RESTAURANTE TOUTA: Do Líbano, com amor

Aberto no princípio de 2024, o Touta trouxe a Lisboa uma cozinha de inspiração libanesa, trabalhada com técnicas francesas e com vasta utilização de ingredientes locais. São os sabores da cozinha mediterrânica num mosaico colorido, leve e bastante criativo. Fundado pela Chef Cynthia Bitar e por Rita Abou Ghazale, responsável pela sala, o conceito afasta-se […]
Aberto no princípio de 2024, o Touta trouxe a Lisboa uma cozinha de inspiração libanesa, trabalhada com técnicas francesas e com vasta utilização de ingredientes locais. São os sabores da cozinha mediterrânica num mosaico colorido, leve e bastante criativo. Fundado pela Chef Cynthia Bitar e por Rita Abou Ghazale, responsável pela sala, o conceito afasta-se um pouco do registo tradicional do Médio Oriente, para oferecer uma reinterpretação contemporânea que cruza memórias e lugares do percurso da Chef. E não falta currículo a Cyntia Bitar. Primeiro pela herança, já que é filha de uma das mais conhecidas e pioneiras chefs femininas do Líbano, Nazira Bitar, depois pela formação, no prestigiado Instituto Paul Bocuse, em Lyon, e finalmente pelo trajecto acumulado ao longo dos seus 27 anos de experiência profissional. Começou por visitar Portugal como turista e depressa se deixou encantar pelo país e pelo produto português. Daí a ter aberto o Touta (petit nom da chef) entre a Estrela e Campo de Ourique, foi um passo.
O espaço divide-se em duas salas, sendo que a primeira, à entrada, tem cozinha à vista; e a segunda, separada por um pequeno corredor, é mais tranquila. Ao fundo uma pequena mercearia com produtos libaneses ou produzidos no restaurante. A decoração é simples, mas acolhedora e relaxante. A proposta apresentada aos clientes consubstancia-se numa ementa equilibrada pela importação de alguns produtos artesanais libaneses, com o uso de matéria prima local de pequenos produtores portugueses. O resultado é uma experiência gratificante, ainda para mais com a simpática ajuda de Rita Abou Ghazale que, pese embora as dificuldades de comunicação em português, nos conduz com mão segura numa viagem pelo menu (sazonal), que, de outra forma, poderia causar constrangimentos ao ouvido português.
E foi pelas mãos e conselhos de Rita que mergulhámos pela primeira vez nesta gastronomia de inspiração libanesa. Começámos por um croquete de batata com carne de vaca picada, cebola, com cobertura de couve e ketchup de beterraba, de sabor equilibrado e textura fofa e húmida. Seguiu-se uma ostra do Algarve, com gaspacho de fattoush (salada típica libanesa elaborada com diferentes verduras e legumes) e cubos de pão libanês frito. Não podíamos passar sem uma das entradas míticas da casa: o hommos feito a partir de pinhões de Alcácer do Sal, azeite infusionado com sujuk (salsicha curada), ervas aromáticas e pão libanês. Muito bem conseguido, com sabor suave, mas, ao mesmo tempo, profundo e visualmente muito atraente. Nas entradas ainda se provaram espargos brancos fumados com freekeh turfado (tipo couscous de trigo duro). Agradável, mas talvez o menos impactante de tudo o que provámos. Veio depois um tártaro de novilho maturado, kafta, com ervas frescas acompanhado, à parte, por cubos de batata frita em gordura de vaca. Muito bom o contraste entre a frescura ácida do tártaro e a batata crocante. A paixão da Chef Cynthia Bitar pelos produtos portugueses ficou patente pela proposta seguinte, Provençale de seu nome, que nada mais era que uma fresquíssima lula dos Açores grelhada com gnocchi de açorda e emulsão de coentros e limão, num hino à fusão de cozinhas e sabores de inspiração mediterrânicos. Para acabar o desfile dos pratos principais, não podia faltar o borrego, saff, em modo confitado, com bulgur e grão-de-bico, com couve fermentada. Houve ainda espaço para a sobremesa, uma Dacquoise, um creme emulsionado com zaatar (especiaria aromatizante) curd de maracujá, pontuado por limão e morango.
Assinale-se ainda como positivo a carta de vinhos, com várias propostas libanesas e algumas portuguesas de pequenos produtores, com o senão de ser raro encontrar opções por menos de 30€. Apesar da sua extensão, este menu resulta numa combinação leve, mas com sabores intensos onde as especiarias árabes tradicionais assumem um papel de destaque, texturas surpreendentes, tudo isto servido por uma técnica exemplar.
Touta
Rua Domingos Sequeira, 38, Lisboa
Tel.: 960 494 949
Horário: de Terça-feira a Sábado, das 19h30 às 23h00
Preço médio: €45
Está aberta a época do piquenique

Com a chegada do verão, o Ventozelo Hotel & Quinta, em São João da Pesqueira, apresenta uma nova oferta: os piqueniques. Confeccionados diariamente pela equipa do restaurante Cantina de Ventozelo, os piqueniques incluem uma seleção de produtos durienses, além de frutas, hortícolas e vinhos colhidos da horta da quinta. As opções são variadas: folar de […]
Com a chegada do verão, o Ventozelo Hotel & Quinta, em São João da Pesqueira, apresenta uma nova oferta: os piqueniques. Confeccionados diariamente pela equipa do restaurante Cantina de Ventozelo, os piqueniques incluem uma seleção de produtos durienses, além de frutas, hortícolas e vinhos colhidos da horta da quinta. As opções são variadas: folar de Vila Real, queijos e compota, sanduíche de rosbife com mostarda, salada de batata e pimentos, fruta da época, bolo caseiro, entre outros. A harmonização cabe ao vinho da Quinta de Ventozelo: uma monocasta branco, tinto ou rosé e outra de Vinho do Porto. Água aromatizada e café fazem parte deste alinhamento gastronómico descontraído. Depois há que escolher um dos cinco novos pontos preparados para estes repastos. Mesas, cadeirões, almofadas e mantas fazem parte da mise en scène, acompanhada de conversas prolongadas e de uma boa sesta ou de um mergulho no rio Douro.
A celebração das tradições durienses estende-se a outras experiências desenvolvidas no âmbito do programa de actividades do Ventozelo Hotel & Quinta, que dispõe de 29 opções distintas de alojamento (a partir de 180 € por noite).
O piquenique (€155, para duas pessoas) está disponível entre as 12h00 e as 18h00 e exige reserva através do email actividades@quintadeventozelo.pt.
GRANDE PROVA: ROSÉS A MENOS DE €15

Após tantos artigos que dedicamos aos rosés e depois de provar centenas de vinhos, chegámos finalmente à explicação a respeito da razão pela qual alguns consumidores ainda não privilegiam este tipo maravilhoso de vinho ou, pelo menos, que o relegam para segundo plano. Não, não é apenas o antigo o imaginário do rosé nacional, que […]
Após tantos artigos que dedicamos aos rosés e depois de provar centenas de vinhos, chegámos finalmente à explicação a respeito da razão pela qual alguns consumidores ainda não privilegiam este tipo maravilhoso de vinho ou, pelo menos, que o relegam para segundo plano. Não, não é apenas o antigo o imaginário do rosé nacional, que se assemelhava a uma sangria de vinho tinto, de acidez corrigida, com 10 gramas de açúcar por litro e gás carbónico. Não, não é pela fama dos rosés evoluírem mal em garrafa, pois são vários os exemplos mundiais – Viña Tondonia desde logo, mas também os clássicos de Bandol, como Domaine Tempier e Château de Pibarnon – e nacionais – Redoma, da Niepoort, Nélita, da Quinta de Lemos, ou o Reserva, da Quinta do Monte de Ouro – em que os vinhos têm uma evolução positiva em complexidade e seriedade.
E não, não é o preconceito de se tratar de vinho leve, posto que uma das principais modas atuais é precisamente tintos mais leves e abertos. E também não é que o seu consumo se deva restringir ao verão, já que o mesmo se poderia dizer dos champagnes e espumantes. A principal razão é, isso sim, o carácter residual para o qual o rosé foi relegado e que pode ser resumido numa frase dita por um amigo (que é, simultaneamente, um grande provador): “não há nada que goste num rosé que um grande branco não consiga entregar ou até superar”. Explico-me, de seguida.
Como é sabido, durante muitos anos, desde a antiguidade até há menos de um século, a cor dos vinhos era fluída e variada. Fosse por as vinhas com uva branca e tinta estarem coassociadas, fosse por fazer-se muito vinho branco com uvas tintas e sem o aperfeiçoamento da técnica aprimorada de bica aberta ou, simplesmente, por se misturar vinho branco e tinto, e tudo o mais. Até ao início do século XX não havia, portanto, nenhum tipo de preconceito quanto a tonalidades, sendo que a maior parte dos vinhos tintos tinham a famosa cor de petroleiro, de acobreados, de tão ligeiros que eram. Por sua vez, grande parte dos brancos nasciam logo carregados na cor, fosse por excesso de oxidação na vinificação, fosse apenas pela curtimenta.
Durante o século passado, com a viticultura moderna e, sobretudo, com a enologia profissional, os brancos ficaram mais claros e brilhantes, enquanto os tintos se tornaram mais concentrados e escuros. Uma das consequências trazida por esta divisão binária foi a de deportar os vinhos rosados, palhetes e claretes para uma categoria residual.
O que o vinho rosé precisa é que façamos com ele um trato, um acordo sagrado. Que nos lembraremos dele sempre que nos sentamos à mesa
Diversidade na produção
Sucede que, como já escrevemos noutras peças, a vinificação de um vinho rosé não perde em técnica ou rigor para os restantes tipos de vinho. Pelo contrário. Com efeito, a atenção na adega é permanente, desde a definição do nível ótimo de extração e prensa (de preferência, utilizando apenas o mosto lágrima) à temperatura de fermentação escolhida. Na mesma linha está a opção pela bâtonnage (agitação das borras), podendo-se eleger uma menor influência de oxigénio ou, em contrapartida, permitir alguma oxidação que ajude a proteger o vinho, contribuindo para uma maior longevidade, evitando-se aromas excessivamente frutados. Pode-se misturar parte do mosto de tinto sangrado com outra parte constituída por um rosé de bica aberta ou mosto de tinto sangrado prensado com as películas de vinho branco, sendo fermentado a posteriori, por exemplo numa pipa, com ou sem tampo, sendo que alguns dos melhores rosés nacionais fermentam, parcial ou totalmente, em barrica. Complexidade não falta, como se vê. O mesmo rigor é implementado no que respeita a castas, sendo eleitas uvas de variedades consagradas. É o caso evidente dos rosés do Douro e Dão – e até no Alentejo –, da Baga, na Bairrada, e do Moscatel Roxo, na Península de Setúbal e Palmela.
Em suma, no nosso território produzem-se excelentes rosés com recurso às mais variadas castas. No entanto, em alguns casos, são variedades menos evidentes do que as utilizadas na produção de tintos, essencialmente por serem uvas colhidas, por regra, mais cedo e, muitas vezes, sem que a maturação fenólica esteja completa.
Harmonizações aprimoradas
Mas então, para além da cor, o que mais contribuiu para o referido carácter residual para o qual foi atirado o vinho rosé? A resposta é: a ligação à gastronomia! Efetivamente, muito se escreve sobre a maridagem entre vinhos brancos e peixe, marisco, ostras e saladas. Surgiram enciclopédias que esmiuçam os segredos da harmonização de vinhos tintos com carnes vermelhas assadas, com molhos ou em tártaro. Neste frenesim binário não se evitaram erros crassos identificáveis por um palato sem vícios, como a de sugerir vinho tinto a acompanhar queijos curados ou caril picante.
Enquanto se debatia sobre combinações de sabores entre comida e vinhos, o rosé foi deixado de lado, carecendo de uma motivação ou fundamentação – quase sempre fútil – para ser consumido. A única justificação? Degustar o rosé à beira da piscina, numa festa de jardim ou num piquenique com a invocação da Provence, a famosa região do sul da França. É como se imperasse uma razão para o abrir… O impulso imponderado e, tantas vezes, espontâneo que nos leva a abrir um vinho branco nos dias quentes ou um tinto no inverno, transforma-se em reflexão profunda (quando não numa meditação filosófica) sobre se devemos ou não abrir um rosé e por que o deveremos fazer. Que falta de imaginação e que desperdício!
O que o vinho rosé precisa é que façamos com ele um trato, um acordo sagrado. Que nos lembraremos dele sempre que nos sentamos à mesa, para comer, seja pratos de carne ou peixe, ou à base de outros produtos. É o que faço em casa, onde tenho sempre um frigorífico (que não uma cave de vinhos) exclusivamente cheio de bons vinhos brancos e rosés, dispondo-os enquanto cozinho ou provo um conjunto alargado de comidas.
É o rosé a minha primeira escolha para um cremoso bacalhau à Brás, para um violento chacuti de borrego, mas também para uma elegante casquinha de caranguejo, uma paella reforçada com molejas, para um sofisticado risoto de vieiras ou um sushi exótico. Se for mais carregado na cor e no perfil (podendo até, em parte, resultar de sangria), será o meu predileto para acompanhar uns ovos rotos, um tártaro ou outro cru de boi, uma quiche de carne, uma pizza com salame picante e rúcula, uma salada de cogumelos, entre tantos outros pratos que “pediriam” mais umas quantas linhas nesta peça, com o propósito de firmar o ponto que entendo ser mais relevante.
Temos de os abrir, mais e mais, sobretudo quando Portugal tem, hoje, dezenas de rosés a um nível muito alto e que em nada ficam atrás ao que melhor se faz nos restantes países produtores (não conheço muitos rosés espanhóis ou italianos, australianos, americanos ou argentinos que nos façam frente). Àqueles que gostam de rosés, peço que o assumam junto dos demais à mesa. A quem raramente se lembram deste tipo de vinho, memorizem que, com tantos pratos, como alguns dos mencionados atrás, é mesmo o rosé a melhor, quando não a única combinação possível à mesa!
(Artigo publicado na edição de Maio de 2026)
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LAMINA: Do focinho à cauda

No mesmo espaço onde funcionou a Lota d’Avila, o Lamina (sem acento, um anagrama de animal), o novo desafio do Chef Vasco Coelho Santos (Euskalduna, no Porto), que conta com a companhia da jovem Chef Executiva Inês Azevedo, propõe uma abordagem culinária assente no conceito nose to tail (do focinho à cauda). A ideia defende […]
No mesmo espaço onde funcionou a Lota d’Avila, o Lamina (sem acento, um anagrama de animal), o novo desafio do Chef Vasco Coelho Santos (Euskalduna, no Porto), que conta com a companhia da jovem Chef Executiva Inês Azevedo, propõe uma abordagem culinária assente no conceito nose to tail (do focinho à cauda). A ideia defende o aproveitamento integral do animal sem desperdiçar absolutamente nada. Esta prática, baseada em princípios éticos e ambientais – se sacrificamos o animal para a nossa alimentação, devemos respeitá-lo e consumi-lo integralmente – não é, afinal, estranha à tradição gastronómica portuguesa. Veja-se o aproveitamento que fazemos do porco e pense-se num prato icónico, como o cozido à portuguesa. Talvez por isso, a cozinha do Lamina nos cative ao primeiro contacto e nos pareça tão familiar.
O aproveitamento, tanto dos cortes mais nobres, como daqueles que já não vemos muito na nossa restauração, fazem despertar memórias que julgávamos esquecidas. Do porco, por exemplo, utiliza-se a orelha (em modo crocante, cortada na mesa à tesoura!), a barriga, a costela, fazem-se torresmos; da vaca, a língua (fumada, em fatias finíssimas), as bochechas, enquanto os ossos e aparas são usados para molhos e fundos. Em que outro lugar podemos comer uma espetada de coraçõezinhos com molho verde ou batata nas cinzas com ovas de bacalhau e molho tara?
Embora, no Lamina, haja um evidente convite para a partilha destes e de outros acepipes, os pratos mais substanciais também são ponto forte, como os arrozes caldosos, tanto de peixe como de carne (provámos um fabuloso de rabo de boi!), os peixes e carnes grelhados, num evidente domínio da técnica do fogo um dos eixos do restaurante. Destaque ainda para as sobremesas, onde Vasco Coelho Santos não resistiu a trazer do seu Euskalduna portuense a famosa rabanada, aqui com outra companhia de respeito, uma vistosa tarte Tatin, pesadelo para qualquer tentativa de dieta.
O Lamina é um espaço acolhedor, de decoração luminosa, embora pareça muito mais reduzido do que em anteriores versões, porque houve a opção de o dividir em duas salas. A primeira, com entrada direta a partir da rua, com 30 lugares e cozinha à vista, a que se juntará, em breve, uma generosa esplanada, é a que está disponível par o serviço diário; na outra, interior, com 36 lugares, há uma estufa e será palco de várias iniciativas, como workshops temáticos ou demonstrações gastronómicas. É importante sublinhar que o Lamina faz os próprios fumados que, além de consumidos no restaurante, tem como objectivo serem comprados na pequena mercearia integrada neste espaço.
Merece destaque, nos tempos que correm, os preços moderados das propostas da ementa: os petiscos entre €4 e €14, os pratos de tacho a €38, para duas pessoas, e as sobremesas a €7. Infelizmente, o mesmo já não podemos dizer dos vinhos que seguem a tendência habitual, embora aqui atenuada pelas várias opções que existem a copo.
Av. Duque d’Avila, 42 B, Lisboa
Tel.: 963 323 869
Horário: de Segunda a Sexta-feira, das 12h30 às 15h30 e das 19h00 às 23h00
Preço médio: 30€
QUEVEDO WINES: Friendology forever e o Legado de 1986

Durante mais de cinco gerações, os antepassados de Óscar e Cláudia Quevedo – representantes da quinta geração e que estão, hoje, à frente do projeto –, dedicaram-se ao cultivo da vinha. As primeiras terão sido plantadas em 1889, em Valongo dos Azeites, no concelho de São João da Pesqueira, onde se encontra a sede e a […]
Durante mais de cinco gerações, os antepassados de Óscar e Cláudia Quevedo – representantes da quinta geração e que estão, hoje, à frente do projeto –, dedicaram-se ao cultivo da vinha. As primeiras terão sido plantadas em 1889, em Valongo dos Azeites, no concelho de São João da Pesqueira, onde se encontra a sede e a adega desta empresa familiar. Até meados da década de 80 do século passado, produziam uva e vinho a granel, que posteriormente era vendido às grandes companhias exportadoras sediadas em Vila Nova de Gaia. Sobretudo Vinho do Porto.
Ao longo dos anos, a família cultivou 100 hectares de vinha e 25 hectares de olival biológico, legado preservado amiúde. Só em 1993 é que a marca Quevedo foi oficialmente fundada, marcando uma nova era para a família, que começou a engarrafar vinhos do Porto com o próprio rótulo, graças à entrada do país, em 1986, na então Comunidade Económica Europeia (atual União Europeia). “É a União Europeia [UE] que obriga Portugal a alterar a legislação. Uma lei que vem da demarcação da região instituída pelo Marquês de Pombal, em 1776! Portanto, quando Portugal adere à UE, tudo se altera. Aparece um grande grupo de pequenos produtores – nós inclusive –, que muda para sempre a região e está, hoje, a produzir em nome próprio, e a levar o nome do Douro e a marca Vinho do Porto por este mundo fora” afirma Óscar Quevedo.
De facto, este marco histórico traz consigo uma enorme mudança legislativa para a região: o fim do “Entreposto de Gaia”. Até então, qualquer Vinho do Porto destinado à exportação tinha de ser obrigatoriamente armazenado e expedido a partir de Vila Nova de Gaia. Com a nova legislação, os produtores do Douro passaram a poder engarrafar e exportar os vinhos com identidade própria, dando início a toda uma nova fase de independência para muitas casas familiares.
A quinta geração
Foi este sopro de autonomia que impulsionou Óscar e Beatriz Quevedo (pais de Óscar Jr. e Cláudia Quevedo) a fundarem a marca com o próprio nome. Em 1991, a empresa foi constituída e, em 1993, os primeiros vinhos com o rótulo Quevedo chegaram ao mercado, assinalando o princípio de uma nova era de orgulho familiar.
Por conseguinte, atualmente, a empresa é conduzida pela quinta geração da família: Cláudia Quevedo é enóloga e responsável pela produção dos vinhos, enquanto Óscar Quevedo lidera o desenvolvimento internacional da marca. Há cerca de um ano juntou-se, à equipa, Cristina Azevedo, para desenvolver o mercado nacional. “A partir de 2009, comigo a 100% na empresa, continuamos muito esta linha de exportação que, de certa forma, vinha do passado. Com a vinda da Cristina quisemos [re]conquistar o mercado nacional”, refere Óscar Quevedo.
A Quevedo gere, no presente, um património vitícola de cerca de 114 hectares distribuídos por cinco quintas com características geológicas e climáticas distintas. Esta diversidade é a “caixa de ferramentas” da enologia da casa. Quinta Senhora do Rosário, a mais antiga das propriedades da Quevedo e onde se localiza a adega; Quinta Vale D’ Agodinho, excelente para os melhores Portos; Quinta da Trovisca, o campo experimental das novas variedades ou processos de viticultura; Quinta da Valeira, com vinhas a uma altitude de cerca de 500 metros; Quinta da Alegria, com vinha e pomar, e uma frente ribeirinha com mais de 700 metros de comprimento. Sobre esta última, acresce o facto de estar dividida pelo caminho-de-ferro que liga o Porto ao Pocinho.
Produção própria e viticultores selecionados
O portefólio vínico é extenso, sobretudo no que diz respeito aos vinhos do Porto, génese da empresa, com colheitas de praticamente todos os anos e de variadíssimos estilos – Tawny, Ruby, Crusted, LBV, Colheita, Vintage –, graças a um enorme espólio de inegável qualidade. Os vinhos DOC Douro, embora sejam uma aposta mais recente, apresentam uma imagem renovada e um perfil moderno, como Óscar Quevedo passa a explicar: “os vinhos que produzimos são todos de produção própria ou de viticultores selecionados da zona de São João da Pesqueira. Queremos produzir vinhos mais frescos, com menos extração, menos álcool e tanino”. Vinhos que se enquadram na filosofia friendology forever, e que a empresa defende: “é, basicamente, um estado de espírito. Achamos que o convívio, a amizade, as portas abertas são uma forma de estar. E o vinho sabe muito melhor com companhia. E com partilha!”
A gama DOC douro está distribuída pelas referências Truques, nas versões branco, tinto e rosé, são vinhos frescos e não são submetidos a barrica; Alegra, em branco e tinto, traduzidos nos reserva da casa, com barrica, mas num perfil de grande equilíbrio e frescura; a gama Q.Lab, que consiste em vinhos mais experimentais, como o extraordinário branco 100% Folgazão, um curtimenta feito a partir da casta Gouveio ou um inusitado e delicioso clarete 100% Tinta Amarela e, finalmente, os Grande Reserva Q, um branco e um tinto com um perfil duriense mais clássico.
A empresa foi constituída em 1991 e, em 1993, chegaram ao mercado os primeiros vinhos com o rótulo Quevedo
A joia da coroa
Todos os DOC Douro estiveram disponíveis ao longo do almoço servido na Quevedo Lodge, espaço da Quevedo Wines instalado numa antiga tanoaria convertida em centro de visitas e eventos, localizado em Vila Nova de Gaia, onde é possível provar todos os vinhos, mergulhar em degustações e harmonizações, e participar em workshops. A refeição preparada com produtos locais pelo restaurante Toca da Raposa, de São João da Pesqueira, onde a comida tradicional prima pela excelência, foi irrepreensível. Tratou-se de um almoço que serviu de mote para o lançamento de um vinho muito especial, o Quevedo White Colheita 1986, produzido no referido ano que tanta simbologia trouxe à região do Douro; evoluiu lentamente em casco de castanho, ganhando concentração, complexidade aromática e uma textura envolvente.
Cláudia Quevedo foi quem acompanhou esta “joia da coroa” de perto, com o propósito de assegurar a sua estabilidade e preservar o equilíbrio entre frescura e maturidade. Com o conhecimento de quem o viu evoluir ao longo do tempo, a enóloga indicou o momento certo para o revelar. “Este vinho é muito especial para mim: tinha 10 anos quando foi feito e acompanhá-lo ao longo do tempo deu-lhe ainda mais significado. Impressiona pela riqueza aromática, pelo volume que preenche a boca e, sobretudo, pela forma como permanece – longo, persistente – muito depois de ser provado. É um vinho que pede tempo, para ser apreciado com calma”, explica Cláudia Quevedo, com evidente comoção. Um vinho que é uma homenagem ao ano da “independência” da família, além de que preserva e enobrece o legado de séculos de um produtor familiar.
(Artigo publicado na edição de Abril de 2026)
UDACA, 60 anos dedicados ao cooperativismo

A União das Adegas Cooperativas do Dão (UDACA) – Mangualde, Penalva do Castelo, Silgueiros, Vila Nova de Tázem e Ervedal da Beira – celebrou o seu 60.º aniversário, numa cerimónia realizada em casa própria. A cerimónia foi marcada pela presença de António Leitão Amaro, Ministro da Presidência, de João Azevedo, Presidente da Câmara Municipal de […]
A União das Adegas Cooperativas do Dão (UDACA) – Mangualde, Penalva do Castelo, Silgueiros, Vila Nova de Tázem e Ervedal da Beira – celebrou o seu 60.º aniversário, numa cerimónia realizada em casa própria. A cerimónia foi marcada pela presença de António Leitão Amaro, Ministro da Presidência, de João Azevedo, Presidente da Câmara Municipal de Viseu, de João Soares, de Arlindo Cunha, antigo Ministro da Agricultura, e António Mendes, o Presidente desta associação, bem como de diversas personalidades do sector agrícola, cooperativo, académico e empresaria, entidades nacionais, regionais e representantes dos sectores vitivinícola e cooperativo.
O exemplo da estratégia colectiva da UDACA, a qual envolve o território e os seus produtores, foram salientadas nas intervenções institucionais. Analisados foram, por sua vez, a valorização da estratégia do cooperativismo agrícola e a coesão entre estruturas ligadas à actividade agrária face à conjuntura actual no âmbito da vitivinicultura no território nacional. A sessão ficou marcada, ainda, por um momento solene traduzida numa homenagem a Mário Soares através da entrega, a João Soares, de uma garrafa serigrafada em 1989, ano da visita presidencial do antigo Presidente da República às instalações da UDACA. Estas foram oficialmente inauguradas por Arlindo Cunha, a quem foi prestado o tributo “pelo seu contributo para o desenvolvimento do sector agrícola nacional”.
Os festejos foram alargados ao descerrar da placa do novo Espaço UDACA – Enoturismo, projecto firmado na aposta reforçada na marca Dão e na criação de experiências associadas ao vinho e à identidade da região. Chegado momento do jantar, foi apresentado o Invulgar Colheita 2023, vinho comemorativo dos 60 anos da UDACA, e feita a prova de um vinho histórico da colheita de 1985.
O Douro vai receber o Concours Mondial de Bruxelles (CMB) 2027

O Concours Mondial de Bruxelles (CMB) anunciou, no passado sábado, que a sua Sessão de Vinhos Tintos e Brancos de 2027, bem como a Sessão de Vinhos Doces e Fortificados, terão lugar em Portugal, no Vale do Douro. As duas sessões decorrerão entre os dias 14 e 16 de maio de 2027. O CMB é […]
O Concours Mondial de Bruxelles (CMB) anunciou, no passado sábado, que a sua Sessão de Vinhos Tintos e Brancos de 2027, bem como a Sessão de Vinhos Doces e Fortificados, terão lugar em Portugal, no Vale do Douro. As duas sessões decorrerão entre os dias 14 e 16 de maio de 2027.
O CMB é um prestigiado concurso internacional de vinhos que recebe mais de 15 mil participações anuais nas suas diferentes sessões e competições. Fundado em 1994, o concurso saiu, em 2006, da Bélgica tendo sido Lisboa a primeira cidade a acolher o evento fora do seu país de origem. Desde então, o CMB já passou por vários países e continentes, cumprindo a sua missão de promover e valorizar grandes terroirs vitivinícolas de todo o mundo, tanto clássicos como emergentes.
Em 2012, o concurso realizou-se em Guimarães e, agora, regressa a Portugal. Organizado em parceria com a Comunidade Intermunicipal do Douro (CIM Douro), este evento de relevância internacional reunirá várias centenas de compradores, sommeliers e jornalistas especializados no coração de uma das regiões vitivinícolas mais emblemáticas do mundo.
Para João Gonçalves, Presidente da CIM Douro, “Receber o Concours Mondial de Bruxelles é uma oportunidade extraordinária para projetar o Douro junto de decisores, especialistas, compradores, jornalistas e líderes de opinião de todo o mundo. Queremos que quem venha ao Douro descubra muito mais do que uma região vinícola: descubra um território vivo, acolhedor, inovador e preparado para construir futuro.”
Morgado do Quintão começa novo capítulo com Mariana Salvador

Após uma década dedicada à recuperação da propriedade, à afirmação das castas locais e à construção de uma identidade vínica própria, o Morgado do Quintão, propriedade vitivinícola, com turismo rural, localizada no concelho de Lagoa, no Algarve, acolhe a enóloga Mariana Salvador. Formada em Viticultura e Enologia pelo Instituto Superior de Agronomia, possui um currículo […]
Após uma década dedicada à recuperação da propriedade, à afirmação das castas locais e à construção de uma identidade vínica própria, o Morgado do Quintão, propriedade vitivinícola, com turismo rural, localizada no concelho de Lagoa, no Algarve, acolhe a enóloga Mariana Salvador.
Formada em Viticultura e Enologia pelo Instituto Superior de Agronomia, possui um currículo com diferentes abordagens técnicas desenvolvidas na Austrália, Nova Zelândia e no Chile. Já sobre Portugal, consta a integração na Herdade da Comporta (Península de Setúbal) e a Textura Wines (Dão), bem como o projecto pessoal, designado de Revela. No presente, e para além do Morgado do Quintão, inclui o projecto Ethos, na Beira Interior, e os vinhos tranquilos da Barbeito, na Madeira.
“O Morgado do Quintão é um projecto profundamente ligado ao território e com uma identidade muito clara. O Algarve tem um potencial enorme ainda por revelar, e é isso que mais me motiva”, declarou Mariana Salvador, em comunicado. Por sua vez, Filipe Caldas de Vasconcellos, proprietário do Morgado do Quintão, afirmou o seguinte: “estes primeiros dez anos foram de construção, aprendizagem e afirmação. A Mariana traz exatamente essa combinação de rigor técnico e sensibilidade na leitura do lugar, que sentimos ser essencial para o próximo capítulo. Sempre acreditámos que o Algarve tinha uma voz própria, ainda por revelar.”
A respeito do Morgado do Quintão, a sua fundação deve-se ao Conde de Silves, em 1810, mantendo-se na família até aos dias de hoje. Filipe e Teresa Caldas de Vasconcellos, irmãos e actuais proprietários, desde 2017, têm vindo a dar destaque às castas da região, nomeadamente à variedade tinta Negra Mole e à Crato Branco, plantadas nos 23 hectares de vinha em regime biológico, onde são vindimadas as uvas para produzir os vinhos certificados como biológicos, desde 2024. À cultura da vinha e do vinho, somam-se as casas de família restauradas e convertidas em alojamento, provas ao ar livre e almoços sob oliveiras centenárias frondosas.




















































