Quinta do Perdigão: Uma família, uma vinha e alguns segredos

A aventura do arquitecto começou em 1997. À época, José Perdigão desenhava projectos, mas de uvas e vinho pouco entendia. Isso não o impediu de se apaixonar por esta propriedade, que estava como uma folha em branco onde é suposto desenhar um projecto. Hectares eram 10 e casa era uma, em ruínas. Foi verdadeiramente começar […]
A aventura do arquitecto começou em 1997. À época, José Perdigão desenhava projectos, mas de uvas e vinho pouco entendia. Isso não o impediu de se apaixonar por esta propriedade, que estava como uma folha em branco onde é suposto desenhar um projecto. Hectares eram 10 e casa era uma, em ruínas. Foi verdadeiramente começar do zero: na reconstrução, no plantio e na aquisição de conhecimentos. Diz-nos que “como de vinho não sabia nada de nada, fui para Bordéus aprender, mas, de início, tivemos aqui apoio e conselhos de técnicos locais, como Ari di Mari, Carlos Silva e Paulo Nunes. Agora sou eu e a minha filha Mafalda que orientamos os trabalhos da vinha e adega”.
Mas José não esquece a tese, que abraça sem rebuço, que “é o meu paladar e o meu gosto que devem presidir aos vinhos. O apoio dos técnicos é fundamental do ponto de vista analítico, mas a sensibilidade para saber qual é o caminho a seguir, essa cabe ao produtor”. Fica a dúvida sobre qual será o método mais eficaz para que a sensibilidade se expresse, mas José tem receita própria: “levanto-me de manhã, antes de tomar banho ou sequer lavar dos dentes, sento-me aqui a provar os vinhos e a tentar encontrar os descritores que melhor expressam os aromas e características da prova de boca”. O resultado dessa “meditação matinal” vem depois expresso nos contrarrótulos, onde dá conta dos aromas e sabores que descobriu no vinho.
“De manhã, antes de tomar banho ou sequer lavar dos dentes, sento-me aqui a provar os vinhos e a tentar encontrar os descritores que melhor expressam aromas e sabores”
TOURIGA PRIMEIRO, ENCRUZADO DEPOIS
Nesta zona de Silgueiros não faltam vinhas e produtores conhecidos. Uma verdadeira comunidade onde entra uma propriedade com 120 hectares de vinha da família Santos Lima (mas que apenas vende as uvas) e, mais à frente, a Quinta de Lemos. Embora hoje o branco de Encruzado seja uma das bandeiras da casa, a verdade é que, de início, a intenção era apenas fazer vinho tinto, não aceitando o conselho do Centro de Estudos Vitivinícolas do Dão (Nelas), que apontava para que o plantio devesse recair apenas nos brancos. “Nem um pé!”, disse José que, quando um jornalista inglês o visitou e perguntou se não tinha branco ele afirmou, “tenho sim senhor é white wine, a cadela”. Mais tarde percebeu que era um erro, tal como percebeu que aqui não é terra de Tinta Roriz e as cepas desta casta foram re-enxertadas em Encruzado. Para felicidade de “bichos” diversos, já que, em tempos, José Perdigão teve aqui alguns cavalos, mas agora só uma égua que, conta-nos, “adora os bagaços de Encruzado e não sai da porta da adega enquanto não lhos dermos”.
Começaram por plantar Touriga Nacional com dois porta-enxertos e uma vinha também em pé-franco, material vegetativo fornecido pelo Centro de Estudos. Ao lado da Touriga veio a Jaen e depois o Alfrocheiro. Passados estes anos, existe a convicção que a Touriga Nacional é a casta que melhor se expressa nesta zona. “Com ela já ganhámos todos os prémios”. As uvas da vinha de pé-franco são usadas para o espumante. Porquê só para espumante, atendendo a que são tão poucos os vinhos de pé-franco no país? A resposta parece ter as mesmas reticências que em tempos houve em relação ao Encruzado: “já temos um portefólio alargado, era mais um vinho, mais rótulos, mais caixas e achamos que, em espumante, o facto de ser pé-franco é um factor diferenciador”. Estamos em crer que é uma questão de tempo até porque, diz o arquitecto, “a filoxera não anda por aqui, ainda que a produtividade da vinha de pé-franco seja baixa”.
O primeiro branco só surgiu em 2009 e o “teimoso” Encruzado em 2010. A filha Mafalda também teve os mesmos receios quanto ao branco. “Inicialmente fui contra, porque tive medo que o branco acabasse por ser um tiro no pé, pois não tínhamos uvas nossas que pudéssemos controlar. Só quando plantámos e pudemos estar perto é que avançámos”, seguindo assim a política da casa, ou seja, temos de ter tudo aqui à nossa frente. O que não vemos não nos interessa e, por isso, não plantámos mais vinha”. Por aqui também se percebeu que é fundamental saber escolher o local próprio para cada casta. A Alfrocheiro, por exemplo, “se não estiver boa exposição que a livre da humidade, pode ser um desastre”. A orientação da vinha no sentido norte/sul ajuda ao bom arejamento e saúde dos cachos (o que pudemos constatar in loco.) O produtor é peremptório: no Dão o vinho é sempre excelente ou muito bom; abaixo desse patamar é erro do produtor!
VINHOS QUE DESAFIAM O TEMPO
Visitámos a quinta nas vésperas do início da vindima, ainda sem a natural confusão que ela proporciona. “O mais trabalhoso é o rosé, que não permite qualquer erro. Quer na vindima quer na adega, há que ter uma atenção constante”, diz-nos, e é preciso ter paciência para saber esperar porque, por exemplo, “quer a Touriga Nacional quer a Encruzado, se forem vindimadas demasiado cedo perdem toda a expressão varietal. Por isso não ligamos nenhuma ao alarido que aqui na terra se levanta assim que surgem as primeiras chuvas e desata tudo a vindimar à pressa. Nós procuramos provar as uvas para determinar a vindima. Se chove ou não chove, logo se vê.”
A vinha apresentava, este ano, uma carga normal. Mas em anos muito produtivos faz-se uma primeira monda para rosé. A primeira edição remonta a 1999 e essa colheita foi aqui também objecto de prova, ao almoço, mostrando estar numa forma surpreendente. Nessa refeição provámos vários vinhos de colheitas anteriores e a conclusão é fácil, pois são vinhos que aguentam muito bem a prova do tempo, conservando vigor, estrutura e frescura. A vinha está em produção bio e isso obriga a uma atenção constante, por vezes com pulverizações duas vezes por semana. Mafalda está optimista quanto à resposta que a ciência está a dar no sentido de trazer para o mercado produtos que são amigos do ambiente e que evitam o uso de químicos agressivos para a vinha e para o solo. Mas para isso, relembra, “é preciso estar sempre aqui”.
Na adega procura-se intervir quando necessário mas, recorda Mafalda, “as primeiras fermentações são muito stressantes porque, à conta da limpeza, higienização da adega e da não inoculação de leveduras, essas fermentações demoram muito a arrancar, às vezes quatro a cinco dias. Felizmente não temos tido problemas”. São fermentações em inox e estágios em barrica, essencialmente usada, mas também alguma barrica nova, nomeadamente para a Touriga Nacional.
Também por aqui se contraria tendência, que é também uma moda, de vender os vinhos excessivamente caros. Perdigão não alinha nessa correria aos preços altos: “sou contra os vinhos muito caros, porque o vinho não deve ser um produto de luxo. As pessoas têm de procurar perceber e poder usufruir de um vinho. Somos vignerons, só vendemos o que produzimos das nossas uvas e temos sido amplamente reconhecidos pela qualidade dos nossos vinhos”. Assim deveria ser sempre, dizemos nós.
(Artigo publicado na edição de Outubro de 2024)
Beira Interior distinguiu os melhores vinhos

São já conhecidos os vinhos premiados no concurso “Escolha da Imprensa” integrado na feira Vinhos & Sabores da Beira Interior que decorreu em Pinhel de 15 A 17 de Novembro, certame organizado pelo Município de Pinhel e pela CVR da Beira Interior. Este concurso, que contou com a colaboração da Grandes Escolhas, foi aberto a […]
São já conhecidos os vinhos premiados no concurso “Escolha da Imprensa” integrado na feira Vinhos & Sabores da Beira Interior que decorreu em Pinhel de 15 A 17 de Novembro, certame organizado pelo Município de Pinhel e pela CVR da Beira Interior.
Este concurso, que contou com a colaboração da Grandes Escolhas, foi aberto a vinhos brancos, rosados, tintos e espumantes de produtores presentes na feira e contou cerca de 60 vinhos inscritos que foram avaliados por um júri de especialistas que incluiu jornalistas, bloggers, sommeliers e restaurantes.
Na hora de revelar os resultados o director do concurso Luis Lopes, enalteceu a grande qualidade média dos vinhos da Beira Interior, assente nas suas castas identitárias, sobretudo a Síria e Fonte Cal para os vinhos brancos e a Rufete para os tintos, o que lhes confere um forte caracter e grande frescura, a que não é alheio a altitude média das suas vinhas.
De acordo com o regulamento, foram distinguidos com o Grande Prémio Escolha da Impresa na categoria Vinhos Brancos o Aforista Beira Interior Reserva 2022, da Agrodaze e na categoria Vinhos Tintos o Beyra Beira Interior Grande Reserva 2021, de Rui Roboredo Madeira Vinhos.
Foram ainda revelados e entregues os respectivos diplomas aos vinhos distinguidos com o Prémio Escolha da Imprensa.
Nos brancos: Souvall Villamayor Beira Interior Grande Reserva 2023, Quinta do Cardo Biológico Beira Interior Síria Grande Reserva 2021, Boa Pergunta Beira Interior Colheita Selecionada 2022, doispontocinco Beira Interior 2020, Quinta Vale do Ruivo Beira Interior 2022, Quinta da Ribeira da Pêga Beira Interior Síria 2022, Quinta da Biaia Biológico Beira Interior Síria Reserva 2020, Castelo Rodrigo Beira Interior Síria 2023 e Ethos Natureza da Serra Terras da Beira 2022. Nos vinhos rosados foi premiado o Bal da Madre Biológico Beira Interior Touriga Nacional 2023. Na categoria Vinhos Tintos, os distinguidos foram: Quinta dos Termos Talhão da Serra Beira Interior Rufete Reserva 2021, Anjo da Guarda Beira Interior Grande Reserva 2021, Beyra Vinhas Velhas Beira Interior 2022,
Entrevinhas Beira Interior Touriga Nacional Reserva 2022, Solares de Pinhel Beira Interior Grande Reserva 2021, Raya Terras da Beira 2018, Raya Terras da Beira 2018, Quinta do Cardo Biológico Beira Interior Superior 2021, e Casas Altas Beira Interior Rufete 2021.
A cerimónia de anuncio dos resultados e entrega dos diplomas decorreu durante o primeiro dia da feira Beira Interior Vinhos & Sabores.
Quinta dos Frades: Os segredos das vinhas velhas

Nunca me canso de percorrer a estrada que segue a margem esquerda do rio Douro entre o Pinhão e a Régua, mesmo nesta época do ano, a da vindima, em que há muito mais veículos na estrada e gente por terras do Douro. É difícil resistir a não parar para mais uma foto a uma […]
Nunca me canso de percorrer a estrada que segue a margem esquerda do rio Douro entre o Pinhão e a Régua, mesmo nesta época do ano, a da vindima, em que há muito mais veículos na estrada e gente por terras do Douro. É difícil resistir a não parar para mais uma foto a uma paisagem única que muda com as estações do ano, ainda por cima agora que há mais pessoas nas vinhas a fazer o seu maneio, e a colher as uvas porque estão no ponto certo de maturação e é preciso levá-las à adega.
A certo ponto da estrada, na margem esquerda, é difícil não notar a Quinta dos Frades. Pela sua extensão, pelo seu edificado histórico, sempre bem pintado e de ar sólido, e pelas suas vinhas, que acompanham as curvas do rio e da serra, aqui e ali entremeadas com jardins, pomares, hortas e áreas de bosque. As suas origens parecem remontar ao século 13, depois de as terras terem sido doadas aos monges do Mosteiro de Santa Maria de Salzedas. Depois de séculos de gestão monástica, a propriedade foi arrematada em hasta pública por Jerónimo Souza, 1º Barão de Folgosa, permanecendo na sua família durante mais um século até ser por Delfim Ferreira, um dos investidores e industriais mais importantes da economia portuguesa do século passado, que detinha, entre outras, a Companhia Hidroelétrica do Norte de Portugal, empresa que fornecia electricidade aos distritos de Braga, Bragança, Vila Real e Viseu. Foi, depois, encetado um processo de reabilitação e modernização das infraestruturas de produção e lazer da Quinta dos Frades.
Mas a propriedade era, sobretudo, uma quinta de fim de semana, onde os bisavós de Aquiles Ferreira do Brito, 53 anos, administrador delegado da Predial Ferreira & Filhos, empresa proprietária das Quintas dos Frades, em Folgosa, e do Castelo, em Santa Marta de Penaguião, vinham de tempos em tempos. “Naquela altura não se olhava muito para as despesas de manutenção”, diz o responsável, acrescentando que o início do segundo milénio e a estagnação do benefício, “que era aquilo que apoiava muito a agricultura no Douro, e com os custos a subir, entendeu-se que a empresa devia investir na criação de uma marca de vinhos de mesa”. Isso aconteceu quando foi convidado, por outro membro desta empresa familiar, para gerir a empresa e encetar esse novo caminho. A primeira colheita comercializada foi a de 2011, e todo o processo iniciado naquela altura contribuiu para colocar a empresa e a suas marcas no radar do mercado.
Os primeiros vinhos
Os primeiros vinhos foram produzidos com o apoio dos enólogos Anselmo Mendes e João Silva e Sousa e, mais tarde, apenas com o primeiro. Depois foi preciso começar a vendê-los e Aquiles de Brito entrou, no mercado, “inicialmente com o apoio de alguns distribuidores regionais, fazendo algumas provas e apresentações, procurando destacar que os nossos eram vinhos de valor acrescentado e não para vender em volume”, conta, acrescentando que as marcas foram surgindo, depois, no portefólio da Quinta dos Frades à medida que se iam conhecendo as vinhas e as características das suas parcelas. Algumas foram dando origem às referências que existem actualmente. Mas o processo aconteceu sem uma metodologia sustentada para a sua criação e construção. Por isso, marcas da empresa como a Vinha dos Deuses ou Vinha dos Santos não têm hoje nenhuma explicação ou ligação à casa, que permita, a quem compra os vinhos, fazer essa associação, revela Aquiles de Brito, salientando que está agora a desenvolver, com a sua equipa e o apoio de uma empresa especializada, um projecto de mudança de imagem. “Estamos agora a realizar um trabalho de marketing, imagem e comunicação que contribua para evidenciar a Quinta dos Frades como produtora dos seus vinhos, que não existia até agora”, explica.
Segundo Liliana Mendes, 43 anos, designer gráfica na Quinta dos Frades desde 2021, a ideia de mudar a imagem da quinta e das suas marcas de vinho teve, como objectivo, “criar uma unidade entre elas através da ligação de cada uma à quinta”. Assim, e quando o processo estiver concluído, em cada uma das referências de vinhos da empresa será evidenciada a marca umbrela, Quinta de Frades, em relação a cada uma das outras. Com esta integração, clientes e consumidores passarão a saber que todos os vinhos são produzidos pela Quinta dos Frades, o que não acontecia até agora. Como é evidente, o objectivo é promover e solidificar a imagem da empresa no mercado como produtora de vinhos do Douro e do Porto, para que possa continuar a crescer num mercado onde isso não é fácil para um produto como o vinho.
“Mas nós temos a vantagem de possuirmos uma história já longa por detrás e de termos construído, durante os últimos anos, uma identidade no mercado, lançando vinhos todos os anos, ou seja, estando presentes, o que tem contribuído para que os nossos já sejam conhecidos”. Hoje são colocados no mercado nacional pela Direct Wine, empresa do grupo Fladgate Parternship, principalmente para a restauração. Para além disso, só estão nos supermercados Apolónia, no Algarve, no El Corte Inglès, no E.Leclerc de Lamego, “uma referência onde toda a gente do Douro está, e mais um outro supermercado que me pede, pontualmente”, diz Aquiles de Brito, defendendo que não quer trabalhar com a grande distribuição. Para este responsável, ainda há muito muito trabalho a fazer em Portugal, o principal mercado da empresa, para cimentar a marca.
Quanto à exportação, que decorre apenas para o Brasil e pontualmente para outros mercados, “vai certamente lugar a isso, mas só depois de estar devidamente estruturado e cimentado no mercado nacional”, explica. Adepto de apostar na qualidade, na história por detrás da empresa e das suas marcas, para continuar a trilhar “um caminho que tem sido difícil, moroso, lento, com algum sucesso”, salienta “há que continuar a trabalhar e comunicar aquilo que fazemos bem e as nossas diferenças”.
Mais de 30 castas
A empresa tem, hoje, nas duas propriedades que a compõem, cerca de 240 hectares, dos quais 110 de vinha. Na Quinta dos Frades “há mais de 30 castas, de uma vinha onde as variedades predominantes são a Tinta Amarela, a Touriga Franca e, agora, a Touriga Nacional após a reconversão mais recente”, conta Diogo Lopes, 46 anos, enólogo da Quinta dos Frades, que tem um total de 75 ha de vinha. Uma parte significativa, de cerca de 20 hectares, é vinha velha. “A nossa é, na verdade, muito velha, pois uma parte significativa tem mais de 100 anos, o que faz dela a nossa jóia da coroa”, salienta.
Há mais 35 hectares na Quinta do Castelo, em Santa Marta, no Baixo Corgo, que estão a ser restruturados, porque a empresa quer apostar mais na produção de vinhos a partir de castas brancas. “Queremos puxar muito pela identidade dos tintos do Cima Corgo, na Quinta dos Frades e, na Quinta do Castelo, queremos apostar na frescura, nas castas brancas, no potencial que existe por explorar nos brancos do Baixo Corgo e duriense como um todo”, explica Diogo Lopes. Por isso, está a ser feita a reconversão de muitas variedades tintas para brancas, e “a multiplicação das castas mais enraizadas no Baixo Corgo, como a Códega do Larinho, o Avesso e o Arinto”. Para Diogo Lopes, “há espaço para fazer brancos com muito mais caracter, e é isso que queremos fazer”.
Vinha velha e muito velha
Trabalhar com vinha velha no Douro é sempre um grande desafio, e um trabalho pesado por ser manual, que obriga a um maior controlo e mais atenção durante o ciclo vegetativo das plantas, numa época em que há cada vez mais fenómenos extremos durante o verão, com picos de calor e outros fenómenos associados ao escaldão. “Temos tentado minimizá-los através de uma gestão mais equilibrada da forma como controlamos a vegetação, para protegermos os cachos dos fenómenos extremos, que têm sido cada vez mais constantes nos últimos anos e serão mais permanentes no futuro”, diz o enólogo, acrescentando que ainda há um longo trabalho a fazer, ao nível da viticultura, para conhecer e diferenciar todas as suas parcelas de vinha. A sua área extensa e as suas muitas exposições podem constituir uma mais-valia para o trabalho a realizar na adega, com uvas com características diferenciadas conforme as suas origens a poderem contribuir, após o estudo dos vinhos que originam, para originar vinhos diferenciados. O futuro o dirá.
Diogo Lopes conta que entrou na Quinta dos Frades há um ano, cheio de ideias. “Já apresentei um plano de trabalho ao Aquiles de Brito, que contém tudo aquilo que acredito que podemos fazer em conjunto nos próximos anos. Isso implica estudar tudo, ou seja, conhecer a Quinta dos Frades em todos os seus ambientes e recantos, porque acredito que ainda não se explorou todo o seu potencial”, conta. “É esse trabalho que a quinta merece”, afirma. Estudar para conhecer e individualizar as suas parcelas “irá também contribuir para podermos fazer a nossa própria multiplicação vegetal com o material genético que aqui existe, que é a nossa grande mais valia” explica.
Diogo Lopes acredita que, na Quinta dos Frades, há potencial, não só para produzir um vinho de Vinhas Velhas, mas também das suas parcelas mais especiais. Também pensa em apostar em alguns vinhos varietais, sobretudo das castas que se destacam mais na Quinta de Frades, como a Tinta Amarela, a que mais destaca na propriedade, “também por ser e espinha dorsal dos nossos vinhos, porque consegue manter uma acidez muito boa e resistir, melhor que outras, ao efeito do calor”. É ela que dá um caracter mais vegetal aos vinhos da quinta, enquanto o toque de lápis acabado de afiar é mais um carácter da vinha velha, como foi demonstrado na prova que fiz. “E queremos fazer vinhos do Douro, do cima Corgo, com este perfil puro e clássico, que identifica os vinhos da quinta”, diz ainda Diogo Lopes.
(Artigo publicado na edição de Outubro de 2024)
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Quinta dos Frades
Fortificado/ Licoroso - 2017 -

Comendador Delfim Ferreira Grande Reserva
Tinto - 2015 -

Dona Silvia
Tinto - 2017 -

Quinta dos Frades
Tinto - 2016 -

Vinha dos Deuses
Tinto - 2019 -

Vinha dos Santos Colheita
Tinto - 2020 -

Vinha dos Deuses
Rosé - 2023 -

Dona Silvia
Branco - 2020 -

Vinha dos Santos Colheita
Branco - 2022
Tiago Cabaço Winery: Alentejo de primeira grandeza

O epíteto de “Cidade Branca” deve-se, para além da cor do casario, às jazidas de mármore branco, o célebre “Mármore de Estremoz”, que tornou a cidade conhecida a nível internacional. Não podia, pois, ser de outra cor que não branca, a adega curvilínea de Tiago Cabaço, mesmo à entrada de Estremoz, para quem vem pela […]
O epíteto de “Cidade Branca” deve-se, para além da cor do casario, às jazidas de mármore branco, o célebre “Mármore de Estremoz”, que tornou a cidade conhecida a nível internacional. Não podia, pois, ser de outra cor que não branca, a adega curvilínea de Tiago Cabaço, mesmo à entrada de Estremoz, para quem vem pela EN 4, ladeada por uma vinha de Alicante Bouschet, a casta favorita do produtor e referência obrigatória do Alentejo. Sensibilidade estética e integração paisagística são o mote.
“Há pessoas que transformam o Sol numa simples mancha amarela. Mas há aquelas que fazem de uma simples mancha amarela o próprio sol”, disse um dia Picasso.
A história familiar de Tiago Cabaço é conhecida. Nascido e criado em Estremoz, no coração do Alentejo vinhateiro, desde muito cedo se habituou a partilhar o campo e a trabalhar nas vinhas e na adega com os pais, aprendendo com os mais velhos os pequenos e grandes segredos da vinha, as manias e os truques, as castas e os melhores solos e climas para cada uma delas. Enfim, cedo se habituou a tratar a vinha por tu, e cedo também quis começar a fazer o seu próprio sol.
Tudo começou há 20 anos. Em 2004 criou a marca Tiago Cabaço Winery, foi adquirindo terras e vinhas, que totalizam 123 ha actualmente, construiu a sua adega própria, por si pensada, desenhada e delineada, cresceu de 40000 garrafas para 1400000, e tem uma equipa de cerca de 50 funcionários. Entre pessoal de campo, administrativo, contabilidade, marketing e publicidade, tudo é feito dentro de casa.
Pelo caminho tem obtido respeito e atenção por parte do sector, somando diversos prémios e distinções nacionais e internacionais.
A família de vinhos, sedutores e sérios, modernos no estilo e na forma, mas profundamente alentejanos no carácter, divide-se entre os “.com” de perfil enérgico e jovial, os monovarietais sérios e poderosos, os “Vinhas Velhas” que conjugam a excelência do terroir e as vinhas com mais de 30 anos, o espumante, pensado para momentos especiais, e os “Blog”, simultaneamente vigorosos, subtis e frescos que, juntamente com o “Gerações M”, se reclamam como topos de gama dos vinhos de Tiago Cabaço, e, porque não, do próprio Alentejo.
Há, no entanto, um prémio que Tiago Cabaço mantém bem vivo na sua memória: o “Best in Show” do ano de 2017, com o seu vinho Blog 13 Rótulo Castanho, da revista internacional Decanter, nos seus World Wine Awards, concurso cujo júri é maioritariamente composto por Masters of Wine. Foi a primeira vez que um vinho português alcançou tal feito, e apenas um outro lhe seguiu as pisadas até aos dias de hoje. Impressionante, certo?
Susana Esteban abraçou o projecto Tiago Cabaço como enóloga consultora desde 2007, ano da sua primeira vindima, tendo logo participado na elaboração dos lotes dos vinhos de 2006, ano em que saiu da Quinta do Crasto. “Tem sido um processo de aprendizagem mútuo”, refere Tiago, e assim se tem mantido esta parceria de sucesso até aos dias de hoje.
Um ano de castas
Quem hoje se desloca a Estremoz depara-se com uma enorme extensão de vinhedos, vinhas modernas, bem implantadas e que dão sentido à frase “um mar de vinhas”. Todavia, o potencial da zona para a produção vitícola e a consequente presença de muitas vinhas em Estremoz não é coisa recente. A verdade é que, desde o séc. XIX que são muitas as referências a Estremoz como zona vitícola, onde as vinhas conviviam com oliveiras, num mesmo terreno e numa disposição bem pensada e melhor executada. A presença destas duas culturas juntas é prática antiga, sendo hoje apenas autorizada para vinhas velhas.
A zona de Estremoz beneficia de um micro-clima muito próprio que, em muito, ajuda à produção das uvas. Mesmo no Verão, apesar do intenso calor que se faz sentir, as noites são frescas, há uma grande amplitude térmica dia/noite e isso é excelente para a maturação das uvas. Ao clima acresce a riqueza geológica onde estão plantadas as vinhas de Tiago Cabaço, com muita diversidade de perfis de solo, por vezes à distância de escassos metros, muito quartzo, que contribui para uma mineralidade muito característica, xisto inteiro, negro, barros vermelhos e franco-argilosos.
Fomos recebidos em pleno arranque da vindima de 2024, tudo ainda bastante tranquilo, já com os brancos a entrarem aos poucos. Mas já se sentia no ar aquela electricidade, antecipação e ansiedade próprias desta altura do ano para todos os produtores de vinho.
“Vai ser um ano de castas, ao invés do anterior, em que todas as castas foram boas” refere Tiago Cabaço, explicitando depois: “Vai ser ano de Alicante, Syrah, Tinta Miúda e não vai ser ano de Aragonez. Este ano faz-me lembrar o 2002. A Primavera foi muito boa, com alguma chuva, o que é óptimo para vinhas de sequeiro. Foi fresco até Maio, com temperaturas amenas, alguns escaldões em finais de Junho porque a planta não teve tempo de se adaptar gradualmente à chegada do calor. É um ano heterogéneo, com as uvas nos cachos com diferentes graus de acidez, mas a globalidade da parcela trará o equilíbrio final. Talvez os vinhos não estejam tão prontos de início, mas vão certamente compensar em longevidade.”
Entretanto o almoço esperava-nos, num dos restaurantes emblemáticos de Estremoz, “O Alecrim”, só brancos, porque os tintos “castigam mais” e ainda temos muito que provar no resto do dia.
Curioso como os hábitos de consumo vão mudando com a qualidade cada vez maior dos brancos portugueses. De Norte a Sul do País, o seu consumo veio, sem dúvida, para ficar! Destaque para o Verdelho 2023, da casta madeirense, fresco, estruturado e com alguma complexidade, com um final de boca vibrante e persistente, um caso muito sério à mesa. Boa prova do Vinhas Velhas branco 2016, demonstrando o bom potencial de envelhecimento deste vinho, inserido num segmento de preço médio (€12,99). Belíssimo desempenho, a emparelhar com umas suculentas costelinhas de borrego panadas, dos dois blog Special Edition Arinto 2021 e Arinto/Encruzado 2022, dois brancos de curtimenta parcial provenientes de três barricas e de parcelas identificadas. Mas a(s) Píèce de Résistance estavam programadas para o final de tarde e manhã do dia seguinte, uma Vertical de blog Rótulo Preto, de 2011 a 2021, e outra de blog Rótulo Castanho, um bi-varietal de Alicante Bouschet e Syrah.
Duas verticais inesquecíveis
O blog Rótulo Preto é um vinho de terroir, feito na vinha e escolhido entre as melhores parcelas de baixa produção; é um blend de Alicante Bouschet, Syrah com uma percentagem de Touriga-Nacional, que passa 18 meses em Carvalho Francês, metade novo, metade de segundo ano. Depois de todos os vinhos decantados, como mereciam, começámos pelo mais recente. O 2021 ainda não saiu para o mercado, continuando a afinar em garrafa em cave, muito jovem mas com muito boa prova desde já, com imenso brilho e potencial, fruta de enorme precisão, taninos de luxo e perfeita acidez. Promete imenso.
O blog 2020 evidenciou aromas agradáveis de cerejas vermelhas, groselhas e ameixas, suave e intenso em boca, profundamente mineral, elegante e fresco (18); o 2019 está ligeiramente fechado e austero no palato, mas com taninos muito bem domados, aromas de fruta silvestre e sabores de chocolate negro e pimenta preta (17,5); o 2018 revelou-se muito pronto a beber, com boa prova de boca, e taninos e acidez no ponto certos (17,5); 2017 foi um ano quente mas o vinho não se ressentiu disso, com bela complexidade aromática e boa densidade e presença em boca (17,5); o 2016 revelou-se atractivo, directo e harmonioso com leves notas mentoladas no final (17,5); 2015 estava mais fechado e austero da prova, deixando no entanto antever uma longa vida em garrafa tal a classe de taninos e acidez perfeita (18); em 2014 não existiu blog; o 2013 tem “qualquer coisa” de especial, enorme prova com tremenda pujança aromática, notável juventude, fruta de primeira qualidade, taninos poderosos mas envolvidos em veludo, frescura, tensão e mineralidade, soberbo (18,5); 2012 foi talvez o menos impactante, não deixando todavia de revelar bom equilíbrio de boca, num registo elegante e fresco (17); dizer que 2011 foi grande ano já parece lugar comum, mas a verdade é que é incontornável e este blog demonstrou isso mesmo, num registo muito sério, com alma, tensão e grande frescura, com muito para durar ainda em garrafa, enorme (18,5)!
Por seu lado o blog Rótulo Castanho é um vinho bi-varietal de Alicante Bouschet e Syrah, também um vinho de terroir, feito na vinha e escolhido das melhores parcelas de baixa produção, com 18 meses de estágio em barricas novas de carvalho francês para 50% lote e o restante em barricas de segundo ano.
Foram provadas oito colheitas, começando também por ordem crescente de idade, o 2021 exibiu-se tenso e fechado, mas muito focado na fruta de primeiríssima qualidade, complexo e elegante e com grande potencial de guarda (18,5); 2019 também se revelou muito jovem, primário, mas sedoso e aveludado na textura, estruturado, vigoroso mas não agressivo, com notas terrosas e de chocolate negro no final (18,5); o 2017 exibiu-se em grande nível, ano quente, fruta madura mas com acidez viva e equilibrada prolongando o final distinto e requintado (18,5); 2016 deu boa prova de boca, com bom balanço, provavelmente já num bom momento de prova mas com muita vida pela frente (18); o 2015 revelou-se muito contido no nariz, e algo austero também em boca, mas sempre denotando imensa classe, taninos maduros e sedosos, acidez perfeita e enorme elegância (18), chegados ao 2013, o tal “Best in Show”, a verdade é que não deu hipótese, um portento de vinho, confirmando que, de facto, tem algo especial, um verdadeiro luxo para os sentidos (19); o 2012 revelou um bom equilíbrio, num registo elegante e fresco, com taninos polidos e muito boa acidez (18), finalmente, o 2011 apresentou-se cheio de carácter, muita saúde, belíssima harmonia entre barrica, fruta e acidez, taninos de luxo e final interminável (18,5).
“Corre o tempo velozmente
Como a água da corrente
Nós também da mesma sorte
Correndo vamos à morte”
Esta é a inscrição que pode ler-se sob o plinto onde assenta a estátua do “Gadanha” de Estremoz. Representando, primitivamente, o deus Saturno, símbolo da fartura e da abundância, passou a ser conhecido como o é hoje, “Gadanha”, assim baptizado pelas gentes de Estremoz em virtude da enorme foice que segura numa das mãos. Na outra, uma ampulheta simbolizando a celeridade do Tempo e a fugacidade da vida, não deixando de ser irónico que, ao representar a fugacidade do Tempo, tenha acabado por se tornar eterno, permanecendo na memória colectiva da cidade.
Não sei se os vinhos de Tiago Cabaço serão eternos. Provavelmente não. Mas que recebem a passagem do tempo com suprema elegância e carácter, disso não tenhamos dúvida alguma.
Reza ainda a lenda que quem beber a água da fonte do “Gadanha” fica irremediavelmente preso ao sortilégio do encantamento enfeitiçado de Estremoz e das suas gentes. Pois devo confessar que não bebi água da fonte, mas que Estremoz e as suas gentes têm algo de especial, disso fiquei com a certeza!
(Artigo publicado na edição de Outubro de 2024)
Global Wines recebe Referencial Nacional de Sustentabilidade

O grupo vitivinícola Global Wines acaba de receber o Referencial Nacional de Certificação de Sustentabilidade do Sector Vitivinícola. “Esta certificação vem consolidar o caminho de sustentabilidade que temos seguido e o foco nas preocupações ambientais que temos vindo a trabalhar na Global Wines, há já longos meses.“, refere Manuel Pinheiro, CEO da empresa. A auditoria […]
O grupo vitivinícola Global Wines acaba de receber o Referencial Nacional de Certificação de Sustentabilidade do Sector Vitivinícola. “Esta certificação vem consolidar o caminho de sustentabilidade que temos seguido e o foco nas preocupações ambientais que temos vindo a trabalhar na Global Wines, há já longos meses.“, refere Manuel Pinheiro, CEO da empresa.
A auditoria externa realizada, que reconhece as práticas e uma cultura organizacional assente na sustentabilidade, foi feita, de forma independente, em cinco unidades do grupo: Global Wines e Sociedade Agrícola de Santar, que detém a emblemática Casa de Santar e o Paço de Santar, ambas sediadas no Dão; Quinta do Encontro, na Bairrada e Herdade Monte da Cal, no Alentejo. Esta certificação nacional demonstra que todas cumprem os requisitos legais relacionados com os domínios da sustentabilidade, gestão e melhoria contínua, e contribuem ativamente para o bem-estar social, económico e ambiental das comunidades envolventes e das diferentes regiões onde atuam.
O Referencial Nacional, criado pelo Instituto da Vinha e do Vinho (IVV) e promovido pela ViniPortugal, em território nacional, abrange, no caso da Global Wines, a produção total de 235 hectares de vinha (165 ha no Dão, 67 ha no Alentejo e 3 ha na Bairrada).
O novo selo de sustentabilidade irá ser adotado nas rotulagens das marcas Casa de Santar, Paço dos Cunhas de Santar, Cabriz, Quinta do Encontro e Herdade Monte da Cal, garantindo, ao consumidor, que estão implementadas práticas sustentáveis em todas estas organizações e marcas do universo Global Wines.
Tintos de Lisboa: Diversidade para explorar

Os meus leitores (#zerofollowers?) e o director hão-de perdoar-me que, no texto, explique mais as emoções de organizar e realizar esta prova do que realmente mergulhar nela com a devida assepsia competente esperada de um crítico de vinhos. Pois, adivinhem, somos também pessoas, e temos história. Só que essa história inclui muitos vinhos e uma […]
Os meus leitores (#zerofollowers?) e o director hão-de perdoar-me que, no texto, explique mais as emoções de organizar e realizar esta prova do que realmente mergulhar nela com a devida assepsia competente esperada de um crítico de vinhos. Pois, adivinhem, somos também pessoas, e temos história. Só que essa história inclui muitos vinhos e uma tentativa árdua e longa de décadas de ter uma abordagem sistematizada à sua prova e – ocasionalmente – ao seu consumo. Brinco, como faço sempre quando quero falar de coisas sérias.
Esta prova organizada na silly season criou em mim altas expectativas. Pois se acho que Lisboa – a região – está a fazer uma das viticulturas e enologias mais excitantes do país, tudo está a acontecer, em particular coisas de que gosto: viticultura tradicional, carinho pelas vinhas velhas, gente nova que escuta os velhos, ressuscitar de antigas castas, estudar de técnicas tradicionais, vinificar com intervenção mínima, explorar terroirs com frescura marítima, tudo sem esquecer o que as modernas enologia e viticultura nos ensinaram. Os vinhos chegaram e eu avancei para eles sem preconceitos. Também era melhor!… Ou bem… já vos conto…
Tudo no frigorífico, temperaturas correctas, nem eram muitos, só 18, uma manhã de trabalho empenhado e sisudo, com prémio de provar estes belíssimos topos de gama, onde eu, confesso, esperava variedade, excitação, ousadia. Esperava descobrir coisas novas que eu quisesse trazer para a minha mesa. Já há muito lá vai o tempo em que eu conhecia todos os vinhos do país. A indústria cresceu e agora navego como todos nós pelas águas que consigo navegar. Mas ainda trago a memória que me permite cartografar uma região. E por isso sei que esta prova foi inquinada por um certo topo-de-gamismo que a conduziu para um tipo de vinhos que afunilam num estilo, quando eu esperava a explosão da variedade.
Não me interpretem mal. Tudo o que provei estava em excelente nível, como as notas bem demonstram. Mas eu talvez esperasse notas menos altas e vinhos mais diversificados. Todos sabemos, todos, que nem tudo na vida são notas. Vi muitos vinhos concentrados, alcoólicos e cheios de vigor, quando eu esperava que um ou outro me quisesse dar a outra face, tipo “olha, é isto que agora a malta aqui gosta e bebe.” Por isso, “ao ver-te, Lisboa, Lisboa, perder o bairro da Madragôa” (como na já trintona canção dos Polo Norte) não deixo de pensar – e aqui explicitamente fazer a afirmação – que Lisboa – a região – não pode perder essa liderança que recentemente ganhou de explorar a diversidade, definir rumos de futuro, não reafirmar incessantemente o brilhante passado.
Quando digo Lisboa – a região – é por razões pessoais também. Sou das Cortes, ao pé de Leiria, onde sempre se fez vinho e mauzote, mas tínhamos a nossa DO Encostas de Aire, aliás bem extensa. Muito caiu o meu queixo há anos quando descobri que a minha aldeia natal era agora IGP Lisboa. Lisboa, tão longe, a minha cidade adoptiva quando fugi da Leiria-sem-universidade, num tempo já há muito ido. Então Lisboa a região, antiga Estremadura, de onde Leiria nem era, era Beira Litoral. Ai Salazar, que ainda todos nos lembramos dos mapas na escola primária.
Syrah, Alfrocheiro, Tannat, Touriga…
Lisboa definiu-se nos últimos 30 anos. Vejam, foi também há 30 anos que José Bento dos Santos plantou Syrah perto da Ventosa, Alenquer, e começou o seu projecto Quinta do Monte D’Oiro, que hoje oferece um dos vencedores desta prova. Um Syrah com Viognier tremendo de complexidade, precisão na maturação, definição. Falei com o filho Francisco, hoje na liderança da quinta. Francisco explicou-me que a aposta na Syrah, vanguardista na altura (plantações de 1992) vinha das convicções, provas e estudo com técnicos de Hermitage, de onde vieram as varas e o saber. A aposta revelou-se correcta, e hoje há Syrah no país todo, mas poucos têm o refinamento e a perfeição de maturação desta quinta, onde com os anos e a estabilidade da equipa aprenderam a explorar as suas virtudes, escolher as parcelas e acertar os lotes que melhor se mostram em cada ano. Até 2000 tudo vinha da Vinha da Nora. Depois de 2000 passou a vir de várias parcelas, o terroir da Ventosa, a 20km do mar, com a frescura marítima a ajudar. Tudo separado por casta e por parcela.
Francisco não mede as palavras: “Hoje sabemos o que é grand cru, premier cru e village.” Eu sei que ele sabe do que fala. Para o Reserva só usam “Grand Cru”, mas a proporção entre parcelas é diferente em função do ano de colheita, e da opinião dos provadores. Há vários talhões de Viognier e deixam meia dúzia de carreiras que são vindimadas quase em passa para co-fermentar com a Syrah. Vindimado quase um mês mais tarde do que o vinho branco, tem de se garantir que se aguenta sem apodrecer. A idade média da vinha é agora de 25 anos, a equipa já a conhece bem, e 2021 foi um grande ano. Todos os pormenores contam, a produção em modo biológico há 20 anos também faz diferença. De costume, o Reserva não afunila numa parcela só, tem quatro ou cinco parcelas, mas 2021 teve apenas três parcelas, o que não é usual, e maioria de uma delas, 60% da Vinha da Nora, que tem já 30 anos, 20% da Parcela 9, 20% da parcela 24, da seleção massal. As barricas (40% novas) vêm de várias tanoarias, e diferentes origens da madeira e introduzem ainda mais complexidade. Se tudo isto parece a conversa usual de quem quer vender um terroir, desenganem-se. Este senhor quer é vender vinho, e convido-os a comprar e provar este 2021, que mostra um nível de Syrah que em Portugal raras vezes consegui ver.
Já vos abro o meu coração sobre o outro vencedor da prova, Ganita 2015. Tudo me convocava para não gostar deste vinho. Preço muito alto, imagem impecavelmente cuidada (eu sei, sou um rebelde!), incluindo garrafa cara estilo base de abat-jour e alguma lamechice de “homenagem” que incluía rótulos e cintas obviamente manipulados à mão, seria impossível não o serem, com atilhos e reentrâncias. Ainda por cima chegou por último e para estar à temperatura tinha de ficar para último da prova. Décimo-oitavo-vinho e já eu grunhia de fome e rabujava de exaustão. Depois cheirei o vinho. Depois levei à boca. Depois senti a sua textura, patine. Rendi-me. Que diabo de coisa, os factos não nos darem razão. Combinação improvável, direi mesmo impossível, porque telefonei ao seu arquitecto António Ventura, que me disse que a Alfrocheiro teve problemas na vinha e foi arrancada.
Aqui, as castas Tannat, Alfrocheiro e Touriga Nacional foram fermentadas separadamente em spin-barrel de 500 litros e depois estagiaram em barricas de 300 litros de diferentes origens, todas topo de gama. Tudo a convidar a um incrível topo de gama. Luís Vieira, da Quinta do Gradil, é o criador desta homenagem ao seu avô António Gomes Vieira, dito Ganita, e foi lançado em 2019, nos 100 anos do seu nascimento. O Ganita iria rebentar de orgulho deste vinho, que é sensacional. Correu-me que seria edição única, mas já soube que talvez em outra data histórica possa ser lançado outra vez, mesmo que sem o defunto Alfrocheiro. Alfrocheiro, Touriga Nacional e Tannat, vejam lá coisa mais improvável. Só na Lisboa, Lisboa. Vale mesmo a pena “não perder o bairro da Madragôa”…
(Artigo publicado na edição de Outubro de 2024)
O Tannat do Gradil

E assim, para celebração de um quarto de século de gestão de Luís Vieira, bem como do seu interesse em castas diferentes, exóticas, pouco trabalhadas e exploradas, aliado ao seu compromisso com a qualidade e a diferenciação, nos reunimos no passado no fantástico Restaurante Federico, no Palácio Ludovice Wine Experience Hotel, para uma degustação das […]
E assim, para celebração de um quarto de século de gestão de Luís Vieira, bem como do seu interesse em castas diferentes, exóticas, pouco trabalhadas e exploradas, aliado ao seu compromisso com a qualidade e a diferenciação, nos reunimos no passado no fantástico Restaurante Federico, no Palácio Ludovice Wine Experience Hotel, para uma degustação das melhores Colheitas de Tannat, incluindo a inicial, de 2009, até uma amostra da próxima colheita a sair para o mercado, do ano 2022.
As mais antigas referências à Quinta do Gradil remontam ao Século XV, mais precisamente a 14 de fevereiro de 1492. Mais de cinco anos antes de Vasco da Gama partir para a Índia (!), um Documento Régio de D. João II registava a doação da jurisdição e rendas do Concelho do Cadaval e da Quinta do Gradil a D. Martinho de Noronha. A propriedade esteve depois nas mãos da Casa de Bragança, sendo um importante couto de caça da realeza, nunca tendo, no entanto, aquelas terras deixado de produzir uva e vinho.
O Século XIX seria marcado por D. Maria do Carmo Romeiro da Fonseca, que herdou a Quinta da Gradil de seu pai, construiu o imponente palácio amarelo e transformou a propriedade numa exploração agrícola, onde o vinho teria o papel principal. Curiosamente, a sua filha acabaria por casar com o futuro Marquês de Pombal, descendente do mesmo Sebastião José de Carvalho e Melo que, um século antes, tinha tentado arrancar as vinhas do Gradil para favorecer a cultura de cereais e, por outro lado, interesses próprios no Douro, ligando assim a propriedade aos Marqueses de Pombal, a quem pertenceu durante uma parte do Século XX, até ser vendida, em 1963, a uma sociedade liderada por Isidoro Maria d’Oliveira, lavrador, homem de cultura e poeta. O vinho continuou a ocupar o papel principal na produção e a abastecer o crescente mercado de Lisboa.
O Século XXI é o Século de Luís Vieira, que adquiriu a Quinta em 1999. Com uma herança familiar ligada ao comércio de vinho desde 1945, Luís Vieira aprendeu com o avô, António Gomes Vieira, todos os segredos do negócio. Foi através dele que herdou a paixão pelo vinho que ainda o move até aos dias de hoje. Líder da Parras Wines, um dos maiores Grupos do Sector do Vinho de Portugal, Luís Vieira comprou a Quinta do Gradil com um objetivo claro: torná-la no porta-estandarte do Grupo na região de Lisboa. Para tal, apostou na total reabilitação da vinha com castas nacionais e internacionais, e na produção de vinhos de qualidade e diferenciadores.
Uma referência na casa
O primeiro exemplar de Tannat remonta à vindima de 2009, com lançamento em 2013 e, desde então, tem-se afirmado como um marco na história dos vinhos da Quinta do Gradil. Na primeira colheita (2009) e na seguinte (2014), a casta Tannat surgia em blend com 15% de Touriga Nacional. Desde 2015, este vinho assume-se como monovarietal e um claro espelho do perfil da casta e do carácter atlântico do terroir onde nasce. A variedade Tannat é proveniente de França, mais precisamente de uma região localizada próxima aos Pirenéus, chamada Madiran.
Porém, foi no Uruguai que a variedade ganhou notoriedade, tendo sido introduzida no país por volta de 1870, por um basco pioneiro produtor de uvas chamado Pascual Harriague (nome pela qual a Tannat também passou a ser conhecida naquela origem!). Repousando no Oceano Atlântico entre os Paralelos 30º e 35º, o Uruguai compartilha a mesma latitude com as principais regiões vinícolas do hemisfério sul.
A Tannat foi a casta tinta que melhor se adaptou às condições de solo e clima do Uruguai. É, como já referimos, uma variedade de origem francesa, que acabou por ganhar muita expressão no Uruguai. Esta tipologia de uva dá origem a vinhos taninosos, com carácter, bastante corpo e estrutura, grande intensidade de cor, aromas a frutas escuras, especiarias e chocolate, com óptima concentração. É uma casta exigente em termos de solos e clima, mas que, no terroir da Quinta do Gradil, tem apresentado uma consistência qualitativa e um equilíbrio surpreendentes, como pudemos verificar durante esta prova.
A Quinta do Gradil está situada no concelho do Cadaval, ocupando uma área de 200 hectares, dos quais 120 plantados com vinha. A sua localização privilegiada, entre a serra de Montejunto e o mar, permite tirar partido da influência atlântica, determinante para o equilíbrio ácido e frescura dos vinhos, mas, ao mesmo tempo, usufruir de um bom número de horas de sol, importante para a conveniente maturação das uvas. A argila e o calcário formam a matriz principal dos solos da propriedade, onde encontramos plantadas uma grande diversidade de castas, brancas e tintas. Umas são naturais da região ou estão ali aclimatadas desde há séculos, dando origem a vinhos de vincado carácter regional: é o caso das emblemáticas uvas brancas Arinto e Fernão Pires. Outras, são de presença mais recente no local, mas acabaram por se revelar surpresas muito positivas, pela forma extraordinária como se adaptaram a este terroir. Aconteceu com as castas brancas Viosinho, Alvarinho e Sauvignon Blanc e a tinta Tannat. Por seu lado, as variedades Chardonnay, Syrah, Alicante Bouschet ou Touriga Nacional, por exemplo, são castas que, na Quinta do Gradil, mostram sempre grande consistência qualitativa.
(Artigo publicado na edição de Setembro de 2024)
Caves São João: Serena é a mudança

A inovação e criatividade sempre foram uma forma de estar das Caves São João. As influências do melhor que se fazia lá fora eram trazidas pelos seus fundadores, homens viajados e cosmopolitas. Na segunda metade do século XX, todo o país conhecia e reconhecia as referências “Frei João” e “Porta dos Cavaleiros”, rótulos que encimavam […]
A inovação e criatividade sempre foram uma forma de estar das Caves São João. As influências do melhor que se fazia lá fora eram trazidas pelos seus fundadores, homens viajados e cosmopolitas. Na segunda metade do século XX, todo o país conhecia e reconhecia as referências “Frei João” e “Porta dos Cavaleiros”, rótulos que encimavam todas as mesas da restauração portuguesa. Em 1971, antevendo as mudanças do paradigma de consumo de vinhos e espumantes e o surgimento de consumidores que procuravam maior identidade nos vinhos, é adquirida a Quinta do Poço do Lobo, no concelho de Cantanhede e, a partir dali, nasce a marca homónima, passando as caves a possuir vinhos de Quinta.
Como empresa familiar, a Sociedade dos Irmãos Unidos, designação social da mesma, sofreu os reveses das querelas internas. No final da segunda década deste século entrou num período mais conturbado, acabando, por vicissitudes várias, a ser alienada a quase totalidade do capital social a um conjunto de investidores em 2022. A partir daí, aguardavam-se as mudanças que os novos sócios, da área imobiliária e financeira, iriam imprimir à empresa centenária e que é a mais antiga em atividade na Bairrada. Fernando Sapinho, Enrique Castiblanques, Mário Vigário, Nuno Ramos, Paulo Morgado e Mário Mateus, são empresários em diversos ramos de atividade. O vinho surge-lhes como uma paixão racional de quem olha para as Caves São João como um diamante a lapidar.
No centro destas mudanças, ficou Célia Alves, ela que em tempo de marés violentas e tormentas várias, não largou o leme de uma marca secular e histórica, não permitindo que, em momento algum, ficasse à deriva.
Serenamente, os últimos anos foram de restruturação, dando uma nova luz à empresa que, com os seus fundadores, esteve no passado ligada à criação da região demarcada da Bairrada e à Confraria dos Enófilos da Bairrada, que, curiosamente, teve na sua liderança nos últimos anos Célia Alves, que mantém a gerência das Caves conjuntamente com os ativos sócios Fernando Sapinho e Enrique Castiblanques
No passado dia 24 de Junho, Dia de São João, as Caves São João destaparam o véu da revolução tranquila que têm operado, celebrando o seu 104º aniversário com várias novidades. A maior, e porque o palco escolhido para os festejos foi a Quinta do Poço do Lobo, revelou-se na expansão que aquela propriedade teve com esta nova estrutura societária. Ao longo dos últimos dois anos, entre reconversão de área de floresta em vinha e aquisição de parcelas contíguas, houve um aumento da área de vinha em 10 hectares, que se somam aos 30 já existentes. Com o aumento da produção de espumante no horizonte, nascem ali novas plantações das castas brancas Bical, Arinto e Maria Gomes (Fernão Pires).
Do Poço do Lobo ao Porta dos Cavaleiros
A casa, que mantém o classicismo que sempre a caracterizou, não descura o arrojo e ousadia e, na apresentação dos novos vinhos, mostrou que segue de perto as tendências e, para isso, não deixou de surpreender. O Baga Novo Natcool, um tinto da colheita de 2022, mostra toda a irreverência da casta, num vinho disruptivo mas totalmente assertivo. Nascido de uma parceria com a Niepoort, empresa familiar que possui relações comerciais com a empresa bairradina que remontam a meados do século XX, rompe com estigmas e mostra o quanto a Baga em jovem é capaz de criar vinhos absolutamente emocionantes. Nos espumantes, deu-se a conhecer a nova edição do Quinta do Poço do Lobo, na sua versão rosé, da colheita de 2021 e já com mais de 24 meses de estágio. Aqui reinam, num blend que casa com sucesso, a Baga e o Pinot Noir.
Os Porta dos Cavaleiros, marca criada nos anos 60 do século passado, consagrando a investida da empresa bairradina na região do Dão, surgem agora totalmente renovados, impondo, na rotulagem, um maior sentido histórico e arquitetónico, onde o monumento representativo – Porta dos Cavaleiros, como uma das medievais portas da cidade de Viseu – ganha um maior rigor e sentido iconográfico. Nos vinhos, a tradição mantém-se. As Caves adquirem os melhores lotes de tintos e brancos produzidos no Dão e, à maneira antiga, procedem à sua “afinação”, lançando-os no mercado. As duas propostas apresentadas foram o Porta dos Cavaleiros tinto 2022, e o Porta dos Cavaleiros Reserva Especial branco, este uma categoria rara no Dão, apenas ao alcance dos vinhos que se destacam em enorme qualidade na câmara de provadores.
Crescer, solidificar mercados, impor-se como marca de prestígio, aumentar área de vinha e ser um verdadeiro referencial da Bairrada do futuro. Este é o caminho que as Caves São João tão bem está a trilhar para este segundo século de vida que se segue.
Nota: O autor escreve segundo o novo acordo ortográfico.
(Artigo publicado na edição de Setembro de 2024)
































































