Tão natural como a sua fome

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[vc_row type=”in_container” full_screen_row_position=”middle” scene_position=”center” text_color=”dark” text_align=”left” overlay_strength=”0.3″ shape_divider_position=”bottom”][vc_column column_padding=”no-extra-padding” column_padding_position=”all” background_color_opacity=”1″ background_hover_color_opacity=”1″ column_shadow=”none” column_border_radius=”none” width=”1/1″ tablet_text_alignment=”default” phone_text_alignment=”default” column_border_width=”none” column_border_style=”solid”][vc_column_text]
A moda dos vinhos naturais já chegou a Lisboa e deixou toda a gente de barriga cheia.
TEXTO Ricardo Dias Felner
No dia 20 de Dezembro de 2016, o chef António Galapito provou pela primeira vez uma garrafa de Serragghia Bianco 2013, da Sicília. Era o seu aniversário e desde então ele nunca mais olhou para o vinho da mesma maneira.
Esse momento, uma jornada vínica épica, acabaria por moldar a garrafeira daquele que viria a ser um dos maiores êxitos gastronómicos dos últimos anos, em Lisboa. Mal se estreou, em 2017, o seu restaurante Prado apostou numa carta de vinhos só com pequenos produtores e filosofia de intervenção mínima, a acompanhar a sua cozinha alternativa e ecológica. De então para cá, muita coisa mudou na capital e o Prado ganhou companhia. A cidade confirmou-se como um sítio onde tudo parecia possível, à semelhança de cidades como Paris, Copenhaga e Nova Iorque. E os vinhos naturais apareceram a acompanhar cada vez mais menus — ou o seu contrário. Muitos sommeliers, muitos empregados de mesa, ouviram desaforos de clientes indignados com “o vinho estragado”, mas na maioria dos casos a aposta correu bem.
Da Comida Independente ao Senhor Uva
Alguns dos projectos mais arrojados nasceram em sítios igualmente arrojados. Foi assim que Rita Santos Paul abriu a Comida Independente, em Santos, então uma zona pouco dada à culinária. A loja começou como uma mercearia, com muito do melhor que se faz no país — dos queijos aos enchidos, passando pelo legumes biológicos e pelas conservas —, mas rapidamente se transformou também num palco para vinhos preocupados com a sustentabilidade e para o petisco. Hoje em dia, há charcutaria artesanal, pratos com produtos biológicos a partir das 19 horas, conservas — e é obrigatório provar a famosa sandes de pastrami, feita na casa.
Igualmente periférico relativamente ao eixo Baixa-Chiado-Cais do Sodré é o bar-restaurante Senhor Uva. Situado na Lapa, perto do Jardim da Estrela, nasceu há oito meses e, actualmente, é difícil conseguir mesa, mesmo a meio da semana. A história é de alguma forma reveladora de uma nova imigração lisboeta, qualificada e jovem. Os donos são um casal de canadianos, ela Stephanie Audet, uma chef reconhecida em Montreal, especialista em cozinha vegetariana, ele Marc Davidson, adepto de vinhos naturais, o homem à frente da sala, sempre disponível para abrir qualquer garrafa para servir a copo.
Da cozinha aberta do Senhor Uva saem burratas com pólen de abelha, couves coração grelhadas ou tostas de centeio com puré de cherovia e rabanete fermentado. Da garrafeira, só constam vinhos de naturais, orgânicos ou biodinâmicos, um agradável constrangimento, diz Marc. O facto de Portugal só agora estar a acordar para este tipo de vinhos é um privilégio e uma “sorte”. “Temos acesso a vinhos que desapareceriam num segundo em qualquer outra grande capital, mesmo que ainda haja muito trabalho a ser feito para se conseguir mais produtores”, concretiza Marc.
A lista apresenta muitos dos vinhos portugueses que se repetem em todas as garrafeiras de nível, e os empregados falam de cada produtor como se fosse um amigo lá de casa. Mas são os rótulos estrangeiros a levar os maiores aplausos, como os vinhos de Jean Pierre Robinot, de Alice Bouvot, ambos franceses, ou os da estrela da região italiana de Friuli, Josko Gravner, mago dos chamados vinhos laranja — presença obrigatória em qualquer carta abrangente de vinhos naturais.
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Vinhos por quem sabe deles
Uma das últimas — e mais ambiciosas aberturas — foi o Wines by Heart. O nome, em inglês, situa desde logo o seu posicionamento no mercado e na cidade, estando instalado mesmo em cima da luxuosa e internacional Avenida da Liberdade. Propriedade de brasileiros experientes no sector, com Guilherme Corrêa à cabeça, premiado sommelier brasileiro (Best Brazilian Sommelier 2006 & 2009 ABS/ASI), a loja-restaurante inaugurada em Setembro foi buscar Rodrigo Osório, um chef com experiência Michelin (entre eles o três estrelas Piazza Duomo, em Alba, Itália) para dar sabor à sua garrafeira.
Aqui, não há exclusividade de vinhos naturais, mas 60 referências das 800 inscrevem-se neste conceito restrito e algumas são jóias raras e valiosas, como o Soldera Sangiovese 2013, com preço de 485 euros a garrafa. Outra originalidade é que não é o vinho que é escolhido para a comida, mas mais a comida que é escolhida para o vinho. A missão de Rodrigo “é entregar pratos que sejam ao mesmo tempo incríveis, transparentes na expressão da excelência dos ingredientes, e amigos do vinho”, concretiza Guilherme.
Independente de qual seja o posicionamento em matéria de vinhos de intervenção mínima, o facto é que eles vieram em força. E trouxeram boa comida com eles.
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- Cozinha: Bistrô moderno e criativo.
- Chef: António Galapito.
- Sommelier: Camille Pitchery.
- Lista: 300 referências de vinhos orgânicos, biodinâmicos ou naturais. Uma centena exclusivamente naturais.
- Mais populares: Vinhos laranja e produtores como António Madeira, Vítor Claro e Vasco
Croft. - Mais exclusivos: O Pheasant’s Tears Chinuri, um vinho laranja da Geórgia; e o Chenin de Testalonga, na África do Sul.
- Ticket médio da refeição: €40-€50.
- Preço dos vinhos: Do Casa de Mouraz Loureiro Branco, a €21, ao Serraghia Bianco 2013, a €130.
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- Cozinha: Vegetariana de autor
- Chef: Stephanie Audet
- Prato bandeira: Couve coração grelhada com manteiga de miso
- Responsável pelos vinhos: Marc Davidson
- Lista: 150 referências, 85% completamente naturais e o restante orgânico ou biodinâmico
- Últimas entradas: Os vinhos Furlani, produtor de Trentino-Alto Adige, em Itália, e de Hervé Villemade, em Cellettes, França.
- Ticket médio da refeição: €35
- Preços dos vinhos: Vão desde o Saroto 2018, da Arribas Wines, a €16, ao Gravner Ribolla Anfora 2009, por €95.
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- Cozinha: Tábuas, charcutaria, petiscos, sandes, conservas, legumes biológicos.
- Prato bandeira: Sandes de pastrami caseiro
- Responsável pela cozinha: Marcella Ghirelli
- Responsável pelos vinhos: Olavo Fernandes
- Lista: 250 referências. Pequenos produtores que tratam a vinha de forma orgânica ou sustentável, que fermentam o vinho com as suas leveduras, sem adição de produtos enológicos, com filtragem natural e o mínimo de sulfitos adicionados.
- Vinhos mais exclusivos: Radikon, do Fruili, em Itália; Domaine Labet, da região de Jura, França; Rinaldi, da região de Barolo, Itália; Pierre Gonon, de Saint Joseph, França; Lafarge, de Beaujoulais, França.
- Entradas recentes: A Menina de Uva, da Aline Domingues, do Planalto Mirandês; Cantina Giardino Paski, de Campania, em Itália.
- Preço dos vinhos: Desde o Pelludo, do Dão, a €9,80, até a um Barbeito Ribeiro Real de 1982, Verdelho, a €235.
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- Cozinha: Alta cozinha de autor adaptada aos vinhos.
- Chef: Rodrigo Osório
- Pairing perfeito: Moqueca baiana com o Ribolla Anfora 2009, de Josko Gravner.
- Director de vinhos: Guilherme Corrêa
- Lista de vinhos: Garrafeira ecléctica de 800 referências, 60 referências exclusivamente para vinhos naturais. “De um modo geral, gostamos que os vinhos expressem mais o lugar do que o processo de elaboração. Vinhos de terroir, em resumo”.
- Vinho natural mais exclusivo: Soldera Sangiovese 2013, da Toscânia, em Itália, “um fabuloso vinho natural que é assim elaborado desde 1979”.
- Últimas entradas: Frey de Outono tinto 2016, do Douro; e o Morgon Côte du Py 2017, de Jean Foillard, Beaujolais, França.
- Ticket médio da refeição: €50-€70
- Preços dos vinhos: Vão desde o Renosu, de Tenute Dettori, na Sardenha, a €17,30, ao Soldera Sangiovese Toscana 2013, a €485.
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Edição Nº30, Outubro 2019
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Só mais outro restaurante asiático?

O JNCQUOI Asia é o novo asiático de Lisboa, com quatro cozinhas de raiz e muita ambição. TEXTO Ricardo Dias Felner FOTOS cortesia JNCQUOI Fica uns metros abaixo do irmão mais velho, o JNCQUOI Avenida, e quem lá entra percebe logo que continuamos em modo luxo. A entrada faz-se pelo bar, onde se pode beber […]
O JNCQUOI Asia é o novo asiático de Lisboa, com quatro cozinhas de raiz e muita ambição.
TEXTO Ricardo Dias Felner
FOTOS cortesia JNCQUOI
Fica uns metros abaixo do irmão mais velho, o JNCQUOI Avenida, e quem lá entra percebe logo que continuamos em modo luxo. A entrada faz-se pelo bar, onde se pode beber vinho, cocktails e sakés em poltronas. A ideia é vir a haver também “finger food” e a possibilidade de se pedir um ou outro prato do restaurante. Continuando a andar, passamos um painel de azulejos da Viúva Lamego, onde foram desenhadas as rotas dos produtos que os portugueses transportaram entre o Ocidente e o Oriente, durante os Descobrimentos, parte da história que o restaurante quer contar à mesa.
A carta, no entanto, há mais do que a herança luso-asiática. Ao todo são quase uma centena de pratos, de quatro regiões asiáticas diferentes, organizadas por tipo de comida. Até aqui nada de novo, podia pensar-se que estamos perante mais um asiático moderno, tendência em Lisboa nos últimos anos. Mas a ideia do Grupo Amorim Luxury, dono dos JNCQUOI, foi subir o nível: fazer tudo de raiz, ir buscar os melhores produtos e as melhores técnicas.
Soraia Manji, do departamento de marketing, dá alguns exemplos dessa exigência, enquanto nos guia pelo espaço, encaminhando-nos para a sala principal. O responsável máximo pelo que se come é o mesmo do JNCQUOI Avenida, o chef António Bóia, e o chef executivo é Mário Esteves, visível de um lado para o outro, logo ao meio-dia e meia, atrás do balcão da lindíssima cozinha aberta. Soraia Manji diz, a propósito, que esta é só a zona de finalização, onde não faltam fornos tandoori embutidos, robata, e equipamentos de ponta de fazer inveja a alguns Michelin. Por baixo, é que está a cozinha. Isto também é luxo.
Bóia é um cozinheiro experiente em cozinha internacional, com currículo académico, Esteves andou a estagiar em Banguecoque e Tóquio com o propósito de se preparar para o projecto. “E temos cozinheiros originários da Ásia”, acrescenta Soraia Manji.
Outro indicador do empenho numa cozinha autêntica foi a contratação de David Thompson como consultor apenas para a parte da cozinha tailandesa. Apesar de ser australiano, Thompson é autor de um dos mais importantes livros de cozinha tailandesa tradicional já editado, “Thai Cooking”, e o grande divulgador desta gastronomia no mundo, tendo ele próprio restaurantes com estrela Michelin na Europa e na Ásia.
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Comida de toda a Ásia
Mas sentemo-nos. Estamos então na sala principal, a do esqueleto do dragão, imagem de marca do arquitecto Lázaro Rosa Violán, que voltou a ser chamado para este projecto do grupo. A sala principal tem capacidade para 112 pessoas e tem estado muito composta, sobretudo ao jantar, onde se aconselha reserva com antecedência. Ao lado há outra sala, que podia ser outro restaurante, um enorme balcão em madeira com vitrina de peixe encastrada, o sushi-bar, zona de sushi por excelência. Daqui sai uma porta para o pátio, onde se recria a ideia de jardim japonês, com horta vertical, plantas tropicais e vários recantos.
A ementa não está dividida pelas quatro regiões culinárias abrangidas pelo restaurante — Índia, Japão, China e Sião —, mas sim pelo tipo de comida. Há assim uma secção de sushi e sashimi, outra de saladas e sopas, outra de spring roll, tempura e chamuças, outra de wok, robata e tandoori, outra de caris e, por fim, os clássicos.
Nas sobremesas, é o veterano chef pasteleiro Joaquim de Sousa, chef do JNCQUOI e da Ladurée (marca da Amorim Luxury), quem dá a cara e a técnica. À mesa vem sempre uma bandeja com toda a doçaria, repetindo-se a receita do restaurante-irmão e onde consta um cheesecake impressivo, de sabor acentuado a cabra, para além dos clássicos mil-folhas e demais sobremesas de inspiração francesa.
O ticket médio andará entre os 40 e os 50 euros, “um pouco menos do que o do JNCQUOI Avenida”, diz Soraia Manji, mas com muitos vinhos exclusivos disponíveis para multiplicar este valor várias vezes.
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A palavra dengaku tem origem nuns bailarinos que animavam as feiras medievais japonesas e que dançavam com uma única perna de pau. Essa perna de pau teria o seu equivalente culinário nos espetos de tofu e vegetais usados para a grelha. De todos os dendaku, contudo, nenhum é hoje tão popular como o de beringela (nasu), aberta ao meio, na qual é barrado o célebre molho de miso, à base de saké, mirin, dashi, açúcar e, por vezes, pasta de sementes de sésamo. A beringela é assada e pincelada com o miso, ficando caramelizada e com notas de fumo.
[/vc_column_text][/vc_column][vc_column centered_text=”true” column_padding=”no-extra-padding” column_padding_position=”all” background_color=”#efefef” background_color_opacity=”1″ background_hover_color_opacity=”1″ column_shadow=”none” column_border_radius=”none” width=”1/2″ tablet_text_alignment=”default” phone_text_alignment=”default” column_border_width=”none” column_border_style=”solid”][divider line_type=”No Line” custom_height=”10″][nectar_gradient_text heading_tag=”h2″ color=”extra-color-gradient-1″ gradient_direction=”horizontal” text=”Biryani – Índia”][vc_column_text]
Para muita gente não é claro a diferença entre biryani e pilaf, dois pratos da gastronomia indiana em que o arroz é o protagonista. No entanto, apesar de o biryani ser muitas vezes usado como um escape para os menos atreitos a malagueta, não é forçosamente assim — e este biryani de borrego do JNCQUOI está cheio de carácter. De origem muçulmana, segundo a maior parte dos historiadores, o biryani consiste em duas camadas de arroz entremeadas com uma de carne, peixe, camarão ou vegetais cozinhadas à parte e condimentadas de caril.
[vc_row type=”in_container” full_screen_row_position=”middle” scene_position=”center” text_color=”dark” text_align=”left” overlay_strength=”0.3″ shape_divider_position=”bottom”][vc_column centered_text=”true” column_padding=”no-extra-padding” column_padding_position=”all” background_color=”#efefef” background_color_opacity=”1″ background_hover_color_opacity=”1″ column_shadow=”none” column_border_radius=”none” width=”1/2″ tablet_text_alignment=”default” phone_text_alignment=”default” column_border_width=”none” column_border_style=”solid”][divider line_type=”No Line” custom_height=”10″][nectar_gradient_text heading_tag=”h2″ color=”extra-color-gradient-1″ gradient_direction=”horizontal” text=”Har gow – China “][vc_column_text]
O har gow (também pode aparecer grafado como ha gow ou haukau) é um dos dumplings (raviolis chineses de massa) obrigatórios numa refeição clássica de dim sum (petiscos chineses). E é também um dos mais difíceis de executar. A massa é feita à base de uma mistura de amidos, que podem ser de trigo, batata ou tapioca. Depois de cozida a vapor, a massa deve ficar translúcida e fina, sem ter cortes, e com umas pregas características (sete). O recheio leva sempre camarão com outros vegetais, tradicionalmente firmes. No JNCQUOI surge acompanhado de castanha de água.
[/vc_column_text][/vc_column][vc_column centered_text=”true” column_padding=”no-extra-padding” column_padding_position=”all” background_color=”#efefef” background_color_opacity=”1″ background_hover_color_opacity=”1″ column_shadow=”none” column_border_radius=”none” width=”1/2″ tablet_text_alignment=”default” phone_text_alignment=”default” column_border_width=”none” column_border_style=”solid”][divider line_type=”No Line” custom_height=”10″][nectar_gradient_text heading_tag=”h2″ color=”extra-color-gradient-1″ gradient_direction=”horizontal” text=”Tom Yam Goong – Tailândia”][vc_column_text]
O har gow (também pode aparecer grafado como ha gow ou haukau) é um dos dumplings (raviolis chineses de massa) obrigatórios numa refeição clássica de dim sum (petiscos chineses). E é também um dos mais difíceis de executar. A massa é feita à base de uma mistura de amidos, que podem ser de trigo, batata ou tapioca. Depois de cozida a vapor, a massa deve ficar translúcida e fina, sem ter cortes, e com umas pregas características (sete). O recheio leva sempre camarão com outros vegetais, tradicionalmente firmes. No JNCQUOI surge acompanhado de castanha de água.
Edição Nº30, Outubro 2019
Quando a actriz toma conta da quinta

A sucessão na famosa Quinta do Poial, pioneira do biológico em Portugal, está a cabo de uma actriz que luta pelo legado da mãe. TEXTO Ricardo Dias Felner FOTOS Ricardo Gomez O caminho tem pouco de campestre. Para se chegar, passa-se a urbanização Casas de Azeitão e depois faz-se um gancho que vai dar à […]
A sucessão na famosa Quinta do Poial, pioneira do biológico em Portugal, está a cabo de uma actriz que luta pelo legado da mãe.
TEXTO Ricardo Dias Felner
FOTOS Ricardo Gomez
O caminho tem pouco de campestre. Para se chegar, passa-se a urbanização Casas de Azeitão e depois faz-se um gancho que vai dar à propriedade, a serra da Arrábida lá bem ao fundo. Mas uma vez ultrapassado o portão, nota-se um sossego idílico de vegetação e passarinhos.
No centro da quinta está a um barracão onde, pelas 9.30, já se preparam cabazes de hortícolas. É de lá que sai Joana Macedo, camisa aos quadrados aberta no peito, mangas arregaçadas, calções de ganga curtos e botas — como uma agricultora sensual de filme de Hollywood, acabada de acordar.
A imagem bate certo com a biografia. A jovem agricultora já foi muitas coisas aos 38 anos de idade, mas aquela que mais a entusiasma é ser actriz. Nesse papel, tem estado activa nos últimos anos ao lado dos realizadores Júlio Pereira e Leandro Scarpin, que se dedicam sobretudo a curtas-metragens. De resto, a sua formação sempre esteve toda ligada às artes: dança no Conservatório, design industrial no IADE, curso de actores em Paris.
A Quinta do Poial, venerada por chefs com estrelas Michelin e fãs do orgânico, nunca foi por isso um objectivo de vida. Aqui Joana cresceu, mas daqui partiu em 2006 para Paris, onde o seu pai vivia — e só haveria de voltar em 2014. Essa fuga para França foi também uma fuga da Quinta. “Odiava esta quinta. A minha mãe não tinha tempo para mim. Não ia às minhas reuniões de escola, não ia ver as minhas peças de teatro”, atira.
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Uma mudança brusca de vida
O sentimento de rejeição haveria, contudo, de mudar abruptamente em 2016. Com a morte da mãe, Maria João Macedo, a quinta caiu nos braços da actriz. De repente, Joana tinha sobre si a responsabilidade de cultivar 200 variedades de legumes e frutas, parte das quais nem sabia que existia. Algum trabalho já estava feito e Joana admite isso. “Quando viemos para aqui, a terra era toda areia”, exemplifica Joana. Ainda hoje se percebe isso, basta olhar para o chão na zona de estacionamento. “Foi a minha mãe quem transformou areia numa quinta onde podem crescer coisas. Nesta terra estão 30 anos de trabalho”, assume.
O desafio continua, no entanto, a ser grande. Para além da responsabilidade de fornecer uma dezena de restaurantes com estrela Michelin — ”fora os que não se preocupam com guias” —, Joana ainda tem de gerir mão-de-obra, máquinas agrícolas, encomendas, pragas — bem como as travessuras do clima, particularmente prejudiciais neste ano.
Logo ali, na ala sul virada a sul, estão três estufas de tomates, cada uma com uns 100 metros de comprimento, ex-libris da quinta. Ao todo, Joana estima ter mais de 80 variedades do fruto. “Aqui os pink thai egg, aqueles são os tomate pêra, ali os indigo negro, o zebra, o orange banana, o green envy”, lista, enquanto vai puxando as plantas para cima e as enrolando em torno de fios presos ao topo da estufa.
[/vc_column_text][/vc_column][vc_column column_padding=”no-extra-padding” column_padding_position=”all” background_color_opacity=”1″ background_hover_color_opacity=”1″ column_shadow=”none” column_border_radius=”none” width=”1/2″ tablet_text_alignment=”default” phone_text_alignment=”default” column_border_width=”none” column_border_style=”solid”][divider line_type=”No Line” custom_height=”20″][image_with_animation image_url=”40913″ alignment=”” animation=”Fade In” border_radius=”none” box_shadow=”none” max_width=”100%”][/vc_column][/vc_row]
Muitos ramos estão deitados porque “não se conseguiu gente” para fazer o trabalho. Isso e um ano com pouco calor até finais de Agosto terá atrasado a colheita. Mas agora eles estão no ponto e a estimativa é que haja tomate do Poial até meados de Outubro, assim o nematode do tomate, um parasita, se mantenha afastado.
A forma como a horta está construída ajuda a manter pragas à distância. Por todo o lado, entre os tomateiros há cravos-túnicos plantados com a finalidade de manter bichos indesejáveis à distância. Outro trunfo da quinta tem a ver com excremento. “Não conseguimos ter animais aqui”, confessa Joana, “mas usamos guano”. E o que é guano? “Cocó de morcego. Vem de Angola. É uma bomba. Cara”.
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Tomates para todos os gostos e feitios
Seja ou não pelo guano, à medida que vamos correndo os tomateiros vamos comprovando a sua boa saúde. Há vários tomate cereja, todos destinados a negar a tese de que não passam de bolinhas reluzentes e sensaboronas de supermercado. A variedade, ao contrário do que se possa pensar, é muito antiga e abarca diversos primos saborosos. Os preferidos de Joana são os micro-cereja de framboesa, pequenos berlindes caprichosos e delicados: Para apanhá-los sem os danificar é preciso ter dedos de veludo, paciência e tempo. “Fui obrigada a aumentar o preço de nove euros o quilo para doze euros o quilo. Senão nem dava para pagar a mão-de-obra de os apanhar”.
As facturas passaram a ser coisas com que Joana tem de se preocupar. Recentemente, comprou umas máquinas manuais, uma espécie de bicicleta com arado que corta as ervas daninhas. Fala com muito orgulho dessa inovação, mas não esquece o preço. “Perto de 5.000 euros”, concretiza, ao mesmo tempo que faz uma demonstração do equipamento. Da mesma maneira, Joana tem na ponta da língua o valor que paga de electricidade durante os meses de Verão. “É preciso bombar muita água do furo. Estamos a falar de 800 a 1.000 euros por mês em electricidade”. A inexistência de um charco na propriedade é uma falha que quer suprimir, até porque ele garante a presença de um ser vivo extraordinário, essencial ao ecossistema biológico da quinta. “As libelinhas. As libelinhas são fantásticas para comer os outros insectos”.
[/vc_column_text][/vc_column][vc_column column_padding=”no-extra-padding” column_padding_position=”all” background_color_opacity=”1″ background_hover_color_opacity=”1″ column_shadow=”none” column_border_radius=”none” width=”1/2″ tablet_text_alignment=”default” phone_text_alignment=”default” column_border_width=”none” column_border_style=”solid”][divider line_type=”No Line” custom_height=”10″][divider line_type=”No Line” custom_height=”20″][image_with_animation image_url=”40916″ alignment=”” animation=”Fade In” border_radius=”none” box_shadow=”none” max_width=”100%”][/vc_column][/vc_row]
Tendo este empenho no projecto, Joana assume que gere a quinta de maneira diferente da da mãe. “Ela não era boa a delegar. Queria fazer tudo sozinha. E eu não sou, nem nunca fui agricultora”, conclui, deixando claro que isso não significa que o Poial esteja em risco. É uma questão de honrar o passado, de honrar a sua mãe, sem ressentimentos. “Farei tudo para que este projecto não vá por água abaixo”.
Edição Nº30, Outubro 2019
Cozinhas de pescador, pastor e hortelão, sabe o que são?

Todo o prato do receituário nacional visa a partilha e a festa e nem sempre nos damos conta do que está por detrás, em termos de produto, técnica e história, tal é a alegria com que o português se senta à mesa, especialmente onde à espera está um tacho. Vale a pena ir um pouco […]
Todo o prato do receituário nacional visa a partilha e a festa e nem sempre nos damos conta do que está por detrás, em termos de produto, técnica e história, tal é a alegria com que o português se senta à mesa, especialmente onde à espera está um tacho. Vale a pena ir um pouco mais fundo, para chegar aos tempos em que a alegria era mesmo o único alimento. Mar, campo e horta, e os pequenos luxos da suave mantença.
TEXTO Fernando Melo
FOTOS Mário Cerdeira
Assunto romântico aos olhos do mundo, a cozinha de raizes e proximidade esconde em si os primórdios da vida civilizada e na verdade é a principal responsável por existirmos ainda enquanto espécie. E se é verdade que para a maioria não passa de chavão para descrever qualquer coisa que não se chega nunca a perceber, felizmente a bem povoada comunidade de gastrónomos lúcidos a que pertencemos tem prazer em viajar devagar no tempo, olhando com calma para o imenso património que a cada movimento se vai revelando. Temos muitas gastronomias locais, que interagem entre si e constroem um perfil nacional, até hoje temos felizmente resistido a distinguir umas das outras, antes integrando-as todas. A imensa linha de costa portuguesa define por si só uma influência marítima forte que quase nos explica inteiramente, tendo sido em cima dela que cresceu a que conhecemos, celebramos e veneramos como cozinha de pescador. Receituário desenvolvido a bordo, na praia, ou nas cozinhas mais modestas, partes menos nobres, peixes normalmente utilizados como isco, vísceras diversas no fundo de caldos inefáveis, consolidaram ao longo dos anos um legado único no mundo. Outro grande pilar da cozinha portuguesa está escondido em pratos simples, nascidos no campo, com o que o campo dá e que o processamento mais cândido de simples fixou como cozinha de pastor. Proximidade geográfica é a chave para a entender e praticar e é dela que nasce a utilização de ervas aromáticas e medicinais, tanto por estarem disponíveis pelos campos fora como pelo gosto e prática de mezinhas curativas com base em plantas específicas. São de pastor por isso também as infusões, tantas vezes utilizadas em pratos da grande tradição. E chegamos à figura do hortelão, não fora a horta quase tão importante como a criação, e como se não lhe devêssemos em grande parte o facto de crescer de forma nutritiva nos núcleos familiares. Batata, cenoura, couves, alfaces, frutos, tomate, pepino, o desfile é infindável e muitos deles são indispensáveis para a produção culinária quotidiana.[/vc_column_text][vc_gallery type=”nectarslider_style” images=”40399,40396,40398,40397,40394,40395″ bullet_navigation_style=”see_through” onclick=”link_no”][/vc_column][/vc_row][vc_row type=”in_container” full_screen_row_position=”middle” scene_position=”center” text_color=”dark” text_align=”left” overlay_strength=”0.3″ shape_divider_position=”bottom”][vc_column column_padding=”no-extra-padding” column_padding_position=”all” background_color_opacity=”1″ background_hover_color_opacity=”1″ column_shadow=”none” column_border_radius=”none” width=”1/1″ tablet_text_alignment=”default” phone_text_alignment=”default” column_border_width=”none” column_border_style=”solid”][nectar_animated_title heading_tag=”h6″ style=”color-strip-reveal” color=”Accent-Color” text=”Cozinha de pescador, o hino dos hinos”][vc_column_text]O conhecimento íntimo dos peixes e as descobertas acidentais formam grande parte do património culinário a que chamamos cozinha de pescador. O bacalhau, não sendo embora pescado nas nossas águas, é assunto bem português, ai de quem diga o contrário. O fiel amigo conviveu connosco por muitas e boas gerações, na forma seca, o mesmo tipo de preparação que se dava outrora à raia, lampreia, polvo e outros, para conservar e guardar, a regeneração acontecia pela demolha. A primeira intervenção, contudo, era o corte da cabeça e a desvisceração, o que dava acesso a partes moles que são concentrados de proteína e colagénio. A lógica de produto inteiro é plenamente cumprida no tratamento do bacalhau, das línguas, e da bexiga natatória, ou sames – espécie de canal exterior que existe logo a seguir à boca e que serve para a orientação do peixe pelo mar fora – fazia-se um caldo ainda a bordo que era de comer e chorar por mais, por isso chamado chora. Na Figueira da Foz encontramos ainda a chora de línguas e feijoada de sames, e nos restaurantes de Lisboa e Porto esses pratos vão marcando presença. A mesma ideia da cozinha a bordo está subjacente nas caldeiradas monoproteína e sem água, em que é o suado da cebola que produz o caldo maravilhoso que legumes e peixe vão produzindo. As caldeiradas multiproteína, historicamente baseadas no safio ou congro, ligado com pata roxa ou caneja e tamboril ou xarroco, são tão gloriosas quanto copiosas, repletas de sabor e valor. A cozinha de pescador tem mil recursos e tudo o que dela sai tem sabores intensos e únicos. Massas secas e arroz são componentes vezeiros nas suas preparações, pimento, tomate e batata menos, mas mesmo assim vai-se encontrando, aqui e ali.
Feijoada de sames
O prato e os vinhos
A riqueza do prato em colagénios, de que os sames de bacalhau são copiosos, mereceu a interpretação do chef Vítor Sobral, da Peixaria da Esquina, em Lisboa, semelhante à de uma feijoada tradicional. Extracção no bom ponto, ligação com a leguminosa impecável, é um hino à arte de bem comer e aos antigos, que no tempo da míngua nela se apoiaram. São bem vindos os brancos com acidez pronunciada, para o corte do prato que é contundente, assim como os tintos da proximidade atlântica, pela aparente salinidade e parceria feliz.
- Pequenos Rebentos Loureiro Escolha Vinho Verde branco 2018 (Márcio Lopes) – Trabalho eficaz da frescura do vinho sobre o caldo compacto e sápido do prato, recondicionamento exemplar do palato para continuação do prazer à mesa.
- Herdade da Arcebispa Reserva Península de Setúbal tinto 2016 (Soc. Agr. Arcebispa) – Servido a 16ºC, consegue penetrar no caldo e no feijão sem problemas, oferecendo-se à transformação no palato pelos sames, exacerbando-lhes o lado salino.
[/vc_column_text][image_with_animation image_url=”40388″ alignment=”” animation=”Fade In” border_radius=”none” box_shadow=”none” max_width=”100%”][divider line_type=”Full Width Line” line_thickness=”1″ divider_color=”default”][nectar_animated_title heading_tag=”h6″ style=”color-strip-reveal” color=”Accent-Color” text=”Cozinha de pastor, o processamento mais cândido”][vc_column_text]Se quisermos ser literalistas, é a pastorícia que dá origem a esta cozinha, mas trata-se de uma cozinha bem mais abrangente, que quase remonta ao tempo dos antigos gregos e romanos, a coroar a sedentarização. A vaca deixa de ser força motriz apenas, nos campos e terras lavradas e no transporte pela via terrestre, para se tornar ela própria alimento central, incluindo o maravilhoso leite de que ainda hoje fazemos mais alimento directo do que transformamos em queijo. Queijo que é, diga-se, pedra de toque para revolução grande sentir quase universal de um povo que é queijeiro, mas de leite de ovelha, a maior transumância portuguesa, os rebanhos em excursão de longa duração, assistidos pelo venerável pastor, este por sua vez a recolher o que de imediato vai tendo à sua volta. Nascem do talento e do momento os ensopados, que no tempo das favas e das ervilhas orlam vitela, borrego, cabrito e leitão. A beldroega rasteira, folha insubstituível na que pode bem ser a melhor sopa do mundo, aqui a pontificar, com a adição de um quejinho de ovelha que leva dentro e coze no caldo. É um dos muitos pratos nacionais que transforma água em ouro, e merece conferência sempre que surge numa carta do Portugal profundo. Tudo o que é à pastor tanto pode ser feito em tacho em casa, como em lume de chão ao ar livre. E quando é feito em casa, o espírito autêntico do prato é conseguido apenas quando a manipulação é mínima e quando leva cogumelos, ervas, leguminosas ou hortícolas da estação.
Jardineira de vitela
O prato e os vinhos
A cozinha do Bem-Haja, em Lisboa, é de inspiração da Beira Alta e tem o condão de atrair tanto os locais das terras altas do granito e da geada como os gourmets mais urbanos, orientados para os sabores simples. Prato de base muito simples, no processamento e na apresentação, é dos mais consensuais em toda a cozinha portuguesa.
- Pasmados Península de Setúbal branco 2014 (José Maria da Fonseca) – Um vinho com uma evolução graciosa, tonalidades verdes que ligam bem com o património hortícola do prato, e ao mesmo tempo acidez e taninos firmes que ajudam na leitura da proteína animal.
- Herdade do Rocim regional alentejano rosé 2018 (Rocim Vinhos) – Rosé que foge à regra, apresentando-se com frescura e equilíbrio de forma a casar bem com o caldo, aligeirando-o. Ervilhas, favas e batatas reagem bem ao vinho, deixando-o interagir com a componente sólida e avivando-lhe as nuances.
[/vc_column_text][image_with_animation image_url=”40387″ alignment=”” animation=”Fade In” border_radius=”none” box_shadow=”none” max_width=”100%”][divider line_type=”Full Width Line” line_thickness=”1″ divider_color=”default”][nectar_animated_title heading_tag=”h6″ style=”color-strip-reveal” color=”Accent-Color” text=”Cozinha de hortelão, a chave do futuro”][vc_column_text]Sabemos hoje que é quase inevitável o regresso aos primórdios da alimentação, quando a proteína animal era rara ou inexistente, frutos, legumes e sopas, normalmente ponteadas por grão de bico ou feijão, foram a base da mantença da espécie humana. Passaram milhares de anos sem que a dieta fosse sequer beliscada e sem dúvida por isso, a horta, quadradinho dourado adjacente à casa do português da província, é ainda hoje a garantia de que a fome não vai levar a melhor. Pastinaca, tomate, abóbora, cenoura, pepino e tantos outros formam a base da alquimia que vai abençoar a sopa que a fervura ligeira vai aprimorar. O gaspacho é uma preparação a frio, sem lume, que é profilático da desidratação a que na canícula estamos expostos e queremos que fique à porta. O gaspacho andaluz, de base de tomate triturado, é muito utilizado em Portugal, mas o alentejano, com os legumes migados em brunesa média e condimentados com orégãos secos, é genuinamente nosso. As sopas de legumes caem nesta categoria e por serem acompanhadas normalmente por pão são refeição completa, por isso as devemos ter a um tempo como chave do futuro e regresso ao passado. Ao contrário do que se pensa, a sopa não tem temperatura ideal de consumo e foi pensada pelos nossos antepassados para estar pronta na cozinha à nossa espera, e tanto a podemos comer gelada como a escaldar, o conforto pretendido é que dita o modo de usar. Por uma questão de pureza e salubridade, não devemos utilizar batata, pois o amido é um açúcar e altera sabor e composição em tudo o que compõe.
Gaspacho
O prato e os vinhos
Batemos à porta do Galito, em Lisboa, onde pontifica Henrique Galito, que aprendeu com sua mãe, a nossa Dona Gertrudes, que já não está entre nós, praticante indefectível da simplicidade desarmante dos sabores e processamentos directos. Estamos na época do tomate, o hortícola que tem a duplicidade vocacional de ser o fruto com mais água e o legume com mais açúcar e que tem o dom da saciedade plena no tempo do Verão. Tomate, pimento verde, pepino, alho e cebola em brunesa média, depois azeite vinagre e orégãos secos, está o gaspacho feito.
- Dona Matilde Douro branco 2018 (Quinta D. Matilde) – Surpreendente a reacção deste branco com o tomate, a promover todos os ingredientes do gaspacho ao mesmo tempo que os isola e permite a degustação quase avulsa de cada pedaço.
- Falua Unoaked Reserva Tejo tinto 2015 (Falua) – Estreme de Touriga Nacional que como o nome diz não teve qualquer contacto com madeira. Penetra sem problema na selva aromática do gaspacho e abraça o fundo do caldo frio com vigor, tornando-o mais uno.
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Edição Nº26, Junho 2019
O que é que se come, confrades?

O livro Confrarias de Portugal é um retrato dos melhores produtos portugueses e de quem os defende. TEXTO Ricardo Dias Felner Tudo começou com uma reportagem na revista Sábado, em 2017. Ana Catarina André, jornalista, e Marisa Cardoso, repórter fotográfica, haviam visitado quatro confrarias, espalhadas pelo Interior do país e voltaram à redacção encantadas. Na […]
O livro Confrarias de Portugal é um retrato dos melhores produtos portugueses e de quem os defende.
TEXTO Ricardo Dias Felner
Tudo começou com uma reportagem na revista Sábado, em 2017. Ana Catarina André, jornalista, e Marisa Cardoso, repórter fotográfica, haviam visitado quatro confrarias, espalhadas pelo Interior do país e voltaram à redacção encantadas. Na memória, estavam chícharos, rojões, grelos — e uma quantidade de histórias saborosas de um país que Lisboa conhece mal.
“Ainda durante a viagem começámos a perceber o potencial disto”, conta Ana Catarina André, responsável pela escrita de Confrarias de Portugal, livro lançado recentemente. Desse instante até à apresentação do projecto à Federação Portuguesa das Confrarias Gastronómicas foi rápido. Quase 14 mil quilómetro depois, com 56 confrarias visitadas, em 47 localidades de Portugal Continental e dos Açores, ganhava forma aquele que é, hoje, o documento mais completo sobre as confrarias nacionais.
Ao folhear-se o livro percebe-se que o diagnóstico é positivo. “As confrarias estão muito activas. E tiveram um crescimento grande a partir de 2000. Estão sempre a aparecer confrarias novas”, diz Ana Catarina André que, não se assumindo como uma gourmet, descobriu verdadeiros pitéus durante as suas incursões.
“Em Vagos, por exemplo, comi um arroz doce, feito só com gemas, que destronou o da minha mãe. A senhora fê-lo à minha frente, tudo a olho, com ovos caseiros e um sabor muito intenso”, conta a jornalista. Outra surpresa foi a pescada poveira, servida num prato de barro, com legumes e batata. “Nunca tinha comido uma pescada tão boa”, admite, recordando ainda a rabanada da Póvoa do Varzim que se lhe seguiu, do restaurante Leonardo.
Os exemplos de descobertas boas, todavia, são às dezenas. Da Confraria do Butelo e da Casula, à do Melão de Casca de Carvalho até à do Caldo de Quintadona ou à brejeira — mas muito procurada — Confraria da Foda Pias-Monção, há de tudo um pouco. A nomenclatura designa ou um produto específico ou uma receita típica ou uma região gastronómica, como são as do Ribatejo ou do Alentejo.
Neste momento, o livro só está à venda através da página do Facebook Livro Confrarias de Portugal, custando 25 euros.[vc_row type=”in_container” full_screen_row_position=”middle” scene_position=”center” text_color=”dark” text_align=”left” overlay_strength=”0.3″ shape_divider_position=”bottom”][vc_column column_padding=”no-extra-padding” column_padding_position=”all” background_color=”rgba(221,130,138,0.66)” background_color_opacity=”1″ background_hover_color_opacity=”1″ column_shadow=”none” column_border_radius=”none” width=”1/3″ tablet_text_alignment=”default” phone_text_alignment=”default” column_border_width=”none” column_border_style=”solid”][vc_custom_heading text=”Mais Havai em Lisboa” font_container=”tag:h3|text_align:left|color:%23777777″][vc_column_text]De fininho, sem alarido, a Multifood abriu mais um restaurante em Lisboa, desta feita com outro conceito internacional. O Big Fish Poke Bar aposta no poke, um tipo de prato havaiano, onde entram peixes crus e arroz, que podem ser acompanhados de legumes, frutas e molhos. O espaço tem como bancada central o balcão, que senta 20 pessoas, e aos comandos estará Filipe Narciso (ex-Mini Bar), que contará com a assessoria e receituário de Luís Gaspar, chef residente da Sala de Corte, mas que se desdobra por outros projectos da Multifood.[/vc_column_text][/vc_column][vc_column column_padding=”no-extra-padding” column_padding_position=”all” background_color=”rgba(221,130,138,0.66)” background_color_opacity=”1″ background_hover_color_opacity=”1″ column_shadow=”none” column_border_radius=”none” width=”1/3″ tablet_text_alignment=”default” phone_text_alignment=”default” column_border_width=”none” column_border_style=”solid”][vc_custom_heading text=”Ex-Noma no Erva” font_container=”tag:h3|text_align:left|color:%23777777″][vc_column_text]O restaurante Erva tem agora Artur Gomes à frente da bonita cozinha aberta. Este algarvio regressou o ano passado do Noma, o restaurante de Copenhaga, para muitos ainda o mais influente do mundo. Esta é a primeira vez que vai estar como chef executivo, mas, no Noma, Artur Gomes participou num dos departamentos mais dinâmicos e inovadores, o dos fermentados. Entre os novos pratos da carta há ouriço-do-mar, dashi e natas azedas ou caranguejo com consommé de flores e morango verde lacto-fermentado.[/vc_column_text][/vc_column][vc_column column_padding=”no-extra-padding” column_padding_position=”all” background_color=”rgba(221,130,138,0.66)” background_color_opacity=”1″ background_hover_color_opacity=”1″ column_shadow=”none” column_border_radius=”none” width=”1/3″ tablet_text_alignment=”default” phone_text_alignment=”default” column_border_width=”none” column_border_style=”solid”][vc_custom_heading text=”Cantinho do Avillez em Cascais” font_container=”tag:h3|text_align:left|color:%23777777″][vc_column_text]E aí está mais um Cantinho do Avillez. Depois das delegações no Parque das Nações e no Porto, o restaurante nascido no Chiado viaja agora para a Linha, terra natal do chef José Avillez. “Nasci e cresci em Cascais. Para mim, estar em Cascais com o Cantinho — o meu primeiro restaurante — tem um significado especial: é como voltar a casa”, disse a propósito desta nova abertura do Grupo Avillez. O conceito é o mesmo, cozinha portuguesa e pratos do mundo, onde não faltam os peixinhos da horta ou a icónica vitela de comer à colher.
Edição Nº26, Junho 2019
Codornos e outras iguarias na mesa de Cabeceiras

O restaurante A Cozinha, em Guimarães, foi palco de um jantar especial onde se descobriu a gastronomia de Cabeceiras de Basto. TEXTO Ricardo Dias Felner O jantar já vai a meio e eis que o presidente da câmara de Cabeceiras de Basto tem um desabafo. “Em Cabeceiras, de facto, falta-nos uma sobremesa típica”. A declaração […]
O restaurante A Cozinha, em Guimarães, foi palco de um jantar especial onde se descobriu a gastronomia de Cabeceiras de Basto.
TEXTO Ricardo Dias Felner
O jantar já vai a meio e eis que o presidente da câmara de Cabeceiras de Basto tem um desabafo. “Em Cabeceiras, de facto, falta-nos uma sobremesa típica”. A declaração sai-lhe como uma confissão trágica, uma vergonha pública. A iniciativa serve para mostrar a força da gastronomia do concelho a personalidades da região, no âmbito da iniciativa Mesa de Cabeceiras. Mas há este entrave. “Não há doces em Cabeceiras de Basto”.
À mesa estão outras pessoas da vila, do distrito de Braga. Alguém estranha a falha. E questiona: “E fruta, não há uma fruta tradicional?” Os olhos do autarca reluzem, como se de repente lhe surgisse uma iluminação providencial. “Há, sim! Os codornos!” Toda a gente se entusiasma com a revelação. O codorno é uma fruta antiga, da família das pêras, “dura como cornos, mas muito doce”. Da conversa, renasce comida.
O relato do episódio serve apenas para mostrar como há tanto para se redescobrir a Norte (e a Sul) de Portugal; e como por vezes não se dá valor ao que está mesmo à mão ou em cima da Mesa de Cabeceiras, para usar o feliz trocadilho que dá nome à campanha de promoção da gastronomia da vila.[/vc_column_text][image_with_animation image_url=”40373″ alignment=”” animation=”Fade In” border_radius=”none” box_shadow=”none” max_width=”100%”][vc_column_text]Os codornos são um fruto de Inverno, ainda presente em grande parte das mesas de Natal dos cabeceirenses e citados em documentos medievais, como um fruto da realeza. “Podem ainda ser encontrados em alguns mercados de rua, mas é raro”, diz a vereadora da cultura, Carla Lousada. As árvores, algumas centenárias, estão espalhadas por pomares caseiros — mas seria fácil recuperar sementes. O debate continua e Rafael Oliveira, especialista em marketing na área do Enoturismo, lembra a propósito o trabalho feito pelo Banco Português de Germoplasma Vegetal, em Braga, instituição que há mais de 40 anos preserva sementes portuguesas.
Por esta altura, António Loureiro está na cozinha, longe da conversa, mas fez o trabalho de casa. O chef do recém-estrelado restaurante de Guimarães, desenhou um menu com epicentro em Cabeceiras, com base em pesquisas pessoais e no levantamento feito pela investigadora Anabela Ramos, especialista em culinária conventual beneditina.
Entre os produtos mais tradicionais do concelho estão o vinhão tinto, o mel de Basto, as talhadas de presunto, mas também as carnes, da barrosã à minhota, da maronesa até à ovelha churra (com que António Loureiro fez um prato extraordinário, juntando num mesmo cubinho assado vários peças do animal, do cachaço à perna). No final, o chef repescou para sobremesa os ovos reais, aqui em forma de canudos, típicos da doçaria conventual.
A acompanhar desta vez veio bolo de laranja. Mas é possível que numa próxima edição em vez do citrino surjam… codornos.
Edição Nº26, Junho 2019
O novo miúdo do Esporão

O restaurante da herdade alentejana mudou de conceito, mas está em boas mãos. Carlos Teixeira é o chef que se segue. TEXTO Ricardo Dias Felner O almoço acabou e o jovem chef da herdade guia-nos pelas escadas até ao piso de baixo, onde ficam os bastidores do restaurante, espécie de parque infantil para foodies. Num […]
O restaurante da herdade alentejana mudou de conceito, mas está em boas mãos. Carlos Teixeira é o chef que se segue.
TEXTO Ricardo Dias Felner
O almoço acabou e o jovem chef da herdade guia-nos pelas escadas até ao piso de baixo, onde ficam os bastidores do restaurante, espécie de parque infantil para foodies. Num frigorífico, mais de uma dúzia de kombuchas — cereja, laranja, alperce. Na prateleira ao lado, aparece um boião de molho picante fermentado, outro de kimchi caseiro, logo seguido da secção de especiarias, meia centena delas arrumadas em pequenas caixinhas transparentes devidamente etiquetadas: “garam masala caseiro”, “pó de iogurte”, “lima persa pó fino”, “levístico”, “katsoboshi”, “karela”.
Carlos Teixeira faz a visita guiada com o entusiasmo de um hacker a entrar na área restrita da CIA. Tem apenas 26 anos, mas já anda em cozinhas profissionais desde os 15, idade com que se estreou no SANA Lisboa. Nessa altura, podia ter optado pelo hóquei em patins, mas virou-se antes para a culinária, onde era já hábil “em bifes e arrozes”, arte que aperfeiçoou desde os oito anos. “Eu vivia só com o meu pai, que chegava do banco tarde, e tinha de preparar o jantar”, diz.
Muito depois disso, haveria de estagiar no The Clove Club, em Londres, eleito o 33º melhor restaurante do mundo, na lista dos 50’s Best de 2018, para depois de se juntar à equipa do Esporão em 2015. Aqui, iniciou-se como braço direito de Pedro Pena Bastos, assumindo a liderança em 2018.
A passagem de testemunho não terá sido fácil. Na altura, entre a comunidade gastronómica, muita gente olhou para esse processo como uma desistência da estrela Michelin por parte do Esporão. Não se querendo alongar sobre o assunto, António Roquette, responsável pelo enoturismo da herdade, admite a ideia de se fazer “uma cozinha mais informal”, “com outro conceito”; mas recusa que isso tenha significado baixar a fasquia. Em todo o caso, nessa altura, aos olhos de alguns, Carlos Teixeira surgiu como uma espécie de solução caseira e barata.[/vc_column_text][vc_gallery type=”nectarslider_style” images=”40365,40366″ bullet_navigation_style=”see_through” onclick=”link_no”][vc_column_text]Juventude com disciplina e rigor
Hoje, todavia, não se tem essa sensação quando o conhecemos ou quando comemos da sua cozinha. Apesar de muito novo, tem uma energia pura, domada por disciplina e rigor.
À nossa frente, abre-se agora a porta de uma câmara frigorífica e surgem vários lúcios-perca enganchados à maneira da pescada arrepiada. “Primeiro secamo-los um pouco e depois maturamo-los por dez dias”, conta o chef. O resultado é extraordinário, como tínhamos podido comprovar minutos antes. O prato de lúcio-perca, pescado no Alqueva, é um lombo grelhado, magnífico de lascas, banhado numa espécie de piso alentejano, feito do caldo das espinhas com poejos, coentros, alho e azeite. A acompanhar, migas de alho e cebola, no topo pele de porco insuflada e crocante — um prodígio de produto, técnica e sabor, tridente estrutural da filosofia Esporão, seja na adega, no lagar de azeite ou na cozinha.
Este foi, no entanto, apenas um dos destaques num almoço de grande nível. Começou no pão, feito na casa com massa mãe, e nas manteigas: de cabra com pó de louro e de banha de porco temperada; ao lado, um pratinho de azeite dos Arrifes, topo de gama da casa, vivíssimo, feito da varietal Cobrançosa, produzida em modo biológico, apanhada a escassas centenas de metros e espremida ainda mais perto, no moderno lagar da herdade. Houve ainda umas ervilhas com silarcas laminadas e gema de ovo, depois o borrego da Quinta das Dúvidas (vizinhos e “amigos” do Esporão), e por fim a laranja da Torre (apanhada na zona dos laranjais da torre, também da herdade) com iogurte de cabra.
Do que se pode ver, com ou sem Michelin no horizonte, usa-se cada vez mais o que vem da horta da quinta (65 por cento do valor total dos hortícolas usados na carta, diz Carlos Teixeira) e parece haver uma aproximação à culinária tradicional portuguesa, com a introdução semanal de pratos resultantes do projecto A Cozinha Portuguesa a Gostar dela Próprio. Tudo sempre refinado pelos sabores que Carlos Teixeira vai produzindo na sua cave de experiências misteriosas.[/vc_column_text][image_with_animation image_url=”40364″ alignment=”” animation=”Fade In” border_radius=”none” box_shadow=”none” max_width=”100%”][vc_column_text css=”.vc_custom_1576234412378{background-color: #ddadb1 !important;}”]Como se prova um azeite?
A experiência gastronómica no Esporão só fica completa com uma visita guiada à adega, remodelada pelo ateliê Skrei, mas também com a experiência do azeite. Ana Carrilho, oleóloga residente, leva-nos primeiro ao olival da quinta, onde se produz já em modo sustentável e orgânico, seja em formato intensivo ou tradicional. Na antiga pista de avião, perto do olival dos Arrifes, avistam-se grandes pilhas de compostagem, feita com os desperdícios da quinta, adubo precioso para as árvores de cobrançosa que hão-de frutificar em breve. Enquanto isso não acontece, pode-se sempre beber o sumo de azeitona da colheita anterior, na sala de provas.
É isso que faz quem entra nas visitas guiadas da quinta, depois de ir ao lagar onde a extracção acontece. Numa sala lateral, está uma mesa comprida à nossa espera, com vários copos, todos tapados com um vidro de relógio, todos da mesma cor. “O azul cobalto é a cor usada oficialmente nas provas”, explica Ana Carrilho. A cor do azeite, ao contrário do que sucede com os vinhos, “não deve influenciar o julgamento do provador”.
Começa tudo no nariz. A ideia é rodar suavemente os copos tapados, depois tirar o vidro de relógio e inspirar profundamente. Como se faz com o vinho. O nariz dá-nos coisas fantásticas, como aromas da água da salada de tomate ou de relva verde. Na boca, devemos deixar que o líquido chegue a todos os cantinhos. Na garganta, sentimos notas mais picantes e intensas (Azeite Virgem Extra Bio, do Olival dos Arrifes) ou mais doces e verdes (como nos monovarietais de Galega e nos blends do Norte Alentejano). Importante é ir intercalando cada golo no azeite com lâminas de maçã verde, dispostas no pratinho ao seu lado, para limpar o palato. Beba sem moderação.[/vc_column_text][vc_column_text]
Edição Nº26, Junho 2019
Tripas, toucinhos e outras perdições

Alguma coisa nalgum momento há-de ter troado na alma de algum antigo que o tenha levado a ver nas partes invisíveis das peças caçadas ou criadas sabor, nutrição e satisfação. No mundo carnívoro, as partes nobres são músculos, detalham-se muitas vezes com os polegares, e para todas temos destino. Ficam por cobrir as intersticiais e […]
Alguma coisa nalgum momento há-de ter troado na alma de algum antigo que o tenha levado a ver nas partes invisíveis das peças caçadas ou criadas sabor, nutrição e satisfação. No mundo carnívoro, as partes nobres são músculos, detalham-se muitas vezes com os polegares, e para todas temos destino. Ficam por cobrir as intersticiais e acumuladas gorduras e vísceras, que o génio humano puxou para a excelência e que hoje faz parte da nossa perdição.
TEXTO Fernando Melo
FOTOS Mário Cerdeira
Enquanto poucos – penso que mesmo muito poucos – se ocupam da boa e genuína investigação da génese das tripas à moda do Porto, tomamo-la como assumida e partimos para a magnífica viagem que oferecem. Há muito tanto de misterioso como de admirável no quanto o génio culinário português se debruça sobre as partes moles, órgãos, glândulas e gorduras, criando pratos verdadeiramente redentores. Nas tripas, gigajoga articulada de quatro epicentros viscerais de grande actividade, é fascinante ver como o tratamento empírico conduziu a caldos, texturas e sabores que alimentaram tantas gerações, ao longo do tempo. Os músculos em si esperaram mais do que as tripas até chegar à mesa, já que o bovino era outrora força motriz de importância central na lavoura e no transporte. Suíno, caprino e ovino suplantavam-no enquanto proteína de base e assim crescemos com eles, na forma de caldos, ensopados, cozi¬dos e grelhados diversos. Grão de bico e arroz foram os grandes companheiros enquanto condutos, de resto permanecendo com lugar cativo nas nossas despensas até aos dias de hoje. Natural por isso que pontifiquem também ao lado das tripas, acrescidos de leguminosas a gosto.
O QUE SÃO ENTÃO AS TRIPAS DE QUE FALAMOS?
Nada mais do que as quatro subpeças – pança, touca, folhoso e tendão – do estômago do grande ruminante. Todas são ginasticadas energicamente, adquirindo densidades e texturas diversas por efeito da actividade gástrica nas primeiras etapas da digestão. As ervas e demais forragens vão directas para a pança, com relativa velocidade, acumulando pura e simplesmente na lisura desta espécie de bolsa o que o animal vai mordendo e engolindo. Por possuir esta vocação açambarcadora, é a maior parte do imenso órgão. Na fase seguinte, entra em acção a touca – ou barrete -, cuja textura de favos é inequívoca, ficando em batimentos ritmados de expulsão e readmissão, de novo para a pança, e da pança para a touca, o animal vai remastigando e reengolindo ciclicamente, até que a verdura fresca ingerida fermenta, por efeito dos sucos produzidos. Segue-se a etapa do folhoso, também conhecida como entrefolhos e em que há absorção dos excessos de líquido, e finalmente o tendão, ou coagulador, onde quimicamente se inicia a digestão. É na verdade um entrançado de tendões, e é onde se cria a maior parte do sabor das tripas. A diversidade de funções produz variedades de sabor e impressões texturadas de boca, e a natureza essencialmente musculada do estômago precisa de cozedura lenta e temperaturas não muito elevadas, pelo que muitas vezes se produz as tripas em pote de ferro, com lume de chão. Este território não é para estômagos sensíveis nem para quem desde criança tem repugnância por partes moles da vaca. Na cidade, nutre-se um certo asco a tudo o que é aparas, órgãos e apêndices, como se os talhos não estivessem todos sem excepção nas mãos de quem faz gala das suas raízes e das suas aldeias. Teixeira de Pascoaes fixou no seu “Arte de ser português” que não há português que não tenha a sua aldeia e ao fazê-lo explicou por que gostamos tanto de ser portugueses e seguir os preceitos e imperativos nacionais, de uma forma local.

E AINDA BEM QUE TEMOS TALHOS
Porque a lavagem das tripas é fustigação grande quando nos toca prepará-las para a grande cozedura. E se pode ser dura a provação! Não devemos ser tão dramáticos quanto Pascoaes, mas não se salva na selva carnívora quem não tem um talho de sua confiança. E fazer tripas em casa, na forma canónica das quatro partes que acabámos de abordar, é uma glória. Instrumento extraordinário é a boca da vaca, que exercita em movimentos repetidos a ruminação, criando devagar tesouros intersticiais e duas peças que dão pelo nome de bochechas e estufam maravilhosamente.
O mesmo acontece com sua excelência o porco, produzindo cozinhados de antologia, plenos de sabor e colagénio, graças à transformação lenta pelo fogo. É inevitável entrar nos domínios do reco, mas antes a recomendação grave de não utilizar a panela de pressão para cozer as tripas. A razão mais pungente é a da concentração de sabores pelo processamento lento e sustentado, criando aliás continuidade com o ciclo normal de vida do animal feliz. Com tempo, tudo se conserta e converge, e na cozinha já sabemos: o diabo é a pressa. Em sabor, não tem comparação o que se consegue quando se coze devagar, no assunto das vísceras sobre que nos debruçamos. Agora sim, as bochechas do porco, para reforçar o quanto são dadas à lentidão no fogo ou nas brasas, que grelhadas também são requintadas.

O PORCO, POIS CLARO
Pelo metabolismo e estilo de vida que leva o porco ibérico genuíno, de criação ao ar livre, a alimentação a bolota dá-lhe material para ir sedimentando e entremeando gorduras com tal intensidade de sabor que somos forçados a preferi-lo. As tripas do porco, de resto como a tripa fina da vaca, são utilizadas para produzir os maravilhosos enchidos, que tantas alegrias nos dão. Na matança, que ainda corre um pouco por todo o país, extraímos o redenho logo na primeira abordagem, e transformamos o fino véu em saborosos torresmos, só pela alquimia do calor. Chamamos-lhe torresmos do riçol no Alentejo, das sainhas na Beira Litoral, e do redenho no resto do país; é petisco incrustado no ADN de qualquer português. Mas da barriga do porco esperam por nós o toucinho alto e o toucinho entremeado. Pode ser branco como a neve, rosado como o mármore, e entremeado como se de peça de joalharia se tratasse. Gordura, dirão os menos atentos e os irritantemente urbanos, mas nada de precipitações. Se há peça que é a caixa negra do porco, igual em função às dos aviões, é o toucinho. A alvura indica a qualidade da alimentação e o exercício físico que fez em vida. Colesterol espantosamente baixo, de cerca de 550 mg/kg, mais baixo que a carne de frango sem pele – 600 mg/kg -, arrasa todo e qualquer preconceito. Pegamos num naco de toucinho alto, sujeitamo-lo a marinadas sucessivas, tal como preconizado pelo gigante chef catalão Santi Santamaria, e após 3 dias temo-lo em condições para o assar lentamente e cobrir com caviar e um caldo fino de legumes. Chama candidamente a esse prato “mar e terra” e confessou toda a vida a sua paixão por toucinho. Nós temos o caldo de unto, que não lhe fica atrás e após o desbaste proteico da construção da sopa até uma criança se delicia com o que fica da peça cortada fininho. A papada do porco, extracto sublime do suíno já com alguma idade, faz-se no vapor ou seca-se em fumeiro e temos uma quintessência da história que remonta a milhares de anos nos anais da alimentação. Despertar para estas vísceras e minudências, vai fazer-nos coincidir no exercício do gosto e na perdição boa que nos propõem tripas, glândulas e toucinhos. Assim isso aconteça antes de nós estarmos perdidos.

Sugestão de Harmonização
FAZER AS LOAS AO SENHOR TOUCINHO
Abreu Callado Lágrima Alentejo branco 2017 (Fundação Abreu Callado) – O toucinho entremeado fumado – o bacon, como é mais conhecido – raramente é consumido sem passar pela chapa, grelha ou for¬no. O que faz sentido, a peça ganha dimensão maior quando sujeito ao calor, libertando proteína e gordura saudável. Este branco vai direito à tonalidade salgada e exacerba o lado fumado.
Paço de Teixeiró Vinho Verde Avesso branco 2016 (Montez Champalimaud) – O tão tradicional caldo de unto, que alimentou muitas gerações de portugueses, é dos mais ricos em termos de proteína e ao mesmo tempo é finíssimo na estrutura, prestando-se à aromatização e enriquecimento. Difícil encontrar melhor casamento que com este Avesso das baias minhotas do Douro.
Quinta dos Carvalhais Dão branco 2015 (Sogrape) – O prato mar e terra de a peça fala, da lavra de Santi Santamaria, consta de uma peça alta de toucinho marmoreado, de que o hoje desaparecido chef catalão era grande apreciador, passada por três salmouras diferentes, até chegar ao ponto ideal. Pena não ter conhecido este branco, estrutura fina, acidez bem trabalhada e muito sabor.
Terra a Terra Douro Reserva tinto 2014 (Quanta Terra) – Nos cocurutos transmontanos do Douro, em solos de transição xisto-granito há vinhos de grande elegância que parecem ter nascido para a mesa. Aqui está um exemplo de companhia fiel para peças diversas de toucinho, beijadas e fortalecidas lentamente pelas brasas.
TRIPAS À MODA DO PORTO E OUTRAS MODAS
Aveleda Reserva da Família Minho branco 2017 (Quinta da Aveleda) – As leguminosas – feijão e grão, principalmente – gostam muito de brancos finos e com corte eficaz de acidez. Este vinho vai ainda mais além, por ser copioso na boca e nariz ao mesmo tempo que resolve o caldo forte que normalmente ensopa as tripas. Um travo de piripiri abrilhanta o conjunto.
Psique Dão tinto 2014 (Amora Brava) – Dos solos de granitos velhos e da altitude conjugada muitas vezes com geada, saem vinho que só as mãos mais sábias conseguem produzir. Elegância a toda a prova, e força que se agiganta no contacto com pratos de tacho como as tripas, toques salinos, vinho e prato caem nos braços um do outro.
Falua Unoaked Tejo tinto 2015 (Falua) – Estreme de Touriga Nacional e, como o nome indica, não teve contacto com madeira. A expressão vigorosa que faz da casta de que todos gostamos é particularmente eficaz em preparações como as tripas aos molhos, ladeadas de grão-de-bico ou feijão branco.
Pacheca Douro Tinta Roriz Grande Reserva tinto 2015 (Quinta da Pacheca) – Harmonização feita no céu, esta que amansa por um lado a pujança tânica do vinho, por outro eleva as tripas mais rústicas a iguaria dos deuses. Trata-se de um vinho capaz das empreitadas mais difíceis à mesa, graças à boa enologia praticada.
Edição Nº25, Maio 2019