MENIN: A arqueologia vínica do Douro

Os vinhos velhos da categoria Tawny conhecem, actualmente, um momento de renascimento, tema que tem interessado a cada vez mais empresas e produtores. Tradicionalmente produzidos, sobretudo, na sub-região duriense do Baixo Corgo, os vinhos muito velhos foram, durante décadas, usados para compor os lotes dos tawnies de 30 e 40 anos, que eram as únicas […]
Os vinhos velhos da categoria Tawny conhecem, actualmente, um momento de renascimento, tema que tem interessado a cada vez mais empresas e produtores. Tradicionalmente produzidos, sobretudo, na sub-região duriense do Baixo Corgo, os vinhos muito velhos foram, durante décadas, usados para compor os lotes dos tawnies de 30 e 40 anos, que eram as únicas categorias onde poderiam ser utilizados. Não havia outra e todas as casas do sector guardavam religiosamente os seus stocks para esse fim. Tudo mudou quando, em 2010, se começaram a comercializar vinhos muito velhos que saíam fora das classificações oficiais existentes.
Foi assim que nomes, como a Taylor’s, a Quinta do Vallado, a Quinta do Crasto, a Wine & Soul, a Real Companhia Velha, a Symington, só para citar alguns, resolveram colocar no mercado, a preços que ninguém esperava, vinhos que, ou eram de lotes próprios (caso da Symington), ou tinham sido adquiridos a pequenos lavradores na região, sempre em quantidades muito limitadas. Levamos então cerca de 15 anos de busca e muitas foram as empresas que se interessaram por estes vinhos muito velhos, verdadeiras relíquias que perderiam todo o seu valor intrínseco ao serem usados apenas como parte integrante dos lotes dos tawnies com indicação de idade. O sector e o Instituto dos Vinhos do Douro e Porto (IVDP) responderam a este movimento, criando novas categorias – 50 anos, 80 anos e VV Old –, sendo vinhos fora de qualquer data e que foram aprovados pelo IVDP, integrando, agora, o núcleo “arqueológico” do Vinho do Porto.

Um Porto da era pré-filoxérica
A empresa Menin, já no mercado com vinhos DOC Douro e vinhos do Porto de categorias especiais, resolveu apresentar a sua relíquia, um Porto da era pré-filoxérica, quando as cepas eram plantadas em pé-franco, numa época em que eram outras as castas, bem diferentes das que, no presente, são conhecidas de todos os consumidores quando se fala do Douro. Estes são vinhos de celebração, daqueles que o senso comum aconselha a que sejam bebidos “a dedal”, em momentos solenes, de exaltação desta região mítica e cada vez mais referenciada no mundo, como sendo a terra dos tesouros, onde arqueólogos feitos enólogos, calcorreiam as adegas dos pequenos produtores à procura dos segredos mais bem guardados.
São vinhos de família, que passaram de geração em geração e, agora, apesar do preço elevado, estão à disposição dos apreciadores. Não chega descobrir cada um. É preciso moldar, afinar, polir, refrescar e fazer lotes, de modo a deixá-los expressar o original sem o alterar. E este trabalho de minúcia pode originar perfis diferentes, algo bem patente nos vários vinhos muito velhos já disponíveis no mercado.
Rubens Menin, que esteve presente no evento, é um empresário de sucesso no Brasil e não olhou a despesas para criar, na sub-região do Cima Corgo, o centro da sua operação. Para o efeito, adquiriu, em Gouvinhas, uma quinta com 42 hectares, a que se juntou a empresa Horta Osório e a Quinta Foz Ceira, que pertencia à empresa Bulas Cruz. Criou assim um património que se aproxima dos 200 hectares. Não compram nem vendem uvas, foi-nos dito, e só os vinhos muito velhos são objecto de aquisição na região. A propriedade da empresa Horta Osório situa-se no Baixo Corgo e tomou-se a opção de manter no mercado os vinhos H.O, em virtude da boa aceitação que já tinham adquirido.

Vinhos de vinha centenária
O momento de convívio foi também aproveitado para apresentar dois tintos topos de gama, Maria Fernanda e D. Beatriz, produzidos em homenagem, respectivamente, à filha e à mulher de Rubens Menin. São dois vinhos feitos a partir das uvas colhidas numa extensa parcela de vinha centenária, com mais de 50 castas (onde se inclui uma percentagem de uvas brancas) e dividida em sete blocos, em função da orientação solar e altitude. Cada parcela destas é vinificada separadamente, cabendo, depois, à equipa de enologia – Tiago Alves de Sousa (consultor) e Manuel Saldanha (enólogo residente) – a tarefa de elaborarem os lotes diferenciados.
Por norma, os vinhos tintos elaborados com uvas destas vinhas centenárias têm um carácter muito próprio: muitas das castas tintas usadas tinham pouca cor e o aroma que delas emana afasta-se muito do carácter de fruta viva e vermelha que hoje se consegue obter. Assim, provar estes vinhos obriga a uma atenção redobrada para se entender o carácter e o estilo que outrora – a palavra aqui deverá ser interpretada como “há mais de 100 anos” – fez as delícias dos nossos antepassados. Importa, por conseguinte, perceber muito mais do que comparar a actualidade com o passado.
Os stocks de vinhos do Porto vão dos 10 aos 50 anos. Por isso, vamos ter mais vinhos Menin no futuro. E também num futuro, que se pretende próximo, haverá uma aposta forte no enoturismo.
(Artigo publicado na edição de Abril de 2026)
Cinema ao ar livre, sunsets e vindimas ao pôr do sol na Villa Alvor

A programação arranca a 22 de Maio, pelas 20h00, com Villa Alvor a transformar-se numa sala de cinema a céu aberto com as sessões promovidas pelo All Stars Cinema. A experiência cruza obras-primas cinematográficas com a envolvência das vinhas algarvias e, esta primeira sessão exibe Good Will Hunting, filme premiado com dois Óscares e eternizado […]
A programação arranca a 22 de Maio, pelas 20h00, com Villa Alvor a transformar-se numa sala de cinema a céu aberto com as sessões promovidas pelo All Stars Cinema. A experiência cruza obras-primas cinematográficas com a envolvência das vinhas algarvias e, esta primeira sessão exibe Good Will Hunting, filme premiado com dois Óscares e eternizado pela interpretação de Robin Williams. Cada sessão de cinema tem o custo de €11 por pessoa.
Ao longo dos próximos meses, estão já confirmadas várias edições adicionais de cinema ao ar livre. A 19 de Junho, na tela transmite-se “The Adventures of Priscilla, Queen of the Desert”; a 10 de Julho o destaque vai para “Night Train to Lisbon”; “Thelma & Louise” é a escolha para a noite quente de 14 de Agosto; para fechar as vindimas, a 18 de Setembro, o filme escolhido é “Fight Club”; e para encerrar a temporada, a 17 de Outubro, “Knives Out”.
Ainda em Maio, a dia 23, entre as 17h30 e as 21h00, realiza-se a primeira edição dos sunsets vínicos com a Sunset Pink Party, um evento que convida os amantes da natureza a brindar ao pôr do sol entre vinhas, ao som de DJ e com uma selecção de vinhos Villa Alvor. O programa de final de tarde tem o valor de €2,50 por pessoa e inclui um copo de vinho Villa Alvor Colheita branco, rosé ou tinto. Os participantes, que terão de vestir uma peça de roupa cor-de-rosa, poderão desfrutar de um fim de tarde único. No calendário de sunsets destacam-se as edições de 13 de Junho, dedicada aos Santos Populares, e de 26 de Setembro, com um regresso aos anos 80.
Um dos momentos altos da programação acontece a 24 de Agosto, com uma experiência de vindima ao pôr do sol, que convida os participantes a viver de perto uma das tradições mais emblemáticas do universo vitivinícola. Entre as 17h30 e as 22h30, a iniciativa propõe um percurso sensorial completo, iniciando com um jogo interativo “Prova que Sabes”, que desafia o olfacto e o paladar. O programa prolonga-se com um passeio de jipe pelas vinhas, com convite para vindimar ao pôr do sol. A experiência termina com um jantar vínico comentado, durante o qual os sabores regionais se harmonizam com os vinhos Villa Alvor.
Todas as atividades requerem reservas antecipadas.
BILHETES SESSÕES DE CINEMA AQUI:
https://www.tickettailor.com/events/allstarscinema/2088827
RESERVAS SUNSETS AQUI:
https://fareharbor.com/embeds/book/villaalvor/items/528818/calendar/2026/05/?full-items=yes
RESERVAS VINDIMAS AQUI:
https://fareharbor.com/embeds/book/villaalvor/items/562699/calendar/2026/08/?full-items=yes
Homenagem ao Professor Antero Martins

A 13ª edição do Concurso Vinhos de Portugal, promovido pela ViniPortugal, estreou o Prémio Homenagem, distinção entregue em mãos ao Professor Antero Martins, engenheiro agrónomo e doutorado em melhoramento de plantas pelo Instituto Superior de Agronomia da Universidade de Lisboa, onde é Professor Jubilado. É reconhecido pela criação da metodologia de selecção policlonal da videira, […]
A 13ª edição do Concurso Vinhos de Portugal, promovido pela ViniPortugal, estreou o Prémio Homenagem, distinção entregue em mãos ao Professor Antero Martins, engenheiro agrónomo e doutorado em melhoramento de plantas pelo Instituto Superior de Agronomia da Universidade de Lisboa, onde é Professor Jubilado. É reconhecido pela criação da metodologia de selecção policlonal da videira, temática de destaque internacional através da resolução OIV-VITI 564b-2019, directriz científica e técnica adoptada pela Organização Internacional da Vinha e do Vinho (OIV), bem como pela preservação e valorização das castas autóctones portuguesas, com o subsequente reforço da identidade e autenticidade dos vinhos nacionais.
O Professor Antero Martins, desempenhou ainda a função de Presidente da Associação Portuguesa para a Diversidade da Videira (PORVID), desde a fundação até 2021, é autor de um cem-número livros e de mais de 200 contribuições científicas, integrando ainda o grupo de peritos nacionais de viticultura da Comissão Nacional da OIV e o grupo de peritos GENET da OIV.
“Esta homenagem vem reconhecer a importância do conhecimento científico, da preservação da diversidade vitícola e do trabalho desenvolvido ao longo de décadas em prol do futuro dos vinhos portugueses”, declarou, em comunicado, Frederico Falcão, Presidente da ViniPortugal.
Com a implementação deste novo Prémio Homenagem, que passará a ter um carácter bienal, a ViniPortugal tem como objectivo “distinguir personalidades cujo percurso tenha contribuído de forma extraordinária para a afirmação e valorização dos vinhos portugueses, em Portugal e no mundo”.
A Bagos D’Ouro Wine Party está à porta

No próximo dia 30 de Maio, entre as 18h00 e as 22h00, a Wine Party regressa ao Douro, para brindar à solidariedade. Trata-se da segunda edição deste evento na região promovido pela Associação Bagos D’Ouro, com lugar marcado na Quinta de São Luiz, propriedade vitivinícola da Kopke localizada em Adorigo, no concelho de Tabuaço. Prometido […]
No próximo dia 30 de Maio, entre as 18h00 e as 22h00, a Wine Party regressa ao Douro, para brindar à solidariedade. Trata-se da segunda edição deste evento na região promovido pela Associação Bagos D’Ouro, com lugar marcado na Quinta de São Luiz, propriedade vitivinícola da Kopke localizada em Adorigo, no concelho de Tabuaço.
Prometido está um final de tarde em que estão reunidos mais de 20 produtores vínicos da região, mas a festa começa com um cocktail volante de boas-vindas assinado pelo Chef Vítor Oliveira. No alinhamento do programa, consta boa música e vista para o Rio Douro, a par com a mais recente versão refrescante de Porto tónico, o Kopke on Ice e os gelados artesanais da Segreti, marca do Chef António Vieira.
“É aqui que estão muitos dos nossos parceiros, que são um dos pilares fundamentais para a sustentabilidade da nossa atividade e, sobretudo, para o crescimento da Bagos D’Ouro. No fundo, a Wine Party é um agradecimento por todo o apoio e o compromisso de que tudo faremos para continuar e expandir o trabalho que temos desenvolvido em conjunto”, declara, em comunicado, Maria Inês Taveira, Coordenadora Geral da Bagos D’Ouro.
Alijó, Armamar, Mesão Frio, Murça, Sabrosa, São João da Pesqueira, Tabuaço e, mais recentemente, Carrazeda da Ansiães são os oito concelhos que contam com o apoio da Bagos D’Ouro, que, ao longo de 15 anos, tem vindo a contribuir para a educação mais de 250 crianças e 140 famílias.
Além dos bilhetes (€50/disponíveis aqui https://www.ticketline.pt/evento/bagos-d-ouro-wine-party-douro-2026-102846/sessao/124492_4488_1780160400) para a segunda edição da Wine Party no Douro, cuja receita reverte integralmente para o apoio às crianças e jovens que acompanha, até dia 30 de Junho, é possível doar 1% do IRS à Bagos Douro, sem qualquer custo associado. Mais informações disponíveis em https://irs.bagosdouro.com/.
ENOTURISMO: QUINTA DE CYPRIANO – WINE & NATURE

Na região dos Vinhos Verdes, o vinho não nasce apenas da técnica, nem da vinha. Surge de uma aliança profunda entre território, clima, memória e cultura. No Alto Minho, tamanha cultura secular pertence a esta geografia sensível, em que a terra oferece matéria-prima e, ao mesmo tempo, uma linguagem própria. Demarcado oficialmente em 1908, a […]
Na região dos Vinhos Verdes, o vinho não nasce apenas da técnica, nem da vinha. Surge de uma aliança profunda entre território, clima, memória e cultura. No Alto Minho, tamanha cultura secular pertence a esta geografia sensível, em que a terra oferece matéria-prima e, ao mesmo tempo, uma linguagem própria. Demarcado oficialmente em 1908, a este território foi construindo uma identidade singular no panorama vitivinícola europeu, a de vinhos marcados pela frescura, pela vitalidade aromática, pela acidez vibrante e por uma íntima correspondência com o clima atlântico que os molda.
A verdadeira riqueza desta região encontra-se nas diferenças de relevo, de exposição, de humidade, de solo e de tradição humana, as quais tornam cada sub-região uma pequena pátria enológica. Entre todas, o Vale do Lima, inserido na sub-região do Lima, ergue-se como uma das expressões mais delicadas e reveladoras do espírito dos Vinhos Verdes. Aberto à influência do Atlântico, sem barreiras significativas que travem a entrada dos ventos marítimos, o Vale do Lima beneficia de um regime climático onde a humidade, a chuva frequente e a amenidade térmica consistem nos elementos estruturantes da identidade da vinha. É um território onde o excesso raramente domina, o calor não violenta, a maturação não corre. A frescura permanece como uma disciplina natural.
É precisamente neste cenário que Ponte da Barca se afirma como um dos lugares mais expressivos e promissores da viticultura minhota. Os solos, em muitos pontos arenosos e permeáveis, associados à presença marcante do granito, desenham uma base geológica de enorme relevância vitivinícola. O granito drena, regula, obriga a videira a procurar profundidade, o relevo cria exposições diversas, a altitude e a circulação de ar moderam os excessos.
Eis o resultado de uma identidade vitícola que vai muito além da circunstância administrativa de pertencer ao Vale do Lima. Ponte da Barca é um lugar onde a tradição cooperativa, a continuidade do trabalho agrícola e o investimento recente na valorização das castas autóctones revelam um território herdeiro de um passado a preservar, mas também a ser autor do seu futuro. E é precisamente nessa convergência entre memória e modernidade que se joga hoje a relevância de Ponte da Barca no mapa dos Vinhos Verdes.
Loureiro e Vinhão
Se há casta que traduz a dimensão mais luminosa e aromática desta paisagem, ela é, sem dúvida, a Loureiro. No Vale do Lima, esta variedade branca encontra uma das suas expressões mais altas e, em Ponte da Barca, adquire, com frequência, uma pureza modelo. Nos melhores exemplares, revela notas citrinas de lima e limão, apontamentos florais delicados, uma vibração fresca e uma limpidez aromática que impressiona. Mas vamos mais além, pois os grandes vinhos feitos a partir da Loureiro são igualmente estruturados, tensos, persistentes. Têm nervo, profundidade, capacidade de envelhecimento. Provam que a delicadeza é uma forma superior de precisão. Em Ponte da Barca, essa expressão ganha, muitas vezes, um recorte muito próprio, menos exuberância gratuita, mais rigor e nitidez. A frescura que ali se encontra vem do vale, da pedra, da luz, da humidade e do tempo.
Mas a narrativa vitivinícola de Ponte da Barca tem ainda um lado mais telúrico, mais visceral presente na casta tinta Vinhão. Apresenta uma enorme intensidade cromática, um perfil aromático vincado, de boca cheia, acidez firme e tanino robusto; e tem vindo a recuperar estatuto como vinho de terroir. Em zonas mais interiores, onde o território ganha resguardo e densidade térmica, como sucede em partes de Ponte da Barca, esta variedade tinta encontra uma gramática própria. Mantém a rusticidade nobre e a vocação gastronómica, e revela uma personalidade que ultrapassa o mero hábito regional.
Mesa é território
Há terras que se deixam compreender pela paisagem. Outras, pela história. Ponte da Barca, porém, revela-se de modo mais inteiro quando nos sentamos à mesa. É aí, entre o rumor do rio, a densidade da montanha e a memória transmitida de geração em geração, que o território se torna verdadeiramente legível. Porque esta vila romântica também vive dessa arte maior que é transformar alimento em identidade, que é manter esta herança sustentada pela abundância do rio, pela força da pecuária, pela sagacidade das cozinhas familiares, nobres, e pela persistência de manter sagrado o receituário minhoto que permanece atual.
À mesa, desfilam especialidades, formas de pertença, como a posta Barrosã, robusta e afirmativa, o cabrito da Serra Amarela, impregnado de fogo lento, o sarrabulho, espesso de memória, a lampreia, o sável e a truta, que o rio converte em alimento e liturgia, e, mais recentemente elevado nos roteiros promocionais do concelho, o arroz de cabidela, como expressão de autenticidade e continuidade. Na doçaria, persistem sabores que por mérito resistem ao tempo: o bolo e as rabanadas de mel, as queijadas de laranja, o leite-creme queimado. São doces que não cedem à frivolidade da moda porque pertencem à memória afetiva da cozinha, como arquivo emocional.
É precisamente neste universo que os vinhos encontram a sua razão mais plena e, em Ponte da Barca, harmonizar é reconhecer uma afinidade antiga.
O misterioso vale
Cheguei ao Vale do Lima com a sensação rara de entrar num território que se oferece à observação e à escuta. Mais do que uma deslocação geográfica, a viagem impôs-se como uma travessia interior, como se a paisagem, em vez de se mostrar, me chamasse. Num tempo dominado pela pressa, há lugares que conservam o ensinamento da serenidade. O Vale do Lima é um desses lugares. E o rio, além de atributo natural da paisagem, apresenta-se ainda como uma presença serena, majestosa e silenciosamente antiga. Corre como se transportasse no seu leito a memória dos séculos, os segredos das margens, o rumor das lendas e essa misteriosa fidelidade que as comunidades mantêm como segredo. As colinas desenham-se com suavidade. As vinhas estendem-se sobre o território como uma escrita verde e ritmada. Os campos respiram com a serenidade de quem conhece o ciclo do tempo. Os caminhos de pedra devolvem ao viajante a consciência de que antes dele já muitos outros ali procuraram sentido. Pelo meio, surgem solares, muros antigos, jardins resguardados, árvores que parecem guardar segredos.
Foi neste contexto que encontrei a Quinta de Cypriano. À chegada, percebi de imediato que estava diante de uma casa habitada pela espessura do tempo, por tradições sedimentadas, por usos e costumes que não se perderam na voragem do contemporâneo. Mas havia ali algo solene, como se a casa guardasse mais do que paredes, jardins ou memória agrícola. O próprio nome, Cypriano, impôs-se como um enigma. Tinha sonoridade de herança, peso de biografia, ressonância de história antiga. Foi precisamente aí que a minha viagem adquiriu uma nova densidade. Porque diante de certas casas não basta olhar, é preciso interrogar. Quem foi Cypriano? Que vida, que gesto, que memória justificaram a permanência deste nome? Que relação existe entre a casa, o território e a identidade que nela se conserva?
Uma história [à] antiga
Cypriano Joseph da Rocha, ilustre barquense de Ponte da Barca, nascido no Minho e ligado ao lugar de Barral, foi um dos raros servidores da coroa que levaram para o Brasil, não apenas um título, mas uma forma de ordenar o mundo. Em 26 de maio de 1728, embarcou de Lisboa rumo ao Brasil, acompanhado por dois filhos, um com 15 anos, outro com 11, para assumir, inicialmente o cargo de juiz dos órfãos na capitania da Bahia, por mercê de Sua Majestade el-rei D. João V, “O Magnânimo”. Anos mais tarde, exerceu funções em Sergipe d’El-Rei e na capitania de Minas Gerais, o de ouvidor da comarca de Rio das Mortes, esse extenso território que era maior do que o reino que o nosso protagonista deixava. Ultrapassada a fase de adaptação ao clima, à alimentação, aos costumes e à vida social de um território em desenvolvimento e também em expansão territorial, vivendo as mutações económicas, sociais e políticas resultantes do novo ciclo do ouro, Cypriano Joseph da Rocha integra-se a esse novo mundo exposto nas cartas que foi escrevendo, com regularidade, a sua mulher, Maria Luisa.
É em Minas, porém, que o seu nome ganha espessura histórica. Em 1737, já como ouvidor sediado em São João del-Rei, comandou uma expedição de reconhecimento e ocupação para sul, rica em ouro. A sua missão era militar, administrativa, cartográfica, política e civilizadora no sentido setecentista do termo. Reconhecer caminhos, afirmar jurisdição, localizar riquezas, organizar o povoamento e transformar sertão em território governável, era a gramática do poder colonial, e o nosso protagonista desta história soube escrevê-la com mão firme.
O feito mais emblemático dessa ação ocorreu em 2 de outubro de 1737, quando chegou ao local que receberia o nome de São Cipriano e que, com o passar do tempo, se tornaria freguesia, vila e finalmente a cidade de Campanha, que o reconhece como o agente da sua origem e apresenta-se como o lugar “onde nasceu o Sul de Minas”.
O seu impacto, contudo, não se mede apenas por uma cidade, mas pelo efeito em cadeia da sua presença administrativa. As primeiras notícias documentadas sobre a área do atual município de Três Corações remontam precisamente a 1737, quando Cypriano Joseph da Rocha, em trânsito e inspeção pela região, registou a existência de roças e catas de mineração na aplicação do Rio Verde. Esse registo mostra que o nosso protagonista não criou sozinho todas as cidades que, mais tarde, surgiriam no sul de Minas, mas teve um papel matricial na revelação oficial, na legitimação política e na incorporação administrativa de lugares que, depois, se tornariam vilas e municípios.
Em suma, Minas Gerais está fortemente associada a Cypriano Joseph da Rocha não só por causa do cargo que ocupou, mas porque nele se encontra uma das figuras fundamentais do sul mineiro. A sua grande obra não foi um monumento de pedra, mas um desenho de território.
A dignidade do passado
Situada em Quintela de Baixo, Vila Nova de Muía, no concelho de Ponte da Barca, nas margens do rio Lima e com o Parque Nacional da Peneda-Gerês no horizonte, a Quinta de Cypriano ergue-se no coração do Vale do Lima. A propriedade não se limita a ocupar um lugar no mapa, inscreve-se numa paisagem quase íntima, onde a natureza, a memória e o vinho estabelecem entre si uma aliança antiga.
Com a aproximação à Quinta de Cypriano o verde adensa-se, o horizonte abre-se com uma espécie de tranquilidade mineral e a arquitetura da casa parece nascer da própria terra. A propriedade guarda em si a dignidade de um passado rural nobre. Há verdade na presença firme do granito, na forma como os espaços dialogam com a envolvente. O conjunto arquitetónico exibe a sobriedade que atravessa os séculos, com elegância que lhe confere uma beleza mais duradoura. Cada pedra, cada recanto, cada marca do tempo parece carregar consigo uma narrativa capaz de dialogar com o presente e de convocar o futuro.
A Quinta de Cypriano renasce, assim, como projeto de enoturismo da família Andresen Guimarães, concretizado por António e Margarida Andresen Guimarães, a par com os seus quatro filhos Mafalda, Leonor, Pedro e António, numa espécie de pacto entre gerações. Juntos reanimaram o legado traduzido em hospitalidade, onde o vínculo à terra se transforma em vinho e a memória familiar se converte numa forma de acolhimento.
O recorte da casa constrói-se na convivência entre a nobreza rural minhota e a sobriedade dos materiais que envelhecem com dignidade. A inscrição de 1696, à entrada, funciona como uma espécie de pórtico simbólico, a capela secular e o espigueiro antigo aprofundam o sentido de permanência, e as adegas velhas e os lagares de granito devolvem ao visitante a evidência de uma cultura do vinho enraizada em práticas seculares.
A vinha, de 6,5 hectares, ocupa o centro desse universo. A casta Loureiro surge como promessa de elegância, perfume e nitidez. No contexto desta variedade, a Quinta de Cypriano apresenta um Grande Escolha 100% Loureiro e um vinho de curtimenta. Já a Vinhão surge como expressão de profundidade, rusticidade nobre e memória regional, diferente e impactante. São a síntese de território, trabalho, tradição e sensibilidade.
Quem reinventou a propriedade?
Há lugares que se herdam e há lugares que, mais do que herdados, são recriados por quem lhes devolve fôlego e destino. A Quinta de Cypriano é um desses raros casos em que a memória familiar encontrou uma nova linguagem, e essa linguagem tem o rosto, a visão e a energia de Leonor Andresen Guimarães.
A personalidade invulgarmente determinada é já uma marca no percurso de Leonor Andresen Guimarães, que se iniciou no universo das artes e antiguidades, seguindo-se o mundo da restauração, no qual descobriu a dimensão mais profunda daquilo que viria a definir o seu caminho, a arte de receber. Ainda muito jovem, partiu para São Paulo, onde trabalhou em vários restaurantes, entre os quais no célebre D.O.M. do chef Alex Atala. Essa vivência ampliou-lhe horizontes, deu-lhe disciplina e consolidou uma intuição rara para a hospitalidade.
De regresso a Portugal, passou pela restauração e pela organização de eventos, mas percebeu que o verdadeiro projeto de vida teria de unir beleza, autenticidade, mesa, terra e relação humana. Foi essa convicção que pesou, em 2015, na troca de Lisboa por Ponte da Barca, determinada a ajudar o pai a erguer um novo ciclo económico para a Quinta de Cypriano, decisão que mudou o rumo da propriedade.
Com o apoio da família, tomou nas mãos a exploração da propriedade e começou a desenhar aquilo que viria a afirmar-se como um projeto singular de enoturismo. Sem formação inicial em viticultura, Leonor Andresen Guimarães aprendeu, no terreno, o que se faz pela terra, entre talhões, estações e rotinas agrícolas, acompanhando de perto a reestruturação da exploração e introduzindo novas práticas de gestão. Da vinha passou para o vinho, no âmbito do qual frequentou o curso de Expertise Wine Management, no Instituto Superior de Administração e Gestão, no Porto.
Ao mesmo tempo que o projeto de alojamento ganhava forma, a nossa anfitriã desafiou a família a criar uma marca de vinhos própria, inspirada em Cypriano, que já no século XVIII, fazia vinho nos mesmos lagares de granito que permanecem sob a memória da casa. Em 2020, estreia-se a produção vínica executada com base nos métodos tradicionais, com pisa a pé em lagares seculares e a participação entusiasta de familiares e amigos. O resultado traduziu-se em referências que chamaram a atenção pela originalidade e caráter, entre as quais um Loureiro de curtimenta e um Vinhão de grande qualidade. Depois da maternidade, em 2023, surgiram novos vinhos e novas experiências vividas com alma minhota.
Refúgio idílico
Foi em 2024 que nasceu a Quinta de Cypriano – Wine & Nature, projeto que traduz a assinatura de da nossa anfitriã em cada detalhe, a forma como se habita o espaço, como se acolhe quem chega, como se conta a quinta, como se serve o vinho, como se transforma uma estadia numa experiência memorável.
A visita organiza-se como um percurso de aproximação ao espírito do lugar. Caminhar entre as vinhas, escutar a explicação sobre o ciclo da planta, participar nas vindimas e em atividades de campo, assistir ou fazer parte na pisa a pé em lagares de granito, compreender as escolhas, aprofundar a leitura dos vinhos em workshops. Tudo isso cria, no visitante, uma relação mais profunda com o que prova. Em vez de consumo apressado, há descoberta, em vez de superficialidade, há imersão.
O alojamento prolonga essa harmonia. Dormir na Quinta de Cypriano – Wine & Nature significa aceitar o convite de uma pausa verdadeira, a estender-se na piscina infinita. Os seis quartos integrados, com discrição, no corpo da propriedade e pensados para oferecer conforto sem romper com o carácter do lugar, proporcionam uma sensação de acolhimento rara. A casa propõe uma experiência de serenidade e intimidade, seja para escapadas românticas, viagens em família ou estadias entre amigos, com quartos comunicantes para grupos.
O conforto contemporâneo, como a instalação de kitchenette nas unidades, por exemplo, anunciam uma hospitalidade superlativa. As janelas e varandas voltadas para a paisagem funcionam como molduras de um quadro vivo, onde a vinha, o rio e as montanhas conquistam o olhar.
Numa época em que o luxo é tantas vezes confundido com excesso, a Quinta de Cypriano – Wine & Nature recorda que o verdadeiro privilégio pode estar na simplicidade bem estruturada e, ao mesmo tempo, na decoração incrivelmente envolvente, que nos impele a regressar. Como se o lugar, discretamente, se tornasse casa, é possível experienciar, a pedido, a gastronomia local e regional. A paixão que Leonor Andresen Guimarães encontra na cozinha, outra expressão do seu mundo, remete para o prolongamento do território à mesa – converter ingredientes em narrativa e dar ao quotidiano uma dimensão de celebração.
É por tudo isto que Leonor Andresen Guimarães se destaca hoje como uma das figuras femininas mais fascinantes do universo vínico contemporâneo. Há, na nossa anfitriã, uma enorme presença inspiradora que marcou, noutros tempos, mulheres decisivas na construção simbólica e humana das grandes casas vitivinícolas. Visitar a Quinta de Cypriano e por lá ficar é perceber que há lugares onde o enoturismo ainda é encontro. Bravo, Leonor!
CADERNO DE VISITA
Comodidades e serviços
Línguas faladas: Português, Espanhol, Inglês, Francês
Loja de vinhos: Sim
Sala de provas: Capacidade máxima para 16 pessoas
Diferentes atividades e refeições (sob consulta): Almoços ou jantares vínicos com marcação prévia, picnic na vinha
Parque para automóveis ligeiros: Capacidade para 12 viaturas
Parque para autocarros: Junto à quinta, há um espaço com capacidade para dois autocarros
Provas comentadas: Ver programas
Wifi gratuito disponível: Sim
Visita às vinhas: Sim
Visita à adega: Sim
Outras atividades/facilidades: Programas combinados, com passeios no Gerês de 4×4 ou trekkings guiados e atividades náuticas no rio Lima ou canyoning no rio Carcerelha. (serviços prestados por parceiros)
Eventos
Eventos corporativos: Atividades com empresas
Atividades team building: Combinação de atividades de enoturismo com turismo de natureza
Programas e experiências:
Visitas e Provas de Vinho
Prova Loureiro
Visita guiada + prova de 3 vinhos brancos
Duração: 60 min
Mínimo: 2 pax
Preço: €25
Prova do Vinhão
Visita guiada + prova de 3 vinhos tintos
Duração: 60 min
Mínimo: 2 pax
Preço: €25
Prova Tradicional
Visita guiada + prova de 4 vinhos
Duração: 60 min
Mínimo: 4 pax
Preço: €25
Prova Especial
Visita guiada + prova de 6 vinhos
Duração: 90 min
Mínimo: 4 pax
Preço: €35
Prova Premium
Visita guiada + prova de 8 vinhos
Duração: 100 min
Mínimo: 2 pax
Preço: €45
Notas: marcação obrigatória e sujeita a disponibilidade; grupos com mais de 12 pessoas sob consulta (IVA incluído).
Experiências
Vindima
Participação na vindima, merenda, visita guiada e prova de vinhos
Duração: 3 horas
Mínimo: 2 pax
Preço: €60
Vindima com almoço
Vindima, merenda, visita guiada e almoço campestre harmonizado – 4 h
Duração: 4 horas
Mínimo: 4 pax
Preço: €100
Vindima com almoço e pisa a pé
Vindima, merenda, visita guiada, almoço campestre e pisa a pé em lagar de granito
Duração: 6 horas
Mínimo: 4 pax
Preço: €120
Piquenique
Cesta com produtos regionais, fruta da quinta e 1 garrafa de vinho
Mínimo: 4 pax
Preço: €50
Almoço ou jantar vínico
Refeição tradicional com produtos da quinta harmonizados com os vinhos
Mínimo: 6 pax
(preço sob consulta)
Notas: experiências de exterior condicionadas pelas condições climatéricas e pela evolução da maturação da uva; marcação obrigatória; grupos com mais de 12 pessoas e para crianças sob consulta (IVA incluído).
Petiscos e néctares da quinta
A quinta convida os visitantes a comprarem vinhos e a desfrutarem do espaço com vista para as vinhas, piscina e rio Lima, harmonizando o momento com tábuas, tostas e petiscos locais (consultar valores no site)
Horário de funcionamento
Todos os dias, das 09h30 às 18h30
Horários das visitas: às 11h30, às 14h00 e às 16h30
Reservas
enoturismo@quintadecypriano.com
Tel.: 917 586 077 ou 968 467 506
CONTACTOS
Quinta de Cypriano – Wine & Nature
Rua Quintela de Baixo, 95
Vila Nova de Muía, 4980-830 Ponte da Barca
(Artigo publicado na edição de Abril de 2026)
António Soares Franco na José Maria da Fonseca

António Soares Franco, elemento da sétima geração da família proprietária, assume o papel de Head of Marketing da José Maria da Fonseca, a centenária casa da região dos Vinhos da Península de Setúbal e uma das mais históricas do país. A função, que resulta de uma reorganização do departamento de marketing desta empresa familiar, tem […]
António Soares Franco, elemento da sétima geração da família proprietária, assume o papel de Head of Marketing da José Maria da Fonseca, a centenária casa da região dos Vinhos da Península de Setúbal e uma das mais históricas do país. A função, que resulta de uma reorganização do departamento de marketing desta empresa familiar, tem como finalidade dar resposta aos desafios associados à comunicação do portefólio de marcas dentro e fora de portas. Acresce a integração do plano de replantação vitícola na estratégia global de marcas.
Em suma, “o objectivo passa por reforçar a consistência e a relevância das nossas marcas, através de uma abordagem mais integrada e global, respeitando sempre o legado que nos define, mas preparados para responder às exigências dos mercados atuais e futuros”, declarou, em comunicado, o Head of Marketing.
Paralelamente, a entrada de António Soares Franco – que foi responsável pela marca NOS Empresas e liderou projectos de estratégia e gestão de marcas de referência em agências, como a SAMY Iberia e a Fullsix (Havas CX), além de ter trabalhado no Reino Unido, na Hungria e no Cazaquistão, onde integrou a AICEP – vem reforçar a progressiva transição geracional na José Maria da Fonseca, por forma a assegurar e dar continuidade ao modelo familiar da empresa.
Sobre a Aguardente do Douro no Vinho do Porto

A Associação das Empresas de Vinho do Porto (AEVP) define como “inviável” e “ilegal” a obrigatoriedade e exclusividade de aguardente produzida a partir de uvas da região do Douro para o vinho do Porto descrita na Proposta de Lei, que, segundo o comunicado “ameaça o estatuto do Alto Douro Vinhateiro como Património Mundial da UNESCO […]
A Associação das Empresas de Vinho do Porto (AEVP) define como “inviável” e “ilegal” a obrigatoriedade e exclusividade de aguardente produzida a partir de uvas da região do Douro para o vinho do Porto descrita na Proposta de Lei, que, segundo o comunicado “ameaça o estatuto do Alto Douro Vinhateiro como Património Mundial da UNESCO e a sobrevivência do ecossistema vitivinícola da região”. No mesmo documento, “a associação classifica a medida como uma ilusão perigosa que, sob o pretexto de resolver o problema dos excedentes de vinho DOC Douro, esconde uma total inviabilidade jurídica, operacional e económica que ameaça colapsar a viticultura regional duriense”.
A justificação para esta contestação prende-se, segundo a AEVP, com o facto de os vinhos excedentários do Douro não apresentarem “o perfil nem a qualidade exigida para a destilação de aguardente de beneficiação”. Por outro lado, alerta para a eventualidade de Bruxelas fazer uma revisão dos cadernos de encargos inerente ao Vinho do Porto, interferindo nas bases da produção deste, “como o sistema de Benefício, a Lei do Terço e até o engarrafamento na origem”.
Segundo a AEVP, esta Proposta de Lei vai originar “uma subida de 40% no preço dos vinhos standard”, colocando “em risco direto 198 milhões de euros em vendas anuais”. No âmbito do impacto social, a AEVP receia “uma contração do negócio em 50%”, que poderá ter consequências na região, como o despedimento de 3.000 pessoas e a consequente inoperância de centros de vinificação, armazéns e linhas de engarrafamento, a interrupção de compra de uvas na vindima e a “perda de valor fundiário e venda de propriedades por falta de viabilidade “. A associação adverte ainda para o “risco de perda de reputação da Região Demarcada do Douro” e o comprometimento da venda de mais de 260 milhões de litros de Vinho do Porto.
Face a este cenário, a AEVP propõe um plano assente em três medidas: ajuste de oferta, com a ativação da vindima em verde; a implementação de projectos-piloto de créditos de carbono e de natureza, e valorização dos serviços de ecossistema; e destilação voluntária de uvas do Douro e subvencionada pelo Estado.
ATAÍDE SEMEDO: A visão de um veterano da Baga

O nascimento de Ataíde Semedo para o sector dos vinhos inicia-se, precisamente, a 1 de Janeiro de 1978. Apreciador das coisas boas da vida errante da juventude e da frequência de um curso de Engenharia Mecânica nos tempos quentes do pós-25 de Abril, Ataíde Semedo vê nas Caves São Domingos, empresa que teve o seu […]
O nascimento de Ataíde Semedo para o sector dos vinhos inicia-se, precisamente, a 1 de Janeiro de 1978. Apreciador das coisas boas da vida errante da juventude e da frequência de um curso de Engenharia Mecânica nos tempos quentes do pós-25 de Abril, Ataíde Semedo vê nas Caves São Domingos, empresa que teve o seu tio-avô como fundador e o seu pai como um dos sócios, um futuro promissor. O pai era industrial metalúrgico e, não obstante ser sócio da empresa bairradina, a ligação ao sector dos vinhos era nula. Ao pai disse que não lhe queria gastar mais o dinheiro num curso superior para o qual não estava fadado e, não querendo despender mais tempo nos bancos da universidade, ruma ao conforto das caves da aldeia de Ferreiros, no concelho de Anadia, que, afortunadamente, estavam paredes meias com a casa de família. Bem melhor opção que ir para a construção civil!
Na faculdade, apenas a cadeira de química o seduzia – observar a magia das reações obtidas a partir das mais diversas combinações. A partir de então, nasce uma vocação, que passa a ser praticada nos laboratórios, apadrinhado pelo enólogo da Caves São Domingos à data, Mário Pato, filho do enólogo homónimo que revolucionou a enologia nacional na primeira metade do século XX.
À data, a Caves São Domingos era liderada por Lopo de Freitas, que defendia a velha prática da Bairrada de comprar vinhos por toda a região, afinando-os na adega, para posterior comercialização. Ataíde Semedo pensava de um modo diametralmente diferente. O mundo já buscava vinhos com outra minúcia e qualidade. Para alcançar isso, mostrava-se necessário controlar o processo desde a vinha à adega, algo que apenas se alcançaria com a aquisição de vinha e um olhar mais presente sobre todas as opções da viticultura. Não tendo logrado convencer a administração da Caves São Domingos de que esse era o caminho correto, Ataíde Semedo ali permanece até 1987, data em que se dá a rutura com a empresa por divergências de estratégia sobre aquilo que entendia ser o futuro da Bairrada enquanto produtora de vinhos absolutamente diferenciadores.
Por conseguinte, em contraciclo com a região, que vivia tempos nebulosos e muitos produtores arrancavam ou abandonavam vinha, Ataíde Semedo entendia que era a melhor altura para investir em vinhas próprias e abandona a empresa.
1987, o ano da Rigodeira
A saída de Ataíde Semedo da Caves São Domingos dá-se a 1 de abril de 1987 e o futuro foi gizado nesse mesmo dia. Entregando a carta de demissão pelas nove horas da manhã, em Ferreiros, dirige-se ao Centro de Saúde de Anadia, onde bate à janela do consultório do seu amigo e colega de longa data, Almeida e Silva, médico local, mais conhecido por “Dr. Pardal”, cuja ligação aos vinhos da Bairrada lhe vinha por intermédio da mãe, detentora da “Casa de Saima”, projeto ao qual deu continuidade. Almeida e Silva já há muito que desafiava Ataíde Semedo para um projeto comum e ali, no consultório, fica pré-definido o futuro. Pouco tempo depois, reúnem-se com o reputado médico fogueirense Joaquim Barros, já de idade avançada, propondo-lhe a compra da Quinta da Rigodeira, à época com uma dimensão de seis hectares. A compra faz-se por um preço amigo e com um prazo de pagamento dilatado. Joaquim Barros vê naqueles dois amigos um futuro promissor.
O início é auspicioso. Aquelas vinhas possuem todo o potencial para produzir belos brancos e tintos grandiosos. Logo na primeira colheita, o Quinta da Rigodeira branco ganha o primeiro Prémio do Concurso de Vinhos da Bairrada e o Quinta da Dôna tinto, da colheita de 1991, arrecada distinções em todas as competições nacionais e internacionais, nascendo ali o mito.
O renascimento do Quinta da Dôna
É absolutamente incontornável para a carreira de Ataíde Semedo, e mesmo para a história dos grandes tintos da Bairrada, falar dos Quinta da Dôna. A história, porém, é simples e está conectada com a natureza das coisas. Em 1991, Ataíde Semedo vinifica isoladamente uma parcela da Rigodeira, conhecida como “Quinta da Dôna”. Ao contrário do que é comum nas vinhas velhas da Bairrada, possuindo estas cerca de 70 anos, não há outras castas misturadas com aquela que assume maior preponderância, a Baga. A segunda experimentação da vindima de 1991 é criar dois modelos de tintos distintos: um vinificado com engaço e um segundo vinificado com uva desengaçada. Este último dá origem, após um estágio longo em barricas, ao primeiro e exclusivo Quinta da Dôna.
A designação Quinta da Dôna, escolhida pelos dois parceiros, resulta em várias colheitas memoráveis, entre elas a de 2001, as quais, e à semelhança do distinto Barca Velha, apenas são lançadas para o mercado nos anos em que se atinge o esplendor qualitativo. O projeto Quinta da Rigodeira/Quinta da Dôna termina em 2002, dada a insustentabilidade do mesmo, pela sua dimensão de 23 hectares, excessiva para o modelo de vinhos e espumantes que Ataíde Semedo pretende criar. Nesse ano, ocorre a alienação à Caves Aliança, que fica igualmente detentora das marcas referenciais. Entretanto, há cerca de dois anos, a vinha, de onde eram oriundos os vinhos Quinta da Dôna, é arrancada, presumivelmente por ter atingido o seu tempo máximo de vida com produções de qualidade.
As características daquela vinha eram muito especiais, mas perfeitamente replicáveis para Ataíde Semedo. No renovado projeto em nome próprio, regressa às dimensões originais, com a aquisição da propriedade de Vale de Carros. A marca Quinta da Dôna também lhe regressa às mãos por caducidade do registo da mesma por parte do anterior detentor, mas, para o renascimento das cinzas da marca mítica, havia que apurar as condições naturais que a levassem a resultados semelhantes àqueles que outrora haviam sido alcançados. Nestas coisas de criar qualidade distinta, só o insuperável fator tempo pode trazer a confiança inabalável.
Plantando as vinhas de Vale de Carros em 2001, só em 2018 Ataíde Semedo entende ter alcançado o nível de maturidade das mesmas e da específica parcela de Baga, para poder voltar a, com galhardia, usar a designação Quinta da Dôna a um vinho da sua lavra. Convenhamos, a Baga continua a ser, na Bairrada, uma casta dada a humores muito especiais, alcançando a excelência apenas em anos em que os astros do clima se conluam, para trazer as temperaturas ideais, a pluviosidade no tempo certo e nunca em setembro, e os ventos que afastam as maleitas da vinha e a humidade relativa.
Após a colheita de 2018, a primeira das vinhas novas de Vale de Carros, sucede-se a de 2020, já esgotada, e, depois de um hiato entre 2021 e 2024, torna a surgir a edição de 2025, um ano, a todos os níveis, perfeito, com lançamento previsto para finais de 2027.
Indagado sobre as diferenças entre os clássicos e os atuais Quinta da Dôna, Ataíde Semedo tende a não os diferenciar e explica-nos. A Baga da vinha velha da Quinta da Rigodeira provinha de plantas com produção muito diminuta por natureza. Nas vinhas novas (agora com mais de 20 anos), o produtor mimetiza o comportamento da vinha velha, realizando uma monda muito expressiva – a planta tem, aproximadamente, 15 cachos –, colocando, no chão, uma média de 10 cachos por cepa, deixando apenas cinco. Como uma vinha nova não possui as mesmas reservas de uma vinha velha, a única forma de lhe imitar o comportamento com maior concentração e uma melhor, mais equilibrada e mais precoce maturação, evitando os excessos para não lhe dar um carácter de sobrematuração, preservando-lhe a frescura inerente à sua elevada acidez natural, é, ainda em verde, diminuir-lhe substancialmente a carga. A prática desta monda severa é realizada apenas no melhor talhão de Baga da vinha. Noutros, a monda é muito menos expressiva, permitindo a maturação total de cerca de oito a 10 cachos por videira.
Um Quinta da Dôna, para a roçar a perfeição, tem de ter, em jovem, características em excesso: ácidos, álcool, cor e taninos. E são as reações químicas que se operam no processo de envelhecimento que lhe vão trazer a elegância e a singularidade única de um grande Baga. Uma espécie de pacto de não agressão entre os excessos, para uma paz duradoura e futura.
Há novas tendências de vinhos inteiros, fermentados com engaço, mas cujo perfil não convence Ataíde Semedo. Definitivamente, os taninos libertados pelo engaço nunca são positivos por terem sempre um carácter herbáceo. Um vinho nobre tem de ser desengaçado, a menos que se queira um resultado mais rústico, característica que a Baga já possui em demasia. A sua experiência no Dão, onde colabora com umas das mais reputadas casas da região, mesmo com outras castas tintas, fá-lo não prescindir do desengace. Olha para o engaço como um espinho cravado numa mão. É um elemento estranho e que em nada beneficia, de modo que, o melhor é mesmo extirpá-lo.
Vinha de Vale de Carros
Nas opções e filosofia de Ataíde, nada é fruto do acaso, tal como não o é a aquisição da propriedade de Vale de Carros. A proximidade com a “sua” Rigodeira e a Quinta da Dôna está ocultada por uma pequena faixa de arvoredo. A distância entre ambas está entre os 300 e os 400 metros. Mas o mais relevante para a decisão da compra foi a semelhança na composição dos solos entre as duas propriedades, com uma forte componente de calcário em solos muito pobres, ideais para o plantio da videira, planta a revelar um desempenho maior em condições de stress hídrico e nutritivo.
São cinco hectares onde, de modo rigoroso e objetivo, planta as castas brancas Bical, Cercial da Bairrada e Chardonnay; e as tintas Baga, Touriga Nacional e Pinot Noir. A exposição da propriedade ajuda a moldar a semelhança com a Quinta da Rigodeira, sobretudo para as virtudes que aporta à Baga. A opção pelas outras castas deriva da sua experiência. Para espumantizar, não teve dúvidas. O privilégio de as várias viagens a França lhe terem permitido provar grandes champagnes, retiram-lhe quaisquer dúvidas sobre a óbvia escolha das internacionais Pinot Noir e Chardonnay, variedades melhoradoras da espumantização, com as locais Bical, Cercial e Baga.
A Bical, casta autóctone, surge para dar corpo aos vinhos, enquanto a Cercial traz a frescura e a vibrância, criando o equilíbrio perfeito, não obstante ter uma tendência para a podridão na vinha e oxidação na adega, o que obriga a um trabalho de muita proximidade nos dois locais. De todo o modo, e isso sente-se nos vinhos e espumantes, é a força do terroir que marca indelevelmente o perfil. E Ataíde Semedo já o sabia antes mesmo da aquisição da parcela. O namoro com esta encosta existe desde o tempo em que liderava a Rigodeira. Os antigos falavam muito nela e gabavam-lhe o potencial. Em segredo, e logo após a venda das vinhas antigas que lhe dá a disponibilidade financeira que anteriormente não possuía, começa o processo negocial de aquisição daquela montra, pertencente a 18 viticultores, num rendilhado de pequenas parcelas. Um trabalho árduo que demorou dois anos e meio a ser concluído, com muitas peripécias pelo meio.
As expetativas são elevadas para aquela propriedade de exposição a sul, contemplando-a com o sol desde as primeiras horas da matina até ao pôr-do-sol. As vinhas, muito velhas, estão decrépitas, com uma produção absolutamente residual e de baixa qualidade. Arranca a totalidade da área de vinha logo no ano de aquisição e, um ano mais tarde, em 2003, realiza o primeiro plantio, que requer um cuidado muito especial. Com o rigor que exigia a si próprio, não hesita em enviar todas as varas para um viveirista reputado em França, onde são enxertadas e regressam, já em 2004, em plantas. Os clones das castas portuguesas – Baga, Touriga Nacional, Bical e Cercial – são submetidos a uma seleção massal, todos enxertados nos porta-enxertos por si escolhidos, tendo, na base, a tipologia do solo, o porta-enxerto, as características da casta e o clone da mesma. Da Baga seleciona ainda clones de vinhas muito velhas do Dão; os 35 melhores clones da Estação Vitivinícola da Bairrada e os clones de Bical e Touriga Nacional são oriundos do Centro de Estudos de Nelas, onde conta com a preciosa da engenheira Vanda Pedroso. O mesmo critério de exigência teve-a na escolha dos clones de Pinot Noir e Chardonnay, os mais aptos e exclusivamente utilizados na produção de espumante.
Espumantes e Baga
Porque na Bairrada há vida para além dos vinhos de mesa, os espumantes sempre fizeram parte do universo produtivo de Ataíde Semedo. O traquejo técnico trazia-o da conceituada Caves São Domingos. Na Quinta da Rigodeira tinha chegado a engarrafar 30 mil unidades por ano. Com a saída de Almeida e Silva do projeto, fruto de uma atividade profissional intensíssima como médico, aliada à gestão da Casa de Saima, Ataíde Semedo entendeu que estava na altura de abrandar.
Apaixonado pelas castas internacionais Pinot Noir e Chardonnay, Ataíde Semedo nunca escondeu a paixão pelas virtudes da Baga na espumantização, não crendo, no entanto, que a rainha da Bairrada pudesse mostrar, assim, tanta realeza em espumante extreme da casta. Na Rigodeira, a Baga “descorada” entrava, em segredo, nos lotes de Maria Gomes e Bical, correspondendo, à data, a cerca de 30% da composição do espumante.
As vindimas realizadas em Champagne trouxeram-lhe o conhecimento de vinha e adega no processo de espumantização, e a convicção de que, para fazer espumantes de elevada qualidade na Bairrada, as castas Chardonnay e, sobretudo, Pinot Noir são imprescindíveis, ainda que usadas em lote com outras grandes castas locais. Atualmente, o produtor já não usa a Baga para espumantizar, entendendo que a pequena dimensão de área de vinha que detém e a qualidade que possui para vinhos tranquilos, tornaria mal empregue o seu uso nos espumantes. Ora, se escolhe os melhores clones, os melhores porta-enxertos e os melhores solos, tem de potenciar a casta naquilo em que ela é, criar vinhos tintos de referência mundial. E essas virtudes redundam da capacidade de envelhecimento inigualável, após mostrar muita discrição na juventude, com aromas fechados, engrandecendo com a idade, à semelhança do Nebbiollo (casta tinta italiana).
Com as alterações climáticas, a Baga tem saído bastante beneficiada. Há uma notória antecipação da maturação alcoólica, permitindo colher a uva com um teor provável superior a 13% volume sem que daí resulte uma perda da acidez natural da casta, facto que, segundo o produtor, ocorre em situação de sobrematuração (acima de 14% de álcool provável). Ataíde Semedo não crê muito em vinhos tintos elaborados exclusivamente com Baga de baixo teor alcoólico. Note-se que os Quinta da Dôna, dos quais damos como exemplo as colheitas de 2001 ou 1992, que possuem 13,5% volume alcoólico e foram – e são – vinhos enormes, aos quais o tempo emprestou o glamour e a elegância apenas ao alcance dos maiores. Lá para o final de 2027, voltaremos aqui para provar a mesmo muito auspiciosa colheita de 2025, vinho que, certamente, honrará a fama e a glória dos míticos Quinta da Dôna.
(Artigo publicado na edição de Abril de 2026)


























