Grande Prova: Douro Superlativo

Douro

Já não imaginamos o Douro sem os vinhos “de mesa” (não como categoria, mas para os distinguir dos fortificados e espumantes). Longe vão os tempos quando os “vinhos de pasto” ou “vinhos de consumo” serviam apenas para o consumo caseiro ou para providenciar o pessoal de trabalho agrícola. Em 1982 foi reconhecida a Denominação de […]

Já não imaginamos o Douro sem os vinhos “de mesa” (não como categoria, mas para os distinguir dos fortificados e espumantes). Longe vão os tempos quando os “vinhos de pasto” ou “vinhos de consumo” serviam apenas para o consumo caseiro ou para providenciar o pessoal de trabalho agrícola. Em 1982 foi reconhecida a Denominação de Origem Controlada Douro, o que mudou o estatuto destes vinhos e abriu o caminho para a afirmação da região como também produtor de grandes vinhos tintos, primeiro, e brancos, mais tarde. Os primeiros Barca Velha, produzidos antes desta altura eram simplesmente “vinho tinto de mesa”. E havia outros exemplos, muitos dos quais continuam a sua existência, embora não sejam hoje tão conhecidos como na altura, pois milhares de marcas surgiram, entretanto.

As Caves Vale do Rodo (reunião de várias adegas cooperativas) em 1959 lançou um vinho tinto com marca Cabeça de Burro. A Quinta do Côtto nos anos 60 e 70 produzia alguns vinhos monovarietais, o que era verdadeiramente inovador na altura e nos anos 80, os vinhos desta quinta granjearam merecida fama, sobretudo o Quinta do Côtto Grande Escolha, estagiado em madeira nova, também pouco comum naquela época. Nesta prova essa referência mostrou-se em belíssima forma.
Mas tudo isto eram ainda casos esporádicos. O despertar do gigante começou a partir dos anos 90 e na viragem do milénio. Alguns grandes grupos internacionais reconheceram o potencial do Douro, investindo em propriedades durienses. O grupo Roederer adquiriu a Ramos Pinto em 1990 e nesta colheita também foi criado o Duas Quintas. A AXA Millésimes investiu na famosa Quinta do Noval em 1993 e o primeiro DOC Douro foi da colheita de 2004. O Grupo Vranken Pommery Monopole em 1997 comprou a Rozès.

Esta época coincide com uma nova geração de enólogos e produtores, bem formados, talentosos e ambiciosos, como Jorge Moreira, Francisco Olazabal, Jorge Borges, Sandra Tavares da Silva, Manuel Lobo, Francisco Ferreira e Tiago Alves de Sousa entre outros. Surgem projectos da Quinta do Vale Meão, Poeira, Quinta do Vallado, Wine&Soul. As empresas produtoras do Vinho do Porto começam a fazer as suas experiências nos vinhos de mesa, como a Symington Family Estates, fazendo uma parceria com Bruno Prats, formando a Prats&Symington que apresenta o Chryseia 2000, o vinho ambicioso com um polimento típico de escola de Bordeaux. E a partir de colheita de 2007, na Quinta do Vesúvio, adquirida pela Symington Family Estates em 1989, começam a nascer vinhos DOC Douro para além dos vinhos do Porto.

Ao longo dos 25-30 anos de existência dos DOC Douro, os produtores tiveram uma boa dose de aprendizagem, aperfeiçoando as formas de trabalhar a vinha, de vinificar as uvas, no uso de barrica (cada vez com mais parcimónia e em função de casta, da vinha e do ano). Foi uma afinação contínua e hoje os vinhos do Douro têm uma qualidade geral altíssima, os melhores deles impressionam pela sua finesse e carácter, mesmo variando em estilo. Deixando à parte as questões de carácter político e social e, focando, exclusivamente na prova de mais de 40 vinhos, podemos afirmar que são realmente grandes vinhos em qualquer parte do mundo.
Segundo o IVDP, a produção do vinho DOC Douro foi, em 2023, de 72.431.045 litros, quase igual de vinho do Porto, que foi de 72.436.084 litros.

Excelência nas três sub-regiões

Embora as condições edafo-climáticas variem à medida que nos afastamos do litoral e aproximamos da fronteira com Espanha, em todas as três sub-regiões se fazem grandes vinhos.
O Baixo Corgo é a sub-região mais ocidental e próxima do oceano Atlântico, embora não sofra influência directa devido à protecção da Serra do Marão, que bloqueia grande parte dos ventos frios e húmidos. O clima é mais ameno e com maior índice de precipitação em comparação com as outras sub-regiões do Douro. Os vinhos tendem a ter teor alcoólico moderado e maior acidez. Se antigamente ter vinhas nesta sub-região se considerava menos prestigiante, agora, com os efeitos do aquecimento global, é cada vez mais procurada pela sua maior frescura. Temos aqui belíssimos exemplos como o Vallado Vinha da Granja e Vinha da Coroa, Quinta do Côtto e Quinta da Gaivosa, de Alves de Sousa.

O Cima Corgo, situado no centro da região do Douro, ao redor de Pinhão, é mais seco e quente que o Baixo Corgo e com menor precipitação. O clima favorece vinhos complexos e intensos. Saem desta sub-região vinhos incríveis como o Quinta da Manoella VV, Poeira, Quinta do Crasto, Quinta do Noval, Quinta da Romaneira, Quinta de La Rosa e Quinta das Carvalhas da Real Companhia Velha, só para dar alguns exemplos.

O Douro Superior é a sub-região mais próxima da fronteira com a Espanha, sendo a mais distante do Atlântico. Tem o clima mais continental entre as três regiões, com verões muito quentes e secos e invernos rigorosos e secos também. Recebe pouca chuva, e a aridez é um factor distintivo. Produz vinhos muito concentrados, potentes e encorpados, de grande estrutura e às vezes teor alcoólico elevado. A sub-região é responsável por muitos nomes sonantes, como Quinta do Vale Meão, Quinta da Leda (Sogrape), Quinta do Vesúvio (Symington), Quinta da Ervamoira (Ramos Pinto) e Quinta Vale D. Maria (Aveleda).

Vinhas, castas e tendências

De acordo com os dados recentes do IVDP, a vinha na região do Douro ocupa mais de 43.000 ha, com a maior parte na sub-região de Cima Corgo, onde estão plantados mais de 20.000 ha. Cerca de 13.000 ha encontram-se no Baixo Corgo e cerca de 10.000 ha ficam no Douro Superior.
O lote “moderno” duriense baseia-se na tríade de Touriga Nacional, Touriga Francesa (designação mais rigorosa do que Touriga Franca, sendo cada vez mais utilizada pelos produtores) e Tinta Roriz.

Seria difícil de subestimar a importância da Touriga Francesa no Douro, onde é a espinha dorsal dos lotes quer nos vinhos do Porto quer nos vinhos Douro. É por isso que é a casta mais plantada na região, representando 28,1% da área da vinha. Está perfeitamente adaptada à região, tem uma película mais espessa, a folha é mais rugosa, o que permite aguentar melhor o stress hídrico e térmico. Aos vinhos confere dimensão, estrutura e aromas finos, embora menos exuberantes que os da Touriga Nacional. Esta representa 11,6% de área plantada e está em crescimento. Exige algum cuidado na vinha com a exposição solar para evitar que as folhas de base sequem e que fique com aromas sobremaduros. É muito flexível na adega e confere frescura, elegância e também alguma estrutura aos vinhos para além de contribuir com a complexidade aromática. Juntas, estas duas castas fazem uma base consistente de muitos vinhos durienses, incluindo os topos de gama.

A Tinta Roriz, embora esteja muito presente nas plantações, ocupando 15,5% da área, não é consensual e nos vinhos de topo de gama, salvo raras excepções, entra em proporções mais modestas. É muito dependente do terroir, tem taninos bastante agressivos, peca por falta de acidez, é muito produtiva e por isso nem sempre amadurece bem.
A Tinta Barroca, embora represente 6,6% das plantações, está em decréscimo. É utilizada mais para os vinhos do Porto, sobretudo para os Tawny, enquanto que para os vinhos Douro falta-lhe o equilíbrio. É uma casta precoce, rapidamente acumula açúcar e perde acidez e, então, para os vinhos de topo o seu uso é reduzido, a menos que esteja presente nas vinhas velhas, mas ali é outra história.

A Tinto Cão, embora não ultrapasse 1% de plantação, está a ganhar importância pelas suas qualidades enológicas. É o oposto da Tinta Barroca, sendo uma casta muito tardia, de ciclo longo. Preserva bem a acidez, tem tanino notável, produz vinhos com frescura e algum potencial de envelhecimento. Nos lotes contribui com acidez. A par da Tinto Cão, também muitas vezes entra a Sousão para temperar o lote com a frescura.
A Alicante Bouschet também presente nas vinhas velhas no Douro, não tem muita expressão, mas ultimamente tem ganho alguns adeptos. “É precoce no Douro Superior, amadurece bem, tem alguma rusticidade, mas menos do que o Sousão” – define a casta Francisco Ferreira, director de produção da Quinta do Vallado.

Douro

Vinhas Velhas, património e expressão do Douro

Verdadeiramente fascinante no Douro são as vinhas velhas. A Quinta do Crasto foi a primeira a introduzir o conceito Vinhas Velhas no rótulo, nos anos 90, e foi ainda mais longe, produzindo dois vinhos de vinhas centenárias, as famosas Vinha da Ponte e Vinha Maria Teresa (desde a colheita de 1998). Para esta nossa prova veio o Quinta do Crasto Vinha da Ponte, originado de apenas 1,96 hectares de vinha que supera os 100 anos.
Em 2020, o IVDP regulamentou a menção “Vinhas Velhas” no rótulo, considerando as vinhas com mais de 40 anos (idade média das videiras mais velhas da parcela), plantadas com densidade de pelo menos 5.000 cepas por hectare (com tolerância de 30% para falhas – videiras mortas – e excepção das parcelas com armação pré-filoxérica, com menor densidade). Para justificar a menção, o vinhedo tem de apresentar um mínimo de 4 castas, devendo 3 delas representar um mínimo de 25% do total. O rendimento por hectare não pode exceder 50% do máximo fixado anualmente para DOC Douro.

Mas não basta colocar no rótulo “Vinhas Velhas” para que o vinho passe a ter uma qualidade superior. As vinhas velhas não trazem benefício só por serem velhas ou por se tratar de uma mistura de castas. São boas quando estão no local certo, a composição é boa, quem as plantou fez bem o seu trabalho e as vinhas são bem mantidas ao longo do tempo. Por outras palavras, as vinhas velhas são boas se já o eram quando novas.
As vinhas velhas têm algumas características importantes. As raízes são bem desenvolvidas o que permite a planta chegar à água e aos nutrientes vitais para o seu metabolismo e aguentar o stress hídrico com relativo conforto. Os seus troncos grossos acumulam carboidratos, criando assim as reservas energéticas que a planta utiliza durante períodos de maior necessidade como fonte de energia. Outra característica das vinhas velhas é a produção baixa, por vezes apenas 300-500 g por planta, o que permite a videira amadurecer os cachos com muita concentração e equilíbrio (numa vinha nova isto consegue-se com uma monda em verde).

Entretanto as vinhas velhas dão muito trabalho aos produtores. Primeiro, são pouco rentáveis em termos de produção. Segundo, a sua manutenção ao longo do tempo exige decisões estratégicas a serem colocadas em prática. À medida que as vinhas velhas vão envelhecendo, algumas videiras morrem e aí o produtor opta, ou por substituição das videiras mortas (muitas vezes com a mesma casta), ou por deixar como está, assumindo que a produção vai diminuindo ainda mais, mas assim não é desvirtuada a composição e a idade da vinha. “Não quero fazer de uma vinha velha uma vinha nova” – explica Francisco Ferreira. E acrescenta que a retancha (a tal substituição das videiras mortas) também não é fácil nas vinhas velhas porque as raízes das videiras antigas são muito desenvolvidas, ocupam praticamente todo o espaço subterrâneo e o enraizamento de uma videira nova é difícil.

A preparação da vindima numa vinha velha é outra “dor de cabeça”. A heterogeneidade natural dificulta a definição da data de vindima. Muitos enólogos concordam que a avaliação analítica das amostras com 20-30 castas nem sempre reflecte a realidade e tem uma significativa margem de erro. Carlos Agrellos, enólogo da Quinta do Noval e da Quinta da Romaneira, conta que para definir a data de vindima nas vinhas velhas, se foca nas 4-5 castas que são mais populosas. “Tem de se olhar de cima para a vinha e ir provar os bagos nas zonas mais críticas”. Manuel Lobo, responsável pelos vinhos da Quinta do Crasto, concorda que “é preciso uma sensibilidade muito grande para não perder o equilíbrio”. A empresa tem na equipa uma pessoa responsável só para acompanhar as parcelas antigas. A selecção rigorosa no tapete de escolha também faz parte, para retirar as uvas sobremaduras. A vindima das vinhas velhas na Quinta do Crasto é praticamente uma operação cirúrgica em que os próprios directores de enologia e viticultura lideram um pequeno grupo de experientes trabalhadores para colher à mão apenas as uvas que atingiram o nível ideal de maturação.

Entretanto, não basta colher as uvas das vinhas velhas para conseguir fazer grandes vinhos, a sua abordagem enológica também exige uma sensibilidade quanto à extracção e ao uso de barrica. Muitas vezes as vinhas velhas não têm uma estrutura poderosa devido a castas mais delicadas na sua composição e uso de barricas novas, neste caso, pode desvirtuar a personalidade da vinha, marcando demasiado.
Carlos Agrellos conta que fermentam em inox, só com remontagens suaves e na prensagem separam a fracção de prensa e depois avaliam: caso o mosto de gota não tenha estrutura suficiente para ir para à barrica, acrescentam o mosto de prensa. Conhecer a composição das vinhas velhas é fundamental porque vai ter impacto na vinificação. Por exemplo, Francisco Ferreira relata que na Vinha da Coroa entre as 20 castas, a Tinta Roriz corresponde a 50%. Neste caso optam por uma extracção mais cuidada, enquanto no caso da Vinha da Granja, plantada em 1929, esta questão não se põe, porque entre as 32 castas, as maioritárias são Tinta Roriz 19%, Tinta Amarela 19%, Touriga Francesa 18%, Touriga Nacional 8% e Moreto 7%.

Os vinhos a partir das vinhas velhas, quando bem feitos, são absolutamente fascinantes, transmitem uma forte identidade que se reconhece em provas sucessivas colheita após colheita, uma complexidade mais entrelaçada, a lembrar uma pintura de pinceladas muito finas.

Por isto a preservação das grandes vinhas velhas do Douro é quase uma questão de honra. É um património insubstituível. Imaginem o mundo sem os vinhos Maria Teresa, Vinha da Ponte, Vinha da Granja, Vinha da Coroa, Pintas, Quinta da Manoella e outros. O panorama do Douro seria incompleto. E este património merece ser preservado e valorizado.

(Artigo publicado na edição de Novembro de 2024)

 

Quanta Terra: 25 anos festejados em grande

Quanta Terra

Sem terra e sem uma adega convencional, Quanta Terra é uma parceria em busca do seu vinho perfeito e uma marca que provoca a emoção no consumidor. O projecto começou em 1999, fruto da cumplicidade profissional de Celso Pereira e Jorge Alves, que se conheceram nas Caves Transmontanas no início dos anos 1990. Conhecendo o […]

Sem terra e sem uma adega convencional, Quanta Terra é uma parceria em busca do seu vinho perfeito e uma marca que provoca a emoção no consumidor. O projecto começou em 1999, fruto da cumplicidade profissional de Celso Pereira e Jorge Alves, que se conheceram nas Caves Transmontanas no início dos anos 1990. Conhecendo o Douro como a palma das suas mãos, definiram desde logo as zonas da proveniência das uvas para garantir a qualidade dos vinhos: para os tintos, vale do Tua, e para brancos e rosés as terras de altitude 600-700 metros com solos de transição para o granito, no planalto de Alijó, onde mesmo em anos quentes conseguem maturações equilibradas e uvas com frescura natural. As ligações duradoras com os viticultores que lhes fornecem as uvas, desde o início do projecto, asseguram a matéria prima de qualidade sem ter necessidade de adquirir as vinhas. O importante é acompanhá-los e pagar bem as uvas.

 

A “adega” da Quanta Terra, inserida numa antiga destilaria da Casa do Douro, recuperada em colaboração com o arquitecto Carlos Santelmo é algo único. De layout pouco habitual, o espaço, para além de acomodar uma cave de barricas, está transformado num ambiente museológico dedicado à história do Douro e serve de palco a exposições artísticas temporárias. A vinificação propriamente dita é feita nas adegas dos seus parceiros de outros projectos vitivinícolas.
Olhando para o seu percurso de 25 anos na Quanta Terra, os enólogos consideram que o importante foi saber “evoluir improvisando”. “Criámos perfis de vinhos e validámos com as vendas no mercado”, permanecendo numa dinâmica criativa.

Mas parece que os dois também gostam de provocar o mercado de vez em quando. No mundo, onde os restaurantes nem aceitam um vinho branco de há dois anos, onde o consumidor procura vinhos fáceis e frutados, lançar um branco com estágio de vários anos em barrica é de loucos. Mas quem conhece Jorge Alves e Celso Pereira, sabe que isto faz parte do ADN do projecto. O estágio prolongado exige paciência, implica o investimento em barricas e o empate do capital, e ainda obriga a lidar com a volatilidade das tendências do mercado. O factor incerteza também tem a ver com o próprio vinho, pois durante um estágio de muitos anos nunca se sabe ao certo que perfil o tempo vai esculpir no final. Ao provar o Gold Edition 2017 com quase sete anos em barrica e o Family Edition 2007 com 14, percebe-se porque às vezes vale a pena ir até ao limite.

O primeiro Gold Edition foi da colheita 2011, da qual houve duas barricas que ficaram para trás, não propositadamente. O resultado motivou a repetição da experiência em anos bons, em que a qualidade esperada justifique um estágio prolongado. “Sentimos que o mercado pode ter apetência para estes vinhos diferenciados”.
O Family Edition foi ainda mais longe. Começou em 2007 como uma base de espumante que, por decisão interna, ia ficando em barricas novas de 225 litros. Passados 14 anos e ao contrário do que se pode pensar, não está marcado pela barrica, pois o vinho ia concentrando e a barrica ia envelhecendo com o vinho e acabou por integrar completamente. O resultado, com mais de 8 g/l de acidez e um pH baixíssimo, oferece, ao mesmo tempo, o sabor e a textura para envolver a estrutura acídica e trazer à prova um vinho cheio de vida e personalidade. Decidiram lançá-lo no aniversário dos 25 anos. É uma edição única, com apenas 670 garrafas.

Outra novidade é o espumante Quanta Terra Éclat feito de Pinot Noir proveniente da zona de Lamego. Quase que apetece dizer: “até que enfim!”. Sendo Celso Pereira o reconhecido Senhor das Bolhas, espanta-me como é que aguentaram 25 anos sem se meter na produção de espumantes. Mas aqui vai!

(Artigo publicado na edição de Outubro de 2024)

Romaneira: A diversidade do Douro numa só quinta

Quinta da Romaneira

Aparentemente e ao longe, a região do Douro é marcada por uma forte unidade geográfica, social, económica e cultural, na qual a vinha e o vinho são os elementos comuns e agregadores. No entanto, à medida que nos aproximamos dos seus meandros, socalcos e patamares, descobrimos que o território é bastante heterogéneo. As realidades sub-regionais […]

Aparentemente e ao longe, a região do Douro é marcada por uma forte unidade geográfica, social, económica e cultural, na qual a vinha e o vinho são os elementos comuns e agregadores. No entanto, à medida que nos aproximamos dos seus meandros, socalcos e patamares, descobrimos que o território é bastante heterogéneo. As realidades sub-regionais mostram-se bastante díspares relativamente ao clima, relevo, paisagem, povoamento, modos de produção e, acima de tudo, nas dimensões dos vinhedos.
No ano de 2023, segundo as estatísticas do Instituto dos Vinhos do Douro e do Porto (IVDP), a região demarcada era composta por 95851 parcelas de vinha, de geometria muito variável, perfazendo um total de 43813 hectares que, por sua vez, foram explorados por 18655 entidades registadas. Numa primeira aproximação estatística, cada parcela seria composta por uma média que rondaria cerca de meio hectare. Do mesmo modo percebemos que cada entidade explorou aproximadamente cinco parcelas perfazendo um pouco mais de dois hectares. O que corresponde a dois campos de futebol com as medidas oficiais, aproximadamente.

Numa análise mais fina e articulada percebemos claramente uma realidade muito mais complexa e variável. Os números publicados na página on-line do IVDP, referentes ao ano de 2023, revelam que as parcelas entre meio e um décimo de hectare perfazem cerca de 20,5% do total da área da região.
No entanto, a maioria das parcelas, 37412, que correspondem a 39% do total, apresentam uma área inferior ou igual a um décimo de hectare, ou seja, uma grande parte das frações de vinha apresentam uma área menor ou igual, e em alguns casos muito menor, a uma grande área de um campo de futebol. Ainda assim, estas parcelas apenas representam cerca de 4% do total geral de hectares de vinha. Do outro lado do espectro da análise encontramos apenas 26 parcelas com uma área igual ou superior a 20 hectares, o que corresponde a 0,02% das parcelas e a 1,6% do total de hectares.

 

Quinta da Romaneira

Nos antípodas do Douro

Nos antípodas da fragmentação do território e bem no coração do Cima Corgo encontramos a Quinta da Romaneira, uma das maiores propriedades da região, com um total de 412 hectares dispondo de três quilómetros de frente no rio Douro.
As vinhas, totalizando 86 hectares, estão plantadas em socalcos nas escarpadas encostas da propriedade. Tal como referiu Carlos Agrellos, o enólogo consultor, “esta imensa vastidão de vinhedo, pelos parâmetros durienses, encontra-se dispersa por muitos vales e promontórios, o que origina diversos microclimas em função das inúmeras variações de altitude e exposições solares”.

No entanto, a Quinta da Romaneira nem sempre teve estas dimensões, lembra Carlos Agrellos: “na altura das demarcações Pombalinas, já existiam parcelas de vinhas, bem como algumas das Quintas que passariam a fazer parte da Romaneira. No entanto, foi apenas na década de 40 do século passado que ocorreu a grande aquisição de várias quintas vizinhas, o que fez da Romaneira uma propriedade extremamente grande e rara pelos padrões do Douro”. Curiosamente, muitas das parcelas de vinha continuam a ostentar o nome das anteriores propriedades, adquiridas para criar o projeto tal como ele existe hoje: Liceiras, Carrapata, Malhadal, Barca, Bairral e Pulga, são alguns dos exemplos.

Desde 2004, data em que Christian Seely reuniu um grupo de investidores para concretizar a aquisição da Quinta da Romaneira, tem beneficiado de uma renovação, reconstrução e replantação muito extensa. Ainda assim, como referiu Carlos Agrellos, “só oito anos mais tarde, após André Esteves se ter tornado o acionista principal, é que a Quinta consolidou a sua posição entre os produtores de elite de vinhos e revelou todo o potencial de grandeza do seu terroir histórico”.

Quinta da Romaneira

Os novos vinhos do Douro e Porto

Os diversos vinhos da Quinta da Romaneira são muito específicos e provêm de pequenas parcelas individuais ou de várias localizações particulares da Quinta. Esta opção, “reflete a complexidade e diversidade de toda a vinha. Todos os nossos vinhos são feitos exclusivamente de uvas das nossas vinhas, uma característica distintiva dos vinhos da Quinta da Romaneira”, disse Carlos Agrellos.

Um dos pontos de interesse desta apresentação também esteve ligado à reformulação gráfica levada a cabo. Assim, diversas gamas de vinhos foram repensadas e redesenhados os rótulos, refletindo a precisão quanto às origens individuais de cada vinho. Nas palavras de Carlos Agrellos, “cada vinho produzido na Romaneira tem agora um rótulo com uma imagem gravada que reflete a identidade do vinho e o local de proveniência das uvas que o fazem”.

A apresentação dos novos vinhos brancos e do rosé decorreu sob a batuta do ano 2023 que, nas palavras de Carlos Agrellos “ficou marcado por uma mudança significativa em relação aos quatro anos anteriores caracterizados por temperaturas elevadas e escassas produções, estes fatores garantiram que as vinhas cresceram sem as limitações da carência de água e por isso obtivemos uvas de alta qualidade, permitindo a criação de vinhos excecionais”.

Estes vinhos, para além de apresentarem uma nova roupagem, revelam os distintos microclimas da Quinta e as técnicas enológicas utilizadas nas diferentes castas brancas (Gouveio, Viosinho, Boal e Rabigato) e tintas (Touriga Nacional, Touriga Francesa, Tinta Roriz e Tinto Cão).
Por fim, foram apresentadas as novidades relacionadas com o vinho do Porto, a primeira um Tawny 20 anos envelhecido durante duas décadas em pequenas barricas de carvalho com 640 litros de capacidade. Este, nas palavras de Carlos Agrellos, “incorpora todas as características de um clássico Tawny premium”. A segunda novidade foi um vinho do Porto Vintage vinificado em lagares de inox, que “além de todas as vantagens tradicionais da pisa a pé para o vinho do Porto, também beneficia da capacidade técnica de os aquecer e arrefecer”, referiu ainda Carlos Agrellos.

Nota: O autor escreve segundo o novo acordo ortográfico.

(Artigo publicado na edição de Outubro de 2024)

Pipadouro eleita como a melhor experiência inovadora em enoturismo a nível mundial

Pipadouro

A Pipadouro ganhou o prémio de melhor experiência inovadora em enoturismo a nível mundial A empresa de turismo fluvial de luxo, que opera no Douro, foi a única representante portuguesa na lista global dos People’s Choice Awards de 2025 promovidos pela Great Wine Capitals Global Network. Foram distinguidos cinco projetos de Espanha, um de França […]

A Pipadouro ganhou o prémio de melhor experiência inovadora em enoturismo a nível mundial A empresa de turismo fluvial de luxo, que opera no Douro, foi a única representante portuguesa na lista global dos People’s Choice Awards de 2025 promovidos pela Great Wine Capitals Global Network.

Foram distinguidos cinco projetos de Espanha, um de França e um de Portugal, em sete categorias distintas, de entre 83 vencedores dos prémios regionais de cada um dos 12 membros da rede mundial de grandes vinhedos.

A operadora redefiniu o conceito de turismo fluvial no rio Douro e conquistou fama mundial ao longo dos últimos 17 anos com propostas de luxo vintage, que obedecem aos elevados padrões de exigência de um mercado que privilegia a qualidade superior, o conforto e a exclusividade. A originalidade das suas propostas foi reconhecida nos Best of Wine Tourism Awards.

Após vencer o prémio regional de Portugal, a Pipadouro concorreu com projetos de outros membros da Great Wine Capitals Global Network: Pasqua Vigneti e Cantine (Verona/Itália), Vergelegen Wine Estate (Cidade do Cabo/África do Sul), Natura Resorts (Bilbao/Espanha), Francey Vins – Nuit des Capites (Lausanne/Suíça), McLaren Vale Distelery/McLaren Vale (Adelaide/Austrália), Chateau de Cérons (Bordéus/França), Estación 83 na Bodega Trapiche (Mendoza/Argentina), Olabisi Winery (São Francisco e Napa Valley/Estados Unidos da América), Smith & Sheth Heretaunga Wine Studio (Hawke’s Bay/Nova Zelândia), e Corazón Continto (Valparaíso-Casablanca Valley/Chile).

“Surgimos com o propósito de proporcionar experiências inesquecíveis a quem nos visita, aliando a excelência e qualidade dos nossos serviços à beleza e autenticidade de uma região única: o Douro. Esta distinção internacional traz reconhecimento à empresa, ao enoturismo na região e igualmente a Portugal, cumprindo um dos nossos grandes objectivos, que passa por promover a região internacionalmente, pois sabemos que o Douro tem caraterísticas únicas – aliando qualidade e autenticidade – que devem ser reconhecidas mundialmente”, diz Ana Clara Silva, directora de operações da empresa.

A Pipadouro, que opera a partir de um cais privado no Pinhão, apresenta dois barcos classificados como Gentleman’s Vintage Boats: para além do Friendship I, um superiate de 1957 que servia a Marinha inglesa, tem ao dispor dos seus clientes o Pipadouro II, um Vintage Boat com 30 pés de comprimento, datado de 1965 e construído nos estaleiros de João Brites, em Lisboa, com recurso a desenhos da Americana Chris-Craft.

Navegando entre a foz do rio Douro, no Porto, e Barca D’Alva, aldeia que faz fronteira com Espanha, com as quintas, os vinhos e os mais distintos produtos locais no menu, a empresa apresenta propostas exclusivas de Um Dia no Douro, Almoço Vintage, Bed & Breakfast, Fim de Tarde, Jantar de Charme, Vintage Breakfast, Wine with a View, Vintage Wild Travel e How Vintage Can You Go, para além das inúmeras possibilidades de programas feitos à medida, e de partidas regulares entre o Pinhão e o Tua.

 

Prova de vinhos do Porto ao som da guitarra portuguesa

caves calem

Explorar as caves de vinho do Porto na companhia de uma melodia já considerada Património Cultural Imaterial da Humanidade, pela UNESCO, é a proposta das Caves Cálem. O programa que está disponível diariamente, com visita às caves às 18h e espetáculo de fado às 18h30, ganha especial importância a 27 de Novembro, data em que […]

Explorar as caves de vinho do Porto na companhia de uma melodia já considerada Património Cultural Imaterial da Humanidade, pela UNESCO, é a proposta das Caves Cálem.

O programa que está disponível diariamente, com visita às caves às 18h e espetáculo de fado às 18h30, ganha especial importância a 27 de Novembro, data em que se celebra o Dia Mundial
do Fado.

Durante o programa os visitantes poderão explorar a tradição do vinho do Porto e conhecer as histórias que moldam a região do Douro ao som dos acordes nostálgicos do fado, numa fusão única de cultura e sabor. A visita às caves é sucedida de um espetáculo ao vivo com a duração de 45 minutos, no qual vozes emblemáticas da cidade do Porto interpretam temas clássicos e contemporâneos do fado. Os participantes terão ainda a oportunidade de degustar dois vinhos do Porto: Cálem Fine White e Cálem 10 Anos Tawny.

caves calem

Preço: 25 euros por pessoa
Horário: visita às 18h e espetáculo de fado às 18h30, de novembro a março; visita às 18:30h e espetáculo às 19h nos restantes meses do ano
Local: Caves Cálem, Avenida Diogo Leite, n.º 344, Vila Nova de Gaia.
Reservas: 220907316 // Email: eventos@sogevinus.com

Quinta dos Frades: Os segredos das vinhas velhas

Quinta dos Frades

Nunca me canso de percorrer a estrada que segue a margem esquerda do rio Douro entre o Pinhão e a Régua, mesmo nesta época do ano, a da vindima, em que há muito mais veículos na estrada e gente por terras do Douro. É difícil resistir a não parar para mais uma foto a uma […]

Nunca me canso de percorrer a estrada que segue a margem esquerda do rio Douro entre o Pinhão e a Régua, mesmo nesta época do ano, a da vindima, em que há muito mais veículos na estrada e gente por terras do Douro. É difícil resistir a não parar para mais uma foto a uma paisagem única que muda com as estações do ano, ainda por cima agora que há mais pessoas nas vinhas a fazer o seu maneio, e a colher as uvas porque estão no ponto certo de maturação e é preciso levá-las à adega.

A certo ponto da estrada, na margem esquerda, é difícil não notar a Quinta dos Frades. Pela sua extensão, pelo seu edificado histórico, sempre bem pintado e de ar sólido, e pelas suas vinhas, que acompanham as curvas do rio e da serra, aqui e ali entremeadas com jardins, pomares, hortas e áreas de bosque. As suas origens parecem remontar ao século 13, depois de as terras terem sido doadas aos monges do Mosteiro de Santa Maria de Salzedas. Depois de séculos de gestão monástica, a propriedade foi arrematada em hasta pública por Jerónimo Souza, 1º Barão de Folgosa, permanecendo na sua família durante mais um século até ser por Delfim Ferreira, um dos investidores e industriais mais importantes da economia portuguesa do século passado, que detinha, entre outras, a Companhia Hidroelétrica do Norte de Portugal, empresa que fornecia electricidade aos distritos de Braga, Bragança, Vila Real e Viseu. Foi, depois, encetado um processo de reabilitação e modernização das infraestruturas de produção e lazer da Quinta dos Frades.

Mas a propriedade era, sobretudo, uma quinta de fim de semana, onde os bisavós de Aquiles Ferreira do Brito, 53 anos, administrador delegado da Predial Ferreira & Filhos, empresa proprietária das Quintas dos Frades, em Folgosa, e do Castelo, em Santa Marta de Penaguião, vinham de tempos em tempos. “Naquela altura não se olhava muito para as despesas de manutenção”, diz o responsável, acrescentando que o início do segundo milénio e a estagnação do benefício, “que era aquilo que apoiava muito a agricultura no Douro, e com os custos a subir, entendeu-se que a empresa devia investir na criação de uma marca de vinhos de mesa”. Isso aconteceu quando foi convidado, por outro membro desta empresa familiar, para gerir a empresa e encetar esse novo caminho. A primeira colheita comercializada foi a de 2011, e todo o processo iniciado naquela altura contribuiu para colocar a empresa e a suas marcas no radar do mercado.

Os primeiros vinhos
Os primeiros vinhos foram produzidos com o apoio dos enólogos Anselmo Mendes e João Silva e Sousa e, mais tarde, apenas com o primeiro. Depois foi preciso começar a vendê-los e Aquiles de Brito entrou, no mercado, “inicialmente com o apoio de alguns distribuidores regionais, fazendo algumas provas e apresentações, procurando destacar que os nossos eram vinhos de valor acrescentado e não para vender em volume”, conta, acrescentando que as marcas foram surgindo, depois, no portefólio da Quinta dos Frades à medida que se iam conhecendo as vinhas e as características das suas parcelas. Algumas foram dando origem às referências que existem actualmente. Mas o processo aconteceu sem uma metodologia sustentada para a sua criação e construção. Por isso, marcas da empresa como a Vinha dos Deuses ou Vinha dos Santos não têm hoje nenhuma explicação ou ligação à casa, que permita, a quem compra os vinhos, fazer essa associação, revela Aquiles de Brito, salientando que está agora a desenvolver, com a sua equipa e o apoio de uma empresa especializada, um projecto de mudança de imagem. “Estamos agora a realizar um trabalho de marketing, imagem e comunicação que contribua para evidenciar a Quinta dos Frades como produtora dos seus vinhos, que não existia até agora”, explica.

Segundo Liliana Mendes, 43 anos, designer gráfica na Quinta dos Frades desde 2021, a ideia de mudar a imagem da quinta e das suas marcas de vinho teve, como objectivo, “criar uma unidade entre elas através da ligação de cada uma à quinta”. Assim, e quando o processo estiver concluído, em cada uma das referências de vinhos da empresa será evidenciada a marca umbrela, Quinta de Frades, em relação a cada uma das outras. Com esta integração, clientes e consumidores passarão a saber que todos os vinhos são produzidos pela Quinta dos Frades, o que não acontecia até agora. Como é evidente, o objectivo é promover e solidificar a imagem da empresa no mercado como produtora de vinhos do Douro e do Porto, para que possa continuar a crescer num mercado onde isso não é fácil para um produto como o vinho.

“Mas nós temos a vantagem de possuirmos uma história já longa por detrás e de termos construído, durante os últimos anos, uma identidade no mercado, lançando vinhos todos os anos, ou seja, estando presentes, o que tem contribuído para que os nossos já sejam conhecidos”. Hoje são colocados no mercado nacional pela Direct Wine, empresa do grupo Fladgate Parternship, principalmente para a restauração. Para além disso, só estão nos supermercados Apolónia, no Algarve, no El Corte Inglès, no E.Leclerc de Lamego, “uma referência onde toda a gente do Douro está, e mais um outro supermercado que me pede, pontualmente”, diz Aquiles de Brito, defendendo que não quer trabalhar com a grande distribuição. Para este responsável, ainda há muito muito trabalho a fazer em Portugal, o principal mercado da empresa, para cimentar a marca.

Quanto à exportação, que decorre apenas para o Brasil e pontualmente para outros mercados, “vai certamente lugar a isso, mas só depois de estar devidamente estruturado e cimentado no mercado nacional”, explica. Adepto de apostar na qualidade, na história por detrás da empresa e das suas marcas, para continuar a trilhar “um caminho que tem sido difícil, moroso, lento, com algum sucesso”, salienta “há que continuar a trabalhar e comunicar aquilo que fazemos bem e as nossas diferenças”.

Mais de 30 castas
A empresa tem, hoje, nas duas propriedades que a compõem, cerca de 240 hectares, dos quais 110 de vinha. Na Quinta dos Frades “há mais de 30 castas, de uma vinha onde as variedades predominantes são a Tinta Amarela, a Touriga Franca e, agora, a Touriga Nacional após a reconversão mais recente”, conta Diogo Lopes, 46 anos, enólogo da Quinta dos Frades, que tem um total de 75 ha de vinha. Uma parte significativa, de cerca de 20 hectares, é vinha velha. “A nossa é, na verdade, muito velha, pois uma parte significativa tem mais de 100 anos, o que faz dela a nossa jóia da coroa”, salienta.

Há mais 35 hectares na Quinta do Castelo, em Santa Marta, no Baixo Corgo, que estão a ser restruturados, porque a empresa quer apostar mais na produção de vinhos a partir de castas brancas. “Queremos puxar muito pela identidade dos tintos do Cima Corgo, na Quinta dos Frades e, na Quinta do Castelo, queremos apostar na frescura, nas castas brancas, no potencial que existe por explorar nos brancos do Baixo Corgo e duriense como um todo”, explica Diogo Lopes. Por isso, está a ser feita a reconversão de muitas variedades tintas para brancas, e “a multiplicação das castas mais enraizadas no Baixo Corgo, como a Códega do Larinho, o Avesso e o Arinto”. Para Diogo Lopes, “há espaço para fazer brancos com muito mais caracter, e é isso que queremos fazer”.

 

Quinta dos Frades

Vinha velha e muito velha
Trabalhar com vinha velha no Douro é sempre um grande desafio, e um trabalho pesado por ser manual, que obriga a um maior controlo e mais atenção durante o ciclo vegetativo das plantas, numa época em que há cada vez mais fenómenos extremos durante o verão, com picos de calor e outros fenómenos associados ao escaldão. “Temos tentado minimizá-los através de uma gestão mais equilibrada da forma como controlamos a vegetação, para protegermos os cachos dos fenómenos extremos, que têm sido cada vez mais constantes nos últimos anos e serão mais permanentes no futuro”, diz o enólogo, acrescentando que ainda há um longo trabalho a fazer, ao nível da viticultura, para conhecer e diferenciar todas as suas parcelas de vinha. A sua área extensa e as suas muitas exposições podem constituir uma mais-valia para o trabalho a realizar na adega, com uvas com características diferenciadas conforme as suas origens a poderem contribuir, após o estudo dos vinhos que originam, para originar vinhos diferenciados. O futuro o dirá.

Diogo Lopes conta que entrou na Quinta dos Frades há um ano, cheio de ideias. “Já apresentei um plano de trabalho ao Aquiles de Brito, que contém tudo aquilo que acredito que podemos fazer em conjunto nos próximos anos. Isso implica estudar tudo, ou seja, conhecer a Quinta dos Frades em todos os seus ambientes e recantos, porque acredito que ainda não se explorou todo o seu potencial”, conta. “É esse trabalho que a quinta merece”, afirma. Estudar para conhecer e individualizar as suas parcelas “irá também contribuir para podermos fazer a nossa própria multiplicação vegetal com o material genético que aqui existe, que é a nossa grande mais valia” explica.

Diogo Lopes acredita que, na Quinta dos Frades, há potencial, não só para produzir um vinho de Vinhas Velhas, mas também das suas parcelas mais especiais. Também pensa em apostar em alguns vinhos varietais, sobretudo das castas que se destacam mais na Quinta de Frades, como a Tinta Amarela, a que mais destaca na propriedade, “também por ser e espinha dorsal dos nossos vinhos, porque consegue manter uma acidez muito boa e resistir, melhor que outras, ao efeito do calor”. É ela que dá um caracter mais vegetal aos vinhos da quinta, enquanto o toque de lápis acabado de afiar é mais um carácter da vinha velha, como foi demonstrado na prova que fiz. “E queremos fazer vinhos do Douro, do cima Corgo, com este perfil puro e clássico, que identifica os vinhos da quinta”, diz ainda Diogo Lopes.

(Artigo publicado na edição de Outubro de 2024)

Rosés heróicos do Douro

rosés douro

“Era uma vez uma improvável e quase casuística história de sucesso”. Bem que podia iniciar-se assim a história que levou a Provença francesa a tornar-se, nas duas últimas décadas, a região produtora dos rosés que todos admiram e tantos pretendem imitar o sucesso. Um mimetismo tão massivo, que são os próprios produtores da região a […]

“Era uma vez uma improvável e quase casuística história de sucesso”. Bem que podia iniciar-se assim a história que levou a Provença francesa a tornar-se, nas duas últimas décadas, a região produtora dos rosés que todos admiram e tantos pretendem imitar o sucesso. Um mimetismo tão massivo, que são os próprios produtores da região a recear que a inovação tecnológica permita a um mundo cada vez mais global produzir, em qualquer território vínico, rosés de cor rosa suave, secos, com nuances de fruta vermelha madura e afeiçoados a uma pungente mineralidade, tornando-se vítimas do seu próprio sucesso.

Historicamente, os rosés são produzidos desde a antiguidade. No século VI A.C., por iniciativa dos fenícios, foram trazidas as uvas para Massalia, actual Marselha, tornando-se os vinhos de cor rosada pálida uma escolha por toda a bacia do Mediterrâneo. A Provença, como primeira província do Império Romano, era o espelho de uma policultura fértil em quintas nas proximidades dos rios e do mar, para facilitar o transporte e comercialização, e onde a vinha tinha já uma importância fundamental.
A cultura da vinha manteve-se até aos dias de hoje, conhecendo épocas bem-sucedidas, sobretudo a partir do nascimento do conceito de turismo, já no século XIX, impulsionado pelo Grand Tour. No início dos anos 80 do século passado, os rosés provençais eram elaborados maioritariamente a partir das castas Grenache, Cinsault e Carignan, com adição de uma parte, usualmente 10%, de Cabernet Sauvignon, que dava origem a vinhos de um vermelho translúcido, secos, ligeiramente terrosos, herbáceos, suculentos e com acidez acentuada. Em 1985, dá-se a inusitada revolução rosa.

Um acaso de sucesso

Régine Summeire, do Château La Tour de l`Éveque e Château Barbeyrolles, ambas da Côte de Provence, visita, em 1985, o seu amigo Jean-Bernard Delmas, do Château Haut Brion, em Pessac, nas cercanias de Bordéus. Na adega, viu que Delmas usava uma velha prensa hidráulica para esmagar suavemente os cachos inteiros de uvas brancas, aconselhando-o este a usar o mesmo processo. Regressado à Provence, Summeire fez a experiência com as primeiras uvas de Grenache e o resultado foi um mosto mais fresco, com elevada acidez, muito menos carácter vegetal e uma cor rosa pálido. Após esta casuística descoberta e vencido o controlo das temperaturas de fermentação, um mundo abria-se, inicialmente tímido, aos rosés delicados, então denominados pétale de rose.
O resto da história é de todos conhecida, e é o sucesso deste conceito, que gera receitas de centenas de milhões de euros em vendas, que nos traz à questão de um milhão de dólares: pode o Douro tornar-se uma relevante região produtora de rosés, competindo em notoriedade com outras grandes regiões do mundo?
E se a resposta à derradeira pergunta é positiva, muitos de nós irão fazer muitas outras perguntas, designadamente sobre o caminho a trilhar para alcançar o êxito global. Os primeiros passos serão necessariamente a partir da identidade duriense.

Rosés do Douro

De portas abertas aos rosés

A resposta começou a ser desenhada há três anos, numa iniciativa desenhada num pequeno município duriense, Mesão Frio, que teve o arrojo de querer ser o centro do debate dos vinhos rosados da região do Douro, criando o evento “Douro em Tons de Rosé”, o qual trouxe para a mesa produtores, enólogos, jornalistas, opinion makers, bloggers e a mais reputada especialista mundial de rosés, Elizabeth Gabay, a Master of Wine britânica, ela própria residente na Provença.
Na mais recente edição deste evento, entre outras matérias, discutiu-se a viticultura tradicional na mais imponente região vitivinícola de montanha do Mundo, com mais de 40 mil hectares, e os seus benefícios para apurar a qualidade da matéria-prima para vinhos rosados, valorizando-se a singularidade humana num território onde a mecanização é uma miragem. Rui Soares, produtor e responsável de viticultura da Real Companhia Velha, alertou para a necessidade de protecção de um património único, de vinhas em patamares que selam indelevelmente a imagem de marca da região, constituindo, a par das vinhas velhas onde pontificam, tantas vezes, mais de 50 castas autóctones durienses, uma imagem que ajuda na projecção dos vinhos rosados como uma das maiores riquezas da identidade do Douro.
Para além da abordagem do terroir, características de viticultura duriense e prova de mais de três dezenas de rosés, houve lugar a uma palestra conduzida por Paulo Russel Pinto, wine educator e responsável de marketing e promoção do IVDP, cuja temática era, até há muito pouco tempo, uma matéria desconhecida e inusitada, o envelhecimento de rosés.

 

Para a afirmação dos rosés do Douro, há um facto incontornável: a paisagem duriense é de uma beleza inigualável

 

O lugar ao sol do Douro

Do mais verdejante e fresco Baixo Corgo, até ao inóspito e vasto Alto Douro, há uma imensidão de perspectivas a considerar para produzir, não apenas rosés leves, frescos e frutados, mas igualmente vinhos de elevada complexidade e capacidade de guarda. Para lhes dar um cunho de identidade regional, escolhem-se algumas das castas que melhor identificam o Douro, com a Touriga Nacional ainda a colher a primazia, seguida da Touriga Francesa, Tinta Roriz, Tinta Barroca, Tinta Francisca e o cada vez mais entusiasmante Tinto Cão. Não perdendo a noção de contemporaneidade e universalidade, surgem também exemplos de grandes rosés elaborados a partir da Pinot Noir ou mesmo Cabernet Sauvignon, sobretudo nas cotas mais altas do Alto Douro vinhateiro. Não esquecendo o valor inimitável e não replicável das vinhas velhas, algumas centenárias, também aptas a criar, se assim se entender, rosés únicos desenhados para mercados super premium, habituados a pagar a exclusividade.

Os perfis podem e devem ser marcadamente varietais e, sobretudo, absorver as características do terroir, preocupação a não descurar no momento da sua vinificação. As tendências emergentes não descuram as práticas orgânicas e sustentáveis na produção de rosés, matéria que, actualmente, fará necessariamente parte da estratégia de comunicação dos vinhos direcionados para um consumidor com forte consciência ambiental. Estas práticas não apenas se tornam mais protetoras do ambiente, mas valorizam a qualidade do vinho. A agricultura de base orgânica que elimina o uso de pesticidas e fertilizantes sintéticos, protege não apenas os solos, mas todo o ecossistema circundante às vinhas, criando uma vida mais saudável. É hoje uma tendência em franco crescimento. Associados a estas práticas incluem-se a redução do uso dos recursos hídricos, o recurso a fontes de energia renováveis, reciclagem e diminuição do desperdício. Formas de encarar a produção de vinho que, comunicadas a um consumidor moderno, aumentam as vendas pela associação ao estar a cuidar do ambiente.

Para uma afirmação dos rosés do Douro há um facto incontornável, que será fundamental na forma como o transmitiremos ao Mundo: a paisagem duriense é de uma beleza inigualável e, dentro dela, nascem unidades de enoturismo que valorizam a região, oferecendo comodidades cheias de glamour, piscinas panorâmicas sobre o rio, gastronomia autêntica polvilhada de contemporaneidade, estradas que serpenteiam as margens e, claro, uma história antiquíssima, associada à mais antiga região demarcada do Mundo, profundamente rica em tradição e elegância clássica.
Mais que um vinho consumido no Verão, o rosé tornou-se parte da vida quotidiana e da cultura iminentemente visual e cénica. Hoje é símbolo de sofisticação e modernidade. O social media tomou conta dos rosés, sendo factor preponderante na sua ascensão e exponencial aumento do seu consumo. Actualmente, no Instagram, o rosé surge não apenas como um vinho, tornando-se um elemento identificador de um modo de vida. As marcas mais reputadas e aquela rede social impulsionaram as vendas e o seu consumo. Esta categoria que, ainda não há muitos anos, era considerada inferior, surge hoje no topo das preferências dos consumidores, sendo olhada, cada vez mais, como um produto vínico exclusivo e exigente, com potencial de envelhecimento.
Hoje, segundo dados da Organização Internacional da Vinha e do Vinho (OIV), e pela primeira vez, o somatório do consumo de vinhos brancos e rosés representa mais de metade do consumo de vinhos no mundo, retirando a supremacia aos vinhos tintos, até agora hegemónicos. Julgando pela qualidade da amostra de vinhos rosados durienses provados, diremos que o Douro terá, para si, guardada uma parte relevante de afirmação neste mundo cada vez mais cor-de-rosa.

(Artigo publicado na edição de Setembro de 2024)

Os vinhos apresentados não estão por ordem de pontuação

 

Quinta de Ventozelo, 10 anos depois

Ventozelo

Existe desde 1500, data em que se verificam os primeiros registos da quinta como fazendo parte do património do mosteiro de São Pedro das Águias. Desde aí, a propriedade passou por várias épocas, umas prósperas, outras desafortunadas, mudando os proprietários e modelos de gestão, até que, em 2014, foi adquirida pela Gran Cruz (agora Granvinhos), […]

Existe desde 1500, data em que se verificam os primeiros registos da quinta como fazendo parte do património do mosteiro de São Pedro das Águias. Desde aí, a propriedade passou por várias épocas, umas prósperas, outras desafortunadas, mudando os proprietários e modelos de gestão, até que, em 2014, foi adquirida pela Gran Cruz (agora Granvinhos), empresa do grupo francês La Martiniquaise. Esta aquisição foi estratégica, permitindo um grande investimento na propriedade para explorar todo o seu potencial. Por outro lado, esta que é uma das maiores empresas nacionais de produção do Vinho do Porto (cerca de 30 milhões de litros segundo o seu director de enologia, José Manuel Sousa Soares) obteve condições para produzir vinhos Douro DOC de alta qualidade. Dos 15 milhões de euros investidos, 75% foram destinados ao turismo e 25% ao ambiente.

Tudo o que se faz na Quinta de Ventozelo faz-se com amor. E não apenas no sentido do bom gosto, mas também da responsabilidade ambiental. A sustentabilidade na quinta é transversal. Não se limita à produção de vinho, pois abrange toda a intervenção feita na Quinta, onde se pretende proteger e enriquecer os recursos naturais e a biodiversidade.
Todas as parcelas com vinha têm um coberto vegetal constituído pela flora autóctone espontânea ou resultante da sementeira de mistura de gramíneas e leguminosas. Esta técnica tem efeitos benéficos na protecção contra a erosão hídrica, principalmente em vinhas ao alto, na formação e estabilidade da estrutura do solo, no aumento da porosidade e na conservação da água durante o verão, sendo ainda abrigo da biodiversidade e de auxiliares no combate a pragas e doenças. As leguminosas ainda ajudam a fixar o azoto no solo.
Com a redução de utilização de agroquímicos em mais de 30%, criou-se espaço para crescerem espécies autóctones e restauraram-se habitats naturais nas galerias ripícolas. Na Quinta já foram identificadas um total de 224 espécies de plantas, sendo mais de 20% caracterizadas como RELAPE (Raras, Endémicas, Localizadas, Ameaçadas ou Protegidas) e 185 espécies de animais, parte delas também ameaçadas ou consideradas criticamente em perigo.

Enoturismo de referência

Enquanto projecto de enoturismo, Ventozelo Hotel & Quinta oferece o conforto de um hotel num ambiente rural de uma quinta do Douro.
O restaurante da quinta chama-se Cantina de Ventozelo, por ter sido uma cantina para os trabalhadores em tempos idos. Um amplo terraço oferece uma sombra compacta, que permite relaxar enquanto se observa a vista deslumbrante sobre as vinhas. A ementa, construída pelo Chef José Guedes, tem por base os produtos cultivados nas hortas da quinta, alguma caça e funciona num conceito “quilómetro zero”, o que significa trabalhar com fornecedores de proximidade, dando preferência a produtos regionais.
O Centro Interpretativo, aberto ao público já há alguns anos, é uma espécie de museu vivo e interactivo, que oferece uma espectacular experiência sensorial (incluindo efeitos visuais, sons e aromas) na descoberta de Ventozelo e da sua história.

As vinhas

A vinha ocupa metade da área da quinta. Dos 200 ha cerca de 40 ha foram reabilitados recentemente. Andar de jipe pelos trilhos da Quinta de Ventozelo, com mais ou menos emoção em função do percurso escolhido, é uma actividade tão hedonística como intelectual. Enquanto se desfruta a beleza paisagística das vinhas, testemunham-se as suas variadíssimas condições, moldadas pelas altitudes que vão desde o rio (a 100 metros) até aos 500 metros; pelos solos com diferentes níveis de evolução, textura e capacidade de retenção de água e nutrientes; e pelas exposições, que se apercebem melhor sobretudo ao aproximar-se o pôr-do-sol, quando algumas vinhas já se encontram ensombradas e outras ainda iluminadas pelo astro rei.
Pelo caminho, o director geral da Granvinhos, Jorge Dias conta as aventuras com as pragas dos javalis que, sobretudo nos anos quentes, vão à vinha à procura de água, mordem e estragam os cabos de rega gota-a-gota e servem-se à vontade de uvas. O problema resolve-se com 1000 euros por mês, através da colocação de comedores com milho em três lugares estratégicos para desincentivar os animais de irem às vinhas.

10 anos numa prova

A melhor forma de comemorar os primeiros 10 anos é ver o tempo a passar pelos vinhos numa prova vertical, desde 2014. Das 28 referências de vinhos produzidos na Quinta de Ventozelo, foram escolhidas duas – o branco monovarietal de Viosinho e o tinto Essência.
A casta mais emblemática da Quinta de Ventozelo é o Viosinho, sem dúvida. É a casta do Douro “com maior volume de boca” e bem expressiva; “aguenta o escaldão e tem uma janela de oportunidade na vindima bastante grande”. “As notas tropicais que surgem nos vinhos novos, desaparecem ao fim de dois anos em garrafa”. 10 vinhos numa prova vertical mostram bem a história, a aprendizagem e a variação anual.
O 2014 (em magnum) apresenta notas apetroladas e amendoadas, ervas aromáticas, fruta contida e algo terroso também. Muito bom no volume, acidez não impositiva, que dá frescura suficiente. Termina com notas citrinas e leve amargo (17,5). O 2015 (em magnum) mostra-se mais tropical no nariz marcado pelo aroma de ananás e manga, não tão fino e ligeiramente mais amargo no final (17). O 2016 revela fruta mais evoluída e menos finesse em expressão de nariz e de boca (16). O 2017 está em grande forma com aroma muito apelativo, vivo e complexo a revelar lima, laranja e kumquat, ervas aromáticas e nuances apetroladas também; grande volume de boca, expressão e prolongamento (17,5). O 2018 parece mais novo, tem uma nuance floral a lembrar madressilva e fruta delicada; quase crocante, cristalino e delicado, textura e corpo muito equilibrado com frescura persistente (17). O 2019 é exuberante, tropical, com ananás, manga e laranja, muito jovem ainda, de corpo amplo e muita vida (16,5). O 2020 é intenso, com alguma expressão tropical, aipo, manga, pêra, estragão e uma nota floral, com bastante corpo e acidez bem inserida, termina com leve nota amarga (17). O 2021 é jovem e exuberante com notas de tília, tisanas, funcho, vertente tropical, muito ananás (16,5). 2022 parece mais tímido no nariz, talvez por contraste com o super terpénico 2021, com fruta branca a lembrar pêra (16,5).

Essência no topo

Essência é o topo de gama tinto da Quinta de Ventozelo – a melhor expressão da quinta, que varia conforme a quantidade e proporção de Touriga Franca e Touriga Nacional, as duas castas responsáveis pelo lote. É produzido em anos que a uva entrega a qualidade pretendida. Por exemplo, em 2021 e 2022 optaram por não o fazer. A vinificação ocorre em lagar. Depois vai para as barricas de 500 litros de carvalho francês, novas e usadas, onde passa 18 meses. Por ser o vinho mais importante, ainda estagia bastante tempo em garrafa antes de ser lançado para o mercado. É por isto que os três vinhos mais recentes da prova vertical não se encontram ainda em comercialização, permanecendo em cave, onde evoluem potencializando as suas qualidades.
O 2019 (amostra da cave) tem nariz muito apelativo com um floral de violetas, cereja preta e ameixa madura, louro. Tem ainda muito da juventude, mas a complexidade está presente com promessa de ainda maior afinação com o tempo. Mastigável, tanino maduro e textura aveludada, macio na boca, com bom volume, mas não pesado. O tanino fica mais evidente no final, mas não tem secura. É suculento. Termina com especiaria doce (18). O 2018 (amostra da cave) tem menos corpo e mais frescura, menos exuberante na fruta, com cereja contida e tanino suculento (18). O 2017 (amostra da cave) revela nariz elegante com fruta vermelha, pimenta preta, louro e tomilho, ligeiramente terroso. Menos corpo, mais seco no fim, tanino bem firme e menos suculento, boa acidez e bonitos nuances de framboesa (17,5). O 2016 está ligeiramente fechado e terroso, a lembrar terra húmida, em combinação com louro, caruma e nuances de bergamota. Agradece arejamento, mais austero na boca, denso, compacto e especiado, com tanino ainda bem presente (17,5). O 2015 mostra-se lindamente no nariz, complexo, com muita fruta ainda a lembrar cereja preta e amora para além das notas de couro, caruma, especiaria e violetas. Óptima performance em boca, longo, suculento com tanino maduro e polido pelo tempo, austero q.b. e envolvente ao mesmo tempo (18,5). O 2014 nariz com notas de esteva, alcaçuz, resinas, eucalipto e reminiscência de fruta. Maior percepção de acidez transmite maior grau de frescura ao conjunto (17,5).
Ao jantar provámos outra bela amostra de cave, que será uma estreia absoluta em Setembro – o Quinta de Ventozelo Essência branco 2019, feito de Viosinho e Malvasia Fina. Que vinho! Fino e cativante, elegante com fruta branca séria e lindas notas citrinas, tudo bem proporcionado. Fantástico na prova de boca, com barrica certa, filigrano, com frescura natural, um vinho cheio de finesse, que mostra já uma super afinação (18,5). Segundo Jorge Dias, a Quinta de Ventozelo foi uma aventura de 10 anos e o projecto que deu um enorme gozo de fazer. “Que venham mais 10!” – resumiu com regozijo e confiança.

(Artigo publicado na edição de Setembro 2024)