ENOTURISMO: QUINTA DE CYPRIANO – WINE & NATURE

Quinta de Cypriano

Na região dos Vinhos Verdes, o vinho não nasce apenas da técnica, nem da vinha. Surge de uma aliança profunda entre território, clima, memória e cultura. No Alto Minho, tamanha cultura secular pertence a esta geografia sensível, em que a terra oferece matéria-prima e, ao mesmo tempo, uma linguagem própria. Demarcado oficialmente em 1908, a […]

Na região dos Vinhos Verdes, o vinho não nasce apenas da técnica, nem da vinha. Surge de uma aliança profunda entre território, clima, memória e cultura. No Alto Minho, tamanha cultura secular pertence a esta geografia sensível, em que a terra oferece matéria-prima e, ao mesmo tempo, uma linguagem própria. Demarcado oficialmente em 1908, a este território foi construindo uma identidade singular no panorama vitivinícola europeu, a de vinhos marcados pela frescura, pela vitalidade aromática, pela acidez vibrante e por uma íntima correspondência com o clima atlântico que os molda.

A verdadeira riqueza desta região encontra-se nas diferenças de relevo, de exposição, de humidade, de solo e de tradição humana, as quais tornam cada sub-região uma pequena pátria enológica. Entre todas, o Vale do Lima, inserido na sub-região do Lima, ergue-se como uma das expressões mais delicadas e reveladoras do espírito dos Vinhos Verdes. Aberto à influência do Atlântico, sem barreiras significativas que travem a entrada dos ventos marítimos, o Vale do Lima beneficia de um regime climático onde a humidade, a chuva frequente e a amenidade térmica consistem nos elementos estruturantes da identidade da vinha. É um território onde o excesso raramente domina, o calor não violenta, a maturação não corre. A frescura permanece como uma disciplina natural.

É precisamente neste cenário que Ponte da Barca se afirma como um dos lugares mais expressivos e promissores da viticultura minhota. Os solos, em muitos pontos arenosos e permeáveis, associados à presença marcante do granito, desenham uma base geológica de enorme relevância vitivinícola. O granito drena, regula, obriga a videira a procurar profundidade, o relevo cria exposições diversas, a altitude e a circulação de ar moderam os excessos.

Eis o resultado de uma identidade vitícola que vai muito além da circunstância administrativa de pertencer ao Vale do Lima. Ponte da Barca é um lugar onde a tradição cooperativa, a continuidade do trabalho agrícola e o investimento recente na valorização das castas autóctones revelam um território herdeiro de um passado a preservar, mas também a ser autor do seu futuro. E é precisamente nessa convergência entre memória e modernidade que se joga hoje a relevância de Ponte da Barca no mapa dos Vinhos Verdes.

Quinta de Cypriano

Loureiro e Vinhão

Se há casta que traduz a dimensão mais luminosa e aromática desta paisagem, ela é, sem dúvida, a Loureiro. No Vale do Lima, esta variedade branca encontra uma das suas expressões mais altas e, em Ponte da Barca, adquire, com frequência, uma pureza modelo. Nos melhores exemplares, revela notas citrinas de lima e limão, apontamentos florais delicados, uma vibração fresca e uma limpidez aromática que impressiona. Mas vamos mais além, pois os grandes vinhos feitos a partir da Loureiro são igualmente estruturados, tensos, persistentes. Têm nervo, profundidade, capacidade de envelhecimento. Provam que a delicadeza é uma forma superior de precisão. Em Ponte da Barca, essa expressão ganha, muitas vezes, um recorte muito próprio, menos exuberância gratuita, mais rigor e nitidez. A frescura que ali se encontra vem do vale, da pedra, da luz, da humidade e do tempo.

Mas a narrativa vitivinícola de Ponte da Barca tem ainda um lado mais telúrico, mais visceral presente na casta tinta Vinhão. Apresenta uma enorme intensidade cromática, um perfil aromático vincado, de boca cheia, acidez firme e tanino robusto; e tem vindo a recuperar estatuto como vinho de terroir. Em zonas mais interiores, onde o território ganha resguardo e densidade térmica, como sucede em partes de Ponte da Barca, esta variedade tinta encontra uma gramática própria. Mantém a rusticidade nobre e a vocação gastronómica, e revela uma personalidade que ultrapassa o mero hábito regional.

 

Mesa é território

Há terras que se deixam compreender pela paisagem. Outras, pela história. Ponte da Barca, porém, revela-se de modo mais inteiro quando nos sentamos à mesa. É aí, entre o rumor do rio, a densidade da montanha e a memória transmitida de geração em geração, que o território se torna verdadeiramente legível. Porque esta vila romântica também vive dessa arte maior que é transformar alimento em identidade, que é manter esta herança sustentada pela abundância do rio, pela força da pecuária, pela sagacidade das cozinhas familiares, nobres, e pela persistência de manter sagrado o receituário minhoto que permanece atual.

À mesa, desfilam especialidades, formas de pertença, como a posta Barrosã, robusta e afirmativa, o cabrito da Serra Amarela, impregnado de fogo lento, o sarrabulho, espesso de memória, a lampreia, o sável e a truta, que o rio converte em alimento e liturgia, e, mais recentemente elevado nos roteiros promocionais do concelho, o arroz de cabidela, como expressão de autenticidade e continuidade. Na doçaria, persistem sabores que por mérito resistem ao tempo: o bolo e as rabanadas de mel, as queijadas de laranja, o leite-creme queimado. São doces que não cedem à frivolidade da moda porque pertencem à memória afetiva da cozinha, como arquivo emocional.

É precisamente neste universo que os vinhos encontram a sua razão mais plena e, em Ponte da Barca, harmonizar é reconhecer uma afinidade antiga.

 

O misterioso vale

Cheguei ao Vale do Lima com a sensação rara de entrar num território que se oferece à observação e à escuta. Mais do que uma deslocação geográfica, a viagem impôs-se como uma travessia interior, como se a paisagem, em vez de se mostrar, me chamasse. Num tempo dominado pela pressa, há lugares que conservam o ensinamento da serenidade. O Vale do Lima é um desses lugares. E o rio, além de atributo natural da paisagem, apresenta-se ainda como uma presença serena, majestosa e silenciosamente antiga. Corre como se transportasse no seu leito a memória dos séculos, os segredos das margens, o rumor das lendas e essa misteriosa fidelidade que as comunidades mantêm como segredo. As colinas desenham-se com suavidade. As vinhas estendem-se sobre o território como uma escrita verde e ritmada. Os campos respiram com a serenidade de quem conhece o ciclo do tempo. Os caminhos de pedra devolvem ao viajante a consciência de que antes dele já muitos outros ali procuraram sentido. Pelo meio, surgem solares, muros antigos, jardins resguardados, árvores que parecem guardar segredos.

Foi neste contexto que encontrei a Quinta de Cypriano. À chegada, percebi de imediato que estava diante de uma casa habitada pela espessura do tempo, por tradições sedimentadas, por usos e costumes que não se perderam na voragem do contemporâneo. Mas havia ali algo solene, como se a casa guardasse mais do que paredes, jardins ou memória agrícola. O próprio nome, Cypriano, impôs-se como um enigma. Tinha sonoridade de herança, peso de biografia, ressonância de história antiga. Foi precisamente aí que a minha viagem adquiriu uma nova densidade. Porque diante de certas casas não basta olhar, é preciso interrogar. Quem foi Cypriano? Que vida, que gesto, que memória justificaram a permanência deste nome? Que relação existe entre a casa, o território e a identidade que nela se conserva?

Uma história [à] antiga

Cypriano Joseph da Rocha, ilustre barquense de Ponte da Barca, nascido no Minho e ligado ao lugar de Barral, foi um dos raros servidores da coroa que levaram para o Brasil, não apenas um título, mas uma forma de ordenar o mundo. Em 26 de maio de 1728, embarcou de Lisboa rumo ao Brasil, acompanhado por dois filhos, um com 15 anos, outro com 11, para assumir, inicialmente o cargo de juiz dos órfãos na capitania da Bahia, por mercê de Sua Majestade el-rei D. João V, “O Magnânimo”. Anos mais tarde, exerceu funções em Sergipe d’El-Rei e na capitania de Minas Gerais, o de ouvidor da comarca de Rio das Mortes, esse extenso território que era maior do que o reino que o nosso protagonista deixava. Ultrapassada a fase de adaptação ao clima, à alimentação, aos costumes e à vida social de um território em desenvolvimento e também em expansão territorial, vivendo as mutações económicas, sociais e políticas resultantes do novo ciclo do ouro, Cypriano Joseph da Rocha integra-se a esse novo mundo exposto nas cartas que foi escrevendo, com regularidade, a sua mulher, Maria Luisa.

É em Minas, porém, que o seu nome ganha espessura histórica. Em 1737, já como ouvidor sediado em São João del-Rei, comandou uma expedição de reconhecimento e ocupação para sul, rica em ouro. A sua missão era militar, administrativa, cartográfica, política e civilizadora no sentido setecentista do termo. Reconhecer caminhos, afirmar jurisdição, localizar riquezas, organizar o povoamento e transformar sertão em território governável, era a gramática do poder colonial, e o nosso protagonista desta história soube escrevê-la com mão firme.

O feito mais emblemático dessa ação ocorreu em 2 de outubro de 1737, quando chegou ao local que receberia o nome de São Cipriano e que, com o passar do tempo, se tornaria freguesia, vila e finalmente a cidade de Campanha, que o reconhece como o agente da sua origem e apresenta-se como o lugar “onde nasceu o Sul de Minas”.

O seu impacto, contudo, não se mede apenas por uma cidade, mas pelo efeito em cadeia da sua presença administrativa. As primeiras notícias documentadas sobre a área do atual município de Três Corações remontam precisamente a 1737, quando Cypriano Joseph da Rocha, em trânsito e inspeção pela região, registou a existência de roças e catas de mineração na aplicação do Rio Verde. Esse registo mostra que o nosso protagonista não criou sozinho todas as cidades que, mais tarde, surgiriam no sul de Minas, mas teve um papel matricial na revelação oficial, na legitimação política e na incorporação administrativa de lugares que, depois, se tornariam vilas e municípios.

Em suma, Minas Gerais está fortemente associada a Cypriano Joseph da Rocha não só por causa do cargo que ocupou, mas porque nele se encontra uma das figuras fundamentais do sul mineiro. A sua grande obra não foi um monumento de pedra, mas um desenho de território.

A dignidade do passado

Situada em Quintela de Baixo, Vila Nova de Muía, no concelho de Ponte da Barca, nas margens do rio Lima e com o Parque Nacional da Peneda-Gerês no horizonte, a Quinta de Cypriano ergue-se no coração do Vale do Lima. A propriedade não se limita a ocupar um lugar no mapa, inscreve-se numa paisagem quase íntima, onde a natureza, a memória e o vinho estabelecem entre si uma aliança antiga.

Com a aproximação à Quinta de Cypriano o verde adensa-se, o horizonte abre-se com uma espécie de tranquilidade mineral e a arquitetura da casa parece nascer da própria terra. A propriedade guarda em si a dignidade de um passado rural nobre. Há verdade na presença firme do granito, na forma como os espaços dialogam com a envolvente. O conjunto arquitetónico exibe a sobriedade que atravessa os séculos, com elegância que lhe confere uma beleza mais duradoura. Cada pedra, cada recanto, cada marca do tempo parece carregar consigo uma narrativa capaz de dialogar com o presente e de convocar o futuro.

A Quinta de Cypriano renasce, assim, como projeto de enoturismo da família Andresen Guimarães, concretizado por António e Margarida Andresen Guimarães, a par com os seus quatro filhos Mafalda, Leonor, Pedro e António, numa espécie de pacto entre gerações. Juntos reanimaram o legado traduzido em hospitalidade, onde o vínculo à terra se transforma em vinho e a memória familiar se converte numa forma de acolhimento.

O recorte da casa constrói-se na convivência entre a nobreza rural minhota e a sobriedade dos materiais que envelhecem com dignidade. A inscrição de 1696, à entrada, funciona como uma espécie de pórtico simbólico, a capela secular e o espigueiro antigo aprofundam o sentido de permanência, e as adegas velhas e os lagares de granito devolvem ao visitante a evidência de uma cultura do vinho enraizada em práticas seculares.

A vinha, de 6,5 hectares, ocupa o centro desse universo. A casta Loureiro surge como promessa de elegância, perfume e nitidez. No contexto desta variedade, a Quinta de Cypriano apresenta um Grande Escolha 100% Loureiro e um vinho de curtimenta. Já a Vinhão surge como expressão de profundidade, rusticidade nobre e memória regional, diferente e impactante. São a síntese de território, trabalho, tradição e sensibilidade.

Quem reinventou a propriedade?

Há lugares que se herdam e há lugares que, mais do que herdados, são recriados por quem lhes devolve fôlego e destino. A Quinta de Cypriano é um desses raros casos em que a memória familiar encontrou uma nova linguagem, e essa linguagem tem o rosto, a visão e a energia de Leonor Andresen Guimarães.

A personalidade invulgarmente determinada é já uma marca no percurso de Leonor Andresen Guimarães, que se iniciou no universo das artes e antiguidades, seguindo-se o mundo da restauração, no qual descobriu a dimensão mais profunda daquilo que viria a definir o seu caminho, a arte de receber. Ainda muito jovem, partiu para São Paulo, onde trabalhou em vários restaurantes, entre os quais no célebre D.O.M. do chef Alex Atala. Essa vivência ampliou-lhe horizontes, deu-lhe disciplina e consolidou uma intuição rara para a hospitalidade.

De regresso a Portugal, passou pela restauração e pela organização de eventos, mas percebeu que o verdadeiro projeto de vida teria de unir beleza, autenticidade, mesa, terra e relação humana. Foi essa convicção que pesou, em 2015, na troca de Lisboa por Ponte da Barca, determinada a ajudar o pai a erguer um novo ciclo económico para a Quinta de Cypriano, decisão que mudou o rumo da propriedade.

Com o apoio da família, tomou nas mãos a exploração da propriedade e começou a desenhar aquilo que viria a afirmar-se como um projeto singular de enoturismo. Sem formação inicial em viticultura, Leonor Andresen Guimarães aprendeu, no terreno, o que se faz pela terra, entre talhões, estações e rotinas agrícolas, acompanhando de perto a reestruturação da exploração e introduzindo novas práticas de gestão. Da vinha passou para o vinho, no âmbito do qual frequentou o curso de Expertise Wine Management, no Instituto Superior de Administração e Gestão, no Porto.

Ao mesmo tempo que o projeto de alojamento ganhava forma, a nossa anfitriã desafiou a família a criar uma marca de vinhos própria, inspirada em Cypriano, que já no século XVIII, fazia vinho nos mesmos lagares de granito que permanecem sob a memória da casa. Em 2020, estreia-se a produção vínica executada com base nos métodos tradicionais, com pisa a pé em lagares seculares e a participação entusiasta de familiares e amigos. O resultado traduziu-se em referências que chamaram a atenção pela originalidade e caráter, entre as quais um Loureiro de curtimenta e um Vinhão de grande qualidade. Depois da maternidade, em 2023, surgiram novos vinhos e novas experiências vividas com alma minhota.

 

Refúgio idílico

Foi em 2024 que nasceu a Quinta de Cypriano – Wine & Nature, projeto que traduz a assinatura de da nossa anfitriã em cada detalhe, a forma como se habita o espaço, como se acolhe quem chega, como se conta a quinta, como se serve o vinho, como se transforma uma estadia numa experiência memorável.

A visita organiza-se como um percurso de aproximação ao espírito do lugar. Caminhar entre as vinhas, escutar a explicação sobre o ciclo da planta, participar nas vindimas e em atividades de campo, assistir ou fazer parte na pisa a pé em lagares de granito, compreender as escolhas, aprofundar a leitura dos vinhos em workshops. Tudo isso cria, no visitante, uma relação mais profunda com o que prova. Em vez de consumo apressado, há descoberta, em vez de superficialidade, há imersão.

O alojamento prolonga essa harmonia. Dormir na Quinta de Cypriano – Wine & Nature significa aceitar o convite de uma pausa verdadeira, a estender-se na piscina infinita. Os seis quartos integrados, com discrição, no corpo da propriedade e pensados para oferecer conforto sem romper com o carácter do lugar, proporcionam uma sensação de acolhimento rara. A casa propõe uma experiência de serenidade e intimidade, seja para escapadas românticas, viagens em família ou estadias entre amigos, com quartos comunicantes para grupos.

O conforto contemporâneo, como a instalação de kitchenette nas unidades, por exemplo, anunciam uma hospitalidade superlativa. As janelas e varandas voltadas para a paisagem funcionam como molduras de um quadro vivo, onde a vinha, o rio e as montanhas conquistam o olhar.

Numa época em que o luxo é tantas vezes confundido com excesso, a Quinta de Cypriano – Wine & Nature recorda que o verdadeiro privilégio pode estar na simplicidade bem estruturada e, ao mesmo tempo, na decoração incrivelmente envolvente, que nos impele a regressar. Como se o lugar, discretamente, se tornasse casa, é possível experienciar, a pedido, a gastronomia local e regional. A paixão que Leonor Andresen Guimarães encontra na cozinha, outra expressão do seu mundo, remete para o prolongamento do território à mesa – converter ingredientes em narrativa e dar ao quotidiano uma dimensão de celebração.

É por tudo isto que Leonor Andresen Guimarães se destaca hoje como uma das figuras femininas mais fascinantes do universo vínico contemporâneo. Há, na nossa anfitriã, uma enorme presença inspiradora que marcou, noutros tempos, mulheres decisivas na construção simbólica e humana das grandes casas vitivinícolas. Visitar a Quinta de Cypriano e por lá ficar é perceber que há lugares onde o enoturismo ainda é encontro. Bravo, Leonor!

CADERNO DE VISITA

Comodidades e serviços

Línguas faladas: Português, Espanhol, Inglês, Francês

Loja de vinhos: Sim

Sala de provas: Capacidade máxima para 16 pessoas

Diferentes atividades e refeições (sob consulta): Almoços ou jantares vínicos com marcação prévia, picnic na vinha

Parque para automóveis ligeiros: Capacidade para 12 viaturas

Parque para autocarros: Junto à quinta, há um espaço com capacidade para dois autocarros

Provas comentadas: Ver programas

Wifi gratuito disponível: Sim

Visita às vinhas: Sim

Visita à adega: Sim

Outras atividades/facilidades: Programas combinados, com passeios no Gerês de 4×4 ou trekkings guiados e atividades náuticas no rio Lima ou canyoning no rio Carcerelha. (serviços prestados por parceiros)

 

Eventos

Eventos corporativos: Atividades com empresas

Atividades team building: Combinação de atividades de enoturismo com turismo de natureza

 

Programas e experiências:

Visitas e Provas de Vinho

Prova Loureiro

Visita guiada + prova de 3 vinhos brancos

Duração: 60 min

Mínimo: 2 pax

Preço: €25

 

Prova do Vinhão

Visita guiada + prova de 3 vinhos tintos

Duração: 60 min

Mínimo: 2 pax

Preço: €25

 

Prova Tradicional

Visita guiada + prova de 4 vinhos

Duração: 60 min

Mínimo: 4 pax

Preço: €25

 

Prova Especial           

Visita guiada + prova de 6 vinhos

Duração: 90 min

Mínimo: 4 pax

Preço: €35

 

Prova Premium

Visita guiada + prova de 8 vinhos

Duração: 100 min

Mínimo: 2 pax

Preço: €45

 

Notas: marcação obrigatória e sujeita a disponibilidade; grupos com mais de 12 pessoas sob consulta (IVA incluído).

 

Experiências

Vindima

Participação na vindima, merenda, visita guiada e prova de vinhos

Duração: 3 horas

Mínimo: 2 pax

Preço: €60

 

Vindima com almoço

Vindima, merenda, visita guiada e almoço campestre harmonizado – 4 h

Duração: 4 horas

Mínimo: 4 pax

Preço: €100

 

Vindima com almoço e pisa a pé

Vindima, merenda, visita guiada, almoço campestre e pisa a pé em lagar de granito

Duração: 6 horas

Mínimo: 4 pax

Preço: €120

 

Piquenique

Cesta com produtos regionais, fruta da quinta e 1 garrafa de vinho

Mínimo: 4 pax

Preço: €50

 

Almoço ou jantar vínico

Refeição tradicional com produtos da quinta harmonizados com os vinhos

Mínimo: 6 pax

(preço sob consulta)

 

Notas: experiências de exterior condicionadas pelas condições climatéricas e pela evolução da maturação da uva; marcação obrigatória; grupos com mais de 12 pessoas e para crianças sob consulta (IVA incluído).

 

Petiscos e néctares da quinta

A quinta convida os visitantes a comprarem vinhos e a desfrutarem do espaço com vista para as vinhas, piscina e rio Lima, harmonizando o momento com tábuas, tostas e petiscos locais (consultar valores no site)

 

Horário de funcionamento

Todos os dias, das 09h30 às 18h30

Horários das visitas: às 11h30, às 14h00 e às 16h30

Reservas

enoturismo@quintadecypriano.com

Tel.: 917 586 077 ou 968 467 506

CONTACTOS

Quinta de Cypriano – Wine & Nature

Rua Quintela de Baixo, 95
Vila Nova de Muía, 4980-830 Ponte da Barca

www.quintadecypriano.com

(Artigo publicado na edição de Abril de 2026)

 

 

António Soares Franco na José Maria da Fonseca

António Soares Franco

António Soares Franco, elemento da sétima geração da família proprietária, assume o papel de Head of Marketing da José Maria da Fonseca, a centenária casa da região dos Vinhos da Península de Setúbal e uma das mais históricas do país. A função, que resulta de uma reorganização do departamento de marketing desta empresa familiar, tem […]

António Soares Franco, elemento da sétima geração da família proprietária, assume o papel de Head of Marketing da José Maria da Fonseca, a centenária casa da região dos Vinhos da Península de Setúbal e uma das mais históricas do país. A função, que resulta de uma reorganização do departamento de marketing desta empresa familiar, tem como finalidade dar resposta aos desafios associados à comunicação do portefólio de marcas dentro e fora de portas. Acresce a integração do plano de replantação vitícola na estratégia global de marcas.

Em suma, “o objectivo passa por reforçar a consistência e a relevância das nossas marcas, através de uma abordagem mais integrada e global, respeitando sempre o legado que nos define, mas preparados para responder às exigências dos mercados atuais e futuros”, declarou, em comunicado, o Head of Marketing.

Paralelamente, a entrada de António Soares Franco – que foi responsável pela marca NOS Empresas e liderou projectos de estratégia e gestão de marcas de referência em agências, como a SAMY Iberia e a Fullsix (Havas CX), além de ter trabalhado no Reino Unido, na Hungria e no Cazaquistão, onde integrou a AICEP – vem reforçar a progressiva transição geracional na José Maria da Fonseca, por forma a assegurar e dar continuidade ao modelo familiar da empresa.

Sobre a Aguardente do Douro no Vinho do Porto

douro

A Associação das Empresas de Vinho do Porto (AEVP) define como “inviável” e “ilegal” a obrigatoriedade e exclusividade de aguardente produzida a partir de uvas da região do Douro para o vinho do Porto descrita na Proposta de Lei, que, segundo o comunicado “ameaça o estatuto do Alto Douro Vinhateiro como Património Mundial da UNESCO […]

A Associação das Empresas de Vinho do Porto (AEVP) define como “inviável” e “ilegal” a obrigatoriedade e exclusividade de aguardente produzida a partir de uvas da região do Douro para o vinho do Porto descrita na Proposta de Lei, que, segundo o comunicado “ameaça o estatuto do Alto Douro Vinhateiro como Património Mundial da UNESCO e a sobrevivência do ecossistema vitivinícola da região”. No mesmo documento, “a associação classifica a medida como uma ilusão perigosa que, sob o pretexto de resolver o problema dos excedentes de vinho DOC Douro, esconde uma total inviabilidade jurídica, operacional e económica que ameaça colapsar a viticultura regional duriense”.

A justificação para esta contestação prende-se, segundo a AEVP, com o facto de os vinhos excedentários do Douro não apresentarem “o perfil nem a qualidade exigida para a destilação de aguardente de beneficiação”. Por outro lado, alerta para a eventualidade de Bruxelas fazer uma revisão dos cadernos de encargos inerente ao Vinho do Porto, interferindo nas bases da produção deste, “como o sistema de Benefício, a Lei do Terço e até o engarrafamento na origem”.

Segundo a AEVP, esta Proposta de Lei vai originar “uma subida de 40% no preço dos vinhos standard”, colocando “em risco direto 198 milhões de euros em vendas anuais”. No âmbito do impacto social, a AEVP receia “uma contração do negócio em 50%”, que poderá ter consequências na região, como o despedimento de 3.000 pessoas e a consequente inoperância de centros de vinificação, armazéns e linhas de engarrafamento, a interrupção de compra de uvas na vindima e a “perda de valor fundiário e venda de propriedades por falta de viabilidade “. A associação adverte ainda para o “risco de perda de reputação da Região Demarcada do Douro” e o comprometimento da venda de mais de 260 milhões de litros de Vinho do Porto.

Face a este cenário, a AEVP propõe um plano assente em três medidas: ajuste de oferta, com a ativação da vindima em verde; a implementação de projectos-piloto de créditos de carbono e de natureza, e valorização dos serviços de ecossistema; e destilação voluntária de uvas do Douro e subvencionada pelo Estado.

ATAÍDE SEMEDO: A visão de um veterano da Baga

Ataide Semedo

O nascimento de Ataíde Semedo para o sector dos vinhos inicia-se, precisamente, a 1 de Janeiro de 1978. Apreciador das coisas boas da vida errante da juventude e da frequência de um curso de Engenharia Mecânica nos tempos quentes do pós-25 de Abril, Ataíde Semedo vê nas Caves São Domingos, empresa que teve o seu […]

O nascimento de Ataíde Semedo para o sector dos vinhos inicia-se, precisamente, a 1 de Janeiro de 1978. Apreciador das coisas boas da vida errante da juventude e da frequência de um curso de Engenharia Mecânica nos tempos quentes do pós-25 de Abril, Ataíde Semedo vê nas Caves São Domingos, empresa que teve o seu tio-avô como fundador e o seu pai como um dos sócios, um futuro promissor. O pai era industrial metalúrgico e, não obstante ser sócio da empresa bairradina, a ligação ao sector dos vinhos era nula. Ao pai disse que não lhe queria gastar mais o dinheiro num curso superior para o qual não estava fadado e, não querendo despender mais tempo nos bancos da universidade, ruma ao conforto das caves da aldeia de Ferreiros, no concelho de Anadia, que, afortunadamente, estavam paredes meias com a casa de família. Bem melhor opção que ir para a construção civil!

Na faculdade, apenas a cadeira de química o seduzia – observar a magia das reações obtidas a partir das mais diversas combinações. A partir de então, nasce uma vocação, que passa a ser praticada nos laboratórios, apadrinhado pelo enólogo da Caves São Domingos à data, Mário Pato, filho do enólogo homónimo que revolucionou a enologia nacional na primeira metade do século XX.

À data, a Caves São Domingos era liderada por Lopo de Freitas, que defendia a velha prática da Bairrada de comprar vinhos por toda a região, afinando-os na adega, para posterior comercialização. Ataíde Semedo pensava de um modo diametralmente diferente. O mundo já buscava vinhos com outra minúcia e qualidade. Para alcançar isso, mostrava-se necessário controlar o processo desde a vinha à adega, algo que apenas se alcançaria com a aquisição de vinha e um olhar mais presente sobre todas as opções da viticultura. Não tendo logrado convencer a administração da Caves São Domingos de que esse era o caminho correto, Ataíde Semedo ali permanece até 1987, data em que se dá a rutura com a empresa por divergências de estratégia sobre aquilo que entendia ser o futuro da Bairrada enquanto produtora de vinhos absolutamente diferenciadores.

Por conseguinte, em contraciclo com a região, que vivia tempos nebulosos e muitos produtores arrancavam ou abandonavam vinha, Ataíde Semedo entendia que era a melhor altura para investir em vinhas próprias e abandona a empresa.

 

1987, o ano da Rigodeira

A saída de Ataíde Semedo da Caves São Domingos dá-se a 1 de abril de 1987 e o futuro foi gizado nesse mesmo dia. Entregando a carta de demissão pelas nove horas da manhã, em Ferreiros, dirige-se ao Centro de Saúde de Anadia, onde bate à janela do consultório do seu amigo e colega de longa data, Almeida e Silva, médico local, mais conhecido por “Dr. Pardal”, cuja ligação aos vinhos da Bairrada lhe vinha por intermédio da mãe, detentora da “Casa de Saima”, projeto ao qual deu continuidade. Almeida e Silva já há muito que desafiava Ataíde Semedo para um projeto comum e ali, no consultório, fica pré-definido o futuro. Pouco tempo depois, reúnem-se com o reputado médico fogueirense Joaquim Barros, já de idade avançada, propondo-lhe a compra da Quinta da Rigodeira, à época com uma dimensão de seis hectares. A compra faz-se por um preço amigo e com um prazo de pagamento dilatado. Joaquim Barros vê naqueles dois amigos um futuro promissor.

O início é auspicioso. Aquelas vinhas possuem todo o potencial para produzir belos brancos e tintos grandiosos. Logo na primeira colheita, o Quinta da Rigodeira branco ganha o primeiro Prémio do Concurso de Vinhos da Bairrada e o Quinta da Dôna tinto, da colheita de 1991, arrecada distinções em todas as competições nacionais e internacionais, nascendo ali o mito.

O renascimento do Quinta da Dôna

É absolutamente incontornável para a carreira de Ataíde Semedo, e mesmo para a história dos grandes tintos da Bairrada, falar dos Quinta da Dôna. A história, porém, é simples e está conectada com a natureza das coisas. Em 1991, Ataíde Semedo vinifica isoladamente uma parcela da Rigodeira, conhecida como “Quinta da Dôna”. Ao contrário do que é comum nas vinhas velhas da Bairrada, possuindo estas cerca de 70 anos, não há outras castas misturadas com aquela que assume maior preponderância, a Baga. A segunda experimentação da vindima de 1991 é criar dois modelos de tintos distintos: um vinificado com engaço e um segundo vinificado com uva desengaçada. Este último dá origem, após um estágio longo em barricas, ao primeiro e exclusivo Quinta da Dôna.

A designação Quinta da Dôna, escolhida pelos dois parceiros, resulta em várias colheitas memoráveis, entre elas a de 2001, as quais, e à semelhança do distinto Barca Velha, apenas são lançadas para o mercado nos anos em que se atinge o esplendor qualitativo. O projeto Quinta da Rigodeira/Quinta da Dôna termina em 2002, dada a insustentabilidade do mesmo, pela sua dimensão de 23 hectares, excessiva para o modelo de vinhos e espumantes que Ataíde Semedo pretende criar. Nesse ano, ocorre a alienação à Caves Aliança, que fica igualmente detentora das marcas referenciais. Entretanto, há cerca de dois anos, a vinha, de onde eram oriundos os vinhos Quinta da Dôna, é arrancada, presumivelmente por ter atingido o seu tempo máximo de vida com produções de qualidade.

As características daquela vinha eram muito especiais, mas perfeitamente replicáveis para Ataíde Semedo. No renovado projeto em nome próprio, regressa às dimensões originais, com a aquisição da propriedade de Vale de Carros. A marca Quinta da Dôna também lhe regressa às mãos por caducidade do registo da mesma por parte do anterior detentor, mas, para o renascimento das cinzas da marca mítica, havia que apurar as condições naturais que a levassem a resultados semelhantes àqueles que outrora haviam sido alcançados. Nestas coisas de criar qualidade distinta, só o insuperável fator tempo pode trazer a confiança inabalável.

Plantando as vinhas de Vale de Carros em 2001, só em 2018 Ataíde Semedo entende ter alcançado o nível de maturidade das mesmas e da específica parcela de Baga, para poder voltar a, com galhardia, usar a designação Quinta da Dôna a um vinho da sua lavra. Convenhamos, a Baga continua a ser, na Bairrada, uma casta dada a humores muito especiais, alcançando a excelência apenas em anos em que os astros do clima se conluam, para trazer as temperaturas ideais, a pluviosidade no tempo certo e nunca em setembro, e os ventos que afastam as maleitas da vinha e a humidade relativa.

Após a colheita de 2018, a primeira das vinhas novas de Vale de Carros, sucede-se a de 2020, já esgotada, e, depois de um hiato entre 2021 e 2024, torna a surgir a edição de 2025, um ano, a todos os níveis, perfeito, com lançamento previsto para finais de 2027.

Indagado sobre as diferenças entre os clássicos e os atuais Quinta da Dôna, Ataíde Semedo tende a não os diferenciar e explica-nos. A Baga da vinha velha da Quinta da Rigodeira provinha de plantas com produção muito diminuta por natureza. Nas vinhas novas (agora com mais de 20 anos), o produtor mimetiza o comportamento da vinha velha, realizando uma monda muito expressiva – a planta tem, aproximadamente, 15 cachos –, colocando, no chão, uma média de 10 cachos por cepa, deixando apenas cinco. Como uma vinha nova não possui as mesmas reservas de uma vinha velha, a única forma de lhe imitar o comportamento com maior concentração e uma melhor, mais equilibrada e mais precoce maturação, evitando os excessos para não lhe dar um carácter de sobrematuração, preservando-lhe a frescura inerente à sua elevada acidez natural, é, ainda em verde, diminuir-lhe substancialmente a carga. A prática desta monda severa é realizada apenas no melhor talhão de Baga da vinha. Noutros, a monda é muito menos expressiva, permitindo a maturação total de cerca de oito a 10 cachos por videira.

Um Quinta da Dôna, para a roçar a perfeição, tem de ter, em jovem, características em excesso: ácidos, álcool, cor e taninos. E são as reações químicas que se operam no processo de envelhecimento que lhe vão trazer a elegância e a singularidade única de um grande Baga. Uma espécie de pacto de não agressão entre os excessos, para uma paz duradoura e futura.

Há novas tendências de vinhos inteiros, fermentados com engaço, mas cujo perfil não convence Ataíde Semedo. Definitivamente, os taninos libertados pelo engaço nunca são positivos por terem sempre um carácter herbáceo. Um vinho nobre tem de ser desengaçado, a menos que se queira um resultado mais rústico, característica que a Baga já possui em demasia. A sua experiência no Dão, onde colabora com umas das mais reputadas casas da região, mesmo com outras castas tintas, fá-lo não prescindir do desengace. Olha para o engaço como um espinho cravado numa mão. É um elemento estranho e que em nada beneficia, de modo que, o melhor é mesmo extirpá-lo.

Vinha de Vale de Carros

Nas opções e filosofia de Ataíde, nada é fruto do acaso, tal como não o é a aquisição da propriedade de Vale de Carros. A proximidade com a “sua” Rigodeira e a Quinta da Dôna está ocultada por uma pequena faixa de arvoredo. A distância entre ambas está entre os 300 e os 400 metros. Mas o mais relevante para a decisão da compra foi a semelhança na composição dos solos entre as duas propriedades, com uma forte componente de calcário em solos muito pobres, ideais para o plantio da videira, planta a revelar um desempenho maior em condições de stress hídrico e nutritivo.

São cinco hectares onde, de modo rigoroso e objetivo, planta as castas brancas Bical, Cercial da Bairrada e Chardonnay; e as tintas Baga, Touriga Nacional e Pinot Noir. A exposição da propriedade ajuda a moldar a semelhança com a Quinta da Rigodeira, sobretudo para as virtudes que aporta à Baga. A opção pelas outras castas deriva da sua experiência. Para espumantizar, não teve dúvidas. O privilégio de as várias viagens a França lhe terem permitido provar grandes champagnes, retiram-lhe quaisquer dúvidas sobre a óbvia escolha das internacionais Pinot Noir e Chardonnay, variedades melhoradoras da espumantização, com as locais Bical, Cercial e Baga.

A Bical, casta autóctone, surge para dar corpo aos vinhos, enquanto a Cercial traz a frescura e a vibrância, criando o equilíbrio perfeito, não obstante ter uma tendência para a podridão na vinha e oxidação na adega, o que obriga a um trabalho de muita proximidade nos dois locais. De todo o modo, e isso sente-se nos vinhos e espumantes, é a força do terroir que marca indelevelmente o perfil. E Ataíde Semedo já o sabia antes mesmo da aquisição da parcela. O namoro com esta encosta existe desde o tempo em que liderava a Rigodeira. Os antigos falavam muito nela e gabavam-lhe o potencial. Em segredo, e logo após a venda das vinhas antigas que lhe dá a disponibilidade financeira que anteriormente não possuía, começa o processo negocial de aquisição daquela montra, pertencente a 18 viticultores, num rendilhado de pequenas parcelas. Um trabalho árduo que demorou dois anos e meio a ser concluído, com muitas peripécias pelo meio.

As expetativas são elevadas para aquela propriedade de exposição a sul, contemplando-a com o sol desde as primeiras horas da matina até ao pôr-do-sol. As vinhas, muito velhas, estão decrépitas, com uma produção absolutamente residual e de baixa qualidade. Arranca a totalidade da área de vinha logo no ano de aquisição e, um ano mais tarde, em 2003, realiza o primeiro plantio, que requer um cuidado muito especial. Com o rigor que exigia a si próprio, não hesita em enviar todas as varas para um viveirista reputado em França, onde são enxertadas e regressam, já em 2004, em plantas. Os clones das castas portuguesas – Baga, Touriga Nacional, Bical e Cercial – são submetidos a uma seleção massal, todos enxertados nos porta-enxertos por si escolhidos, tendo, na base, a tipologia do solo, o porta-enxerto, as características da casta e o clone da mesma. Da Baga seleciona ainda clones de vinhas muito velhas do Dão; os 35 melhores clones da Estação Vitivinícola da Bairrada e os clones de Bical e Touriga Nacional são oriundos do Centro de Estudos de Nelas, onde conta com a preciosa da engenheira Vanda Pedroso. O mesmo critério de exigência teve-a na escolha dos clones de Pinot Noir e Chardonnay, os mais aptos e exclusivamente utilizados na produção de espumante.

 

Espumantes e Baga

Porque na Bairrada há vida para além dos vinhos de mesa, os espumantes sempre fizeram parte do universo produtivo de Ataíde Semedo. O traquejo técnico trazia-o da conceituada Caves São Domingos. Na Quinta da Rigodeira tinha chegado a engarrafar 30 mil unidades por ano. Com a saída de Almeida e Silva do projeto, fruto de uma atividade profissional intensíssima como médico, aliada à gestão da Casa de Saima, Ataíde Semedo entendeu que estava na altura de abrandar.

Apaixonado pelas castas internacionais Pinot Noir e Chardonnay, Ataíde Semedo nunca escondeu a paixão pelas virtudes da Baga na espumantização, não crendo, no entanto, que a rainha da Bairrada pudesse mostrar, assim, tanta realeza em espumante extreme da casta. Na Rigodeira, a Baga “descorada” entrava, em segredo, nos lotes de Maria Gomes e Bical, correspondendo, à data, a cerca de 30% da composição do espumante.

As vindimas realizadas em Champagne trouxeram-lhe o conhecimento de vinha e adega no processo de espumantização, e a convicção de que, para fazer espumantes de elevada qualidade na Bairrada, as castas Chardonnay e, sobretudo, Pinot Noir são imprescindíveis, ainda que usadas em lote com outras grandes castas locais. Atualmente, o produtor já não usa a Baga para espumantizar, entendendo que a pequena dimensão de área de vinha que detém e a qualidade que possui para vinhos tranquilos, tornaria mal empregue o seu uso nos espumantes. Ora, se escolhe os melhores clones, os melhores porta-enxertos e os melhores solos, tem de potenciar a casta naquilo em que ela é, criar vinhos tintos de referência mundial. E essas virtudes redundam da capacidade de envelhecimento inigualável, após mostrar muita discrição na juventude, com aromas fechados, engrandecendo com a idade, à semelhança do Nebbiollo (casta tinta italiana).

Com as alterações climáticas, a Baga tem saído bastante beneficiada. Há uma notória antecipação da maturação alcoólica, permitindo colher a uva com um teor provável superior a 13% volume sem que daí resulte uma perda da acidez natural da casta, facto que, segundo o produtor, ocorre em situação de sobrematuração (acima de 14% de álcool provável). Ataíde Semedo não crê muito em vinhos tintos elaborados exclusivamente com Baga de baixo teor alcoólico. Note-se que os Quinta da Dôna, dos quais damos como exemplo as colheitas de 2001 ou 1992, que possuem 13,5% volume alcoólico e foram – e são – vinhos enormes, aos quais o tempo emprestou o glamour e a elegância apenas ao alcance dos maiores. Lá para o final de 2027, voltaremos aqui para provar a mesmo muito auspiciosa colheita de 2025, vinho que, certamente, honrará a fama e a glória dos míticos Quinta da Dôna.

(Artigo publicado na edição de Abril de 2026)

CASA RELVAS: Em casa dos Alexandres

Casa Relvas

A Casa Relvas é uma empresa multifacetada. Mais conhecida pela produção de vinhos, a empresa também está ligada à produção de azeite e pecuária, e Alexandre V ainda tem um gosto especial por cavalos. Além disso, são muitos os borregos criados na Herdade de São Miguel, propriedade agrícola localizada no concelho do Redondo, na região […]

A Casa Relvas é uma empresa multifacetada. Mais conhecida pela produção de vinhos, a empresa também está ligada à produção de azeite e pecuária, e Alexandre V ainda tem um gosto especial por cavalos. Além disso, são muitos os borregos criados na Herdade de São Miguel, propriedade agrícola localizada no concelho do Redondo, na região do Alentejo, apenas para produção de carne, e muitos os quilos de uva que entram na adega desta propriedade alentejana (ver caixa).

Tudo começou, claro, pela produção de vinhos tintos, numa época em que esses eram os mais procurados. O tempo encarregou-se de mostrar que os gostos do consumidor não são um caminho a direito, que vão mudando. Se nos anos 80 e 90 do século XX se imaginasse que os brancos teriam tanta aceitação, muita coisa diferente se teria feito no Alentejo. Porém, essa era a época em que os estatutos da região eram muito pouco flexíveis, obrigando ao plantio de castas, como Trincadeira, Aragonez e Castelão – então conhecida como Periquita –, nos tintos, ou Roupeiro, nos brancos, em percentagens elevadas, para poderem ter direito à Denominação de Origem, e em que, por exemplo, a Alicante Bouschet não estava incluída nas variedades recomendadas e apenas autorizadas. Na lista das brancas estavam incluídas castas hoje muito pouco referenciadas, como Tamarez ou Rabo de Ovelha; mesmo a Antão Vaz estava muito confinada à região da Vidigueira. Outros tempos.

A gestão continua a ser familiar, entre o pai Alexandre e Alexandre V, que entrou em 2006 (já com formação em viticultura e enologia), agora ajudado pelo irmão que faz parte do projecto desde 2019. O negócio teve necessariamente de se diversificar, com um foco muito forte na exportação, que absorve, actualmente, 60% da produção. Os principais mercados – anualmente abrangem cinco milhões de garrafas – continuam a ser a Suécia, a Finlândia, a Bélgica e o Brasil. Como é natural e se imagina, os vinhos de maior produção são desenhados ao gosto de cada um dos mercados. Alexandre não esconde: “temos de colocar algum açúcar residual em muitos vinhos, mais em tintos que em brancos; não há volta a dar. A malta gosta de coisas doces, nomeadamente na restauração e grandes superfícies. Estamos a falar de cinco gramas de açúcar por litro, mas podemos, por vezes, ir até aos nove gramas. E não nos esqueçamos que, para a Polónia, chegam a ir vinhos com 60 gramas de açúcar por litro! Curiosamente, nos brancos há menor apetência pela doçura residual, porque se bebe muito fresco. Se a quantidade pretendida o justificar, podemos ajustar o perfil ao gosto do cliente.”

Perfil actual, vinhas e vinhos

Como se imagina, os tempos da preponderância dos tintos já passou há muito. Hoje, a produção de vinhos brancos não pára de crescer e já corresponde a 30% da produção total, mas “continuamos deficitários”. Os rosés têm adquirido cada vez mais importância, de que são prova os dois rosés da casa, feitos em quantidades já consideráveis (ver notas de prova). A enologia centra-se na Herdade de São Miguel, para os vinhos de gama média/alta, e na Herdade da Pimenta, para o grosso da coluna, nomeadamente os vinhos para as grandes superfícies, muitas vezes com a marca do comprador.

No caso das grandes superfícies, que absorvem cerca de um milhão de garrafas, Alexandre V nota que se está a aumentar a prioridade a vinhos com designativos de qualidade, como ‘Premium’ ou ‘Grande Escolha’, em detrimento dos vinhos a pataco. Contudo, “tudo tem de ser negociado”, confirma, acrescentando que “ainda somos pouco competitivos na vinha, se compararmos com Chile ou Espanha. Mesmo assim, a nossa produtividade média por hectare são 12 toneladas e, às vezes, podemos chegar ao limite estabelecido, que são 15. Mas também sei que se pode fazer um vinho desequilibrado, com produções de três toneladas. Não é por ser uma produção elevada que o vinho é de menor valia. Acho que, no Alentejo, se as produções forem abaixo das seis toneladas por hectare, as contas não saem; só se forem parcelas familiares, em que a família ajuda, etc. Se for profissional, não dá”. Continua a haver muita procura de uva branca, que tem sido paga até €0,55, e a uva tinta, com alguma qualidade, paga a €0,50.

Para vinhos de volume, diz-nos, “temos e acreditamos na Fernão Pires, que funciona muito bem e, claro, temos Antão Vaz e Arinto. Temos um pouco de Verdelho e Sauvignon Blanc. Faz sentido comercialmente, até porque, na restauração e no enoturismo, há muita procura por monocastas. Nas tintas, a Alicante Bouschet e a Trincadeira são as que têm mais expressão, mas também temos Touriga Francesa, Touriga Nacional e Syrah, que funcionam muito bem em rosé”.

A Trincadeira é das castas que mais gosta de trabalhar. “Ela aguenta muita produção, mas não a podemos deixar produzir o que quer, porque, depois, o consumidor não aceita. Tem pouca cor e o vinho fica demasiado ligeiro no corpo. É casta para se ficar nas quatro toneladas por hectare; já a Alicante Bouschet vai facilmente às 12 toneladas, para vinhos de €5, por exemplo. Em venda ao público, abaixo de €4 ou €5 é difícil. A esse preço, se estivermos a falar de vinho com volume, já se pagam contas, mas, enquanto nós aqui valorizamos os nomes e as empresas, um inglês que chega ao supermercado, o que quer é vinho bom e barato. Sabe lá se é Ferreirinha ou Niepoort. Se encontrar um Alentejo a metade do preço do Douro, não hesita. Eu, se fosse produtor do Douro, estaria muito preocupado.”

Inovações e ambiente

Na Casa Relvas, cerca de 95% da vindima já é mecânica. Por exemplo, a poda, nomeadamente para rosés, já é feita mecanicamente, com leitura óptica; depois só se passa para tirar as hastes dos arames. Em contrapartida, a vinha que dá origem ao vinho do Pé de Mãe é submetida a uma vindima feita manualmente, porque fermenta com cacho inteiro.

A renovação dos componentes do solo é outra das acções implementadas pela Casa Relvas, desta feita, com o objectivo de melhorar o perfil aromático dos vinhos; e estão a usar cada vez mais os drones para adubação, porque, por enquanto, não é possível usar para tratamentos fitossanitários – há uma directiva europeia que equipara os drones e as aeronaves, mas o assunto está em vias de nova abordagem, por forma a distinguir ambos. Alexandre informa-nos que também têm tractores autónomos, eléctricos e sem condutor. Há já um grupo fixo de imigrantes nepaleses a trabalhar, mas, mais do que a língua, “é sempre um sarilho conseguir ter toda a documentação certinha e em dia”, confessa.

“Mudámos e melhorámos também o uso das madeiras, com mais tonéis e menos barricas”, informa. No caso das talhas, “já fizemos alguns vinhos, sim, mas cada vez mais entendo que fazer um vinho de talha não é só fazer mais um vinho, é uma forma de vida e isto cada um deve estar onde deve, e não creio que seja por aí o nosso caminho”.

Por aqui, seguem-se igualmente as indicações do Programa de Sustentabilidade dos Vinhos do Alentejo, com preservação ambiental, bem como melhoria e diversidade de flora e vida nos solos, bem como compras preferencialmente locais. Acresce a distribuição de 10% dos resultados em acções sociais. “Temos também muita oliveira, fazemos muito azeite e fazemos prestação de serviços para quem não tem lagar.” É um negócio difícil (perecível) e há um preço de bolsa, que manda no preço do azeite, mas em extensão é rentável. Já para os olivais antigos, Alexandre não tem dúvidas: “só se se vender muito caro é que vale a pena.”

Seguindo o (mau?) hábito dos consumidores, parece que os brancos só são valorizados se forem da colheita anterior. “Já me começam a perguntar pelos 2025”, afirma. O pior mercado externo nesse aspecto é a Alemanha, porque “se enviar uma palete de branco de 2024, devolvem”, ao contrário da Bélgica, que aprecia vinhos com alguns anos.

Fizemos uma prova alargada, ainda que não total, do portefólio da empresa. Ao gosto do produtor, provámos dois vinhos mais antigos, um Herdade de São Miguel Reserva 2011 e um 2014. Este último revelou-se mais interessante e vibrante em detrimento do 2011, um pouco mais caído, ainda que tenha sido um ano muito badalado. Entretanto, e em jeito de alinhamento do legado da Casa Relvas, Alexandre V espera que, o ainda pequeno, Alexandre VI continue a saga familiar.

 

Tudo começou em 1997

Casa Relvas
Adega da Herdade de São Miguel

O bisavô de Alexandre partiu para Angola com 14 anos e foram três as gerações que lá estiveram, na zona de Malange. Tinham negócios ligados à agricultura e à pecuária. O pai Alexandre estava a estudar Gestão, em Portugal, aquando do 25 de Abril. Da parte da mãe, a família era da Beira Interior, já com marca de vinhos: Cruz de Almeida. O bisavô era da Vermiosa. Após o retorno de Angola, a família adquiriu a Herdade de São Miguel em 1997, localizada na zona do Redondo. Esta quinta confinava com as propriedades da família Roquevale.

A primeira tarefa foi replantar na propriedade 100 hectares de floresta, com sobreiros, e 10 hectares de vinha, com as castas então autorizadas – Trincadeira, Aragonez e Castelão. Pouco tempo depois, plantaram Alicante Bouschet. Tudo começou com a venda de uvas ao Esporão. A adega só foi construída em 2003. Outras compras se sucederam: a Herdade da Pimenta, no concelho de Évora, com 60 hectares de vinha, outra na Vidigueira, com 70 hectares, já em produção no sopé da Serra do Mendro, e ainda outra em Alcácer do Sal, onde se produz pinhão. Alexandre V confessa que o pinhão não é grande negócio, uma vez que “60% do rendimento vai para a apanha. É como a cortiça, com jornas de €120. É verdade que é um trabalho de cirurgião que, se for mal feito, estraga muito o sobreiro”, confessa.

Actualmente, gerem 350 hectares de vinha própria e compram uvas proveniente de mais 400 hectares, com assistência técnica a alguns deles. É que uns têm um hectare e outros 70. Varia muito. Alexandre V reconhece que, não sendo tudo vinha própria, consegue-se gerir uma área tão extensa. Ao todo, estamos a falar de oito milhões de garrafas.

(Artigo publicado na edição de Abril de 2026)

LUGARES: Vinhos e perfumes na Mezzanine

mezzanine

Nos últimos meses, a Mezzanine do Bairro Alto Hotel, localizado no Chiado, em Lisboa, tornou-se palco de eventos vínicos mensais. A primeira iniciativa, com o tema “Vinhos e Perfumes”, teve lugar em fevereiro, sob a batuta do Head Sommelier do hotel, Wilian Botignon, que também é perfumista. Em Março, o tema será “Mulheres do Vinho”, […]

Nos últimos meses, a Mezzanine do Bairro Alto Hotel, localizado no Chiado, em Lisboa, tornou-se palco de eventos vínicos mensais. A primeira iniciativa, com o tema “Vinhos e Perfumes”, teve lugar em fevereiro, sob a batuta do Head Sommelier do hotel, Wilian Botignon, que também é perfumista. Em Março, o tema será “Mulheres do Vinho”, com uma prova de vinhos produzidos por mulheres e conduzida por uma sommelière. No dia 8 de Abril, o “Blend do Vinho” é explorado num workshop com o sommelier Gonçalo Mendes. Já para 6 de Maio, João van Zeller, com a colaboração do chef de pastelaria da referida unidade de cinco estrelas, Guilherme Santana, vai preparar uma prova com harmonização intitulada “Vinhos do Porto e Chocolate”.

Mas voltando aos vinhos e perfumes, e à sessão a que assisti, gostaria de partilhar algumas impressões. Como sabemos, ambos os universos são altamente sensoriais e, tanto perfumistas, como provadores de vinho, utilizam o olfato como principal ferramenta de avaliação. Quem trabalha com vinho recorre também ao palato, mas grande parte do sabor resulta dos aromas e da percepção retronasal. É evidente que a concentração aromática no vinho é muito inferior, por vezes ténue, quando comparada com a de um perfume. Nesta experiência, os compostos aromáticos estavam preparados a cerca de 20%, evidenciando essa disparidade. A abordagem sensorial difere e é precisamente esta diferença que torna o exercício particularmente desafiante.

A sessão centrou-se na identificação e associação de matérias-primas da perfumaria e o seu reconhecimento no vinho. A casta escolhida para fazer esta comparação foi a Sauvignon Blanc pelos seus aromas característicos conhecidos por muitos. Para explorar as várias expressões da casta, Wilian trouxe quatro vinhos de diferentes origens: um Pouilly-Fumé Bonnard, de França; um Casillero del Diablo, do Vale Central do Chile; um Villa Maria, de Marlborough, na Nova Zelândia; e um português da Vicentino.

Os participantes foram encorajados a comparar os aromas identificados nos vinhos com aqueles presentes nas tiras olfativas borrifadas com compostos aromáticos correspondentes a cada exemplar. Identificaram, partilharam e discutiram as notas de limão e toranja, fruta tropical como manga, maracujá, ananás e melão, bem como aromas vegetais e verdes de relva cortada, folha de tomate, pimenta verde, sálvia branca e ainda groselha verde. Esta última é muito característica da Sauvignon Blanc, mas o fruto em si é pouco conhecido em Portugal, o que tornou o exercício especialmente interessante para muitos participantes. Outro exemplo curioso foi o gálbano, uma resina aromática extraída de uma planta, que apresenta um aroma intenso, verde, balsâmico e amadeirado ao mesmo tempo. É possível identificar esta nota em alguns vinhos de Sauvignon Blanc.

A experiência teve um feedback muito positivo por parte dos convidados e, certamente, repetir-se-á, tornando-se um evento recorrente na Mezzanine.

Apenas uma nota final: a sensação que tive neste espaço foi a de entrar numa sala de estar – sóbria, elegante, cuidadosamente decorada e iluminada, com uma sofisticação discreta, mas sem qualquer luxo intimidante. É um espaço onde apetece sentar e relaxar, tomar um copo e conversar sem pressa, ou até ler. Mesmo sem nenhum evento associado, é uma zona de conforto de onde não apetece sair.

 

Bairro Alto Hotel                                                                                mezzanine

Praça Luís de Camões, 2, 1200-243 Lisboa

E-mail: guest.service@bairroaltohotel.com

Tel.: 213 408 288

Experiência vínica: €45 (por pessoa)

Horário: das 18h00 às 19h30

Nota: Requer reserva

 

Os “Melhores do Ano” do Concurso Vinhos de Portugal 2026

Concurso

Foram desvendados os vencedores da 13ª edição do Concurso Vinhos de Portugal, promovido pela ViniPortugal. O destaque maior é direccionada para os “Melhores do Ano”, distinção atribuída aos vinhos que mais se evidenciaram entre as 1.170 referências que fizeram parte desta competição. Neste alinhamento, constam os seguintes: o Chryseia 2023, da Symington Family Estates, no […]

Foram desvendados os vencedores da 13ª edição do Concurso Vinhos de Portugal, promovido pela ViniPortugal. O destaque maior é direccionada para os “Melhores do Ano”, distinção atribuída aos vinhos que mais se evidenciaram entre as 1.170 referências que fizeram parte desta competição. Neste alinhamento, constam os seguintes: o Chryseia 2023, da Symington Family Estates, no Douro (Melhor do Ano), o Andreza Espumante Brut Nature 2020, da Lua Cheia, Saven, no Douro (Espumante), o Encontro 1 Arinto , da Quinta do Encontro, na Bairrada (Varietal Branco), o Quinta do Noval Touriga Nacional 2021, da Quinta do Noval, no Douro (Varietal Tinto), o Quinta das Bágeiras Fogueira 2023, da Quinta das Bágeiras, na Bairrada (Vinho Branco – blend), o Chryseia 2023 (Vinho Tinto – blend) e o Henriques & Henriques Boal 30 anos, da Henriques & Henriques, da região da Madeira (Licoroso).

No total, foram entregues 351 prémios distribuídos por 30 de Grande Ouro, 87 de Ouro e 234 de Prata, sendo o Douro a região mais premiada, com um total de 98 medalhas. De acordo com o comunicado da ViniPortugal, “os vinhos distinguidos com medalhas de Grande Ouro e Ouro garantem presença em eventos internacionais organizados pela ViniPortugal, ao longo do ano, o que reforça o papel do Concurso como plataforma estratégica de promoção internacional”.

Concurso

O Concurso Vinhos de Portugal 2026 representou o culminar de três dias de provas técnicas realizadas entre 4 e 6 de Maio, envolvendo a avaliação efetuada por 141 especialistas – enólogos, sommeliers, jornalistas e wine educators –, dos quais 24 internacionais. As referências distinguidas com Medalha de Ouro e reconhecidas como os Melhores do Ano foram submetidas a uma nova aferição, papel desempenhado pelo Grande Júri constituído por Bento Amaral, Dirceu Júnior MW, Luís Lopes, Paulo Nunes, John Sumners e Victoria Mackenzie MW.

“Este Concurso tem um papel muito relevante na forma como os vinhos portugueses são percebidos lá fora. Ao reunir jurados internacionais com diferentes perfis, desde sommeliers a jornalistas e líderes de opinião, estamos a criar uma rede de embaixadores que conhecem de perto a qualidade, a diversidade e a autenticidade do que se produz em Portugal. Esse contacto directo é decisivo para aumentar a confiança e a presença dos nossos vinhos nos mercados externos”, declarou Frederico Falcão, Presidente da ViniPortugal.

A lista completa dos premiados pode ser consultada no site do Concurso Vinhos de Portugal em:  https://concursovinhosdeportugal.pt/.

Editorial: Na dúvida, beba rosé

Editorial

Editorial da edição nrº 109 (Maio de 2026) Vamos assumir: os rosés chegaram à liga dos campeões do vinho. Há 20 ou 25 anos, nem eram tema de conversa. Bebiam-se, quando muito, mas não se lhes dedicava tempo, painéis de prova ou capas de revista. Primeiro, porque não havia muitos; depois, porque raramente tinham qualidade. […]

Editorial da edição nrº 109 (Maio de 2026)

Vamos assumir: os rosés chegaram à liga dos campeões do vinho. Há 20 ou 25 anos, nem eram tema de conversa. Bebiam-se, quando muito, mas não se lhes dedicava tempo, painéis de prova ou capas de revista. Primeiro, porque não havia muitos; depois, porque raramente tinham qualidade. Hoje falamos e discutimos estilos de rosés, se devem ter mais acidez ou menos tanino, se é um disparate beber um rosé com quatro anos de estágio ou, pelo contrário, um sinal de elevação do produto. Nem de todos os confrontos de ideias nasce a verdade, mas, no mínimo, servem para chamar a atenção e talvez reflectir.

Foi em 1682, em Argenteuil, na região de Île-de-France, que o termo “rosé” surgiu pela primeira vez, não como invenção de um novo estilo de vinho, mas como nome tardio para uma prática muito mais antiga. Também em França foi criada a primeira designação de origem exclusiva para rosés: a Tavel AOC, em 1936. Os vinhos rosados já se produziam na região; o estatuto apenas veio formalizar uma identidade existente. E não eram vinhos pensados como leves ou de ocasião. Muitos exemplares apresentavam estrutura, corpo e capacidade de envelhecimento, sendo historicamente vistos como rosés “sérios”, com lugar à mesa, bem antes da vaga moderna de vinhos pálidos e descomplicados.

Os rosés da Provence quase não ultrapassavam as fronteiras regionais e estavam longe de ser uma referência aspiracional. Aliás, antes das décadas de 1980 e 1990, talvez o único rosé verdadeiramente global fosse o nosso Mateus Rosé, que iniciou a sua marcha pelo mundo em 1942. A partir dos anos 2000 começa a construção de imagem de um rosé: cor pálida, garrafa elegante, um imaginário mediterrânico associado, tudo orientado para um consumo visual. Provence torna-se, então, praticamente sinónimo de rosé no mercado global.

Hoje há rosés para todos os gostos e para todas as carteiras. Existem profissionais do sector que se especializaram no tema, como por exemplo a britânica Elizabeth Gabay, uma das maiores autoridades mundiais em rosé. Também na Grandes Escolhas, temos vários colegas que são verdadeiros advogados da categoria. O Concours Mondial de Bruxelles (CMB) organiza, desde 2022, uma sessão dedicada exclusivamente a rosés. O concurso “Escolha do Mercado” da Grandes Escolhas, que terá lugar a 18 de Maio, acrescentou este ano, uma categoria específica para rosés, a par com brancos e espumantes.

No entanto, continua a existir uma tensão de fundo, que mantém o rosé um passo atrás de outras categorias. Já ouvi várias versões de uma afirmação, cujo sentido se resume a isto: “há sempre um branco ou um tinto melhor”. Foi repetida tantas vezes que quase se confunde com um senso comum. Talvez porque temos uma tendência para hierarquizar – melhor ou pior, acima ou abaixo. Na minha experiência, porém, quando não apetece nem um branco nem um tinto, há sempre espaço para um rosé. Lá em casa, estes vinhos não duram. Não porque não resistam ao tempo, mas porque ninguém lhes resiste a eles.

Nesta edição, propomos uma selecção que ronda as quatro dezenas de rosés de grande qualidade, com preços particularmente apelativos. Vale também a pena ler o texto de Nuno Oliveira Garcia que é uma ode e, ao mesmo tempo, uma reflexão sobre este mundo cor-de-rosa. E mais importante, a peça inclui excelentes sugestões de harmonização. É mesmo uma boa altura para dizer: não é branco, nem tinto. É rosé!  V.Z.