Editorial – Desafiante

Editorial da revista nº55, Novembro 2021 Terminada que está a colheita das uvas, talvez a melhor forma de classificar a vindima de 2021 será dizer que, quando pensarmos nela no futuro, não suscitará grandes saudades. Quero com isso sugerir que foi uma vindima medíocre? Não, de forma alguma. Mas, poderia ter sido bem melhor, como […]

Editorial da revista nº55, Novembro 2021

Terminada que está a colheita das uvas, talvez a melhor forma de classificar a vindima de 2021 será dizer que, quando pensarmos nela no futuro, não suscitará grandes saudades. Quero com isso sugerir que foi uma vindima medíocre? Não, de forma alguma. Mas, poderia ter sido bem melhor, como 2011, por exemplo…

 

Convenhamos: uma vindima perfeita, como foi 2011, só acontece uma vez em cada década, ou até mais raramente. Desde a minha estreia na escrita de vinhos assisti a 33 vindimas, percorrendo vinhas e adegas de todo o país. E provei nas cubas, barricas e garrafas os seus resultados. Considero, assim, poder fazer uma avaliação global minimamente informada e realista. Portugal é, felizmente, um país muito diverso, em climas, solos e castas. Com muita frequência, uma mesma vindima é excelente numa região e apenas sofrível noutra. Quase nunca acontece uma mesma colheita ser nacionalmente considerada medíocre ou extraordinária. No primeiro caso, lembro-me de 1993 e, em parte, 2002. No segundo, sem qualquer dúvida, 2011.

Uma década passada sobre a vindima de 2011, não há produtor de vinho que não se recorde das suas circunstâncias. Maturações lentas e de regular progressão, sem excessos de calor. Uvas sanitariamente perfeitas. Ausência de chuva durante o período de colheita. Foi um daqueles anos em que as uvas amadureceram devagar, preguiçosamente, e o lavrador esperou por elas, descansado, sem stress, porque a previsão meteorológica a duas semanas nada anunciava de preocupante. Cada talhão foi colhido no momento certo e as uvas permaneceram nos depósitos todo o tempo que precisaram, sem pressa de sair para dar lugar à carga seguinte. Hoje, independentemente de alguns eventuais excessos de concentração (mais por “moda” da época do que por culpa das uvas), a verdade é que os 2011 se destacam, imponentes, em qualquer prova vertical que se faça dos vinhos de um dado produtor, de norte a sul do país.

2021 foi muito diferente. Antes da vindima, foi difícil controlar pragas e doenças. Depois, as maturações das uvas estavam globalmente atrasadas, e houve que esperar. Com as brancas, sobretudo nas zonas mais quentes, tudo correu pelo melhor e há muitos bons (e bastantes excelentes) vinhos. Com as tintas, não foi bem assim. Ainda que as maturações dos taninos se tenham antecipado (o que evitou vinhos amargos e verdes) o açúcar não estava lá, e sem uvas maduras não há aromas e sabores. As uvas tardaram muitíssimo em chegar ao ponto certo e antes de o alcançarem vieram as chuvas. A generalidade dos produtores resolveu, e bem, esperar em busca de uma aberta no tempo que permitisse aos cachos eliminar a água e reganhar concentração. Em muitos casos, assim aconteceu, uma vindima às pinguinhas, com avanços e recuos, mas que deu bons resultados. Em muitos outros, quando as uvas estavam quase prontas vinha nova chuvada e, a dada altura, só havia uma decisão possível: apanhar o mais que se puder no primeiro dia de sol e não parar a partir daí. Para os produtores, foi uma vindima muito longa e, acima de tudo, bastante extenuante, física e mentalmente. Como um enólogo me dizia, “foi uma vindima desafiante, mas desafiante com M…”

O que podemos então esperar? Provei mais de 300 amostras de vindima desta campanha e, posso dizer que, globalmente, os resultados estão acima das minhas expectativas. Não estamos perante um 2002 e, muito menos, um 1993, bem longe disso. Há mesmo muitos vinhos tintos surpreendentes pela qualidade da fruta e frescura de boca, com menos álcool que o habitual, claro, mas isso até é positivo. Mais uma vez, as pessoas fizeram a diferença. A qualidade e quantidade de profissionais de campo e adega nada tem a ver com a de há uma ou duas décadas. Prevenir, tratar, decidir, separar. Assim se conseguiram os melhores vinhos de 2021. Vindima desafiante? Porque não? Sempre é melhor do que o tão batido “vindima atípica”…

Editorial – A Serra

Editorial da revista nº54, Outubro 2021 Esta edição da Grandes Escolhas tem como tema de capa os vinhos da Serra de São Mamede. Dizer apenas “Portalegre” já seria suficiente para despertar a atenção, justificada pelos recentes investimentos feitos nesta sub-região do Alentejo e pela qualidade e carácter dos vinhos ali produzidos. Mas Serra de São […]

Editorial da revista nº54, Outubro 2021

Esta edição da Grandes Escolhas tem como tema de capa os vinhos da Serra de São Mamede. Dizer apenas “Portalegre” já seria suficiente para despertar a atenção, justificada pelos recentes investimentos feitos nesta sub-região do Alentejo e pela qualidade e carácter dos vinhos ali produzidos. Mas Serra de São Mamede, enquanto parte da DOC Alentejo-Portalegre, é diferente, uma unidade geográfica e uma realidade vitivinícola com uma identidade vincada e muito própria.

Quando se fala de Portalegre numa perspectiva de vinha e de vinho, devemos visualizar (pelo menos) três realidades distintas, correspondendo a outras tantas unidades geográficas. Primeiro, o distrito de Portalegre, que coincide com o chamado Alto Alentejo, limitado a norte pela Beira Baixa. É uma vasta região que vai desde Elvas e Campo Maior, a sul, até Gavião e Nisa, a norte. Este é claramente um Alentejo mais verde na paisagem, mais ondulado na orografia e mais fresco no clima. Embora não olhemos hoje para os 15 concelhos do distrito como sendo, globalmente, de forte implantação vitivinícola (ao contrário do que acontece com muitos outros concelhos dos distritos de Évora e Beja), não podemos esquecer que aqui se situam algumas das mais antigas casas de vinho do Alentejo, desde logo Tapada do Chaves (Portalegre), Mouchão (Sousel) e, mesmo, Fundação Abreu Callado (Avis) que, embora sem a notoriedade das anteriores, engarrafa vinho desde os anos 50.

Quando apertamos o foco geográfico, chegamos então a Portalegre enquanto sub-região da Denominação de Origem Alentejo. Aqui encontramos a vinha e o vinho em todo o seu esplendor, numa expressão diferenciadora do carácter Alentejo, já de si muito diversificado em função da multiplicidade de solos, orografias, climas, castas.

A DOC Alentejo-Portalegre abrange o concelho de Portalegre e pequenas partes dos concelhos de Castelo de Vide, Crato, Marvão e Sousel. Os vinhos DOC Alentejo-Portalegre são claramente marcados pela Serra de São Mamede, que exerce a sua influência desde as explorações situadas no seu sopé até aos vinhedos localizados mas zonas mais altas. Muitas das vinhas mais antigas do Alentejo situam-se precisamente em Portalegre (como as parcelas tinta e branca da Tapada do Chaves, com registos de plantação de 1901 e 1903), para além de várias outras espalhadas pela Serra e cuja recuperação e preservação contribui decisivamente para o carácter dos vinhos aqui produzidos.

Dentro da DOC, porém, existe uma unidade geográfica mais pequena que, embora não esteja oficialmente individualizada em termos vitivinícolas (ao contrário do que é habitual noutros países europeus), revela uma forte identidade em termos dos vinhos que origina: a Serra de São Mamede propriamente dita, local mágico onde a altitude dita a sua lei. Ali, a floresta alterna com vinha, plantada, regra geral, entre os 500 e os 700 metros de altitude.

Vinhas velhas e vinhas mais recentes, produtores de perfil mais clássico ou mais moderno, juntam-se num fantástico mosaico vitivinícola e cultural, dando corpo àquilo a que podemos – por enquanto apenas “oficiosamente” – chamar, os vinhos da Serra de São Mamede. Nem melhores nem piores do que outros grandes vinhos de Portalegre ou do Alentejo, mas, sem dúvida alguma, diferentes. E, também por isso, tremendamente entusiasmantes.

Editorial – Bairrada em branco

Editorial da revista nº53, Setembro 2021 Num mercado, nacional e internacional, onde a procura de vinhos brancos de superior qualidade continua, globalmente, a crescer, é impossível ficar indiferente à oferta da Bairrada nesta categoria. A Bairrada é uma extraordinária região de brancos, e acredito que essa faceta só ainda não teve o reconhecimento que merece […]

Editorial da revista nº53, Setembro 2021

Num mercado, nacional e internacional, onde a procura de vinhos brancos de superior qualidade continua, globalmente, a crescer, é impossível ficar indiferente à oferta da Bairrada nesta categoria. A Bairrada é uma extraordinária região de brancos, e acredito que essa faceta só ainda não teve o reconhecimento que merece devido ao desempenho e buzz mediático dos seus tintos e espumantes.

 

Faz algum sentido avaliarmos o padrão das nossas opções vínicas em função do espaço que cada região ou tipo de vinho ocupam nas nossas garrafeiras. E digo “algum sentido” e não “todo o sentido”, porque frequentemente, a oportunidade, a proximidade geográfica, ou o preço, têm um peso importante nas nossas compras. Abstraindo-me dessas nuances, e admitindo que as minhas escolhas de garrafeira se norteiam exclusivamente pela qualidade intrínseca, potencial de longevidade e gosto pessoal, no que a brancos diz respeito, logo a seguir a Monção e Melgaço, são as garrafas de Bairrada que mais “área de prateleira” tomam em minha casa. Acho que isto diz do apreço que tenho pelos vinhos brancos desta região.

Mas vou mais longe. Ando nisto há mais de três décadas, e conservo vinhos desde, pelo menos, meados dos anos 80, abrindo frequentemente garrafas com mais de 10, 15 ou 20 anos. Por isso, se me centrar apenas no critério longevidade (importante para saber o que guardar sem sobressaltos) posso avaliar com relativa precisão a capacidade que os brancos de cada região têm para envelhecer com nobreza. E aí, salvaguardadas as devidas excepções (brancos longevos existem em todas as regiões), não tenho qualquer dúvida em afirmar que os melhores brancos de garrafeira são, em primeiro lugar, Bairrada, seguida de muito perto pelo Dão, com Monção e Melgaço a fechar o pódio.

Curiosamente, porém, quando o apreciador, mesmo o mais esclarecido, pensa em Bairrada, no seu “top of mind” estão invariavelmente tintos (em particular os Baga) e espumantes. Muitos, provavelmente, pensarão que o grande Bairrada branco é coisa residual. Mas está longe de o ser, como se vê no elevadíssimo nível médio dos brancos bairradinos provados por Mariana Lopes para esta edição. Por outro lado, a cada vez maior utilização de uvas tintas Baga nos espumantes, associada à progressiva valorização dos brancos tranquilos (já existem muitos exemplos acima dos €15, €20, €30…), tem permitido “libertar” maior quantidade de uvas brancas para fazer vinhos de topo. E novas referências surgem, vindima após vindima.

Desde há muito que Luís Pato (pioneiro e referência incontornável) afirma com veemência que, no seu entender, Bairrada é, sobretudo, região de brancos. Apesar da minha ilimitada paixão pelos tintos Baga, tendo a dar-lhe razão. É que, enquanto apenas uma minoritária parte da Bairrada vinícola (solos de argila e calcário, em encosta, com boa exposição solar) consegue originar Baga de excelência, as mais nobres uvas brancas utilizam todos os recursos da região em seu proveito: argila, calcário, areias e, claro, o fresco clima atlântico. Não fora o facto de, tradicionalmente, para as uvas brancas estarem reservados os piores terrenos (espumante obriga…) e o esplendor dos brancos bairradinos seria ainda mais evidente.

Espantosa é igualmente a capacidade que a Bairrada tem de imprimir a sua marca qualitativa a uma grande diversidade de castas, clássicas ou “modernas”. Em que outro lugar se faz Maria Gomes (Fernão Pires) com 14% de álcool e 7,5 de acidez? E que dizer do Bical que ali atinge elegância inigualável? Junte-se o polivalente e seguríssimo Arinto, o Cerceal (absoluta estrela em ascensão), o raro e enigmático Sercialinho ou, se quisermos sair da tradição, Alvarinho, Chardonnay e Sauvignon Blanc, e percebemos que, na Bairrada, não falta matéria para atingir a máxima grandeza. Os vinhos aí estão, para dissipar dúvidas e preconceitos.

 

Editorial – Elogio da Castelão

Editorial da revista nº52, Agosto 2021 Dois eventos com o mesmo denominador comum, num curto espaço temporal, trouxeram-me ao copo e à mente uma variedade de uva com a qual tenho convivido de perto desde o início da minha carreira: Castelão. Uma casta outrora dominante, depois caída em desgraça, e que ainda hoje, apesar de […]

Editorial da revista nº52, Agosto 2021

Dois eventos com o mesmo denominador comum, num curto espaço temporal, trouxeram-me ao copo e à mente uma variedade de uva com a qual tenho convivido de perto desde o início da minha carreira: Castelão. Uma casta outrora dominante, depois caída em desgraça, e que ainda hoje, apesar de tímidas tentativas de reabilitação, está longe de ser consensual.

 

No passado mês de julho tive dois encontros marcantes com a Castelão como protagonista. Primeiro, levei para um almoço muito especial, onde só são admitidos vinhos de idade avançada, um conjunto de preciosidades da minha garrafeira, brancos e tintos, entre eles um Periquita 1986. Desgraçadamente, dos 14 vinhos diferentes que abri nessa manhã, era o único com gosto a rolha. Odeio quando isso acontece com um vinho velho, considero quase uma ofensa pessoal e uma desconsideração pelo tempo e carinho que dediquei à garrafa em questão. Por isso, como sabia ter ainda uma outra garrafa em casa, arranjei pretexto para a abrir dois dias mais tarde: estava sublime, firme, complexo, com tanino ainda presente e fantástico equilíbrio de acidez. O blend não podia ser mais original e retrata uma época e um local: Castelão, em larga maioria, com Monvédre e Espadeiro.

O segundo momento Castelão teve a ver com uma muito interessante prova organizada pela CVR do Tejo (ver página 34). Com vinhos velhos e novos, a iniciativa visou reavivar esta casta clássica regional, junto dos produtores locais e dos apreciadores.

Houve tempos, não muito longínquos, em que a Castelão era a casta tinta mais plantada em Portugal. Quando Jorge Bohm escreveu, em 2005, o seu “O Grande Livro das Castas” (obra de consulta obrigatória) já tinha deixado de o ser, perdendo a posição para a Tinta Roriz/Aragonez. Desde então foram raríssimas as novas plantações de Castelão. Ao invés, milhares de hectares desta casta foram substituídos por Syrah, Touriga Nacional ou Alicante Bouschet.

Em 1995, a Castelão ainda era a primeira ou segunda casta tinta em algumas sub-regiões do Alentejo, como Redondo, Borba e Reguengos. Há muito que deixou os lugares cimeiros, e embora continue presente em vários vinhos de entrada de gama, quase ninguém a usa nos lotes mais ambiciosos. Nas vinhas antigas de sequeiro, porém, ainda permanece, contribuindo com o seu perfume e elegância para a elaboração de alguns tintos marcantes, como o Sem Vergonha de Susana Esteban, um estreme de Castelão.

No Tejo, mantém-se a tinta mais plantada, com 1.500 hectares, e está presente na maioria dos lotes regionais. Porém, há apenas dois ou três os tintos 100% Castelão. Mas existem sinais positivos vindos de casas como Companhia das Lezírias ou Quinta da Alorna. Esta última irá lançar em breve, um belíssimo Castelão 2017 de uma só parcela.

Junto do apreciador, no entanto, o “solar” do Castelão está hoje claramente identificado com a Península de Setúbal (onde, curiosamente, a casta chegou vinda do Tejo) e em particular com os solos pobres e arenosos de Palmela. Ali encontramos diversas vinhas de sequeiro que são a base de quase duas dezenas de vinhos de Castelão, entre eles alguns de topo, que se destacam pela textura, elegância e potencial de longevidade. Segundo a CVR local, estão certificados e cadastrados 5.273 hectares de castas tintas, dos quais 3.255 ha de Castelão, um verdadeiro tesouro para quem o saiba usar.

Como já perceberam depois de toda esta conversa, gosto de Castelão. Tenho-a como uma variedade versátil (espumantes blanc de noirs, rosés, tintos) que pode originar vinhos que primam, não pela cor e pela potência, mas pela qualidade da fruta, pelo equilíbrio de acidez, pela finura. Apesar de ser utilizada sobretudo para esse fim, não é a fazer tintos bons e baratos que mostra o que vale, outras cumprirão melhor essa tarefa. Acredito que, se for bem tratada na vinha e na adega, pode tornar-se em mais uma daquelas pérolas do património vitícola nacional que, de quando em vez, resgatamos do baú do esquecimento para brilhar resplandecente e fazer toda a diferença.

O que (realmente) bebemos

Editorial da revista nº51, Julho 2021 Um jantar de amigos cujos vinhos me fazem reflectir, pela enésima vez, sobre a eterna questão do poder versus elegância. A sensação de dejá vu (ou melhor, “dejá escrito”) que me transporta a um editorial de há quase duas décadas. E a conclusão de que, por muito que as […]

Editorial da revista nº51, Julho 2021

Um jantar de amigos cujos vinhos me fazem reflectir, pela enésima vez, sobre a eterna questão do poder versus elegância. A sensação de dejá vu (ou melhor, “dejá escrito”) que me transporta a um editorial de há quase duas décadas. E a conclusão de que, por muito que as tendências vínicas vão mudando, na hora de “fazer figura”, o tipo de vinho que escolhemos não muda tanto assim.

 

Façamos o seguinte exercício. Perguntemos às amigas e amigos que entendem e apreciam vinhos de qualidade, qual a garrafa que levavam para a (inevitável) ilha deserta. Aposto que as respostas irão: primeiro, privilegiar os vinhos brancos; segundo, Borgonha e Champagne à cabeça, ou talvez (os mais patriotas) Dão Encruzado ou Monção e Melgaço Alvarinho ou Pico Verdelho. Muito poucos irão referir um tinto do Alentejo ou do Douro, um Bordéus ou Barolo clássicos, ou mesmo um Porto Vintage. Coloquemos então a questão de outra forma, mais directa: qual o perfil de vinho que mais apreciam? Garanto que 99% dos apreciadores inquiridos irão apontar para a santíssima trindade dos atributos vínicos: leveza, elegância, frescura.

Agora deixemo-nos de exercícios e passemos à realidade. Cenário: um lauto jantar entre cinco amigos, na casa de um deles, onde foi pedido a cada um que levasse uma garrafa. Atenção, não se escolhe uma garrafa qualquer para um jantar entre gente que sabe de vinho. É preciso algo que não se beba todos os dias, que impressione, que nos permita sair no final com a sensação, mesmo que enganadora, de que o “vinho da noite” foi o nosso. Então, dito isto, e depois dos espumantes/champagnes de entrada, que vinhos estiveram na mesa? Um branco “vin jaune” de Jura invulgarmente bom (pelo menos para mim, que não sou fã da região) e quatro tintos, todos eles de elevadíssimo nível: um Rioja “moderno”, um “super toscano”, um Toro “tradicional” e um Bairrada “clássico”. O que estes vinhos tinham em comum? Ainda que a nenhum faltasse frescura e alguns manifestassem mesmo uma certa elegância, nenhum deles encaixava propriamente no estereotipo de “leve, elegante e fresco”.

Onde é que eu quero chegar com tudo isto? Apenas salientar que, apesar de em nossas casas (e falo por mim), preferirmos beber vinhos mais leves no álcool e mais vivos na acidez, quando queremos mesmo impressionar, arrasar a “concorrência”, mandamos o vinicamente correcto às malvas e vamos buscar a artilharia pesada. E isto, note-se, entre pessoas que têm acesso a vinhos ultra premium. Se olharmos para o que bebe a esmagadora maioria dos consumidores do mundo, consumidores comuns que não têm de “esnobar” (deliciosa expressão brasileira!) ninguém, a cor, a concentração, a opulência e, em muitos casos, o álcool, são os maiores atributos.

Então, em que ficamos? Poder ou elegância? Respondo com um excerto de um editorial que escrevi no longínquo ano de 2002. “Quem possui algum interesse pelos grandes vinhos do mundo, já provavelmente ouviu falar na dicotomia ‘Bordéus-Borgonha’, como exemplo de dois estilos de vinho completamente opostos: de um lado o poder e a concentração, do outro lado a elegância e a finura. Normalmente, os apreciadores procuram colocar-se de um lado ou do outro, defendendo a sua ‘dama’ com diversos tipos de argumentos. É uma discussão fútil, quanto a mim, porque o poder e a elegância não são incompatíveis. Ou seja, o grande vinho é quase sempre, ao mesmo tempo, poderoso e elegante.“

Já agora, para aquele jantar, fui eu que levei o Bairrada clássico. O vinho, Baga de vinhas velhas, tem 14,5% de álcool, garra, tanino, acidez, muito sabor e frescura. A elegância também virá, com o tempo em cave. E, claro, em minha opinião, como não podia deixar de ser, foi o vinho da noite.

Tanto Douro

Editorial da revista nº50, Junho 2021 Provavelmente, muitos não terão ainda dado por isso, mas a verdade é que os vinhos do Douro mudaram, e bastante, ao longo, sobretudo, da última década. O território continua o mesmo, imponente, marcante. Mas as opções vínicas são, hoje, muito mais diferenciadas, deixando o tom monocromático de outrora para […]

Editorial da revista nº50, Junho 2021

Provavelmente, muitos não terão ainda dado por isso, mas a verdade é que os vinhos do Douro mudaram, e bastante, ao longo, sobretudo, da última década. O território continua o mesmo, imponente, marcante. Mas as opções vínicas são, hoje, muito mais diferenciadas, deixando o tom monocromático de outrora para exibirem toda a paleta do arco-íris.

 

Aviso à navegação: vou dizer algo que pode chocar as almas vínicas mais sensíveis. Se for o caso, por favor, parem de ler por aqui. Continuo? Então aí vai: durante muito, muito tempo, a prova dos melhores tintos do Douro, com trinta ou quarenta vinhos, era a avaliação mais aborrecida, monótona, física e mentalmente extenuante, do calendário anual de provas da nossa equipa. Pronto, está dito.

Agora, deixem que justifique tão singular afirmação. O desafio principal desse painel de prova assentava no facto de os vinhos serem cansativamente bons (sem os altos e baixos que facilitam avaliar grande número de amostras) e, ao mesmo tempo, insuportavelmente parecidos uns com os outros. E porquê? Porque a uniformidade de decisões de adega tomadas pelos produtores e enólogos para os tintos mais ambiciosos do seu portefólio, acabava por esbater consideravelmente a origem das uvas.

O Douro moderno, no que aos vinhos “não Porto” diz respeito, nasceu no início dos anos 90. Ramos Pinto, Niepoort, Alves de Sousa, Quinta do Crasto foram alguns desses pioneiros, seguidos no final dessa década por nomes como Vallado, Vale Meão, Quinta da Leda, Chryseia, entre outros. Na década seguinte o Douro já fervilhava. E uma nova geração de produtores e enólogos partilhava entre si conhecimentos e experiências enriquecedoras, consolidando, colheita após colheita, a qualidade dos seus vinhos, empurrados por um mercado receptivo e entusiástico. Nunca tantos e tão bons vinhos se tinham feito no Douro. Apenas um senão, aquele que acima mencionei: ao contrário dos vinhos pioneiros, que assentavam num processo de aprendizagem, e também por isso bem diferentes entre si, estes vinhos partiam de técnicas e equipamentos comuns (quase toda a gente fazia as mesmas macerações e remontagens e comprava as barricas nas mesmas tanoarias…) e eram demasiado semelhantes no conceito e no estilo.

Nos últimos nove ou dez anos, o panorama tem vindo a mudar. Resolvido o conhecimento técnico, existe agora muito mais margem de manobra para experimentar com segurança. E os profissionais durienses estão a tirar o máximo partido disso. Todos os recipientes de fermentação e estágio são válidos (lagar, inox, cimento, barro, até plástico alimentar…), a madeira não tem a preponderância de outrora, a marcação da vindima já é feita em função do estilo de vinho pretendido (encontramos belos tintos, entre os 12,5% aos 15,5%…).

Mais importante do que tudo o resto: o respeito pela origem está na primeira linha das preocupações de produtores e enólogos. Baixo Corgo, Cima Corgo, Douro Superior, vale do Tua, do Torto, do Pinhão, do Távora, do Côa, exposição solar, altitude, castas, constituem um imenso puzzle que começa agora, verdadeiramente, a fazer sentido. Já não basta dizer que o vinho é do Douro. Cada vez mais, um local concreto se expressa nos aromas e sabores do vinho, tão ou mais importante do que as decisões de vinha e adega.

Duas reportagens publicadas nesta edição sobre novos vinhos durienses constituem os melhores exemplos do que acabo de referir. A Quinta de Ervamoira exalta o Douro moderno: a vinha ao alto, a Touriga Franca e a Touriga Nacional, o carácter do Côa na suprema qualidade da fruta e polimento de taninos.

A Quinta da Manoella é um monumento ao Douro antigo: a vinha velha com inúmeras castas, o field blend, a personalidade de Vale de Mendiz na notável complexidade silvestre, terrosa e fresca.

Hoje, podemos continuar a dizer que os vinhos do Douro nunca foram tão bons. Mas devemos acrescentar que nunca foram tão diferentes e respeitadores das suas muitas origens. A região chegou, finalmente, à sua idade do ouro.

 

Tempo

Editorial da revista nº49, Maio 2021 Regra geral, quando chamados a associar vinho e tempo, de imediato pensamos na forma como o primeiro se comporta na garrafa com o passar dos anos, na sua curva de crescimento, na fase de aquisição de complexidade, na fase de declínio, no ponto óptimo de consumo. Mas raramente, se […]

Editorial da revista nº49, Maio 2021

Regra geral, quando chamados a associar vinho e tempo, de imediato pensamos na forma como o primeiro se comporta na garrafa com o passar dos anos, na sua curva de crescimento, na fase de aquisição de complexidade, na fase de declínio, no ponto óptimo de consumo. Mas raramente, se é que alguma vez o fazemos, reflectimos sobre a nossa própria evolução enquanto criadores ou consumidores de vinho.

 

A chamada “prova horizontal”, consiste na avaliação de várias marcas ou referências, do mesmo produtor/região e do mesmo ano, e oferece-nos uma excelente oportunidade para perceber as características específicas daquela colheita num determinado local, buscando denominadores comuns do ano vitícola e efeitos distintos consoante a casta, solo, exposição solar ou altitude, por exemplo. Neste modelo, o foco está numa colheita concreta, e é ela que nos transmite a informação que pretendemos.

Por contraponto, a “prova vertical” permite-nos avaliar a mesma referência, do mesmo produtor, ao longo de várias colheitas. “Horizontais” e “verticais” são modelos de prova totalmente diferentes e que visam objectivos distintos. Embora aprecie imenso ir de cuba em cuba, numa adega, provando os vinhos do ano acabadinhos de fazer, confesso que prefiro as provas verticais, sobretudo quando estou perante uma marca com larga história e muitas colheitas para apresentar. E a principal razão desta preferência tem a ver com o factor tempo, que pode ser abordado de múltiplas formas.

Claro que, numa primeira linha de avaliação, está o comportamento do vinho na garrafa e a forma como superou (ou não) a prova do tempo. É interessantíssimo verificar como, na grande maioria dos casos (sobretudo se estivermos perante uma marca/referência de nível superior), os vinhos (brancos ou tintos) precisam de tempo para atingir o seu auge. Mas nem sempre essa ascensão qualitativa é uniforme, ou previsível. Acontece muitas vezes enfrentarmos uma colheita jovem precocemente envelhecida e outra bem antiga e surpreendentemente jovem. É a magia do vinho a funcionar.

No entanto, numa prova vertical, gosto igualmente de imaginar o que ia na cabeça do produtor/enólogo durante vindima, qual era a sua abordagem, que vinho pretendia fazer há cinco, dez, quinze, vinte anos. Se pensarmos nas avassaladoras mudanças que o mundo do vinho tem atravessado em espaços temporais relativamente curtos, mudanças ao nível da produção (viticultura, enologia, tecnologia, conceitos) e ao nível do mercado (gosto do consumidor, comercialização, modas e tendências) facilmente chegamos à conclusão, tantas vezes evidenciada pela sequência de vinhos que temos nos copos, de que a abordagem do criador ao vinho foi mudando ao longo do tempo. O que nos leva a uma constatação ainda mais complexa: no caso de vinhos que levam vários anos em cave até chegarem ao mercado, como acontece com alguns tintos e espumantes mais ambiciosos, o perfil do vinho que acabámos de comprar na loja pode já nem sequer corresponder inteiramente àquilo que o seu produtor/enólogo entende hoje como o perfil ideal para o seu produto.

O mesmo se passa, claro, com o nosso comportamento enquanto consumidores. O tempo muda a forma como olhamos para um vinho. E fá-lo de forma tão gradual e subtil que, frequentemente, nem damos por isso.  Falo por mim: vinhos que adorei há duas décadas continuam a extasiar-me hoje, sempre que vou à cave e abro uma garrafa; e outros que avaliei bem alto há apenas 7 ou 8 anos, já pouco me dizem. Dou por mim a abrir a garrafa, provar, e despejar na pia. Não porque o vinho tenha perdido qualidades, longe disso. Embora mais velho, continua muito bom, exactamente como eu o descrevi na altura. Mas, vá lá saber-se porquê, já não me apetece, não me entusiasma, não mexe comigo, não me dá prazer. As coisas que o tempo faz…

Onde tudo começa

Editorial da revista nº48, Abril 2021 Terra, pedra, textura. Vale, encosta, planalto. Vento, chuva, escaldão, geada. Podar, empar, vigiar, tratar. Enfrentar o frio e o calor, provar os bagos para avaliar sabor, açúcar, acidez, taninos. Regressar triste ou contente, desalentado ou entusiasmado. Será que o tempo aguenta até à vindima? É ali, na vinha, que […]

Editorial da revista nº48, Abril 2021

Terra, pedra, textura. Vale, encosta, planalto. Vento, chuva, escaldão, geada. Podar, empar, vigiar, tratar. Enfrentar o frio e o calor, provar os bagos para avaliar sabor, açúcar, acidez, taninos. Regressar triste ou contente, desalentado ou entusiasmado. Será que o tempo aguenta até à vindima? É ali, na vinha, que tudo tem início. Quem não sente a videira, não pode verdadeiramente sentir o vinho.

Em mais de três décadas a escrever sobre vinhas e vinhos já assisti a muitos ciclos de produção e comercialização. Quando comecei, em 1989, a esmagadora maioria das marcas existentes no mercado correspondiam a vinhos que não tinham sido feitos pela empresa que os engarrafou. Em muitos casos, o proprietário da marca, sobretudo as de maior volume, não tinha sequer ideia da origem do vinho que comprou e que depois vendeu com o seu rótulo. Salvo honrosas excepções, vinha, vinho e marca eram três mundos separados que só se relacionavam através de transações comerciais. Algumas casas entre as grandes possuíam adegas e vinhas próprias, é certo. Mas estas representavam uma parte irrisória das suas necessidades de uvas e vinho. E, mesmo dentro de casa, a vinha era algo longínquo para quem estava na adega e na sala de provas. Em muitas empresas, o enólogo chefe raramente sujava as botas na vinha e, quando o fazia, não era com prazer.

Entretanto, o consumidor foi-se tornando mais conhecedor e exigente. E, a dada altura, deu-se um momento de viragem, quando encontrou valor acrescentado nos chamados “vinhos de quinta”. As empresas maiores sentiram então a necessidade de ter mais controlo sobre a matéria-prima que recebiam. Começaram a aumentar a sua área de vinha, a profissionalizar a vertente agrícola, a valorizar os conhecimentos dos técnicos de viticultura.

No início no século XXI, cresceu entre o apreciador a vontade de saber mais, de chegar até à origem do vinho, de visitar a vinha onde este nasceu. Ao mesmo tempo, já não lhe bastava aceder a um bom produto, o vinho tinha também de ser diferenciador, de ter uma história para contar. Aliada esta vontade do mercado à necessidade de manter a consistência das marcas, as grandes casas reforçaram o seu investimento em terra, em vinha e nos recursos humanos que lhe estão associados. Hoje em dia, é quase impensável para as empresas de maior dimensão, e com marcas em diversos segmentos de preço, não controlar a maioria das uvas, seja nas vinhas próprias, seja nas dos fornecedores.

Curiosamente, porém, nos últimos dois ou três anos, tenho vindo a assistir a algo que, até há pouco, julgaria impensável: o nascimento de marcas de nicho alicerçadas num nome “cool” e num rótulo atractivo, e potenciadas pelas redes sociais. Marcas sem vinha, sem adega, sem vinho (!), protagonizadas por pessoas oriundas de outras áreas de actividade que se insinuam junto de um produtor e que, perante dez ou doze amostras que lhe colocam à frente, escolhem uma para vender com o seu nome. E depois, apesar de nunca terem pegado numa tesoura de poda, enchido uma cuba, colocado uma rolha, contam no Facebook uma história sobre uma vinha que não conhecem e sobre um vinho que “ajudaram a fazer”. Alguns, não têm vergonha de acentuar que até “ensinaram” o enólogo a melhorar o lote. E vendem essas garrafas como vinho “de autor”, cinco vezes mais caro. Só cai quem quer, é verdade, e gente com talento para tomar como seu o trabalho dos outros sempre houve em todas as áreas de negócio. O que me espanta, no entanto, é que são precisamente os apreciadores que valorizam a genuinidade e a diferença que vão no logro, e compram esta falsa exclusividade a um preço muito acima do seu valor qualitativo.

Tenho para mim que, quanto mais ambicioso e oneroso for um vinho, mais fácil deverá ser para o consumidor seguir as suas pegadas até à origem. E a origem de um grande vinho é terra, é vinha, é gente. É verdadeiramente ali que tudo começa. Sem essa rastreabilidade, o vinho é apenas uma marca, mais uma.

GPS: Chegou ao seu destino

O mundo está mais pequeno e as modernas tecnologias aproximam gentes e paragens até ao ponto em que se desconfia que a aventura é um conceito fora de moda. Nada disso! Façamo-nos à estrada e enfrentemos o desafio de procurar o país profundo. Mesmo que isso implique um braço-de ferro com o seu quê de […]

O mundo está mais pequeno e as modernas tecnologias aproximam gentes e paragens até ao ponto em que se desconfia que a aventura é um conceito fora de moda. Nada disso! Façamo-nos à estrada e enfrentemos o desafio de procurar o país profundo. Mesmo que isso implique um braço-de ferro com o seu quê de irritante entre os que os olhos vêem e o que as máquinas nos dizem. O material nem sempre tem razão.

Luís Francisco

Não sei se é uma tendência universal ou apenas mais uma das minhas manias. Considero-me uma pessoa de bom feitio, mas assumo a solene embirração que cultivo com as vozes dos aparelhos de GPS. Todas. De todos os aparelhos. Embirro tanto que evito ao máximo utilizar a tecnologia que – dizem – nos leva a todo o lado sem desnecessárias perdas de tempo, seja a decifrar pistas na desconcertante sinalética das nossas estradas, seja no contacto verbal com os locais que, as mais das vezes, muito falam e nada explicam.

Infelizmente, não nasci com capacidades de navegação nem sentido de orientação apurado que me permitam abdicar sem prejuízo das ajudas à navegação. E, portanto, de vez em quando lá tenho mesmo de escutar as directivas deterministas de quem me aconselha, “por favor”, a “abandonar a rotunda na segunda saída” – leia-se: é para seguir em frente – ou a, “dentro de 600 metros, seguir pela esquerda” na auto-estrada – que é, adivinharam, como quem diz para continuar na mesma via.

Para espiar o pecado capital de ceder à tentação da papinha feita em termos de adivinhar o caminho do ponto “a” ao ponto “b” sem passar pela casa da dúvida, obrigo-me a uma série de penitências. Primeiro, colecciono todas as histórias que me chegam ao conhecimento de gente que se perdeu ou se meteu em sarilhos por seguir cegamente o GPS, sem se dar ao trabalho de abrir os olhos para o que está à sua frente. Acreditem, não são assim tão poucas como isso e algumas com consequências desastrosas. Por outro lado, anoto fervorosamente todos os erros que detecto nas infernais maquinetas. Se a 950 metros de altitude o sistema de navegação indica 976, isso quer dizer que, umas dezenas de quilómetros antes, quando a indicação era de 14 metros de altitude, na verdade estávamos abaixo do nível do mar? Não quero ser alarmista, mas com isto do aquecimento global e da subida dos oceanos, dá para desconfiar…

Mas então, perguntará o leitor que teve a paciência de me acompanhar até este quarto parágrafo, se este tipo abomina assim tanto os sistemas de navegação, por que motivo foi dar o nome “GPS” a estas crónicas? Bom, a explicação é simples. Quando surgiu a ideia de recordar histórias passadas por esse país profundo em busca dos vinhos e dos enoturismos que nos encantam, a primeira história que me veio a cabeça foi a que se passou à chegada à Fundação Eça de Queiroz, ali para as bandas de Baião. Nessa breve, mas intensa, experiência congregaram-se os dois pecados originais da “gpsdependência” humana nos dias que correm: erros da máquina e cérebro humano desligado. Isso e um motorista de autocarro com sonos atrasados. Mas já lá vamos.

Tão perto e tão longe

“Chegou ao seu destino.” A voz do sistema de navegação – não sei se já vos disse que embirro com elas todas… Já? OK, adiante – soou calma, impessoal e autoconfiante como sempre. Mas estava tudo errado. Primeiro, não tínhamos chegado a lado algum. Segundo, aquilo onde estávamos não era um destino. Nem sequer um meio. Parecia mais um fim. Do mundo. A estrada de terra batida desaparecera e a vegetação dava-nos pela altura da janela. Se isto era a Fundação Eça de Queiroz, então o Parque Nacional da Peneda-Gerês seria a Biblioteca Nacional…

Paramos o carro e respiramos fundo. Como é que deixámos esta coisa guiar-nos até ao mato profundo sem desconfiarmos de que algo estava errado? A primeira tentação foi apontar a culpa ao sono desbragado do motorista do autocarro estacionado lá em baixo na estrada nacional, mas convenhamos que nenhum dos dois ocupantes da viatura tinha idade para se agarrar a desculpas infantis… Prometo que não me esquecerei de explicar esta cena do motorista, mas primeiro convém assumir que durante um breve período a evolução da espécie homo sapiens para homo sapiens sapiens se tornou uma falácia quando confrontada com os dois espécimes que ali coçavam a cabeça no meio de uma paisagem belíssima, mas completamente destituída de qualquer sinal de civilização.

“Chegou ao seu destino” em que aspecto? Seria o nosso destino regressar às origens primitivas e tornarmo-nos caçadores-recolectores naquele prado viçoso rodeado de grandes montanhas? A Fundação Eça de Queiroz, afinal, não existia e tínhamos feito centenas de quilómetros atrás de um embuste? Ou – hipótese igualmente válida naquele momento de estupor – não estávamos a ler bem a paisagem e havia mesmo ali uma casa, vinhas e muitas histórias para descobrir? Na dúvida, o melhor era sair do carro e descobrir.

Saímos. E logo percebemos que, à nossa frente, para lá da estrada nacional que de repente voltamos a descobrir, havia um desvio que descia para um vetusto conjunto de edificações em pedra, coberta por heras e rodeada de vinhas e árvores. À nossa frente, mas uns 20 metros abaixo do local onde nos encontrávamos… O erro do GPS tinha sido minúsculo, mas a barreira vertical era intransponível. Há pouco tínhamos passado naquela mesma estrada, lá ao fundo, e falhado o desvio. Seguiu-se uma bem-intencionada tentativa do GPS para nos fazer dar a volta, enviando-nos por uma estrada secundária, primeiro, depois por ruas estreitas numa aldeia deserta e, finalmente, por picadas cada vez mais residuais até ao esquecimento total do mato.

O sono dos justos

Após uma audaz inversão de marcha, regressámos à estrada e entrámos então no desvio para a Casa de Tormes, onde Eça de Queiroz remoeu saudades dos salões de Paris e escreveu algumas das melhores prosas da sua obra imortal. O caminho era óbvio e até estava sinalizado. Como fôra possível falhá-lo na primeira passagem? E então lembrámo-nos do motorista do autocarro.

Menos de 500 metros antes do desvio, à saída de uma curva do caminho, estava um autocarro estacionado na berma, o compartimento das bagagens aberto. De lá saíam as pernas de alguém que ali encontrara uma sombra para repousar. Tudo bem, quem somos nós para recusar a alguém o direito inalienável de passar pelas brasas? O problema é que, com o tronco metido dentro do compartimento, aquela alma sofredora acabara por estender as pernas, que agora invadiam o asfalto. A guinada do nosso carro terá sido silenciosa, ou então o sono era muito pesado, porque quando olhámos pelo retrovisor ele não se mexera, ignorando completamente o facto de que, instantes antes, poderia ter ficado umas dezenas de centímetros mais baixo…

Comentámos o incidente entre o divertido e o alarmado, debatemos brevemente a hipótese de voltarmos para trás para avisar o homem, fizemos piadas sobre a eventual graduação dos vinhos de Tormes. Enfim, distraímo-nos por completo, falhámos o desvio e confiamos cegamente nas indicações do GPS. E lá fomos parar ao fim do mundo. Sem podermos sequer invocar a desculpa de termos passado pelas brasas no processo.

Artigo da edição nº37, Maio 2020

Bechamelo: A importância de ser restaurador

Estamos em plena era dos chefs, são muito poucos os que na juventude decidem ir formar-se para ser empregados de mesa e quase nenhuns a querer simplesmente ser restauradores, com tudo o que vem com a profissão. É no, entanto, aí que está o ponto fulcral da operação e êxito de um restaurante. Como é […]

Estamos em plena era dos chefs, são muito poucos os que na juventude decidem ir formar-se para ser empregados de mesa e quase nenhuns a querer simplesmente ser restauradores, com tudo o que vem com a profissão. É no, entanto, aí que está o ponto fulcral da operação e êxito de um restaurante. Como é que se inverte esta tendência?

Fernando Melo

Sempre venerei as segundas linhas, assim como sempre me impressionaram mal as ribaltas prematuras. Penso que decorre da natureza de qualquer profissão exercida de corpo e alma, preferir o trabalho à fama, assim como procurar a excelência em todos os detalhes. A profissão de restaurador – o melhor termo que encontrei até hoje – é além do ponto de convergência de todas as funções na operação de um restaurante, a mais importante de todas elas. As atribuições mais importantes são justamente aqueles por que ninguém dá, à excepção de quem tem muitos anos de experiência na área. E essa é a primeira grande razão para a falta de vocações, bem mais grave que a falta de cozinheiros ou empregados de mesa.

Quando se pensa num restaurante a partir do zero, junta-se normalmente uma equipa de especialistas para trabalhar conjuntamente no projecto. Tenho visto e acompanhado alguns desde o início dos inícios, com reuniões em chão de cimento cru e pontos de água e gás a brotar do chão sem perceber exactamente para quê. Há um arquitecto que trata de layouts de sala, iluminação, cores e mobiliário, que trabalha – quase sempre mal – juntamente com um projectista de cozinhas de produção, que juntos vão engendrando um orçamento que nunca se fica pelos números previstos; excede duas ou três vezes o que se pensava. E foi sempre porque não existia a figura do restaurador. Do homem que não espera pelo parecer do arquitecto; antecipa-se-lhe e faz o programa – é assim que se diz – para o espaço. Culpa-se frequentemente o arquitecto pelos desmazelos encontrados na exploração de um restaurante, quando o que aconteceu foi simplesmente o programa não ter sido pensado por alguém com experiência de facto. A pessoa de quem falamos é a única que pensa em tudo, e a quem depois se pede contas de tudo, sobretudo erros. É quem tem o peso da responsabilidade. Quantas vezes aspectos triviais de conforto tais como ruído, som e reverberação só são olhados depois da abertura, com custos brutais acrescidos? E a qualidade do som, quem a pensou? É um de mil pormenores de que invariavelmente todos os envolvidos se demitem, dizendo simplesmente que ninguém lhes disse. É por isso que não só não é fácil ter um restaurante como não querendo entrar por essas especificidades é melhor nunca chegar a ter.

São muito raros os chefs que têm esta percepção global e ao mesmo tempo minuciosa das frentes de operação de um restaurante. Os seus conhecimentos quando muito são úteis na definição inicial da cozinha, copa e espaços adjacentes, e mesmo assim nem sempre têm conhecimentos suficientes para as decisões que tomam. A figura do gestor – restaurador – é muito importante, é uma espécie de timoneiro que sabe sempre para onde está o barco a ir. Fico sempre muito nervoso quando vejo um chef na televisão num daqueles programas que aceitaram fazer, a opinar sobre a luz, o conforto, os equipamentos e até a salubridade, muitas vezes sem saber bem o que estão a dizer. Digo isto porque infelizmente nem os aspectos culinários fundamentais estão bem dominados e às vezes é de deitar as mãos à cabeça, tal a impreparação. De nada adianta encenar – é de encenação que se trata – aberturas dramáticas de câmaras frigoríficas com tudo podre e o chef aos gritos para impressionar, até porque nesse ponto já não há nada a fazer, para além de deitar tudo para o lixo, limpar e repor stocks. Pelo menos tem solução; a falta de cultura de restauração não. E o meu pensamento enquanto estou a ver esses programas vai para os restauradores, proprietários, directores, chamem-lhe o que quiserem, que sustentam a verve e o topete com que os chefs falam em tom de julgamento. Acho que está tudo mal.

O bom restaurador é não só uma pessoa com experiência e solidez de conhecimentos, como também e principalmente um motivador. Enternece-me o carinho que vejo na forma como grandes profissionais da nossa restauração promover os que trabalham consigo. E na operação na sala é muito fácil perceber isso, sobretudo pela coreografia com que se movimentam, mas sobretudo pela empatia que revelam ter. O chef tem de estabelecer os standards de serviço de cada prato e isso tem de ser reavivado todos os dias, talvez até antes de cada serviço, o chef de sala tem de governar o trabalho todo de serviço e fluxos de trabalho, mas mesmo perante as brigadas mais brilhantes, a figura do nosso restaurador é determinante. Não há dois dias iguais e as pessoas não são autómatos; tem de existir o “middleman” para adaptar o serviço à sala, e a cozinha ao serviço. A formação é a um tempo a tábua de salvação de uma casa e a garantia de regeneração. Escolher dois ou três colaboradores e ir com eles a outros restaurantes, chamando-lhes a atenção para pormenores e puxando pelo seu sentido crítico para que vão dizendo o que lhes parece. Viajar é outro aspecto crítico que na medida do orçamento disponível deve ser posto em prática. Não há formação específica nas escolas de hotelaria para esta figura especial que afinal é aquela de quem falamos quando falamos das casas onde nos sentimos bem. Agora já sabemos como se chama: restaurador.

Artigo da edição nº43, Novembro 2020