CASA SANTOS LIMA: O gigante discreto

Casa Santos Lima

Alenquer, há muitos anos numa reportagem de vindima. Próximo de Lisboa, era o sítio mais fácil para visitar um verdadeiro compêndio de castas, bem como sua sequência de maturação e recolha. Foi em 2005. Ddeixem-me citar, desse artigo, a ordem de colheita das várias castas: Pinot Noir (T), Fernão Pires (B), Chardonnay (B), Vital (B), Sauvignon Blanc […]

Alenquer, há muitos anos numa reportagem de vindima. Próximo de Lisboa, era o sítio mais fácil para visitar um verdadeiro compêndio de castas, bem como sua sequência de maturação e recolha. Foi em 2005. Ddeixem-me citar, desse artigo, a ordem de colheita das várias castas: Pinot Noir (T), Fernão Pires (B), Chardonnay (B), Vital (B), Sauvignon Blanc (B), Viosinho (B), Seara Nova (B), Rabo de Ovelha (B), Merlot (T), Trincadeira (T), Camarate (T), Syrah (T), Touriga Franca (T), Tinta Roriz (T), Castelão (T), Cabernet Sauvignon (T), Tinto Cão (T), Preto Martinho (T), Arinto (B), Touriga Nacional (T), Tinta Barroca (T), Alicante Bouschet (T), Alfrocheiro (T), Caladoc (T), Sousão (T), Moscatel (B) e Tinta Miúda (T).

Nesta viagem de 20 anos percebe-se que, já naquela época, a filosofia da casa era, acima de tudo, diversificar. A estratégia não era de sucesso evidente, havia muitos outros produtores a apostar no contrário: num vinho forte, construir aí a marca e, depois, introduzir variedade a partir desse ponto focal. Seria fazer o tinto X, depois o X Reserva, a seguir o X branco, depois o X Touriga Nacional, e talvez ficar por aí.

Vejamos, o paradigma dos vinhos de sucesso em Bordéus é parecido: 300 mil garrafas do Château Blah, 30 mil do Petit Blah, feito com as vinhas mais novas, e o resto da produção é vendido a granel ou engarrafado discretamente com a Denominação de Origem (DO) em grande evidência no rótulo. Objectivo? Não estragar o prestígio nem o preço do Château, que faz quantidade a sério a multiplicar por bom preço. Na Borgonha, a estratégia também é enfatizar a notoriedade dos melhores vinhos, mas com o foco na raridade e particularidade de cada um dos terroirs, que podem ser minúsculos, originando pouquíssimas garrafas, posteriormente disputadas como jóias por apreciadores ávidos de exclusividade e luxo.

Em contrapartida, a Casa Santos Lima cedo escolheu e se especializou num rumo alternativo: alargar a gama, construir muitas marcas, muitas castas, muitos lotes, diversificar mercados, sempre com preços contidos, apostando em grandes quantidades com margens pequenas, organizando o crescimento da empresa a partir daí.

 

O mote da Casa Santos Lima: “atender às necessidades dos clientes e adaptar-se às rápidas mudanças nas tendências do mercado”

Para lá das 200 referências

José Luís Oliveira e Silva está na liderança desde 1995. Reformou-se nesse ano de uma carreira na banca de investimento, que incluiu períodos de trabalho em França e Inglaterra. Já em jovem gostava de acompanhar os trabalhos da quinta, com grandes extensões de vinha, mas não tinha vinho engarrafado. Logo de início, optou por criar várias marcas que tiveram sucesso imediato, como o Palha Canas ou o Quinta das Setencostas. O topo de gama Touriz era um nome feliz. Reflectia a sua composição feita a partir de Touriga Nacional, Touriga Franca e Tinta Roriz e espelhava um novo interesse do público português nas castas e suas diferenças enológicas. Também desde cedo apareceram os monovarietais da Casa Santos Lima, uma espécie de biblioteca de estudo, cujos temas estão listados acima.

Além da variedade, a Casa Santos Lima sempre manteve uma estratégia de preços muito contidos, mesmo que cada vinho tivesse uma margem bastante pequena. O negócio fazia-se na multiplicação. Portanto, era preciso apostar incisivamente na venda. Para tal, a estratégia era encarar cada mercado como um desafio específico. Dentro de cada país, a diversificação era muitas vezes feita com várias marcas para vários distribuidores.

Não há pruridos quanto ao tipo de embalagem, que abrange, hoje, a garrafa de vidro, o bag-in-box, a Tetra Pack ou os mais recentes pouches (ou bagnuns, bolsas de plástico de litro e meio com uma torneira, como a dos bag-in-box, e que têm a vantagem de caberem facilmente no frigorífico). Os vedantes das garrafas de vinho podem ser de rolha de cortiça inteiriça, rolha técnica ou rosca de metal. Em 2025 as roscas suplantaram a cortiça e, dentro da cortiça, 70% são rolhas técnicas.

O número de marcas foi crescendo, o número de vinhos de cada marca também. No total, são mais de 200 referências diferentes distribuídas por algumas dezenas de marcas. Perguntei a José Luís como conseguia criar tantos nomes e ele respondeu-me com simplicidade: “moro em Lisboa e todos os dias venho para a quinta. São 40 minutos para cada lado. Tenho muito tempo para pensar em nomes.” Alguns são sensacionais, como os blockbusters Red Blend (que melhor nome para um tinto de lote?) ou Duas Uvas (cujas iniciais 2U se lêem em inglês Para Ti), duas das marcas que vendem mais de dois milhões de garrafas cada uma.

As marcas “umbrella” Bons-Ventos e Lab (de Labrador) vendem, respectivamente, três e quatro milhões de garrafas, nos vários tipos de vinho, entre tintos, brancos, rosés, varietais e lotes. Todo este universo é de milhões. O vinho de produção mais pequena é o tinto topo de gama Utopia, com cerca de três mil garrafas. Das 200 referências, cerca de 40 são submetidos a estágio em barrica. Na região de Lisboa, esses vinhos estão, quer na Quinta da Boavista, quer nas instalações da vizinha Adega Cooperativa da Merceana.

 

90% da produção anual vai para 60 mercados dos cinco continentes, a qual se divide em 60% para a Europa e 40% para o resto do mundo

Exportação para 60 mercados

Globalmente, os números são impressionantes. A Casa Santos Lima produz, por ano, é de cerca de 30 milhões de garrafas, vendidos nas várias embalagens. 90% da produção é exportada, para um total de 60 mercados activos espalhados pelos cinco continentes. Na Europa, fica 60% destas vendas. O resto do mundo encaixa 40%. A percentagem de vinho vendido em garrafa é de 70%; e em bag-in-box e outros formatos é de 30%. Os mercados escandinavos têm uma forte preferência por estes últimos. Em muitos destes países nórdicos, notavelmente a Finlândia, a Casa Santos Lima tem vários lugares no top 10 dos vinhos mais vendidos, incluindo os três primeiros lugares. Os maiores mercados são Brasil, Bélgica, Canadá, Finlândia, Alemanha, Noruega, Portugal, Suécia, Reino Unido e Estados Unidos da América. Os tipos de vinho dividem-se por 77% de vinho tinto, 17% de vinho branco e 6% de rosé.

O enorme pavilhão de engarrafamento e expedição da Quinta da Boavista tem 12 mil metros quadrados e, além das linhas de engarrafamento, armazena cerca de três milhões de garrafas, quantidade que roda mensalmente, com cada peça a funcionar como um relógio. Há várias linhas de engarrafamento: uma que enche nove mil garrafas por hora, mas tem um set-up relativamente demorado, e outras duas mais lentas, usadas nos tempos mortos da principal e para marcas de mais reduzida quantidade. Muitas posições da linha tinham um trabalho desgastante, rotineiro e mecânico. Por isso, foram substituídos por robots modernos e incansáveis. Tarefas banais, como abrir uma grelha de cartão, para separar as garrafas umas das outras dentro da caixa de cartão, podem ser repetitivas e dadas a erros, para além de serem lentas, fastidiosas e desmotivantes. Se a tecnologia pode intervir e poupar aos humanos desse suplício, é bem-vinda. Os empregos não vão desaparecer, vão apenas evoluir para tarefas mais valorosas.

Um outro exemplo é o sistema robotizado para aceder ao armazém e trazer as bobinas de rótulos necessárias para os próximos engarrafamentos, parecido com o de algumas farmácias automatizadas. Muito impressionante, mesmo para uma pessoa como eu, que já visitei ao longo de décadas, muitas, muitas adegas.

 

A percentagem de vinho vendido em garrafa é de 70%. Em bag-in-box e outros formatos é de 30%

Mais de 700 hectares de vinha

O crescimento da Casa Santos Lima conduziu a investimentos sucessivos em várias regiões do país. Sob a batuta de José Luís Oliveira e Silva, o aumento da produção na região de Lisboa não fazia muito sentido, uma vez que a empresa já era responsável pela certificação de mais de metade dos vinhos da Comissão Vitivinícola da Região de Lisboa. Aliás, o mesmo é verdade para a DO Alenquer e IPR (Indicação de Proveniência Regulamentada) Algarve.

Na região de Lisboa a extensão de vinha chega aos 464 hectares. A expansão começou em 2011, com uma parceria, de longo prazo, com a Quinta de Porrais, no Douro, com o controlo de 100 hectares de vinha e consultoria enológica do famoso Xito Olazabal. Em 2013, avançaram para o Algarve, mais concretamente para próximo de Tavira, com 55 hectares de vinha. No ano seguinte, adquiriram a Quinta de Vila Verde, em Lousada, na região dos Vinhos Verdes, com 50 hectares de vinha, e fizeram uma parceria no Alentejo, com a exploração de 100 hectares de vinha, perto de Beja. Em 2022, avançaram para mais duas regiões: 18 hectares de vinha na ilha do Pico e 25 hectares de vinha em São João de Areias, no Dão. O total da área de vinha ultrapassa os 700 hectares.

Os vinhos são feitos em 12 adegas diferentes por uma equipa de 12 enólogos, aos quais se juntam enólogos estagiários na altura das vindimas. Chegaram a ser 20, mas, hoje em dia, tem sido mais difícil encontrar esse número. Segundo Vasco Martins, administrador responsável pela enologia, há algum esfriar em relação ao interesse dos jovens nestes lugares. A vindima é longa e sempre muito trabalhosa. Na Casa Santos Lima, começa em meados de Julho, no Algarve, e termina a meio de Outubro, nos Vinhos Verdes e no Dão.

A estrutura da equipa conta com dois directores que, tal como Vasco Martins, estão baseados na Quinta da Boavista. Manuel Lobo Carvalho é o responsável pelas regiões do Pico, Alentejo, Algarve, Vinhos Verdes e Dão. Hermano Veloso dirige as vindimas da região de Lisboa. Vasco Martins lidera pessoalmente as vindimas no Douro, contando ainda com a consultoria de Xito Olazabal. Além destes três, há um enólogo residente em cada região, e ainda outros dois na sede, para tratar de tarefas mais administrativas.

O desafio, obviamente, é coordenar uma equipa desta dimensão numa estrutura de produção com tamanha diversidade de locais, complexidade de terroirs e enorme variedade de marcas e vinhos de cada marca. Segundo José Luís Oliveira e Silva, para alguns vinhos de maior volume há uma base comum, que depois é adaptada para compor os lotes, que dão origem aos diferentes vinhos. O mote é sempre “atender às necessidades dos clientes e adaptar-se às rápidas mudanças nas tendências do mercado”. De “cada” mercado. Um exemplo curioso é a produção de vinho kosher, que obriga à vinda de um rabi, para dirigir todo o processo e fazer com as suas próprias mãos muitas das tarefas e manipulações necessárias. Entre tintos e brancos, contam-se já 100 mil garrafas anuais.

 

Lotes afinados e preços competitivos

As regiões têm diferentes exigências, em particular em relação ao engarrafamento. No Pico, Algarve e Douro, os vinhos são engarrafados localmente, enquanto os das outras regiões são convergidos para as adegas centrais, na zona de Alenquer, para simplificar os processos, controlar custos e optimizar a logística.

De entre as duas centenas de referências da Casa Santos Lima, na minha visita, pude provar uma amostra representativa dos vinhos, a qual me permitiu percorrer todas as regiões. Fiquei muito impressionado com a qualidade e carácter dos vinhos. Uma empresa desta dimensão tem acesso a massas vínicas excepcionais e demonstra que, com ambição e talento, é possível oferecer topos de gama que ombreiam com os melhores vinhos do país. Em algumas das denominações conseguem fazê-lo por um preço muito competitivo, seguindo a estratégia escolhida há 30 anos. Mas também é fascinante a qualidade que conseguem oferecer nos milhões de litros de vinho que fazem e muito interessante perceber que, em cada gama, os lotes são afinados para irem ao encontro de mercados específicos.

É ainda de louvar a autenticidade e respeito pelo carácter de cada uma das regiões. Muitos vinhos mostram o local de origem, apresentando uma autenticidade que vai ao encontro das expectativas e justifica a aposta em colocar mais pontos no mapa de Portugal. Os preços macios facilitam ainda a exploração da vasta gama da Casa Santos Lima, todo um prazer sensorial e intelectual.

Se alguma coisa dificulta essa tarefa é a falta de uma unidade, uma identificação, uma marca da casa. Já percebemos que isso não é defeito, é feitio. Muitos destes vinhos são concorrentes uns dos outros num determinado mercado e isso faz da gama um puzzle, que o apreciador pode tentar completar. Os enigmas são divertidos. Portanto, deixo um para o meu leitor: descobrir e provar o vinho que mais me fascinou, um prazer guloso que está descrito abaixo. Ao trabalho! Depois conte.

(Artigo publicado na edição de Fevereiro de 2026)

 

 

GRANDE PROVA BEIRA INTERIOR: Tudo o que a altitude proporciona

beira interior

Mal nos distraímos, deixamos o Douro em direcção a sul e, logo a seguir à Mêda, entramos na Beira Interior. A paisagem muda. Nessa zona específica, estamos em terrenos de planalto onde, para quem passa de carro, se torna óbvio pelo simples olhar, que “ali” parecem estar reunidas todas as condições para se fazer um […]

Mal nos distraímos, deixamos o Douro em direcção a sul e, logo a seguir à Mêda, entramos na Beira Interior. A paisagem muda. Nessa zona específica, estamos em terrenos de planalto onde, para quem passa de carro, se torna óbvio pelo simples olhar, que “ali” parecem estar reunidas todas as condições para se fazer um grande vinho: terrenos maioritariamente graníticos, que aparenta uma viticultura mais acessível, de muito menor declive, mais manobrável, por isso, mais amiga do lavrador. Em seguida, ao sair da estrada e entrando um pouco mais na paisagem longe da vista, descobrimos que ainda proliferam vinhas velhas, algumas raquíticas, seguramente todas condenadas à baixa produtividade, mas, crê-se, muito capazes de originar vinhos expressivos e com evidente classe. Depois pensamos em termos climáticos e orográficos, e entendemos tudo melhor. Afinal, estamos em altitude, onde as vinhas estão a 700 metros e não são raridades, e estamos no interior em tudo o que isso tem de específico: grandes amplitudes térmicas entre o dia e a noite, e condições óptimas para se produzirem vinhos que apostam, sobretudo, na elegância e na frescura ácida.

Porém, aqui também percebemos que não basta ter boas vinhas (ainda que velhas), uma boa paisagem, bom clima e gente com vontade de fazer bem e diferente; nesta equação tem de entrar um dado que é a verdadeira incógnita: o mercado. Ora “o mercado” e as suas leis são muito ingratos com as Beiras. Estar a sul do Douro, região que está nas bocas do mundo e nas páginas dos winewriters que proliferam por aí, e a leste do Dão, região cheia de pergaminhos, já com marcas de referência e nomes sonantes, é tudo menos fácil. É esse peso do mercado e da notoriedade que faz com que a Beira Interior tenha um patamar de preços de venda que, se por um lado podem ser interessantes para o consumidor, por outro sabemos que não puxam a região para a vanguarda dos vinhos portugueses. É uma batalha permanente, um work in progresso, como dizem os ingleses.

Ao todo, incluindo vinhos DOC e IG, a responsabilidade da produção recai sobre 81 produtores.

 

Do Douro a Castelo Branco

A região é extensa e, segundo informação da Comissão Vitivinícola Regional (CVR) da Beira Interior, a vinha espraia-se por 11 654 hectares, sendo possível dividi-la em três zonas. De norte para sul temos, em acentuada proximidade do Douro, a região de Pinhel e, colada a esta, a região de Castelo Rodrigo. São zonas de altitude média elevada, 650 metros, em Pinhel, e de 600 a 750 metros, em Castelo Rodrigo, de clima seco, com invernos frios e rigorosos, onde a neve é visita habitual, enquanto no Verão as amplitudes térmicas são elevadas, com os calores diurnos a serem compensados pelas noites frias, um fenómeno que todo o enólogo aprecia pelo equilíbrio que proporciona à maturação das uvas.

Mais para sul temos a Cova da Beira, a maior das três zonas em área, com a imponente serra da Estrela a delimitá-la a norte. Menos radical, podemos dizer assim, por se apresentar mais moderada nas variações, quer de temperatura quer de precipitação. Olhando para o mapa da Beira Interior, verificamos que há largas faixas de terreno que não estão contempladas nestas três sub-regiões. Por conseguinte, não têm direito a serem DOC Beira Interior, embora possam ostentar a designação de vinho regional, aqui chamado de IG Terras da Beira. Ao todo, incluindo vinhos DOC e IG, a responsabilidade da produção recai sobre 81 produtores. A prova que fizemos incluiu brancos e tintos, uma originalidade, mas que teve o mérito de permitir aferir se há produtores que se destaquem em ambos os modelos, o que de facto aconteceu.

Nestas terras do interior, a vinha, exactamente porque está longe das luzes da ribalta, mantém um perfil que ainda é tributário de um desenho antigo. Expliquemo-nos: aqui como em todo o resto do país vinhateiro, a tradição impôs o plantio de vinha a eito, com castas misturadas e, não raramente, com uvas brancas no meio das tintas, algumas delas de uvas de mesa. A razão era aqui a mesma das outras regiões: como a vindima era feita, também ela a eito, colhiam-se algumas uvas um pouco mais verdes, que forneciam mais acidez e outras eventualmente em estado demasiado maduro, mas que contribuíam com mais açúcar, logo, com mais potencial alcoólico. Porém, havia uma outra razão, muito importante, convenhamos: como a vinha é uma empresa a céu aberto e está sujeita às agruras do clima, o produtor percebeu que umas eram mais atreitas a doenças e poderiam não se darem bem; outras, por força na chuva, na altura errada, tinham desavinhado, além de outros imponderáveis. Desta forma, ao ter as castas misturadas na vinha, havia sempre a possibilidade de “umas se darem bem e as outras não”, salvando-se, desta forma, a produção anual.

Esta é a cartada segura da Beira Interior. Assim se saiba preservar estes velhos vinhedos que, não só contribuem para a preservação genética, como são o factor identitário que marca a região. As castas estrangeiras podem estar cá, todavia não acrescentam nada, tal como a proliferação de castas do Douro, que pode ser igualmente questionada. Não há que ter atitudes radicais em relação a este tema, porque o vinho é um negócio e o produtor tem de se adaptar ao gosto do mercado e procurar produzir aquilo que possa ser mais rentável. É um verdadeiro tabuleiro de xadrez em que precisamos saber como mover as peças, quais são os peões e por onde anda o Rei para não ser “comido” sem dar por isso.

beira interior

 

Nota-se uma aposta em vinhos mais abertos de cor, menos marcados pela madeira e menos alcoólicos, em resposta ao mercado e ao gosto actuais

 

As castas e o clima delas

Comecemos pelo clima e vamos reforçar aqui o que acima afirmámos: a altitude, a temperatura e a variação dia/noite faz com a que a Beira beneficie da interioridade e esteja menos sujeita às doenças da vinha, por força da menor presença de humidade. Há, neste factor, uma enorme vantagem, uma vez que aqui é mais fácil produzir uvas, quer em protecção integrada quer em modo biológico, o que ajuda a uma melhor sustentabilidade ambiental, contribuindo para solos mais saudáveis.

As uvas que por cá se plantam são de tipo variado. Em primeiro lugar, destacamos aquelas variedades, como a tinta Rufete (conhecida no Dão como Tinta Pinheira) e as brancas Fonte Cal (de que a Beira é quase território único) e Síria (a Roupeiro do Alentejo). A solo ou em lote, estas castas têm a marca que, por norma, atribuímos à região: mineralidade, frescura e delicadeza de fruta. No caso da tinta Rufete, que muito sofreu na época em que só se procurava cor e extracção nos tintos, confere uma forte marca de vegetal seco que remete a fruta para segundo plano, mas funciona como cartão de identidade, gerando vinhos abertos de cor, os verdadeiros “Pinot Noir à portuguesa”.

Naturalmente que outras variedades surgiram como companheiras de aventura destas variedades tradicionais: nas brancas, a Arinto, a Fernão Pires ou a Malvasia Fina e, nos tintos, a Touriga Nacional, a Trincadeira, a Touriga Francesa e a Tinta Roriz. Há ainda apontamentos de castas internacionais, como a ubíqua Chardonnay, além da Riesling e, nos tintos, Cabernet Sauvignon, Syrah e Merlot.

O painel de prova demostrou uma grande diversidade de estilos e nota-se claramente uma aposta em vinhos mais abertos de cor, menos marcados pela madeira, menos alcoólicos, correspondendo a um certo chamamento do mercado e do gosto actuais. Por último, é de salientar que em termos de preços, os vinhos apresentam uma paleta alargada de escolhas, mas, em geral, são bem amigos do consumidor.

(Artigo publicado na edição de Fevereiro de 2026)

OS BRANCOS:

 

OS TINTOS:

Editorial: Os Melhores do Ano

editorial

Editorial da edição nrº 107 (Março de 2026) Março é o mês dos prémios Grandes Escolhas, este ano na sua 9ª edição. Na verdade, para vários dos membros desta equipa redactorial, em particular os mais antigos, esta é a 29ª vez que passamos por este momento, sempre tão especial, em que escolhemos vinhos, pessoas, empresas […]

Editorial da edição nrº 107 (Março de 2026)

Março é o mês dos prémios Grandes Escolhas, este ano na sua 9ª edição. Na verdade, para vários dos membros desta equipa redactorial, em particular os mais antigos, esta é a 29ª vez que passamos por este momento, sempre tão especial, em que escolhemos vinhos, pessoas, empresas e projectos, premiando o talento, a iniciativa, o pioneirismo, a visão, o saber fazer.

Os muitos anos que já levamos a desempenhar esta tarefa não atenuam, longe disso, a dificuldade da escolha. Pelo contrário: parece que é cada vez mais complicado destacar este em detrimento daquele; parece que, no final, apurados os vencedores, ficam cada vez mais nomes de fora, nomes para os quais olhamos com a sensação de que a sua ausência da lista de premiados é, de alguma forma, injusta. Resta-nos o conforto de saber que isso se deve à abundância de qualidade no sector do vinho em Portugal. E a consciência de que, dentro da subjectividade da escolha, demos o nosso melhor, com rigor e independência.

Entre os muitos milhares de vinhos provados em 2025 destacamos o já habitual Top30. E aos provadores foi dada a tarefa adicional de propor e votar os vencedores em cada categoria. Ficaram cinco nomes em quase cinco mil! Nomes inquestionáveis, sem dúvida, pela sua qualidade e personalidade: o espumante Quinta das Bágeiras Grande Reserva 2020; o branco Anselmo Mendes A Torre 2019; o rosé Phenomena 2024; o tinto Casa da Passarella Vindima 2014; o fortificado Kopke Tawny 80 anos.
Vinhos que ganham em ser servidos a uma boa mesa e por mãos sabedoras. Mesas como as dos restaurantes SÁLA, em Lisboa, Colmeia, na Guarda, ou Amassa, em Santarém, vencedores nas suas categorias. E mãos como as da somellière Nádia Desidério, que faz do serviço de vinhos uma arte. A garrafeira A Casa, em Alcobaça, acentua a descentralização dos espaços de excelência dedicados aos apreciadores, enquanto a loja Mercearia Criativa e o wine bar Prova mantêm Lisboa e Porto no mapa das coisas boas.

A investigadora Olga Cavaleiro viu o seu vasto trabalho em torno da cozinha portuguesa merecedor do prémio “David Lopes Ramos”. Já a Rota da Bairrada colocou uma região a pensar o enoturismo de forma integrada e o grupo Vignerons de Portugal passou uma mensagem de grande impacto: fazer vinhos apenas com as nossas uvas, na nossa adega, faz diferença. Diferença também evidente nos vinhos açorianos Materramenta, prémio Singularidade. Pelo trabalho de recuperação das castas antigas do Dão (já provaram o branco de Luzidio ou o tinto de Coração de Galo?) foi destacada a Lusovini.

No que a produtores respeita, em apenas dois anos, a família Leitão Machado trouxe Altas Quintas de regresso à ribalta; a Quinta da Rede revelou-nos o lado mais “atlântico” do Douro, fresco e vibrante; a histórica Borges reafirmou-se com uma dinâmica e consistência invejáveis; com o projecto Raízes, a CARMIM revelou ambição e posicionamento invulgares numa adega cooperativa; e a Real Companhia Velha apresentou um notável portefólio de tawnies.

Por fim, aqueles que fazem acontecer os vinhos. Pessoas como a enóloga Marta Lourenço, que faz a ponte entre o passado e o futuro nas emblemáticas Murganheira e Raposeira; ou Francisco Albuquerque, criador e guardião de inesquecíveis Madeira; ou o grande, enorme Senhor do Vinho, pelo conhecimento, responsabilidade, forma de estar na vida, que é António Ventura.
Termino com uma nota pessoal.

Este é o meu último editorial, enquanto director de uma publicação de vinhos. Como apontamento curioso, tem o número 433, correspondendo a outros tantos meses. Terei agora mais tempo para escrever crónicas, artigos de opinião, reportagens, notas de prova, entrevistas. Vai saber-me muito bem. L.L.

A cerimónia de entrega dos Prémios Grandes Escolhas “Os Melhores do Ano” decorreu no dia 6 de Março, no Centro de Congressos do Estoril.

Foi uma noite de surpresas e revelações! A boa disposição esteve presente em todos os convidados e tal como habitualmente, é sempre uma oportunidade para reunir muita gente do sector.

Consulte AQUI as listas dos premiados e as imagens da grande festa.

 

 

 

 

 

Chef Diogo Rocha leva assinatura à ilha de Porto Santo

Diogo Rocha

Conhecido do grande público através do programa televisivo Masterchef, reconhecido pelo trabalho consolidado no Mesa de Lemos, o restaurante da Quinta de Lemos, propriedade vitivinícola localizada em Silgueiros, no Dão, e que marcou presença no Showcooking Sabores ao Centro, da edição de 2025 da feira Vinhos & Sabores, da Revista Grandes Escolhas, Diogo Rocha está […]

Conhecido do grande público através do programa televisivo Masterchef, reconhecido pelo trabalho consolidado no Mesa de Lemos, o restaurante da Quinta de Lemos, propriedade vitivinícola localizada em Silgueiros, no Dão, e que marcou presença no Showcooking Sabores ao Centro, da edição de 2025 da feira Vinhos & Sabores, da Revista Grandes Escolhas, Diogo Rocha está a caminho da ilha de Porto Santo, para lá deixar a sua assinatura. Mais concretamente no ORIGO 34, onde vai assumir a função de Chef Consultor e contar com o Chef Executivo Manuel Santos, que irá assegurar o dia a dia da cozinha deste espaço de restauração integrado no Legacy Ithos Boutique Hotel, unidade de luxo do Grupo Vila Baleira Hotels & Resorts, com 28 quartos e suítes.

Objectivo? “Valorizar o mar, os produtos da ilha e a cultura portuguesa através de uma cozinha com maturidade, autenticidade e propósito”, segundo o comunicado, até porque “em Porto Santo, encontramos um território de identidade única, que nos inspira a criar uma experiência gastronómica capaz de se afirmar a nível nacional e internacional”, acrescenta o Chef Diogo Rocha.

Localizado nas dunas e com vista privilegiada sobre o oceano Atlântico, o ORIGO 34 dispõe de 40 lugares no interior e 80 no exterior, com a promessa de ser, de acordo com o comunicado, “um ponto de encontro para quem acompanha o percurso de Diogo Rocha”.

Nova identidade visual da Quinta do Ataíde

Ataide

Ilustrações inspiradas na flora autóctone, logótipo orgânico “A” e elementos gráficos evocativos da adega da Quinta do Ataíde, da Symington Family Estates, distinguida com certificação LEED Gold, fazem, agora, parte da nova imagem da referência homónima, um lote constituído pelas castas Touriga Nacional, Touriga Franca e Alicante Bouschet, e da Vinha do Arco, o monovarietal […]

Ilustrações inspiradas na flora autóctone, logótipo orgânico “A” e elementos gráficos evocativos da adega da Quinta do Ataíde, da Symington Family Estates, distinguida com certificação LEED Gold, fazem, agora, parte da nova imagem da referência homónima, um lote constituído pelas castas Touriga Nacional, Touriga Franca e Alicante Bouschet, e da Vinha do Arco, o monovarietal de Touriga Nacional. Localizada no Vale da Vilariça, esta propriedade duriense “destaca-se por integrar a maior área contínua de vinha certificada em modo biológico no norte do país, consolidando a sua liderança em práticas agrícolas responsáveis”, de acordo com o comunicado.

“Estamos entusiasmados por revelar a nova imagem da Quinta do Ataíde, que representa muito mais do que uma actualização visual. É uma expressão clara do nosso compromisso com a sustentabilidade, a inovação e a autenticidade, pilares que definem não apenas a marca, mas toda a nossa visão para o futuro. Mais do que lançar uma imagem, queremos partilhar uma narrativa genuína de herança e sustentabilidade com os consumidores conscientes e exigentes. A Quinta do Ataíde reflecte o que a Symington Family Estates acredita ser essencial: excelência, confiança e respeito pelo meio ambiente.” Refere, em comunicado, Alexandre Mariz, Brand Manager na Symington Family Estates.

Ataide

Nova liderança na Grandes Escolhas projecta inovação e garante continuidade

Grandes Escolhas

A Grandes Escolhas comunica a actualização da sua estrutura empresarial, dando continuidade ao seu percurso e trabalho consolidado ao longo dos anos. As mudanças agora formalizadas resultam da decisão de João Geirinhas e Luís Lopes, os seus membros mais experientes, de abrandarem o ritmo e assegurarem, ao mesmo tempo, um novo ciclo na gestão e […]

A Grandes Escolhas comunica a actualização da sua estrutura empresarial, dando continuidade ao seu percurso e trabalho consolidado ao longo dos anos. As mudanças agora formalizadas resultam da decisão de João Geirinhas e Luís Lopes, os seus membros mais experientes, de abrandarem o ritmo e assegurarem, ao mesmo tempo, um novo ciclo na gestão e direcção da empresa e da revista.

João Geirinhas, sócio fundador, que desempenhou ao longo de décadas as funções de director de negócio e gerente, retira-se das funções executivas, mas continuará a integrar a empresa enquanto sócio e também como colaborador editorial, mantendo a ligação histórica ao projecto.

Fernando Gomes e Ana Ruivo, também sócios fundadores, e que anteriormente partilhavam as responsabilidades de gerência com João Geirinhas, permanecem nas suas funções, assegurando a continuidade da liderança e a Direcção Executiva da empresa.

Na área operacional, João Albino assume a Direcção de Eventos, reforçando uma vertente central da actividade da Grandes Escolhas, trazendo nova energia e inovação ao departamento. Licenciado em Economia e com duas pós‑graduações – uma em Wine Business Management, da Católica Lisbon School of Business Economics, e outra em International Hotel Management, na Escola Superior de Hotelaria e Turismo do Estoril – bem como o WSET nível 3, João Albino é agora o responsável pela coordenação dos eventos organizados pela empresa.

Na área editorial, passam a ser formalizadas as alterações já anunciadas. A partir de 1 de Março, a Direcção Editorial fica a cargo de Valéria Zeferino, colaboradora de longa data da redacção, cuja experiência e profundo conhecimento da publicação garantirão uma transição natural e coerente.

João Geirinhas e Luís Lopes, fundadores da Grandes Escolhas, manterão uma estreita ligação editorial e criativa, continuando a escrever, provar, participar e desenvolver projectos. Embora deixem as funções executivas diárias, permanecem como pilares de identidade e inspiração na evolução da revista.

Prémios Grandes Escolhas «Os Melhores do Ano» dia 6 de Março no Estoril

prémios

Os Prémios Grandes Escolhas definem-se como a celebração do que melhor se faz em cada ano na área dos vinhos e da gastronomia em Portugal. Têm como objectivo o reconhecimento da excelência do trabalho no sector, premiando anualmente os melhores vinhos, os melhores profissionais, empresas, produtores,restaurantes, garrafeiras e instituições que mais se distinguiram, segundo os critérios editoriais […]

Os Prémios Grandes Escolhas definem-se como a celebração do que melhor se faz em cada ano na área dos vinhos e da gastronomia em Portugal.

Têm como objectivo o reconhecimento da excelência do trabalho no sector, premiando anualmente os melhores vinhos, os melhores profissionais, empresas, produtores,restaurantes, garrafeiras e instituições que mais se distinguiram, segundo os critérios editoriais da revista.

Em 2026 o Jantar de Gala volta a realizar-se em Lisboa, mais especificamente no Centro de Congressos do Estoril, com centenas de convidados presentes no dia 6 de Março.

No que se refere aos vinhos, a grande espectativa é mais uma vez revelar o Top 30, aqueles que o conjunto de provadores e críticos da Grandes Escolhas consideram serem os 30 melhores vinhos absolutos provados durante o ano 2025, e dentro destes, qual o melhor espumante, o melhor vinho branco, rosé, tinto e fortificado. Ainda nos vinhos são também anunciados os melhores em cada região, aquilo que a revista designa como “Os Melhores de Portugal”.

Já no que se refere aos Troféus Grandes Escolhas, serão anunciados no final do jantar os 20 Prémios Especiais, cobrindo as áreas da viticultura, da enologia, da performance dos produtores e das empresas, com assim como sommeliers e restaurantes. Em qualquer destes domínios a equipa da Grandes Escolhas escolhe por consenso os premiados que mais se distinguiram no ano transacto nas seguintes categorias:

 

pémios

 

Esta cerimónia de anúncio dos Prémios Grandes Escolhas relativos ao ano 2025 continuará a ser divulgada online (pode assistir AQUI) e poderá ser seguida em directo por todos os interessados. Fica desde já o convite!