Pêra-Manca em branco e tinto

Pêra-Manca

A Fundação Eugénio de Almeida colocou os primeiros vinhos no mercado em 1986, quando lançou a marca Cartuxa, em versão tinto e branco. Quatro anos depois surgiam os primeiros vinhos da marca Pêra-Manca: o branco, vendido em garrafa renana e o tinto. Desde então, estes vinhos têm tido muitas edições, mais frequentes nos brancos e […]

A Fundação Eugénio de Almeida colocou os primeiros vinhos no mercado em 1986, quando lançou a marca Cartuxa, em versão tinto e branco. Quatro anos depois surgiam os primeiros vinhos da marca Pêra-Manca: o branco, vendido em garrafa renana e o tinto. Desde então, estes vinhos têm tido muitas edições, mais frequentes nos brancos e mais espaçadas no tinto.

Recentemente, a ocasião para o lançamento de uma nova edição do tinto foi motivo suficiente para se provarem outros vinhos da Fundação. O momento teve lugar em Évora, num ambiente que os franceses chamariam de “petit comité”, com um pequeno número de convivas à volta da mesa.

Se Pêra-Manca é a marca mais emblemática da Fundação Eugénio de Almeida, Cartuxa é o nome de um conjunto de vinhos notáveis, que têm enorme aceitação no mercado. Nas várias versões, de brancos a tintos e Reservas, estamos a falar de cerca de 900 000 garrafas por ano. O Cartuxa Reserva tinto, que também provámos, é um vinho com edição anual, mas tal só aconteceu após 2005. Até então, só em alguns anos se comercializava o Reserva. Começaram com 35000 garrafas, mas, actualmente, e fruto da boa aceitação do público, produzem-se 75000 garrafas de Reserva tinto; em 2021 essa quantidade será elevada para 90000.

É um tinto que integra Alicante Bouschet, Aragonez e Cabernet Sauvignon. A percentagem de Cabernet Sauvignon já foi mais elevada, mas agora situa-se nos cinco por cento. Apresenta uma imagem renovada, com uma nova cor de rótulo, que permite facilmente distinguir os dois tintos Cartuxa: o “normal” e o Reserva.

 

 

As castas do Pêra-Manca tinto são a Trincadeira e a Aragonez, variando a percentagem conforme a qualidade da colheita. As parcelas têm, por norma, cerca de 30 anos

 

Fidelidades em branco e tinto

O Pêra-Manca branco é tradicionalmente feito de Arinto e Antão Vaz, combinação que identifica muitos dos brancos do Alentejo, com o Arinto a ser maioritário, isto é, a dominar 65 por cento do lote. A primeira edição, como todas as primeiras edições, funcionou como uma espécie de teste, uma vez que não se adivinhava qual seria a evolução do vinho em garrafa e em cave. Não foi há muitos anos que provei essa primeira edição. A surpresa foi enorme: pela saúde que apresentava, pelas notas terpénicas, pela acidez que conservava tão bem o branco. É um vinho com edição anual e dele fazem-se agora cerca de 100 000 garrafas, quantidade que será aumentada com a colheita de 2024. Atendendo ao preço, pode dizer-se que estamos perante um enorme sucesso de vendas, um grande reconhecimento por parte dos consumidores. No lote, todo o Antão Vaz fermenta em barrica, parcialmente nova, e cerca de 30% por cento do Arinto também estagia em madeira após a fermentação. Este 2023 é um enorme branco alentejano.

O tinto também alinha pelo mesmo padrão de fidelidade e as castas usadas são apenas a Trincadeira e a Aragonez, variando a percentagem conforme a qualidade da colheita. As parcelas têm, por norma, cerca de 30 anos. Ao chegar à adega, e após escolha, as uvas são desengaçadas e os mostos são fermentados em balseiros. O estágio decorre, depois, em tonéis, maioritariamente usados, mas todos os anos há alguns novos, renovando-se, assim, o parque de madeiras. São 18 meses de estágio na madeira, a que se segue um estágio em garrafa.

Como se trata de vinhas velhas, a replantação das cepas que vão morrendo é sempre uma preocupação. Pedro Baptista, administrador e responsável pela enologia da Fundação Eugénio de Almeida, salientou que fazem questão de apenas usar material clonal retirado das vinhas antigas, fazendo-se uma selecção própria, casta a casta. Pode parecer óbvio que assim se proceda, mas não é assunto pacífico. Há limitações legais ao uso de material não certificado, invocando sempre razões sanitárias. Sem essa certificação as varas poderão conter vírus que irão propagar-se na vinha, nomeadamente vírus do enrolamento e nó curto. Sabendo-se que não há maneira de erradicar essas doenças, a forma mais eficaz é exactamente a utilização de material isento de vírus e a queima das cepas infectadas. Mas Pedro Baptista reconhece que a exclusiva utilização de material certificado “padroniza a produção” e acaba por retirar originalidade a muitos vinhos.

O Pêra-Manca vai agora seguir o seu caminho, com sucesso garantido junto de consumidores fiéis, nomeadamente brasileiros, que entram numa garrafeira em Lisboa e fazem a pergunta fatal (cena que já presenciei): tem Pêra-Manca? Se a resposta for positiva, temos brasileiros felizes. Fiz questão de indagar se esse brasileiro, com quem acabei por trocar umas palavras, achava o preço caro. ‘Caro? Oi cara, isto no Brásil (é melhor levar o acento…) custaria quatro vezes mais!’ Palavras para quê?

(Artigo publicado na edição de Dezembro de 2025)

Casa Relvas, o primeiro produtor com o selo PSA

Casa Relvas

A Casa Relvas, no Alentejo, é pioneira na certificação da sustentabilidade do azeite através da obtenção da certificação do Programa de Sustentabilidade do Azeite (PSA), pela OLIVUM – Associação de Olivicultores e Lagares de Portugal, entidade fundada em 2013. Este reconhecimento assinala a preocupação da empresa no que diz respeito à valorização ambiental, social e […]

A Casa Relvas, no Alentejo, é pioneira na certificação da sustentabilidade do azeite através da obtenção da certificação do Programa de Sustentabilidade do Azeite (PSA), pela OLIVUM – Associação de Olivicultores e Lagares de Portugal, entidade fundada em 2013. Este reconhecimento assinala a preocupação da empresa no que diz respeito à valorização ambiental, social e económica do sector olivícola nacional, acção que contribui para firmar o posicionamento do país como exemplo internacional de boas práticas nesta vertente agrícola.

“Esta certificação representa um passo natural num percurso que a Casa Relvas tem vindo a construir há vários anos e o seu compromisso com a sustentabilidade. Mais do que um reconhecimento externo, o selo PSA valida uma forma de estar no sector, assente na responsabilidade, na melhoria contínua e no respeito pelos recursos naturais, pelas pessoas e pelo território”, declara António Relvas, Co-CEO da Casa Relvas. Este marco surge na sequência de um projecto iniciado em 2022, ano em que este produtor foi a primeira das dez maiores empresas produtoras de vinho do Alentejo a receber a Certificação de Produção Sustentável, desta feita da Comissão Vitivinícola Regional Alentejana.

O PSA é um sistema de certificação independente desenvolvido no sentido de dar resposta à crescente exigência dos mercados internacionais em matéria de sustentabilidade, rastreabilidade e responsabilidade social e ambiental. Todo este trabalho assenta num referencial constituído por 98 critérios distribuídos por 26 capítulos, com o intuito de avaliar as questões inerentes à sustentabilidade no âmbito da produção de azeite.

Madeira Wine Company com novo CEO

MADEIRA

Carlos Filipe Fernandes assume oficialmente o cargo de Chief Executive Officer (CEO) da Madeira Wine Company, depois de desempenhar funções como Chief Operating Officer (COO). De acordo com o comunicado, teve um papel fundamental na otimização dos processos de produção e na implementação de melhorias contínuas e excelência técnica em toda a organização durante o […]

Carlos Filipe Fernandes assume oficialmente o cargo de Chief Executive Officer (CEO) da Madeira Wine Company, depois de desempenhar funções como Chief Operating Officer (COO). De acordo com o comunicado, teve um papel fundamental na otimização dos processos de produção e na implementação de melhorias contínuas e excelência técnica em toda a organização durante o seu percurso na empresa.

Face a esta nova fase, Carlos Filipe Fernandes afirma: “Juntamente com a nossa equipa, continuaremos a aperfeiçoar cada etapa da produção, honrando este legado e mantendo os elevados padrões de qualidade pelos quais os nossos vinhos são reconhecidos internacionalmente.”

A respeito de Chris Blandy, que, ao longo de 14 anos, assegurou a liderança executiva, permanece no cargo de Presidente do Conselho de Administração da Madeira Wine Company. Nesta nova função, dará seguimento à visão estratégica de longo prazo e assegurará o compromisso geracional da família Blandy com o Vinho Madeira.

CHARUTOS: Os puros e o Porto

charutos

O consumo de charutos interessa a muitos e desagrada a outros tantos. Por isso, um bom fumador sabe que não deve partilhar o seu prazer em ambientes onde nem todos os presentes aceitam aqueles aromas. Tudo melhora quando se juntam muitos, na mesma sala, e todos têm o puro nas mãos. Foi o caso no […]

O consumo de charutos interessa a muitos e desagrada a outros tantos. Por isso, um bom fumador sabe que não deve partilhar o seu prazer em ambientes onde nem todos os presentes aceitam aqueles aromas. Tudo melhora quando se juntam muitos, na mesma sala, e todos têm o puro nas mãos. Foi o caso no XI Encontro Habanos Day, um evento que já não se realizava desde 2019. Esteve presente o embaixador de Cuba, patrocinador do evento, que relembrou aos presentes que o cultivo do tabaco começou há cinco séculos e que os puros são o verdadeiro ex-libris da ilha.

Muitos fumadores de charutos são também apreciadores de destilados. Nesta grande família encontramos “charutadores” com gostos por vezes muito específicos: para alguns nada bate um whisky de malte com um puro, outros conheci que se deliciavam com uma boa aguardente velha, fosse ela um Cognac, um Armagnac ou uma aguardente portuguesa de qualidade. Neste capítulo, temos muitas aguardentes (e por vezes a preços de saldo), que se batem com as melhores aguardentes estrangeiras. Menos habitual é encontrar apreciadores de puros que acompanhem o prazer do fumo com um vinho do Porto. Já em tempos organizei uma prova desse tipo, todos com o mesmo modelo de charuto. Ao mesmo tempo, foram-se provando destilados e generosos em sequência, incluindo um Porto Colheita bem velho, de finais dos anos 50. Para surpresa geral, ainda que nenhum dos presentes tivesse tido experiência idêntica, o Porto saiu claramente vencedor da contenda.

A Sandeman – empresa de vinho do Porto que integra o grupo Sogrape – foi uma das patrocinadoras do evento. Lá estava bem visível a figura do Don, o homem da capa negra, imagem de marca da empresa, criada em 1928. A Sandeman reclama também para si o ter sido a primeira empresa a ter um ecrã publicitário luminoso na rua (1921). Hoje, está presente em 75 mercados.

Será que liga bem?

A prova dos charutos com a casa Sandeman desenrolou-se em três momentos. A Grandes Escolhas foi convidada a estar presente e apenas participámos no primeiro desses três momentos, precisamente no que tratava do Porto Sandeman e da ligação do Vinho do Porto com o charuto. Para o efeito, esteve presente o brand ambassador da Sandeman, David Faísca, que explicou os diversos tipos de Porto dentro das duas famílias de rubis e tawnies.

Enquanto decorria a explicação sobre o Porto Sandeman, apoiada em material fotográfico projectado em ecrã, as 120 pessoas presentes na sala entretinham-se a fumar o primeiro charuto fornecido para o efeito, um modelo da marca Trinidad. Não é fácil estar numa sala com tanta gente a fumar ao mesmo tempo, mas a verdade é que, para aqueles apreciadores e apreciadoras, isso era assunto de somenos. Todos estavam interessados em tentar acertar no quizz que ia sendo anunciado e que tinha como prémio uma garrafa de Sandeman. Dos tawnies provou-se Sandeman 10, 20 e 30 anos; o perfil Tawny parece reunir mais consenso quanto à boa ligação com o charuto; os rubis são mais agressivos, mas, ainda assim, não deixam de ter adeptos. O ambiente de frutos secos, de notas de mel, figos e fruta em calda são tudo ingredientes que casam bem com o charuto que, de resto, tem da folha de tabaco um descritor, por vezes, usado na apreciação de vinhos.

O segundo momento, a que já não assistimos, prendia-se com a ligação com brandy de Xerez e aí seria um outro o charuto fumado. E para terminar em ambiente de festa, houve um concurso para ver quem conseguia manter a cinza mais longa, sem cair. É mais difícil do que parece e é seguramente bem divertido. Recordo que também os apreciadores de cachimbo têm concursos igualmente divertidos.

Este não é, nem pretende ser, um festival de Habanos como o que se desenrola em Cuba, mas alegra os consumidores, cada vez mais preocupados com os preços elevadíssimos dos charutos cubanos e da precariedade da oferta. Todos acreditam que melhores dias virão.

(Artigo publicado na edição de Dezembro de 2025)

 

 

Vinhos de Portugal na Wine Paris 2026

portugal

Está reforçada a aposta da presença dos Vinhos de Portugal na edição de 2026 da Wine Paris, feira internacional dedicadas ao sector das bebidas a decorrer de 9 a 11 de Fevereiro, no Parc des Expositions, Porte de Versailles, em Paris, França. O expositor, o terceiro maior de um país estrangeiro presente no certame, estará […]

Está reforçada a aposta da presença dos Vinhos de Portugal na edição de 2026 da Wine Paris, feira internacional dedicadas ao sector das bebidas a decorrer de 9 a 11 de Fevereiro, no Parc des Expositions, Porte de Versailles, em Paris, França. O expositor, o terceiro maior de um país estrangeiro presente no certame, estará no Hall 4, com uma área de 2.540 m², e contará com a participação de mais de 300 produtores portugueses.

“A Wine Paris tornou-se, ao longo das últimas edições, num dos principais pontos de encontro para os profissionais da indústria do vinho. Estar presente neste evento é, por isso, estratégico para os Vinhos de Portugal. A nossa participação tem vindo a crescer de forma consistente, com um aumento superior a 150% nos últimos três anos, reflectindo o interesse crescente dos mercados internacionais pela diversidade e qualidade dos vinhos portugueses”, declara Frederico Falcão, Presidente da ViniPortugal.

Em destaque está a sessão “Hidden Gems of Portugal”, agendado para o dia 10 de Fevereiro, às 12h00, e conduzido pelo Master of Wine Dirceu Vianna Junior. Esta acção propõe uma viagem por castas raras portuguesas, que habitualmente estão fora dos grandes circuitos comerciais, por forma a mostrar que a diversidade de castas autóctones é um atributo de diferenciação no mercado global.

No programa, consta, ainda, um Free Tasting, com a prova de 50 vinhos produzidos em várias regiões do país. Esta iniciativa será realizada no âmbito do enoturismo, enquanto vertente de valor para o sector, enquanto ferramenta de promoção, bem como uma mais-valia no contexto da valorização económica, cultural e territorial dos vinhos nacionais.

 

Há um vinho português a bordo da British Airways

Bacalhôa

Quinta da Bacalhôa tinto 2022, do Grupo Bacalhôa, foi seleccionado para integrar a carta de vinhos da classe executiva Club World da British Airways, passando a ser servido aos passageiros de classe executiva da reconhecida companhia aérea durante o 1º trimestre de 2026. A eleição das referências vínicas passa por um processo de avaliação e […]

Quinta da Bacalhôa tinto 2022, do Grupo Bacalhôa, foi seleccionado para integrar a carta de vinhos da classe executiva Club World da British Airways, passando a ser servido aos passageiros de classe executiva da reconhecida companhia aérea durante o 1º trimestre de 2026. A eleição das referências vínicas passa por um processo de avaliação e prova, conduzido pelos especialistas responsáveis pela curadoria de bebidas a bordo.

Esta colheita de 2022 é feita a partir de um lote de duas castas: Cabernet Sauvignon e Merlot. De acordo com a sugestão inscrita no comunicado do grupo, “é um vinho versátil, ideal para acompanhar pratos de carnes vermelhas e caça”, a qual pode ficar como dica para quem ficar em terra. Para quem embarcar na classe executiva da referida companhia de aviação do Reino Unido, fundada em 1916, testemunhará o quão alto pode ir um vinho de produção nacional.

Sobre a Bacalhôa, importa relembrar que se trata de uma empresa vitivinícola nacional com presença fixa no Alentejo, na Península de Setúbal, na Bairrada e no Douro, reunindo mais de 1200 hectares de vinhas, 40 castas diferentes e quatro centros vínicos.

ENOTURISMO: ESPAÇO PORTO CRUZ

ESPAÇO PORTO CRUZ

Vila Nova de Gaia, vista desde a Ribeira do Porto, parece um vitral de telhas e pedra, onde o rio Douro repousa antes de ser mar. Não foi por acaso que as Caves do Vinho do Porto se instalaram ali e não na cidade ‘Invicta’. A história conta-se como quem segue o referido curso fluvial, […]

Vila Nova de Gaia, vista desde a Ribeira do Porto, parece um vitral de telhas e pedra, onde o rio Douro repousa antes de ser mar. Não foi por acaso que as Caves do Vinho do Porto se instalaram ali e não na cidade ‘Invicta’. A história conta-se como quem segue o referido curso fluvial, de montante para jusante, do ímpeto para a paciência. O vinho nascia e era reforçado no Douro vinhateiro, descia em rabelos, sofrendo com o sol, a corrente e a invernia, e, ao chegar à foz, precisava de um lugar que lhe oferecesse o compasso de espera destinado à maturação. Gaia oferecia essa pausa. O microclima, moldado pela proximidade do Atlântico, a neblina frequente e a orientação a norte de muitos armazéns criavam uma câmara de respiração lenta – temperaturas mais estáveis, humidade elevada, menores perdas por evaporação, luz contida.

O Porto, do outro lado, era mercantil e solar, feito de escritórios, alfândegas e cais apressados; Gaia, em contracanto, era sombra útil, tempo alongado e chão disponível para naves compridas de madeira e granito. Assim, Gaia preparava a gramática do envelhecimento – tanoeiros, ensacadores, provadores, arrais –, um léxico inteiro dedicado a vigiar a passagem do tempo dentro das aduelas.

Mas há ainda a lei, essa paisagem invisível que fixa itinerários. Em 1756, a demarcação pombalina da região do Douro inaugura um regime de controlo e qualidade sem precedentes. Ao longo do século XIX, cristaliza-se o “entreposto de Gaia”, segundo o qual o Vinho do Porto destinado à exportação devia estagiar e ser despachado a partir dali. A norma, que perdurou até 1986, funcionou como um íman institucional, atraindo capital, mão de obra e conhecimento para a encosta de Santa Marinha e arredores. Mesmo depois da revogação, quando a modernidade permitiu envelhecer e engarrafar no próprio Douro, a inércia qualificada manteve-se: quem já tinha pedra, saber e reputação não desistiu do lugar.

Também a história internacional pesou. O Tratado de Methuen, datado de 1703, afinou o eixo luso-britânico, entre tarifas, privilégios, redes. As grandes casas, muitas de raiz anglo-saxónica, assentaram os escritórios no bulício portuense, perto da letra e do câmbio, e estenderam as caves pela encosta de Gaia.

Entre estratégia e memória

A história da Granvinhos tem as suas raízes na Sociedade Manuel R. d’Assumção & Filhos, fundada em 1887, ao presente, o fio condutor é transformar tempo em valor. Em 1975, num período difícil para o setor, a francesa La Martiniquaise adquire a Manuel R. d’Assumção & Filhos e os ativos da Porto Cabral, renomeando a operação, que passa a designar-se Gran Cruz Porto. Ao decidir engarrafar a marca Porto Cruz exclusivamente em Vila Nova de Gaia, antecipou duas décadas a medida estatal de 1995, que proibiria a exportação de Vinho do Porto a granel. Centralizar em Gaia significou afirmar um compromisso com o lugar.

A estratégia iniciada por Jean Cayard, hoje prosseguida pelo filho, Jean-Pierre Cayard, fundamentou-se em investimento, construção de marca e liderança. Em 2001, a Porto Cruz ascende ao primeiro lugar no ranking das marcas de Vinho do Porto. Atualmente, ultrapassa as 10 milhões de garrafas distribuídas por mais de 50 mercados, liderando em países como França, Alemanha, Espanha e Rússia. A campanha ‘Porto Cruz, pays où le noir est couleur’, traduzida pela figura feminina em negro a contrastar com as cores de Portugal, tornou-se um ícone publicitário que se reinventa há quase 40 anos.

Em 1993, a Gran Cruz entra no Vinho da Madeira ao adquirir a Justino’s, em 2010, com a compra da Henriques & Henriques. Hoje, detém cerca de 60 por cento da comercialização do Vinho da Madeira. No Porto, cria, em 1996, a Companhia União dos Vinhos do Porto e Madeira, para marcas de comprador e, em 2007, adquire a C. da Silva, integrando a Dalva e a Presidential.
Na década seguinte, acelera no enoturismo e na produção. A Gran Cruz Turismo surge em 2010, para lançar o Espaço Porto Cruz, no Cais de Gaia, em 2011, a totalidade do capital da Vale de S. Martinho permite, em 2014, erguer em Alijó uma das mais modernas adegas e centros logísticos do país. No mesmo ano, a aquisição da Quinta de Ventozelo — uma das maiores e mais antigas do Douro — fecha o ciclo. A presença em toda a fileira, da vinha ao copo, reforço do segmento premium e uma leitura de terroir que não se esgota na garrafa.

Em 2018, a Gran Cruz House e o restaurante Casario (na Ribeira) e, em 2020, o Ventozelo Hotel & Quinta aprofundam a vocação de “mostrar o Douro numa quinta “e, sobretudo, experiências que transformam património em hospitalidade.

Diversificação e novo ciclo

Em 2022, o grupo passa a controlar a Vicente Faria Vinhos – segunda maior exportadora de Douro – e a Quinta de Santa Luzia, alargando portefólio aos Vinhos Verdes e aos Vinhos de Lisboa. No mesmo ano, adquire as Caves Borlido e a marca Albergaria (1972), com dois licores populares, amêndoa amarga e ginja, acima de um milhão de garrafas/ano.

Desde janeiro de 2023, o nome Granvinhos espelha a fusão, por incorporação, da C. da Silva e da Companhia União dos Vinhos do Porto e Madeira na Gran Cruz Porto. No mesmo ano, a entrada na região dos Vinhos Verdes celebra-se com a compra da Sociedade Agromar, SA. Deste modo, a Quinta de S. Salvador da Torre, no Vale do Lima, acrescenta dimensão agronómica a uma paisagem em mudança climática.

A aposta da empresa no enoturismo nasce de uma intuição centrada no facto do vinho se compreender melhor quando é vivido através de experiências, decisão estratégica que imperou na criação de palco urbano para contar a sua história a públicos cosmopolitas, o Espaço Porto Cruz. A jornada prossegue na Quinta de Ventozelo, onde a experiência se aprofunda, com o ritmo agrícola, a topografia extrema e a biodiversidade. A estadia, os percursos, as provas orientadas e a cozinha de proximidade convergem num ecossistema que prolonga o tempo de atenção do cliente.

As caves do Vinho do Porto

As gentes de Gaia, discretas e hospitaleiras, são o sal da narrativa das famílias centenárias que aqui se estabeleceram, da história do xisto, das encostas, do suor dos homens e das mãos das mulheres. São os armazém-mestres que sabem ler a temperatura do ar, as mãos que viram pipas, os olhos que medem a luz; são os trabalhadores da doca, os cozinheiros que escolhem os produtos ideais para a harmonização, os jovens que ensinam turistas a distinguir um Tawny de um Ruby. É neste contexto que o vinho deixa de ser apenas uma tradição e cultura, para se tornar, em simultâneo, experiência, conhecimento e hospitalidade que começa no copo e se estende à cidade.

Foi por tudo isto que escolhi deambular pelas margens do rio Douro, onde estas caves, alinhadas como se fossem um coro antigo, se impõem. Havia em mim uma fome mansa de procurar uma memória que não é só minha, a memória do Douro, das mãos que moldam a madeira, do silêncio que cabe numa pipa. Foi neste estado de disponibilidade que dei por mim diante do Espaço Porto Cruz. A fachada azul e imponente cruza linguagem e vinho, tradição e gesto contemporâneo, ponto de chegada e ponto de partida. Ali percebi que o meu passeio tinha um destino sem ter roteiro. Entrei devagar. Levei comigo a certeza de que, às vezes, é preciso deambular, para que algo em nós desperte.

Em permanente descoberta

Entrar no Espaço Porto Cruz é como partir à descoberta, com base em projeções, mapas, fotografias e pequenos rituais de prova, que conduzem o visitante por um percurso didático e sensorial. Não é um museu, embora ensine, não é um bar, embora convide, não é uma sala de aula, embora explique. É, antes, um laboratório de perceções, onde o Vinho do Porto é desmontado em notas de noz, cacau, casca de laranja, figo seco e terra quente.

Cada piso acrescenta uma ideia ao ensaio líquido, o vinho do Porto. Entra-se pelo lado do Cais de Gaia e percorrem-se quatro andares, como capítulos de uma mesma narrativa se tratasse: origem, interpretação, mesa e horizonte. No primeiro piso, o “My Porto Cruz” recebe o visitante como um prólogo interativo. É um lugar de descoberta guiada, com conteúdos sobre a região, as casas, a paisagem e a “mulher de negro”, que serve de metáfora à marca. Entre painéis e Sala Douro, percebe-se que o vinho é linguagem, memória e território, uma espécie de mapa afetivo, onde o Douro se lê tanto com os olhos como com o paladar.

O segundo piso aprofunda a conversa e muda o tom, no auditório e na sala de provas. O vinho deixa de ser abstrato e passa a argumento sensorial. É onde acontecem sessões, mostras e pedagogia do “néctar”, com copo na mão, tempo abrandado, comparação e lógica dos estilos e das idades. No terceiro piso, o restaurante DeCastro Gaia convida à degustação gastronómica e vínica. É palco de um diálogo de texturas e temperaturas, onde o Vinho do Porto pode temperar, contrastar ou, simplesmente, ser pretexto de demora à mesa. É o território da convívio.

O quarto piso é um epílogo aberto, com o Terrace Lounge 360º. A vista desfaz fronteiras, com o rio Douro, a ponte e a cidade ‘Invicta’, em frente, a acompanharem um copo ou um cocktail de Vinho do Porto. Se o rés-do-chão é mercado e iniciação, o terraço é a síntese.

ESPAÇO PORTO CRUZ

 

Diálogo com a cozinha portuguesa

Treze anos após a inauguração, o restaurante DeCastro Gaia foi redecorado e a carta afinada, mas sempre fiel à matriz, a cozinha portuguesa tratada como matéria viva e não como vitrine. O chef Miguel Castro e Silva regressa aqui com a gramática de raiz em casas de pasto e petisco reerguido, onde a linguagem culinária reafirma a velha tese de que quando o produto lidera, a técnica acompanha e a memória encontra o caminho da preservação no futuro. A seu lado, o sub-chef José Guedes acrescenta um segundo olhar a quatro mãos. Resultado? O menu lê as preferências de quem chega sem perder a origem de quem cozinha. É este o ponto de encontro de uma tradição que interroga, contemporaneidade que escuta. O ritmo da sala está, agora, mais intimista, graças à luz intimista baixa conforto que convida a ficar por mais tempo.

Na nova carta, o percurso desenha-se em sabores que soam familiares e, ao mesmo tempo, respiram novidade: um cake de legumes com chutney de tomate e maçã abre o apetite, o choco salteado encontra no molho verde um contraponto fresco, o arroz de polvo, em registo Provençal, dialoga com os filetes de polvo, o novilho laminado recebe um molho de mostarda portuguesa que o afina, a costela mendinha aterra sobre milhos de couve e o pudim de requeijão e laranja encerra com doçura e sem gravidade.

A fidelidade ao produto e a coragem de o reler são, definitivamente, as premissas do DeCastro Gaia. Treze, aqui, não é superstição, é método e mestria. E quando o ruído passa, o que permanece é o sabor e a memória do encontro. Como é fácil ser feliz no Espaço Porto Cruz!

CADERNO DE VISITA

 Comodidades e Serviços

Línguas faladas: português, inglês, francês, espanhol

Loja de vinhos: interior 40pax

Restaurante: para 60 lugares sentados

wine bar no roof top

Roof top:   60 lugares sentados

Esplanada de rua:  40 lugares

Sala de prova sentados: 20

Sala de Reuniões: sim (sob consulta) 30pax

Diferentes atividades e refeições (sob consulta): sim

Provas comentadas (ver programas)

Wifi gratuito disponível: sim

Visita às vinhas no Douro (sob consulta) – Quinta de Ventozelo

Visita à Adega no Douro (sob consulta)

Passeio e prova nos barcos, no Rio Douro (sob consulta)

Eventos

Eventos corporativos: sob consulta

Atividades team building: habitualmente selecionam workshops de cocktails

Experiências

Prova Porto Cruz

Porto Cruz White, Porto Cruz Special Reserve e Porto Cruz LBV 2004.

Preço: 10€

Prova Origens dos Sabores

Porto Cruz White, Porto Cruz Pink, Porto Cruz Tawny e Porto Cruz Ruby

Inclui: harmonização com quatro chocolates artesanais.

Preço: 15€

Prova Tawny Style

Porto Cruz Tawny, Dalva Tawny Reserve Pure, Porto Cruz 10 Anos, Porto Cruz 20 Anos e Dalva Porto Colheita 1995.

Preço: 30€

Prova Porto Vintage

Porto Cruz LBV 2004, Porto Cruz Vintage 2005, Porto Cruz Vintage 2011 e Dalva Porto Vintage 2017.

Inclui: copo surpresa para o cliente adivinhar o vinho.

Preço: 35€

Prova Porto Descoberta

Dalva Porto Dry White, Porto Cruz Lágrima, Porto Cruz Pink, Porto Cruz 10 Anos e Porto Cruz Vintage 2005.

Inclui: harmonização com cinco queijos, biscoitos artesanais, azeitonas, fruta e amêndoas.

Preço: 35€

Prova Heritage

Dalva Porto Colheita White 2007, Dalva Porto Colheita White 2011, Dalva Porto Dry White 20 Anos e Dalva Porto Dry White 40 Anos.

Preço: 40€

Prova Premium

Dalva Porto Dry White 40 Anos, Dalva Porto Colheita White 2007, Dalva Porto Colheita 1985, Porto Cruz Tawny 20 Anos, Dalva Porto Colheita Tawny 1995, Porto Cruz LBV 2004 e Porto Cruz Vintage 2011.

Preço: 70€

Prova Encantos de Ventozaelo (DOC Douro)

Quinta de Ventozelo DOC Douro Viosinho, rosé e Touriga Nacional, e azeite Virgem Extra Quinta de Ventozelo.

Inclui: harmonizada com pão rústico e azeitonas temperadas.

Preço: 22€

Prova Douro e Mar (DOC DOURO)

Dalva DOC Douro branco e conserva de sardinha em azeite e limão, Dalva DOC Douro rosé e conserva de ventresca de atum em azeite, e Dalva DOC Douro Reserva Tinto e paté de cavala picante.

Preço: 50€ (duas pessoas)

Menu Tradições

1 cálice de Porto Cruz Special Reserve, nata e café.

Preço: 8€

Prova Kids

Prova de três sumos com três chocolates.

Preço: 8€

Workshop de Cocktails |25€

Reserva mínima de quatrp pessoas e mediante disponibilidade.

Preço: 25€

Nota: quanto ao número mínimo e máximo de pessoas (por programa), aconselha consulta prévia

Horário de Funcionamento

Loja

Inverno: de 1 novembro a 31 de março, de terça-feira a domingo, das 11h00 às 19h00

Verão: de 1 de abril a 31 de outubro, de terça-feira a sábado, das 11h00 às 20h00, e ao domingo, das 11h00 às 19h00

Restaurante DeCastro Gaia

De terça-feira a sábado, das 12h30 às 23h00, e ao domingo, das 12h30 às 19h00

Terrace Loungue 360º

De terça-feira a sábado, das 12h30 às 00h00, e ao domingo, das 12h30 às 19h00

 Reservas

geral@myportocruz.com

CONTACTOS

Espaço Porto Cruz 

Largo Miguel Bombarda, 23

4400-222 Vila Nova de Gaia

Tlf. +351 220 925 401

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(Artigo publicado na edição de Dezembro de 2025)

Azeite biológico para os mais novos

azeite

Numa época em que o verdadeiro sabor dos alimentos é tema de debate entre especialistas da área da nutrição e cozinheiros, em especial no que aos hábitos alimentares das crianças diz respeito, eis que surge no mercado um azeite de produção biológica certificada criado especialmente para os mais pequenos. Chama-se Mainovo e é da Mainova, […]

Numa época em que o verdadeiro sabor dos alimentos é tema de debate entre especialistas da área da nutrição e cozinheiros, em especial no que aos hábitos alimentares das crianças diz respeito, eis que surge no mercado um azeite de produção biológica certificada criado especialmente para os mais pequenos. Chama-se Mainovo e é da Mainova, nome reconhecido no mundo vitivinícola no coração do Alentejo.

Quanto às características deste azeite, a Mainova destaca a acidez baixa, o perfil aromático mais suave em relação aos demais e a origem 100% natural. Por isso, e de acordo com o comunicado, “o Mainovo assume-se como um aliado na introdução de novos alimentos, contribuindo para o desenvolvimento de um paladar variado, curioso e equilibrado”.

Para os mais curiosos, a Mainova desenvolveu o audiobook infantil intitulado “As Aventuras do Mainovo” (As aventuras do Mainovo | Podcast on Spotify). Há ainda três receitas elaboradas pela Nutricionista Joana Azevedo Nunes, Mestre em Nutrição Pediátrica e histórias em áudio no site da Mainova (Mainovo).