Quinta dos Frades: Os segredos das vinhas velhas

Nunca me canso de percorrer a estrada que segue a margem esquerda do rio Douro entre o Pinhão e a Régua, mesmo nesta época do ano, a da vindima, em que há muito mais veículos na estrada e gente por terras do Douro. É difícil resistir a não parar para mais uma foto a uma […]
Nunca me canso de percorrer a estrada que segue a margem esquerda do rio Douro entre o Pinhão e a Régua, mesmo nesta época do ano, a da vindima, em que há muito mais veículos na estrada e gente por terras do Douro. É difícil resistir a não parar para mais uma foto a uma paisagem única que muda com as estações do ano, ainda por cima agora que há mais pessoas nas vinhas a fazer o seu maneio, e a colher as uvas porque estão no ponto certo de maturação e é preciso levá-las à adega.
A certo ponto da estrada, na margem esquerda, é difícil não notar a Quinta dos Frades. Pela sua extensão, pelo seu edificado histórico, sempre bem pintado e de ar sólido, e pelas suas vinhas, que acompanham as curvas do rio e da serra, aqui e ali entremeadas com jardins, pomares, hortas e áreas de bosque. As suas origens parecem remontar ao século 13, depois de as terras terem sido doadas aos monges do Mosteiro de Santa Maria de Salzedas. Depois de séculos de gestão monástica, a propriedade foi arrematada em hasta pública por Jerónimo Souza, 1º Barão de Folgosa, permanecendo na sua família durante mais um século até ser por Delfim Ferreira, um dos investidores e industriais mais importantes da economia portuguesa do século passado, que detinha, entre outras, a Companhia Hidroelétrica do Norte de Portugal, empresa que fornecia electricidade aos distritos de Braga, Bragança, Vila Real e Viseu. Foi, depois, encetado um processo de reabilitação e modernização das infraestruturas de produção e lazer da Quinta dos Frades.
Mas a propriedade era, sobretudo, uma quinta de fim de semana, onde os bisavós de Aquiles Ferreira do Brito, 53 anos, administrador delegado da Predial Ferreira & Filhos, empresa proprietária das Quintas dos Frades, em Folgosa, e do Castelo, em Santa Marta de Penaguião, vinham de tempos em tempos. “Naquela altura não se olhava muito para as despesas de manutenção”, diz o responsável, acrescentando que o início do segundo milénio e a estagnação do benefício, “que era aquilo que apoiava muito a agricultura no Douro, e com os custos a subir, entendeu-se que a empresa devia investir na criação de uma marca de vinhos de mesa”. Isso aconteceu quando foi convidado, por outro membro desta empresa familiar, para gerir a empresa e encetar esse novo caminho. A primeira colheita comercializada foi a de 2011, e todo o processo iniciado naquela altura contribuiu para colocar a empresa e a suas marcas no radar do mercado.
Os primeiros vinhos
Os primeiros vinhos foram produzidos com o apoio dos enólogos Anselmo Mendes e João Silva e Sousa e, mais tarde, apenas com o primeiro. Depois foi preciso começar a vendê-los e Aquiles de Brito entrou, no mercado, “inicialmente com o apoio de alguns distribuidores regionais, fazendo algumas provas e apresentações, procurando destacar que os nossos eram vinhos de valor acrescentado e não para vender em volume”, conta, acrescentando que as marcas foram surgindo, depois, no portefólio da Quinta dos Frades à medida que se iam conhecendo as vinhas e as características das suas parcelas. Algumas foram dando origem às referências que existem actualmente. Mas o processo aconteceu sem uma metodologia sustentada para a sua criação e construção. Por isso, marcas da empresa como a Vinha dos Deuses ou Vinha dos Santos não têm hoje nenhuma explicação ou ligação à casa, que permita, a quem compra os vinhos, fazer essa associação, revela Aquiles de Brito, salientando que está agora a desenvolver, com a sua equipa e o apoio de uma empresa especializada, um projecto de mudança de imagem. “Estamos agora a realizar um trabalho de marketing, imagem e comunicação que contribua para evidenciar a Quinta dos Frades como produtora dos seus vinhos, que não existia até agora”, explica.
Segundo Liliana Mendes, 43 anos, designer gráfica na Quinta dos Frades desde 2021, a ideia de mudar a imagem da quinta e das suas marcas de vinho teve, como objectivo, “criar uma unidade entre elas através da ligação de cada uma à quinta”. Assim, e quando o processo estiver concluído, em cada uma das referências de vinhos da empresa será evidenciada a marca umbrela, Quinta de Frades, em relação a cada uma das outras. Com esta integração, clientes e consumidores passarão a saber que todos os vinhos são produzidos pela Quinta dos Frades, o que não acontecia até agora. Como é evidente, o objectivo é promover e solidificar a imagem da empresa no mercado como produtora de vinhos do Douro e do Porto, para que possa continuar a crescer num mercado onde isso não é fácil para um produto como o vinho.
“Mas nós temos a vantagem de possuirmos uma história já longa por detrás e de termos construído, durante os últimos anos, uma identidade no mercado, lançando vinhos todos os anos, ou seja, estando presentes, o que tem contribuído para que os nossos já sejam conhecidos”. Hoje são colocados no mercado nacional pela Direct Wine, empresa do grupo Fladgate Parternship, principalmente para a restauração. Para além disso, só estão nos supermercados Apolónia, no Algarve, no El Corte Inglès, no E.Leclerc de Lamego, “uma referência onde toda a gente do Douro está, e mais um outro supermercado que me pede, pontualmente”, diz Aquiles de Brito, defendendo que não quer trabalhar com a grande distribuição. Para este responsável, ainda há muito muito trabalho a fazer em Portugal, o principal mercado da empresa, para cimentar a marca.
Quanto à exportação, que decorre apenas para o Brasil e pontualmente para outros mercados, “vai certamente lugar a isso, mas só depois de estar devidamente estruturado e cimentado no mercado nacional”, explica. Adepto de apostar na qualidade, na história por detrás da empresa e das suas marcas, para continuar a trilhar “um caminho que tem sido difícil, moroso, lento, com algum sucesso”, salienta “há que continuar a trabalhar e comunicar aquilo que fazemos bem e as nossas diferenças”.
Mais de 30 castas
A empresa tem, hoje, nas duas propriedades que a compõem, cerca de 240 hectares, dos quais 110 de vinha. Na Quinta dos Frades “há mais de 30 castas, de uma vinha onde as variedades predominantes são a Tinta Amarela, a Touriga Franca e, agora, a Touriga Nacional após a reconversão mais recente”, conta Diogo Lopes, 46 anos, enólogo da Quinta dos Frades, que tem um total de 75 ha de vinha. Uma parte significativa, de cerca de 20 hectares, é vinha velha. “A nossa é, na verdade, muito velha, pois uma parte significativa tem mais de 100 anos, o que faz dela a nossa jóia da coroa”, salienta.
Há mais 35 hectares na Quinta do Castelo, em Santa Marta, no Baixo Corgo, que estão a ser restruturados, porque a empresa quer apostar mais na produção de vinhos a partir de castas brancas. “Queremos puxar muito pela identidade dos tintos do Cima Corgo, na Quinta dos Frades e, na Quinta do Castelo, queremos apostar na frescura, nas castas brancas, no potencial que existe por explorar nos brancos do Baixo Corgo e duriense como um todo”, explica Diogo Lopes. Por isso, está a ser feita a reconversão de muitas variedades tintas para brancas, e “a multiplicação das castas mais enraizadas no Baixo Corgo, como a Códega do Larinho, o Avesso e o Arinto”. Para Diogo Lopes, “há espaço para fazer brancos com muito mais caracter, e é isso que queremos fazer”.
Vinha velha e muito velha
Trabalhar com vinha velha no Douro é sempre um grande desafio, e um trabalho pesado por ser manual, que obriga a um maior controlo e mais atenção durante o ciclo vegetativo das plantas, numa época em que há cada vez mais fenómenos extremos durante o verão, com picos de calor e outros fenómenos associados ao escaldão. “Temos tentado minimizá-los através de uma gestão mais equilibrada da forma como controlamos a vegetação, para protegermos os cachos dos fenómenos extremos, que têm sido cada vez mais constantes nos últimos anos e serão mais permanentes no futuro”, diz o enólogo, acrescentando que ainda há um longo trabalho a fazer, ao nível da viticultura, para conhecer e diferenciar todas as suas parcelas de vinha. A sua área extensa e as suas muitas exposições podem constituir uma mais-valia para o trabalho a realizar na adega, com uvas com características diferenciadas conforme as suas origens a poderem contribuir, após o estudo dos vinhos que originam, para originar vinhos diferenciados. O futuro o dirá.
Diogo Lopes conta que entrou na Quinta dos Frades há um ano, cheio de ideias. “Já apresentei um plano de trabalho ao Aquiles de Brito, que contém tudo aquilo que acredito que podemos fazer em conjunto nos próximos anos. Isso implica estudar tudo, ou seja, conhecer a Quinta dos Frades em todos os seus ambientes e recantos, porque acredito que ainda não se explorou todo o seu potencial”, conta. “É esse trabalho que a quinta merece”, afirma. Estudar para conhecer e individualizar as suas parcelas “irá também contribuir para podermos fazer a nossa própria multiplicação vegetal com o material genético que aqui existe, que é a nossa grande mais valia” explica.
Diogo Lopes acredita que, na Quinta dos Frades, há potencial, não só para produzir um vinho de Vinhas Velhas, mas também das suas parcelas mais especiais. Também pensa em apostar em alguns vinhos varietais, sobretudo das castas que se destacam mais na Quinta de Frades, como a Tinta Amarela, a que mais destaca na propriedade, “também por ser e espinha dorsal dos nossos vinhos, porque consegue manter uma acidez muito boa e resistir, melhor que outras, ao efeito do calor”. É ela que dá um caracter mais vegetal aos vinhos da quinta, enquanto o toque de lápis acabado de afiar é mais um carácter da vinha velha, como foi demonstrado na prova que fiz. “E queremos fazer vinhos do Douro, do cima Corgo, com este perfil puro e clássico, que identifica os vinhos da quinta”, diz ainda Diogo Lopes.
(Artigo publicado na edição de Outubro de 2024)
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Quinta dos Frades
Fortificado/ Licoroso - 2017 -
Comendador Delfim Ferreira Grande Reserva
Tinto - 2015 -
Dona Silvia
Tinto - 2017 -
Quinta dos Frades
Tinto - 2016 -
Vinha dos Deuses
Tinto - 2019 -
Vinha dos Santos Colheita
Tinto - 2020 -
Vinha dos Deuses
Rosé - 2023 -
Dona Silvia
Branco - 2020 -
Vinha dos Santos Colheita
Branco - 2022
Periquita: Muito mais do que uma marca

No ano em que a José Maria da Fonseca celebra os 190 anos de casa, sua marca mais emblemática – Periquita – foi objecto de um rebranding sob o mote “Moderno desde 1850”. É apresentada agora com uma imagem renovada e bem conseguida, que alia um estilo moderno com um toque de classicismo, resultando numa […]
No ano em que a José Maria da Fonseca celebra os 190 anos de casa, sua marca mais emblemática – Periquita – foi objecto de um rebranding sob o mote “Moderno desde 1850”. É apresentada agora com uma imagem renovada e bem conseguida, que alia um estilo moderno com um toque de classicismo, resultando numa estética tradicional refinada.
Conta a história que o fundador da casa mais antiga da Península de Setúbal (1834), José Maria da Fonseca, adquiriu a propriedade em Azeitão chamada Cova da Periquita, na década de 1840, onde plantou varas de Castelão que havia trazido muito provavelmente do Ribatejo.
Embora a data exata da primeira colheita não possa ser confirmada, sabe-se com certeza que em 1850 o Periquita já era produzido. Prova disso é uma carta desse ano, na qual José Maria da Fonseca escreve a um amigo: “Gostava que provasses o meu Periquita.”
Foi o primeiro vinho engarrafado em Portugal, e com ele nasceu o conceito que hoje chamamos de “marca” (e que foi oficialmente registada em 1941). O nome que corresponde à identidade de um vinho e desperta as expectativas do consumidor.
As garrafas vieram da Inglaterra, a concepção dos primeiros rótulos do Periquita foi da autoria de um artista parisense e as rolhas eram seleccionadas por um técnico catalão. Foi um passo visionário. O vinho engarrafado que ostenta um rótulo, ao invés do vinho vendido a granel, para além de chegar ao destino mais protegido da adulteração, serve de embaixador da casa que o produziu, da região e do país.
Em 1881 deram-se as primeiras exportações de Periquita para o Brasil. A colheita de 1886 recebeu a medalha de ouro na Exposição de Vinhos de Berlim em 1888.
Na década de 1940 surge o conceito de Reserva, “que não tem nada a ver com os Reservas de hoje” – explica Domingos Soares Franco, o vice-presidente da empresa e a 6ª geração da família. “Nos anos bons guardava-se uma parte em cave e lançava-se mais tarde”, com 5-7 anos de estágio. “Reservavam-se cerca de 1000 caixas de 12 e, nesta altura, estaremos a falar da produção do Periquita de mais de 100.000 caixas, ou seja cerca de 1 milhão e meio de garrafas”. O Periquita e o Periquita Reserva, originalmente, eram o mesmo vinho. O Reserva de hoje é um vinho completamente diferente do Periquita “colheita”.
Embora o Periquita tenha nascido como Castelão, a força da marca era tal que se tornou na sinonimia da própria casta na região (hoje permitida apenas para a Península de Setubal). Nos anos 40-50 do século passado deixou de ser Castelão a 100%, juntando a Trincadeira que o pai de Domingos Soares Franco, Fernando Soares Franco, gostava muito, e Aragonez. Décadas depois deixa de ser blend, sobretudo porque ambas as castas mostram grande susceptívidade às doenças da vinha, e a Trincadeira ainda por cima “é uma casta muito aneira e desidrata de um dia para outro”. Na viragem do século volta a ser um blend, para o qual a Trincadeira e Aragonez vêm de uma vinha plantada no início dos anos 90. Na colheita de 2022, o Aragonez foi substituído por Alicante Bouschet (14%), a acompanhar Castelão (47%) e Trincadeira (39%). Deste vinho produzem-se actualmente cerca de 450 000 garrafas.
Acompanhando a evolução e as exigências dos mercados, a família do Periquita cresceu. Em 2004 foi lançado o Periquita branco, inicialmente para o mercado sueco. A nova época do Reserva começou com vindima de 2004, lançado em 2007 também com foco no mercado sueco. Como o tempo, o sucesso estendeu-se para o Brasil e a Noruega. Na sua composição, o Reserva tem 54% de Castelão, 28% de Touriga Nacional e 18% de Touriga Francesa; estagia mais tempo (oito meses) do que o Periquita original em madeira de carvalho francês (usada) e americano (nova). Deste vinho fazem-se cerca de 600 000 garrafas.
Em 2007 surgiu o Periquita rosé e, em 2008, foi criado o Periquita Superyor, lançado em 2012 como um topo de gama da família dos Periquita.
Regresso ao Clássico
Os tempos mudam, a tecnologia evolui e a abordagem enológica adapta-se. Hoje em dia, as uvas são desengaçadas, as fermentações ocorrem em cubas de inox e não em lagares e o estágio passa a ser em barricas de carvalho francês e americano em vez de tonéis grandes de madeira usada. Neste contexto, é natural que mais cedo ou mais tarde surja a vontade de regressar às origens sem intromissão na evolução natural das coisas.
O regresso ao passado sucedeu pela primeira vez na colheita de 1992, quando Domingos Soares Franco fez um lote de vinho “como antigamente: em cubas de cimento com engaço, sem controlo de temperatura e com estágio em tonéis” com o intuito de ser lançado anos mais tarde, por volta de 1998-1999. Entretanto, o vinho acabou por ser apresentado ao importador nos Estados Unidos em 1995, demasiado cedo para mostrar todo o seu potencial. Obviamente, não teve o sucesso esperado. “Foi o jantar mais caro da minha vida”, lembra-se com risos Domingos Soares Francos, que fez uma viagem de ida e volta a Califórnia sem vender uma única garrafa. O Periquita Clássico teve várias colheitas, incluindo as de 1994, 1995, 1999, 2001 e 2004, ano em que decidiram descontinuá-lo. No entanto, nas suas viagens aos mercados de exportação, sobretudo no Canadá e nos Estados Unidos, Domingos Soares Franco sentiu que havia interesse crescente por este conceito. Assim, em 2014 voltaram a fazer o Periquita Clássico, que está ainda disponível no mercado. O 2015 será lançado em breve, permanecendo o 2017 em estágio. A identidade do perfil também é assegurada pelas uvas provenientes de uma vinha com quase 40 anos, implantada em solos argilo-calcários numa vale da Serra da Arrábida. Do Clássico produz-se entre 8 e 9 mil garrafas.
O Castelão das areias e do argilo-calcário
Voltando à Periquita, neste caso, à casta Castelão, um cruzamento natural da casta tinta Portuguesa Alfrocheiro com a casta branca, chamada Sarigo em Portugal e Cayetana Blanca em Espanha.
Graças a José Maria da Fonseca, a casta não só ganhou popularidade na região, como se tornou identitária, embora tenha perdido terreno a favor de outras castas. Quanto aos dados estatísticos, Domingos Soares Franco referiu que, de acordo com a CVR da Península de Setúbal, na região existem 7100 ha de vinha, dos quais 60% castas tintas, o que corresponde a 5050 há, com 3015 ha de Castelão, sendo cerca de 80-100 ha de vinhas velhas com mais de 40 anos.
Domingos Soares Franco explica que o perfil dos vinhos varia consoante o solo: do argilo-calcário os vinhos apresentam “fruto mais exuberante quando jovens, menos álcool, mais acidez e corpo mais fino”, enquanto das areias revelam “fruto mais concentrado, notas de eucalipto, mais álcool e maior estrutura”. Nos anos 40-50, as uvas vinham predominantemente do argilo-calcário e algumas das areias, nos anos 60-70, o argilo-calcário deminui e hoje quase tudo é de areia. Na sua opinião, o lote ideal seria de Castelão com 65% do argilo-calcário e 35% das areias.
Uma prova histórica
Uma prova destas, como a que tive oportunidade de fazer nunca aconteceu antes e dificilmente será repetida. Provámos 14 vinhos a atravessar décadas desde 1940 até 2022, contextualizados pelo grande mestre e figura carismática Domingos Soares Franco, com presença do seu irmão e presidente da empresa, António Soares Franco, António Maria e Sofia Soares Franco da 7ª geração e Paulo Hortas, director de Enologia e Viticultura.
“Se fizermos uma viagem no tempo, é provável que encontremos uma viagem de Periquita” – dizem na José Maria da Fonseca, pois com 174 anos de história, o Periquita acompanhou grandes mudanças e acontecimentos no mundo. Assim, durante a prova, fizemos uma retrospectiva dos últimos 84 anos.
Em termos globais, o ano 1940 foi marcado pela invasão da Alemanha na Europa Ocidental. O Periquita de 1940, marcado na gargantilha como Reserva no seu conceito antigo, apresentou uma cor ainda intensa a lembrar mogno, muito alinhado e vivo no aroma com compotas, marmelada, especiaria, passas acompanhadas por notas de cogumelos, terra húmida e musgo a evidenciar a evolução. Carnudo, com boca bem composta e cheia de frescura, onde o tanino já se tornou sedoso pelo tempo mas assegurou a vida do vinho. Com mais de 80 anos este vinho é uma bela surpresa (17,5)!
Em 1954 aconteceu o Golpe Militar no Paraguai e foi inaugurado o Estádio da Luz. O Periquita de 1954, também marcado como Reserva, mostrou-se mais acastanhado na cor e amadeirado no aroma, com sugestões de tâmaras, alcarávia, madeiras envernizadas e molho de soja; com corpo mais magro do que o vinho anterior e o tanino consumido pelo tempo, mas ainda com frescura e um certo carácter (16,5).
Em 1959, Fidel Castro tomou posse em Cuba e, em Portugal, foi inaugurado o Cristo Rei em Almada. E também foi um grande ano, quer em Portugal, quer em Bordéus. Deste ano provámos dois vinhos. Um deles marcado com letras “J” e “P”. Segundo Domingos Soares Franco, as garrafas eram exactamente iguais, mas numa com as letras que mal se vêm estava assinalado “JMF” e noutra “ACP”. Eram dois lotes diferentes e calcula-se que um era proveniente das vinhas da José Maria da Fonseca, do argilo-calcário e outro dos solos arenosos da Adega Cooperativa da Palmela, onde na altura se comprava vinho. Isto confirma-se pelo estilos diferentes dos vinhos.
O 1959P com muita cor e laivos mogno, com fruta ainda de grande definição a lembrar framboesas e amoras, especiaria, nuances florais, um vinho intenso, elegante com tanino presente que promove a longevidade, e frescura fantástica (18). O 1959PJ com fruta mais delicada, notas de cogumelo, musgo, pão de centeio, alcarávia, fumo e folha de louro, revelou menos corpo, acidez espevitada, tanino mais tenaz envolto numa textura de veludo (17,5).
Em 1961 John Fitzgerald Kennedy tomou posse como presidente dos EUA e Iuri Gagarin foi o primeiro cosmonauta no espaço. O Periquita 1961 revela a cor mogno intenso, com bastante fruta a lembrar ameixa e cereja desidratada, especiaria, flores secas a lembrar lavanda, cogumelos e eucalipto, muito balsâmico. Denso, com amplitude e frescura, longo e bem persistente no sabor (17,5).
Em 1965, os Estados Unidos entraram na Guerra do Vietname e o cosmonauta soviético Alexei Leonov realizou a primeira caminhada espacial. Em 1966, Indira Gandhi foi eleita a primeira-ministra da Índia, sendo a primeira mulher indiana a assumir o cargo e os Beatles lançaram o seu álbum icónico “Revolver”. Nesta altura Portugal encontrava-se em plena Guerra Colonial.O Periquita 1965 infelizmente tinha TCA. O Periquita 1966, de cor mogno atijolado, mostrou-se denso e cheio, intenso com notas iodadas, tinta da China, castanhas, molho de soja, fruta discreta e mais evidente no retronasal (16,5).
O ano de 1970 marcou o início de uma série de crises económicas globais e, em, Portugal morreu António Salazar. O Periquita 1970, com uma cor atijolada, balsâmico com fruta compotada, especiaria, alcarávia, bastante directo, mantendo o foco, ligeiramente metálico, com boa frescura e leve amargo no final (16,5).
Em 1976 teve início a ditadura na Argentina, Steve Jobs lançou a Apple e Jimmy Carter foi eleito presidente dos Estados Unidos. O Periquita 1976 revelou muita fruta compotada, marmelada, especiaria doce, framboesa, algum cogumelo também. Parece-se com o 1970, mas é mais cheio, mais redondo e macio, com boa estrutura de tanino polido, e muito guloso (17).
Em 1985 foi assinado o Tratado de Adesão de Portugal às Comunidades Europeias e Mikhail Gorbachev assumiu o cargo de Secretário-Geral da União Soviética. O Periquita 1985, também marcado como Reserva, apresentou um ligeiro toque de rolha.
Em 1990 deu-se a reunificação da Alemanha, o fim do Apartheid na África do Sul e Tim Berners-Lee propôs a criação da World Wide Web. O Periquita 1990 marcou pela fruta presente e notas caramelizadas, cogumelos, especiaria, fumo, madeiras exóticas, pimenta preta, doce de amora, com bastante volume, ambiente escuro, cheio, guloso e aveludado por tanino maduro e redondo (17).
Em 2007, a Apple lançou o primeiro iPhone e ocorreu o colapso do mercado imobiliário dos EUA. O Periquita 2007 representa um lote de Castelão (75%), Trincadeira (15%) e Aragonez (10%). A maior parte das uvas provém do solo arenoso e 5% do argilo-calcário. De cor granada, revela muita amora e pimenta preta, figo maduro, alguma canela, alcarávia, leve musgo e eucalipto. Alinhado e elegante, muito bonito e em grande forma. Tanino fino e tudo muito polido. (16,5). Deste vinho foram produzidas mais de 1 milhão de garrafas.
Em 2011 acabou a Guerra do Iraque, Bin Laden foi assassinado e Portugal tornou-se membro não permanente do Conselho de Segurança da ONU. O Periquita 2011 foi o último feito por Domingos Soares Franco, que continua como o enólogo inspirador mas, segundo ele próprio, não intervém nas decisões da equipa de enologia. É um lote de Castelão (50%), Trincadeira (40%) e Aragonez (10%), também maioritariamente do solo arenoso. De cor granada, fruta doce e compota, no fundo folhas de louro, algum tomilho e orégãos. Está numa fase ascendente, com tudo interiorizado, mas ainda com muita força, parece mais novo. Chá, bergamota, acidez não tão pronunciada como no 2007 (16,5). Foram produzidas 375 000 garrafas.
Em 2022 começou a guerra da Ucrânia e ocorreu a morte da Rainha Isabel II. No Periquita 2022 o Alicante Bouschet substituiu Aragonez no lote com Castelão e Trincadeira.
(Artigo publicado na edição de Outubro de 2024)
Tiago Cabaço Winery: Alentejo de primeira grandeza

O epíteto de “Cidade Branca” deve-se, para além da cor do casario, às jazidas de mármore branco, o célebre “Mármore de Estremoz”, que tornou a cidade conhecida a nível internacional. Não podia, pois, ser de outra cor que não branca, a adega curvilínea de Tiago Cabaço, mesmo à entrada de Estremoz, para quem vem pela […]
O epíteto de “Cidade Branca” deve-se, para além da cor do casario, às jazidas de mármore branco, o célebre “Mármore de Estremoz”, que tornou a cidade conhecida a nível internacional. Não podia, pois, ser de outra cor que não branca, a adega curvilínea de Tiago Cabaço, mesmo à entrada de Estremoz, para quem vem pela EN 4, ladeada por uma vinha de Alicante Bouschet, a casta favorita do produtor e referência obrigatória do Alentejo. Sensibilidade estética e integração paisagística são o mote.
“Há pessoas que transformam o Sol numa simples mancha amarela. Mas há aquelas que fazem de uma simples mancha amarela o próprio sol”, disse um dia Picasso.
A história familiar de Tiago Cabaço é conhecida. Nascido e criado em Estremoz, no coração do Alentejo vinhateiro, desde muito cedo se habituou a partilhar o campo e a trabalhar nas vinhas e na adega com os pais, aprendendo com os mais velhos os pequenos e grandes segredos da vinha, as manias e os truques, as castas e os melhores solos e climas para cada uma delas. Enfim, cedo se habituou a tratar a vinha por tu, e cedo também quis começar a fazer o seu próprio sol.
Tudo começou há 20 anos. Em 2004 criou a marca Tiago Cabaço Winery, foi adquirindo terras e vinhas, que totalizam 123 ha actualmente, construiu a sua adega própria, por si pensada, desenhada e delineada, cresceu de 40000 garrafas para 1400000, e tem uma equipa de cerca de 50 funcionários. Entre pessoal de campo, administrativo, contabilidade, marketing e publicidade, tudo é feito dentro de casa.
Pelo caminho tem obtido respeito e atenção por parte do sector, somando diversos prémios e distinções nacionais e internacionais.
A família de vinhos, sedutores e sérios, modernos no estilo e na forma, mas profundamente alentejanos no carácter, divide-se entre os “.com” de perfil enérgico e jovial, os monovarietais sérios e poderosos, os “Vinhas Velhas” que conjugam a excelência do terroir e as vinhas com mais de 30 anos, o espumante, pensado para momentos especiais, e os “Blog”, simultaneamente vigorosos, subtis e frescos que, juntamente com o “Gerações M”, se reclamam como topos de gama dos vinhos de Tiago Cabaço, e, porque não, do próprio Alentejo.
Há, no entanto, um prémio que Tiago Cabaço mantém bem vivo na sua memória: o “Best in Show” do ano de 2017, com o seu vinho Blog 13 Rótulo Castanho, da revista internacional Decanter, nos seus World Wine Awards, concurso cujo júri é maioritariamente composto por Masters of Wine. Foi a primeira vez que um vinho português alcançou tal feito, e apenas um outro lhe seguiu as pisadas até aos dias de hoje. Impressionante, certo?
Susana Esteban abraçou o projecto Tiago Cabaço como enóloga consultora desde 2007, ano da sua primeira vindima, tendo logo participado na elaboração dos lotes dos vinhos de 2006, ano em que saiu da Quinta do Crasto. “Tem sido um processo de aprendizagem mútuo”, refere Tiago, e assim se tem mantido esta parceria de sucesso até aos dias de hoje.
Um ano de castas
Quem hoje se desloca a Estremoz depara-se com uma enorme extensão de vinhedos, vinhas modernas, bem implantadas e que dão sentido à frase “um mar de vinhas”. Todavia, o potencial da zona para a produção vitícola e a consequente presença de muitas vinhas em Estremoz não é coisa recente. A verdade é que, desde o séc. XIX que são muitas as referências a Estremoz como zona vitícola, onde as vinhas conviviam com oliveiras, num mesmo terreno e numa disposição bem pensada e melhor executada. A presença destas duas culturas juntas é prática antiga, sendo hoje apenas autorizada para vinhas velhas.
A zona de Estremoz beneficia de um micro-clima muito próprio que, em muito, ajuda à produção das uvas. Mesmo no Verão, apesar do intenso calor que se faz sentir, as noites são frescas, há uma grande amplitude térmica dia/noite e isso é excelente para a maturação das uvas. Ao clima acresce a riqueza geológica onde estão plantadas as vinhas de Tiago Cabaço, com muita diversidade de perfis de solo, por vezes à distância de escassos metros, muito quartzo, que contribui para uma mineralidade muito característica, xisto inteiro, negro, barros vermelhos e franco-argilosos.
Fomos recebidos em pleno arranque da vindima de 2024, tudo ainda bastante tranquilo, já com os brancos a entrarem aos poucos. Mas já se sentia no ar aquela electricidade, antecipação e ansiedade próprias desta altura do ano para todos os produtores de vinho.
“Vai ser um ano de castas, ao invés do anterior, em que todas as castas foram boas” refere Tiago Cabaço, explicitando depois: “Vai ser ano de Alicante, Syrah, Tinta Miúda e não vai ser ano de Aragonez. Este ano faz-me lembrar o 2002. A Primavera foi muito boa, com alguma chuva, o que é óptimo para vinhas de sequeiro. Foi fresco até Maio, com temperaturas amenas, alguns escaldões em finais de Junho porque a planta não teve tempo de se adaptar gradualmente à chegada do calor. É um ano heterogéneo, com as uvas nos cachos com diferentes graus de acidez, mas a globalidade da parcela trará o equilíbrio final. Talvez os vinhos não estejam tão prontos de início, mas vão certamente compensar em longevidade.”
Entretanto o almoço esperava-nos, num dos restaurantes emblemáticos de Estremoz, “O Alecrim”, só brancos, porque os tintos “castigam mais” e ainda temos muito que provar no resto do dia.
Curioso como os hábitos de consumo vão mudando com a qualidade cada vez maior dos brancos portugueses. De Norte a Sul do País, o seu consumo veio, sem dúvida, para ficar! Destaque para o Verdelho 2023, da casta madeirense, fresco, estruturado e com alguma complexidade, com um final de boca vibrante e persistente, um caso muito sério à mesa. Boa prova do Vinhas Velhas branco 2016, demonstrando o bom potencial de envelhecimento deste vinho, inserido num segmento de preço médio (€12,99). Belíssimo desempenho, a emparelhar com umas suculentas costelinhas de borrego panadas, dos dois blog Special Edition Arinto 2021 e Arinto/Encruzado 2022, dois brancos de curtimenta parcial provenientes de três barricas e de parcelas identificadas. Mas a(s) Píèce de Résistance estavam programadas para o final de tarde e manhã do dia seguinte, uma Vertical de blog Rótulo Preto, de 2011 a 2021, e outra de blog Rótulo Castanho, um bi-varietal de Alicante Bouschet e Syrah.
Duas verticais inesquecíveis
O blog Rótulo Preto é um vinho de terroir, feito na vinha e escolhido entre as melhores parcelas de baixa produção; é um blend de Alicante Bouschet, Syrah com uma percentagem de Touriga-Nacional, que passa 18 meses em Carvalho Francês, metade novo, metade de segundo ano. Depois de todos os vinhos decantados, como mereciam, começámos pelo mais recente. O 2021 ainda não saiu para o mercado, continuando a afinar em garrafa em cave, muito jovem mas com muito boa prova desde já, com imenso brilho e potencial, fruta de enorme precisão, taninos de luxo e perfeita acidez. Promete imenso.
O blog 2020 evidenciou aromas agradáveis de cerejas vermelhas, groselhas e ameixas, suave e intenso em boca, profundamente mineral, elegante e fresco (18); o 2019 está ligeiramente fechado e austero no palato, mas com taninos muito bem domados, aromas de fruta silvestre e sabores de chocolate negro e pimenta preta (17,5); o 2018 revelou-se muito pronto a beber, com boa prova de boca, e taninos e acidez no ponto certos (17,5); 2017 foi um ano quente mas o vinho não se ressentiu disso, com bela complexidade aromática e boa densidade e presença em boca (17,5); o 2016 revelou-se atractivo, directo e harmonioso com leves notas mentoladas no final (17,5); 2015 estava mais fechado e austero da prova, deixando no entanto antever uma longa vida em garrafa tal a classe de taninos e acidez perfeita (18); em 2014 não existiu blog; o 2013 tem “qualquer coisa” de especial, enorme prova com tremenda pujança aromática, notável juventude, fruta de primeira qualidade, taninos poderosos mas envolvidos em veludo, frescura, tensão e mineralidade, soberbo (18,5); 2012 foi talvez o menos impactante, não deixando todavia de revelar bom equilíbrio de boca, num registo elegante e fresco (17); dizer que 2011 foi grande ano já parece lugar comum, mas a verdade é que é incontornável e este blog demonstrou isso mesmo, num registo muito sério, com alma, tensão e grande frescura, com muito para durar ainda em garrafa, enorme (18,5)!
Por seu lado o blog Rótulo Castanho é um vinho bi-varietal de Alicante Bouschet e Syrah, também um vinho de terroir, feito na vinha e escolhido das melhores parcelas de baixa produção, com 18 meses de estágio em barricas novas de carvalho francês para 50% lote e o restante em barricas de segundo ano.
Foram provadas oito colheitas, começando também por ordem crescente de idade, o 2021 exibiu-se tenso e fechado, mas muito focado na fruta de primeiríssima qualidade, complexo e elegante e com grande potencial de guarda (18,5); 2019 também se revelou muito jovem, primário, mas sedoso e aveludado na textura, estruturado, vigoroso mas não agressivo, com notas terrosas e de chocolate negro no final (18,5); o 2017 exibiu-se em grande nível, ano quente, fruta madura mas com acidez viva e equilibrada prolongando o final distinto e requintado (18,5); 2016 deu boa prova de boca, com bom balanço, provavelmente já num bom momento de prova mas com muita vida pela frente (18); o 2015 revelou-se muito contido no nariz, e algo austero também em boca, mas sempre denotando imensa classe, taninos maduros e sedosos, acidez perfeita e enorme elegância (18), chegados ao 2013, o tal “Best in Show”, a verdade é que não deu hipótese, um portento de vinho, confirmando que, de facto, tem algo especial, um verdadeiro luxo para os sentidos (19); o 2012 revelou um bom equilíbrio, num registo elegante e fresco, com taninos polidos e muito boa acidez (18), finalmente, o 2011 apresentou-se cheio de carácter, muita saúde, belíssima harmonia entre barrica, fruta e acidez, taninos de luxo e final interminável (18,5).
“Corre o tempo velozmente
Como a água da corrente
Nós também da mesma sorte
Correndo vamos à morte”
Esta é a inscrição que pode ler-se sob o plinto onde assenta a estátua do “Gadanha” de Estremoz. Representando, primitivamente, o deus Saturno, símbolo da fartura e da abundância, passou a ser conhecido como o é hoje, “Gadanha”, assim baptizado pelas gentes de Estremoz em virtude da enorme foice que segura numa das mãos. Na outra, uma ampulheta simbolizando a celeridade do Tempo e a fugacidade da vida, não deixando de ser irónico que, ao representar a fugacidade do Tempo, tenha acabado por se tornar eterno, permanecendo na memória colectiva da cidade.
Não sei se os vinhos de Tiago Cabaço serão eternos. Provavelmente não. Mas que recebem a passagem do tempo com suprema elegância e carácter, disso não tenhamos dúvida alguma.
Reza ainda a lenda que quem beber a água da fonte do “Gadanha” fica irremediavelmente preso ao sortilégio do encantamento enfeitiçado de Estremoz e das suas gentes. Pois devo confessar que não bebi água da fonte, mas que Estremoz e as suas gentes têm algo de especial, disso fiquei com a certeza!
(Artigo publicado na edição de Outubro de 2024)
Caves São João: Serena é a mudança

A inovação e criatividade sempre foram uma forma de estar das Caves São João. As influências do melhor que se fazia lá fora eram trazidas pelos seus fundadores, homens viajados e cosmopolitas. Na segunda metade do século XX, todo o país conhecia e reconhecia as referências “Frei João” e “Porta dos Cavaleiros”, rótulos que encimavam […]
A inovação e criatividade sempre foram uma forma de estar das Caves São João. As influências do melhor que se fazia lá fora eram trazidas pelos seus fundadores, homens viajados e cosmopolitas. Na segunda metade do século XX, todo o país conhecia e reconhecia as referências “Frei João” e “Porta dos Cavaleiros”, rótulos que encimavam todas as mesas da restauração portuguesa. Em 1971, antevendo as mudanças do paradigma de consumo de vinhos e espumantes e o surgimento de consumidores que procuravam maior identidade nos vinhos, é adquirida a Quinta do Poço do Lobo, no concelho de Cantanhede e, a partir dali, nasce a marca homónima, passando as caves a possuir vinhos de Quinta.
Como empresa familiar, a Sociedade dos Irmãos Unidos, designação social da mesma, sofreu os reveses das querelas internas. No final da segunda década deste século entrou num período mais conturbado, acabando, por vicissitudes várias, a ser alienada a quase totalidade do capital social a um conjunto de investidores em 2022. A partir daí, aguardavam-se as mudanças que os novos sócios, da área imobiliária e financeira, iriam imprimir à empresa centenária e que é a mais antiga em atividade na Bairrada. Fernando Sapinho, Enrique Castiblanques, Mário Vigário, Nuno Ramos, Paulo Morgado e Mário Mateus, são empresários em diversos ramos de atividade. O vinho surge-lhes como uma paixão racional de quem olha para as Caves São João como um diamante a lapidar.
No centro destas mudanças, ficou Célia Alves, ela que em tempo de marés violentas e tormentas várias, não largou o leme de uma marca secular e histórica, não permitindo que, em momento algum, ficasse à deriva.
Serenamente, os últimos anos foram de restruturação, dando uma nova luz à empresa que, com os seus fundadores, esteve no passado ligada à criação da região demarcada da Bairrada e à Confraria dos Enófilos da Bairrada, que, curiosamente, teve na sua liderança nos últimos anos Célia Alves, que mantém a gerência das Caves conjuntamente com os ativos sócios Fernando Sapinho e Enrique Castiblanques
No passado dia 24 de Junho, Dia de São João, as Caves São João destaparam o véu da revolução tranquila que têm operado, celebrando o seu 104º aniversário com várias novidades. A maior, e porque o palco escolhido para os festejos foi a Quinta do Poço do Lobo, revelou-se na expansão que aquela propriedade teve com esta nova estrutura societária. Ao longo dos últimos dois anos, entre reconversão de área de floresta em vinha e aquisição de parcelas contíguas, houve um aumento da área de vinha em 10 hectares, que se somam aos 30 já existentes. Com o aumento da produção de espumante no horizonte, nascem ali novas plantações das castas brancas Bical, Arinto e Maria Gomes (Fernão Pires).
Do Poço do Lobo ao Porta dos Cavaleiros
A casa, que mantém o classicismo que sempre a caracterizou, não descura o arrojo e ousadia e, na apresentação dos novos vinhos, mostrou que segue de perto as tendências e, para isso, não deixou de surpreender. O Baga Novo Natcool, um tinto da colheita de 2022, mostra toda a irreverência da casta, num vinho disruptivo mas totalmente assertivo. Nascido de uma parceria com a Niepoort, empresa familiar que possui relações comerciais com a empresa bairradina que remontam a meados do século XX, rompe com estigmas e mostra o quanto a Baga em jovem é capaz de criar vinhos absolutamente emocionantes. Nos espumantes, deu-se a conhecer a nova edição do Quinta do Poço do Lobo, na sua versão rosé, da colheita de 2021 e já com mais de 24 meses de estágio. Aqui reinam, num blend que casa com sucesso, a Baga e o Pinot Noir.
Os Porta dos Cavaleiros, marca criada nos anos 60 do século passado, consagrando a investida da empresa bairradina na região do Dão, surgem agora totalmente renovados, impondo, na rotulagem, um maior sentido histórico e arquitetónico, onde o monumento representativo – Porta dos Cavaleiros, como uma das medievais portas da cidade de Viseu – ganha um maior rigor e sentido iconográfico. Nos vinhos, a tradição mantém-se. As Caves adquirem os melhores lotes de tintos e brancos produzidos no Dão e, à maneira antiga, procedem à sua “afinação”, lançando-os no mercado. As duas propostas apresentadas foram o Porta dos Cavaleiros tinto 2022, e o Porta dos Cavaleiros Reserva Especial branco, este uma categoria rara no Dão, apenas ao alcance dos vinhos que se destacam em enorme qualidade na câmara de provadores.
Crescer, solidificar mercados, impor-se como marca de prestígio, aumentar área de vinha e ser um verdadeiro referencial da Bairrada do futuro. Este é o caminho que as Caves São João tão bem está a trilhar para este segundo século de vida que se segue.
Nota: O autor escreve segundo o novo acordo ortográfico.
(Artigo publicado na edição de Setembro de 2024)
A Sucessão de António Saramago

A vida de António Saramago, enquanto enólogo, – as regiões por onde passou, as experiências que adquiriu, as técnicas que desenvolveu – dava para escrever um livro. Mas não teve tempo para isto, pois estava sempre ocupado a produzir vinho, com grande entrega e paixão. Começou a trabalhar em 1962, quando foi admitido na José […]
A vida de António Saramago, enquanto enólogo, – as regiões por onde passou, as experiências que adquiriu, as técnicas que desenvolveu – dava para escrever um livro. Mas não teve tempo para isto, pois estava sempre ocupado a produzir vinho, com grande entrega e paixão.
Começou a trabalhar em 1962, quando foi admitido na José Maria da Fonseca. Na altura tinha apenas 14 anos. Mais tarde estudou enologia em Bordéus e é num dos enólogos mais antigos de Portugal. A partir dos anos 80 fazia consultadoria enológica em várias regiões do nosso país e foi responsável por alguns dos vinhos bem aclamados, como o Terras do Suão ou Tapada de Coelheiros, já sem falar no seu trabalho diário integrado na equipa de enologia de José Maria da Fonseca.
“Há um vinho que todos bem conhecem, mas o meu nome não está lá. Estava sempre escondido” – explica António Saramago. Sempre discreto, procurando rigor no seu trabalho, nunca perseguiu a fama. “A visibilidade, para mim, existe quando as pessoas provam os meus vinhos e dizem que são bons”, diz o enólogo com um ar calmo, mas convicto.
Outra convicção profissional consiste na dedicação. Estar presente, para António Saramago, é imprescindível, mesmo que isso implique viagens e deslocações. “Não faço vinhos por telefone. E, na vindima, estou sempre na adega, sejam sábados, domingos ou feriados.”
A discrição na postura não impediu que a ambição, vinda da alma, levasse à criação do seu próprio projecto. Com 40 anos de experiência, fundou, em 2002, a empresa familiar, com a sua esposa e filhos, a António Saramago Vinhos. “Queria fazer vinhos que tivessem o meu cunho e o meu nome no rótulo.” E sempre se manteve fiel ao seu estilo, assente na concentração, estrutura, estágios prolongados e uso de boas barricas.
Reconhece que os tempos podem mudar, mas nunca deixou que modas e tendências lhe desvirtuassem o caminho. “As regiões não podem ser estanques, nem os produtores, mas têm de ter uma identidade. Eu sou conhecido pelo quê?”, pergunta, deixando uma pausa no ar porque a resposta é óbvia, o estilo e o carácter dos vinhos de António Saramago são evidentes.
Por muitos vinhos que tenha feito em Portugal e no sul de Brasil, onde também tem trabalhado desde há 14 anos, o seu nome estará sempre ligado à casta Castelão. E nesta prova tivemos o privilégio de reviver alguns dos seus vinhos emblemáticos.
O enólogo, fundou, em 2002, já com 40 anos de experiência, a empresa familiar com a sua esposa e filhos, a António Saramago Vinhos.
Castelão e não só
O António Saramago Superior 2016 é proveniente de uma vinha muito antiga, não regada. Cada cepa traz dois a três cachos muito concentrados. Passou 18 meses em barrica nova e dois anos em garrafa. Hoje em dia é raro um produtor esperar pelo vinho. Tem fruta macerada e ervas aromáticas esmagadas, especiaria abundante, leve farmácia e notas balsâmicas e compotadas, para além de vegetal seco. Boca compacta, tanino apertado e bem presente, projectando, no palato, pó de mostarda, pimenta preta, louro, café e notas de soja.
A seguir foi o 2013, em magnum, da mesma vinha, mas de um ano mais quente. Ambiente de fruta escura, muito concentração no nariz, vegetal quase a lembrar pimenta verde. Bonito nesta sua austeridade, com muito estilo e carácter a revelar cerejas, amoras, mentolado e balsâmico, sous bois e musgo. Envolvente, logo no início agarra bem com tanino. Certa rusticidade não escondida dá-lhe carácter.
O AS 2015 é a segunda edição (depois do 2009). Provém de uma vinha jovem com muita potência. Lote com Touriga Nacional, Alicante Bouschet e um pouco de Cabernet Sauvignon. Muita especiaria no nariz, chocolate negro, balsâmico, eucalipto e alfarroba. Mastigável, tanino potente e muito aveludado na textura. Boca ampla, menos rugoso do que os Castelão puros. Final especiado e longo.
Estes vinhos já foram provados pela Grandes Escolhas em alturas diferentes e as respectivas notas de prova podem ser consultadas no site ou na aplicação. O momento alto da prova foi claramente o Sucessão Reserva Especial 2014.
“Tenho 76 anos. Não me considero velho, mas quando caminhamos para uma certa idade, pensamos noutras coisas da vida. A minha mãe morreu sem conhecer os netos. Eu tenho a felicidade de ter quatro: António, Maria, Filipe e Guilherme”, disse com ternura na voz.
É aos netos que quer dedicar o seu tempo a partir de agora e a eles dedicou o seu grande vinho, que foi pensado já há muito tempo e lançado só agora. “Para mim este é um dos melhores vinhos que bebi na minha vida” – resume sem falsas modéstias.
Feito de Castelão e Alicante Bouschet dos solos arenosos da Península de Setúbal, teve estágio prolongado, de 72 meses, em barricas de carvalho francês e mais 24 meses em garrafa. Foram produzidas apenas 900 unidades.
A seguir foi também apresentado o Moscatel Roxo de Setúbal 10 Anos que estagiou em barricas recuperadas do vinho tinto. Foi tudo raspado, mas não queimado para não conferir tosta ao vinho. Foram produzidas apenas 1000 garrafas. E, por fim, apetece citar António Saramago a declarar que “vinho é das melhores coisas que a natureza nos deu”. Quem dirá o contrário, depois de uma prova destas?
(Artigo publicado na edição de Setembro de 2024)
JUSTINO’S: De olhos no futuro sem esquecer a tradição

Se as (boas) tradições existem para se manter, as experimentações e inovação são formas de dinamizar o presente e projectar o futuro, até porque as condições sócio-económicas estão em constante mudança e é preciso acompanhar e, de certa forma, antecipar estas alterações. Foi o tema de conversa com o Director Geral e enólogo da casa, […]
Se as (boas) tradições existem para se manter, as experimentações e inovação são formas de dinamizar o presente e projectar o futuro, até porque as condições sócio-económicas estão em constante mudança e é preciso acompanhar e, de certa forma, antecipar estas alterações. Foi o tema de conversa com o Director Geral e enólogo da casa, Juan Teixeira e Nuno Duarte, que é responsável pelos seus vinhos tranquilos, Colheitas e Single Cask da Justinos, ao longo de dois dias de visitas à adega e às vinhas e das provas, onde a vertical de Frasqueiras foi absolutamente memorável.
A história da Justino’s começou numa pequena empresa familiar, fundada em 1870. Hoje, juntamente com Henriques & Henriques, integra um dos maiores grupos internacionais de bebidas, La Martiniquaise e, juntas, representam cerca de 60% de volume de produção e vendas dos vinhos da Madeira.
A Justino’s produz 1.400.000 garrafas anualmente, incluindo os vinhos não fortificados com os designativos DO Madeirense e IG Terras Madeirenses, onde também se enquadram os pequenos projectos de edições ultralimitadas, explorando determinadas parcelas e técnicas de vinificação. Neste âmbito, foram apresentados, em estreia absoluta, dois vinhos tranquilos com forte sentido do lugar.
Fanal é uma marca de 1935, cujo nome é inspirado num sítio de grande beleza paisagística – um planalto a mais de 1000 metros de altitude, muitas vezes coberto de nevoeiro, que transforma as figuras das árvores numa floresta encantada. Para a marca Fanal fazem vinhos provenientes das uvas (no caso dos vinhos tranquilos) ou dos cascos (no caso dos fortificados) das proximidades desta zona. Assim, as uvas de Sercial vêm da Fajã do Barro, Porto Moniz, onde a casta é plantada em espaldeira, com viticultura biológica praticada por um casal de viticultores em parceria com a Justino’s. Uma parte do lote estagiou em barrica semi-nova de 700 litros. Deste vinho, intenso e assento na acidez, foram produzidas apenas 1.266 garrafas.
A casta Listrão vem de dois viticultores do Porto Santo. É uma variedade muito cara, dada a quantidade mínima existente e a subida de procura. Na última vindima os preços chegaram a 4,20€/kg, que é praticamente o dobro de outras castas brancas, cujos preços rondam 2,40-2,50 €/kg. As uvas chegam refrigeradas do Porto Santo. Metade vão inteiras para prensa e outra metade faz maceração pelicular de seis horas para extrair algum aroma, pois a casta é bem neutra. Estagia em inox e em carvalho francês usado de 500 l. Resulta num vinho comedido na acidez, com um perfil delicado. Só foram produzidas 1.303 garrafas.
Os projectos mais arrojados vão para além do vinho: nos planos está o lançamento de rum estagiado em cascos de Verdelho e cerveja.
O investimento previsto também visa melhorias na parte de produção da adega e a construção de um novo armazém de barricas. No Funchal, ao pé do teleférico para a freguesia do Monte, será aberto um centro de visitas com uma sala de provas, uma garrafeira, um museu, um centro de formação e alojamento local. Está programado para abrir no final de 2025.
Juan Teixeira, director geral e enólogo da Justino’s, com Nuno Duarte, enólogo responsável pelos Vinhos Tranquilos, Vinhos Madeira Projects e Premium
A realidade insular
A realidade da viticultura na Madeira prende-se com a sua insularidade. Não se pode falar de um ano bom na Madeira… Tem de se especificar o sítio exacto onde foi… O minifúndio (O maior viticultor tem 10 ha, mas, normalmente, a área por viticultor não ultrapassa 0,3 ha) reflecte-se em múltiplas entregas, que chegam a ser duas mil por vindima, que dura da 3ª semana de Agosto à 2ª semana de Outubro. Dos 4 milhões de quilos de uva existente na Madeira, a Justino’s fica com 1,5 milhões.
Mas o número de viticultores está a diminuir a olhos vistos. Ainda em 2000 havia 2400. Agora são cerca de 1100. Os jovens não estão interessados nesta actividade e é extremamente importante fixar os viticultores no campo, para não abandonarem as vinhas.
Por outro lado, a viticultura agora é mais cuidada. Antigamente as empresas escolhiam a uva à porta da adega. Agora acompanham o produtor e escolhem o dia da vindima. A Justino’s trabalha com cerca de 700 viticultores, 50 dos quais acompanha por perto, ajudando a melhorar as suas práticas de viticultura.
Na adega, também antigamente, havia menos cuidados com os mostos porque o vinho, de qualquer forma, ia sofrer uma transformação. Agora procura-se que esteja analiticamente bem no momento de aguardentação. Por exemplo, as prensas pneumáticas vieram substituir as prensas contínuas, permitindo, logo na origem, obter o mosto de melhor qualidade.
Na Justino’s, os Madeira de castas brancas a partir de Colheita estagiam em canteiro sem maceração pelicular. Os vinhos feitos a partir das castas tintas (Tinta Negra e Complexa) podem ser vinificados com ou sem curtimenta, em função de se querer mais estrutura ou menos cor. Fazem estufa mais prolongada (quatro meses contra o mínimo obrigatório de três meses) e temperatura mais baixa (a 40-45˚C, sendo o limite máximo estabelecido de 50˚C), para ter uma evolução mais lenta e mais homogénea. O desafio hoje é conferir mais complexidade aos vinhos da Madeira de 3-5 anos, para os tornar mais apetecíveis para o consumidor, uma vez que, pelo preço, cumprem o papel de iniciação aos vinhos da Madeira. Quanto melhores forem, mais futuros apreciadores podem conquistar.
Para ter mais opções de composição de lotes, a empresa dispõe de 5.500 cascos de variadíssimas proveniências e capacidades. Quanto mais pequeno for, mais rápida é evolução. Por isto, os de
Por muita inovação que se faça, o melhor que a ilha da Madeira é capaz de produzir são os vinhos da Madeira de estágios prolongados. Não existe um apreciador de vinho que possa ficar indiferente perante este fenómeno.650 litros têm o tamanho ideal, explica Juan Teixeira. Neste momento 2,5 milhões de litros de vinho encontram-se em estágio.
Frasqueiras, os guardiões da tradição
Os Frasqueiras representam o expoente máximo da tradição dos Vinhos da Madeira, pela sua capacidade de superar o tempo e evoluir com ele infinitamente. Para um jornalista de vinhos, uma prova vertical de sete Frasqueiras do século passado, um por década, é muito mais do que um trabalho. É um prazer e privilégio. O Frasqueira mais antigo que a Justino’s guarda nas suas instalações é de 1933. A prova começou no 1934 e acabou no 1998, mostrando a interpretação do ano pela casta, lapidada pelo tempo.
Os Frasqueira
Esta categoria do vinho da Madeira é produzida a partir de uma única casta e de uma única colheita em anos excepcionais e envelhecido em cascos em canteiro sem estufagem, beneficiando de amplitudes térmicas criadas naturalmente, por um mínimo de 20 anos.
Embora sejam produzidos no mesmo ano, um Frasqueira é sempre um blend de barricas, porque o vinho evolui de forma diferente em função da dimensão e características do casco e da sua localização.
Os Frasqueira desenvolvem uma complexidade e profundidade únicas, com aromas intensos e sabores ricos. São vinhos à prova do tempo, indestrutíveis.
(Artigo publicado na edição de Setembro de 2024)
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Justino’s
Fortificado/ Licoroso - 1934 -
Justino’s
Fortificado/ Licoroso - 1940 -
Justino’s
Fortificado/ Licoroso - 1954 -
Justino’s
Fortificado/ Licoroso - 1964 -
Justino’s
Fortificado/ Licoroso - 1978 -
Justino’s
Fortificado/ Licoroso - 1988 -
Justino’s
Fortificado/ Licoroso - 1998 -
Justino’s Fanal
Branco - 2022 -
Justino’s PXO
Branco - 2022
Grande Prova: A Bairrada em grande com barro, Baga e muito mais

A Bairrada raramente é a primeira paragem numa viagem de descoberta enófila pelas regiões do nosso país. Inicia-se pelos vinhos mais acessíveis e regiões mais sonantes e presentes no imaginário do consumidor e nas prateleiras das garrafeiras. A Bairrada revela-se aos enófilos com alguma maturidade. É uma das poucas regiões em Portugal (e no mundo) […]
A Bairrada raramente é a primeira paragem numa viagem de descoberta enófila pelas regiões do nosso país. Inicia-se pelos vinhos mais acessíveis e regiões mais sonantes e presentes no imaginário do consumidor e nas prateleiras das garrafeiras. A Bairrada revela-se aos enófilos com alguma maturidade.
É uma das poucas regiões em Portugal (e no mundo) que facilmente pode apresentar, para uma prova, um vasto conjunto de vinhos com mais de uma década de idade, com grande qualidade e personalidade marcante. Nesta prova tivemos vinhos de colheitas mais antigas, como 2016, 2015, 2014, 2012 e até Marquês de Marialva Confirmado Baga de 1995 da Adega Cooperativa de Cantanhede e Aleixo Grande Reserva de 1997 da Real Cave do Cedro, todos eles correntemente no mercado e em óptimo estado de saúde.
Dos 26 tintos, 16 eram exclusivamente de Baga, quatro da parceria de Baga e Touriga Nacional, e mais uns vinhos com castas estrangeiras, um lote com 96% Baga, 3% de Maria Gomes e 1% de Bical e um “rol” de oito castas não misturadas na mesma vinha, mas covinificadas, onde entram Baga, Castelão Nacional, Trincadeira, Bastardo, Sousão, Tinta Pinheira e Alfrocheiro.
E impressionante que os grandes vinhos da Bairrada de hoje sejam produzidos tanto pelas Caves históricas ou uma Adega cooperativa, quanto pelos produtores mais antigos e outros bem recentes, em estilos completamente distintos, desde os mais clássicos até aos mais modernos.
Bairrada de outrora, de hoje e de sempre
A história da vinha na Bairrada remonta ao aparecimento do homem nestas terras. Desde os tempos alto-medievais, há documentação que assinala a presença significativa da vitivinicultura na região, destacando a sua importância na vida e na economia local.
A proximidade de Coimbra e da região de Aveiro, aliada à relativa navegabilidade dos rios, permitiu à Bairrada desenvolver a sua agricultura e viver um período de prosperidade. Contudo, após o Tratado de Methuen, em 1703, o aumento descontrolado da plantação de vinhedos, em detrimento das áreas destinadas aos cereais, chamou a atenção do Marquês de Pombal. As medidas severas por ele decretadas incluíram o arranque das vinhas e a proibição de comercialização dos vinhos. Foi apenas no reinado de D. Maria I, a partir de 1777, que o plantio de cepas foi novamente autorizado.
Na segunda metade do século XIX, graças a alguns factores internos e externos (tendência para o consumo de vinhos menos alcoólicos e palhetes, prémios de vinhos da Bairrada nas exposições internacionais e a abertura de novos mercados no Brasil e países do Norte da Europa), a Bairrada afirmou-se como região e os seus vinhos ganharam identidade própria. E não podemos esquecer que, em 1890, foi iniciada, em Anadia, a produção dos primeiros vinhos espumantes, que se tornaram um ex-libris da Bairrada graças ao pioneirismo de Tavares da Silva.
Na década de 1920 começam a proliferar as Caves, que basicamente eram negociantes. Não possuindo vinha própria, compravam vinho feito, loteavam, estagiavam e comercializavam-no. Muitas destas caves continuam a fazer história na região, como as Caves São João, Caves do Solar de S. Domingos e Caves Messias, entre outras. Os anos 1950 foram marcados pela criação de várias adegas cooperativas, dos quais apenas sobreviveu, e com boa saúde, a Adega de Cantanhede.
Na década de 1990, com o fim do mercado das ex-colónias e da saudade, os vinhos mais frutados e redondos do Alentejo, seguidos, pelos do Douro, com a sua potência e complexidade, por contraste com os vinhos tânicos e ácidos da Bairrada, conquistaram os consumidores. Foi neste período que surgiram os primeiros produtores-engarrafadores na região.
Os produtores com visão, como Luís Pato, Casa de Saima, Carlos Campolargo, Sidónio de Sousa, Mário Sérgio Nuno, da Quinta das Bágeiras, e João Póvoa (primeiro na Quinta de Baixo, depois na Kompassus) começaram a engarrafar com a marca própria e trouxeram a inovação necessária, tanto na vinha quanto na adega, para alterar o paradigma dos vinhos bairradinos.
Começou-se a fazer monda dos cachos que, naquela época, era considerada uma heresia, mas permitia controlar a produção. Outra alteração foi o desengace, que retirou os taninos mais duros. Hoje o uso de engaço pode variar em função do ano e do estilo do vinho que se pretende produzir. Luís Pato foi o primeiro a usar pipas de 650 litros ao contrário dos habituais tonéis velhos, o que tornou os vinhos mais polidos.
O renomado e carismático produtor dos vinhos do Porto e Douro, Dirk Niepoort, ao expandir os seus projectos à Bairrada, atraiu ainda mais atenção para a região. Hoje produz vinhos com o seu filho Daniel na Quinta de Baixo e faz parte do grupo “Baga Friends”.
Curiosamente, a nova geração dos produtores, que têm surgido nos últimos 10-15 anos, como Nuno do Ó e João Soares (V Puro) e Luís Gomes (Giz) adoram vinhas velhas e mostram a sua interpretação da Bairrada, valorizando a tradição e o legado vitícola da região.
O terroir da Bairrada
A Bairrada fica numa plataforma litoral de baixa altitude (entre os 40 e 120 metros), fortemente influenciada pelo Atlântico e limitada a leste pelos maciços do Bussaco e Caramulo. No sentido Norte-Sul situa-se entre as cidades Águeda e Coimbra e os rios Vouga e Mondego. Caracteriza-se por um clima ameno, com invernos suaves e verões moderados e alta humidade relativa ao longo do ano. Os dois/três meses mais secos no verão conferem ao clima uma nuance mediterrânica. A abertura para o oceano permite a entrada da nortada, que sopra regularmente durante o verão, especialmente à tarde, trazendo ar húmido do Atlântico para o interior. A frequente ocorrência de nevoeiros matinais origina a redução de insolação que, em combinação com as temperaturas amenas, facilita a proliferação dos fungos que dificultam a maturação das uvas, mas favorecem o desenvolvimento da sua componente aromática.
Enquanto no Douro e no Dão as variações no comportamento das videiras são principalmente atribuídas à exposição e altitude das vinhas, na Bairrada estas diferenças decorrem do solo. A Bairrada é um verdadeiro mosaico geológico, com solos que variam desde margas, argilas e calcário a areias. Se no lugar dos bairradinos fossem os franceses a explorar a região, cada pedaço de terra da Bairrada seria transformado em Premier Cru e Grand Cru, tanto para brancos quanto para tintos, como na Borgonha. Temos terroirs excepcionais, mas ainda nos falta o desenvolvimento de um conceito que permita classificá-los de acordo com a geologia e a tipologia dos solos.
Dos tempos idos, existe apenas a informação de que, no século XIX, existiam dois tipos de vinho: de Consumo, de qualidade inferior, e de Embarque, que eram os melhores, destinados à exportação. A melhor zona para os tintos de Embarque foi limitada, a Norte, por Horta, Tamengos e Aguim; a Nascente por Grada e Barrô; a Sul por Travassô, Lendiosa e Silvã e, a Poente, por Murtede, Escapães e Póvoa do Garção. Isto foi considerado nos primeiros contornos da Bairrada vitivinícola propostos, em 1867, por António Augusto de Aguiar.
A Bairrada fazia parte da Beira Litoral, que era uma sub-região das Beiras. Apesar do seu legado vitivinícola, só obteve o estatuto de denominação de origem em 1979. A DOC Bairrada insere-se na geograficamente mais vasta IG Beira Atlântico.
Encepamento – para além da Baga
No final do século XVIII, o encepamento da Bairrada era dominado por castas brancas. Esta realidade começou a mudar devido a vários factores. O primeiro foi o surgimento do oídio em 1852, que levou à preferência por castas mais resistentes à doença. Isto facilitou a disseminação da Baga, uma casta menos susceptível ao oídio e altamente produtiva, o que representava uma vantagem significativa para os viticultores da época. Mais tarde, a globalização também influenciou esta transformação, ampliando o leque de castas autorizadas na região.
No primeiro documento oficial de demarcação, os “direitos” da Baga eram vincados com 50% do total. As castas Castelão, Moreto e Tinta Pinheira também eram autorizadas, enquanto Alfrocheiro Preto, Bastardo, Preto de Mortágua (o nome antigo da Touriga Nacional), Trincadeira, Jaen e Água Santa não podiam exceder 20% do encepamento. Em 2003, entendeu-se que a abertura a outras castas iria ser benéfica para a região e na DO Bairrada foram autorizadas, em termos de tintas, algumas variedades nacionais (Aragonez, Tinta Barroca, Tinto Cão, Touriga Franca) e estrangeiras (Cabernet Sauvignon, Merlot, Pinot Noir, Petit Verdot e Syrah).
Simultaneamente, para preservar a tradição, foi introduzido o termo “Clássico” que, embora se refira ao mesmo território demarcado, limita as castas às tradicionais Baga, Camarate, Castelão, Jaen, Alfrocheiro e Touriga Nacional. Além disto, para que um vinho seja certificado como “Clássico”, deve cumprir requisitos adicionais: o rendimento não pode exceder 55 hl/ha (em comparação com os 80 hl/ha permitidos para outros vinhos tintos), e o vinho deve passar por um estágio mínimo de 30 meses, sendo 12 desses em garrafa (praticamente como um Garrafeira tinto).
A Camarate, também bastante cultivada na Bairrada, é conhecida localmente como Castelão (mas nada tem a ver com a Castelão “oficial”) e ainda Moreto, ou Moreto de Soure em Cantanhede. Carlos Campolargo considera-a “mais bairradina do que a Baga, que vem do Dão.” Luís Pato observa que a Camarate produz cachos e bagos grandes, o que originava altos rendimentos, dava muito sumo e suavizava os taninos da Baga. Paulo Nunes, o enólogo na Casa de Saima e com grande experiência no Dão, vê a casta como um componente de lote para os vinhos de entrada, pois confere uma fruta mais imediata, contrastando com a Baga, que tende a ser mais vegetal e austera. No entanto, a Camarate apresenta certos desafios devido ao seu vigor e sensibilidade ao oídio.
O Castelão, também conhecido como Periquita, Castelão Francês ou João de Santarém, tem uma expressão reduzida na Bairrada, onde é chamado de Trincadeira (e, de novo, nada tem a ver com a Trincadeira “oficial”…). Conta Luís Pato que o Castelão suavizava a Baga e acrescentava riqueza aromática, pois um bom Castelão cultivado nos solos arenosos pode ter um perfil semelhante ao da Baga, combinando características aromáticas com uma acidez vincada.
A Touriga Nacional, apesar de se adaptar bem a diversas condições, desperta sentimentos díspares na região. Segundo Paulo Nunes, a casta não apresenta aqui as camadas e a complexidade que exibe no Dão. Mário Sérgio Nuno salienta que a Touriga Nacional resiste melhor à podridão e mantém um equilíbrio ácido satisfatório, amadurecendo quase sempre antes da Baga. Luís Pato acrescenta que, quando plantada em solos argilo-calcários, a Touriga Nacional tende a perder acidez, como aconteceu em Ois de Bairro, na parcela Cândido, onde acabou por substituí-la pelo Cercial. No entanto, em solos argilo-arenosos, a Touriga Nacional mostra-se fantástica e, ao contrário da Baga, neste tipo de solo não corre o risco de entrar em desidratação e, com chuva, inchar e ter rupturas na película. O mestre também observa que, enquanto o rendimento da Baga não pode ultrapassar quatro tn/ha para entregar a qualidade, a Touriga Nacional pode oferecer bons resultados com rendimentos de oito a nove tn/ha. Basicamente, a Touriga Nacional na Bairrada é utilizada para arredondar os ângulos da Baga e contribuir com componente aromática, oferecendo vinhos com um apelo rápido.
Entretanto, a Aveleda, na sua Quinta de Aguieira, dá muito mais protagonismo à Touriga Nacional, plantada propositadamente após a aquisição da quinta em 1997. O responsável de enologia, Diogo Campilho, e o responsável de viticultura, Pedro Prata, contam que a propriedade está situada na parte norte da Bairrada, no concelho de Águeda, perto do rio Vouga. A Touriga foi plantada numa parcela mais quente, em solo de aluvião, em cima do calhau rolado, areia grosseira e alguma argila. Dá algum trabalho na vinha, não só pelo seu porte prostrado, como também pela necessidade de desfolhas e mondas, em função do estilo de vinho e dos anos vitícolas. Os nevoeiros são bem presentes, dada à proximidade do Atlântico e do rio. Há dias que só se dissipam por volta das duas da tarde. Nestas condições, neste extremo norte da Bairrada, dificilmente a Baga resistiria tão bem quanto a Touriga Nacional.
Castas de menos expressão
A Jaen tem mais expressão no Dão do que na Bairrada, onde, segundo Paulo Nunes, “não funciona, só se aproveita nos rosés” porque degrada os ácidos sem atingir maturações fenólicas. É uma casta muito sensível ao terroir e, na Bairrada, não é o lugar dela, embora faça parte das castas permitidas no Bairrada Clássico. Já o Alfrocheiro não tem muita expressão na Bairrada e, segundo a experiência de Paulo Nunes, é muito inconstante: há anos que funciona, outros que não, sem uma razão aparente. Na Casa de Saima deixaram de trabalhar com ela.
O Rufete, conhecido na Bairrada como Tinta Pinheira, pode não ser a melhor escolha para vinhos tintos, mas é excelente para a produção de rosés, segundo Paulo Prior, enólogo com a experiência de mais de 20 anos no sector, agora com responsabilidade na Global Wines. Quanto ao Bastardo, que amadurece extremamente cedo, Paulo comenta que a casta carece de expressão e ressalta: “Ninguém quer iniciar as vindimas a 10 de agosto…”
Entre as castas bairradinas consta também a Água Santa, um cruzamento entre Touriga Nacional e João de Santarém. Paulo Prior relata que esta casta foi criada nas décadas de 1960-70, numa época em que a grande parte do vinho produzido era destinado às ex-colónias, e havia uma demanda por vinhos de maturação mais rápida e perfil macio. A Água Santa é altamente produtiva, mas tem pouca cor e é extremamente susceptível ao oídio e míldio. Hoje, está praticamente abandonada. Embora possa ainda ser encontrada em vinhas velhas, ninguém a planta actualmente. Carlos Campolargo também menciona que, no início, tinha um talhão com Água Santa em São Mateus, mas acabou por reenxertar a vinha por falta de interesse na casta.
De uma forma ou de outra, as castas tintas, e também brancas presentes na Bairrada, são usadas com o propósito de limar as arestas da Baga. Há quem diga que, antigamente, “para três pés de Baga plantava-se um pé de Maria Gomes”, que aumentava grau, amaciava tanino e também ajudava a fixar a cor e conferir mais complexidade aromática.
Relativamente às castas estrangeiras, parece que já tiveram o seu auge. Houve quem as plantasse por moda e quem o fizesse por convicção. Os últimos continuam a fazer um bom trabalho com elas, como é o caso de Carlos Campolargo. Sempre achou que, na Bairrada, existem condições climáticas semelhantes a Bordeaux, pela influência atlântica. Embora na Bairrada o oceano esteja mais perto, em compensação tem mais horas de sol e as típicas castas bordalesas na Bairrada amadurecem bem sem experienciar o calor em demasia. Desde cedo apostou no Cabernet Sauvignon e no Merlot. Mais tarde plantou Petit Verdot. Normalmente utiliza estas castas para blends, com excepção de Petit Verdot, que em alguns anos sai como monovarietal. Carlos Campolargo dá um exemplo: se adicionar 15% de Touriga Nacional à Baga, a primeira marca muito o vinho, enquanto o Merlot não tem este efeito supressor. “É uva perfeita. No início de Setembro já está pronta, antes das chuvas”. Também foi pioneiro em lotear Pinot Noir e Baga ainda em 2000, porque as duas castas se desenvolvem na mesma direcção. Luís Pato corrobora esta opinião, confirmando que se juntar Pinot Noir à Baga, ninguém nota. No início, Luís Pato também experimentou trabalhar com Cabernet Sauvignon para facilitar a venda de Baga no mercado dos Estados Unidos, Mas depois abandonou esta ideia, após ter concluído que não é através do Cabernet que a Bairrada vai construir a sua identidade nos mercados estrangeiros.
Paulo Prior considera o Merlot uma casta essencial, destacando a sua viticultura fácil e maturação precoce. Diferente da Baga, que tem um porte mais retumbante, o Merlot cresce de forma direita e pode-se vindimar logo após as uvas brancas. Paulo também observa que o Merlot e a Baga funcionam bem juntos, criando uma combinação harmoniosa. Já o Cabernet Sauvignon atua como “sal e pimenta” no blend, adicionando um toque extra.
A saga da Baga
Embora originária do Dão, e parecendo que a união entre a Baga e a Bairrada fosse por conveniência, esta acabou por evoluir para uma relação profunda e duradoura.
No século XIX, António Augusto de Aguiar descreveu a Baga como “uma casta de qualidade inferior”, reconhecendo, porém, que “podia tirar-se dela mais algum partido se fosse vindimada no tarde, mas, como isto não sucede, quase sempre entra para o lagar sem estar bem madura”. Entretanto, Cincinnato da Costa, no seu “O Portugal Vinícola”, de 1900, referia-se à Baga, dizendo que “são notáveis os seus vinhos tintos de magnífica coloração, bem equilibrados e de qualidades muito apreciáveis para o comércio de exportação, pela sua solidez e fácil conservação”, acrescentando que a casta era “muito apreciada pela viva cor e forte adstringência que dá aos vinhos”.
O grande calcanhar da Baga é a sua susceptibilidade à podridão. Com os seus cachos compactos, “como nem uma pinha” e película bastante fina, na Bairrada, com a alta humidade e pluviosidade que torna a região num resort para a Botrytis, quase que se poderia pensar que não há hipótese de fazer grandes vinhos. Percebe-se, assim, o abandono da casta e a antiga “crença” de que só há grandes tintos na Bairrada uma vez por década.
Luís Pato, Mário Sérgio e Paulo Nunes estão de acordo com a ausência de sentido nesse pressuposto. É óbvio que ocorrem anos muito difíceis, que levam a perdas significativas de produção (como, por exemplo, este ano, devido ao míldio). No entanto, uma viticultura adequada, a começar por clones e porta-enxertos certos, gestão da parede vegetativa e mondas qualitativas, pode combater ou atenuar as adversidades de um ano mais complicado. Antigamente era impossível convencer o viticultor a fazer três vindimas na mesma vinha. Agora, com outro entendimento e dedicação, é possível gerir bem a vindima e não culpar sempre a casta ou São Pedro. Mário Sérgio salienta que a casta se afirmou por si, com resultados evidentes: “de norte a sul da região voltou-se a aderir à Baga e, quem já tinha retirado “Baga” dos rótulos, voltou a colocá-lo em letra grossa”.
Por muitos desafios que a casta e a região apresentem mutuamente, a Baga é e sempre será a variedade identitária da Bairrada. É um dos binómios mais fortes no mundo vitivinícola português. Os grandes vinhos da Bairrada podem não ser feitos exclusivamente de Baga, mas os grandes vinhos de Baga (quase) só podem ser da Bairrada.
(Artigo publicado na edição de Setembro de 2024)
Os vinhos apresentados não estão por ordem de classificação
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Principal
Tinto - 2012 -
Monte Cascas Vinha do Quinto
Tinto - 2016 -
Messias
Tinto - 2015 -
Marquês de Marialva Confirmado 28 anos
Tinto - 1995 -
Frei João
Tinto - 2018 -
Encontro 1
Tinto - 2014 -
Bacalhôa Vinha da Dona
Tinto - 2018 -
Sidónio de Sousa Vinho D’Autor
Tinto - 2015 -
Quinta de Foz de Arouce Vinhas Velhas de Santa Maria
Tinto - 2019 -
Quinta das Bágeiras Avô Fausto
Tinto - 2021
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Quinta da Lagoa Velha Singular
Tinto - 2017 -
Ó 21 Baga Baby
Tinto - 2023 -
Quinta D’Aguieira
Tinto - 2020 -
Nelson Neves
Tinto - 2017 -
Milheiro Selas
Tinto - 2015 -
Rama Tributo O Pinguinhas
Tinto - 2015 -
Primavera
Tinto - 2015 -
Casa do Canto
Tinto - 2017 -
Campolargo Rol de Coisas Antigas
Tinto - 2019 -
Aleixo
Tinto - 1997
Louis Roederer: O champanhe em família

A visita foi organizada pela Ramos Pinto. tudo começou com um almoço em Paris, numa brasserie bem perto da torre Eiffel. Momento de abertura das actividades que seriam, durante dois dias, regadas a champanhe, a rosés da Provence e tintos de Bordéus. Pas mal, como diriam os franceses… Quando visitamos a casa da família em […]
A visita foi organizada pela Ramos Pinto. tudo começou com um almoço em Paris, numa brasserie bem perto da torre Eiffel. Momento de abertura das actividades que seriam, durante dois dias, regadas a champanhe, a rosés da Provence e tintos de Bordéus. Pas mal, como diriam os franceses…
Quando visitamos a casa da família em Reims mostram-nos um mapa onde estão localizadas as diferentes parcelas de vinha que entram nos lotes dos vinhos da empresa, que mostra uma manta de retalhos, de numa região bem grande, onde vemos assinaladas, com uma leve cor alaranjada, as parcelas de vinha da casa. Muitas parcelas? Nem por isso. Apenas 420! Um número assim tão elevado coloca-nos de imediato perante uma dúvida séria: como é que se gere esta miríade de parcelas, como é que se faz a vindima no ponto certo em cada parcela, enfim, como é que tudo isto se organiza? A Roederer, que adquiriu, em 2006 o Château Pichon Longueville Comtesse de Lallande, em Bordéus, confronta-se com duas abordagens completamente distintas: em Bordéus temos a área da vinha toda bem delimitada e contínua e, em Champagne, o que mais existem são pequenas parcelas e não vinhas contínuas. Ainda assim falamos de 250 ha de vinhas próprias, com idades que vão até aos 80 anos. Isto corresponde a 70% das necessidades de uva da empresa, o que quer dizer que, na boa tradição local, se mantêm contratos com muitos lavradores da região.
Jean-Baptiste Lécaillon é chef de cave da Louis Roederer e mentor da criação da enorme colecção de clones e variedades da empresa, para assegurar a continuação das inovações para gerações futuras.
Vintages das mesmas parcelas
A história é antiga e remonta a 1776. Mas foi em 1833 que Louis Roederer herdou a gerência da casa. Em 1830, por cada 10 garrafas em cave só duas eram vendidas porque oito, entretanto, explodiam devido à pressão excessiva no interior da garrafa. A solução para este problema foi encontrada por Jean-Baptiste François, farmacêutico de profissão, que inventou, em 1836, o medidor de açúcar que passou a indicar, com precisão, a quantidade de açúcar que se deveria adicionar ao vinho-base, precisamente para evitar que, por excesso de refermentação, as garrafas explodissem.
Comprou, em 1845, muitas parcelas (15 ha) em zonas mais tarde classificadas como Grand Cru. No entanto, tão importante como isso, fez questão de ter as suas próprias vinhas em vez de comprar só as uvas, como era hábito em meados do séc. XIX. O seu herdeiro, Louis Roederer II manteve a política de aquisição de parcelas, partindo da ideia que um grande vinho depende sempre de um grande solo. Desde então todos os vintages da Roederer têm origem em vinhas próprias e, em alguns casos, (como a cuvée Cristal) usam sempre as mesmas parcelas com pelo menos 20 anos de idade, para que as raízes cheguem ao giz. Até atingir essa idade as uvas serão usadas para fazer vin de reserve.
Assim se foi percebendo a diversidade dos Cru, das castas, das parcelas, dos terroirs diferentes e esse estudo não mais parou até hoje. A 1ª edição do branco Cristal data de 1876 e o mercado russo – para onde se tinha iniciado a exportação em 1870 – passou a ser, junto com os Estados Unidos, o principal foco da exportação da casa francesa. Cristal é, desde então, uma cuvée de prestígio reconhecida em todo o mundo.
Por volta de 1920, Léon Olry-Roederer criou um champagne que juntava vinhos de vários anos, com o objectivo de manter o perfil ano após ano. Nasceu assim a cuvée Brut Premier. Quando morreu, a viúva Camille assegurou a gestão, a partir de 1932, numa época especialmente difícil porque a empresa tinha cerca de 25 anos de stocks de vinhos por vender.
A delimitação da região teve lugar em 1927, ou seja, bem antes da grande vaga de criação de Appéllations Contrôlées francesas, levada a cabo no final dos anos 30. O que aconteceu foi que, coincidindo com a delimitação da região, se vivia uma crise tremenda em Champagne: fim do mercado russo, como consequência da Revolução Bolchevique; fim do mercado americano por via da Lei Seca e falta generalizada de dinheiro suscitada pela crise financeira de 1929. Como quadro desanimador não poderia ser pior, mas foi também o momento oportuno de adquirir muitas parcelas, então vendidas a preços irrisórios. A Roederer conseguiu assim adquirir mais vinhas em zonas de excelência na Montagne de Reims, Côte des Blancs e Vallée de la Marne.
Os homens fazem o vinho mas as leveduras é que fazem o Champagne!
Conhecer a terra, palmo a palmo
O neto de Camille, Jean-Claude Rouzaud, enólogo e agrónomo, expandiu e cultivou mais vinhas. Esteve à frente da empresa cerca de 30 anos e ganhou a alcunha de Rei de Champagne, com gestão ponderada, sempre com um pé na vinha e um “tu cá, tu lá” com os fornecedores. Promoveu ainda aquisições meticulosas como a casa de Champagne Deutz e a Ramos Pinto, esta em 1990. Actualmente é Frédéric Rouzaud a 7ª geração à frente da empresa. Além do foco na zona de Champagne, a Roederer tem forte presença na zona francesa da Provence, onde detém o Domaine Ott, com três propriedades que perfazem 300.000 garrafas.
Desde finais do século passado que a agricultura Roederer se pretende biológica e com práticas biodinâmicas. Desde 2000 que a “nova” filosofia, que assenta no cuidado parcela a parcela, trabalhada em função do solo específico, tem dado os seus frutos e, dos 250 ha são já 135 que têm certificação bio. Pratica-se uma agricultura regenerativa e selecção massal das varas para novas plantações. Este trabalho da vinha tem merecido toda a atenção da equipa técnica, onde se destaca Jean-Baptiste Lécaillon, chef de Cave e mentor da criação da enorme colecção de clones e variedades, para assegurar a continuação das inovações para gerações futuras. A selecção massal ganhou muito protagonismo nos finais dos anos 90, com a consequente preocupação com a variabilidade genética. Em todo este trabalho há uma componente, digamos, “espiritual”: uma cruzada pelo gosto, pela perfeição e pela autenticidade.
Todos sabemos que a agricultura bio não é totalmente limpa ou isenta de químicos e que alguns metais pesados como o cobre estão longe de serem amigos do ambiente. Aqui faz-se o possível, com a certeza. “Usamos em tratamentos 3 kg cobre por ano; no tempo dos nossos pais usavam 4 kg em cada tratamento”, dizem-nos. A estatística também ajuda: em agricultura bio perdem anualmente 5 a 10% da produção, em ciclos de 20 anos mas, em anos bons, ganham 15%, sobretudo nas vinhas velhas que entram no Cristal, terras calcárias de giz.
Além das clássicas Chardonnay e Pinot Noir, a empresa tem também entre 3 e 4% de Pinot Meunier que é usado, juntamente com uvas adquiridas a lavradores, nos vinhos de entrada de gama. Quando se torna necessário arrancar uma vinha velha, a terra fica em pousio por quatro anos. Depois planta-se a nova vinha com garfos da colecção da casa e é preciso esperar mais quatro anos para começar a produzir. Um trabalho de paciência. A casa tem três centros espalhados na região onde estão as prensas e, assim, à adega já chega só o mosto.
A Cuvée Cristal nasceu em 1876, mas a versão em rosé só foi produzida na vindima de 1974
Da precisão nasce a excelência
Este cuidado com cada parcela estende-se depois à vinificação, também ela parcelar. As leveduras usadas são o mais neutras possível, por forma a respeitarem a regra de ouro da região: os homens fazem o vinho mas as leveduras é que fazem o Champagne! As uvas – no caso da Pinot Noir estamos a falar de um rendimento de 45 hl/ha – são vinificadas no estado “básico”, ou seja, com as carências ou excessos que a parcela pode gerar, mas que identificam perfeitamente as características da vinha. É depois o blend que tudo vai corrigir. Assim se percebe também a importância capital que a arte do blend tem na produção de champanhe.
Se atendermos a que a Roederer “assina” três milhões de garrafas, podemos perceber a complicação do trabalho de enologia. A minúcia deste trabalho levou ao desenvolvimento de uma técnica chamada de “infusão”. O próprio nome, de reminiscências japónicas, utiliza, com a casta Pinot Noir, o mesmo método que se usa para o chá. Da própria casa chega-nos a explicação: “significa uma imersão a frio dos Pinot Noirs durante 5 a 7 dias sem qualquer extracção mecânica. O resultado é a libertação total dos precursores aromáticos e da textura carnuda contidos nas peles do Pinot Noir, mas uma extracção mínima dos taninos. No final do estágio a frio, adicionamos alguns mostos de Chardonnay para dar frescura e acidez. Esta adição de Chardonnay antes da fermentação alcoólica permite que os aromas se tornem mais precisos e elegantes. Após a fermentação alcoólica, obtém-se um vinho de cor clara, com muitos perfumes de pétalas e uma textura suave e aveludada!” Esta técnica apenas é usada para champanhes millesimé e a cor pode apresentar por isso diferenças em cada edição, em função da infusão, que nunca dá resultados exactamente iguais.
Após 100 anos de Cristal feito com Chardonnay, surgiu o Cristal rosé, criado por Jean-Claude Rouzaud. Nasceu na colheita de 1974, é um lote de Pinot Noir de Aÿ, Chardonnay de Avize e Le Mesnil-sur-Oger e comemora este ano os seus 50 anos. Usa as uvas de vinhas mais velhas, de onde é também possível fazer uma selecção massal. O Cristal rosé é actualmente o produto mais luxuoso da casa. A qualidade é, em nossa opinião, estratosférica e daí a classificação que atribuímos. Lamentando que ela não possa ir além dos 20 valores, na escala usada na Grandes Escolhas…
Recentemente a cuvée Brut Premier foi substituída pela Collection, que incorpora vinhos de muitas colheitas e uvas adquiridas a lavradores. A ideia que presidiu à criação da Collection foi a de adaptar o vinho, em cada ano, em função das alterações climáticas; assim, ao contrário do anterior Brut Premier, este Collection é sempre diferente em cada ano. Daí também a numeração que ajuda a perceber de que lote falamos. No lote aqui provado entram as três castas, com predominância da Chardonnay. É sempre bom recordar que a região é dominada por pequenos lavradores. Cerca de 90% das uvas de toda a região vêm de lavradores; as grandes casas apenas detêm 10% das vinhas. Por outro lado, as inúmeras adegas cooperativas (e muitas delas apenas fazem mosto), representam 20% da produção. O tempo e a História estabeleceram a regra que hoje se mantém: os lavradores cuidam das uvas e fazem a vindima (manual); as empresas fazem o resto! E a Roederer faz três milhões de garrafas/ano que, aos preços que se imaginam, é caso para dizer: é só fazer as contas!
Nos 6 km de caves repousam alguns milhões de garrafas, esperando pacientemente que o tempo faça o seu papel. Mas na Roederer a paciência não falta, “o tempo é o nosso parceiro”, como nos disse Jean-Baptiste Lécaillon.
(Artigo publicado na edição de Agosto de 2024)