ADEGAMÃE: Três brancos para celebrar 15 anos

AdegaMãe

Diogo Lopes, enólogo, e Bernardo Alves, proprietário e Director-Geral, depressa se deram conta, no entanto, que aquele terroir de Torres Vedras, favorecido pelos ventos húmidos do Atlântico, reunia condições únicas para a produção de grandes vinhos brancos e a mudança de rumo não tardou a fazer-se. Não que a empresa tenha desistido de produzir vinhos […]

Diogo Lopes, enólogo, e Bernardo Alves, proprietário e Director-Geral, depressa se deram conta, no entanto, que aquele terroir de Torres Vedras, favorecido pelos ventos húmidos do Atlântico, reunia condições únicas para a produção de grandes vinhos brancos e a mudança de rumo não tardou a fazer-se. Não que a empresa tenha desistido de produzir vinhos tintos, mas encontrou outros terrenos para o fazer do outro lado da serra de Montejunto, perto de Alenquer, que protege a vinha da excessiva influência marítima e permite colher uvas mais maduras e conseguir tintos com maior concentração.

Passada essa aprendizagem inicial, por volta do ano 2010, construída a bonita e funcional adega, a empresa concentrou-se na produção de brancos. Não se estranha, por isso, que, para comemorar a marca histórica de 15 anos de actividade, com a devida pompa e circunstância, a AdegaMãe tenha resolvido fazê-lo com o lançamento de três brancos, dois dos quais absolutas novidades que ampliam o portefólio da casa.

Isso mesmo foi reconhecido por Bernardo Alves: “este lançamento simboliza o amadurecimento natural de um sonho familiar. Quinze anos depois, conseguimos unir rigor técnico, identidade e emoção num vinho que representa o melhor do nosso percurso e aquilo que queremos continuar a construir.” Estas palavras antecipavam a surpresa maior que estava reservada aos jornalistas e parceiros convocados para o almoço de apresentação no restaurante Kabuki. Diga-se de passagem, que a escolha do local não foi inocente, já que os vinhos provados, comprovaram a especial apetência para harmonizações com cozinhas de inspiração oriental, como era o caso.

O AdegaMãe branco Especial, é desse que falamos, é um projecto ambicioso e singular. Não apresenta ano de colheita e resulta da combinação de barricas consideradas excepcionais, com vinhos de várias vindimas tidas como exemplares. Diogo Lopes, mestre na arte de lotear, considerou os brancos das colheitas de 2017, 2019, 2020 e 2021para criar este vinho, cuja produção encheu as pouco mais de 1000 garrafas que compõem a primeira versão desta nova referência. “O branco Especial é a consolidação de tudo o que aprendemos sobre a arte do blend e sobre a evolução dos nossos brancos atlânticos. Só é possível fazer um vinho destes com colheitas únicas e… com muita paciência”, confessou Diogo Lopes, rematando com a seguinte frase: “O tempo é o grande protagonista deste projecto”. Revelador de um acentuado carácter e grande profundidade, este branco Especial teve origem em vinhos longamente estagiados em barricas de carvalho francês de 400 litros, cuidadosamente seleccionadas, alguns dos quais por mais de cinco anos. Por essa razão, o lote apresenta um perfil evolutivo a que não falta uma grande nobreza.

A par com este novo topo de gama da casa, a ocasião serviu anda para apresentar mais dois brancos que reforçam a expressão atlântica da AdegaMãe. Foi o caso do AdegaMãe Terroir branco 2018, produzido a partir das castas Viosinho e Arinto, resultante de um ano de estágio em barrica e de cinco em garrafa. Na linha de edições anteriores, mantém o perfil aromático acentuadamente mineral e de grande complexidade. A influência atlântica nota-se sobretudo na frescura, mercê de uma acidez vibrante a que não falta elegância e equilíbrio.

Novidade foi também o lançamento de um novo vinho varietal da AdegaMãe. Depois das bem-sucedidas experiências com as variedades Viosinho e Riesling, é agora colocado no mercado a primeira edição feita a partir da casta Gouveio, da colheita de 2024. Este vinho nasce de uma vinha experimental, onde são observadas diversas castas e onde esta variedade revelou aptidões que convenceram os responsáveis da AdegaMâe a lançá-la a solo. Totalmente fermentado em inox, esteve sujeito a batonnage durante seis meses. Em boa hora o disponibiliza ao consumidor, porque o vinho revelou-se muito versátil, com grande valia gastronómica ao harmonizar com pratos de sushi e mariscos. De edição limitada, este Gouveio 2024 apenas está disponível na loja da AdegaMãe ou na loja digital.

Com o rumo bem definido, estas novas referências comprovam o compromisso da AdegaMãe em aprofundar e respeitar a identidade atlântica.

(Artigo publicado na edição de Janeiro de 2026)

 

Granvinhos abre nova unidade hoteleira

Gran Cruz

Vila Nova de Gaia soma e segue! Desta vez, com a estreia da Gran Cruz Apartments, da Granvinhos, localizada no nº 120 da Rua Guilherme Gomes Fernandes, situada no centro histórico da cidade e paralela à marginal que acompanha a margem esquerda do rio Douro. Trata-se de um alojamento constituído por seis apartamentos, com tipologias […]

Vila Nova de Gaia soma e segue! Desta vez, com a estreia da Gran Cruz Apartments, da Granvinhos, localizada no nº 120 da Rua Guilherme Gomes Fernandes, situada no centro histórico da cidade e paralela à marginal que acompanha a margem esquerda do rio Douro. Trata-se de um alojamento constituído por seis apartamentos, com tipologias que vão desde os estúdios aos T2. Todos estão distribuídos por andares dos dois edifícios contíguos antigos e contemplam serviço de concierge, housekeeping e lavandaria, assim como da possibilidade de entrega matinal de pequeno-almoço.

A recuperação de ambos edifícios foi feita como manda a cartilha. Mantidos foram a fachada, com os seus respectivos elementos originais, desde as ombreiras e as soleiras aos parapeitos em granito às varandas decoradas com gradeamento em ferro. Sem descurar da cor original. No alinhamento da narrativa visual da Gran Cruz House – a primeira unidade hoteleira da Granvinhos inaugurada, em 2018, no Cais da Ribeira do Porto –, a Gran Cruz Apartments acolhe igualmente a enigmática Mulher de Negro, ícone da marca Porto Cruz desde há várias décadas, reinterpretada pela artista plástica Tamara Alves no lobby desta unidade. Já cada apartamento acolhe imagens retratadas pelo fotógrafo português João Bernardino.

Além da Gran Cruz Apartments e da Gran Cruz House, cujo restaurante, de nome Casario, é uma autêntica montra do portefólio vínico da Granvinhos e da arte de bem-fazer dos chefs Miguel Castro e Silva e José Guedes, a Granvinhos detém o Espaço Porto Cruz, no Cais de Gaia, onde a aposta no enoturismo remonta a 2012 e a restauração também conta com a referida dupla de cozinheiros. Some-se o Ventozelo Hotel & Quinta, em São João da Pesqueira, propriedade de 400 hectares, 200 dos quais estão ocupados por vinha, com 29 quartos e um restaurante, e um vasto programa de atividades que unem vinho, gastronomia, natureza e história.

Vinhos do Alentejo na BTL

BTL

De 25 de Fevereiro a 1 de Março, os Vinhos do Alentejo marcam presença na BTL – Bolsa de Turismo de Lisboa, em parceria com a ERT Alentejo e Ribatejo. Esta ação está associada à promoção e à aposta reforçada no âmbito da oferta de enoturismo na região, através de um programa diversificado em torno […]

De 25 de Fevereiro a 1 de Março, os Vinhos do Alentejo marcam presença na BTL – Bolsa de Turismo de Lisboa, em parceria com a ERT Alentejo e Ribatejo. Esta ação está associada à promoção e à aposta reforçada no âmbito da oferta de enoturismo na região, através de um programa diversificado em torno do universo de Baco. Para o efeito, foram desenhadas mais de uma dezena de provas de vinho a realizar ao longo dos quatro dias da BTL, algumas das quais contam com produtores da região. Objectivo? Mostrar quão diversa é a produção vínica em tão vasto território vitivinícola.

Afinal, o enoturismo é um dos eixos prioritários do Plano Estratégicos dos Vinhos do Alentejo 2026-2031 da Comissão Vitivinícola Regional do Alentejo (CVRA). Sobre esta matéria Luís Sequeira, Presidente da CVRA, declara o seguinte: “o crescimento sustentado do enoturismo no Alentejo confirma a capacidade do território para oferecer experiências autênticas e diferenciadoras, cada vez mais valorizadas pelos visitantes, sendo a presença na BTL, em parceria com o Turismo do Alentejo e Ribatejo, uma oportunidade estratégica para reforçar o nosso posicionamento como um destino onde o vinho se afirma como porta de entrada para a cultura, a paisagem e a identidade do território.”

Eis o ponto de partida para rumar ao Alentejo, com o intuito visitar vinhas, adegas e caves, provar vinhos, participar em workshops e cursos dedicados ao vinho, deixar-se levar nas sessões de vinoterapia, fazer passeios pedestres, de bicicleta e a cavalo pelas vinhas, entre outras experiências que incitam a partir à descoberta.

 

Na Latitude da alta cozinha dos Açores

Latitude

Cinco anos após a inauguração, o restaurante da Azores Wine Company, a adega localizada na encosta Norte da ilha do Pico, nos Açores, de Filipe Rocha e António Maçanita, ganha nome próprio: Latitude. A mudança acontece no sentido de reforçar o projecto gastronómico centrado nos produtos regionais. Todos são submetidos a técnicas contemporâneas e protagonizam viagens gastronómicas […]

Cinco anos após a inauguração, o restaurante da Azores Wine Company, a adega localizada na encosta Norte da ilha do Pico, nos Açores, de Filipe Rocha e António Maçanita, ganha nome próprio: Latitude. A mudança acontece no sentido de reforçar o projecto gastronómico centrado nos produtos regionais. Todos são submetidos a técnicas contemporâneas e protagonizam viagens gastronómicas conduzidas pelo Chef açoriano Rui Batista à volta do vinho, o ponto de partida de todo o roteiro culinário.

Instalado na área mais elevada da adega, o Latitude é uma ampla panorâmica para o mar e as vizinhas ilhas do Faial e de São Jorge. A esta mais-valia, soma-se a arquitetura e a decoração minimalista e cuidada. Já a comida vai muito além da partilha à mesa. É, isso sim, desenhada para ser apreciada ora ao balcão, que circunda a cozinha aberta e oferece uma vista para a adega, onde são saboreados os menus de quatro ou seis momentos, ora na Mesa Pico, obra-prima de Mircea Anghel, artista romeno radicado em Portugal e fundador do atelier Cabana Studio, na qual é servido o menu de 10 momentos.

No contexto vínico, há vários destinos a explorar. Para o primeiro alinhamento de pratos estão elaboradas cinco sugestões de harmonizações, das quais quatro são compostas por três vinhos. A segunda e a terceira propostas de menus apresentam, cada uma, três pairings de vinhos diferentes. No fundo, são roteiros traçados com vinhos nos Açores, dos mais conhecidos aos mais raros, além de outras referências do portefólio António Maçanita (Douro, Alentejo, Madeira e Porto Santo) e de outras ilhas vulcânicas, como Canárias ou Sicília.

A mais-valia? Poder dormir descansadamente na adega da Azores Wine Company e acordar com vista sobre os currais, as vinhas típicas dos Açores.

 

QUINTA DOS LOIVOS: A promessa de uma nova estrela no Douro

Loivos

Se a isso juntarmos a ambição de ali, em Casal dos Loivos, erguer-se, em breve, uma adega e, a partir de Abril, um restaurante de referência com assinatura de um chefe com pergaminhos, de nome Vitor Adão, a que se seguirá, mais tarde, um hotel de charme, ficamos com a ideia que vontade e ambição […]

Se a isso juntarmos a ambição de ali, em Casal dos Loivos, erguer-se, em breve, uma adega e, a partir de Abril, um restaurante de referência com assinatura de um chefe com pergaminhos, de nome Vitor Adão, a que se seguirá, mais tarde, um hotel de charme, ficamos com a ideia que vontade e ambição não faltarão para ali estar, a breve prazo, um dos spots mais mediáticos do Douro. Esta é afinal uma pequena jóia com capitais brasileiros, por um lado, e a criatividade portuguesa, por outro, alicerçada numa meia dúzia de profissionais com provas dadas na região, tornaram possível concretizar em relativamente pouco tempo – foi há poucos meses que comecei a ouvir a experiente Ana Mota falar, com um entusiasmo de menina, sobre o novo projecto em que mergulhou de corpo inteiro.

Hoje, como directora de operações e responsável pela viticultura da Quinta dos Loivos, de 12 hectares, dos quais sete são vinha, sente-se no brilho dos seus olhos o quanto esta tarefa a entusiasma: “É um desafio apaixonante, um investimento de enorme qualidade, único e cativante.” Não está sozinha. Jorge Alves, enólogo consultor, volta a trabalhar na mesma equipa e partilha do entusiasmo: “A Quinta dos Loivos é um projecto emblemático. A altitude, o xisto, o microclima, tudo se junta para criar vinhos únicos.” Jorge Alves conta com o apoio de Adriana Covas, na função de enóloga residente. Por trás, tiveram a vasta experiência no Douro de Bruno Simões, como Business Developer, que concebeu o projecto e resumiu num parágrafo aquilo que o cativou: “A paisagem da Quinta dos Loivos é inigualável – uma visão circular sobre o Douro, onde o rio se revela em três direcções. Do ponto mais alto, junto a um antigo marco militar, vemos seis ou sete concelhos e sentimos o Douro em toda a sua dimensão.”

Produções limitadas

Na mente dos responsáveis, conforme foi insistentemente referido, esteve sempre a preocupação na conservação do riquíssimo património natural que a propriedade usufrui. Neste sentido, uma das grandes mais-valias da Quinta dos Loivos são as vinhas velhas, algumas delas centenárias, plantadas em solos de xisto muito duro e com grande inclinação, que obrigaram a um paciente e demorado trabalho de identificação das castas, operação que contou com a colaboração do viticultor António Magalhães. O resultado desta pesquisa foi surpreendente, na medida em que foram identificadas 74 variedades, o que dá bem a ideia do potencial que a propriedade encerra.

Os vinhos que foram dados a provar à imprensa especializada nesta primeira apresentação, decorrida no restaurante Plano, em Lisboa, dão algumas pistas sobre o que se pode esperar no futuro. Ainda com produções muito limitadas e com recurso a uvas compradas à produção, no caso dos vinhos de entrada de gama, nota-se o fio condutor que norteia o projecto. A marca Venera, constituída por seis vinhos com as gamas Colheita, Reserva e Grande Reserva compreendem as versões branco, rosé e tinto, e chegam ao mercado com uma tipologia de preços bem definida: cerca de 13€ para os Colheita, 30€ para os Reserva, e 40€ para os Grande Reserva.

Já os três vinhos apresentados com a chancela Quinta dos Loivos são produzidos exclusivamente a partir de vinhas próprias, em quantidades muito limitadas (na ordem das centenas de garrafas) e obedecem a um critério curioso e pouco frequente: são lotes feitos, não tanto a partir das suas castas – quase sempre vinhas velhas com variedades misturadas –, mas a partir da orientação solar das várias parcelas da quinta. Assim temos o Loivos Nascente, elaborado com uvas vindimadas nas vinhas voltadas para Leste; o Loivos Poente, de uvas colhidas nas vinhas viradas a Oeste; e o Loivos Sul, onde as vinhas acabam por ter o maior tempo de exposição solar. Esta opção reflecte-se necessariamente no perfil dos vinhos, embora o padrão qualitativo, muito alto, diga-se, não registe alterações significativas.

A expectativa criada é grande e será, por certo, interessante verificar até que ponto, no futuro, com a produção dos vinhos a entrar em modo standard, a qualidade agora apresentada se manterá quando as quantidades produzidas forem substancialmente aumentadas. Arrojo, competência e recursos não faltam para atingir esse desiderato.

 

Os três vinhos com a chancela Quinta dos Loivos são produzidos exclusivamente a partir de vinhas próprias e em quantidades muito limitadas

 Loivos

(Artigo publicado na edição de Janeiro de 2026)

 

 

Terceiro mandato de Rodolfo Queirós

A Comissão Vitivinícola Regional da Beira Interior conta, pelo terceiro ano consecutivo, com Rodolfo Queirós na presidência. A direção deste órgão institucional integra Agostinho Monteiro e Tiago Cristóvão, respectivamente, na qualidade de representantes da Produção e do Comércio. O Presidente do Conselho Geral, José Madeira Afonso, foi igualmente reconduzido para um terceiro mandato. Para este […]

A Comissão Vitivinícola Regional da Beira Interior conta, pelo terceiro ano consecutivo, com Rodolfo Queirós na presidência. A direção deste órgão institucional integra Agostinho Monteiro e Tiago Cristóvão, respectivamente, na qualidade de representantes da Produção e do Comércio. O Presidente do Conselho Geral, José Madeira Afonso, foi igualmente reconduzido para um terceiro mandato.

Para este triénio (2026-2029), a direção pretende e a elevar a consolidação da marca Beira Interior no universo vitivinícola, assim como valorizar o território através das vendas dos vinhos com denominação DO Beira Interior e IG Terras da Beira, tanto no mercado nacional como além-fronteiras, e do enoturismo, destacando o projecto “Beira Interior Wine Villages” (link: https://biwinevillages.com/pt), integrado na Rota dos Vinhos da Beira Interior.

Natural de Marco de Canaveses, Rodolfo Queirós é licenciado em Engenharia Agrícola, pela Escola Superior Agrária de Viseu, e possui uma pós-graduação em Marketing de Vinhos, pela Escola Superior Agrária de Ponte de Lima. No currículo, conta ainda com o diploma WSET 3 e exerce funções como formador no Turismo de Portugal. É também presidente da Associação das Rotas dos Vinho de Portugal (ARVP) e vogal da direcção da Associação Nacional das Denominações de Origem Vitivinícolas (ANDOVI).

 

QUINTA DA FONTE SOUTO: A descoberta dos brancos

Fonte Souto

A viagem da Symington Family Estates – profundamente enraizada no Douro – para o Alentejo levou 135 anos, e não foi em vão. Numa estratégia de diversificação regional, a zona de Portalegre não foi escolhida por acaso. É aquele Alentejo que, contrariando o nosso imaginário colectivo, fica a norte de Lisboa. Está bem mais perto […]

A viagem da Symington Family Estates – profundamente enraizada no Douro – para o Alentejo levou 135 anos, e não foi em vão. Numa estratégia de diversificação regional, a zona de Portalegre não foi escolhida por acaso. É aquele Alentejo que, contrariando o nosso imaginário colectivo, fica a norte de Lisboa. Está bem mais perto de Espanha do que da costa, onde a continentalidade do clima aliada à altitude, entre os 490 e os 550 metros, providenciam uma frescura natural e maior amplitude térmica, mas sem ondas de calor superior a 45° C. As noites bem frescas, mesmo no verão, promovem uma maturação mais lenta e homogénea. “Isto permite esperar pelas uvas e, logo na vinha, fazer uma selecção através de várias passagens”, explica Ricardo Constantino, o enólogo residente da propriedade.

A Symington Family Estates adquiriu a propriedade a João Lourenço (outrora Altas Quintas), em 2017. O negócio incidiu apenas sobre a quinta e a vinha, sem marca nem stock de vinhos. À data da aquisição, dos cerca de 200 hectares da propriedade, 41 eram ocupados por vinha, maioritariamente com castas tintas, sendo apenas 2,5 hectares dedicados a variedades brancas (6% de plantação). “Comprámos esta quinta para [vinhos] tintos. Os brancos foram uma descoberta”, conta Rupert Symington, Presidente da empresa. Assim, os vinhos brancos deixaram de ser vistos apenas como um complemento do portefólio e, hoje, assumem um papel imprescindível na identidade da marca. Logicamente, tornou-se essencial aumentar a presença de castas brancas no encepamento. Entre novas plantações e sobreenxertia, a área dedicada a estas variedades atingiu os 15 hectares, correspondendo a 28% da vinha, composta por Verdelho, Arinto, Gouveio, Alvarinho e Bical, a par com duas internacionais: Viognier e Chardonnay. Nas castas tintas, contam com Syrah, Trincadeira, Alicante Bouschet, Alfrocheiro, Aragonez, Touriga Nacional, Grand Noir, Castelão, uma pequena área de 0,75 hectares com mistura de castas e ainda um pouco de Pinot Noir e de Monvedre. Esta última é uma casta do Dão, mas, em Portalegre, é conhecida como Tinta de Olho Branco, porque na altura de rebentação tem escamas brancas. “É muito ácida, tânica e rústica”, nota Ricardo Constantino.

Vindimam manualmente, uma vez que em Portalegre ainda é possível arranjar mão de obra. Praticam, desde o verão passado, a vindima noturna, o que permite que a uva chegue fresca à adega, dispensando o recurso à refrigeração e reduzindo o consumo energético. Por sua vez, a adega exigiu uma intervenção profunda. O telhado teve que ser reparado, pois “chovia dentro como se fosse na rua”, recorda Charles Symington, Director de Produção da empresa. Sem grande confiança no histórico dos balseiros existentes, optou-se pela sua substituição por cubas de inox. A zona de receção foi ampliada, no sentido de favorecer uma gestão mais cuidada da vindima. Foi recuperada a antiga adega com talhas. Contudo, para já, funciona apenas como um pequeno museu em homenagem à história da quinta e da região. Como refere o enólogo residente, na zona de Marvão ainda subsiste a tradição de se fazer vinho de talha, acção localmente conhecida como “fazer vinho em pote”.

As dificuldades e “surpresas” iniciais estão a ser ultrapassadas ao mesmo ritmo que se comprova o potencial do lugar e a qualidade dos vinhos. Para a Symington, a Quinta da Fonte Souto representa o investimento a longo prazo, um compromisso estratégico inscrito numa visão de futuro. “Não viemos cá para uns anos. Viemos para ficar muitos anos”, afirma Charles.

Mini-vertical

O Quinta da Fonte Souto branco resulta sempre de uma aliança entre Arinto, que representa cerca de 75% do lote, e Verdelho. Uma pequena prova vertical demostrou dois aspectos: a variação natural de cada colheita, própria de vinhos que procuram expressar o ano vitícola, e o processo de aprendizagem sobre as castas, as condições da Serra de São Mamede e da consequente adaptação da abordagem enológica. Na vindima inaugural de 2017, usou-se naturalmente mais barrica nova de 500 litros; em 2018 já houve barricas de segundo uso; e, em 2019 e 2023, utilizaram-se barricas de segundo e terceiro ano, com 10% e 15% do vinho, respectivamente, a estagiar em inox para preservar a frescura varietal. Também ficou claro que, no caso da casta Verdelho, determinados níveis de tosta não funcionam.

O Quinta da Fonte Souto 2017 resultou de um ano quente. “As maturações evoluíram rapidamente. Tivemos de fazer o jogo de cintura e tivemos muito menor área de brancos, na altura. Porém, mesmo assim, o resultado agradou muito e mostrou o potencial: volume, textura e frescura”, garante Charles Symington. O vinho revelou nariz com complexidade de evolução, repleto de laranja doce, tosta, especiaria, ervas aromáticas e mel; revela-se suculento, cremoso, com volume, frescura natural e leve amargo. (17)

A vindima de 2018 começou tardíssimo, devido a uma vaga de calor que atrasou o processo de maturação. “Só começámos vindimar a 12 de Setembro e terminámos em 19 de Outubro”, conta Pedro Correia, o enólogo da empresa. Dourado na cor, com aroma mais fresco, a lembrar ananás, laranja, leve flor de laranjeira, hortelã e gengíbre. Um pouco menos complexo na boca, madeira mais discreta, textura amanteigada e final salivante. (17)

Já o Quinta da Fonte Souto 2019 foi o fruto do ano ameno, com elevadas amplitudes térmicas durante os meses mais quentes e produções relativamente baixas. Uma particularidade: o vinho apresenta mais de 14% de teor alcoólico o que, na prova, não comprometeu a frescura. Novamente, sente-se a influência do ano: a videira fotossintetiza permanentemente durante o dia, mas, com noites frias, a acidez não cai tão depressa e a uva acaba por acumular bastante açúcar. Madeira menos evidente, notável complexidade com destaque para os citrinos, como laranja e tangerina, alperce e ananás; tudo muito afinado na boca. (17,5)

Segundo o enólogo residente, no ano 2023 a vindima foi muito precoce e longa. Decorreu de 7 de Agosto a 13 de Outubro. Tiveram uma semana de paragem devido à chuva e registaram um mês de diferença na maturação entre as parcelas de Arinto. Neste ano, entrou mais Verdelho no lote (35%). Ainda é muito jovem em comparação com os vinhos anteriores. Mostra-se citrino e mais vegetal, com folhas verdes, especiaria e cominhos; denso, com acidez presente e novamente a confirmar o componente vegetal, bem integrado no perfil. (17,5)

A produção do Quinta da Fonte Souto branco triplicou desde a primeira vindima em 2017, com cerca de 8.000 garrafas para aproximadamente 24.000 garrafas.

 

“Comprámos esta quinta para tintos. Os brancos foram uma descoberta”, afirma Rupert Symington

 

Ensaios de tintos

Provámos expressões monovarietais de duas castas, ambas de carácter vincado, embora manifestem comportamentos diametralmente opostos. Se o Alicante Bouschet é consistente e fiável na entrega de qualidade, o Alfrocheiro revela-se mais exigente e sensível, não tolerando bem a chuva. Como observa Pedro Correia, “nem sempre as condições se reúnem, mas quando isso acontece, dá um grande vinho”, como ficou demonstrado na prova a seguir.

Do Quinta da Fonte Souto Alicante Bouschet 2018 foram produzidas 6.267 garrafas e o vinho ainda se encontra disponível no mercado, com um PVP de €30. É uma expressão do ano mais tardio, quando era preciso esperar pelas maturações. Estágio em barricas de segundo ano, para preservar aromas varietais, escuro e opaco, groselha preta esmagada e macerada, casca de árvore fresca e vegetal doce. Cheio, denso, musculado e um pouco amargo no final a lembrar azeitona preta. (17,5)

Do Quinta da Fonte Souto Alfrocheiro 2019 foram produzidas 6.211 garrafas e esta referência está completamente esgotada (resta esperar quando as condições se reúnem novamente). Fragrante, atraente, intrigante; nuance floral bonita, cereja e ameixa, aneto e eucalipto, louro, mentol e caruma; suculento e envolvente, com fruta pura, mas também com complexidade, sedoso e sedutor. (18).

Fizeram também um Field Blend em 2020 e um monovarietal de Syrah em 2021, que ainda não se encontram em comercialização. Fica o teaser.

Taifa 2022 

Esta é a terceira edição. A primeira foi um monovarietal de Arinto, vinificado 100% em barrica nova. Este lote de 2022 combina 70% de Arinto com 30% de Verdelho, demonstrando uma notável sinergia entre as castas. Fruto de uma vindima minuciosa, realizada em várias passagens pelas mesmas parcelas, o vinho fermentou em barrica, com uma menor proporção de madeira nova (70%), de modo a realçar a fruta e conferir maior equilíbrio. Estagiou um ano em barricas de carvalho francês e húngaro e dois anos em garrafa, o que explica a sua óptima integração no momento do lançamento. Foram produzidas 3.215 garrafas e 15 em Magnum.

(Artigo publicado na edição de Janeiro de 2026)

 

QUINTA DONA SANCHA: Vinho frescos e sedutores

dona sancha

A Quinta Dona Sancha apresentou num almoço, que decorreu no restaurante Pabe, em Lisboa, seis referências de vinho, de três gamas diferentes, entre as quais estiveram presentes as novas colheitas da gama Avarenta tinto e branco, o Quinta Dona Sancha Encruzado e Touriga Nacional. O Vinha Ancestral tinto de 2019 e o monocasta de Jaen […]

A Quinta Dona Sancha apresentou num almoço, que decorreu no restaurante Pabe, em Lisboa, seis referências de vinho, de três gamas diferentes, entre as quais estiveram presentes as novas colheitas da gama Avarenta tinto e branco, o Quinta Dona Sancha Encruzado e Touriga Nacional. O Vinha Ancestral tinto de 2019 e o monocasta de Jaen de 2022 foram as duas novidades absolutas.

Rui Parente, o produtor da Quinta Dona Sancha, defende que os seus vinhos já demonstram hoje uma matriz de sabores e aromas que os diferenciam

 

Pensados ao detalhe

Segundo Rui Parente, fundador do projecto e proprietário da Quinta Dona Sancha, os vinhos apresentados “foram pensados ao detalhe, para despertar lembranças e emoções”, expressando “a identidade que procuram afirmar, desde a primeira vindima”, o terroir de Silgueiros, da região do Dão. O enólogo Paulo Nunes tem sido o consultor da empresa desde o primeiro dia, contribuindo, com o seu conhecimento, e saber fazer, para a produção e comercialização de vinhos, com a frescura e elegância que os caracteriza. Rui Parente, que já o conhecia há muitos anos, ainda antes de se dedicar à produção de vinhos, já tinha encetado conversações, para que se envolvesse neste projecto antes de o iniciar.

O objectivo, desde o início, foi procurar fazer vinhos com identidade, marcados pelas características que diferenciam o terroir de Silgueiros e do Dão, “acreditando que havia espaço para colocar a região na rota do sucesso, o lugar que um território com pergaminhos históricos na produção de vinho de qualidade merece”, defendeu Rui Parente no dia do lançamento, salientando que, à sexta vindima, a empresa mostra que é uma empresa representativa daquilo que é a sub-região de Silgueiros, a quinta e o terroir. “Acabámos de os provar e a identidade da quinta nota-se em todos os vinhos”, salientou, com algum orgulho, nesse dia, defendendo que mostram “uma matriz que identifica o projecto, o que tem sido o meu objectivo de médio e longo prazo desde o primeiro dia”.

dona sancha
Paulo Nunes, enólogo consultor da empresa

50 hectares de vinha

A Quinta Dona Sancha nasceu de um sonho de Rui Parente. Os pais produziam vinhos para terceiros, sem marca, mas o empresário teve sempre esse desejo de criar um projecto próprio na Região do Dão. Talvez tenha sido essa a finalidade de iniciar o percurso no sector ainda muito jovem, lançando-se por conta própria em 2011, quando criou o seu negócio, a Cave Lusa, em Viseu, que inclui uma garrafeira e uma empresa distribuidora de vinhos.

A oportunidade de se estrear na produção surgiu em 2018, com a compra de duas propriedades que constituem, hoje, a Quinta Dona Sancha, uma referência na região do Dão situada a 12 quilómetros de Viseu, com cerca de 47 hectares de vinha e um portefólio reconhecido pela autenticidade e pela elegância dos seus vinhos.

(Artigo publicado na edição de Janeiro de 2026)