Barbeito: O mundo de Ricardo Diogo

Pedi para o Ricardo repetir a resposta e ele persistiu: “sim, são mesmo onze novos vinhos”! Ricardo é Ricardo Diogo Vasconcelos de Freitas, líder da empresa Vinhos Barbeiro, fundada pelo seu avô há quase 80 anos, e onze são as novidades vínicas acabadas de lançar neste ano. Se para o universo de Vinhos da Madeira […]
Pedi para o Ricardo repetir a resposta e ele persistiu: “sim, são mesmo onze novos vinhos”! Ricardo é Ricardo Diogo Vasconcelos de Freitas, líder da empresa Vinhos Barbeiro, fundada pelo seu avô há quase 80 anos, e onze são as novidades vínicas acabadas de lançar neste ano. Se para o universo de Vinhos da Madeira lançar onze vinhos novos num único ano é já um feito para qualquer empresa, para a Barbeito, que se especializou, quanto aos seus topos de gama, em vinhos de verdadeiro nicho, é um feito ainda maior! Por isso não hesitei e fiz-me a caminho que, no caso, significa voar até à ilha da Madeira…
Por motivos diversos, sou um daqueles continentais que já foi há Madeira bem mais do que uma dezena de vezes. Isso, longe de me trazer alguma vantagem na prova dos seus magníficos vinhos, faz-me, isso sim, escrever sobre ilha de forma saudosa. Com efeito, e apesar da expansão imobiliária um pouco por todo o seu território (sobretudo em redor da cidade do Funchal, crescentemente mais metropolitana), aterro sempre na Madeira com a saudade reconfortante do seu clima ameno e da abundante vegetação. A propósito do clima, e uma vez que na Madeira as amplitudes térmicas são baixas durante todo o ciclo vegetativo, deve-se sobretudo aos solos de origem basáltica com pH baixo a produção de vinhos com elevada acidez e longevidade. Algumas castas, como o Sercial, ajudam nesse perfil também, o mesmo se dizendo quanto ao baixo álcool com que se vindima na ilha, muitas vezes abaixo dos 10%.
Não há outro lugar no país com paisagens tão repletas de inclinações dramáticas preenchidas por plantações verdejantes, ora de vinha, ora de banana, ora até, cada vez mais parece-me, de cana de açúcar. Pouca gente o sabe, e tenho sempre dificuldade em convencer os meus amigos continentais desse facto, mas a verdade é que, na Madeira, não há dia em que não se veja uma, ou muitas, manchas de vinhas no horizonte. Estão (quase) por toda a parte, ainda que associadas discretamente na paisagem verde da flora copiosa, apenas interrompida por estradas (invariavelmente a subir e a descer) ou aldeias mais ou menos isoladas. E basta olhar para essas vinhas, para concluir que os sistemas de condução mais utilizados são a latada ou pérgola, e a espaldeira. O cultivo da vinha é, efetivamente, muito disperso na Madeira, com as várias geografias locais a contribuírem para diferentes terroirs. É disso bom exemplo o facto de ouvirmos, todos os dias, que na costa sul ou norte, em redor desta ou daquela aldeia ou fajã ou praia, é melhor uma ou outra casta, uma ou outra exposição, etc. Mas o facto de a vinha se encontrar dispersa e presente em quase toda a ilha não significa que a área agrícola total seja significativa, bem pelo contrário, sendo que a pressão imobiliária e turística piora a situação. Falamos sempre de parcelas de pequena dimensão, quase sempre em “poios”, que são socalcos construídos de forma a contrariar o declive acentuado das encostas e a permitir a sua utilização agrícola. Naturalmente, a orografia montanhosa do território resulta na quase impossibilidade de recurso à mecanização, pelo que a maioria das práticas agrícolas (vindimas, podas, intervenções em verde) são efetuadas ainda manualmente.
Talvez por isso, a vinha tem uma implementação claramente familiar, com muitas famílias a produzir uvas, entre outros frutos. Também encontramos muitas adegas familiares e até pequenos armazéns de estágio de vinhos junto a casas particulares, geralmente cobertos por telhados de zinco e com as pipas, encimadas umas nas outras, suportadas na base por pedra de canteiro (daí o nome Canteiro que se atribui ao método mais nobre de evolução dos Vinhos da Madeira, sendo o método da estufagem para vinhos mais novos). A empresa Barbeito, a que nos dedicamos neste texto, utiliza alguns destes armazéns familiares para envelhecer os seus cascos (quase sempre barricas entre os 200 e os 500 litros), em diferentes localizações e altitudes na ilha.
Um percurso impressionante
A Madeira dispõe atualmente de menos de uma dúzia de produtores (já foram mais de 30 em meados do século passado), que processam cerca de 90% da uva da ilha, sendo o restante para consumo local. Em quase todos os casos, as casas produtoras compram uva, não sendo, até há bem pouco tempo, comum que uma casa de Vinho da Madeira fosse proprietária de vinhedos próprios com significativa dimensão. Nos últimos anos, parte destes produtores, inclusivamente alguns clássicos, foram sendo adquiridos por empresas maiores, em muitos casos estrangeiras e até multinacionais, o que espelha o prestígio do Vinho da Madeira, ainda que o seu consumo se tenha alterado de mais generalizado para mais ocasional, à semelhança de todos os generosos. Grande parte do Vinho da Madeira é ainda exportado, cerca de 80%, sendo os principais mercados europeus a França, Alemanha, Reino Unido, Bélgica e Suíça, e fora da Europa os EUA e o Japão (não por acaso, o capital social da Barbeito tem uma participação há várias décadas de um conglomerado japonês). O vinho não exportado é quase todo consumido na região, grande parte pelos muitos turistas que anualmente visitam a ilha.
Nesse lote de produtores clássicos, a Barbeito tem um lugar muito especial. Com efeito, a trajetória da empresa Barbeito nos últimos 20 anos tem sido impressionante, não só ao nível da qualidade dos seus vinhos, mas também da projeção nacional internacional dos mesmos. Isso deveu-se a vários fatores, sendo os principais a aposta de Ricardo em vinhos especiais, em muitos casos recorrendo a vinhos únicos estagiados em garrafões, e o perfil mais fresco e vibrante que todos os vinhos com sua assinatura têm. Voltando um pouco atrás no texto, é altura para confidenciar que Ricardo licenciou-se em História e deu aulas da disciplina, ainda que por pouco tempo. Teve uma garrafeira (que deixou saudades) no Funchal, a ‘Diogo’s’ que funcionava (ainda existe apenas online) ainda como um pequeno museu do vinho. Começou na empresa ao lado da mãe em 89 e, a acompanhar as vindimas, a partir de 1993 assumindo progressivamente a área de preparação dos vinhos, o que implicava já o loteamento final dos néctares à sua disposição. Alguns anos volvidos e sucede naturalmente à sua mãe, ascendendo a presidente do conselho de gerência da empresa e aí se mantém como a face mais visível, e a mais dinâmica dizemos nós, deste magnifico produtor.
De facto, desde o início, Ricardo implementou um estilo novo na sua empresa. Ainda que, no início, o tenha feito de forma pouco consciente (era o seu gosto e não um perfil estilizado), a verdade é que, ao longos dos anos, os consumidores de Vinho da Madeira foram habituados a um perfil mais seco e fresco sempre que provavam e bebiam uma garrafa de Barbeito. De tal modo que estou convencido até que esse perfil menos doce e mais vibrante, de que Ricardo tanto gosta, “fez escola” na região e contagiou positivamente algumas das restantes casas de Vinho da Madeira. Basta provar comparativamente os vinhos que a “concorrência” lança atualmente, e os que lançava há 10 ou 15 anos, para comprovarmos esta minha intuição. Hoje, como dantes, continuam soberbos; mas estão hoje menos doces.
Vinhos únicos e irrepetíveis
A par do estilo mais seco, Ricardo incutiu, na sua empresa, uma espécie de irrequietação positiva, uma necessidade de lançar vinhos novos e diferentes, algo que, no Continente, podemos encontrar noutras personagens vínicas como Dirk Niepoort, Anselmo Mendes, e, mais recentemente, António Maçanita, entre alguns outros. No caso de Ricardo, em vez de juntar vários lotes para criar um lote maior de algumas dezenas de milhares de litros, a sua preferência sempre foi produzir vinhos únicos, por vezes irrepetíveis. O seu gosto por História, e as recordações de ver a sua mãe a trabalhar na empresa, fazem com que Ricardo não dispense o contacto pessoal frequente com dezenas de viticultores, mesmo com aqueles com quem não colabora, e até com produtores e proprietários antigos de casas de vinho que, por esta ou aquela razão, já não comercializam. É disso bom exemplo a colaboração ativa com a família Eugénio Fernandes, cujas vinhas e adega ficam no Seixal, defronte da praia mais bonita e visitada do norte da ilha. Com efeito, tal adega (são famosos os Verdelhos e os Serciais antigos) fica a meras dezenas de metros da praia, algum comum na Madeira, mas sem que nenhum dos milhares de turistas que por lá veraneiam imaginem que tal seja possível. O mesmo sucede, agora no sul, na mítica Fajã dos Padres, uma língua de terra estreita, toda literalmente a beira-mar, no final de uma falésia vertical de 250 metros. Nesse pequeno território, entre mangas e peras-abacate (e lagartos!), crescem algumas videiras de Malvasia Cândida, uma das mais antigas da região e que só ali existem, há gerações ao cuidado da família Vilhena de Mendonça, que vinifica um pouco de vinho. As restantes uvas, quando existem (há anos de pouquíssima produção) ficam para Ricardo vinificar com mestria um dos seus vinhos mais excitantes e mais limitados. Como se denota do que venho escrevendo, percorrer a Madeira com Ricardo ao lado é ir parando, aqui e ali, para conversar com viticultores e visitar adegas antigas. Melhor é impossível.
No dia a dia, a atividade de Ricardo é, desde há muitos anos, fazer lotes de vinhos. Por dia, e não foi a primeira que o constatamos, Ricardo analisa e prepara entre 15 a 20 lotes. Ora está a aproximar-se de uma versão final em que trabalha há várias semanas, ora está a refrescar alguns lotes, sempre diagnosticando em que fase da evolução cada barrica e casco se encontram. No fundo, é como se estivesse diariamente a estudar e criar várias peças de um puzzle, para que um dia as venha a utilizar. Pode tratar-se de um trabalho por vezes solitário, encontrar-se, todos os dias, em sala de prova, sobretudo na definição e decisão dos lotes finais. Por um lado, é verdade que, após décadas de laboro, esse trabalho isolado de Ricardo acabou por ter a vantagem de revelar, aos consumidores, o gosto pessoal do seu criador. Porém, há já algum tempo que Ricardo tinha compreendido que beneficiaria de um parceiro constante e habitual na sala de prova. Não por acaso, aliás, Ricardo sempre procurou colaborações: fez dois lotes com Dirk Niepoort e, mais recentemente um vinho com Susana Esteban (este provado abaixo no texto), tendo no passado participado com Rita Marques no desenho de um Vinho do Porto. Ora, esse parceiro surgiu na pessoa de Sérgio Marques, madeirense de gema, sommelier de formação, com passagem por restaurantes de elevado gabarito, nacionais (caso do ‘Il Gallo d’Oro’, no Hotel Porto Bay, com duas estrelas Michelin) e internacionais. Provador nato, é ainda grande conhecedor, e colecionador, de vinhos Madeira, tendo sido, até há bem pouco tempo, o responsável pela loja de vinhos da Blandy’s (o ‘Wine Lodge’). Sobre a participação e intervenção de Sérgio, Ricardo não tem dúvidas: tem sido fundamental na definição dos últimos vinhos da Barbeito, enriquecendo a decisão final dos lotes pela troca de experiências e pontos e vista que, sendo diferentes, são convergentes.
E, efetivamente, isso mesmo constatámos mais uma vez, inclusivamente na sala de prova. Ricardo e Sérgio falam uma mesma linguagem, gostam de perfis muito parecidos, mas nem sempre coincidem totalmente. Quando isso acontece, ou quando reconhecem que o ponto de vista do outro é valido e beneficia o lote final, surge magia! Os 11 vinhos agora lançados são o reflexo dessa magia.
Nota: o autor escreve segundo o novo acordo ortográfico
(Artigo publicado na edição de Agosto de 2024)
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Barbeito Projecto MEF
Fortificado/ Licoroso - 1978 -
Barbeito Projecto MEF
Fortificado/ Licoroso - 1994 -
Barbeito O Americano
Fortificado/ Licoroso - -
Barbeito O Engenheiro
Fortificado/ Licoroso - -
Barbeito Ribeiro Real Lote 2
Fortificado/ Licoroso - -
Barbeito
Fortificado/ Licoroso - -
Barbeito
Fortificado/ Licoroso - -
Barbeito Rainwater Lote Especial
Fortificado/ Licoroso - -
Barbeito Single Harvest
Fortificado/ Licoroso - 2011 -
Barbeito Casco Único
Fortificado/ Licoroso - 2007 -
Barbeito Curtimenta
Fortificado/ Licoroso -
CARCAVELOS VILLA OEIRAS: O renascer de um ícone

O projecto Villa Oeiras é muito mais do que uma iniciativa de produção de vinhos de Carcavelos, uma das mais pequenas regiões vitivinícolas de Portugal. É, sobretudo, uma iniciativa de recuperação de um património único, que se poderia ter perdido se a Câmara de Oeiras não se tivesse envolvido nisso. De outra forma, seria quase […]
O projecto Villa Oeiras é muito mais do que uma iniciativa de produção de vinhos de Carcavelos, uma das mais pequenas regiões vitivinícolas de Portugal. É, sobretudo, uma iniciativa de recuperação de um património único, que se poderia ter perdido se a Câmara de Oeiras não se tivesse envolvido nisso. De outra forma, seria quase impossível impedir o avanço imobiliário sobre os espaços ainda livres deste concelho e de Cascais, onde a denominação está inserida. Como salienta o seu coordenador, Alexandre Lisboa, a autarquia está envolvida nesta iniciativa, “porque é de recuperação de um património de vitivinicultura, paisagístico e cultural, de uma região onde a Vitis vinifera, a videira europeia, está presente desde a última glaciação”. Acrescenta que é ali “cultivada há mais de dois mil anos e há relatos sobre os seus vinhos com 500 anos”.
A região aguentou a devastação causada pelo míldio, oídio e filoxera, que ocorreu em todo o país, recuperando e voltando a lançar vinhos com reconhecimento nos mercados nacional e internacional depois do início do século XX. Mas não conseguiu lutar contra o crescimento urbano sem a intervenção do estado, neste caso das Câmaras de Oeiras e Cascais, que reservaram, nos seus territórios, zonas que estão agora protegidas para a produção de Vinho de Carcavelos. Isso tem contribuído para o crescimento da área de vinha na região para os mais de 30 hectares actuais, e para a garantia que esta não vai colapsar.

Vinhas quase urbanas
Quando o projecto Villa Oeiras começou, existiam 12 hectares de vinha em produção em toda a denominação, divididos por cinco quintas diferentes. Eram microparcelas inseridas nas Quintas da Samarra, dos Pesos, Mosteiro de Santa Maria do Mar e na Estação Agronómica de Oeiras, a Quinta do Marquês do Pombal. “Era o que existia nos anos 80, mas hoje em dia há muito mais”, avança Alexandre Lisboa. Só a da Quinta do Marquês do Pombal, aquela que é gerida pela Câmara de Oeiras, tem 20 hectares, de um total de 33 que compõem toda a vinha que dá origem ao vinho de Carcavelos.
Mas, segundo o responsável, a região poderá chegar aos 41 hectares de vinha nos próximos anos, se todos os direitos de plantação forem usados. Claro que isto corresponde a um quintalinho em relação a toda a região de Lisboa, onde estão também inseridas as denominações históricas de Bucelas, a maior, e Colares, que tem actualmente cerca de 40 hectares de vinha.
Carcavelos inclui entre outros, para além da Câmara de Oeiras, a Câmara de Cascais, que começou a produzir vinhos há três anos na Quinta do Mosteiro de Santa Maria do Mar, a Quinta dos Pesos, que não está a produzir mas ainda está a engarrafar, a Quinta da Samarra, que tem 1,9 hectares, a Quinta de Valverde, que plantou dois hectares e o ex-chefe de cozinha Vitor Claro e a Adega de Belém, que compram uvas na Quinta da Ribeira e vinificam na Adega do Casal Manteiga, da Câmara de Oeiras. “São essencialmente vinhos de uvas tintas, que são transformadas na nossa adega”, conta Alexandre Lisboa, acrescentando que a sua autarquia cede as instalações porque quer que a região seja saudável e continue a produzir vinhos durante muitos mais anos. “Para que isso aconteça, abrimos as portas da nossa adega a outros produtores, para que possam transformar aqui as suas uvas e produzir Carcavelos, já que esta é a única adega a funcionar na região”, acrescenta.
Em busca do conhecimento
Em 2006, quando começou o envolvimento da Câmara de Oeiras na recuperação do património vitivinícola de Carcavelos, havia apenas um produtor, apesar de haver registo de produção todos os anos, mesmo que apenas de coisas muito pequenas, de mil, dois mil litros de vinho. “A sensação que existia e que me foi passada por todos os players da região na altura, era que não valia a pena produzir vinho de Carcavelos, já que as pessoas nem sabiam se o vinho era, ou não, bom”, conta o responsável do projecto. E é, com algum entusiasmo, que relata que apenas encontrou duas referências quando fez a primeira pesquisa no Google sobre o vinho de Carcavelos, ou seja, que não havia nada de consistente sobre o tema em 2006, quando a Câmara de Oeiras se envolveu neste projecto e que hoje “há milhares”. Na altura, aquilo que se sabia sobre os Carcavelos vinha da prova de vinhos antigos, como os da Quinta do Barão dos anos 50, ou da Quinta da Alagoa dos anos 20. “Ainda há pouco tempo provei um de 1906, um vinho extraordinário”, revela Alexandre Lisboa.
Era, pois, premente recuperar este património. A iniciativa nasceu dessa necessidade, com a visão “de produzir um vinho de Carcavelos baseado na excelência e em processos produtivos de excelência, que seja uma referência nacional e internacional de qualidade”. Foi isto que ficou escrito, em 2006, no documento base naquele que é hoje o projecto Villa Oeiras. Afinal, já que era necessário recuperar um património vitivinícola único, “o melhor era ter, como objectivo, fazer o melhor Carcavelos do mundo”, defende o responsável.
Mas isso não era possível de concretizar sem conhecimento. Por isso, os responsáveis pegaram em todo o saber que tinha sido adquirido, desde os anos 80 do século passado até 2006, pela Estação Agronómica Nacional, como base para o desenvolvimento do projecto.
Era preciso aprender a fazer o vinho de Carcavelos. Mas também definir quais as características que deveria ter o vinho acabado de fermentar, qual a aguardente mais apropriada para parar o processo, e como é que os vinhos deviam saber e cheirar quando acabados de fortificar. Foram essas as perguntas que Alexandre Lisboa fez a Estrela Carvalho, a responsável pelo projecto dos vinhos de Carcavelos desde a década de 80, as mesmas que ela tinha feito quando começou a fazer os vinhos de Carcavelos, já que pouco se sabia sobre estes temas na altura. Apenas estavam definidos os aromas e sabores dos vinhos antigos, os que tinham sido engarrafados há muito, “através das provas que foram sendo feitas de referências da Quinta do Barão, dos Pesos, da Alagoa e do Paulo Jorge”. Ou seja, não havia nada escrito em relação à prova de vinho novo e não se sabia nada sobre as características dos vinhos acabados de fermentar, e à medida que evoluíam com o tempo. Por isso, houve que investigar e experimentar, para encontrar a fórmula mais correcta para produzir o vinho de Carcavelos.
Entre a plantação das primeiras vinhas na Estação Agronómica, em 1985, e 2006, quando a Câmara de Oeiras assumiu o projecto, fez-se muita investigação e experimentação com aguardentes de origens e qualidade diferentes. Nos Villa Oeiras é só usada aguardente vínica da Lourinhã, e, para Alexandre Lisboa, é apenas essencial a sua qualidade.
Saber esperar pelo vinho
Quando a câmara se envolveu no projecto foi necessário comprar pipas novas. “E fizemos isto porquê?”, interroga-se Alexandre Lisboa, explicando que não havia, naquela altura, qualquer estudo sobre o comportamento de madeiras em vinhos fortificados desta região. “E não podíamos perder a oportunidade de o fazer”, afirma. E, assim, os primeiros vinhos foram estagiados em madeiras de carvalho francês Limousin e Allier, carvalho nacional e castanho, com tosta média e forte. Como é evidente, ficaram marcados pela madeira e eram muito pouco apelativos no início, o que obrigou a espera prolongada e muitas provas para se ir avaliando a sua evolução, não só para se saber que tipo de vinhos originavam cada um destes tipos de madeira, mas também para identificar o período mínimo de estágio para o seu lançamento. Isso levou ao adiamento do lançamento de vinhos, mas, em paralelo, à aquisição de conhecimento sobre a melhor forma de fazer e envelhecer vinhos de Carcavelos, primeiro brancos e, algum tempo mais tarde, também tintos, porque o processo destes foi mais difícil de definir.
Depois de descoberto, de novo, o processo que dá origem à produção do vinho de Carcavelos, era necessário comunicar a região e os seus vinhos, não só para criar apetência no mercado, mas também para envolver mais produtores, como tem estado a acontecer. Primeiro foram publicitados os vinhos em cartazes por todo o concelho de Oeiras. Depois, foram feitas feiras temáticas como o “Há Prova em Algés”, que, este ano, já vai na 10ª edição, e outras.
“Temos também participado em feiras de vinhos um pouco por todo o país, de uma forma quase institucional, e concorrido em várias competições”, revela Alexandre Lisboa. Em 2021, a revista Grandes Escolhas classificou o Colheita Tinto 2009 como o Melhor Fortificado português, a par de dois vinhos do Porto, um Tawny 40 anos e um Vintage 2018. Classificações como estas também contribuíram para o projecto marcar posição no mercado e “para o reconhecimento da excelência do trabalho feito até hoje”. Segundo Alexandre Macedo, todos os anos o Villa Oeiras vende cerca de 50 mil garrafas, número que deverá crescer com o aumento da área de vinha. São vendidas em Portugal e exportadas para 15 países, sobretudo para os Estados Unidos, Brasil, Espanha e Reino Unido.
(Artigo publicado na edição de Setembro de 2024)
20 anos de Santa Cristina

Ao completar 60 anos de idade, o empresário António Pinto entendeu que era tempo de encontrar um espaço agrícola de lazer onde pudesse reunir a família e os amigos. A sua esposa, Rosa Maria Pinto, foi decisiva na escolha de Celorico de Basto e da vertente vitivinícola, herdando de seu pai, viticultor, algumas parcelas de […]
Ao completar 60 anos de idade, o empresário António Pinto entendeu que era tempo de encontrar um espaço agrícola de lazer onde pudesse reunir a família e os amigos. A sua esposa, Rosa Maria Pinto, foi decisiva na escolha de Celorico de Basto e da vertente vitivinícola, herdando de seu pai, viticultor, algumas parcelas de vinha e a paixão pelo vinho.
António Pinto não queria, no entanto, mais um Vinho Verde comum. Pretendia um produto de qualidade elevada e de que se pudesse orgulhar. Com o objectivo de fazer bem feito e mente, recorreu ao enólogo Jorge Sousa Pinto, profissional de primeira linha, com provas dadas na região. A história é contada por este último em poucas palavras: “Quando conversei com o senhor António Pinto, em plena vindima de 2004, gostei muito do projecto e do seu empenho e disse-lhe que ia ajudar no que fosse preciso. Pensava eu que era para começar no ano seguinte. Afinal era para começar a trabalhar no dia seguinte, às sete da manhã já lá estava, na cave da sua residência, a receber uvas…”
A coisa, entretanto, foi ganhando outra escala e condições. Em 2008 começaram a fazer espumante, em 2013 construiu-se uma adega moderna, com tudo o que é preciso. A “brincadeira” de António Pinto transformou-se em 50 hectares de vinha, com mais de 400 mil litros produzidos em cada ano. “Nunca pensei que isto tomasse a dimensão que tomou”, confessa António Pinto. Entretanto, a sua filha Mónica Pinto tomou a direcção do projecto, assumindo a gestão e coordenação de toda uma equipa profissional dedicada ao negócio vitivinícola. Negócio que tem vindo a crescer de ano para ano.
A Quinta de Santa Cristina situa-se no coração de Basto, sub-região dos Vinhos Verdes. Entre vinha e floresta são cerca de 60 hectares, na margem direita do rio Tâmega, um espaço rodeado pelas serras de Fafe, Marão, Alvão e Cabreira, convidando ao sossego e harmonia entre vinhos e natureza. Na verdade, e como é habitual no modelo de minifúndio minhoto, o nome Santa Cristina serve de chapéu a diferentes propriedades, dispersas por três concelhos: Celorico de Basto, Cabeceiras de Basto e Ribeira de Pena. Assim, a Quinta de Santa Cristina propriamente dita, dispõe de 8 hectares de vinha, plantada com castas brancas e tintas: Alvarinho, Fernão Pires, Sauvignon Blanc, Espadeiro, Trajadura e Padeiro de Basto. A quinta da Capela são 5 hectares, com Trajadura, Avesso e Batoca. Na Tecla estão 3,5 hectares, com Alvarinho e Chardonnay, enquanto Fermil representa 2,3 hectares exclusivamente plantados com Arinto. Juntam-se, a estas, mais três quintas (as de maior dimensão) num total de sete: quinta de Salgueiros são 11 hectares, plantados com Trajadura, Loureiro, Azal e Padeiro de Basto; quinta de Agúnchos tem 10 hectares de Arinto, Alvarinho, Vinhão e Fernão Pires; e quinta de Parada, outros 10 hectares, com Arinto, Alvarinho, Azal e Loureiro. Todas estas vinhas encontram-se assentes no típico solo granítico da região, variando as altitudes (dos 200 metros de Fermil aos 500 metros de Salgueiros, com a média a rondar os 350 metros) e a exposição solar, ainda que esta seja maioritariamente Nascente/Sul. A cintura de serras de que acima falámos protege dos ventos marítimos mais agrestes, dando a esta região atlântica alguma influência continental.
Mónica Pinto, com os pais António e Rosa Maria, gere o dia da dia da empresa.
Batoca faz diferença
De entre a multitude de castas plantadas é de destacar a Batoca, uma casta autóctone e praticamente limitada à sub-região de Basto. Casta muito produtiva, encontrava-se sobretudo nas antigas ramadas, mas tem a vantagem, segundo Jorge Sousa Pinto, de oxidar lentamente e crescer na garrafa. Para o enólogo, a Batoca representa uma parte importante da herança vitivinícola local. “Ao longo do tempo, esta casta foi sendo esquecida e tornando-se quase extinta”, refere. “A Quinta de Santa Cristina dedicou-se à sua recuperação e preservação, e orgulhamo-nos de ser o único produtor a engarrafar esta variedade em separado.” De qualquer forma, do total plantado, 30% é Alvarinho, seguindo-se, por ordem de grandeza, Arinto, Trajadura e Loureiro. Tendo em vista os resultados alcançados por cada casta e os objectivos pretendidos, a enologia identificou já um excesso de Trajadura, que vai substituída, sobretudo, por Avesso e Arinto.
Em termos de modelo vitivinícola, foi adoptado o Sistema de Produção Integrada e Global, implicando seguir determinadas regras e boas práticas agrícolas, priorizando a preservação ambiental, a segurança e o bem-estar dos trabalhadores, a gestão de resíduos e a segurança alimentar. A título de exemplo, Jorge Sousa Pinto aponta a recuperação dos resíduos da poda, triturados e deixados no campo como matéria orgânica, reforçando o compromisso da quinta com práticas sustentáveis. A adega, construída de raiz em 2013, tem uma capacidade instalada para um milhão de litros, vinificando actualmente menos de metade, entre brancos, tintos, rosés e espumantes. Para além das incontornáveis cubas inox e sistemas de frio, Jorge Sousa Pinto e o enólogo residente, Bernardino Magalhães, contam com dois lagares de granito (com controle de temperatura) para a pisa e fermentação dos tintos mais clássicos, uma área de fermentação e estágio em barrica e ainda uma outra dedicada aos espumantes, que começaram a ser produzidos em 2008. A ideia é a marca Quinta de Santa Cristina aparecer unicamente em referências que signifiquem valor acrescentado. Diz António Pinto: “Queremos experimentar, testar, perceber o consumidor e só depois lançar no mercado um vinho que faça a diferença. Fazer bom e barato não é objectivo.” Corroborando a afirmação, é significativo que, desde 2023, todos os vinhos da Quinta de Santa Cristina, mesmo os considerados “entrada de gama”, sejam engarrafados sem qualquer adição de gás ou açúcar.
Verdes de garrafeira
Mais significativo ainda, o lançamento da linha Cave, que tem, como propósito, introduzir valor e mostrar, a quem ainda duvida, que os Vinhos Verdes podem ser grandes brancos, vinhos que ultrapassam a prova do tempo. Ao contrário de outros produtores da região que relançam agora vinhos que já estiveram no mercado há alguns anos, os vinhos da linha Cave assentam num conceito distinto. “São especificamente feitos para crescer em garrafa e lançar com dois ou três anos de idade. Não são vinhos que ficaram para trás”, acentua Jorge Sousa Pinto. Assim, todos os anos chegarão ao mercado vinhos varietais ou de lote baseados neste modelo. E há vinhos que vão esperar dois anos e outros esperam três, quatro, cinco ou mesmo seis anos, o que diz bem da confiança do enólogo e da capacidade de António e Mónica Pinto esperar pelo retorno do investimento.
Os vinhos da Quinta de Santa Cristina estão, sobretudo, no canal Horeca. A exportação representa já 40% do negócio, com mercados como Alemanha, Inglaterra, Polónia, Holanda, Suíça, Suécia e, mais recentemente, EUA e Japão, na linha da frente.
Desde 2015 que um dos focos da empresa tem sido o enoturismo, cujo espaço foi alvo de grande reformulação em 2020, com novas infra-estruturas (incluindo cozinha industrial) e um renovado programa dos espaços arquitectónicos, criando três ambientes que interligam vinhas e adega, um espaço multiusos com capacidade para 150 pessoas, um wine-bar e uma ampla loja. Para além das provas e da experiência gastronómica, os visitantes podem desfrutar de um vasto programa de actividades, incluindo visitas às vinhas (a pé, bicicleta ou TT), adega e cave, criação de lotes, e piqueniques na vinha ou nos jardins, aproveitando a paisagem natural.
Duas décadas transformaram a Quinta de Santa Cristina de espaço privado de lazer a ambicioso produtor de Vinho Verde, uma casa que conjuga como poucos três factores fundamentais: escala, qualidade e diferença. Uma importante mais-valia para uma região que tem cada vez mais coisas boas para nos mostrar.
(Artigo publicado na edição de Agosto de 2024)
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Quinta de Santa Cristina Cave
Tinto - 2019 -
Quinta de Santa Cristina Cave
Branco - 2020 -
Quinta de Santa Cristina Cave
Branco - 2020 -
Quinta de Santa Cristina Cave
Branco - 2020 -
Quinta de Santa Cristina
Espumante - 2017 -
Quinta de Santa Cristina
Espumante - 2020 -
Quinta de Santa Cristina
Tinto - 2022 -
Quinta de Santa Cristina
Rosé - 2022 -
Quinta de Santa Cristina
Branco - 2020 -
Quinta de Santa Cristina
Branco - 2022 -
Quinta de Santa Cristina
Branco - 2023 -
Quinta de Santa Cristina
Branco - 2023 -
Quinta de Santa Cristina
Branco - 2023 -
Quinta de Santa Cristina
Branco - 2023 -
Quinta de Santa Cristina
Branco - 2023 -
Quinta de Santa Cristina
Branco - 2023 -
Quinta de Santa Cristina
Branco - 2023
Ilha de Santa Maria: O renascimento de uma paisagem vinhateira única

Não é difícil a alguém apaixonar-se pela paisagem de vinhas da Ilha de Santa Maria, nos Açores. Esta primeira visita, que decorreu num tempo especial para a ilha e as suas pessoas, quando foram apresentados publicamente os sua primeiros vinhos, lançados depois de muitos anos em que a sua produção chegou praticamente a zero, foi […]
Não é difícil a alguém apaixonar-se pela paisagem de vinhas da Ilha de Santa Maria, nos Açores. Esta primeira visita, que decorreu num tempo especial para a ilha e as suas pessoas, quando foram apresentados publicamente os sua primeiros vinhos, lançados depois de muitos anos em que a sua produção chegou praticamente a zero, foi surpreendentemente positiva.
A vitivinicultura faz parte da história da ilha desde o seu povoamento, há mais de 500 anos. Inicialmente o Verdelho era a casta mais abundante e a produção de uva e vinho destinava-se ao autoconsumo, para subsistência dos seus habitantes. “Foi, também, a forma de aproveitar os terrenos marginais de encosta da ilha”, conta Duarte Moreira, presidente da Agromariensecoop – Cooperativa de Produtos Agro-Pecuários da Ilha de Santa Maria.
Segundo Rui Andrade, 44 anos, vogal na direcção da Agromariensecoop, e um estudioso da história da viticultura da ilha, “os primeiros povoadores trouxeram com eles vinho, com certeza, porque é uma bebida enraizada na cultura e tradições portuguesas”. Conta, também, que está comprovado que a estrutura das vinhas actuais já existiam há mais de 400 anos e que a sua produção era já significativa, servindo provavelmente também para abastecer os barcos que aportavam na costa da Ilha de Santa Maria onde ficava a capital dos Açores nessa época, porque era nela onde estava o capitão donatário de todas elas. A actividade vitivinícola da época é atestada pelos diversos lagares rupestres da ilha, escavados na rocha.
Quem é Duarte Moreira?
Natural da Ilha de Santa Maria, Duarte Moreira, 58 anos, é o presidente da Agromariensecoop. Descendente de uma família de agricultores, cresceu no mundo rural até frequentar Universidade dos Açores na Ilha Terceira, onde se licenciou em Engenharia Zootécnica. Regressou depois à sua ilha natal para integrar o serviço de Desenvolvimento Agrário secretaria da Agricultura dos Açores. Em 1996 passou a chefe de Divisão do serviço, onde esteve até 2008, sempre ligado à parte técnica e bovinicultura de carne, em conjunto com a gestão do serviço. Entretanto geriu também a empresa de família, a Quinta das Quatro Canadas, com o irmão, que se dedica à bovinicultura de carne, que vendeu há cinco. Desde 2008 é o presidente da Agromariensecoop, cuja actividade inclui, entre outros, o abate de bovinos de carne, a transformação de produtos locais em doces e compotas, principalmente de meloa, que é certificada, mas também de mel e, agora, a produção de vinho.
Trabalho duro
A descoberta da história da produção vitivinícola da ilha até ao seu quase desaparecimento, cerca dos anos sessenta do século passado, devido sobretudo a condições sociais e económicas, é aliciante. O trabalho na vinha era e ainda é duro, hercúleo e certamente penoso devido às dificuldades de acesso aos currais de encosta onde se desenvolvem as vinhas, à baixa produtividade de cada pé, em cada curraleta, ao seu difícil maneio, vindima e transporte das uvas colhidas, ladeira abaixo, para serem transportadas depois, muitas vezes de barco até Vila do Porto, porque não até meados do século passado não havia outra forma de o fazer, devido à dificuldade de acesso por terra.
A produção de vinho chegou a ser enviada para outras ilhas do arquipélago, o continente e outros países há alguns séculos. Mas o aparecimento de pragas como a filoxera e doenças como o míldio e o oídio originaram o desaparecimento das variedades de videira europeia no final do século 19, princípio de 20, e a sua substituição por produtores directos vindos do continente americano, como o Isabella e o Jacquez, “que produziam tanto que as pessoas se esqueceram da videira europeia”, conta Duarte Moreira. Entretanto, como o vinho de cheiro de Santa Maria tinha qualidade e a produção era excedentária, era vendido também para S. Miguel para ser misturado com o desta ilha, “para lhe dar mais cor e grau”. Mas esse negócio foi decaindo no século passado até que, em meados dos anos 60, o vinho passou a ser feito apenas por algumas habitantes da ilha para autoconsumo e a ter má qualidade. “Era intragável”, afirma Duarte Moreira. Com o tempo, as pessoas desaprenderam de tratar das vinhas, de fazer o vinho e perdeu-se o conhecimento tradicional.
Projecto de recuperação
Em 2021, a Agromariensecoop foi desafiada a integrar o projecto de recuperação da paisagem vitivinícola da Ilha de Santa Maria, com o objectivo de criar condições para receber as uvas, transformá-las e produzir vinhos. Depois de algum tempo de estudo, o projecto de investigação e desenvolvimento em meio empresarial Santa Maria Wine Lab, que teve início em 2022, com cubas pequenas e material apenas para investigação e experimentação, deu origem aos vinhos apresentados publicamente agora, que foram produzidos sob a responsabilidade do enólogo residente da cooperativa, João Letras. “O projecto também serviu para transmitir conhecimento aos viticultores porque, sem eles, não podia ser desenvolvido”, explica Duarte Moreira, acrescentando que o pagamento das uvas é feito de forma a envolvê-los na produção de vinhos da ilha e incentivá-los a empenhar-se na recuperação da sua paisagem vitivinícola ancestral, que se estava a perder. “O objectivo, para a além de ter mais um produto que contribua para a economia da ilha, é tentar recuperar uma paisagem que inclui um património histórico edificado único, feito por gerações com um esforço heróico, que faz parte da cultura da ilha e poderá gerar também mais valias a nível do enoturismo, com visitas às vinhas e à adega, onde poderão provar o vinho produzir a partir das vinhas das encostas das ilha”, explica Duarte Moreira, acrescentando que o negócio do vinho também pode ser interessante para a cooperativa, por aportar mais um sector de produção ao seu negócio, diversificando fontes de receita essenciais à economia de num meio tão pequeno como o da ilha.
Actualmente estão envolvidos no projecto mais de 30 viticultores, mas o potencial é superior. Só nas baias da Maia e de S. Lourenço, as duas paisagens protegidas da vinha na ilha, há cerca de 80 hectares de vinha e, no total da ilha, falando apenas nas baías tradicionais, cerca de 120 hectares. A produção média por hectare actual anda no quilo de uva por pé, para as castas nobres. Mas poderá crescer com uma viticultura mais profissional. Hoje é o enólogo João Letras que faz o acompanhamento no campo, mas a cooperativa pretende contratar mais um engenheiro agrónomo ou agrícola para apoiar os viticultores. “É fundamental essa ajuda, porque as pessoas deixaram de fazer o maneio da vinha que esteve praticamente abandonada e precisam de reaprender”, defende Duarte Moreira, acrescentando que têm sido já desenvolvidas acções de formação com técnicos da ilha e de fora.
Uma das grandes dificuldades ao desenvolvimento deste projecto é a mão de obra, já que é extremamente difícil trabalhar nas vinhas das baías de Santa Maria, e a sua mecanização ainda está longe de ser alcançada, apesar de o desenvolvimento da tecnologia ser constante e já haver a hipótese de utilizar drones para tratamentos fitossanitários. Mas como as vinhas precisam de mão de obra e na ilha não há capacidade de resposta, “provavelmente terá de ser recrutada mão de obra noutras origens”, como já acontece em Portugal Continental.
Vinhos com personalidade
Desde o início do processo de recuperação do património e da tradição vitivinícola de Santa Maria, todo o projecto de desenvolvimento do Santa Maria Wine Lab, para a transformação das primeiras uvas, estudo dos vinhos produzidos e lançamento dos primeiros três vinhos certificados, um branco de uvas tintas, um monocasta de Verdelho, desde sempre a casta mais tradicional da ilha, e um rosé feito com base em quatro castas tintas, todos frescos e elegantes, delicados, com o perfil mineral e alguma salinidade comum aos vinhos de outras ilhas açorianas, por vezes com alguma pederneira mas também com fruta delicada, mostram que o trabalho feito de recuperação dos vinhedos tradicionais da ilha, alcantilados em currais em algumas das suas encostas viradas para o Oceano Atlântico, até agora resultou e teve sucesso. Mas ainda há muito a fazer para recuperar as suas vinhas tradicionais, cerca de 120 hectares, plantando mais área, para produzir um maior volume de uvas e garantir o fornecimento anual de vinhos, para que a ilha consiga responder às solicitações futuras dos mercados, que irão surgir em relação aos vinhos de Santa Maria.
Para já, a Agromariensecoop, que tomou em mãos o projecto e o seu desenvolvimento, com o apoio do Governo Regional Açoriano, tem envolvido agricultores incentivando-os a produzir uvas, quando muitos tinham deixado de o fazer, para depois as transformar em vinho com o apoio de João Letras. Alentejano chegado há pouco mais de um ano à ilha, está muito empenhado no conhecimento das suas tradições vitivinícolas ancestrais e no desenvolvimento deste projecto. O seu principal desafio, desde que iniciou o projecto tem sido a viticultura, porque as vinhas ficam em declive e são de acesso difícil, é preciso ensinar e garantir que todas as operações de maneio da vinha são feitas, e ainda há problemas climáticos como a salga, que decorre quando os ventos que sopram do mar transportam e depositam água salgada sobre as plantas, o que pode originar a perda de produção se não chover nas 24 horas seguintes. Já “a produção de vinho é simples: é mostrar aquilo que a uva tem”, explica, de forma clara e simples, João Letras.
Quem é João Letras?
Com 31 anos, o enólogo da Agromariensecoop licenciado em Bioquímica e mestre em Viticultura e Enologia pela Universidade de Évora, fez também uma pós-graduação em Segurança Alimentar na sua Faculdade de Medicina Veterinária para complementar as áreas de viticultura e enologia. Fez vários estágios de vindima, onde passou pela Herdade das Mouras, Casa Relvas, Dona Maria e Fundação Abreu Calado, onde se iniciou como enólogo residente antes de se mudar para a Herdade da Comporta, onde trabalhou três anos antes de surgir o desafio do projecto das vinhas e vinhos de Santa Maria, que quis abraçar. Diz que decidiu mudar, porque achou que estava com a idade certa para abraçar o desafio de produzir vinhos atlânticos, que sempre tinha tido vontade de fazer e porque a vitivinicultura da Ilha de Santa Maria era um “diamante em bruto” que podia moldar à sua maneira.
Novo roteiro de enoturismo
Para já, o enólogo, tem usado os seus conhecimentos de viticultura e enologia para produzir vinhos com qualidade, distintos, a expressar não só as características das ilhas, mas também um terroir que é realmente único, por incluir uma paisagem moldada por mãos humanas ao longo de séculos, nas encostas da ilha de Santa Maria. Pelo menos pela mostra dos vinhos lançados quando lá estive, durante uma festa que decorreu na presença do secretário Regional da Agricultura dos Açores, António Ventura e de algumas dezenas de pessoas mais, envolvidos no projeto, ou não, no Ponta Negra, o único restaurante da Baía de S. Lourenço, uma daquelas onde o património vitícola já se encontra em franca recuperação, em conjunto com a da Maia.
A Ilha de Santa Maria produz sobretudo bovinos de carne para venda em vivo ou em carcaça, tem a sua produção de mel certificada, tal como a sua meloa e um queijo de ovelha de pasta semimole que vale mesmo a pena experimentar. Bom peixe, restaurantes que sabem preparar comida bem cozinhada, e para todas as carteiras, diversos caminhos pedestres marcados para quem gosta de caminhar são algumas das ofertas de uma ilha que prepara agora a sua oferta de enoturismo, já que o futuro está já ali, a acrescentar às rotas de natureza de terra e mar já existentes, que incluem a observação de cetáceos e jamantas, entre outros.
“Estamos a desenvolver, já para este verão, um projecto de roteiro turístico que irá envolver as empresas locais que desenvolvem este tipo de ofertas, com visita à adega e prova de vinhos e uma pequena prova complementar de enchidos e queijos da ilha de Santa Maria”, conta Duarte Moreira. Uma primeira rota, ainda em projecto para ser concretizado, deverá contribuir para aumentar o afluxo de turistas a Santa Maria e juntar o útil, a produção de vinhos de qualidade, para assegurar o pagamento das uvas aos agricultores e remunerá-los da forma adequada, ao agradável que é o aumento de receitas da ilha, com a futura venda dos seus vinhos, também nos mercados externos, e do aumento das receitas com os turistas que irão, a partir de agora, visitar também a ilha motivados pelo seu património vitícola e pela qualidade dos seus vinhos.
(Artigo publicado na edição de Julho de 2024)
Adega Mayor: Do avô Rui à neta Rita

Quando se troca correspondência com alguém da Adega Mayor (e presumo que em todo o Grupo Nabeiro seja igual), recebemos sempre um mail de resposta e onde se lê no fim: Obrigado Sr. Rui, em letras grandes e negras para que não restem dúvidas de quem foi e continua a ser o inspirador do projecto. […]
Quando se troca correspondência com alguém da Adega Mayor (e presumo que em todo o Grupo Nabeiro seja igual), recebemos sempre um mail de resposta e onde se lê no fim: Obrigado Sr. Rui, em letras grandes e negras para que não restem dúvidas de quem foi e continua a ser o inspirador do projecto. Rui Nabeiro, que faleceu em 2023, foi a figura tutelar que sempre se notabilizou pela forma, muito especial, diga-se, como conduziu os negócios e como se relacionava com todos os trabalhadores, sempre de sorriso na cara. Conta-se que, quando tinha de vir a Lisboa de carro, nunca usava a auto-estrada, preferindo vir por estradas secundárias onde podia ir parando para falar com os seus clientes. A empresa editou mesmo um pequeno livro onde se lêem frases habitualmente ditas pelo Comendador e que nos ensinam que a vida é bem mais fácil de levar e mais agradável se formos generosos, simpáticos e amigos dos que connosco colaboram. Com demasiada frequência somos confrontados com gente que, como se conclui rapidamente, não leu, não sabe da existência e não está interessada na forma como Rui Nabeiro conduziu a vida e chegou a rico. É pena…
A Adega Mayor é um projecto de viticultura e enologia integrado no Grupo Nabeiro. Os vinhos geraram, em 2023, um volume de negócios de 7,39 milhões de euros, mas esse valor apenas representa uma pequena percentagem dos 500 milhões de facturação do grupo Nabeiro, no mesmo período. O vinho é, assim, um complemento pequeno de um projecto enorme que também inclui negócios na distribuição e imobiliário, entre outros.
A produção de vinhos iniciou-se antes da adega estar concluída e Paulo Laureano foi o primeiro enólogo responsável. As primeiras marcas a surgir foram Monte Mayor e Reserva do Comendador, em 2002. Hoje a Adega, dirigida por Rita Nabeiro (neta do fundador) tem 10 marcas no mercado, algumas delas com vários vinhos sob o mesmo chapéu, como é o caso dos monocasta. Um breve passeio pelas vinhas permitiu perceber a filosofia que está subjacente à faina vitícola. Francisco Pessoa dirige a equipa do campo e enquadra todo o trabalho agrícola numa visão de respeito pelo ambiente, pelos solos e pelo equilíbrio que é pretendido numa perspectiva de sustentabilidade. O caminho para uma certificação bio não é fácil e a própria vinha tem de se ir adaptando. E, neste processo, umas castas reagem melhor que outras. Por exemplo, foi uma luta tentar “domar” a casta Galego Dourado, muito famosa na região de Carcavelos e já utilizada em algumas outras regiões (como Setúbal, por exemplo). Francisco Pessoa confessa que, ao fim de alguns anos, conseguiram “finalmente perceber a casta e rentabilizá-la do ponto de vista enológico; mas foi uma luta!” Está a ser feita a zonagem e, em algumas parcelas, esse trabalho já está terminado, o que permite conhecer melhor a interacção casta/solo. A vinha, como se sabe, é empresa a céu aberto e as possibilidades do ciclo vegetativo correr mal são enormes, a começar nas doenças, as clássicas míldio e oídio, os insectos (cicadela, cochonilha) e as doenças do lenho, as que muitas dores de cabeça trazem aos lavradores e para as quais os argumentos de luta são fracos, como é o caso da esca (uma doença que ataca a cepa).

Castas muito diversas
A vinha tem rega instalada, um instrumento que pode ser fundamental em épocas de alterações climáticas. Tudo se complica mais quando o objectivo é apontar para uma certificação bio, mas, o que tem acontecido de positivo, é que as próprias empresas de produtos para a agricultura estão a trabalhar em alternativas aos clássicos insecticidas e é provável que, a médio prazo, seja possível uma viticultura mais amiga do ambiente e eficaz. Desde 2015 que o Grupo Nabeiro integra o Programa de Sustentabilidade dos Vinhos do Alentejo e o tema é aqui levado muito a sério, com todos os resíduos da empresa a serem preparados para futura reciclagem ou transporte para fora da quinta por empresa certificada.
As dúvidas neste momento já não existem. Por aqui as fichas todas estão colocadas no Arinto e Verdelho nos brancos e na Touriga Nacional e Alicante Bouschet nos tintos. Mas há outras que se portam bem, como a Syrah (o factor da consistência de produção e qualidade é também aqui referido), mas também a Touriga Franca e a Petit Syrah, uma variedade que está aqui desde o início do projecto.
Menos surpreendente é ouvir dizer que a Trincadeira é uma casta muito caprichosa, uma opinião que percorre quase toda a região, capaz do melhor e do pior, dependente do clima, da rega, da gestão da canópia. Não é para a amadores, está bom de ver. O que é bom de ouvir é a afirmação de Rita Nabeiro que “vamos voltar em força à casta Castelão; para já temos quatro hectares, mas vamos aumentar a área, até porque ela gera vinhos que se enquadram melhor no panorama actual, que pede vinhos mais leves e menos concentrados; ora a Castelão tem isso tudo”.
Jogando com um conjunto de castas muito alargado, a colecção dos vinhos varietais vai estar sujeita à qualidade dos vinhos, colheita após colheita. Por aqui o que não faltam são castas que poderão originar vinhos varietais: Touriga Nacional, Verdelho, Pinot Noir, Viognier, Trincadeira, Alfrocheiro, Sangiovese, Viosinho, Gouveio, Moscatel Galego Roxo, Merlot e Arinto, a que há a acrescentar a Syrah, Petit Syrah, Aragonez, Castelão, Roupeiro, Antão Vaz, Sercial, Alvarinho, Cabernet Sauvignon, Pinot Gris e Alicante Bouschet.
Na adega há projectos que poderão um dia ser concretizados, como os vinhos de talha, mas “a sério”, como salienta o enólogo Carlos Rodrigues.
De Campo Maior à Serra de São Mamede
A adega, localizada numa zona plana, pontilhada por leves ondulações de terreno, está rodeada de vinhas, com uma grande diversidade de solos. O tempo que levam de trabalho no campo, foi permitindo perceber melhor o comportamento das castas, a sua melhor localização e a adaptação a uma agricultura que se encaminha para uma certificação biológica que, como nos informaram, é um objectivo para se concluir em 2026. Entre vinhas próprias em diferentes herdades e parcelas arrendadas falamos, então, de 120 ha de vinhas em produção. Em Portalegre, na serra de São Mamede, adquirem-se uvas a produtores locais.
Na adega há projectos que poderão um dia ser concretizados, como os vinhos de talha, mas “a sério” como nos referem os dois enólogos que tomam conta da adega, Carlos Rodrigues e Soraya De La Flor, espanhola que vem da vizinha Badajoz para aqui trabalhar. A capacidade instalada é de cerca de 310.000 litros de branco e rosé e podem vinificar 160 toneladas de uvas tintas de cada vez. No ano de 2023 a produção total aproximou-se dos 850.000 litros em todas as gamas. Como as tais talhas “a sério” ainda não estão por cá, a vinificação segue os parâmetros normais entre inox e estágio em barrica. O parque de barricas atinge as 650, mantendo-se este número estável, entre compra de novas e a saída das barricas mais velhas.
As vinhas da serra de São Mamede estão na base dos vinhos da marca Altitude. Beneficiando de um clima próprio, mais fresco, e com o privilégio de trabalhar com inúmeras castas nas vinhas velhas, os vinhos são por isso bem diferentes dos que se produzem em Campo Maior. Não necessariamente melhores, mas seguramente mais personalizados e mais originais. Desta forma, a regra por aqui parece mesmo ser o não haver regas fixas e “vamos acompanhando as vinhas e os vinhos e decidimos depois, conforme a qualidade; uns vão para lotes e outros poderão originar vinhos varietais”, como nos disse Rita Nabeiro.
É também essa ideia de inovação que levou à criação da colecção Esquissos (que outros poderiam chamar Ensaios ou Projectos por serem vinhos de ensaio e experimentação), que incorporará vinhos considerados fora da produção normal da casa. Neste caso foi um palhete ou, como diria o actor António Silva no filme O Páteo das Cantigas, “um tinto apalhetado” que junta 30% de uva branca à restante uva tinta, com castas misturadas e, daí, o designativo, bem divertido, de se apelidar Tudo ao Molho. Para os próximos Esquissos já há candidatos e vamos esperar sempre algo surpreendente.
Vinho, azeite e turismo
A gama Maestro apenas se produz em magnum. Diz-nos Rita que “aqui estamos a falar em vinhos monocasta que exprimem o melhor que por aqui se faz, sempre num registo de alta qualidade”. Esta série começou por ser editada em 2020 e as castas escolhidas desde então foram a Galego Dourado, Petit Verdot, Chardonnay, Encruzado e a Rabigato, sempre com um PVP de €70. No mercado está agora o vinho feito com Rabigato, mas tivemos oportunidade de provar também o Encruzado que, apesar de estar já em ruptura de stock, se mostrou de altíssimo gabarito, revelando toda a capacidade da casta para gerar vinhos de grande intensidade gastronómica, o que foi amplamente comprovado.
O portefólio está assim muito alargado, com algumas marcas eliminadas (Solista) e outras que têm vindo a surgir. Da entrada de gama – Caiado – até ao topo – Adega Mayor Pai Chão, o leque é imenso e está à disposição dos visitantes na loja da adega. Além do vinho, o azeite é parte importante da oferta mas o peso do enoturismo ainda poderá crescer: 7000 foi o número de visitantes em 2023.
Com 91% das vendas na restauração e um preço médio de €6 por garrafa, a Adega Mayor também aposta na exportação, sobretudo nos quatro mercados preferenciais: Angola, Luxemburgo, Brasil e Dinamarca.
Em Campo Maior, a herança e o projecto idealizado por Rui Nabeiro está em boas mãos. No ar não há “cheirinho” a café, mas o ambiente está por aqui muito bem preservado: cheira a campo, a ervas, a terra e a flores. Não precisamos de mais.
(Artigo publicado na edição de Julho de 2024)
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Adega Mayor Maestro
Branco - 2021 -
Adega Mayor Altitude Reserva do Comendador
Tinto - 2021 -
Adega Mayor Altitude Reserva do Comendador
Branco - 2022 -
Adega Mayor Bio Selecção
Tinto - 2021 -
Adega Mayor Bio Selecção
Rosé - 2022 -
Adega Mayor
Tinto - 2020 -
Adega Mayor Esquissos Tudo ao Molho
N/a - 2021 -
Adega Mayor
Tinto - 2011 -
Adega Mayor
Tinto - 2020 -
Adega Mayor
Tinto - 2021 -
Adega Mayor
Branco - 2022 -
Adega Mayor
Branco - 2022 -
Adega Mayor
Branco - 2022
Geórgia: Onde tudo começou

Parece que os primeiros viticultores no nosso planeta eram os povos que habitavam o território da Geórgia há mais de 8000 anos. Durante diferentes escavações arqueológicas foram descobertas as sementes fossilizadas de videira e os fragmentos de vasos de barro com sedimento (sais) de ácido tartárico que remontam à era neolítica. As evidências arqueológicas sugerem […]
Parece que os primeiros viticultores no nosso planeta eram os povos que habitavam o território da Geórgia há mais de 8000 anos. Durante diferentes escavações arqueológicas foram descobertas as sementes fossilizadas de videira e os fragmentos de vasos de barro com sedimento (sais) de ácido tartárico que remontam à era neolítica. As evidências arqueológicas sugerem que as práticas de vinificação naquela região datam de 6000 a.C., ou seja, 3000 anos antes da invenção da escrita e 5000 anos antes do início da Idade do Ferro. As palavras ocidentais como “vinho”, “vino”, “vin” e outras, muito provavelmente provêm da palavra Geórgiana “ghvino”.
Em termos vitivinícolas Geórgia é um paradoxo. Por um lado, alega ser um “berço” de vitivinicultura na face da terra, por outro, é um player muito recente no âmbito mundial vínico. O seu principal mercado até há bem pouco tempo era a Rússia, para onde ainda em 2021 se exportava mais de metade de vinhos georgianos (Comtrade, Geostat). Eram de qualidade medíocre, com bastante açúcar – um tributo ao gosto do consumidor da União Soviética. Os hoje famosos vinhos feitos em qvevri – ânforas de barro – não eram conhecidos naqueles tempos. E mesmo actualmente, o vinho que representa o grande orgulho e identidade da indústria vitivinícola georgiana, corresponde apenas a 10% de produção nacional. É um nicho de inestimável importância, que trouxe uma grande projecção internacional aos vinhos georgianos, para além das descobertas arqueológicas, implementação de denominações de origem, regulamentos e controlo interno, bem conseguidos acordos internacionais, investimentos oportunos, e uma inteligente campanhia de marketing junto dos mercados estratégicos.
A geografia, o clima e as principais regiões
Situada entre Europa, Ásia e Médio Oriente, a Geórgia é ladeada pela Turquia, Arménia e Azerbaijão a sul. A norte, as montanhas do Cáucaso fazem fronteira com a Rússia, oferecendo protecção natural dos ventos frios, enquanto as planícies costeiras a oeste são abertas aos movimentos do ar húmido e quente do Mar Negro. O clima da Geórgia é diversificado, devido à sua topografia complexa. Na parte leste é seco e continental, com verões quentes e invernos amenos; a humidade e a precipitação são baixas, e a nebulosidade e as amplitudes térmicas são grandes. No oeste, o país possui um clima subtropical húmido, com pequena variação de temperaturas e precipitação alta.
A região vitivinícola mais importante da Geórgia, em termos quantitativos, qualitativos e históricos é Kakheti, na parte mais oriental do país, onde são cultivadas aproximadamente 65-70% de vinhas, situadas entre 400 e 700 metros de altitude. Em 2023, das 221 mil toneladas de uva processada em todo o país, 204 mil toneladas foram da região de Kakheti.
Imereti é uma das regiões mais diversificadas da Geórgia, quer pelas condições climáticas, quer pela composição do solo, o que se reflecte na grande variedade dos vinhos. Kartli é mais uma região vinícola notável, conhecida pelo seu estilo mais moderno e pelos espumantes de alta qualidade. Racha-Lechkhumi distingue-se de outras regiões pela sua beleza paisagística e escassez de vinhas (cerca de 1600 ha), devido ao clima mais agreste, associado a maior altitude, e castas raras. Meskheti, no sul do país, é uma das regiões vitivinícolas mais altas no mundo: as vinhas encontram-se a 900-1700 metros acima do nível do mar. Outras quatro regiões situadas ao longo do Mar Negro – Guria, Samegrelo, Abkhazeti e Adjaria – partilham um clima húmido tropical.

Castas autóctones
De acordo com o Cadastro de Vinhas da Geórgia, a área de vinha compreende 48.700 hectares. Embora a Geórgia tenha mais de 500 castas indígenas, apenas quatro dezenas são utilizadas com sucesso comercial e só algumas delas são conhecidas fora do país. A maioria dos vinhos exportados trazem nos rótulos nomes Saperavi, Rkatsiteli, Mtsvane, Kisi e pouco mais. Algumas castas internacionais também são cultivadas no país.
Saperavi é casta tinta muito antiga e mais identitária da Geórgia, responsável por 10% de plantações (cerca de 4.000 ha) e disseminada por todas as regiões. É uma casta tintureira, cujo nome significa “tingir”, “manchar”, com todas as características em alta – cor, tanino e acidez. É capaz de produzir boa qualidade mesmo quando o rendimento é alto, sendo usada desde os vinhos de entrada até os exemplos mais expressivos, cheios de carácter e com potencial de guarda.
Rkatsiteli é a casta branca nativa de Kakheti, que predomina nas plantações do país, com 43% (cerca de 20.000 ha). Sendo pouco exigente em termos de local, é amiga do viticultor. Mesmo quando chega ao teor de açúcar elevado, consegue preservar a acidez. Quando vinificada no estilo moderno (internamente chamado de “europeu”), a Rkatsiteli oferece aromas florais subtis com notas cítrinas, marmelo e maçã. Se vinificado em qvevri, o vinho mostra-se mais poderoso, moderadamente tânico, com acidez nítida. No estágio oxidativo desenvolve aromas de mel, casca de laranja seca, especiarias, damasco e outras frutas de caroço.
Mtsvane Kakhuri é outra variedade muito antiga, significa “Kakheti verde” e é comummente referida apenas como “Mtsvane” (não confundir com Goruli Mtsvane). Facilmente acumula açúcar, mantendo elevados níveis de acidez. Daí a sua capacidade de produzir vinhos doces e fortificados. Quando vinificado num estilo convencional, o vinho branco jovem apresenta frequentemente um tom palha esverdeado e transmite aromas frescos de pêssego, florais, cítrinos e tropicais, com leve tom mineral. Fica bastante escuro e apresenta mais carácter de damasco e frutas de caroço quando vinificada em qvevri. Oxida com facilidade e, a menos que seja vinificada em qvevri, requer um manuseamento com protecção do oxigénio. Alternativamente, pode ser loteada com outras castas.
A casta Khikhvi foi salva de extinção. Em 2004 havia apenas um único hectare desta variedade registado em todo o país. As plantações aumentaram consideravelmente desde meados da década de 2010 e a casta está a ganhar popularidade entre os produtores e os consumidores. A sua assinatura aromática é distinta: notas florais de buxo e flores silvestres, frutos amarelos maduros e damasco. Os vinhos são produzidos de acordo com técnicas europeias e em qvevri. Nestes últimos acentua-se o carácter de frutos secos e flores. Com níveis moderados de álcool e acidez suave, Khikhvi pode ser interessante também em lotes.
A Vaziani
A Vaziani, localizada em Kakheti, foi fundada em 1982. O ponto de viragem foi em 2012, com investimento em modernização da adega e aquisição das vinhas próprias. A gama de vinhos feitos em qvevri sai sob o nome Makashvili Wine Cellar, relacionada com a propriedade Makashvili datada do século XV. Os vinhos são importados e destribuidos em Portugal pela Atlantikdynamic, que já há muitos anos distribui vinhos da Moldova no nosso país.

O famoso Qvevri
Qvevri é o nome mais popularmente conhecido. Mas existem muitos outros nomes dados aos recipientes de barro para armazenamento de vinho, em função dos tamanhos e formas diferentes: churi, dergi, lagvini, lagvani, lagvinari, kvibari, kubari, lakhuti, chasavali, khalani e kotso.
A forma de qvevri Georgiano que existe hoje remonta ao III milénio a.C. Antes deste período, eram comuns principalmente os pequenos qvevris, de 1-1,5 m de altura, que tinham uma base plana e uma barriga larga. Qvevri em forma de ovo é actualmente o mais comum.
A capacidade varia de algumas centenas de quilos de uva a várias toneladas, sendo a capacidade mais comum de uma a duas toneladas. A região Kakheti distingue-se pelos grandes qvevris, com seis a oito mil litros.
O qvevri fica enterrado no solo, o que garante uma temperatura ideal e estável para o envelhecimento e armazenamento do vinho. No século III a.C., os produtores começaram a enterrá-los na terra, primeiro até aos ombros, e por volta do século quarto d.C., até ao pescoço.
A qualidade do vinho feito em qvevri é altamente influenciada pela qualidade da sua limpeza, que deve ser feita todos os anos. O recipiente é lavado com limpadores de ervas e água e depois desinfectado com enxofre. A superfície interna às vezes é forrada com cera de abelha e a superfície externa é tradicionalmente coberta com cal. Em 2013, a UNESCO introduziu o Tradicional Método de Vinificação em Qvevri na lista de Património Cultural Imaterial da Humanidade.
O vinho feito em qvevri envolve geralmente a vinificação e o estágio com certa quantidade de películas e engaço, chamado “chacha” (o mesmo nome também é dado a uma aguardente bagaceira, tradicional na Geórgia). A quantidade de bagaço e o tempo de estágio têm uma variação regional. Por exemplo, na região de Kakheti usa-se chacha na totalidade, enquanto na região de Imereti corresponde no máximo a um terço de mosto em qvevri. A casta, a duração da fermentação alcoólica, as condições ambientais, etc., são factores que determinam o período que o mosto permanece com chacha. A duração do vinho tinto em qvevri pode ser igual ao período de fermentação alcoólica, ou de sete a 10 dias, ou ser prolongada até duas semanas depois da fermentação. No caso das uvas brancas, o vinho é guardado com a chacha até a primavera.
Os vinhos georgianos feitos em qvevri precisam de conversa. Talvez não seja por acaso que existem os famosos longos brindes georgianos que permitem aos vinhos, sobretudo brancos, abrir no copo. A temperatura de consumo destes vinhos ronda os 14 e os 18˚C, também para desfrutá-los na sua plenitude.
(Artigo publicado na edição de Junho de 2024)
Adega de Redondo – Esclarecimento

“Na edição de abril da revista Grandes Escolhas foi apresentada uma reportagem efetuada na Adega de Redondo, sob o título ‘Aqui nasce o Porta da Ravessa’ onde, além de provados vários vinhos, foram comentados diversos temas desta que é uma das mais antigas adegas cooperativas do Alentejo. Ao ler a reportagem publicada, deparei-me com um […]
“Na edição de abril da revista Grandes Escolhas foi apresentada uma reportagem efetuada na Adega de Redondo, sob o título ‘Aqui nasce o Porta da Ravessa’ onde, além de provados vários vinhos, foram comentados diversos temas desta que é uma das mais antigas adegas cooperativas do Alentejo. Ao ler a reportagem publicada, deparei-me com um excerto de uma frase minha que, da forma como foi publicada ou lida fora de todo o contexto, pode levar a uma interpretação errada das palavras utilizadas, situação que me levou a pedir junto da revista uma retificação ao artigo. Nesse artigo, João Paulo Martins faz um enquadramento da Adega de Redondo que se rege pelo Código Cooperativo, que determina que, em Assembleia Geral, cada associado representa um voto, independentemente da área de vinha que tem na sua exploração. Refere ainda que, atendendo a que na Adega Cooperativa de Redondo cerca de 20 associados entregam 70% de toda a produção e que alguns têm perto de 100 ha de vinhas, poder-se-ia considerar que há alguma injustiça nesta regra, indicando que eu concordava afirmando ‘não está certo, mas é algo que não podemos mudar’.
De forma a que não haja nenhum mal entendido, é importante referir que o contexto apresentado, quando se falou na questão dos associados, foi especificamente no caso em que se estivéssemos a analisar ou a comparar com uma empresa comercial privada. Numa ótica empresarial não estaria certo, pois nestas empresas os poderes de decisão, ou de voto, são de acordo com as quotas de cada um, mas sendo uma adega cooperativa e que se rege pelo código cooperativo, nada podemos alterar. É assim que funciona e quem se propõe para associado de uma adega cooperativa já sabe que, independentemente da sua área de vinha, apenas tem direito a um voto.
Não nos podemos esquecer do importante papel que as adegas cooperativas tiveram, e ainda têm, no sector vitivinícola não só no Alentejo, onde conta com cinco adegas cooperativas em atividade, como em todo o país. Convém também recordar o não menos importante papel económico e social nas regiões onde as adegas cooperativas se encontram, com os diversos postos de trabalho gerados, quer de forma direta, quer indireta. O associativismo, que muito valorizo, através das adegas cooperativas, é a forma de muitos viticultores poderem estar presentes num sector cada vez mais competitivo, em que, por vezes, parece continuar a existir algum estigma das adegas cooperativas razão pela qual, da forma como o excerto da frase publicada, poderia levar a interpretações contrárias àquilo que defendo e que foi comentado.” Nuno Pinheiro de Almeida
Vidigal Wines: Quando a sorte bate à Porta 6

Quem conhece Manuel Bio, CEO do grupo Abegoaria (na fotografia de abertura), já percebeu que é feliz a fazer negócios, quer seja vender ou comprar, de pequena ou grande escala. Com olho para potencial e oportunidades, grande visão estratégica e racionalidade financeira, já salvou empresas da falência e, até hoje, expandiu a Abegoaria às regiões […]
Quem conhece Manuel Bio, CEO do grupo Abegoaria (na fotografia de abertura), já percebeu que é feliz a fazer negócios, quer seja vender ou comprar, de pequena ou grande escala. Com olho para potencial e oportunidades, grande visão estratégica e racionalidade financeira, já salvou empresas da falência e, até hoje, expandiu a Abegoaria às regiões do Alentejo, Douro, Lisboa, Tejo, Dão e Vinhos Verdes, conquistando as casas dos consumidores portugueses com vinhos de enorme sucesso, sobretudo nos supermercados. A ambição, contudo, é também internacional, e, para isso, a Abegoaria concretizou recentemente um dos seus projectos mais arrojados, com a compra da totalidade da Vidigal Wines — sediada em Cortes, Leiria — que antes pertencia a António Mendes Lopes e a capital norueguês. A Vidigal tem origem ainda no início do século XX, numa quinta fundada por um cónego e, no início dos anos 90, alguns proprietários depois, passa para as mãos de António Mendes Lopes que, conjugando as suas vivências no estrangeiro com bastante criatividade e uma (boa) dose de loucura, levou a Vidigal Wines a ser uma das empresas de vinho portuguesas com mais sucesso na exportação, apoiada no fenómeno Porta 6, com milhões de garrafas vendidas lá fora, números que nunca pararam de crescer. A marca nasceu em 2012 e, neste momento, é o tinto português que mais vende fora de Portugal, e o segundo vinho europeu mais vendido no mercado inglês, com quase 5 milhões de garrafas comercializadas no Reino Unido. A seguir, vêm os mercados do Brasil, Israel e Canadá. A produção total anual do Porta 6 tinto supera os 8 milhões de garrafas. António Mendes Lopes não tinha, no entanto, intenções de continuar ligado à empresa após a aquisição, mas acabou por ficar como consultor, “porque o convenceram de que ali fazia falta”. Manuel Bio, e a restante equipa administrativa do grupo, conheceram António em pleno início de pandemia de Covid-19, com as primeiras conversas sobre um possível negócio em 2020. A concretização do acordo deu-se em 2022, mas em 2021 estava tudo quase fechado, e já trabalhavam em algumas coisas em conjunto.
Porta 6 é o tinto português que mais vende fora de portugal. E segundo vinho europeu mais vendido no mercado inglês, com quase 5 milhões de garrafas comercializadas no Reino Unido.
“Para nós era talvez a única empresa que, nesta fase mais recente, ‘jogava’ connosco, porque éramos muito fortes no mercado interno, com uma posição bastante privilegiada na grande distribuição e consumo em casa. Estávamos a começar a olhar para o consumo fora de casa e a desenhar uma divisão de ‘fine wines’, mas ainda não era estratégia para o grupo, queríamos fazê-lo com tempo. Estávamos a tentar a exportação, sendo que começar na exportação com vinhos portugueses é difícil e o sucesso demora a chegar. Surgiu assim esta empresa, que não tinha nada do que nós tínhamos, e tinha tudo o que estávamos à procura. No fundo, a Vidigal veio antecipar 10 anos a nossa estratégia de exportação. É um grande investimento, mas ganhámos 10 anos lá fora, e também alguns vinhos muito interessantes para o consumo fora de casa e para a tal divisão ‘fine wines’, como o Brutalis”, explica Manuel Bio. Luís Bio, director de internacionalização da Abegoaria, acrescenta, “podemo-nos orgulhar, como grupo, de sermos hoje praticamente nº1 em off trade (supermercados); nº1 em Inglaterra, também nos supermercados; top 5 no Brasil; nº1 em Israel… ou seja, conseguimos consolidar nesta aquisição uma “value story” e um vinho como o Porta 6, que faz com que, hoje, sejamos produtores de dois terços do vinho português vendido nos supermercados em Inglaterra”. António Mendes Lopes interrompe: “Não é o vinho Porta 6, é a marca”. E continua, explicando que “o Porta 6 é todo imagem. O vinho é bom, mas isso não chega. O Porta 6 tem de ser como é porque a imagem está na cabeça das pessoas, é muito mais do que a qualidade do vinho.
O ex-proprietário da Vidigal Wines, que sempre defendeu aquilo a que chama um modelo horizontal de trabalho, acredita que é esta a fórmula que serve uma marca. “Cada um faz o seu papel e as pessoas não sabem nem se metem no dos outros. Porque temos de perceber que as pessoas não fazem bem tudo, nem é possível que assim seja. Há um enólogo melhor para transformar as uvas em vinho, outro melhor para finalizar o vinho e os lotes… Eu deito-me a pensar num rótulo e numa marca, no final de uma viagem tenho um texto feito… não me tirem isto, que é o que eu gosto de fazer! Mas não me falem em uvas e vinhas, porque eu não gosto. Só gosto de uvas quando já estão no tegão”, exemplifica António Mendes Lopes, convicto de que “é preciso cercarmo-nos de pessoas teimosas e criativas, pessoas capazes de dizer ‘não’ na nossa cara. Pessoas que conseguem pensar juntas. A inteligência colectiva funciona”, remata. Neste sentido, criou um departamento chamado Brand Defender, onde os accionistas não participam, para defesa das marcas e da qualidade das mesmas. “Quem tiver interesse em poupar, e não em gastar, não pode entrar neste departamento”, sublinha António Mendes Lopes, que advoga não haver ciência exacta para o sucesso, mas acredita em alguns princípios: “Começa-se por fazer as coisas com qualidade e por manter qualidade e o estilo teimosamente, aconteça o que acontecer. Não se pode comprometer a qualidade ou o estilo. E depois espera-se… espera-se que a sorte chegue. Por definição, a sorte não pode ser planeada. É por isso que se chama sorte”. E por falar em estilo, insere-se aqui uma das componentes mais importantes da marca Porta 6, a imagem. O rótulo icónico é a reprodução de uma pintura que estava a ser vendida a turistas nas ruas de Lisboa pelo próprio autor, o artista alemão Hauke Vagt, que residia no bairro de Alfama, perto do castelo de São Jorge. A pintura do famoso eléctrico amarelo chegou às mãos de António Mendes Lopes, que decidiu negociar com o autor e fazer dela o rótulo do Porta 6. “Qualquer pessoa poderia ter comprado aquela pintura e transformá-la num rótulo, mas fomos nós que o fizemos”, afirma, também numa alusão à sorte de que tanto fala.
Os enólogos António Ventura, Rafael Neuparth (à esquerda) e Arnaldo Simões (último à direita) com Luís Bio, Manuel Bio e António Mendes Lopes.
Já António Ventura e Rafael Neuparth são os enólogos responsáveis pelos vinhos da Vidigal Wines, e Arnaldo Simões dedica-se à finalização dos lotes, estando residente na empresa. Como se faz um vinho de 8 milhões de garrafas, como o Porta 6 tinto, mantendo a qualidade e consistência? Perguntamos. “Acabou por ser fácil, porque tudo isto foi crescendo ano após ano, não começámos com 8 milhões, foi mais com duas paletes…”, diz António Ventura, entre risos. O que mudou tudo foi, na verdade, o “momento James Martin”, o chef-celebridade inglês que se lembrou de afirmar, no programa BBC Saturday Kitchen, que o Porta 6 era um dos melhores tintos que tinha provado em dez anos. Nessa altura, a única distribuidora da marca no Reino Unido era a Majestic que, depois do programa ir para o ar, viu o seu site “ir abaixo” com tanta solicitação. “Foi aqui que a sorte nos bateu à porta. Coube-nos recebê-la, acarinhá-la e trabalhar com ela”, lembra António Mendes Lopes. Nessa altura, foi difícil ter vinho para tanta procura, e um incremento revelou-se obrigatório. “Estavam a pedir-nos dez contentores, e tivemos de fazer esse trabalho. No ano seguinte já estávamos preparados. Nesse ano não tínhamos vinificação, o vinho era adquirido a terceiros, mas em 2014 nasce a adega das Encostas do Atlântico [empresa junto a Caldas da Rainha que é 70% da Vidigal Wines e que detém também as vinhas do projecto] e passámos a ter a nossa vinificação, o que nos facilitou muito e nos permitiu criar volume com qualidade. Temos uma equipa de enologia lá, liderada pelo Mauro Azóia, e outra na Vidigal, onde se faz apenas a finalização, mas cruzamos muito a informação e estamos sempre a provar juntos”, desvenda António Ventura. A Vidigal Wines explora, através da Encostas do Atlântico, cerca de 350 hectares de vinha, que se situam maioritariamente nas regiões de Alenquer e das Caldas da Rainha.
Para algo completamente diferente…
Embora o porta-bandeira da empresa (passe-se a expressão) seja o Porta 6, há outro elemento no portefólio com conceito e posicionamento totalmente distintos, o topo de gama Brutalis. Fazendo jus ao nome, é um tinto de potência, desaconselhado aos fracos de coração (ou, por outra perspectiva, talvez funcione como desfibrilhador), com Alicante Bouschet na base do lote e 20% de Cabernet Sauvignon. António Mendes Lopes, que viveu na Dinamarca, chamou Brutalis ao vinho inspirando-se num rinoceronte com o mesmo nome, que se encontrava num jardim zoológico daquele país. “Era meio louco, levava tudo à frente”, descreve. Mesmo os mercados mais fortes para o Brutalis são, na sua maioria, completamente diferentes dos do Porta 6, passando sobretudo por Portugal, Alemanha, Brasil, China e Macau. Uma prova vertical de oito colheitas deste tinto, do mais antigo para o que está actualmente no mercado, revelou algumas surpresas, com algumas edições a chocar pela juventude e vivacidade, e outras até mais elegantes, que resultaram um pouco menos “Brutalis” do que a equipa da Vidigal pretendia. O primeiro, de 2005 (ainda Regional Estremadura), foi o único feito com uvas da Quinta da Cortesia, na Merceana, mas rapidamente se percebeu que não era a vinha ideal para o perfil que se procurava. Apresenta um perfume exótico de fruta negra, especiarias, sândalo e cera de abelha. Na boca é mais leve do que se esperava, bem vegetal e maduro na fruta, chão de bosque e leve balsâmico no final (16,5 valores).
A partir do 2008 e até ao 2013, entram as uvas da “vinha do cemitério” (precisamente por ser perto de um), também na zona da Merceana. O 2008 foi uma das surpresas positivas, bastante vivo no nariz de fruta silvestre madura, muita pimenta branca, um leve lado resinoso, e outro mais lácteo e fumado. Na boca tem o tanino ainda aguerrido, muito novo, quase infante. Agradavelmente adstringente, largo e longo (17,5). O 2009 entra no mesmo registo do anterior mas mais vegetal, com uma gordura fumada bem presente. Na boca é um pouco mais magro, choveu cedo nesse ano e António Ventura diz ser a causa (17). O 2012 é, curiosamente, talvez o menos Brutalis de todos mas o que mais impressiona ao nível da qualidade absoluta. Nariz muito elegante e fino no perfume, onde balsâmicos encontram chão de bosque, eucalipto, mirtilo e arando. Na boca é vivo no lado especiado e balsâmico, potente e com muito carácter mas extremamente elegante em simultâneo, longo e sedoso no final (18). Já o 2013 é talvez o mais especiado de todos, com muita pimenta preta, cardamomo, levíssimo açafrão e agulha de pinheiro. Na boca está muito novo, imponente, tanino adstringente e final de potência. Para esperar em garrafa (17). O 2015 muda totalmente de cenário, passando a ter origem numa vinha perto do Cadaval, no lado Norte da Serra de Montejunto. Mais balsâmico no nariz do que os outros, com nota vegetal e bagas silvestres. Na boca tem uma juventude pornográfica, muito intenso e vegetal, tanino bruto e por limar. Longe do momento certo (17,5). No 2017, os balsâmicos juntam-se a fruta silvestre e cera de abelha no aroma. Bem adstringente, mas com volume a suportar, tem a particularidade de fazer sentir o álcool no final um pouco quente e medicinal (17). No mercado está o 2018, que se revela bem diferente das anteriores colheitas, a denotar mais as notas típicas do Cabernet Sauvignon. Ganhou equilíbrio e frescura balsâmica, mantendo a intensidade dos taninos. Promete crescer em garrafa (17,5).
Em apenas três anos, desde a aquisição, a Abegoaria duplicou as vendas globais da Vidigal Wines. “Sempre fomos uma empresa comercialmente muito agressiva, o que ajudou muito a que isso acontecesse. Aproveitámos, claro, o momento óptimo em que a Vidigal estava, sobretudo ao nível do produto e da imagem. Depois, foi abrir os canais, aproveitando clientes que já tínhamos na Abegoaria, nacionais e internacionais, e fazendo o mesmo com os vinhos da Abegoaria nos clientes da Vidigal”, adianta Manuel Bio. Um dos grandes objectivos do grupo é aproveitar as suas valências comerciais no mercado nacional, para levar a marca Porta 6 a ter, em Portugal, o mesmo sucesso que tem no mercado internacional. Para isso, a Abegoaria conta com a sinergia que já tinha com a distribuidora Vinalda, que assumiu a tarefa de trabalhar a marca no canal on trade (a sua especialidade) e continuar a alavancá-la no off trade. A tarefa é difícil, como reconhece Manuel Bio, mas não impossível, e os resultados, atesta, têm sido muito positivos…
(Artigo publicado na edição de Outubro de 2023)