ATAÍDE SEMEDO: A visão de um veterano da Baga

Ataide Semedo

O nascimento de Ataíde Semedo para o sector dos vinhos inicia-se, precisamente, a 1 de Janeiro de 1978. Apreciador das coisas boas da vida errante da juventude e da frequência de um curso de Engenharia Mecânica nos tempos quentes do pós-25 de Abril, Ataíde Semedo vê nas Caves São Domingos, empresa que teve o seu […]

O nascimento de Ataíde Semedo para o sector dos vinhos inicia-se, precisamente, a 1 de Janeiro de 1978. Apreciador das coisas boas da vida errante da juventude e da frequência de um curso de Engenharia Mecânica nos tempos quentes do pós-25 de Abril, Ataíde Semedo vê nas Caves São Domingos, empresa que teve o seu tio-avô como fundador e o seu pai como um dos sócios, um futuro promissor. O pai era industrial metalúrgico e, não obstante ser sócio da empresa bairradina, a ligação ao sector dos vinhos era nula. Ao pai disse que não lhe queria gastar mais o dinheiro num curso superior para o qual não estava fadado e, não querendo despender mais tempo nos bancos da universidade, ruma ao conforto das caves da aldeia de Ferreiros, no concelho de Anadia, que, afortunadamente, estavam paredes meias com a casa de família. Bem melhor opção que ir para a construção civil!

Na faculdade, apenas a cadeira de química o seduzia – observar a magia das reações obtidas a partir das mais diversas combinações. A partir de então, nasce uma vocação, que passa a ser praticada nos laboratórios, apadrinhado pelo enólogo da Caves São Domingos à data, Mário Pato, filho do enólogo homónimo que revolucionou a enologia nacional na primeira metade do século XX.

À data, a Caves São Domingos era liderada por Lopo de Freitas, que defendia a velha prática da Bairrada de comprar vinhos por toda a região, afinando-os na adega, para posterior comercialização. Ataíde Semedo pensava de um modo diametralmente diferente. O mundo já buscava vinhos com outra minúcia e qualidade. Para alcançar isso, mostrava-se necessário controlar o processo desde a vinha à adega, algo que apenas se alcançaria com a aquisição de vinha e um olhar mais presente sobre todas as opções da viticultura. Não tendo logrado convencer a administração da Caves São Domingos de que esse era o caminho correto, Ataíde Semedo ali permanece até 1987, data em que se dá a rutura com a empresa por divergências de estratégia sobre aquilo que entendia ser o futuro da Bairrada enquanto produtora de vinhos absolutamente diferenciadores.

Por conseguinte, em contraciclo com a região, que vivia tempos nebulosos e muitos produtores arrancavam ou abandonavam vinha, Ataíde Semedo entendia que era a melhor altura para investir em vinhas próprias e abandona a empresa.

 

1987, o ano da Rigodeira

A saída de Ataíde Semedo da Caves São Domingos dá-se a 1 de abril de 1987 e o futuro foi gizado nesse mesmo dia. Entregando a carta de demissão pelas nove horas da manhã, em Ferreiros, dirige-se ao Centro de Saúde de Anadia, onde bate à janela do consultório do seu amigo e colega de longa data, Almeida e Silva, médico local, mais conhecido por “Dr. Pardal”, cuja ligação aos vinhos da Bairrada lhe vinha por intermédio da mãe, detentora da “Casa de Saima”, projeto ao qual deu continuidade. Almeida e Silva já há muito que desafiava Ataíde Semedo para um projeto comum e ali, no consultório, fica pré-definido o futuro. Pouco tempo depois, reúnem-se com o reputado médico fogueirense Joaquim Barros, já de idade avançada, propondo-lhe a compra da Quinta da Rigodeira, à época com uma dimensão de seis hectares. A compra faz-se por um preço amigo e com um prazo de pagamento dilatado. Joaquim Barros vê naqueles dois amigos um futuro promissor.

O início é auspicioso. Aquelas vinhas possuem todo o potencial para produzir belos brancos e tintos grandiosos. Logo na primeira colheita, o Quinta da Rigodeira branco ganha o primeiro Prémio do Concurso de Vinhos da Bairrada e o Quinta da Dôna tinto, da colheita de 1991, arrecada distinções em todas as competições nacionais e internacionais, nascendo ali o mito.

O renascimento do Quinta da Dôna

É absolutamente incontornável para a carreira de Ataíde Semedo, e mesmo para a história dos grandes tintos da Bairrada, falar dos Quinta da Dôna. A história, porém, é simples e está conectada com a natureza das coisas. Em 1991, Ataíde Semedo vinifica isoladamente uma parcela da Rigodeira, conhecida como “Quinta da Dôna”. Ao contrário do que é comum nas vinhas velhas da Bairrada, possuindo estas cerca de 70 anos, não há outras castas misturadas com aquela que assume maior preponderância, a Baga. A segunda experimentação da vindima de 1991 é criar dois modelos de tintos distintos: um vinificado com engaço e um segundo vinificado com uva desengaçada. Este último dá origem, após um estágio longo em barricas, ao primeiro e exclusivo Quinta da Dôna.

A designação Quinta da Dôna, escolhida pelos dois parceiros, resulta em várias colheitas memoráveis, entre elas a de 2001, as quais, e à semelhança do distinto Barca Velha, apenas são lançadas para o mercado nos anos em que se atinge o esplendor qualitativo. O projeto Quinta da Rigodeira/Quinta da Dôna termina em 2002, dada a insustentabilidade do mesmo, pela sua dimensão de 23 hectares, excessiva para o modelo de vinhos e espumantes que Ataíde Semedo pretende criar. Nesse ano, ocorre a alienação à Caves Aliança, que fica igualmente detentora das marcas referenciais. Entretanto, há cerca de dois anos, a vinha, de onde eram oriundos os vinhos Quinta da Dôna, é arrancada, presumivelmente por ter atingido o seu tempo máximo de vida com produções de qualidade.

As características daquela vinha eram muito especiais, mas perfeitamente replicáveis para Ataíde Semedo. No renovado projeto em nome próprio, regressa às dimensões originais, com a aquisição da propriedade de Vale de Carros. A marca Quinta da Dôna também lhe regressa às mãos por caducidade do registo da mesma por parte do anterior detentor, mas, para o renascimento das cinzas da marca mítica, havia que apurar as condições naturais que a levassem a resultados semelhantes àqueles que outrora haviam sido alcançados. Nestas coisas de criar qualidade distinta, só o insuperável fator tempo pode trazer a confiança inabalável.

Plantando as vinhas de Vale de Carros em 2001, só em 2018 Ataíde Semedo entende ter alcançado o nível de maturidade das mesmas e da específica parcela de Baga, para poder voltar a, com galhardia, usar a designação Quinta da Dôna a um vinho da sua lavra. Convenhamos, a Baga continua a ser, na Bairrada, uma casta dada a humores muito especiais, alcançando a excelência apenas em anos em que os astros do clima se conluam, para trazer as temperaturas ideais, a pluviosidade no tempo certo e nunca em setembro, e os ventos que afastam as maleitas da vinha e a humidade relativa.

Após a colheita de 2018, a primeira das vinhas novas de Vale de Carros, sucede-se a de 2020, já esgotada, e, depois de um hiato entre 2021 e 2024, torna a surgir a edição de 2025, um ano, a todos os níveis, perfeito, com lançamento previsto para finais de 2027.

Indagado sobre as diferenças entre os clássicos e os atuais Quinta da Dôna, Ataíde Semedo tende a não os diferenciar e explica-nos. A Baga da vinha velha da Quinta da Rigodeira provinha de plantas com produção muito diminuta por natureza. Nas vinhas novas (agora com mais de 20 anos), o produtor mimetiza o comportamento da vinha velha, realizando uma monda muito expressiva – a planta tem, aproximadamente, 15 cachos –, colocando, no chão, uma média de 10 cachos por cepa, deixando apenas cinco. Como uma vinha nova não possui as mesmas reservas de uma vinha velha, a única forma de lhe imitar o comportamento com maior concentração e uma melhor, mais equilibrada e mais precoce maturação, evitando os excessos para não lhe dar um carácter de sobrematuração, preservando-lhe a frescura inerente à sua elevada acidez natural, é, ainda em verde, diminuir-lhe substancialmente a carga. A prática desta monda severa é realizada apenas no melhor talhão de Baga da vinha. Noutros, a monda é muito menos expressiva, permitindo a maturação total de cerca de oito a 10 cachos por videira.

Um Quinta da Dôna, para a roçar a perfeição, tem de ter, em jovem, características em excesso: ácidos, álcool, cor e taninos. E são as reações químicas que se operam no processo de envelhecimento que lhe vão trazer a elegância e a singularidade única de um grande Baga. Uma espécie de pacto de não agressão entre os excessos, para uma paz duradoura e futura.

Há novas tendências de vinhos inteiros, fermentados com engaço, mas cujo perfil não convence Ataíde Semedo. Definitivamente, os taninos libertados pelo engaço nunca são positivos por terem sempre um carácter herbáceo. Um vinho nobre tem de ser desengaçado, a menos que se queira um resultado mais rústico, característica que a Baga já possui em demasia. A sua experiência no Dão, onde colabora com umas das mais reputadas casas da região, mesmo com outras castas tintas, fá-lo não prescindir do desengace. Olha para o engaço como um espinho cravado numa mão. É um elemento estranho e que em nada beneficia, de modo que, o melhor é mesmo extirpá-lo.

Vinha de Vale de Carros

Nas opções e filosofia de Ataíde, nada é fruto do acaso, tal como não o é a aquisição da propriedade de Vale de Carros. A proximidade com a “sua” Rigodeira e a Quinta da Dôna está ocultada por uma pequena faixa de arvoredo. A distância entre ambas está entre os 300 e os 400 metros. Mas o mais relevante para a decisão da compra foi a semelhança na composição dos solos entre as duas propriedades, com uma forte componente de calcário em solos muito pobres, ideais para o plantio da videira, planta a revelar um desempenho maior em condições de stress hídrico e nutritivo.

São cinco hectares onde, de modo rigoroso e objetivo, planta as castas brancas Bical, Cercial da Bairrada e Chardonnay; e as tintas Baga, Touriga Nacional e Pinot Noir. A exposição da propriedade ajuda a moldar a semelhança com a Quinta da Rigodeira, sobretudo para as virtudes que aporta à Baga. A opção pelas outras castas deriva da sua experiência. Para espumantizar, não teve dúvidas. O privilégio de as várias viagens a França lhe terem permitido provar grandes champagnes, retiram-lhe quaisquer dúvidas sobre a óbvia escolha das internacionais Pinot Noir e Chardonnay, variedades melhoradoras da espumantização, com as locais Bical, Cercial e Baga.

A Bical, casta autóctone, surge para dar corpo aos vinhos, enquanto a Cercial traz a frescura e a vibrância, criando o equilíbrio perfeito, não obstante ter uma tendência para a podridão na vinha e oxidação na adega, o que obriga a um trabalho de muita proximidade nos dois locais. De todo o modo, e isso sente-se nos vinhos e espumantes, é a força do terroir que marca indelevelmente o perfil. E Ataíde Semedo já o sabia antes mesmo da aquisição da parcela. O namoro com esta encosta existe desde o tempo em que liderava a Rigodeira. Os antigos falavam muito nela e gabavam-lhe o potencial. Em segredo, e logo após a venda das vinhas antigas que lhe dá a disponibilidade financeira que anteriormente não possuía, começa o processo negocial de aquisição daquela montra, pertencente a 18 viticultores, num rendilhado de pequenas parcelas. Um trabalho árduo que demorou dois anos e meio a ser concluído, com muitas peripécias pelo meio.

As expetativas são elevadas para aquela propriedade de exposição a sul, contemplando-a com o sol desde as primeiras horas da matina até ao pôr-do-sol. As vinhas, muito velhas, estão decrépitas, com uma produção absolutamente residual e de baixa qualidade. Arranca a totalidade da área de vinha logo no ano de aquisição e, um ano mais tarde, em 2003, realiza o primeiro plantio, que requer um cuidado muito especial. Com o rigor que exigia a si próprio, não hesita em enviar todas as varas para um viveirista reputado em França, onde são enxertadas e regressam, já em 2004, em plantas. Os clones das castas portuguesas – Baga, Touriga Nacional, Bical e Cercial – são submetidos a uma seleção massal, todos enxertados nos porta-enxertos por si escolhidos, tendo, na base, a tipologia do solo, o porta-enxerto, as características da casta e o clone da mesma. Da Baga seleciona ainda clones de vinhas muito velhas do Dão; os 35 melhores clones da Estação Vitivinícola da Bairrada e os clones de Bical e Touriga Nacional são oriundos do Centro de Estudos de Nelas, onde conta com a preciosa da engenheira Vanda Pedroso. O mesmo critério de exigência teve-a na escolha dos clones de Pinot Noir e Chardonnay, os mais aptos e exclusivamente utilizados na produção de espumante.

 

Espumantes e Baga

Porque na Bairrada há vida para além dos vinhos de mesa, os espumantes sempre fizeram parte do universo produtivo de Ataíde Semedo. O traquejo técnico trazia-o da conceituada Caves São Domingos. Na Quinta da Rigodeira tinha chegado a engarrafar 30 mil unidades por ano. Com a saída de Almeida e Silva do projeto, fruto de uma atividade profissional intensíssima como médico, aliada à gestão da Casa de Saima, Ataíde Semedo entendeu que estava na altura de abrandar.

Apaixonado pelas castas internacionais Pinot Noir e Chardonnay, Ataíde Semedo nunca escondeu a paixão pelas virtudes da Baga na espumantização, não crendo, no entanto, que a rainha da Bairrada pudesse mostrar, assim, tanta realeza em espumante extreme da casta. Na Rigodeira, a Baga “descorada” entrava, em segredo, nos lotes de Maria Gomes e Bical, correspondendo, à data, a cerca de 30% da composição do espumante.

As vindimas realizadas em Champagne trouxeram-lhe o conhecimento de vinha e adega no processo de espumantização, e a convicção de que, para fazer espumantes de elevada qualidade na Bairrada, as castas Chardonnay e, sobretudo, Pinot Noir são imprescindíveis, ainda que usadas em lote com outras grandes castas locais. Atualmente, o produtor já não usa a Baga para espumantizar, entendendo que a pequena dimensão de área de vinha que detém e a qualidade que possui para vinhos tranquilos, tornaria mal empregue o seu uso nos espumantes. Ora, se escolhe os melhores clones, os melhores porta-enxertos e os melhores solos, tem de potenciar a casta naquilo em que ela é, criar vinhos tintos de referência mundial. E essas virtudes redundam da capacidade de envelhecimento inigualável, após mostrar muita discrição na juventude, com aromas fechados, engrandecendo com a idade, à semelhança do Nebbiollo (casta tinta italiana).

Com as alterações climáticas, a Baga tem saído bastante beneficiada. Há uma notória antecipação da maturação alcoólica, permitindo colher a uva com um teor provável superior a 13% volume sem que daí resulte uma perda da acidez natural da casta, facto que, segundo o produtor, ocorre em situação de sobrematuração (acima de 14% de álcool provável). Ataíde Semedo não crê muito em vinhos tintos elaborados exclusivamente com Baga de baixo teor alcoólico. Note-se que os Quinta da Dôna, dos quais damos como exemplo as colheitas de 2001 ou 1992, que possuem 13,5% volume alcoólico e foram – e são – vinhos enormes, aos quais o tempo emprestou o glamour e a elegância apenas ao alcance dos maiores. Lá para o final de 2027, voltaremos aqui para provar a mesmo muito auspiciosa colheita de 2025, vinho que, certamente, honrará a fama e a glória dos míticos Quinta da Dôna.

(Artigo publicado na edição de Abril de 2026)

ESPECIARIAS: Caril, açafrão e outras orientalidades

ESPECIARIAS

Por muitas voltas que demos ao assunto, haverá sempre quem tenha dúvidas acerca do caril, e de praticamente todas as outras especiarias, e o tempo que passou provocou uma total miscigenação. Troca as voltas a todos os aparentes donos da verdade e torna humildes os mais poderosos. Certo é que desde 1498, quando chegámos à […]

Por muitas voltas que demos ao assunto, haverá sempre quem tenha dúvidas acerca do caril, e de praticamente todas as outras especiarias, e o tempo que passou provocou uma total miscigenação. Troca as voltas a todos os aparentes donos da verdade e torna humildes os mais poderosos. Certo é que desde 1498, quando chegámos à Índia, assentámos praça. Por efeito do Tratado de Tordesilhas, o Brasil passou para o lado português, e a intensidade das relações com a gigante península indiana fortaleceu-se enormemente. Na segunda década do séc. XVI, os portugueses dominavam inteiramente a origem de todas as especiarias, sobrepondo-se à rota até então estabelecida. Dispenso-me do rigor estritamente histórico, para dar um salto gigante até Goa, pelo reduto culinário e gastronómico que representa toda a Índia. Jamais se deixou “invadir” pela restante Índia. Levámos o funcho da Madeira, que encontrou acolhimento junto do anis indiano. Também da América do Sul, via Brasil, fizemos chegar tomate, ananás e batatas, entre outros produtos. E Portugal conseguiu o feito notável de interferir na enorme tradição indiana de cozinhar. O pão e as açordas criaram raízes fortes nessa praça distante. E as massalas – leia-se misturas de especiarias em pó – começaram a viajar com força e aceitação total entre o cantinho luso e o magnífico mundo novo e rico que Goa representava. A malagueta só entrou nos nossos costumes no século XIX. Era “coisa do diabo”. Mesmo assim, influenciou fortemente as bases da cozinha alentejana, tal como a conhecemos e praticamos hoje.

ESPECIARIAS

 

O fabuloso mundo das especiarias

Historicamente, é da Índia que vem a mais abundante e rica utilização de ervas aromáticas e especiarias que conhecemos. No domínio das ervas, sobressaem duas: a folha de coentros, que nós, felizardos ocidentais, conhecemos simplesmente como coentros; e a hortelã pimenta. O grosso da coluna provém da prodigiosa oferta de especiarias que a Índia encerra. As especiarias são, ao fim e ao cabo, uma diversidade grande de elementos secos. Sementes, bagos, vagens, cápsulas, cascas, folhas, botões, pétalas, estigmas ou estames, configuram especiarias que podem valer mais do que ouro. Olhemos para os casos mais comuns, exercício que raramente fazemos.

Folha de louro. Nasce de um arbusto e dá-se bem em toda a parte. Funciona em diversas aplicações, mormente em conjunto com azeite e alho, no caso do inefável bife à portuguesa.

Cardamomo. É uma semente que é indissociável do sabor indiano autêntico. Dá-se bem no sul da Índia, em Ceilão, Tailândia e Guatemala, e confere um sabor forte e ligeiramente balsâmico a todas as aplicações. Produz um óleo viscoso de sabor intenso, um cineol flexível em termos de aplicação. Esta semente tem uma de duas configurações possíveis: cardamomo negro, componente nuclear da massala garam, e cardamomo verde, também conhecida como a rainha das especiarias. Esta última é uma das mais caras e aromáticas especiarias do mundo. É muito utilizado em doçaria.

Cássia e canela. A cássia e a canela são, por assim dizer, as cascas das respetivas árvores. Infelizmente, o consumidor é frequentemente levando a consumir uma e outra indistintamente, mas não pode haver maior logro. A cássia provém da China, enquanto a canela é originária do Ceilão. Claro que há muitas semelhanças e, claro, que uma e outra especiarias podem vir de outras partes do globo. No entanto, atentando à forma mais pura e valiosa, o sistema é este. Ilhas Seycheles, Brasil e Indonésia produzem excelente canela, mas o ideal é mesmo conseguir chegar ao nível máximo.

Malagueta. Da família capsicum, provém originalmente da América do Sul e viajou para toda a parte, ganhando forma e função entre os diferentes povos. Oscila entre veneração e condenação, e é estruturante na cozinha indiana. Na Tailândia também é muito importante. Utilizado como intensificador de sabor, é mais saudável do que o sal. E entre outras virtudes, permite uma certa profilaxia geral em relação a algumas doenças. Nos piripiris que faço, jamais retiro as sementes; elas fazem parte.

Cravinho. Provém de uma árvore, toda ela muito aromática. Consumimos o cravinho seco e o nome que lhe damos decorre da configuração de prego. É fundamental utilizar com moderação nos cozinhados, pois tende a dominar todo o sabor. Um dente de cravinho é suficiente para um tacho médio de ensopado de borrego, por exemplo.

Sementes de coentros. É a especiaria mais abundante da Índia, da qual o país exporta mais de 80 mil toneladas por ano. Secas e passadas pelo almofariz, exala impressões cítricas impressionantes. É, por isso, um excecional intensificador de sabor. Utilizo juntamente com um pouco de cardamomo, para produzir um substituto doméstico do sal. Passadas pelo forno quente, ganham uma dimensão exótica muito saborosa.

Cominhos. Utilizamo-los na produção de vários enchidos tradicionais, em particular de morcelas e chouriços de sangue. São especiarias muito antigas. Há mais de 4.500 anos que a Síria e o Egito a produzem com abundância e proveito. É duradoura: há relatos de sementes presentes nos túmulos dos faraós que estavam ainda em boas condições de consumo. São excelentes como componentes  de marinadas diversas.

Folha de caril. Em termos aromáticos, a semelhança com o pó de caril é muito grande e, como pasta, chega a fazer as vezes. Funciona muito bem com peixe fresco; gosto particularmente de utilizar com ovas grelhadas ou cozidas. Fresca, a folha de caril pode utilizar-se até com manteiga. É impressionante a sua flexibilidade.

Funcho. Especiaria de raiz eminentemente europeia. É doce e fortemente aromática. Além disso, é hiperabundante, encontramo-la pelas bordas dos caminhos de campo. Temos rebuçados e mezinhas diversas à base de funcho. Quando seco, integra muito bem misturas de especiarias como o caril. Tem de ser utilizado em pequenas proporções.

Feno-grego. Utilizada com abundância no norte da Índia, é uma especiaria de que se aproveita tanto as sementes, como as folhas. Nas províncias do Gujarate e Punjab, tem diversas aplicações na saúde e é considerada como fundamental em estufados longos de carne. Rogan Josh, por exemplo, não vive sem esta especiaria.

Levístico. Provém de uma planta de flores vermelhas e perfume intenso, semelhante ao tomilho. Não convivemos muito com a planta, mas seguramente já lhe sentimos o cheiro em marinadas, molhos e pratos cozinhados.

Noz moscada. Está presente em todas as configurações de caril e damos-lhe uso muito frequente em purés e massas. Na doçaria nacional, também tem as suas utilizações usuais.

Sementes de mostarda. Também se chama grãos de mostarda e é, nas variantes amarela e branca, utilizada para produzir o condimento de mostarda. Pode ser mais ou menos pungente, consoante os acrescentos que lhe damos.

Pimenta. É a especiaria das especiarias na cozinha indiana. O mundo inteiro utiliza a pimenta a par com o sal nas suas cozinhas domésticas. Ombreia com a malagueta na popularidade e ainda é fonte importante de rendimento para a Índia. Há diversos sucedâneos e todos eles fazem parte dos ingredientes fundamentais das nossas casas.

Açafrão. Ingrediente chave e nobre nas melhores misturas de especiarias. Obtém-se em quantidades muito reduzidas a partir dos filamentos da flor crocus sativus. Para ter a noção da raridade, são precisas 70 mil flores para obter meio quilo de açafrão. É mais cara e mais exótica do que a trufa branca, por exemplo. Custa oito euros por grama. Apesar de tradicional na culinária portuguesa, espanhola, italiana e indiana, caiu em desuso, optando-se pela curcuma. Mas, claro, que não é a mesma coisa.

Sementes de sésamo. Utiliza-se muito em óleo, farinha e diretamente. Na utilização direta, vale a pena aquecê-la no forno ou numa sertã seca. Tem um poder aromático forte.

Vamos ao caril?

Posto que entendemos que um caril é feito a partir de massalas ou misturas de especiarias, podemos passar a algumas configurações frequentes. Percorremos, numa primeira instância, as formas mais frequentes de caril indiano. O tikka masala é um dos mais populares e consiste de pedaços grelhados de frango, com um molho cremoso e suave. Tem um sabor cítrico e não é normalmente picante. Um branco de Fernão Pires do Tejo pode resolver bem a contenda.

Já o vindaloo é um prato goês, feito com vinagre, malagueta e alho. O nome decorre de uma corruptela de vinha de alhos, uma preparação bem portuguesa, que pode ser picante. Aqui pode ser instrumental um Castelão da Península de Setúbal. A questão do picante leva-nos a ter algumas precauções quanto à harmonização vínica. Mas, basicamente, quando intensificamos o picante, devemos também aumentar o grau alcoólico do vinho, isto porque a perceção do picante na boca resulta em micro-feridas e o álcool vai permitir sará-las de imediato. A água nada resolve e até pode ser contraproducente.

A preparação korma é suave, cremosa e aromática, e utiliza iogurte, natas ou nozes na sua base. Regressamos, por isso, ao vinho branco, para chegar à harmonização feliz. Deve ter estágio em madeira e, de preferência, ser jovem. Um Arinto de Bucelas fermentado em barrica pode ser uma excelente ideia. Importante é que espevite a selva aromática que está no prato.

O caril de Madras é vermelho e é feito com malagueta, cominhos e sementes de coentros. Pode ser muito picante, e cabe ao vinho debelar esse capital avassalador. Sugiro um Cabernet Sauvignon de Lisboa, as experiências que tenho feito com os vinhos da Quinta do Sanguinhal têm resultado. Denotam, além disso, um perfil balsâmico que tem muito a ver com a cozinha indiana. O caril goês de frango é feito com leite de coco, pode ser ou não picante e é delicioso. É, de resto, o que se faz nos lares portugueses com mais frequência. A solução vínica que melhor funciona é um Touriga Nacional jovem do Dão. Frescura e de novo a selva aromática de que precisamos.

O Rogan Josh, que já referi, é um prato complexo e profundo da região de Caxemira. É feito com borrego e tem a particularidade de incluir feno-grego na composição. Aprendi com um grande mestre indiano, que produziu a mistura à minha frente, e depois cozinhou-o na perfeição. É normalmente picante, dependendo da tolerância dos comensais. Aconselho um tinto do Douro com madeira, com alguma idade. A ligação é garantida. O caril Saag é quase vegan e tem por base folhas verdes de espinafres, pelo que aconselho vivamente um vinho branco da casta Fonte Cal. Alguns produtores da Beira Interior estão a fazer vinhos que parecem ter sido concebidos para este caril. O caril Dhamsala, de forte influência peruana, é outro grande prato e é feito com lentilhas e vegetais. Este sim, é inteiramente vegano e curiosamente gosta de vinho tinto. Um Jaen novo do Dão faz uma excelente harmonização.

ESPECIARIAS

Um pulo até à Tailândia

Na grande e estreita língua de território que é a Tailândia, o caril é um caso muito sério. Aliás, todo o país é um caso muito sério. Leite de coco e erva-príncipe estão na base de quase todos, o que, do ponto de vista da harmonização, é um tremendo desafio. O caril verde é o mais rico em especiarias e é feito com malaguetas verdes, manjericão e sementes de coentros. Não é demasiado picante, mas temos de estar preparados para o caso – quase sempre – de isso acontecer. Dado o património aromático contido no caril verde, optamos por um Sauvignon Blanc de Colares. Complexidade e exotismo garantidos e, além disso, o toque salino, que é sempre bem vindo.

Um caril tailandês é altamente calórico. O caril vermelho é o mais picante de todos e, na base, encontramos malaguetas vermelhas fortes, erva-príncipe e gengibre. Precisa, por isso, de um tinto bem copioso, pelo que o Alentejo é a opção correta. A casta Alicante Bouschet pode ser um bom caminho. O segredo é, como sempre, provar e medir forças com a solução encontrada. Boas experiências!

(Artigo publicado na edição de Março de 2026)

Chefe David Jesus junta-se à Quinta do Vallado

O chefe de cozinha David Jesus juntou-se à Quinta do Vallado para liderar novo projeto gastronómico na Ribeira do Porto e renovar proposta dos hotéis de enoturismo. A parceria entre a Quinta do Vallado e David Jesus origina um novo capítulo na vertente gastronómica da Quinta do Vallado, que inclui os hotéis da Régua e […]

O chefe de cozinha David Jesus juntou-se à Quinta do Vallado para liderar novo projeto gastronómico na Ribeira do Porto e renovar proposta dos hotéis de enoturismo.

A parceria entre a Quinta do Vallado e David Jesus origina um novo capítulo na vertente gastronómica da Quinta do Vallado, que inclui os hotéis da Régua e de Foz Côa e o mais recente projeto na Ribeira do Porto.

O chefe português, actualmente chef e proprietário do restaurante Seiva, em Leça da Palmeira, conhecido pela sua cozinha vegetariana e sustentável, irá assinar a carta do Wine Bar e Restaurante do novo projeto da Quinta do Vallado, além de renovar as cartas dos dois hotéis com criações que respeitam as raízes do Douro, mas com uma identidade inovadora.

No coração da Ribeira do Porto, o novo espaço da Quinta do Vallado inclui uma loja de vinhos e sala de provas. Trata-se de um projeto assinado pelo arquitecto Francisco Vieira de Campos, que irá ocupar quatro pisos de um edifício histórico do século XVIII, restaurado em 2024.

Com vista privilegiada sobre o Douro e traços arquitetónicos originais, como arcadas em pedra, vitrais, tectos trabalhados e azulejos históricos, o novo projeto pretende ser um tributo ao Douro e à sua identidade.

Os três vinhos galardoados com o melhor vinho foram Vala da Barca 2022 de Maçanita Vinhos entre os vinhos brancos, Costureiro Garrafeira 2019 nos tintos e o Porto Vale da Tábua 50 Anos entre os vinhos fortificados.

De um total de 92 vinhos em prova, o Júri de 10 elementos, composto por jornalistas especializados e representantes do comércio de retalho, sommeliers e restaurantes, apreciou brancos, tintos e vinhos fortificados, dividindo-se estes entre Moscatel do Douro e Portos.

Sendo este concurso parte integrante da feira Vinhos & Sabores dos Altos, organizada pelo Município de Alijó e com produção da Grandes Escolhas, em rigor da verdade nem todos os vinhos concorrentes traduzem com rigor a sua origem “nos altos”, referindo-se esta expressão aos que são produzidos no planalto de Alijó, uma vez que os limites do concelho vão muito para além do referido planalto e chegam às margens do Douro e Tua. De igual modo também foram admitidos na feira e no concurso outros “altos”, provenientes dos municípios vizinhos de Carrazeda de Ansíães, Murça e Vila Flor.

Apurados os resultados, foram atribuídos um total 26 medalhas entre ouro e prata, para além da eleição do melhor vinho em cada categoria.

Segue a lista de todos os vinhos premiados.

Categoria Vinho BRANCO
Melhor Vinho Vale da Barca 2022 Maçanita Vinhos
Medalha de Ouro Casttêdo Valley Oaked Reserva 2022 Casttêdo Valley – Maria Luísa Seixas Pinto Marantes
Pormenor Reserva 2023 Pormenor Vinhos
Quinta de Martim 2019 Casa Agrícola Águia de Moura
Quinta do Noval Reserva 2023 Quinta do Noval
Soulmate Alvarinho Grande Reserva 2021 Cortes do Tua Wines
Medalha de Prata Amarrotado 2023 Amarrotado Wines
Costa Boal Chardonnay 2022 Costa Boal Family Estates
Família Silva Branco 2023 Branco Wines Family
Lugar da Corredoura 2021 Casa do Piàska
Má Vida 2022 Carlos Rua
Categoria Vinho TINTO
Melhor Vinho Costureiro Garrafeira 2019 Foz do Tua
Medalha de Ouro Bardino 2021 João M. Soares Pires
Costa Boal Homenagem Grande Reserva 2015 Costa Boal Family Estates
Pedigree 2019 Branco Wines Family
Pintas Character 2022 Wine and Soul
Submerso 2023 Submerso Vinhos
Medalha de Prata Fonte da Perdiz Grande Reserva 2020 Adega Cooperativa de Alijó
Lugar da Corredoura Touriga Nacional Reserva 2022 Casa do Piàska
Pandemic Wine 2020 Carlos Rua
Quinta de Santa Eugénia Grande Reserva 2020 Soc. Agr. Quinta de Santa Eugénia
Tactus 2020 Vinhos de Favaios
Categoria Vinhos Fortificados
Melhor Vinho Vale do Tábua Porto 50 anos Vale do Tábua
Medalha de Ouro Adega de Favaios Moscatel Colheita 2000 Adega de Favaios
Fragulho Tawny 10 anos Casa dos Lagares
Alijó Moscatel Reserva Adega Cooperativa de Alijó

Millèsime: A grande festa dos espumantes

Millesime

A Câmara Municipal de Anadia, como organizadora do Millèsime, que mais uma vez contou com a colaboração da Grandes Escolhas, está de parabéns e presta um serviço assinalável aos vinhos portugueses! Dificilmente se encontra uma simbiose mais perfeita entre localização, cenários, ambiente, festa e o objecto do evento, neste caso os espumantes, do que aqui. […]

A Câmara Municipal de Anadia, como organizadora do Millèsime, que mais uma vez contou com a colaboração da Grandes Escolhas, está de parabéns e presta um serviço assinalável aos vinhos portugueses!

Dificilmente se encontra uma simbiose mais perfeita entre localização, cenários, ambiente, festa e o objecto do evento, neste caso os espumantes, do que aqui. Pelo terceiro ano consecutivo no emblemático Hotel Palace da Curia, que evoca em cada um dos seus traços a época gloriosa do turismo termal das primeiras décadas do século XX, os espumantes portugueses encontraram o seu lugar de afirmação e demonstraram, aos milhares de visitantes que ocorreram à Curia, uma qualidade já transversal a muitas regiões do país.

Millesime

Esta será, talvez, a primeira constatação que o visitante pode verificar in loco, perante a exposição de mais de uma centena e meia de referências que os 49 expositores (record absoluto) deram a provar.

Produzem-se hoje, em Portugal, espumantes de grande qualidade em quase todas regiões vitivinícolas. É verdade que a Bairrada continua a dominar em número produtores e em volume e jogava em casa e aproveitou a oportunidade para mostrar uma pluralidade de estilos e apostas que demonstram uma vitalidade crescente. É também verdade que Távora-Varosa não perdeu o ensejo de confirmar que tem um terroir único para a produção de grandes espumantes. Mas por todo o lado, do Minho ao Alentejo, das Beiras ao Tejo, do Dão à Península de Setúbal, o Millesime comprovou o interesse maior que os espumantes nacionais têm despertado nos consumidores, com o consequente aumento sustentável do seu consumo e a afirmação consistente da sua qualidade.

O Millèsime é festa, espalha uma alegria contagiante e consegue a proeza de comunicar e satisfazer as espectativas dos vários públicos que o visitam, sejam consumidores ou profissionais. Tem visitas institucionais de peso, como o Ministro Adjunto e Coesão Territorial, o Secretário de Estado do Turismo e outras individualidades. Tem diversão, animação e evocação do passado charmoso, entretendo os que se deixam seduzir pelo lado lúdico da festa. Tem boa oferta gastronómica, provando que os espumantes são dos vinhos mais transversais em termos de harmonização, e também provas comentadas de vinhos e harmonizações para os que querem saber mais e experimentar novos sabores e sensações. E tem um lado profissional que ficou patente no seu prolongamento a segunda feira de manhã (uma novidade desta edição), período exclusivamente reservado a compradores, e no almoço de convívio que se seguiu e na conversa entre enólogos e produtores proporcionada pelo convite a Marta Lourenço, enóloga da Murganheira e da Raposeira, que partilhou a sua experiência e saber na produção de espumantes com alguns dos seus colegas.

Duas conclusões se podem tirar desta edição 2025 do Millèsime: os espumantes portugueses estão a vencer a velha batalha contra a sazonalidade do seu consumo e têm um futuro auspicioso pela frente. Tchiiim!

12º Festival do Vinho do Douro Superior: 23, 24 e 25 de Maio

O programa da 12ª edição do evento inclui, para além do reconhecido Concurso de Vinhos do Douro Superior, provas comentadas de vinhos e azeites, um colóquio e mostras de produtos regionais do Douro, Trás os Montes e Beira Interior. A abertura do Festival do Vinho do Douro Superior está marcada para as 17:00 horas do […]

O programa da 12ª edição do evento inclui, para além do reconhecido Concurso de Vinhos do Douro Superior, provas comentadas de vinhos e azeites, um colóquio e mostras de produtos regionais do Douro, Trás os Montes e Beira Interior.

A abertura do Festival do Vinho do Douro Superior está marcada para as 17:00 horas do dia 23 de Maio, sexta-feira, sendo a abertura oficial com a presença do Presidente da Câmara Municipal de Foz Côa, João Paulo Sousa às 18:00h.  Neste primeiro dia, os visitantes poderão assistir à prova comentada dos “Grandes tintos do Douro Superior”, por Valéria Zeferino, crítica da revista Grandes Escolhas, e ainda ao espetáculo David Antunes e The Midnight Band (22h00).

No sábado, dia 24, o destaque vai para o Concurso de Vinhos do Douro Superior, que reúne, durante a manhã, especialistas e outros profissionais reconhecidos, incluindo importadores dos Paises Baixos e Alemanha. Este é um concurso que se tem revelado importante para a afirmação dos vinhos da região, com a participação  de grandes, médios e, sobretudo, pequenos produtores.

Em simultâneo ao concurso de vinhos, no dia 24, às 10:00 horas, decorrerá um Colóquio dirigido aos produtores da região e outros interessados com o tema “A hora dos vinhos brancos: o potencial do Douro Superior e as repostas na vinha e na adega”. Participam com intervenções e com a prova de alguns dos seus vinhos os enólogos Alvaro Van Zeller, Duarte da Costa, João Perry Vidal, Luciano Madureira e Mateus Nicolau de Almeida

No sábado dia 24, a feira abre portas para a população em geral pelas 15h00, estando reservadas, para este dia, duas provas comentadas, uma de “Azeites do Douro Superior e Trás-os-Montes”, por Francisco Pavão, Presidente da Associação dos Produtores em Proteção Integrada de Trás-os-Montes e Alto Douro (APPITAD), e outra dedicada aos “Grandes brancos do Douro Superior”, pelo crítico Luis Antunes da Grandes Escolhas. Matias Damásioe e Mickael Carreira fecham a noite, com um concerto às 22h00.

No último dia do evento será possível assistir ao anúncio dos resultados do Concurso de Vinhos do Douro Superior e à última prova comentada, desta vez sobre “Vinho do Porto”, por Luís Antunes. A complementar o programa de atividades, os visitantes do festival poderão provar e comprar os diversos vinhos e produtos locais na zona dos expositores, onde também se encontram tasquinhas com diferentes opções gastronómicas.

O Festival do Vinho do Douro Superior é organizado pela Câmara Municipal de Foz Côa e pela revista Grandes Escolhas, com o objectivo apoiar os produtores e mostrar o trabalho desenvolvido na região.

10º Lisbon Bar Show aposta na origem nacional

Lisbon Bar Show

O Lisbon Bar Show apresentou, no Hotel Locke de Santa Joana, em Lisboa, as primeiras novidades da sua 10ª edição. Com mais de 120 expositores confirmados, o evento deste ano vai decorrer na Meo Arena nos dias 20 e 21 de Maio, e destaca a produção nacional. Outra das grandes apostas do evento, este ano, […]

O Lisbon Bar Show apresentou, no Hotel Locke de Santa Joana, em Lisboa, as primeiras novidades da sua 10ª edição. Com mais de 120 expositores confirmados, o evento deste ano vai decorrer na Meo Arena nos dias 20 e 21 de Maio, e destaca a produção nacional.

Outra das grandes apostas do evento, este ano, é a evolução do conceito de bar sem álcool, que ganha um novo protagonismo após ter sido testado na edição anterior. Haverá, assim, um conjunto alargado de expositores dedicados a destilados não alcoólicos, tendência em forte crescimento, com alternativas a gins, tequilas e outras bebidas espirituosas.

O Lisbon Bar Show volta a acolher também o Congresso Ibérico de Bartenders, que celebra a sua 3ª edição no dia 20 de Maio, entre as 13h e as 20h. Esta plataforma de debate e networking é dedicada à Península Ibérica e promove a partilha de experiências entre profissionais do sector. Entre os oradores convidados estão Danil Nevsky (Indie Bartender), Antonio Naranjo (Especiarium), Bruno Santos (International Bartenders Association), Carlos Santiago (The Royal Cocktail Club), Wilson Pires e Tiago Oliveira (In’Verso) e Javier Caballero (Brand Ambassador Perrier).

Ao longo dos dois dias do evento, o público poderá assistir a palestras e apresentações conduzidas por 30 oradores nacionais e internacionais, entre os quais se destacam Sebastian Atienza e Lucila Calichio (Tres Monos), Sorrel Moseley-Williams (Sorol Wines), Matteo Mosetii (Giffard), Mário Cruz (Restaurante Marlene), Pablo Straubel (Bar Badassery), Damià Mulà (100% Barman), Domingos Soares Franco (José Maria da Fonseca), Georgi Radev (Laki Kane), Tom Dyer (Flair Camp), Martha May Markham (Swift), Bertílio Gomes (Taberna Albricoque), Camille Vidal (La Maison Wellness), Iván Saldaña (Casa Lumbre), Flavi Andrade (Rossio Gastrobar), Pedro Duarte (Curioso Cocktail Bar), Daniel Marques (Adamus Gin), António Cuco (Sharish Gin), Flávio Próspero (Maré), Jared Brown e Anistatia Miller (historiadores de cocktails), Júlio Bermejo (Tommy’s Mexican Restaurant), Esteban Morales (Casa Endémica), Iain McPherson (Panda & Sons), Marcio Silva (Eximia), Liam Scandrett (Wine & Spirit Education Trust), Norberto Carvalho (Bebericando), Penelope Vaglini (Coqtail), Rui Mota (Ciências Gastronómicas), Nikos Theodorakopoulos e Alex Tselepis (The Bar in Front of the Bar).

O evento volta a acolher, este ano, concursos como o Vintage Cocktail Competition e o Concurso de Cachaça 51, que trazem criatividade, técnica e inspiração ao centro da acção.

No evento decorrerá também a cerimónia dos Prémios Lisbon Bar Show, que distingue os melhores do sector em 11 categorias. Os vencedores serão revelados na cerimónia de encerramento do evento, no dia 21 de Maio, pelas 19h15.

Segundo Alberto Pires, fundador do Lisbon Bar Show, “esta é uma edição muito especial, em que queremos dar um forte destaque ao que é português, incluindo produtos, profissionais e inovação, sem deixar de manter a diversidade e a qualidade internacional que sempre marcaram este evento”. O Lisbon Bar Show realiza-se nos dias 20 e 21 de Maio de 2024, na Sala Tejo, no Meo Arena, em Lisboa, das 12h às 20h. Os bilhetes estão disponíveis em pré-venda por 33€ até 16 de maio, passando para 43€ nos dias do evento.

Casa de Santar: Entre nobres vinhas

Casa de Santar

A presença humana nestes territórios perde-se na memória dos tempos, remontando ao neolítico o cultivo agrícola e a pastorícia. A terra convidava a “assentar”, a criar laços comunitários. Afinal, são os solos mais produtivos da Beira, dotados de condições excecionais para o plantio da vinha, dada a qualidade dos solos e abundância de água. Hoje, […]

A presença humana nestes territórios perde-se na memória dos tempos, remontando ao neolítico o cultivo agrícola e a pastorícia. A terra convidava a “assentar”, a criar laços comunitários. Afinal, são os solos mais produtivos da Beira, dotados de condições excecionais para o plantio da vinha, dada a qualidade dos solos e abundância de água.
Hoje, é a maior mancha contínua de vinha da região do Dão que nos surge defronte dos olhos na nobre e histórica Vila de Santar. São mais de 110 hectares de vinhedos que se estendem por um vale encimado pela Vinha dos Amores e Alto dos Amores. É nesta parcela da Vinha dos Amores que nascem os mais exclusivos vinhos da Global Wines, proprietária também da Quinta de Cabriz e Paço dos Cunhas de Santar, no Dão, da Quinta do Encontro, na Bairrada, e da Herdade do Monte da Cal, no Alentejo.
Com recentes mudanças na direção de enologia, agora liderada por Paulo Prior, bairradino oriundo do Centro de Vinificação da Sogrape, em São Mateus, Anadia, e, na direção comercial, com Nuno Abreu, que deixou a Sogevinus para se juntar ao grupo sedeado em Carregal do Sal, sopram novos ventos em Santar, ainda que refreados pelo cariz clássico a que a marca se impõe, tendo, nessa conceção, a principal forma de afirmação no mercado nos últimos anos.

A VINHA DOS AMORES COMO CHANCELA

A Vinha dos Amores surge no promontório Norte de uma propriedade que se estende por mais de 100 hectares. Do alto, a uma cota de 400 metros, a vinha estende-se por 13,5 hectares, num ligeiro declive com exposição a Norte, o que a torna a mais valiosa parcela da Casa de Santar.
O seu crescimento foi progressivo, como foi progressivo o seu plantio, iniciado em 1997 e apenas terminando em 2017. Ali, as parcelas vão sendo divididas por setores, priorizando as características dos solos à escolha das castas com maior potencial para cada um dos talhões. Estamos no coração do Dão e, vai daí, o encepamento destaca as duas grandes castas atuais da região: a Touriga Nacional, nas tintas, e a Encruzado, nas brancas, sendo estas as mais relevantes nos vinhos de exceção de Santar.
A Alfrocheiro começa a surgir timidamente nas contas da Casa de Santar. É nas cotas mais elevadas, sobretudo no Alto dos Amores, que ela melhor se expressa, beneficiando da altitude e da maior exposição à influência da Serra da Estrela, que se ergue frondosa a Sul de Santar.

Apesar de se ter expandido para Sul, estendendo-se às regiões do Alentejo, Tejo e Palmela, é no Dão que encontra o seu território natural. Não obstante ser uma uva vigorosa e muito produtiva, carece de cuidados frequentes e atentos, dada a sua propensão natural ao oídio e podridão cinzenta. Nesta região, é-lhe reconhecida a elegância, cor bastante acentuada e um notável equilíbrio entre álcool, taninos e acidez, conferindo, aos vinhos, uma frescura que tantas vezes está ausente nos vinhos mais estruturados e densos do Dão. Aromaticamente, funde-se no território e na envolvência, fazendo sobressair os aromas a bagas silvestres e nuances de mato rasteiro.
São essas características que Paulo Prior pretende que se tornem mais evidentes nos vinhos nascidos no Alto dos Amores, encontrando-se em curso um trabalho de estudo dos stocks de vinhos da casta existentes na Casa, de modo a encontrar algo que se diferencie e possa vir a aumentar, com uma dotação qualitativa, a família das referências especiais Vinha dos Amores, podendo mesmo ir além de mais que uma vertente. Aguardemos pelo que o futuro nos reserva…
Afinal, não tem sido despicienda a influência da casta nos vinhos das terras de granito nos últimos mais de 150 anos, crendo-se que a sua disseminação com êxito tenha ocorrido nas replantações pós-filoxera. Nos anos 90 do século passado, a casta ganha um evidente estrelato, e inicia um caminho ascendente de popularidade junto de um conjunto de produtores regionais, entre os quais a Casa de Santar.

 

“…a Alfrocheiro pode aportar maior complexidade cosmopolita aos vinhos, em detrimento da concentração clássica.”

 

O novel enólogo de Santar está consciente de que não haverá nenhum movimento disruptivo no classicismo dos vinhos, hoje reconhecidos e com uma marca forte nos mercados nacional e internacional. Contudo, o mundo continua a girar e os movimentos que buscam perfis de maior leveza, elegância, profunda frescura e menor presença de álcool não podem ser descurados. E, aí, há uma forte crença que, a par da Touriga Nacional, a Alfrocheiro pode aportar maior complexidade cosmopolita aos vinhos, em detrimento da concentração que se impôs nas últimas décadas.

“Hoje, é a maior mancha contínua de vinha da região do Dão que nos surge defronte dos olhos na nobre e histórica Vila de Santar.”

 

O TERRITÓRIO E A SUSTENTABILIDADE

O dito terroir da Vinha dos Amores, crê Paulo Prior, é, por si próprio, um fator de diferenciação que, por isso mesmo, deve ser potenciado de modo diferente dos restantes vinhos da chancela Casa de Santar.
A exposição, a barreira elevada e o declive protegem a Vinha dos Amores das geadas de inverno sob forte influência da Serra, do mesmo modo que também a preservam da inclemência das elevadas temperaturas do Verão, uma vez que beneficia de menos horas de exposição direta ao sol. São condições que lhe beneficiam o equilíbrio da maturação, dando origem a mostos mais ricos, profundos e complexos.

As cotas mais elevadas são definitivamente relevantes, do mesmo modo que o é toda a envolvência e proteção das três serras que circundam Santar: Estrela, Caramulo e Bussaco. A composição de solos – arenosos com pouca retenção de água, algum xisto e maioritariamente granito – não valida a retenção de água, forçando as raízes a penetrarem os solos a maior profundidade, buscando a matéria orgânica e nutrientes que escasseiam. A mecanização e a rega monitorizada colmatam a pobreza dos solos.
A sustentabilidade, aqui, é muito mais que um chavão de retórica. Hoje, uma exigente auditoria, realizada de modo independente por cinco empresas, confere à Global Wines, Sociedade Agrícola de Santar, que detém a Casa de Santar e Paço de Santar, sediadas no Dão, Quinta do Encontro, na Bairrada, e Herdade Monte da Cal, no Alentejo, o referencial nacional de sustentabilidade. Esta certificação nacional vem demonstrar que todas cumprem os requisitos legais relacionados com os domínios da sustentabilidade, designadamente, gestão e melhoria contínua, e contribuem ativamente para o bem-estar social, económico e ambiental das comunidades envolventes e das diferentes regiões onde atuam.

 

“…o encepamento destaca as duas grandes castas atuais da região: a Touriga Nacional,nas tintas, e a Encruzado, nas brancas,…”

 

Este Referencial Nacional, criado pelo Instituto da Vinha e do Vinho (IVV) e promovido pela ViniPortugal, abrange, neste caso, a produção total de 235 hectares (165ha no Dão, 67ha no Alentejo e 3ha na Bairrada). Um novo selo de sustentabilidade irá ser brevemente adotado nas rotulagens das marcas Casa de Santar, Paço dos Cunhas de Santar, Cabriz, Quinta do Encontro e Herdade Monte da Cal, o que, para o consumidor, representa uma garantia de que estão implementadas práticas sustentáveis em todas estas organizações e marcas do universo Global Wines.
Hoje já é comum observarem-se, pelos vinhedos de Santar, enormes rebanhos de ovelhas que, no âmbito da produção integrada, fazem o corte da erva das entrelinhas de um modo rudimentar, nivelam as leguminosas ali semeadas, com a vantagem de ainda contribuírem para a nutrição dos solos.

Com o encepamento das tintas a representar 65% das vinhas e as brancas 35%, a realidade da Casa de Santar estende-se hoje muito para além da Touriga Nacional e Encruzado. O passado está bem presente nas 20 castas existentes, em produção ou ensaios que visando reabilitar variedades quase extintas e recuperar aquelas que já tiveram grande preponderância na região, como é o caso da Baga. Santar vinca a altitude e atitude de continuar, na mudança, a criar os vinhos mais nobres do Dão.

Nota: o autor escreve segundo o novo acordo ortográfico.

(Artigo publicado na edição de Janeiro de 2025)