ENOTURISMO: ESPAÇO PORTO CRUZ

ESPAÇO PORTO CRUZ

Vila Nova de Gaia, vista desde a Ribeira do Porto, parece um vitral de telhas e pedra, onde o rio Douro repousa antes de ser mar. Não foi por acaso que as Caves do Vinho do Porto se instalaram ali e não na cidade ‘Invicta’. A história conta-se como quem segue o referido curso fluvial, […]

Vila Nova de Gaia, vista desde a Ribeira do Porto, parece um vitral de telhas e pedra, onde o rio Douro repousa antes de ser mar. Não foi por acaso que as Caves do Vinho do Porto se instalaram ali e não na cidade ‘Invicta’. A história conta-se como quem segue o referido curso fluvial, de montante para jusante, do ímpeto para a paciência. O vinho nascia e era reforçado no Douro vinhateiro, descia em rabelos, sofrendo com o sol, a corrente e a invernia, e, ao chegar à foz, precisava de um lugar que lhe oferecesse o compasso de espera destinado à maturação. Gaia oferecia essa pausa. O microclima, moldado pela proximidade do Atlântico, a neblina frequente e a orientação a norte de muitos armazéns criavam uma câmara de respiração lenta – temperaturas mais estáveis, humidade elevada, menores perdas por evaporação, luz contida.

O Porto, do outro lado, era mercantil e solar, feito de escritórios, alfândegas e cais apressados; Gaia, em contracanto, era sombra útil, tempo alongado e chão disponível para naves compridas de madeira e granito. Assim, Gaia preparava a gramática do envelhecimento – tanoeiros, ensacadores, provadores, arrais –, um léxico inteiro dedicado a vigiar a passagem do tempo dentro das aduelas.

Mas há ainda a lei, essa paisagem invisível que fixa itinerários. Em 1756, a demarcação pombalina da região do Douro inaugura um regime de controlo e qualidade sem precedentes. Ao longo do século XIX, cristaliza-se o “entreposto de Gaia”, segundo o qual o Vinho do Porto destinado à exportação devia estagiar e ser despachado a partir dali. A norma, que perdurou até 1986, funcionou como um íman institucional, atraindo capital, mão de obra e conhecimento para a encosta de Santa Marinha e arredores. Mesmo depois da revogação, quando a modernidade permitiu envelhecer e engarrafar no próprio Douro, a inércia qualificada manteve-se: quem já tinha pedra, saber e reputação não desistiu do lugar.

Também a história internacional pesou. O Tratado de Methuen, datado de 1703, afinou o eixo luso-britânico, entre tarifas, privilégios, redes. As grandes casas, muitas de raiz anglo-saxónica, assentaram os escritórios no bulício portuense, perto da letra e do câmbio, e estenderam as caves pela encosta de Gaia.

Entre estratégia e memória

A história da Granvinhos tem as suas raízes na Sociedade Manuel R. d’Assumção & Filhos, fundada em 1887, ao presente, o fio condutor é transformar tempo em valor. Em 1975, num período difícil para o setor, a francesa La Martiniquaise adquire a Manuel R. d’Assumção & Filhos e os ativos da Porto Cabral, renomeando a operação, que passa a designar-se Gran Cruz Porto. Ao decidir engarrafar a marca Porto Cruz exclusivamente em Vila Nova de Gaia, antecipou duas décadas a medida estatal de 1995, que proibiria a exportação de Vinho do Porto a granel. Centralizar em Gaia significou afirmar um compromisso com o lugar.

A estratégia iniciada por Jean Cayard, hoje prosseguida pelo filho, Jean-Pierre Cayard, fundamentou-se em investimento, construção de marca e liderança. Em 2001, a Porto Cruz ascende ao primeiro lugar no ranking das marcas de Vinho do Porto. Atualmente, ultrapassa as 10 milhões de garrafas distribuídas por mais de 50 mercados, liderando em países como França, Alemanha, Espanha e Rússia. A campanha ‘Porto Cruz, pays où le noir est couleur’, traduzida pela figura feminina em negro a contrastar com as cores de Portugal, tornou-se um ícone publicitário que se reinventa há quase 40 anos.

Em 1993, a Gran Cruz entra no Vinho da Madeira ao adquirir a Justino’s, em 2010, com a compra da Henriques & Henriques. Hoje, detém cerca de 60 por cento da comercialização do Vinho da Madeira. No Porto, cria, em 1996, a Companhia União dos Vinhos do Porto e Madeira, para marcas de comprador e, em 2007, adquire a C. da Silva, integrando a Dalva e a Presidential.
Na década seguinte, acelera no enoturismo e na produção. A Gran Cruz Turismo surge em 2010, para lançar o Espaço Porto Cruz, no Cais de Gaia, em 2011, a totalidade do capital da Vale de S. Martinho permite, em 2014, erguer em Alijó uma das mais modernas adegas e centros logísticos do país. No mesmo ano, a aquisição da Quinta de Ventozelo — uma das maiores e mais antigas do Douro — fecha o ciclo. A presença em toda a fileira, da vinha ao copo, reforço do segmento premium e uma leitura de terroir que não se esgota na garrafa.

Em 2018, a Gran Cruz House e o restaurante Casario (na Ribeira) e, em 2020, o Ventozelo Hotel & Quinta aprofundam a vocação de “mostrar o Douro numa quinta “e, sobretudo, experiências que transformam património em hospitalidade.

Diversificação e novo ciclo

Em 2022, o grupo passa a controlar a Vicente Faria Vinhos – segunda maior exportadora de Douro – e a Quinta de Santa Luzia, alargando portefólio aos Vinhos Verdes e aos Vinhos de Lisboa. No mesmo ano, adquire as Caves Borlido e a marca Albergaria (1972), com dois licores populares, amêndoa amarga e ginja, acima de um milhão de garrafas/ano.

Desde janeiro de 2023, o nome Granvinhos espelha a fusão, por incorporação, da C. da Silva e da Companhia União dos Vinhos do Porto e Madeira na Gran Cruz Porto. No mesmo ano, a entrada na região dos Vinhos Verdes celebra-se com a compra da Sociedade Agromar, SA. Deste modo, a Quinta de S. Salvador da Torre, no Vale do Lima, acrescenta dimensão agronómica a uma paisagem em mudança climática.

A aposta da empresa no enoturismo nasce de uma intuição centrada no facto do vinho se compreender melhor quando é vivido através de experiências, decisão estratégica que imperou na criação de palco urbano para contar a sua história a públicos cosmopolitas, o Espaço Porto Cruz. A jornada prossegue na Quinta de Ventozelo, onde a experiência se aprofunda, com o ritmo agrícola, a topografia extrema e a biodiversidade. A estadia, os percursos, as provas orientadas e a cozinha de proximidade convergem num ecossistema que prolonga o tempo de atenção do cliente.

As caves do Vinho do Porto

As gentes de Gaia, discretas e hospitaleiras, são o sal da narrativa das famílias centenárias que aqui se estabeleceram, da história do xisto, das encostas, do suor dos homens e das mãos das mulheres. São os armazém-mestres que sabem ler a temperatura do ar, as mãos que viram pipas, os olhos que medem a luz; são os trabalhadores da doca, os cozinheiros que escolhem os produtos ideais para a harmonização, os jovens que ensinam turistas a distinguir um Tawny de um Ruby. É neste contexto que o vinho deixa de ser apenas uma tradição e cultura, para se tornar, em simultâneo, experiência, conhecimento e hospitalidade que começa no copo e se estende à cidade.

Foi por tudo isto que escolhi deambular pelas margens do rio Douro, onde estas caves, alinhadas como se fossem um coro antigo, se impõem. Havia em mim uma fome mansa de procurar uma memória que não é só minha, a memória do Douro, das mãos que moldam a madeira, do silêncio que cabe numa pipa. Foi neste estado de disponibilidade que dei por mim diante do Espaço Porto Cruz. A fachada azul e imponente cruza linguagem e vinho, tradição e gesto contemporâneo, ponto de chegada e ponto de partida. Ali percebi que o meu passeio tinha um destino sem ter roteiro. Entrei devagar. Levei comigo a certeza de que, às vezes, é preciso deambular, para que algo em nós desperte.

Em permanente descoberta

Entrar no Espaço Porto Cruz é como partir à descoberta, com base em projeções, mapas, fotografias e pequenos rituais de prova, que conduzem o visitante por um percurso didático e sensorial. Não é um museu, embora ensine, não é um bar, embora convide, não é uma sala de aula, embora explique. É, antes, um laboratório de perceções, onde o Vinho do Porto é desmontado em notas de noz, cacau, casca de laranja, figo seco e terra quente.

Cada piso acrescenta uma ideia ao ensaio líquido, o vinho do Porto. Entra-se pelo lado do Cais de Gaia e percorrem-se quatro andares, como capítulos de uma mesma narrativa se tratasse: origem, interpretação, mesa e horizonte. No primeiro piso, o “My Porto Cruz” recebe o visitante como um prólogo interativo. É um lugar de descoberta guiada, com conteúdos sobre a região, as casas, a paisagem e a “mulher de negro”, que serve de metáfora à marca. Entre painéis e Sala Douro, percebe-se que o vinho é linguagem, memória e território, uma espécie de mapa afetivo, onde o Douro se lê tanto com os olhos como com o paladar.

O segundo piso aprofunda a conversa e muda o tom, no auditório e na sala de provas. O vinho deixa de ser abstrato e passa a argumento sensorial. É onde acontecem sessões, mostras e pedagogia do “néctar”, com copo na mão, tempo abrandado, comparação e lógica dos estilos e das idades. No terceiro piso, o restaurante DeCastro Gaia convida à degustação gastronómica e vínica. É palco de um diálogo de texturas e temperaturas, onde o Vinho do Porto pode temperar, contrastar ou, simplesmente, ser pretexto de demora à mesa. É o território da convívio.

O quarto piso é um epílogo aberto, com o Terrace Lounge 360º. A vista desfaz fronteiras, com o rio Douro, a ponte e a cidade ‘Invicta’, em frente, a acompanharem um copo ou um cocktail de Vinho do Porto. Se o rés-do-chão é mercado e iniciação, o terraço é a síntese.

ESPAÇO PORTO CRUZ

 

Diálogo com a cozinha portuguesa

Treze anos após a inauguração, o restaurante DeCastro Gaia foi redecorado e a carta afinada, mas sempre fiel à matriz, a cozinha portuguesa tratada como matéria viva e não como vitrine. O chef Miguel Castro e Silva regressa aqui com a gramática de raiz em casas de pasto e petisco reerguido, onde a linguagem culinária reafirma a velha tese de que quando o produto lidera, a técnica acompanha e a memória encontra o caminho da preservação no futuro. A seu lado, o sub-chef José Guedes acrescenta um segundo olhar a quatro mãos. Resultado? O menu lê as preferências de quem chega sem perder a origem de quem cozinha. É este o ponto de encontro de uma tradição que interroga, contemporaneidade que escuta. O ritmo da sala está, agora, mais intimista, graças à luz intimista baixa conforto que convida a ficar por mais tempo.

Na nova carta, o percurso desenha-se em sabores que soam familiares e, ao mesmo tempo, respiram novidade: um cake de legumes com chutney de tomate e maçã abre o apetite, o choco salteado encontra no molho verde um contraponto fresco, o arroz de polvo, em registo Provençal, dialoga com os filetes de polvo, o novilho laminado recebe um molho de mostarda portuguesa que o afina, a costela mendinha aterra sobre milhos de couve e o pudim de requeijão e laranja encerra com doçura e sem gravidade.

A fidelidade ao produto e a coragem de o reler são, definitivamente, as premissas do DeCastro Gaia. Treze, aqui, não é superstição, é método e mestria. E quando o ruído passa, o que permanece é o sabor e a memória do encontro. Como é fácil ser feliz no Espaço Porto Cruz!

CADERNO DE VISITA

 Comodidades e Serviços

Línguas faladas: português, inglês, francês, espanhol

Loja de vinhos: interior 40pax

Restaurante: para 60 lugares sentados

wine bar no roof top

Roof top:   60 lugares sentados

Esplanada de rua:  40 lugares

Sala de prova sentados: 20

Sala de Reuniões: sim (sob consulta) 30pax

Diferentes atividades e refeições (sob consulta): sim

Provas comentadas (ver programas)

Wifi gratuito disponível: sim

Visita às vinhas no Douro (sob consulta) – Quinta de Ventozelo

Visita à Adega no Douro (sob consulta)

Passeio e prova nos barcos, no Rio Douro (sob consulta)

Eventos

Eventos corporativos: sob consulta

Atividades team building: habitualmente selecionam workshops de cocktails

Experiências

Prova Porto Cruz

Porto Cruz White, Porto Cruz Special Reserve e Porto Cruz LBV 2004.

Preço: 10€

Prova Origens dos Sabores

Porto Cruz White, Porto Cruz Pink, Porto Cruz Tawny e Porto Cruz Ruby

Inclui: harmonização com quatro chocolates artesanais.

Preço: 15€

Prova Tawny Style

Porto Cruz Tawny, Dalva Tawny Reserve Pure, Porto Cruz 10 Anos, Porto Cruz 20 Anos e Dalva Porto Colheita 1995.

Preço: 30€

Prova Porto Vintage

Porto Cruz LBV 2004, Porto Cruz Vintage 2005, Porto Cruz Vintage 2011 e Dalva Porto Vintage 2017.

Inclui: copo surpresa para o cliente adivinhar o vinho.

Preço: 35€

Prova Porto Descoberta

Dalva Porto Dry White, Porto Cruz Lágrima, Porto Cruz Pink, Porto Cruz 10 Anos e Porto Cruz Vintage 2005.

Inclui: harmonização com cinco queijos, biscoitos artesanais, azeitonas, fruta e amêndoas.

Preço: 35€

Prova Heritage

Dalva Porto Colheita White 2007, Dalva Porto Colheita White 2011, Dalva Porto Dry White 20 Anos e Dalva Porto Dry White 40 Anos.

Preço: 40€

Prova Premium

Dalva Porto Dry White 40 Anos, Dalva Porto Colheita White 2007, Dalva Porto Colheita 1985, Porto Cruz Tawny 20 Anos, Dalva Porto Colheita Tawny 1995, Porto Cruz LBV 2004 e Porto Cruz Vintage 2011.

Preço: 70€

Prova Encantos de Ventozaelo (DOC Douro)

Quinta de Ventozelo DOC Douro Viosinho, rosé e Touriga Nacional, e azeite Virgem Extra Quinta de Ventozelo.

Inclui: harmonizada com pão rústico e azeitonas temperadas.

Preço: 22€

Prova Douro e Mar (DOC DOURO)

Dalva DOC Douro branco e conserva de sardinha em azeite e limão, Dalva DOC Douro rosé e conserva de ventresca de atum em azeite, e Dalva DOC Douro Reserva Tinto e paté de cavala picante.

Preço: 50€ (duas pessoas)

Menu Tradições

1 cálice de Porto Cruz Special Reserve, nata e café.

Preço: 8€

Prova Kids

Prova de três sumos com três chocolates.

Preço: 8€

Workshop de Cocktails |25€

Reserva mínima de quatrp pessoas e mediante disponibilidade.

Preço: 25€

Nota: quanto ao número mínimo e máximo de pessoas (por programa), aconselha consulta prévia

Horário de Funcionamento

Loja

Inverno: de 1 novembro a 31 de março, de terça-feira a domingo, das 11h00 às 19h00

Verão: de 1 de abril a 31 de outubro, de terça-feira a sábado, das 11h00 às 20h00, e ao domingo, das 11h00 às 19h00

Restaurante DeCastro Gaia

De terça-feira a sábado, das 12h30 às 23h00, e ao domingo, das 12h30 às 19h00

Terrace Loungue 360º

De terça-feira a sábado, das 12h30 às 00h00, e ao domingo, das 12h30 às 19h00

 Reservas

geral@myportocruz.com

CONTACTOS

Espaço Porto Cruz 

Largo Miguel Bombarda, 23

4400-222 Vila Nova de Gaia

Tlf. +351 220 925 401

www.espacoportocruz.pt

geral@myportocruz.com

Loja on-line: www.granvinho.pt

(Artigo publicado na edição de Dezembro de 2025)

Azeite biológico para os mais novos

azeite

Numa época em que o verdadeiro sabor dos alimentos é tema de debate entre especialistas da área da nutrição e cozinheiros, em especial no que aos hábitos alimentares das crianças diz respeito, eis que surge no mercado um azeite de produção biológica certificada criado especialmente para os mais pequenos. Chama-se Mainovo e é da Mainova, […]

Numa época em que o verdadeiro sabor dos alimentos é tema de debate entre especialistas da área da nutrição e cozinheiros, em especial no que aos hábitos alimentares das crianças diz respeito, eis que surge no mercado um azeite de produção biológica certificada criado especialmente para os mais pequenos. Chama-se Mainovo e é da Mainova, nome reconhecido no mundo vitivinícola no coração do Alentejo.

Quanto às características deste azeite, a Mainova destaca a acidez baixa, o perfil aromático mais suave em relação aos demais e a origem 100% natural. Por isso, e de acordo com o comunicado, “o Mainovo assume-se como um aliado na introdução de novos alimentos, contribuindo para o desenvolvimento de um paladar variado, curioso e equilibrado”.

Para os mais curiosos, a Mainova desenvolveu o audiobook infantil intitulado “As Aventuras do Mainovo” (As aventuras do Mainovo | Podcast on Spotify). Há ainda três receitas elaboradas pela Nutricionista Joana Azevedo Nunes, Mestre em Nutrição Pediátrica e histórias em áudio no site da Mainova (Mainovo).

Manuel Pinheiro é o novo Presidente da CVR do Dão

manuel pinheiro

Administrador da Global Wines (Casa de Santar e Quinta de Cabriz) até 2022, Manuel Pinheiro assume, agora, a função de Presidente da Comissão Vitivinícola Regional (CVR) do Dão, para o triénio 2026-2028. Em declarações para a Revista Grandes Escolhas, sublinhou a importância de reforçar a valorização dos vinhos produzidos na região vitivinícola que representa, já […]

Administrador da Global Wines (Casa de Santar e Quinta de Cabriz) até 2022, Manuel Pinheiro assume, agora, a função de Presidente da Comissão Vitivinícola Regional (CVR) do Dão, para o triénio 2026-2028. Em declarações para a Revista Grandes Escolhas, sublinhou a importância de reforçar a valorização dos vinhos produzidos na região vitivinícola que representa, já que se trata de um produto de “grande qualidade” que nada tem a ver não se coaduna com “o mercado de grandes volumes”, mas antes num mercado em que a qualidade se posiciona num patamar superior.

Com o intuito de firmar e perpetuar a mais-valia associada ao vinho, enquanto produto de qualidade, o novo responsável pelo território vitivinícola do Dão sublinha a importância de preservar a diversidade de castas tradicionais. A formação técnica destinada aos viticultores, bem como a criação de uma academia destinada aos profissionais, são outras das propostas para o triénio 2026-2028. Tornar o Dão um destino enoturístico apetecível é outro dos objectivos inscritos no programa, cuja aposta incide no incremento da venda directa do vinho na adega, no sentido de gerar valor imediato para o produtor.

No currículo, Manuel Pinheiro soma a presidência da Comissão Vitivinícola da Região dos Vinhos Verdes com a função de Secretário-Geral, seguida da de Presidente da ANDOVI – Associação Nacional das Denominações de Origem Vitivinícola Portuguesas, bem como o cargo de Vice-Presidente do Conselho Europeu Interprofissional do Vinho.

Os novos órgãos sociais da CVR do Dão serão apresentados no dia 23.

 

Inscrições abertas para o Concurso Vinhos de Portugal 2026

concurso

Até ao dia 20 de Março, os produtores podem inscrever os vinhos na 13ª edição do Concurso Vinhos de Portugal da ViniPortugal. O valor a pagar é de 80€, para além do IVA, por referência. Para quem preferir efectuar a inscrição antecipada, há a possibilidade de a realizar até 20 de Fevereiro, com um desconto de […]

Até ao dia 20 de Março, os produtores podem inscrever os vinhos na 13ª edição do Concurso Vinhos de Portugal da ViniPortugal. O valor a pagar é de 80€, para além do IVA, por referência. Para quem preferir efectuar a inscrição antecipada, há a possibilidade de a realizar até 20 de Fevereiro, com um desconto de 5€ por cada vinho. O registo é feito através do site oficial desta iniciativa (https://www.concursovinhosdeportugal.pt/).

A primeira fase desta acção está agendada para as manhãs dos dias 4, 5 e 6 de Maio, nas instalações do CNEMA, em Santarém. Eis o palco do Júri Regular composto por 24 jurados internacionais, a que se juntarão os nacionais – enólogos, escanções, jornalistas especializados, membros das câmaras de provadores das Entidades Certificadoras e Organizações de Certificação, chefs de cozinha, profissionais da área da comercialização de vinhos e enófilos.

Já o Grande Júri, responsável pela segunda fase, reunirá nas manhãs dos dias 7 e 8 de Maio, em Évora. Este painel é constituído por nomes de reconhecido prestígio nacional nas áreas da prova, crítica, comunicação e formação, como Luís Lopes, Bento Amaral e Dirceu Vianna Junior MW, bem como Paulo Nunes, que se estreia nesta iniciativa da ViniPortugal. A nível internacional, estarão presentes John Sumners, recentemente nomeado provador responsável pela categoria Portugal da Wine Enthusiast, e Victoria MacKenzie MW, Head of Product Development for Wine Qualifications no Wine & Spirit Education Trust (WSET), entre outros. Neste contexto, consta a avaliação de todos os vinhos classificados com Medalha de Ouro, procedendo-se a atribuição das medalhas Grande Ouro e à selecção dos Melhores do Ano por categoria.

concurso

QUINTA DO SAMPAYO: A temporada 2.0

Quinta do Sampayo

Vale da Pinta, freguesia do concelho do Cartaxo, integrado no território vitivinícola do Tejo. É uma espécie de planalto, com a floresta a ladear uma extensa propriedade agrícola, cujo início remonta a 1995, ano da compra da Quinta da Caneira, seguindo-se a aquisição da Quinta do Sampayo. O negócio foi efetuado pelo empresário José Júlio […]

Vale da Pinta, freguesia do concelho do Cartaxo, integrado no território vitivinícola do Tejo. É uma espécie de planalto, com a floresta a ladear uma extensa propriedade agrícola, cujo início remonta a 1995, ano da compra da Quinta da Caneira, seguindo-se a aquisição da Quinta do Sampayo. O negócio foi efetuado pelo empresário José Júlio Macedo e dono do Grupo Agroseber.

“Houve um grande investimento por parte do meu pai. Era um homem visionário. Pretendia fazer sempre o melhor e, aqui, queria fazer um dos melhores vinhos do mundo. Por isso investiu o que investiu”. Aquando da plantação das vinhas, nos anos 90 do século XX, foi construída uma primeira adega. Mais tarde, esta foi substituída por outra, “uma adega totalmente visionária, naquele tempo”, conta Ana Macedo, recordando os momentos passados nesta propriedade do Tejo. “Vinha sempre com ele, nas férias e ao fim de semana. Só os dois.”
Em 2022, é ponderada a decisão de colocar a propriedade à venda. Mas antes de avançarem com o negócio, Ana Macedo e o marido, Pedro Emídio, dão a conhecer a Quinta do Sampayo aos dois filhos. “Quando trouxemos os miúdos, foi uma loucura!” Ter espaço para correr e dar azo à brincadeira, explorar o campo e descobrir os ciclos da natureza ao vivo são imagens que a nossa anfitriã recorda com um sorriso rasgado: “foi uma decisão em família.”

Face a este cenário, e após 10 anos de interregno, Ana Macedo e Pedro Emídio, ambos licenciados no curso de Direito, resolvem retomar a atividade centrada na vinha e na produção de vinho. O investimento feito, outrora, por José Júlio Macedo, colocou de parte a eventual necessidade de substituir o equipamento da adega. Porém, quando retomaram o projeto, tiveram de ativar a estação de tratamento de águas residuais (ETAR) da adega. “Em princípio, no próximo ano, vamos ter uma nova ETAR, que permite aproveitar a água residual tratada para a rega”, informa Ana Macedo, que sublinha a importância de toda a equipa da Quinta do Sampayo, da qual fazem parte Marco Crespo e André Domingos, respetivamente, responsáveis pela enologia e pela viticultura desde janeiro de 2025.

 

Solos sãos, plantas sãs

São cerca de 100 hectares de terra dominada por solos argilocalcários, “aqui com mais calcário que é natural”, acrescenta Marco Crespo, com um percurso de 22 anos na enologia. Como tal, as videiras plantadas nas zonas excessivamente alcalinas deixam transparecer algumas dificuldades, motivo pelo qual são tomadas medidas, no sentido de minimizar os efeitos causados pela deficiência de nutrientes.

Mas nem tudo é imperfeito. A localização favorável da Quinta do Sampayo, que se estende numa parte do Vale da Pinta “relativamente alta em relação ao resto da região”, de acordo com André Domingos, responsável pela viticultura, permite que tenha o vento como aliado no “arejamento das plantas”, beneficiando-as “em desfavor das pragas”. Caso contrário, a humidade permaneceria por um número indeterminado de horas nas folhas, o que levaria ao aumento de míldio e oídio, o dueto mais temido pelos viticultores. Em contrapartida, a precipitação, que não é uma constante por aqui – regra geral, o clima é quente e seco –, é considerada uma mais-valia, já que as águas pluviais ficam armazenadas nos solos de barro, favorecendo as videiras, sobretudo, de sequeiro.

Há dois anos, foram dados os primeiros passos no âmbito da agricultura regenerativa, como “trabalhar o solo e renovar o ecossistema, que as práticas agrícolas convencionais degradaram”, elucida André Domingos. O responsável pela viticultura da Quinta do Sampayo referiu algumas práticas implementadas, “como a descompactação, porque estes solos têm um alto teor de argila, por isso compactam muito facilmente só com a água da chuva, para não falar da transitabilidade das máquinas, que são sempre mais, duas, três, quatro toneladas a passar durante a campanha. Vamos atuar por aí, pela descompactação, para oxigenar as camadas inferiores da terra, dar nova vida aos solos, nomeadamente fungos e bactérias aeróbicas, espécies muito importantes na simbiose com a nossa cultura, que é a vinha”, acrescenta.

O enrelvamento é outra das práticas a implementar. Esta ação visa contribuir para a sanidade dos solos. Para o efeito, são introduzidas entre oito a nove espécies de plantas herbáceas, como leguminosas, brássicas, crucíferas, gramíneas, entre as linhas. “Queremos ter uma panóplia grande, para termos aqui diferentes sistemas radiculares”, explica André Domingos. O objetivo é favorecer a biodiversidade local, a par com a instalação de hotéis para insetos, de modo a minimizar a dominância de pragas e, simultaneamente, contribuir para o equilíbrio do ecossistema.
Paralelamente, a equipa de campo está a substituir os tratamentos convencionais por outros, como “extratos de cavalinha, de mimosa, de carvalho, de óleo de laranja, produtos de base mineral”, enumera o responsável pela viticultura da Quinta do Sampayo, que defende a “gestão nutricional de planta a planta, para obter plantas saudáveis, que se defendam melhor de fatores externos – pragas, doenças stress hídrico” e melhorar a qualidade da matéria-prima.

A introdução de outros sistemas de condução, a replantação de videiras e a supressão das parcelas que “ultrapassam o limiar da rentabilidade” são outras das ações estratégicas postas em prática na Quinta do Sampayo, no que à restruturação das vinhas diz respeito. Mas a reconversão requer tempo. Portanto, fica a promessa de tudo ser feito com calma. “Queremos que esta vinha esteja plantada pelo menos, por 40, 50 ou, se possível, por mais anos”, acrescenta André Domingos.

 

“A ideia é fazer vinhos mais leves, mais frescos”, adianta Mário Crespo

 

Foco nas castas brancas e regionais

A par com esta mudança, surge a aposta no aumento da área de vinha de castas brancas nacionais, nomeadamente regionais, como a Trincadeira das Pratas, que consta na lista das variedades a plantar em 2026. “Caiu muito em desuso, porque é uma casta muito mais difícil de trabalhar, mas queremos ir buscá-la, trabalhá-la e trazê-la para a adega”, continua André Domingos. Antão Vaz, Gouveio, Arinto e Fernão Pires fazem igualmente parte deste plano traçado para o próximo ano. Em 2023, foi plantada a Encruzado. “Também temos Chardonnay e Sauvignon Blanc no encepamento, mas não é tanto a linha que queremos seguir”, continua.

Nos tintos, fazem parte a Castelão, a Touriga Nacional, a Aragonez e a Trincadeira Preta. Esta última é muito valorizada pela equipa da Quinta do Sampayo, motivo pelo qual irá ocupar mais área de vinha em 2026, na propriedade. Em suma, a finalidade é optar por castas que se adaptam ao solo e ao clima desta zona do território vitivinícola do Tejo, embora não haja vontade de “eliminar por completo as castas internacionais, pois podem trazer benefícios no futuro”, reforça André Domingos.

A exploração agrícola soma ainda o olival tradicional contíguo à Quinta do Sampayo, com as variedades de azeitona Galega e Cobrançosa, adquirido em 2023. Uma vez que “estava praticamente abandonado”, houve a necessidade de fazer uma poda de rejuvenescimento, por forma a revitalizar as árvores. Apesar de ainda não haver uma previsão para tornar o azeite um produto a incluir no negócio da quinta, é manifestada a vontade de criar uma marca de azeite a comercializar no futuro.

 

O investimento feito, na década de 1990, revela que o então empresário José Júlio Macedo foi um homem visionário, uma vez que o equipamento dá resposta às exigências enológicas atuais

 

Da vinha para a adega

Marco Crespo reforça a afirmação de Ana Macedo em relação à adega: “está perfeitamente atual”. Aqui, entra apenas uva apanhada à mão, sendo a seleção dos cachos feita na vinha: “prefiro que deitem tudo para o chão e tenham muito cuidado na vinha, que levem mais tempo a apanhar, mas apanhem melhor”. Não obstante se traduzir numa tarefa morosa, rentabiliza o tempo entre paredes. “A maioria da uva é vendida”, revela, com a intenção de esclarecer que o foco está na qualidade do vinho, em detrimento da quantidade. “A ideia é fazer vinhos mais leves, mais frescos”, adianta.

Com um portefólio vínico constituído apenas por quatro vinhos – dois brancos e dois tintos –, o responsável pela enologia da Quinta do Sampayo salienta as alterações na vinificação, comparando a colheita de 2023, ano da retoma da produção vínica, com a de 2024. O Quinta do Sampayo branco 2023 foi feito a partir de Arinto e Fernão Pires, sendo, esta última, a casta preferida do responsável pela enologia. Ambas foram vindimadas e fermentadas em conjunto. Parte do lote estagiou por seis meses em barrica. Resultado: “é mais direto e mais complexo, e evoluiu muito bem ao fim de dois anos.” A respeito do Quinta do Sampayo branco 2024, revela que a vindima da Fernão Pires ficou registada a 26 de agosto e a da Arinto foi efetuada a 19 de setembro. Ao contrário da primeira edição, o blend ocorreu antes do engarrafamento, datado de maio de 2025. Nos tintos, enaltece as características da edição de 2023, um vinho feito a partir das castas Castelão, Syrah e Touriga Nacional, submetido a um estágio de seis meses em barricas. “Tem muita fruta silvestre, nada marcado pela madeira e super expressivo”, descreve Mário Crespo.

Outra mudança a enaltecer nesta nova temporada da Quinta do Sampayo é a opção por uma garrafa mais leve: “reduzimos para aquilo que achamos que é sustentável, que é abaixo dos 400 gramas.” A alteração foi extensível aos rótulos, agora com uma imagem mais estilizada. A próxima novidade será um rosé elaborado com as castas tintas Touriga Nacional, Aragonez e Castelão, e estagiado na ânfora feita à mão instalada na adega da propriedade.
No âmbito da exportação, o foco continua no mercado do Reino Unido, a par com a vontade de entrar no Canadá. Por cá, o vinho da Quinta do Sampayo está presente em restaurantes de Santarém, bem como em hotéis de Lisboa e do Algarve.
Eis o início da nova temporada da Quinta do Sampayo, a respeito da qual Ana Macedo declara: “estou muito motivada com este projeto e a minha vida deu uma volta bastante grande, mas para melhor.”

(Artigo publicado na edição de Dezembro de 2025)

 

CVRA aprova acordo com a Mercosul

Mercosul

O acordo comercial entre a União Europeia e o Mercosul foi aprovado pela Comissão Vitivinícola Regional Alentejana (CVRA), que considera esta acção “um passo estratégico relevante no reforço das relações comerciais entre os dois blocos e uma oportunidade concreta para a afirmação internacional dos Vinhos do Alentejo”, de acordo com o comunicado. Para a CVRA, […]

O acordo comercial entre a União Europeia e o Mercosul foi aprovado pela Comissão Vitivinícola Regional Alentejana (CVRA), que considera esta acção “um passo estratégico relevante no reforço das relações comerciais entre os dois blocos e uma oportunidade concreta para a afirmação internacional dos Vinhos do Alentejo”, de acordo com o comunicado.

Para a CVRA, a eliminação progressiva de tarifas aduaneiras sobre o vinho europeu pode catapultar os produtores portugueses no Mercado Comum do Sul da América, um gigante espaço económico, constituído por quatro países membros (Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai) e os países associados (Bolívia, Chile, Colômbia, Peru e Equador). O destino prioritário é, porém o Brasil, onde o vinho do Alentejo tem vindo a consolidar-se uma notoriedade marcante.

Neste contexto, Luís Sequeira, presidente da CVRA, explica que “o mercado brasileiro é o mais importante destino das exportações dos vinhos do Alentejo, tendo representado cerca de quatro milhões de litros em 2025.” Em relação ao contexto global, este acordo representa, para os Vinhos do Alentejo, “uma oportunidade relevante para aprofundar a presença em mercados-chave, criar valor e reforçar a internacionalização da região”, destaca o presidente da CVRA.

Recorde-se que a internacionalização é um dos pilares centrais do Plano Estratégico dos Vinhos do Alentejo 2026–2031. Este plano tem como objectivo o incremento das exportações, “assente na valorização da origem, na diferenciação da oferta e na afirmação do Alentejo como uma das grandes regiões vitivinícolas do mundo”.

A assinatura deste acordo decorrerá amanhã, dia 18 de Janeiro, na capital do Paraguai e dará início à maior zona de comércio livre do mundo.

 

MENIN: Legado do tempo em prova

Menin

Há cerca de um ano, a Menin Douro Estates lançou 10 vinhos do Porto em simultâneo: cinco brancos e cinco tawnies, com entre os 10 e os 50 anos de envelhecimento. Um feito difícil, que parecia impossível de superar. “Sentimos que tínhamos de dar seguimento a esses vinhos de excelência”, começa por dizer Tiago Alves […]

Há cerca de um ano, a Menin Douro Estates lançou 10 vinhos do Porto em simultâneo: cinco brancos e cinco tawnies, com entre os 10 e os 50 anos de envelhecimento. Um feito difícil, que parecia impossível de superar. “Sentimos que tínhamos de dar seguimento a esses vinhos de excelência”, começa por dizer Tiago Alves de Sousa, enólogo consultor desta casam, “dando um passo ainda maior em frente com o lançamento de dois Portos de 80 anos, um branco e um Tawny”.

São de facto dois vinhos monumentais, com precisão, equilíbrio e uma complexidade notáveis, que foram servidos antes da refeição servida no DOP, restaurante localizado no centro da cidade do Porto. O objetivo deste desafio conjugou-se com a atenção e o destaque merecidos, já que nos foi permitido que ambos permanecessem nos copos durante toda a refeição, para irmos apreciando os aromas inebriantes e as sucessivas nuances que foram apresentando com a passagem do tempo.

No final do almoço, foi fantástico constatar que, mesmo com a temperatura mais elevada, os dois vinhos do Porto são realmente de outra dimensão, pois mantiveram totalmente intacta a singularidade e equilíbrio de cada um. Notável! E que perfume permaneceu na sala. “Estes dois vinhos do Porto 80 anos que agora lançamos são um pedaço de história do Douro, um tesouro, uma peça de ‘relojoaria’, para ser admirada com a reverência que merece”, sublinha Tiago Alves de Sousa.

 

“Estes dois vinhos do Porto 80 anos que agora lançamos são um pedaço de história do Douro, um tesouro, uma peça de ‘relojoaria’”, afirma o enólogo Tiago Alves de Sousa

 

Em busca da excelência no Douro

A Menin nasceu de um sonho: produzir grandes vinhos do Douro e colocá-los no mundo. Este sonho passou a tornar-se realidade em 2018, pelas mãos de Rubens Menin, um dos maiores empresários brasileiros, com uma diversidade de negócios que vai desde a CNN Brasil à banca, passando pela detenção da maior construtora do continente americano. “Tive oportunidade de conhecer todas as regiões vinícolas do mundo e a mais bonita é o Douro”. Beleza que alia a “uma qualidade super especial nos vinhos de mesa, que, no Douro, são relativamente novos e de elevado potencial”, destaca.

Na Menin Douro Estates, com vinhos produzidos em Gouvinhas, na Quinta da Costa de Cima e Quinta do Sol, e na H.O Horta Osório, cujos vinhos são feitos a partir das uvas vindimadas na região do Baixo Corgo, em Santa Marta de Penaguião, a filosofia é a mesma, isto é, totalmente reforçada pela visão de Fásia Braga. Para a diretora-geral da empresa, para quem é crucial produzir vinhos de gama alta, que espelhem o terroir duriense, privilegiando a qualidade ao invés da quantidade. “Estes dois vinhos com 80 anos não são apenas a continuação de um trabalho especial.

São uma afirmação clara do nosso compromisso com a excelência e com o legado duriense. Representam um passo em frente, e ao mesmo tempo, um regresso à origem, à memória, à tradição, à essência do Vinho do Porto”, salienta Fásia Braga.

 

Foram engarrafadas apenas 200 garrafas de meio litro de cada variedade vendidas em caixa de madeira, com o branco ‘vestido’ de prata e o Tawny de ouro

 

Dois hinos à região

Com total carta branca por parte da empresa, e o acesso a lotes muito especiais, a equipa de enologia da Menin Douro Estates, constituída por Tiago Alves de Sousa e Manuel Saldanha, no papel de enólogo residente, lançou-se num trabalho de composição, tendo como base vinhos identificados e adquiridos a pequenos viticultores, para perpetuarem o estágio e, posteriormente, serem trabalhados para o lote final.

A idade mínima de todos os vinhos que compõem os lotes é de 80 anos, traduzindo-se numa complexidade rara, que encerra na riqueza das notas caracterizadas pelas diferentes fases pelas quais o Douro passou no último século. “São dois vinhos que têm a idade a aproximá-los, mas, depois, têm, efetivamente, muitas outras dimensões que, naturalmente, os separam, conferindo a cada um uma identidade muito especial, muito própria”, descreve Tiago Alves de Sousa. O Porto Tawny 80 anos é de facto impressionante. Denota uma complexidade incrível, com notas de caramelo salgado, especiarias exóticas, noz-moscada e laranja confitada. Na boca, é pura harmonia – acidez vibrante, textura sedosa, final interminável. O Vinho do Porto branco não lhe fica atrás. Ainda mais raro, transporta toda a frescura do Baixo Corgo, de onde provém a maior parte dos lotes. Com uma elegância desconcertante, apresenta notas de casca de citrino, flores secas e um toque iodado.

É um vinho com um final interminável. Em suma, ambos são tão complexos, que as notas de prova não lhes fazem provavelmente jus.
Foram engarrafadas apenas 200 garrafas de meio litro de cada variedade vendidas em caixa de madeira, com o branco ‘vestido’ de prata e o Tawny de ouro, honrando, assim, a sua preciosidade e raridade. Durante o almoço foram também servidos três (belíssimos) vinhos Douro DOC, de que daremos nota de prova nesta peça.

(Artigo publicado na edição de Dezembro de 2025)

ASSOCIAÇÃO VIGNERONS: ‘As nossas uvas, os nossos vinhos’

Vignerons

De acordo com o Instituto da Vinha e do Vinho (IVV), entende-se como vitivinicultor-engarrafador “a pessoa singular ou coletiva que elabora vinho a partir de uvas frescas produzidas exclusivamente na sua exploração vitícola, em instalações próprias e exclusivas e que engarrafa nas mesmas ou nas de outrem, em regime de prestação de serviços, assumindo-se como […]

De acordo com o Instituto da Vinha e do Vinho (IVV), entende-se como vitivinicultor-engarrafador “a pessoa singular ou coletiva que elabora vinho a partir de uvas frescas produzidas exclusivamente na sua exploração vitícola, em instalações próprias e exclusivas e que engarrafa nas mesmas ou nas de outrem, em regime de prestação de serviços, assumindo-se como único responsável do produto engarrafado, e de mosto concentrado e mosto concentrado retificado”.

“Se a lei existe, devemos fazê-la cumprir.” Foi com base nesta premissa que Mário Sérgio Nuno, rosto maior da Quinta das Bágeiras, avançou com um movimento que, atualmente, reúne 10 vitivinicultores-engarrafadores de seis regiões do país, para passar dar a conhecer a definição deste ofício, conhecido, em França, como vignerons-independents. A ideia surgiu em junho de 2024, por ocasião dos 35 anos da referida casa bairradina localizada em Sangalhos, no concelho de Anadia. “Grande parte dos produtores que convidei disse que este grupo deveria continuar.” Foi o que fez, criando, a par com os demais produtores envolvidos, os Vignerons de Portugal, sob o lema ‘as nossas uvas, os nossos vinhos’.

Objetivo? Realçar o trabalho realizado com afinco na terra, o cuidado criterioso com as uvas próprias e a atenção aprimorada na feitura do produto final. “Há que falar da nossa genuinidade e da autenticidade dos nossos vinhos. Não são melhores, nem piores do que os vinhos feitos pelos produtores que compram uva ou vinho. Mas o conhecimento que temos das vinhas onde nasceram é único, refletindo-se na forma como as trabalhamos. E isso faz diferença no que entra na garrafa”, elucida Mário Sérgio Nuno.

Trata-se de um trabalho diferenciado quando comparado com o papel desempenhado pelo produtor-engarrafador, o négociant, na língua francesa, que pode comprar uva ou vinho. Mas os Vignerons de Portugal não é um grupo fundado “para ser contra qualquer coisa. No fundo, é para defendermos o nosso conceito e o nosso vinho, e também para promover as marcas de cada um”, adianta o vigneron da Quinta das Bágeiras. Tudo está a ser feito a favor “dos consumidores esclarecidos. Quanto mais claros nós formos na forma como comunicamos, mais perto estamos do sucesso.”

Guardiões de vinhedos

A apresentação decorreu em Lisboa. Marcaram presença as seguintes casas: Vale dos Ares, da região dos Vinhos Verdes, Casas Altas, da Beira Interior, Quinta do Perdigão, Casa da Passarella e Quinta da Alameda, do Dão, Quinta das Bágeiras, da Bairrada, Quinta de Chocapalha, de Lisboa, Quinta da Atela, do Tejo, Rui Reguinga, do Tejo e de Alentejo, e Tapada de Coelheiros, do Alentejo.

Porquê estes 10 vitivinicultores-engarrafadores? É uma forma de mostrar as especificidades de cada região representada pelos elementos que fazem parte deste movimento.
Luís Patrão, enólogo na Tapada de Coelheiros, exploração agrícola localizada em Arraiolos, no Alentejo, levanta uma questão pertinente: “no imaginário das pessoas, quando falamos de um produtor, pensa-se que este trabalha só com uva própria, o que não é a realidade.” Por conseguinte, justifica a necessidade de se afirmarem como “produtores que trabalham exclusivamente com uvas próprias.

Este trabalho exclusivo centra-se no detalhe e isso reflete-se na qualidade do vinho”. Já Rui Reguinga, vitivivinicultor-engarrafador e enólogo, enaltece a figura do vigneron enquanto guardião das vinhas, “a parte mais importante de todo este processo”. O proprietário de 12 hectares de vinhas “muito antigas e visitáveis” com localização privilegiada na serra de São Mamede, distrito de Portalegre, enfatiza a necessidade de cuidar e salvaguardar os aglomerados de videiras, para que estas continuem a ser preservadas pelas gerações futuras. Por tudo isto, salienta a necessidade de traçar a diferença entre o produto final feito a partir de uvas próprias e “os lotes de vinhos comprados com origens que, muitas vezes, não conhecemos”.

Compromisso com a terra

Sandra Tavares da Silva, representante da Quinta de Chocapalha, propriedade vinhateira da família, com localização privilegiada na Aldeia Galega da Merceana, em Alenquer, concelho pertencente à região dos vinhos de Lisboa, vai mais longe. Além de ser “uma forma de estar no mundo dos vinhos”, um vigneron prima por demonstrar “um compromisso muito grande com a terra, o respeito pelo solo e pela água” e o facto de produzir vinho com uvas vindimadas em videiras que estão na sua posse, permite criar “uma identidade muito própria de cada vinho que produzimos”.

Por sua vez, só se torna possível assegurar um resultado de qualidade, “se produzirmos desde a uva até ao vinho”, argumenta Luís Diogo Abrantes, coproprietário da Quinta da Alameda, localizada em Vilar Seco, no concelho de Nelas, Dão. Engenheiro do Ambiente de formação, eleva o profundo respeito pela ecologia e a biodiversidade, e fala sobre as limitações que a decisão de ser vitivinicultor-engarrafador acarreta, uma vez que, “em anos menos bons, temos de garantir a qualidade das vinhas”.

 

“Antes de ser produtor e enólogo” Miguel Queimado é viticultor e agrónomo, daí que as vinhas do projeto familiar Vale dos Ares, na sub-região de Monção, na região dos Vinhos Verdes, continuam a ser cuidadas, mesmo em anos de crise, como o que se vive atualmente no sector do vinho. “Ser vitivinicultor-engarrafador em Portugal não é fácil”, acrescenta Mário Sérgio Nuno, exemplificando que, perante o excesso de vinho na adega, “nós não podemos mandar uma carta a nós próprios a dizer que não queremos mais uvas”. E o inverso também é verdade: “quando, num ano mau, não temos uva suficiente para as nossas necessidades, não podemos comprar ao vizinho”. No entanto, “se queremos crescer, crescemos com os nossos investimentos”, até porque o zelo que se tem com a vinha, “não é nada mais que engarrafar o nosso terroir para o nosso consumidor”, reforça Miguel Queimado. Melhor ainda. Para este nosso entrevistado proveniente do território vitivinícola situado mais a nordeste do país, a agricultura é apenas o início de tudo. Afinal, “quando compram um vinho nosso, estão a apoiar a agricultura e estão a contribuir para que este equilíbrio e esta coesão territorial se mantenha.” Por tudo isto, os Vignerons de Portugal querem prosseguir com esta missão, “especialmente por uma questão de transparência para o consumidor”, assume Luís Diogo Abrantes.

Como “a ideia é rodar por todas as adegas”, segundo Mário Sérgio Nuno, está previsto um evento aberto ao consumidor em geral, na casa de um destes 10 vitivinicultores-engarrafadores, no primeiro sábado de junho do próximo ano.

(Artigo publicado na edição de Dezembro de 2025)