PARQUE TERRA NOSTRA: O princípio do belo

TERRA NOSTRA

Desta vez, convido-vos a embarcar numa viagem no tempo pelo Parque Terra Nostra, o mais belo retiro a céu aberto que visitei até hoje. Curiosamente, as três ocasiões em que o explorei ocorreram durante as estações assinaladas pelo solstício: verão e inverno. Em qualquer uma delas, foi notável a exuberância do inhame plantado junto à […]

Desta vez, convido-vos a embarcar numa viagem no tempo pelo Parque Terra Nostra, o mais belo retiro a céu aberto que visitei até hoje. Curiosamente, as três ocasiões em que o explorei ocorreram durante as estações assinaladas pelo solstício: verão e inverno. Em qualquer uma delas, foi notável a exuberância do inhame plantado junto à ponte, logo após a entrada. Sabia que se trata de uma planta altamente resistente aos fungos? Do lado oposto, os tanques contíguos de água férreas ficam mais bonitos no estio, época em que os nenúfares preenchem de cor este curso hídrico.

Sem mais delongas, eis o momento de contemplação do tanque de água termal, pois a visita a este jardim centenário ficou refém do cronómetro. Caso contrário, teria ido a banhos em dia de chuva intermitente, proeza justificada pela temperatura da água, que oscila entre os 37 e 40º C. Avancemos! Pedro André Silva, o guia, chama a atenção para as majestosas araucárias, árvores que conferem o misticismo bucólico a este cenário, a par com o carvalho-roble plantado na década de 1780, além dos tulipeiros, com a floração a dar o ar da sua graça entre maio e julho. Ao fundo, está o Botania Hall, o alojamento complementar do Terra Nostra Garden Hotel, originalmente chamada de Yankee Hall e, mais tarde, de Casa do Parque.

Rumo às bromeliáceas, o percurso leva-nos parque adentro, com passagem próxima dos lagos situados numa cota mais baixa em relação à referida villa. Afinal, as Bromélias são uma das cinco coleções deste jardim secular. Nativas do sul da América, estas plantas estão numa pequena clareira recriada numa pequena elevação de terra, já que a irrigação não se faz através do solo, mas sim por meio das folhas, que retêm o orvalho. Desta mostra, faz parte o ananaseiro, que dá origem a um dos frutos mais famosos do arquipélago. Ao lado, o jardim de flora endémica e nativa dos Açores, que fazem parte da região da Macaronésia, representativo de uma exposição ancestral. Dois passos adiante, está a coleção de cycadales, constituída por 88 espécies exóticas. A origem remonta ao período Jurássico e não há como deixar de conquistar pela dupla de “fósseis vivos”, assim denominados, por não evoluírem há milhões de anos. Memorável é também a coleção de camélias, a qual fundamenta o título “Internactional Camellia Garden of Excellence” atribuído ao Parque Terra Nostra. As flores grandes, que vão do branco ao vermelho, passando por diferentes tons rosa, emprestam cor a este enorme jardim, onde uma ínfima parte do solo da alameda ladeada por 47 ginkgos preserva as folhas douradas destes gigantes da natureza.

O mirante, designado de O Açucareiro, devido à forma que ostenta, é outro dos lugares a constar na viagem. Dali são visíveis as esculturas zoomórficas esculpidas pelas mãos de Fernando Costa, o jardineiro chefe, com a destreza de um mestre. Sem, esquecer as grutas, onde o canal de água serpenteante remete para os passeios de outrora, em pequenas embarcações ao estilo britânico, o Vale dos Fetos, com duas centenas de espécies diferentes, duas das quais endémicas, ou o lago de águas vulcânicas, próximo da reta final da visita.

Muito ficou por explorar nesta viagem pelo Parque Terra Nostra, habitat de mais de 1.800 exemplares botânicos específicos distribuídos por 12,5 hectares, resultante de um trabalho iniciado há mais de 200 anos e firmado na preservação deste que é o mais belo refúgio da ilha de São Miguel, nos Açores.

TERRA NOSTRA

Parque Terra Nostra

Largo Marquês da Praia e Monforte, 9675-061 Furna, São Miguel, Açores

E-mail: terra.nostra@bensaude.pt

Tel.: 296 549 090

Bilhete geral: €17

Nota: Visitas histórias e botânicas são feitas por um valor adicional

 

BEST OF WINE TOURISM: O Roteiro de excelência

Enoturismo

No âmbito da rede internacional Great Wine Capitals, a Câmara Municipal do Porto passou a promover, a nível regional, a distinção dos melhores projectos de enoturismo nas regiões do Porto, Douro e Vinhos Verdes. Trata-se dos Best Of Wine Tourism, que já vão na 24ª edição, abrangendo áreas como “Alojamento”, “Arquitectura e paisagem”, “Experiências inovadoras”, […]

No âmbito da rede internacional Great Wine Capitals, a Câmara Municipal do Porto passou a promover, a nível regional, a distinção dos melhores projectos de enoturismo nas regiões do Porto, Douro e Vinhos Verdes. Trata-se dos Best Of Wine Tourism, que já vão na 24ª edição, abrangendo áreas como “Alojamento”, “Arquitectura e paisagem”, “Experiências inovadoras”, “Práticas sustentáveis em Enoturismo”, “Serviços de Enoturismo”, “Arte e cultura” e “Experiências gastronómicas”. Eis o ponto de partida para um roteiro de dois dias pelas duas regiões vitivinícolas acima referidas, para dar palco a cinco dos sete reconhecidos promotores, que se destacam pela capacidade de conciliar tradição e inovação, autenticidade e criatividade, bem como sustentabilidade e qualidade, tanto nas infraestruturas e nos serviços que disponibilizam, como no impacto positivo gerado no território e nas comunidades locais.

Enoturismo
Enoturismo Casa do Santo

 

O projecto de arquitectura da Casa do Santo Wine & Tourism cria diálogo entre a paisagem e a escala humana

 

Arquitectura sublime

A primeira paragem foi a Casa do Santo Wine & Tourism, localizada em Provesende, no concelho de Sabrosa, no Douro, galardoada na categoria “Arquitectura e Paisagem”. Esta distinção é mais do que um prémio, é um sinal dos tempos e, talvez, uma medida do que hoje se exige a quem constrói em territórios com história. Na mais antiga região demarcada do mundo, onde a beleza não foi desenhada num gabinete, mas lavrada pela mão do Homem ao longo de séculos, a arquitectura não pode chegar como quem impõe. É projetada por quem compreende que o lugar não é cenário, é organismo vivo.

Há edifícios que, com o devido respeito e inteligência, revelam a paisagem, funcionando como uma moldura silenciosa e a Casa do Santo Wine & Tourism impõe-se como uma espécie de manifesto que propõe um ensaio concreto sobre como habitar a paisagem sem a ferir. Afinal, um excelente projecto de arquitectura integrado não compete com a vinha, com o xisto, com a linha das encostas. Cria um diálogo harmonioso entre a paisagem e a escala humana, evitando o excesso e, ao mesmo tempo, oferece a panorâmica natural do lugar. No Douro, onde a luz muda a cada curva e o horizonte é sempre uma promessa, essa pertença é ética.

O desenho contemporâneo encontra aqui materiais que parecem ter surgido ali: a pedra confunde-se com muros antigos; a madeira envelhece com dignidade, as grandes superfícies envidraçadas enquadram a paisagem sem pudor. Lá dentro, a decoração é depurada, quase monástica e moderna, obrigando o olhar a deixar-se conquistar pelas vinhas e encostas, pelo horizonte.

Quando a arquitectura se integra, transforma-se em ponte, ligando o visitante ao território. Nesse sentido, a Casa do Santo Wine & Tourism surge como caso de estudo sobre o que o enoturismo pode ser quando assume a responsabilidade de se tornar um vector de requalificação do território. O projecto parece responder a uma pergunta tão simples quanto exigente: é possível construir sem dominar? Aqui, o visitante sente que não está numa “unidade turística”, mas num lugar em que o tempo se traduz num investimento, que nos faz sentir parte desta paisagem. Por isso, esta distinção importa. Porque um projecto bem inserido na paisagem é também um gesto de sustentabilidade, não apenas energética ou material, mas também cultural, pois preserva o património, o sentido do lugar, a identidade. Num tempo em que tantos destinos se parecem uns com os outros, a verdadeira inovação pode ser esta, a de criar sem ferir, acolher sem descaracterizar, modernizar sem apagar.

Em suma, a melhor arquitectura é aquela que perdura no tempo, como se estivesse estado sempre ali, como algo simultaneamente discreto e necessário. E quando isso acontece, não é só um edifício que vence, é o território que se afirma com dignidade e é o futuro que se constrói com memória.

 

O almoço na Quinta do Bomfim é o argumento exemplar de que a gastronomia está em sintonia com os vinhos

 

Inovação em profundidade

Da contemplação arquitectónica passei para a experiência e a mudança foi como atravessar uma porta dentro da própria região do Douro. A Vesúvio & Bomfim Experience, vencedora na categoria “Experiências Inovadoras em Enoturismo”, confirma uma tendência clara: hoje já não basta visitar, é preciso mergulhar. A distinção diz muito sobre a direcção que o enoturismo está a tomar e sobre o que o Douro pode oferecer quando se decide ir para além do óbvio.

A chegada à Quinta do Bomfim, no Pinhão, é, por si só, um primeiro gesto de imersão. Entra-se numa história longa, onde os socalcos traçam o rio, o rio desenha o tempo e a propriedade se organiza à volta dessa memória sedimentada. Mas criar experiências verdadeiramente inesquecíveis exige curadoria, ritmo, narrativa, detalhe. Exige uma hospitalidade que saiba conduzir sem apressar, explicar sem cansar, surpreender sem distrair.

É precisamente aqui que a Quinta do Bomfim se destaca. A inovação surge na forma como reconstrói a relação do visitante com a história do Vinho do Porto e com a própria ideia de “quinta do Douro”. O percurso pelas caves, pelos lagares e pelos espaços de trabalho é projectado como um relato coerente, em que passado, presente e futuro aparecem como camadas sobrepostas. Ou seja, a modernização tecnológica não apagou a tradição, apenas afinou a sua precisão, e essa perceção devolve origem ao vinho e contextualiza o que está no copo.

Quando uma experiência é verdadeiramente inovadora, consegue-se que o visitante não “consuma” o lugar, mas sinta que pertence a ele por instantes, como se o território, por um momento, o adoptasse. Na Quinta do Bomfim, essa pertença constrói-se de corpo inteiro: o passo na vinha, a textura do xisto, o vento que atravessa a encosta, o silêncio antes da prova, o aroma que chega antes do copo. A inovação manifesta-se na ligação entre cada elemento, através da interpretação do território. E quando o enoturismo interpreta bem, está a ensinar.

O almoço, que em outros contextos poderia ser apenas pausa, aqui é o argumento exemplar de que a gastronomia está em sintonia com os vinhos. Cada prato parece pensado para revelar uma textura, uma acidez, um tanino, como se a mesa fosse um laboratório de harmonias e a conversa fosse parte do terroir. Num tempo em que tantos destinos desafiam e chamam a atenção, o que distingue um lugar não é a quantidade de ofertas, mas a qualidade da experiência, e, acima de tudo, a capacidade de gerar memórias autênticas. Uma experiência imersiva é aquela que nos faz esquecer o relógio, que, dias depois, ainda nos devolve imagens, cheiros e emoções, como se o Douro permanecesse dentro de nós.

No fundo, a Vesúvio & Bomfim Experience simboliza uma viragem no enoturismo enquanto arte de contar histórias verdadeiras, e a distinção reforça a importância da experiência que persiste, como se de um grande vinho de tratasse: revela-se aos poucos, prolonga-se e deixa-nos melhores do que éramos antes de chegar. Adorei!

 

Na Quinta do Ventozelo sustentabilidade é responsabilidade, é a decisão de cuidar a paisagem

 

Sustentabilidade, uma forma de estar

Da emoção para a consciência, o périplo levou-me à Quinta do Ventozelo, localizada em Ervedosa do Douro, no concelho de São João da Pesqueira, premiada na categoria “Práticas Sustentáveis em Enoturismo”. Esta distinção confirma a ideia de que o Douro não existe futuro para o vinho, nem para o turismo, sem uma relação madura com a terra. Aqui, sustentabilidade é responsabilidade, é a decisão de cuidar a paisagem que confere a identidade deste território e garantir que a experiência de hoje não rouba a beleza de amanhã.

Durante a viagem, a estrada desenha curvas, como se estivesse a escrever à mão um poema sobre o Douro e, quando se entra na propriedade sente-se o acolhimento: um território amplo, mas organizado como um pequeno mundo coerente, onde cada escolha parece responder a uma pergunta: como permanecer sem esgotar? Num tempo em que o viajante procura cada vez mais significado, o enoturismo deixa de ser apenas visita e prova, para se tornar encontro com valores. E é precisamente aí que a Quinta do Ventozelo se afirma: em ancorar a hospitalidade no território, na cultura agrícola, no equilíbrio do ecossistema e no respeito pelas comunidades.

O projecto materializa a sustentabilidade em várias escalas. Há uma dimensão visível e imediata: a recuperação de edificações tradicionais, a forma como cada alojamento se encaixa na paisagem, a atenção aos materiais e à eficiência energética. Mas há também o cuidado com a biodiversidade, a gestão da água, a relação com as comunidades e as práticas agrícolas, que incidem no respeito pelo ritmo da natureza.

Um projecto sustentável não se mede apenas por técnicas e certificações, mede-se pela coerência entre o que se promete e o que se pratica. E, para ser transformadora, a sustentabilidade tem de ir além da eficiência: tem de gerar experiência. É nessa ponte entre ética e encantamento que nasce a evidência de que a paisagem é entendida como um sistema vivo e as práticas sustentáveis estruturam as experiências ao ritmo das estações. O visitante é convidado a entrar numa lógica de lugar, onde o conforto não apaga a origem e a experiência não se constrói à custa do território.

À mesa, os produtos locais ganham centralidade, como afirmação de um ecossistema que envolve vinhas, olivais, pomares e gentes. E à noite, a dimensão sensorial torna-se quase pedagógica, pois dormir na Quinta do Ventozelo “de forma celestial” não é retórica. A noite é verdadeiramente escura, o céu densamente estrelado e o silêncio tem peso. O lugar lembra, com uma simplicidade rara, que sustentabilidade é uma forma de estar.

Afinal, hoje, o luxo verdadeiro é poder estar num lugar que se mantém inteiro é poder viver uma experiência que não termina na partida, mas fica.

Dormir no coração da natureza

Já em plena região dos Vinhos Verdes, entra-se por um verde exuberante, onde as vinhas coexistem com vegetação mais espontânea, dando ao lugar um ar de refúgio, como acontece com a Quinta do Ameal. Vencedora na categoria “Alojamento”, esta propriedade localizada no Vale do Lima, confirma uma evidência do enoturismo contemporâneo: dormir bem é habitar o território. Num destino, onde a paisagem parece sempre recém-lavada pela luz e pela água, o alojamento de excelência transforma a visita num tempo prolongado, onde o vinho se torna uma experiência completa.

É nesse contexto que o alojamento mostra o seu verdadeiro alcance, oferece vista, tempo, cuidado e, com isso, prepara o visitante para uma relação mais profunda com o lugar. E, na Quinta do Ameal, essa proposta faz-se sem ostentação. O alojamento revela uma elegância afinada. Os espaços traduzem recolhimento, com os quartos a abrirem para o verde, salas a convidar à leitura, percursos a ligar o edificado ao campo. O contacto com a natureza é permanente.

A combinação de serviços de qualidade permite uma experiência memorável, com o bem-receber sem formalismos, o foco na mediação cultural e vínica, e a capacidade de desenhar percursos, provas e momentos que respeitam o ritmo de quem chega. Ou seja, no enoturismo, a excelência não está apenas no que se oferece, mas na forma como se conduz à descoberta.

 

A Quinta do Ameal prepara o visitante para uma relação mais profunda com o lugar

A Quinta do Ameal distingue-se ainda por fazer do património e da paisagem parte integrante da experiência, com a arquitectura, o jardim, a vinha e o rio a protagonizarem um diálogo, que convida o visitante a entrar na narrativa. A prova de vinhos confirma essa coerência e os vinhos expressam uma ideia muito concreta de lugar, com destaque para frescura, verticalidade, nervo. Não é apenas degustação, é também tradução de um território, que permite o visitante perceber a origem.

Neste contexto, importa sublinhar que, na Quinta do Ameal, se devolve profundidade ao simples através de um passeio entre vinhas, que ensina a ler o solo e o clima, de uma prova feita com tempo e explicação, um momento de mesa que respeita a origem dos produtos, uma conversa que liga o vinho às pessoas e à história. porque o enoturismo mais marcante é aquele que nos faz sentir parte de um lugar, nem que seja por uma noite.

 

Os serviços de enoturismo na Quinta da Torre são desenhados com um rigor quase cirúrgico

 

Hospitalidade em narrativa

O périplo terminou na Quinta da Torre, em Monção, na região dos Vinhos Verdes, vencedora na categoria “Serviços de Enoturismo”, uma distinção que serve de bandeira para um aspecto decisivo, mas tantas vezes

subestimado: o serviço não é um “extra”. É a arquitectura invisível do encontro entre o visitante e o território. Num mundo onde quase tudo é replicável, a excelência no enoturismo passa igualmente pela hospitalidade, definida pela capacidade de construir um produto turístico compósito, integrado, onde visitas, provas, loja, percursos, momentos de interpretação do território e eventuais ligações à gastronomia e à cultura, se organizam como capítulos de uma mesma narrativa. Porque o visitante não procura apenas “coisas para fazer”, procura uma história para viver e um lugar para explorar e compreender.

Na Quinta da Torre, essa narrativa tem uma base natural poderosa, a paisagem vínica. O desenho bucólico é beleza e identidade. É aqui que o serviço de excelência se torna indispensável, porque ensina a observar por meio de palavras apoiadas em cultura, conhecimento e continuidade. Os serviços de enoturismo na Quinta da Torre são desenhados com um rigor quase cirúrgico: percursos claros, informação consistente, uma equipa que combina conhecimento técnico com capacidade de tradução para linguagem acessível. Fala-se de castas, solos, microclimas, vinificação, mas sem o peso académico. Essa é uma forma rara de hospitalidade, sem impressionar com jargão, mas abrindo as portas para a curiosidade.

Por isso, criar experiências inovadoras aqui não significa encher o programa de novidades artificiais. Significa desenhar momentos bem orientados, onde cada etapa – acolhimento, percurso, prova, conversa, despedida – denota intenção e qualidade. Há, ainda, uma dimensão ética nesta excelência: um serviço bem pensado valoriza o trabalho de quem produz, respeita o território e contribui para uma economia local mais justa, criando uma relação equilibrada entre o que se oferece e o que se recebe.

O fecho da visita confirma tudo isto com uma imagem que prevalece, o piquenique entre vinhas, que funciona como síntese poética da experiência sob o céu azul, com a casta Alvarinho no copo, em que o vinho deixa de ser apenas bebida, tornando-se mediação entre o ser humano e o território. Na verdade, a Quinta da Torre lembra-nos que a paisagem, por mais deslumbrante que seja, precisa de uma intervenção favorável para se tornar inesquecível. A vinha pode ser um quadro de prazer, mas o serviço exemplar combina beleza, rigor e hospitalidade, transformando o enoturismo numa vivência, a prova em compreensão, o prazer em pertença.

Enoturismo
Quanta Terra, no Douro

Epílogo: uma reportagem que foi uma aula prática

No papel, estes dois dias poderiam ser descritos como um roteiro por vencedores regionais dos Best Of Wine Tourism. Mas, como visitante, fiquei com a sensação de que cada lugar respondeu a uma pergunta fundamental: como pode o enoturismo honrar a paisagem, valorizar a comunidade e, ao mesmo tempo, tocar quem visita?

A Casa do Santo Wine & Tourism mostra que a arquitectura pode ser um ato de humildade. A Quinta do Bomfim prova que inovar é reinterpretar a memória. A Quinta do Ventozelo ensina que sustentabilidade é ética. A Quinta do Ameal demonstra que o alojamento pode ser um retiro espiritual do quotidiano. A Quinta da Torre confirma que o serviço, quando bem pensado, é hospitalidade intelectual.

No final, ficou a sensação de que esta viagem não foi apenas reportagem, nem tão somente turismo. Foi uma aula prática sobre tempo, cuidado, limite e pertença. E talvez seja essa, no fundo, a maior distinção que um destino enoturístico pode receber.

Enoturismo
Restaurante Pedro Lemos, no Porto

Menções honrosas

Ainda a respeito dos vencedores da 24.ª edição dos Best Of Wine Tourism, ficaram de fora deste registo a Quanta Terra, localizada em Favaios, bem como Pedro Lemos, o restaurante do chef homónimo, situado na cidade do Porto, distinguidos, respectivamente, nas categorias “Arte e cultura” e “Experiências Gastronómicas. Além desta lista, o júri atribuiu menções honrosas a projectos que se evidenciam pela consistência e contributo ao dinamismo do enoturismo regional, destacando a Quinta da Vacaria e a Quinta de São Luiz, na categoria “Alojamento”, a Adega H.O, em “Arquitectura e Paisagem”, a Quinta da Aveleda, em “Arte e Cultura”, a Quinta do Crasto, em “Experiências Gastronómicas”, a Quinta da Casa Amarela e a Marma Slow, em “Experiências Inovadoras em Enoturismo”, a Quinta do Seixo, em “Práticas Sustentáveis em Enoturismo”, e a Quinta de Santa Cristina, em “Serviços de Enoturismo”.

A Câmara Municipal do Porto sublinha que esta iniciativa integra uma estratégia mais ampla de promoção e desenvolvimento do Douro vinhateiro e da região dos Vinhos Verdes, assumindo o enoturismo como um pilar estratégico para a afirmação internacional do destino. Sobre a classificação, a autarquia reforça o posicionamento do Porto, Douro e Vinhos Verdes como destinos de excelência no panorama internacional que elevam a qualidade da oferta e consolidam a ligação entre vinho, território e cultura.

 

(Artigo publicado na edição de Fevereiro de 2026)

Rota da Biodiversidade, a nova aposta da Casa Relvas

Casa Relvas

A Casa Relvas soma e segue no que ao compromisso com a preservação da Natureza diz respeito, trabalho que tem vindo a desenvolver desde 1997. Desta vez, o foco está na Rota da Biodiversidade, percurso esse desenhado para a Herdade de São Miguel, propriedade da empresa localizada no Redondo, Alentejo. O resultado traduz-se numa caminhada […]

A Casa Relvas soma e segue no que ao compromisso com a preservação da Natureza diz respeito, trabalho que tem vindo a desenvolver desde 1997. Desta vez, o foco está na Rota da Biodiversidade, percurso esse desenhado para a Herdade de São Miguel, propriedade da empresa localizada no Redondo, Alentejo. O resultado traduz-se numa caminhada interpretativa entre montado, vinhas e oliveiras, “uma experiência sensorial marcada pela tranquilidade do Alentejo, pela energia da paisagem, e pela essência de um lugar onde cada passo conta uma história. E, no fim da visita, a experiência continua à mesa, com prova de vinhos e azeites da Casa Relvas, e um almoço típico alentejano, preparado com produtos e sabores da região, num ambiente descontraído, que reflete muito a nossa forma de estar, porque aqui recebemos como em casa”, esclarece Alexandre Relvas, Co-CEO da Casa Relvas, em comunicado.

Aberta ao público e disponível durante todo o ano, a Rota da Biodiversidade (95€/pessoa; 20€ dos 7 aos 17 anos) inclui ainda a oferta de um chapéu e de uma T-shirt da Casa Relvas.

Três propriedades vitivinícolas com uma estrela no Guia Michelin Portugal 2026

Michelin

Foram necessários mais de 50 segundos para conhecer o novo duas estrelas do Guia Michelin Portugal 2026, apresentado no Savoy Palace, o cinco estrelas do Funchal, ilha da Madeira, que recebeu a Gala do Guia Michelin Portugal 2026. Falamos do Fifty Seconds, nome atribuído ao restaurante instalado no topo da Torre Vasco da Gama, em […]

Foram necessários mais de 50 segundos para conhecer o novo duas estrelas do Guia Michelin Portugal 2026, apresentado no Savoy Palace, o cinco estrelas do Funchal, ilha da Madeira, que recebeu a Gala do Guia Michelin Portugal 2026. Falamos do Fifty Seconds, nome atribuído ao restaurante instalado no topo da Torre Vasco da Gama, em Lisboa, devido ao tempo que demora a viagem de elevador até às portas se abrirem para o spot culinário do chef Rui Silvestre. Sobe, assim, para nove o número de espaços de restauração com tão ansiada dupla de estrelas.

Sem mais delongas, vamos saltar para três propriedades vitivinícolas distinguidas com uma estrela Michelin pelo Guia Michelin Portugal 2026. Comecemos pelo Douro, a região demarcada mais antiga do mundo, mais concretamente para a sub-região do Baixo Corgo, onde está o Schistó. O restaurante de fine dining do hotel Torel Quinta da Vacaria, em Peso da Régua, é dirigido pelo chef Vitor Matos, com o apoio do chef Vítor Gomes – destaque para Vítor Matos, o chef responsável por mais restaurantes com mais estrelas no guia (Antiqvum e Blind, no Porto, Oculto, em Viana do Castelo, 2Monkeys, em Lisboa, e, agora, Schistó). Mais a sul, o Alentejo soma duas propriedades vitivinícolas a receberem a boa nova. Em jeito de viagem, a primeira paragem é feita no L’And Vineyards, em Montemor-o-Novo, até porque é necessário pernoitar e, já agora, observar as estrelas das suítes deste cinco estrelas da Relais & Châteaux, que revê o seu restaurante gastronómico, recentemente designado de Mapa, a voltar ao guia, com o mérito do chef David Jesus. O roteiro prossegue até ao histórico Paço do Morgado de Oliveira, nos arredores da cidade de Évora, graças ao trabalho executado pelo chef Afonso Dantas, na Cozinha do Paço, distinguido ainda com a Estrela Verde, galardão distribuído por mais seis restaurantes do país.

Porto em destaque

Na secção de uma estrela, a cidade Invicta a multiplicar evidências no Guia Michelin Portugal 2026. Os eleitos foram o DOP, de Rui Paula – que assiste à entrega do prémio Sommelier ao escanção Carlos Monteiro, da Casa de Chá da Boa Nova, em Leça da Palmeira –, o Éon, de Tiago Bonito, instalado no singular Palacete Severo, o Gastro by Elemento, do chef Ricardo Dias Ferreira, e o In Diferente, da chef Angélica Salvador, são as novidades. Acresce o Schistó, inserido no hotel Torel Quinta da Vacaria, a propriedade vitivinícola duriense localizada em Peso da Régua, dirigido pelo chef Vitor Matos com o apoio do chef Vítor Gomes – destaque para Vítor Matos, o chef responsável por mais restaurantes com mais estrelas no guia (Antiqvum e Blind, no Porto, Oculto, em Viana do Castelo, 2Monkeys, em Lisboa, e, agora, Schistó). Ainda no Porto, é de assinalar a entrega do prémio Serviço a Adácio Ribeiro, do laureado restaurante Vila Foz.

A 75 km do Porto está outra casa que reconquista a estrela Michelin. Falamos do Largo do Paço, no hotel Casa da Calçada, em Amarante, onde o chef Francisco Quintas conquistou os inspetores do referido guia igualmente para a categoria de Jovem Chef. Mais a sul, em Cascais, cabe a novidade do Kappo, do chef Tiago Penão, sem esquecer o prémio Abertura do Ano atribuído ao JNĉQUOI Table, em Lisboa. Por terras algarvias, chegou a vez do chef Rui Sequeira subir ao palco pelo seu Alameda, em Faro.

Nos Bib Gourmand, representativo dos restaurante com melhor relação qualidade/preço e já com 26 estabelecimentos, entraram o Taberna Sakra, em Alverca do Ribatejo, do chef Hugo China Ferreira e Débora Cardoso, e o Mesa15, em Leiria, de Petr Kiss, chef natural da República Checa.

Editorial: Os Melhores do Ano

editorial

Editorial da edição nrº 107 (Março de 2026) Março é o mês dos prémios Grandes Escolhas, este ano na sua 9ª edição. Na verdade, para vários dos membros desta equipa redactorial, em particular os mais antigos, esta é a 29ª vez que passamos por este momento, sempre tão especial, em que escolhemos vinhos, pessoas, empresas […]

Editorial da edição nrº 107 (Março de 2026)

Março é o mês dos prémios Grandes Escolhas, este ano na sua 9ª edição. Na verdade, para vários dos membros desta equipa redactorial, em particular os mais antigos, esta é a 29ª vez que passamos por este momento, sempre tão especial, em que escolhemos vinhos, pessoas, empresas e projectos, premiando o talento, a iniciativa, o pioneirismo, a visão, o saber fazer.

Os muitos anos que já levamos a desempenhar esta tarefa não atenuam, longe disso, a dificuldade da escolha. Pelo contrário: parece que é cada vez mais complicado destacar este em detrimento daquele; parece que, no final, apurados os vencedores, ficam cada vez mais nomes de fora, nomes para os quais olhamos com a sensação de que a sua ausência da lista de premiados é, de alguma forma, injusta. Resta-nos o conforto de saber que isso se deve à abundância de qualidade no sector do vinho em Portugal. E a consciência de que, dentro da subjectividade da escolha, demos o nosso melhor, com rigor e independência.

Entre os muitos milhares de vinhos provados em 2025 destacamos o já habitual Top30. E aos provadores foi dada a tarefa adicional de propor e votar os vencedores em cada categoria. Ficaram cinco nomes em quase cinco mil! Nomes inquestionáveis, sem dúvida, pela sua qualidade e personalidade: o espumante Quinta das Bágeiras Grande Reserva 2020; o branco Anselmo Mendes A Torre 2019; o rosé Phenomena 2024; o tinto Casa da Passarella Vindima 2014; o fortificado Kopke Tawny 80 anos.
Vinhos que ganham em ser servidos a uma boa mesa e por mãos sabedoras. Mesas como as dos restaurantes SÁLA, em Lisboa, Colmeia, na Guarda, ou Amassa, em Santarém, vencedores nas suas categorias. E mãos como as da somellière Nádia Desidério, que faz do serviço de vinhos uma arte. A garrafeira A Casa, em Alcobaça, acentua a descentralização dos espaços de excelência dedicados aos apreciadores, enquanto a loja Mercearia Criativa e o wine bar Prova mantêm Lisboa e Porto no mapa das coisas boas.

A investigadora Olga Cavaleiro viu o seu vasto trabalho em torno da cozinha portuguesa merecedor do prémio “David Lopes Ramos”. Já a Rota da Bairrada colocou uma região a pensar o enoturismo de forma integrada e o grupo Vignerons de Portugal passou uma mensagem de grande impacto: fazer vinhos apenas com as nossas uvas, na nossa adega, faz diferença. Diferença também evidente nos vinhos açorianos Materramenta, prémio Singularidade. Pelo trabalho de recuperação das castas antigas do Dão (já provaram o branco de Luzidio ou o tinto de Coração de Galo?) foi destacada a Lusovini.

No que a produtores respeita, em apenas dois anos, a família Leitão Machado trouxe Altas Quintas de regresso à ribalta; a Quinta da Rede revelou-nos o lado mais “atlântico” do Douro, fresco e vibrante; a histórica Borges reafirmou-se com uma dinâmica e consistência invejáveis; com o projecto Raízes, a CARMIM revelou ambição e posicionamento invulgares numa adega cooperativa; e a Real Companhia Velha apresentou um notável portefólio de tawnies.

Por fim, aqueles que fazem acontecer os vinhos. Pessoas como a enóloga Marta Lourenço, que faz a ponte entre o passado e o futuro nas emblemáticas Murganheira e Raposeira; ou Francisco Albuquerque, criador e guardião de inesquecíveis Madeira; ou o grande, enorme Senhor do Vinho, pelo conhecimento, responsabilidade, forma de estar na vida, que é António Ventura.
Termino com uma nota pessoal.

Este é o meu último editorial, enquanto director de uma publicação de vinhos. Como apontamento curioso, tem o número 433, correspondendo a outros tantos meses. Terei agora mais tempo para escrever crónicas, artigos de opinião, reportagens, notas de prova, entrevistas. Vai saber-me muito bem. L.L.

A cerimónia de entrega dos Prémios Grandes Escolhas “Os Melhores do Ano” decorreu no dia 6 de Março, no Centro de Congressos do Estoril.

Foi uma noite de surpresas e revelações! A boa disposição esteve presente em todos os convidados e tal como habitualmente, é sempre uma oportunidade para reunir muita gente do sector.

Consulte AQUI as listas dos premiados e as imagens da grande festa.

 

 

 

 

 

Sogrape: Vintage declarado x 2

sogrape

As colheitas de 2024 da Porto Ferreira e da Sandeman da Sogrape receberam a declaração de Porto Vintage. Ambos são os primeiros Vintages Clássicos desta década para as duas casas e este anúncio está associado a um legado secular alinhada com a expressão maior de um ano considerado de excepção, que permitiu, de acordo com […]

As colheitas de 2024 da Porto Ferreira e da Sandeman da Sogrape receberam a declaração de Porto Vintage. Ambos são os primeiros Vintages Clássicos desta década para as duas casas e este anúncio está associado a um legado secular alinhada com a expressão maior de um ano considerado de excepção, que permitiu, de acordo com o comunicado, “dar origem a vinhos de notável estrutura, profundidade e elegância, destinados a figurar entre as grandes colheitas da região”, vinhos com “elevado potencial qualitativo”.

Para Fernando da Cunha Guedes, Presidente da Sogrape, a declaração de um Vintage “é um tributo ao rigor colectivo e à excelência de um trabalho paciente das nossas equipas, ao saber transmitido entre gerações e à profunda ligação da nossa família à terra. Cada declaração reforça um novo compromisso com uma tradição que atravessa o tempo: cuidar hoje do que só o futuro pode revelar.”

Sobre cada uma das referências, Luís de Sottomayor, Director de Enologia da Sogrape e responsável pelos vinhos do Douro e Porto, descreve o seguinte: “Porto Ferreira Vintage 2024 destaca-se pela sua estrutura sólida, elegância e taninos de grande qualidade, um perfil fiel ao histórico da marca. Por sua vez, Sandeman Vintage 2024 revela um perfil robusto, concentrado e com grande profundidade, marcado por taninos firmes que prometem uma longevidade extraordinária.”

Os novos Vintages chegam ao mercado em junho deste ano.

 

Chef Diogo Rocha leva assinatura à ilha de Porto Santo

Diogo Rocha

Conhecido do grande público através do programa televisivo Masterchef, reconhecido pelo trabalho consolidado no Mesa de Lemos, o restaurante da Quinta de Lemos, propriedade vitivinícola localizada em Silgueiros, no Dão, e que marcou presença no Showcooking Sabores ao Centro, da edição de 2025 da feira Vinhos & Sabores, da Revista Grandes Escolhas, Diogo Rocha está […]

Conhecido do grande público através do programa televisivo Masterchef, reconhecido pelo trabalho consolidado no Mesa de Lemos, o restaurante da Quinta de Lemos, propriedade vitivinícola localizada em Silgueiros, no Dão, e que marcou presença no Showcooking Sabores ao Centro, da edição de 2025 da feira Vinhos & Sabores, da Revista Grandes Escolhas, Diogo Rocha está a caminho da ilha de Porto Santo, para lá deixar a sua assinatura. Mais concretamente no ORIGO 34, onde vai assumir a função de Chef Consultor e contar com o Chef Executivo Manuel Santos, que irá assegurar o dia a dia da cozinha deste espaço de restauração integrado no Legacy Ithos Boutique Hotel, unidade de luxo do Grupo Vila Baleira Hotels & Resorts, com 28 quartos e suítes.

Objectivo? “Valorizar o mar, os produtos da ilha e a cultura portuguesa através de uma cozinha com maturidade, autenticidade e propósito”, segundo o comunicado, até porque “em Porto Santo, encontramos um território de identidade única, que nos inspira a criar uma experiência gastronómica capaz de se afirmar a nível nacional e internacional”, acrescenta o Chef Diogo Rocha.

Localizado nas dunas e com vista privilegiada sobre o oceano Atlântico, o ORIGO 34 dispõe de 40 lugares no interior e 80 no exterior, com a promessa de ser, de acordo com o comunicado, “um ponto de encontro para quem acompanha o percurso de Diogo Rocha”.