa especializada, um projecto de mudança de imagem. “Estamos agora a realizar um trabalho de marketing, imagem e comunicação que contribua para evidenciar a Quinta dos Frades como produtora dos seus vinhos, que não existia até agora”, explica.
Segundo Liliana Mendes, 43 anos, designer gráfica na Quinta dos Frades desde 2021, a ideia de mudar a imagem da quinta e das suas marcas de vinho teve, como objectivo, “criar uma unidade entre elas através da ligação de cada uma à quinta”. Assim, e quando o processo estiver concluído, em cada uma das referências de vinhos da empresa será evidenciada a marca umbrela, Quinta de Frades, em relação a cada uma das outras. Com esta integração, clientes e consumidores passarão a saber que todos os vinhos são produzidos pela Quinta dos Frades, o que não acontecia até agora. Como é evidente, o objectivo é promover e solidificar a imagem da empresa no mercado como produtora de vinhos do Douro e do Porto, para que possa continuar a crescer num mercado onde isso não é fácil para um produto como o vinho.
“Mas nós temos a vantagem de possuirmos uma história já longa por detrás e de termos construído, durante os últimos anos, uma identidade no mercado, lançando vinhos todos os anos, ou seja, estando presentes, o que tem contribuído para que os nossos já sejam conhecidos”. Hoje são colocados no mercado nacional pela Direct Wine, empresa do grupo Fladgate Parternship, principalmente para a restauração. Para além disso, só estão nos supermercados Apolónia, no Algarve, no El Corte Inglès, no E.Leclerc de Lamego, “uma referência onde toda a gente do Douro está, e mais um outro supermercado que me pede, pontualmente”, diz Aquiles de Brito, defendendo que não quer trabalhar com a grande distribuição. Para este responsável, ainda há muito muito trabalho a fazer em Portugal, o principal mercado da empresa, para cimentar a marca.
Quanto à exportação, que decorre apenas para o Brasil e pontualmente para outros mercados, “vai certamente lugar a isso, mas só depois de estar devidamente estruturado e cimentado no mercado nacional”, explica. Adepto de apostar na qualidade, na história por detrás da empresa e das suas marcas, para continuar a trilhar “um caminho que tem sido difícil, moroso, lento, com algum sucesso”, salienta “há que continuar a trabalhar e comunicar aquilo que fazemos bem e as nossas diferenças”.
Mais de 30 castas
A empresa tem, hoje, nas duas propriedades que a compõem, cerca de 240 hectares, dos quais 110 de vinha. Na Quinta dos Frades “há mais de 30 castas, de uma vinha onde as variedades predominantes são a Tinta Amarela, a Touriga Franca e, agora, a Touriga Nacional após a reconversão mais recente”, conta Diogo Lopes, 46 anos, enólogo da Quinta dos Frades, que tem um total de 75 ha de vinha. Uma parte significativa, de cerca de 20 hectares, é vinha velha. “A nossa é, na verdade, muito velha, pois uma parte significativa tem mais de 100 anos, o que faz dela a nossa jóia da coroa”, salienta.
Há mais 35 hectares na Quinta do Castelo, em Santa Marta, no Baixo Corgo, que estão a ser restruturados, porque a empresa quer apostar mais na produção de vinhos a partir de castas brancas. “Queremos puxar muito pela identidade dos tintos do Cima Corgo, na Quinta dos Frades e, na Quinta do Castelo, queremos apostar na frescura, nas castas brancas, no potencial que existe por explorar nos brancos do Baixo Corgo e duriense como um todo”, explica Diogo Lopes. Por isso, está a ser feita a reconversão de muitas variedades tintas para brancas, e “a multiplicação das castas mais enraizadas no Baixo Corgo, como a Códega do Larinho, o Avesso e o Arinto”. Para Diogo Lopes, “há espaço para fazer brancos com muito mais caracter, e é isso que queremos fazer”.
Vinha velha e muito velha
Trabalhar com vinha velha no Douro é sempre um grande desafio, e um trabalho pesado por ser manual, que obriga a um maior controlo e mais atenção durante o ciclo vegetativo das plantas, numa época em que há cada vez mais fenómenos extremos durante o verão, com picos de calor e outros fenómenos associados ao escaldão. “Temos tentado minimizá-los através de uma gestão mais equilibrada da forma como controlamos a vegetação, para protegermos os cachos dos fenómenos extremos, que têm sido cada vez mais constantes nos últimos anos e serão mais permanentes no futuro”, diz o enólogo, acrescentando que ainda há um longo trabalho a fazer, ao nível da viticultura, para conhecer e diferenciar todas as suas parcelas de vinha. A sua área extensa e as suas muitas exposições podem constituir uma mais-valia para o trabalho a realizar na adega, com uvas com características diferenciadas conforme as suas origens a poderem contribuir, após o estudo dos vinhos que originam, para originar vinhos diferenciados. O futuro o dirá.
Diogo Lopes conta que entrou na Quinta dos Frades há um ano, cheio de ideias. “Já apresentei um plano de trabalho ao Aquiles de Brito, que contém tudo aquilo que acredito que podemos fazer em conjunto nos próximos anos. Isso implica estudar tudo, ou seja, conhecer a Quinta dos Frades em todos os seus ambientes e recantos, porque acredito que ainda não se explorou todo o seu potencial”, conta. “É esse trabalho que a quinta merece”, afirma. Estudar para conhecer e individualizar as suas parcelas “irá também contribuir para podermos fazer a nossa própria multiplicação vegetal com o material genético que aqui existe, que é a nossa grande mais valia” explica.
Diogo Lopes acredita que, na Quinta dos Frades, há potencial, não só para produzir um vinho de Vinhas Velhas, mas também das suas parcelas mais especiais. Também pensa em apostar em alguns vinhos varietais, sobretudo das castas que se destacam mais na Quinta de Frades, como a Tinta Amarela, a que mais destaca na propriedade, “também por ser e espinha dorsal dos nossos vinhos, porque consegue manter uma acidez muito boa e resistir, melhor que outras, ao efeito do calor”. É ela que dá um caracter mais vegetal aos vinhos da quinta, enquanto o toque de lápis acabado de afiar é mais um carácter da vinha velha, como foi demonstrado na prova que fiz. “E queremos fazer vinhos do Douro, do cima Corgo, com este perfil puro e clássico, que identifica os vinhos da quinta”, diz ainda Diogo Lopes.
(Artigo publicado na edição de Outubro de 2024)
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Quinta dos Frades
Fortificado/ Licoroso - 2017 -
Comendador Delfim Ferreira Grande Reserva
Tinto - 2015 -
Dona Silvia
Tinto - 2017 -
Quinta dos Frades
Tinto - 2016 -
Vinha dos Deuses
Tinto - 2019 -
Vinha dos Santos Colheita
Tinto - 2020 -
Vinha dos Deuses
Rosé - 2023 -
Dona Silvia
Branco - 2020 -
Vinha dos Santos Colheita
Branco - 2022
Periquita: Muito mais do que uma marca

No ano em que a José Maria da Fonseca celebra os 190 anos de casa, sua marca mais emblemática – Periquita – foi objecto de um rebranding sob o mote “Moderno desde 1850”. É apresentada agora com uma imagem renovada e bem conseguida, que alia um estilo moderno com um toque de classicismo, resultando numa […]
No ano em que a José Maria da Fonseca celebra os 190 anos de casa, sua marca mais emblemática – Periquita – foi objecto de um rebranding sob o mote “Moderno desde 1850”. É apresentada agora com uma imagem renovada e bem conseguida, que alia um estilo moderno com um toque de classicismo, resultando numa estética tradicional refinada.
Conta a história que o fundador da casa mais antiga da Península de Setúbal (1834), José Maria da Fonseca, adquiriu a propriedade em Azeitão chamada Cova da Periquita, na década de 1840, onde plantou varas de Castelão que havia trazido muito provavelmente do Ribatejo.
Embora a data exata da primeira colheita não possa ser confirmada, sabe-se com certeza que em 1850 o Periquita já era produzido. Prova disso é uma carta desse ano, na qual José Maria da Fonseca escreve a um amigo: “Gostava que provasses o meu Periquita.”
Foi o primeiro vinho engarrafado em Portugal, e com ele nasceu o conceito que hoje chamamos de “marca” (e que foi oficialmente registada em 1941). O nome que corresponde à identidade de um vinho e desperta as expectativas do consumidor.
As garrafas vieram da Inglaterra, a concepção dos primeiros rótulos do Periquita foi da autoria de um artista parisense e as rolhas eram seleccionadas por um técnico catalão. Foi um passo visionário. O vinho engarrafado que ostenta um rótulo, ao invés do vinho vendido a granel, para além de chegar ao destino mais protegido da adulteração, serve de embaixador da casa que o produziu, da região e do país.
Em 1881 deram-se as primeiras exportações de Periquita para o Brasil. A colheita de 1886 recebeu a medalha de ouro na Exposição de Vinhos de Berlim em 1888.
Na década de 1940 surge o conceito de Reserva, “que não tem nada a ver com os Reservas de hoje” – explica Domingos Soares Franco, o vice-presidente da empresa e a 6ª geração da família. “Nos anos bons guardava-se uma parte em cave e lançava-se mais tarde”, com 5-7 anos de estágio. “Reservavam-se cerca de 1000 caixas de 12 e, nesta altura, estaremos a falar da produção do Periquita de mais de 100.000 caixas, ou seja cerca de 1 milhão e meio de garrafas”. O Periquita e o Periquita Reserva, originalmente, eram o mesmo vinho. O Reserva de hoje é um vinho completamente diferente do Periquita “colheita”.
Embora o Periquita tenha nascido como Castelão, a força da marca era tal que se tornou na sinonimia da própria casta na região (hoje permitida apenas para a Península de Setubal). Nos anos 40-50 do século passado deixou de ser Castelão a 100%, juntando a Trincadeira que o pai de Domingos Soares Franco, Fernando Soares Franco, gostava muito, e Aragonez. Décadas depois deixa de ser blend, sobretudo porque ambas as castas mostram grande susceptívidade às doenças da vinha, e a Trincadeira ainda por cima “é uma casta muito aneira e desidrata de um dia para outro”. Na viragem do século volta a ser um blend, para o qual a Trincadeira e Aragonez vêm de uma vinha plantada no início dos anos 90. Na colheita de 2022, o Aragonez foi substituído por Alicante Bouschet (14%), a acompanhar Castelão (47%) e Trincadeira (39%). Deste vinho produzem-se actualmente cerca de 450 000 garrafas.
Acompanhando a evolução e as exigências dos mercados, a família do Periquita cresceu. Em 2004 foi lançado o Periquita branco, inicialmente para o mercado sueco. A nova época do Reserva começou com vindima de 2004, lançado em 2007 também com foco no mercado sueco. Como o tempo, o sucesso estendeu-se para o Brasil e a Noruega. Na sua composição, o Reserva tem 54% de Castelão, 28% de Touriga Nacional e 18% de Touriga Francesa; estagia mais tempo (oito meses) do que o Periquita original em madeira de carvalho francês (usada) e americano (nova). Deste vinho fazem-se cerca de 600 000 garrafas.
Em 2007 surgiu o Periquita rosé e, em 2008, foi criado o Periquita Superyor, lançado em 2012 como um topo de gama da família dos Periquita.
Regresso ao Clássico
Os tempos mudam, a tecnologia evolui e a abordagem enológica adapta-se. Hoje em dia, as uvas são desengaçadas, as fermentações ocorrem em cubas de inox e não em lagares e o estágio passa a ser em barricas de carvalho francês e americano em vez de tonéis grandes de madeira usada. Neste contexto, é natural que mais cedo ou mais tarde surja a vontade de regressar às origens sem intromissão na evolução natural das coisas.
O regresso ao passado sucedeu pela primeira vez na colheita de 1992, quando Domingos Soares Franco fez um lote de vinho “como antigamente: em cubas de cimento com engaço, sem controlo de temperatura e com estágio em tonéis” com o intuito de ser lançado anos mais tarde, por volta de 1998-1999. Entretanto, o vinho acabou por ser apresentado ao importador nos Estados Unidos em 1995, demasiado cedo para mostrar todo o seu potencial. Obviamente, não teve o sucesso esperado. “Foi o jantar mais caro da minha vida”, lembra-se com risos Domingos Soares Francos, que fez uma viagem de ida e volta a Califórnia sem vender uma única garrafa. O Periquita Clássico teve várias colheitas, incluindo as de 1994, 1995, 1999, 2001 e 2004, ano em que decidiram descontinuá-lo. No entanto, nas suas viagens aos mercados de exportação, sobretudo no Canadá e nos Estados Unidos, Domingos Soares Franco sentiu que havia interesse crescente por este conceito. Assim, em 2014 voltaram a fazer o Periquita Clássico, que está ainda disponível no mercado. O 2015 será lançado em breve, permanecendo o 2017 em estágio. A identidade do perfil também é assegurada pelas uvas provenientes de uma vinha com quase 40 anos, implantada em solos argilo-calcários numa vale da Serra da Arrábida. Do Clássico produz-se entre 8 e 9 mil garrafas.
O Castelão das areias e do argilo-calcário
Voltando à Periquita, neste caso, à casta Castelão, um cruzamento natural da casta tinta Portuguesa Alfrocheiro com a casta branca, chamada Sarigo em Portugal e Cayetana Blanca em Espanha.
Graças a José Maria da Fonseca, a casta não só ganhou popularidade na região, como se tornou identitária, embora tenha perdido terreno a favor de outras castas. Quanto aos dados estatísticos, Domingos Soares Franco referiu que, de acordo com a CVR da Península de Setúbal, na região existem 7100 ha de vinha, dos quais 60% castas tintas, o que corresponde a 5050 há, com 3015 ha de Castelão, sendo cerca de 80-100 ha de vinhas velhas com mais de 40 anos.
Domingos Soares Franco explica que o perfil dos vinhos varia consoante o solo: do argilo-calcário os vinhos apresentam “fruto mais exuberante quando jovens, menos álcool, mais acidez e corpo mais fino”, enquanto das areias revelam “fruto mais concentrado, notas de eucalipto, mais álcool e maior estrutura”. Nos anos 40-50, as uvas vinham predominantemente do argilo-calcário e algumas das areias, nos anos 60-70, o argilo-calcário deminui e hoje quase tudo é de areia. Na sua opinião, o lote ideal seria de Castelão com 65% do argilo-calcário e 35% das areias.
Uma prova histórica
Uma prova destas, como a que tive oportunidade de fazer nunca aconteceu antes e dificilmente será repetida. Provámos 14 vinhos a atravessar décadas desde 1940 até 2022, contextualizados pelo grande mestre e figura carismática Domingos Soares Franco, com presença do seu irmão e presidente da empresa, António Soares Franco, António Maria e Sofia Soares Franco da 7ª geração e Paulo Hortas, director de Enologia e Viticultura.
“Se fizermos uma viagem no tempo, é provável que encontremos uma viagem de Periquita” – dizem na José Maria da Fonseca, pois com 174 anos de história, o Periquita acompanhou grandes mudanças e acontecimentos no mundo. Assim, durante a prova, fizemos uma retrospectiva dos últimos 84 anos.
Em termos globais, o ano 1940 foi marcado pela invasão da Alemanha na Europa Ocidental. O Periquita de 1940, marcado na gargantilha como Reserva no seu conceito antigo, apresentou uma cor ainda intensa a lembrar mogno, muito alinhado e vivo no aroma com compotas, marmelada, especiaria, passas acompanhadas por notas de cogumelos, terra húmida e musgo a evidenciar a evolução. Carnudo, com boca bem composta e cheia de frescura, onde o tanino já se tornou sedoso pelo tempo mas assegurou a vida do vinho. Com mais de 80 anos este vinho é uma bela surpresa (17,5)!
Em 1954 aconteceu o Golpe Militar no Paraguai e foi inaugurado o Estádio da Luz. O Periquita de 1954, também marcado como Reserva, mostrou-se mais acastanhado na cor e amadeirado no aroma, com sugestões de tâmaras, alcarávia, madeiras envernizadas e molho de soja; com corpo mais magro do que o vinho anterior e o tanino consumido pelo tempo, mas ainda com frescura e um certo carácter (16,5).
Em 1959, Fidel Castro tomou posse em Cuba e, em Portugal, foi inaugurado o Cristo Rei em Almada. E também foi um grande ano, quer em Portugal, quer em Bordéus. Deste ano provámos dois vinhos. Um deles marcado com letras “J” e “P”. Segundo Domingos Soares Franco, as garrafas eram exactamente iguais, mas numa com as letras que mal se vêm estava assinalado “JMF” e noutra “ACP”. Eram dois lotes diferentes e calcula-se que um era proveniente das vinhas da José Maria da Fonseca, do argilo-calcário e outro dos solos arenosos da Adega Cooperativa da Palmela, onde na altura se comprava vinho. Isto confirma-se pelo estilos diferentes dos vinhos.
O 1959P com muita cor e laivos mogno, com fruta ainda de grande definição a lembrar framboesas e amoras, especiaria, nuances florais, um vinho intenso, elegante com tanino presente que promove a longevidade, e frescura fantástica (18). O 1959PJ com fruta mais delicada, notas de cogumelo, musgo, pão de centeio, alcarávia, fumo e folha de louro, revelou menos corpo, acidez espevitada, tanino mais tenaz envolto numa textura de veludo (17,5).
Em 1961 John Fitzgerald Kennedy tomou posse como presidente dos EUA e Iuri Gagarin foi o primeiro cosmonauta no espaço. O Periquita 1961 revela a cor mogno intenso, com bastante fruta a lembrar ameixa e cereja desidratada, especiaria, flores secas a lembrar lavanda, cogumelos e eucalipto, muito balsâmico. Denso, com amplitude e frescura, longo e bem persistente no sabor (17,5).
Em 1965, os Estados Unidos entraram na Guerra do Vietname e o cosmonauta soviético Alexei Leonov realizou a primeira caminhada espacial. Em 1966, Indira Gandhi foi eleita a primeira-ministra da Índia, sendo a primeira mulher indiana a assumir o cargo e os Beatles lançaram o seu álbum icónico “Revolver”. Nesta altura Portugal encontrava-se em plena Guerra Colonial.O Periquita 1965 infelizmente tinha TCA. O Periquita 1966, de cor mogno atijolado, mostrou-se denso e cheio, intenso com notas iodadas, tinta da China, castanhas, molho de soja, fruta discreta e mais evidente no retronasal (16,5).
O ano de 1970 marcou o início de uma série de crises económicas globais e, em, Portugal morreu António Salazar. O Periquita 1970, com uma cor atijolada, balsâmico com fruta compotada, especiaria, alcarávia, bastante directo, mantendo o foco, ligeiramente metálico, com boa frescura e leve amargo no final (16,5).
Em 1976 teve início a ditadura na Argentina, Steve Jobs lançou a Apple e Jimmy Carter foi eleito presidente dos Estados Unidos. O Periquita 1976 revelou muita fruta compotada, marmelada, especiaria doce, framboesa, algum cogumelo também. Parece-se com o 1970, mas é mais cheio, mais redondo e macio, com boa estrutura de tanino polido, e muito guloso (17).
Em 1985 foi assinado o Tratado de Adesão de Portugal às Comunidades Europeias e Mikhail Gorbachev assumiu o cargo de Secretário-Geral da União Soviética. O Periquita 1985, também marcado como Reserva, apresentou um ligeiro toque de rolha.
Em 1990 deu-se a reunificação da Alemanha, o fim do Apartheid na África do Sul e Tim Berners-Lee propôs a criação da World Wide Web. O Periquita 1990 marcou pela fruta presente e notas caramelizadas, cogumelos, especiaria, fumo, madeiras exóticas, pimenta preta, doce de amora, com bastante volume, ambiente escuro, cheio, guloso e aveludado por tanino maduro e redondo (17).
Em 2007, a Apple lançou o primeiro iPhone e ocorreu o colapso do mercado imobiliário dos EUA. O Periquita 2007 representa um lote de Castelão (75%), Trincadeira (15%) e Aragonez (10%). A maior parte das uvas provém do solo arenoso e 5% do argilo-calcário. De cor granada, revela muita amora e pimenta preta, figo maduro, alguma canela, alcarávia, leve musgo e eucalipto. Alinhado e elegante, muito bonito e em grande forma. Tanino fino e tudo muito polido. (16,5). Deste vinho foram produzidas mais de 1 milhão de garrafas.
Em 2011 acabou a Guerra do Iraque, Bin Laden foi assassinado e Portugal tornou-se membro não permanente do Conselho de Segurança da ONU. O Periquita 2011 foi o último feito por Domingos Soares Franco, que continua como o enólogo inspirador mas, segundo ele próprio, não intervém nas decisões da equipa de enologia. É um lote de Castelão (50%), Trincadeira (40%) e Aragonez (10%), também maioritariamente do solo arenoso. De cor granada, fruta doce e compota, no fundo folhas de louro, algum tomilho e orégãos. Está numa fase ascendente, com tudo interiorizado, mas ainda com muita força, parece mais novo. Chá, bergamota, acidez não tão pronunciada como no 2007 (16,5). Foram produzidas 375 000 garrafas.
Em 2022 começou a guerra da Ucrânia e ocorreu a morte da Rainha Isabel II. No Periquita 2022 o Alicante Bouschet substituiu Aragonez no lote com Castelão e Trincadeira.
(Artigo publicado na edição de Outubro de 2024)
Bairrada elege os melhores do Concurso de Vinhos e Espumantes 2024

O Quartel das Artes, em Oliveira do Bairro, foi palco do anúncio e entrega de prémios do Concurso de Vinhos e Espumantes 2024, organizado pela Comissão Vitivinícola da Bairrada. Ao palco subiram os vinhos premiados com medalhas de prata (7) e de ouro (30), num total de 37 referências, que se destacaram entre as 132 […]
O Quartel das Artes, em Oliveira do Bairro, foi palco do anúncio e entrega de prémios do Concurso de Vinhos e Espumantes 2024, organizado pela Comissão Vitivinícola da Bairrada. Ao palco subiram os vinhos premiados com medalhas de prata (7) e de ouro (30), num total de 37 referências, que se destacaram entre as 132 amostras submetidas a prova cega nesta edição.

O Quinta dos Abibes Sublime branco 2019 foi o Grande Vencedor desta competição, tendo sido laureado com os títulos de Melhor Vinho do Concurso e Melhor Branco: um 100% Arinto, da autoria da quinta que lhe dá nome. Já é o segundo ano consecutivo em que é branco o melhor vinho do concurso.
Os rosados continuam a aparecer de forma tímida, com dois premiados apenas: ao Quinta do Poço do Lobo Reserva Baga e Pinot Noir 2022, das Caves São João, foi atribuída Medalha de Ouro e distinção de Melhor Rosé. Nos tintos, a Adega de Cantanhede destacou-se com o Marquês de Marialva Confirmado Baga 1995, ao arrecadar Ouro e o prémio de Melhor Tinto. No que toca a espumantes, o melhor da categoria foi o Primavera Velha Reserva Bruto 2015 (Caves Primavera). O Quinta da Laboeira Baga Bairrada Reserva Bruto Natural 2021 (Alberto da Silva Marques) foi eleito o Melhor Baga Bairrada.
O Concurso de Vinhos e Espumantes da Comissão Vitivinícola da Bairrada 2024 realizou-se no dia 30 de Outubro, perante um painel de jurados composto por quinze pessoas, entre enólogos e elementos eleitos pela Associação Escanções de Portugal. A prova foi dirigida por Francisco Antunes ,acompanhado por Pedro Soares.
Concurso de Vinhos e Espumantes da Comissão Vitivinícola da Bairrada – 2024
Lista de Premiados
O GRANDE VENCEDOR
Quinta dos Abibes Sublime branco 2019 (Quinta dos Abibes)
VINHOS BRANCOS
Quinta dos Abibes Sublime branco 2019 (Quinta dos Abibes)
Medalhas de Ouro (7)
Quinta dos Abibes Sublime branco 2019 (Quinta dos Abibes)
Todos by Osvaldo Amado branco 2023 (Casa dos Amados Vinhos de Portugal)
Todos by Osvaldo Amado Reserva branco 2022 (Casa dos Amados Vinhos de Portugal)
Quinta da Lagoa Velha Singular branco 2020 (Quinta da Lagoa Velha)
Medusa Reserva branco 2018 (Cave Central da Bairrada)
Pranto branco 2022 (Rui António Rodrigues Francisco)
Barão da Pocariça Bical e Fernão Pires branco 2023 (Francisco Augusto Rebocho Pessoa Vaz)
Medalhas de Prata (3)
Conde de Cantanhede Reserva branco 2021 (Adega de Cantanhede)
Mata Fidalga Reserva 2023 (Quinta da Mata Fidalga)
Quinta do Poço do Lobo Reserva 2020 (Caves São João)
VINHOS ROSÉS
Medalha de Ouro
Quinta do Poço do Lobo Reserva 2022 (Caves São João)
Medalha de Prata
António Marinha 2022 (António Marinha)
VINHOS TINTOS
Marquês de Marialva Confirmado Baga tinto 1995 (Adega de Cantanhede)
Medalhas de Ouro (7)
Aleixo Grande Reserva Baga tinto 1997 (Real Cave do Cedro)
Marquês de Marialva Confirmado Baga tinto 1995 (Adega de Cantanhede)
A. Henriques tinto (Caves da Montanha)
4 Patamares Virgílio de Sousa Clássico tinto 2015 (Quinta da Mata Fidalga)
António Marinha Grande Reserva Vinho de Homenagem tinto 2015 (António Marinha)
Giz Vinha das Cavaleiras Baga tinto 2020 (Luis Gomes)
Frei João Clássico tinto 2018 (Caves São João)
Medalhas de Prata (3)
Primavera Clássico tinto 2019 (Caves Primavera)
Rabarrabos tinto 2022 (Fundação ADFP)
Todos by Osvaldo Amado Baga tinto 2022 (Casa dos Amados Vinhos de Portugal)
ESPUMANTES
O melhor Espumante Primavera Velha Reserva Bruto 2015 (Caves Primavera)
O Melhor Espumante Baga Bairrada
Quinta da Laboeira Baga Bairrada Reserva Bruto Natural 2021 (Quinta da Laboeira)
Medalhas de Ouro (15)
Primavera Velha Reserva Bruto 2015 (Caves Primavera)
Quinta de S. Lourenço Bruto 2011 (Caves São Domingos)
Caves São João Homenagem a Luiz Costa Bruto Natural 2018 (Caves São João)
D. Duarte Super Reserva Bruto 2020 (Caves Primavera)
Marquês de Marialva Cuvée Primitivo Bruto Natural 2015 (Adega de Cantanhede)
Montanha Real Tributo da Carreira Grande Reserva Bruto 2010 (Caves da Montanha)
Encontro Special Cuvée Extra Bruto 2017 (Quinta do Encontro)
Quinta da Laboeira Baga Bairrada Reserva Bruto Natural 2021 (Quinta da Laboeira)
Todos by Osvaldo Amado Blanc des Noirs 2017 (Casa dos Amados Vinhos de Portugal)
Quinta da Lagoa Velha Cuvée Bruto 2015 (Quinta da Lagoa Velha)
De Sá e Sousa Reserva Bruto (Caves Arcos do Rei)
Aliança Grande Reserva Bruto Natural 2019 (Aliança Vinhos de Portugal)
Pedra Só Reserva Bruto 2021 (Idálio de Oliveira Estanislau)
Borlido Baga Bairrada Super Reserva Bruto 2020 (Borlido)
Campolargo Pinot Blanc Bruto 2017 (M. S. Campolargo Herdeiros)
Tiago Cabaço Winery: Alentejo de primeira grandeza

O epíteto de “Cidade Branca” deve-se, para além da cor do casario, às jazidas de mármore branco, o célebre “Mármore de Estremoz”, que tornou a cidade conhecida a nível internacional. Não podia, pois, ser de outra cor que não branca, a adega curvilínea de Tiago Cabaço, mesmo à entrada de Estremoz, para quem vem pela […]
O epíteto de “Cidade Branca” deve-se, para além da cor do casario, às jazidas de mármore branco, o célebre “Mármore de Estremoz”, que tornou a cidade conhecida a nível internacional. Não podia, pois, ser de outra cor que não branca, a adega curvilínea de Tiago Cabaço, mesmo à entrada de Estremoz, para quem vem pela EN 4, ladeada por uma vinha de Alicante Bouschet, a casta favorita do produtor e referência obrigatória do Alentejo. Sensibilidade estética e integração paisagística são o mote.
“Há pessoas que transformam o Sol numa simples mancha amarela. Mas há aquelas que fazem de uma simples mancha amarela o próprio sol”, disse um dia Picasso.
A história familiar de Tiago Cabaço é conhecida. Nascido e criado em Estremoz, no coração do Alentejo vinhateiro, desde muito cedo se habituou a partilhar o campo e a trabalhar nas vinhas e na adega com os pais, aprendendo com os mais velhos os pequenos e grandes segredos da vinha, as manias e os truques, as castas e os melhores solos e climas para cada uma delas. Enfim, cedo se habituou a tratar a vinha por tu, e cedo também quis começar a fazer o seu próprio sol.
Tudo começou há 20 anos. Em 2004 criou a marca Tiago Cabaço Winery, foi adquirindo terras e vinhas, que totalizam 123 ha actualmente, construiu a sua adega própria, por si pensada, desenhada e delineada, cresceu de 40000 garrafas para 1400000, e tem uma equipa de cerca de 50 funcionários. Entre pessoal de campo, administrativo, contabilidade, marketing e publicidade, tudo é feito dentro de casa.
Pelo caminho tem obtido respeito e atenção por parte do sector, somando diversos prémios e distinções nacionais e internacionais.
A família de vinhos, sedutores e sérios, modernos no estilo e na forma, mas profundamente alentejanos no carácter, divide-se entre os “.com” de perfil enérgico e jovial, os monovarietais sérios e poderosos, os “Vinhas Velhas” que conjugam a excelência do terroir e as vinhas com mais de 30 anos, o espumante, pensado para momentos especiais, e os “Blog”, simultaneamente vigorosos, subtis e frescos que, juntamente com o “Gerações M”, se reclamam como topos de gama dos vinhos de Tiago Cabaço, e, porque não, do próprio Alentejo.
Há, no entanto, um prémio que Tiago Cabaço mantém bem vivo na sua memória: o “Best in Show” do ano de 2017, com o seu vinho Blog 13 Rótulo Castanho, da revista internacional Decanter, nos seus World Wine Awards, concurso cujo júri é maioritariamente composto por Masters of Wine. Foi a primeira vez que um vinho português alcançou tal feito, e apenas um outro lhe seguiu as pisadas até aos dias de hoje. Impressionante, certo?
Susana Esteban abraçou o projecto Tiago Cabaço como enóloga consultora desde 2007, ano da sua primeira vindima, tendo logo participado na elaboração dos lotes dos vinhos de 2006, ano em que saiu da Quinta do Crasto. “Tem sido um processo de aprendizagem mútuo”, refere Tiago, e assim se tem mantido esta parceria de sucesso até aos dias de hoje.
Um ano de castas
Quem hoje se desloca a Estremoz depara-se com uma enorme extensão de vinhedos, vinhas modernas, bem implantadas e que dão sentido à frase “um mar de vinhas”. Todavia, o potencial da zona para a produção vitícola e a consequente presença de muitas vinhas em Estremoz não é coisa recente. A verdade é que, desde o séc. XIX que são muitas as referências a Estremoz como zona vitícola, onde as vinhas conviviam com oliveiras, num mesmo terreno e numa disposição bem pensada e melhor executada. A presença destas duas culturas juntas é prática antiga, sendo hoje apenas autorizada para vinhas velhas.
A zona de Estremoz beneficia de um micro-clima muito próprio que, em muito, ajuda à produção das uvas. Mesmo no Verão, apesar do intenso calor que se faz sentir, as noites são frescas, há uma grande amplitude térmica dia/noite e isso é excelente para a maturação das uvas. Ao clima acresce a riqueza geológica onde estão plantadas as vinhas de Tiago Cabaço, com muita diversidade de perfis de solo, por vezes à distância de escassos metros, muito quartzo, que contribui para uma mineralidade muito característica, xisto inteiro, negro, barros vermelhos e franco-argilosos.
Fomos recebidos em pleno arranque da vindima de 2024, tudo ainda bastante tranquilo, já com os brancos a entrarem aos poucos. Mas já se sentia no ar aquela electricidade, antecipação e ansiedade próprias desta altura do ano para todos os produtores de vinho.
“Vai ser um ano de castas, ao invés do anterior, em que todas as castas foram boas” refere Tiago Cabaço, explicitando depois: “Vai ser ano de Alicante, Syrah, Tinta Miúda e não vai ser ano de Aragonez. Este ano faz-me lembrar o 2002. A Primavera foi muito boa, com alguma chuva, o que é óptimo para vinhas de sequeiro. Foi fresco até Maio, com temperaturas amenas, alguns escaldões em finais de Junho porque a planta não teve tempo de se adaptar gradualmente à chegada do calor. É um ano heterogéneo, com as uvas nos cachos com diferentes graus de acidez, mas a globalidade da parcela trará o equilíbrio final. Talvez os vinhos não estejam tão prontos de início, mas vão certamente compensar em longevidade.”
Entretanto o almoço esperava-nos, num dos restaurantes emblemáticos de Estremoz, “O Alecrim”, só brancos, porque os tintos “castigam mais” e ainda temos muito que provar no resto do dia.
Curioso como os hábitos de consumo vão mudando com a qualidade cada vez maior dos brancos portugueses. De Norte a Sul do País, o seu consumo veio, sem dúvida, para ficar! Destaque para o Verdelho 2023, da casta madeirense, fresco, estruturado e com alguma complexidade, com um final de boca vibrante e persistente, um caso muito sério à mesa. Boa prova do Vinhas Velhas branco 2016, demonstrando o bom potencial de envelhecimento deste vinho, inserido num segmento de preço médio (€12,99). Belíssimo desempenho, a emparelhar com umas suculentas costelinhas de borrego panadas, dos dois blog Special Edition Arinto 2021 e Arinto/Encruzado 2022, dois brancos de curtimenta parcial provenientes de três barricas e de parcelas identificadas. Mas a(s) Píèce de Résistance estavam programadas para o final de tarde e manhã do dia seguinte, uma Vertical de blog Rótulo Preto, de 2011 a 2021, e outra de blog Rótulo Castanho, um bi-varietal de Alicante Bouschet e Syrah.
Duas verticais inesquecíveis
O blog Rótulo Preto é um vinho de terroir, feito na vinha e escolhido entre as melhores parcelas de baixa produção; é um blend de Alicante Bouschet, Syrah com uma percentagem de Touriga-Nacional, que passa 18 meses em Carvalho Francês, metade novo, metade de segundo ano. Depois de todos os vinhos decantados, como mereciam, começámos pelo mais recente. O 2021 ainda não saiu para o mercado, continuando a afinar em garrafa em cave, muito jovem mas com muito boa prova desde já, com imenso brilho e potencial, fruta de enorme precisão, taninos de luxo e perfeita acidez. Promete imenso.
O blog 2020 evidenciou aromas agradáveis de cerejas vermelhas, groselhas e ameixas, suave e intenso em boca, profundamente mineral, elegante e fresco (18); o 2019 está ligeiramente fechado e austero no palato, mas com taninos muito bem domados, aromas de fruta silvestre e sabores de chocolate negro e pimenta preta (17,5); o 2018 revelou-se muito pronto a beber, com boa prova de boca, e taninos e acidez no ponto certos (17,5); 2017 foi um ano quente mas o vinho não se ressentiu disso, com bela complexidade aromática e boa densidade e presença em boca (17,5); o 2016 revelou-se atractivo, directo e harmonioso com leves notas mentoladas no final (17,5); 2015 estava mais fechado e austero da prova, deixando no entanto antever uma longa vida em garrafa tal a classe de taninos e acidez perfeita (18); em 2014 não existiu blog; o 2013 tem “qualquer coisa” de especial, enorme prova com tremenda pujança aromática, notável juventude, fruta de primeira qualidade, taninos poderosos mas envolvidos em veludo, frescura, tensão e mineralidade, soberbo (18,5); 2012 foi talvez o menos impactante, não deixando todavia de revelar bom equilíbrio de boca, num registo elegante e fresco (17); dizer que 2011 foi grande ano já parece lugar comum, mas a verdade é que é incontornável e este blog demonstrou isso mesmo, num registo muito sério, com alma, tensão e grande frescura, com muito para durar ainda em garrafa, enorme (18,5)!
Por seu lado o blog Rótulo Castanho é um vinho bi-varietal de Alicante Bouschet e Syrah, também um vinho de terroir, feito na vinha e escolhido das melhores parcelas de baixa produção, com 18 meses de estágio em barricas novas de carvalho francês para 50% lote e o restante em barricas de segundo ano.
Foram provadas oito colheitas, começando também por ordem crescente de idade, o 2021 exibiu-se tenso e fechado, mas muito focado na fruta de primeiríssima qualidade, complexo e elegante e com grande potencial de guarda (18,5); 2019 também se revelou muito jovem, primário, mas sedoso e aveludado na textura, estruturado, vigoroso mas não agressivo, com notas terrosas e de chocolate negro no final (18,5); o 2017 exibiu-se em grande nível, ano quente, fruta madura mas com acidez viva e equilibrada prolongando o final distinto e requintado (18,5); 2016 deu boa prova de boca, com bom balanço, provavelmente já num bom momento de prova mas com muita vida pela frente (18); o 2015 revelou-se muito contido no nariz, e algo austero também em boca, mas sempre denotando imensa classe, taninos maduros e sedosos, acidez perfeita e enorme elegância (18), chegados ao 2013, o tal “Best in Show”, a verdade é que não deu hipótese, um portento de vinho, confirmando que, de facto, tem algo especial, um verdadeiro luxo para os sentidos (19); o 2012 revelou um bom equilíbrio, num registo elegante e fresco, com taninos polidos e muito boa acidez (18), finalmente, o 2011 apresentou-se cheio de carácter, muita saúde, belíssima harmonia entre barrica, fruta e acidez, taninos de luxo e final interminável (18,5).
“Corre o tempo velozmente
Como a água da corrente
Nós também da mesma sorte
Correndo vamos à morte”
Esta é a inscrição que pode ler-se sob o plinto onde assenta a estátua do “Gadanha” de Estremoz. Representando, primitivamente, o deus Saturno, símbolo da fartura e da abundância, passou a ser conhecido como o é hoje, “Gadanha”, assim baptizado pelas gentes de Estremoz em virtude da enorme foice que segura numa das mãos. Na outra, uma ampulheta simbolizando a celeridade do Tempo e a fugacidade da vida, não deixando de ser irónico que, ao representar a fugacidade do Tempo, tenha acabado por se tornar eterno, permanecendo na memória colectiva da cidade.
Não sei se os vinhos de Tiago Cabaço serão eternos. Provavelmente não. Mas que recebem a passagem do tempo com suprema elegância e carácter, disso não tenhamos dúvida alguma.
Reza ainda a lenda que quem beber a água da fonte do “Gadanha” fica irremediavelmente preso ao sortilégio do encantamento enfeitiçado de Estremoz e das suas gentes. Pois devo confessar que não bebi água da fonte, mas que Estremoz e as suas gentes têm algo de especial, disso fiquei com a certeza!
(Artigo publicado na edição de Outubro de 2024)
Global Wines recebe Referencial Nacional de Sustentabilidade

O grupo vitivinícola Global Wines acaba de receber o Referencial Nacional de Certificação de Sustentabilidade do Sector Vitivinícola. “Esta certificação vem consolidar o caminho de sustentabilidade que temos seguido e o foco nas preocupações ambientais que temos vindo a trabalhar na Global Wines, há já longos meses.“, refere Manuel Pinheiro, CEO da empresa. A auditoria […]
O grupo vitivinícola Global Wines acaba de receber o Referencial Nacional de Certificação de Sustentabilidade do Sector Vitivinícola. “Esta certificação vem consolidar o caminho de sustentabilidade que temos seguido e o foco nas preocupações ambientais que temos vindo a trabalhar na Global Wines, há já longos meses.“, refere Manuel Pinheiro, CEO da empresa.
A auditoria externa realizada, que reconhece as práticas e uma cultura organizacional assente na sustentabilidade, foi feita, de forma independente, em cinco unidades do grupo: Global Wines e Sociedade Agrícola de Santar, que detém a emblemática Casa de Santar e o Paço de Santar, ambas sediadas no Dão; Quinta do Encontro, na Bairrada e Herdade Monte da Cal, no Alentejo. Esta certificação nacional demonstra que todas cumprem os requisitos legais relacionados com os domínios da sustentabilidade, gestão e melhoria contínua, e contribuem ativamente para o bem-estar social, económico e ambiental das comunidades envolventes e das diferentes regiões onde atuam.
O Referencial Nacional, criado pelo Instituto da Vinha e do Vinho (IVV) e promovido pela ViniPortugal, em território nacional, abrange, no caso da Global Wines, a produção total de 235 hectares de vinha (165 ha no Dão, 67 ha no Alentejo e 3 ha na Bairrada).
O novo selo de sustentabilidade irá ser adotado nas rotulagens das marcas Casa de Santar, Paço dos Cunhas de Santar, Cabriz, Quinta do Encontro e Herdade Monte da Cal, garantindo, ao consumidor, que estão implementadas práticas sustentáveis em todas estas organizações e marcas do universo Global Wines.
Caves Cálem têm novo circuito exclusivo para grupos

Com um número médio de 1.500 visitantes diários em época alta, e cerca de 338.000 anuais, o novo circuito tem como objectivo responder ao fluxo de turistas que diariamente rumam às Caves Cálem, sem, assim, desvirtuar a experiência de visita individual. Desde meados de Agosto que as caves desta empresa do Grupo Sogevinus têm, aberta […]
Com um número médio de 1.500 visitantes diários em época alta, e cerca de 338.000 anuais, o novo circuito tem como objectivo responder ao fluxo de turistas que diariamente rumam às Caves Cálem, sem, assim, desvirtuar a experiência de visita individual.
Desde meados de Agosto que as caves desta empresa do Grupo Sogevinus têm, aberta ao público, uma ala exclusiva para grupos, com entrada pela rua da Barroca, um circuito disponível dentro de um armazém histórico de 1880 onde, num equilíbrio entre a tradição e as novas tecnologias, o visitante é desafiado a descobrir a região do Douro e do Vinho do Porto. O circuito foi desenhado para ser apenas usufruído por grupos e em estreita colaboração com parceiros, oferecendo, assim, um serviço mais qualitativo. Esta foi também a solução encontrada para aumentar a oferta nas Caves Cálem, proporcionando mais horários e maior flexibilidade aos parceiros na área do turismo.
O circuito inclui a visita a uma exposição que abrange uma área de 800 metros quadrados e a uma sala de provas com capacidade para 200 pessoas. As mais recentes tecnologias ajudam a contar a história do Douro e do Vinho do Porto, aos visitantes, em paredes interativas onde é abordada a geografia do Douro, o solo, o clima, as castas e o processo de produção da vinha ao copo. Uma sala com vídeo e projecção com sonoplastia convida os visitantes a mergulharem numa experiência imersiva e sensorial sobre a história da Cálem. Outra aborda a arte da tanoaria através de uma videowall composta por seis ecrãs e noutra a visita é apoiada por um ecrã transparente interativo, de grandes dimensões, devidamente enquadrado numa caixa cenografada, que ajuda os visitantes a aprender um pouco mais sobre as famílias de vinhos e cores.
Este espaço dispõe ainda da possibilidade de realizar eventos, mediante consulta.
Horário: Das 10h às 19h por marcação/reserva antecipada
Contacto: visitascalem.barroca@sogevinus.com
Morada: Rua da Barroca nº 30 – 4400-111 VNG
Tintos de Lisboa: Diversidade para explorar

Os meus leitores (#zerofollowers?) e o director hão-de perdoar-me que, no texto, explique mais as emoções de organizar e realizar esta prova do que realmente mergulhar nela com a devida assepsia competente esperada de um crítico de vinhos. Pois, adivinhem, somos também pessoas, e temos história. Só que essa história inclui muitos vinhos e uma […]
Os meus leitores (#zerofollowers?) e o director hão-de perdoar-me que, no texto, explique mais as emoções de organizar e realizar esta prova do que realmente mergulhar nela com a devida assepsia competente esperada de um crítico de vinhos. Pois, adivinhem, somos também pessoas, e temos história. Só que essa história inclui muitos vinhos e uma tentativa árdua e longa de décadas de ter uma abordagem sistematizada à sua prova e – ocasionalmente – ao seu consumo. Brinco, como faço sempre quando quero falar de coisas sérias.
Esta prova organizada na silly season criou em mim altas expectativas. Pois se acho que Lisboa – a região – está a fazer uma das viticulturas e enologias mais excitantes do país, tudo está a acontecer, em particular coisas de que gosto: viticultura tradicional, carinho pelas vinhas velhas, gente nova que escuta os velhos, ressuscitar de antigas castas, estudar de técnicas tradicionais, vinificar com intervenção mínima, explorar terroirs com frescura marítima, tudo sem esquecer o que as modernas enologia e viticultura nos ensinaram. Os vinhos chegaram e eu avancei para eles sem preconceitos. Também era melhor!… Ou bem… já vos conto…
Tudo no frigorífico, temperaturas correctas, nem eram muitos, só 18, uma manhã de trabalho empenhado e sisudo, com prémio de provar estes belíssimos topos de gama, onde eu, confesso, esperava variedade, excitação, ousadia. Esperava descobrir coisas novas que eu quisesse trazer para a minha mesa. Já há muito lá vai o tempo em que eu conhecia todos os vinhos do país. A indústria cresceu e agora navego como todos nós pelas águas que consigo navegar. Mas ainda trago a memória que me permite cartografar uma região. E por isso sei que esta prova foi inquinada por um certo topo-de-gamismo que a conduziu para um tipo de vinhos que afunilam num estilo, quando eu esperava a explosão da variedade.
Não me interpretem mal. Tudo o que provei estava em excelente nível, como as notas bem demonstram. Mas eu talvez esperasse notas menos altas e vinhos mais diversificados. Todos sabemos, todos, que nem tudo na vida são notas. Vi muitos vinhos concentrados, alcoólicos e cheios de vigor, quando eu esperava que um ou outro me quisesse dar a outra face, tipo “olha, é isto que agora a malta aqui gosta e bebe.” Por isso, “ao ver-te, Lisboa, Lisboa, perder o bairro da Madragôa” (como na já trintona canção dos Polo Norte) não deixo de pensar – e aqui explicitamente fazer a afirmação – que Lisboa – a região – não pode perder essa liderança que recentemente ganhou de explorar a diversidade, definir rumos de futuro, não reafirmar incessantemente o brilhante passado.
Quando digo Lisboa – a região – é por razões pessoais também. Sou das Cortes, ao pé de Leiria, onde sempre se fez vinho e mauzote, mas tínhamos a nossa DO Encostas de Aire, aliás bem extensa. Muito caiu o meu queixo há anos quando descobri que a minha aldeia natal era agora IGP Lisboa. Lisboa, tão longe, a minha cidade adoptiva quando fugi da Leiria-sem-universidade, num tempo já há muito ido. Então Lisboa a região, antiga Estremadura, de onde Leiria nem era, era Beira Litoral. Ai Salazar, que ainda todos nos lembramos dos mapas na escola primária.
Syrah, Alfrocheiro, Tannat, Touriga…
Lisboa definiu-se nos últimos 30 anos. Vejam, foi também há 30 anos que José Bento dos Santos plantou Syrah perto da Ventosa, Alenquer, e começou o seu projecto Quinta do Monte D’Oiro, que hoje oferece um dos vencedores desta prova. Um Syrah com Viognier tremendo de complexidade, precisão na maturação, definição. Falei com o filho Francisco, hoje na liderança da quinta. Francisco explicou-me que a aposta na Syrah, vanguardista na altura (plantações de 1992) vinha das convicções, provas e estudo com técnicos de Hermitage, de onde vieram as varas e o saber. A aposta revelou-se correcta, e hoje há Syrah no país todo, mas poucos têm o refinamento e a perfeição de maturação desta quinta, onde com os anos e a estabilidade da equipa aprenderam a explorar as suas virtudes, escolher as parcelas e acertar os lotes que melhor se mostram em cada ano. Até 2000 tudo vinha da Vinha da Nora. Depois de 2000 passou a vir de várias parcelas, o terroir da Ventosa, a 20km do mar, com a frescura marítima a ajudar. Tudo separado por casta e por parcela.
Francisco não mede as palavras: “Hoje sabemos o que é grand cru, premier cru e village.” Eu sei que ele sabe do que fala. Para o Reserva só usam “Grand Cru”, mas a proporção entre parcelas é diferente em função do ano de colheita, e da opinião dos provadores. Há vários talhões de Viognier e deixam meia dúzia de carreiras que são vindimadas quase em passa para co-fermentar com a Syrah. Vindimado quase um mês mais tarde do que o vinho branco, tem de se garantir que se aguenta sem apodrecer. A idade média da vinha é agora de 25 anos, a equipa já a conhece bem, e 2021 foi um grande ano. Todos os pormenores contam, a produção em modo biológico há 20 anos também faz diferença. De costume, o Reserva não afunila numa parcela só, tem quatro ou cinco parcelas, mas 2021 teve apenas três parcelas, o que não é usual, e maioria de uma delas, 60% da Vinha da Nora, que tem já 30 anos, 20% da Parcela 9, 20% da parcela 24, da seleção massal. As barricas (40% novas) vêm de várias tanoarias, e diferentes origens da madeira e introduzem ainda mais complexidade. Se tudo isto parece a conversa usual de quem quer vender um terroir, desenganem-se. Este senhor quer é vender vinho, e convido-os a comprar e provar este 2021, que mostra um nível de Syrah que em Portugal raras vezes consegui ver.
Já vos abro o meu coração sobre o outro vencedor da prova, Ganita 2015. Tudo me convocava para não gostar deste vinho. Preço muito alto, imagem impecavelmente cuidada (eu sei, sou um rebelde!), incluindo garrafa cara estilo base de abat-jour e alguma lamechice de “homenagem” que incluía rótulos e cintas obviamente manipulados à mão, seria impossível não o serem, com atilhos e reentrâncias. Ainda por cima chegou por último e para estar à temperatura tinha de ficar para último da prova. Décimo-oitavo-vinho e já eu grunhia de fome e rabujava de exaustão. Depois cheirei o vinho. Depois levei à boca. Depois senti a sua textura, patine. Rendi-me. Que diabo de coisa, os factos não nos darem razão. Combinação improvável, direi mesmo impossível, porque telefonei ao seu arquitecto António Ventura, que me disse que a Alfrocheiro teve problemas na vinha e foi arrancada.
Aqui, as castas Tannat, Alfrocheiro e Touriga Nacional foram fermentadas separadamente em spin-barrel de 500 litros e depois estagiaram em barricas de 300 litros de diferentes origens, todas topo de gama. Tudo a convidar a um incrível topo de gama. Luís Vieira, da Quinta do Gradil, é o criador desta homenagem ao seu avô António Gomes Vieira, dito Ganita, e foi lançado em 2019, nos 100 anos do seu nascimento. O Ganita iria rebentar de orgulho deste vinho, que é sensacional. Correu-me que seria edição única, mas já soube que talvez em outra data histórica possa ser lançado outra vez, mesmo que sem o defunto Alfrocheiro. Alfrocheiro, Touriga Nacional e Tannat, vejam lá coisa mais improvável. Só na Lisboa, Lisboa. Vale mesmo a pena “não perder o bairro da Madragôa”…
(Artigo publicado na edição de Outubro de 2024)