ANSELMO MENDES: O lado Loureiro do Senhor Alvarinho

O universo minhoto de Anselmo Mendes estende-se de Monção e Melgaço até ao Vale do Lima e abrange mais de 130 hectares. Destes, 61 situam-se em Monção e Melgaço e 75 no Vale do Lima. A maior área dedicada ao Loureiro, aliada ao seu maior rendimento por hectare, faz com que o volume desta casta […]
O universo minhoto de Anselmo Mendes estende-se de Monção e Melgaço até ao Vale do Lima e abrange mais de 130 hectares. Destes, 61 situam-se em Monção e Melgaço e 75 no Vale do Lima. A maior área dedicada ao Loureiro, aliada ao seu maior rendimento por hectare, faz com que o volume desta casta seja bastante superior ao do Alvarinho. A relação de Anselmo Mendes com o Loureiro também é mais antiga do que muitos imaginam. Remonta a 2005, quando começou a recuperar as vinhas de antigas quintas senhoriais do Vale do Lima.
É preciso recuar ainda mais no tempo para perceber o contexto da produção de vinho na região. Nos anos 80 do século XX, surgiu o conceito de vinho de quinta. Empresários ligados ao têxtil, à construção civil e a outros sectores, com capacidade financeira para investir em propriedades com solares, criaram marcas próprias e começaram a engarrafar os seus vinhos. Como recorda Anselmo Mendes, no final da década existiriam cerca de 30 a 40 vinhos de quinta. Investiu-se em adegas, bem equipadas à época, e nasceram marcas ambiciosas, que conquistaram alguma notoriedade no mercado. Na altura, “o normal era um vinho custar cem escudos; estes já custavam 500 ou 600 escudos”, refere o produtor. Contudo, produzir vinhos secos, sérios e expressivos não era tarefa fácil, e muitos nunca conseguiram descolar-se dos Vinhos Verdes “clássicos”, adamados e gaseificados. Segundo Anselmo Mendes, “o que falhou, foi a viticultura”, mais precisamente, a falta de conhecimento nesta área não permitiu dar o salto qualitativo. No fundo, “sem uma boa viticultura não há hipótese nenhuma de atingir vinhos de excelência”.

O Loureiro consegue manter um bom nível qualitativo até cerca das dez toneladas por hectare
Vale do Lima
Toda a vinha que Anselmo Mendes explora no Vale do Lima assenta em contratos de arrendamento. A razão é simples: muitos proprietários das antigas quintas estão dispostos a vendê-las, mas estas propriedades são pouco aliciantes do ponto de vista prático para quem vive da viticultura. Têm “muita casa e pouca terra”, uma característica que encarece as quintas, enquanto um viticultor procura sobretudo terra com vinha, sem o “peso” dos imóveis.
Das várias propriedades que integram o projecto de Anselmo Mendes no Vale do Lima, visitámos a Quinta da Ferreira, situada em Gondufe. Aqui, uma boa parte da vinha está implantada numa encosta que atinge cerca de 150 metros de altitude, contrastando com outras quintas em cotas muito baixas. Uma delas encontra-se mesmo dez metros abaixo do nível do mar.
Os anos de trabalho em duas sub-regiões próximas, mas distintas, permitem-lhe comparar, a partir da sua própria experiência, as condições de cada uma delas. Na sub-região do Lima há menos problemas de geadas do que em Monção, onde o ar frio, por vezes, drena mal e se acumula nos vales. No Lima, o vale é mais aberto, permitindo uma melhor circulação do ar, e a maior influência atlântica contribui para um clima mais moderado. A amplitude térmica também é diferente. No Vale do Minho, no final de Agosto, é possível registar 35º C durante o dia e temperaturas próximas dos 12º C à noite. No Vale do Lima, as máximas não atingem valores tão elevados, mas as temperaturas nocturnas também não descem tanto.
A pluviosidade anual na região é comparável à de Bordeaux, mas a distribuição da precipitação ao longo do ano é diferente. “No nosso caso, em Julho e Agosto não chove. Aliás, os grandes anos são aqueles em que chovem 30 milímetros em cada um desses meses. Isso é o ano perfeito. E depois não chove na vindima. Mas isso não existe”, lamenta o nosso anfitrião.
Estas condições tornam a rega uma necessidade, sobretudo nas vinhas jovens e em situações extremas que possam comprometer a sobrevivência das plantas, uma questão que continua a dividir os viticultores. Para Anselmo Mendes, porém, não há dúvidas: “instalámos rega praticamente em todas as vinhas. Sabendo regar de acordo com a textura do solo, estamos a poupar água no futuro. Temos vinhas com quatro e cinco anos que já não regamos.”
Segundo Anselmo Mendes, o que verdadeiramente distingue esta quinta é a conjugação de vários factores: a altitude, a boa drenagem e uma eficaz colonização subterrânea das vinhas. Esta última depende, em grande medida, das características do solo e da densidade de plantação. “Optámos sempre por uma densidade maior. Aqui estamos nas 3 300 a 3 500 plantas por hectare. A densidade, por si só, não diz nada sobre a qualidade, mas há um mínimo. Menos de 2 500 plantas comprometem a colonização subterrânea das vinhas”, explica. A lógica é simples: uma competição moderada entre videiras obriga as raízes a explorar um maior volume de solo, favorecendo o desenvolvimento do sistema radicular. Já o extremo oposto, com 10 000 plantas por hectare, também não faz sentido, sobretudo nos solos menos férteis, porque, a partir desse ponto, a competição entre videiras torna-se excessiva e deixa de ser benéfica.
Sem uma boa viticultura não há hipótese nenhuma de atingir vinhos de excelência
A natureza da Loureiro
Há duas características que definem o Loureiro: a elevada produtividade e a exuberância aromática. Foram precisamente estas duas características que Anselmo Mendes procurou contrariar.
Na reestruturação das vinhas, a escolha de material policlonal seguiu dois critérios: evitar clones muito produtivos e excessivamente terpénicos. Apesar de ser esse o perfil que o mercado mais associa à casta, Anselmo Mendes confessa que “os Loureiros amuscatelados” não fazem parte das suas preferências.
A questão da produtividade vai muito além das preferências pessoais, porque condiciona diretamente a qualidade do vinho. Ao contrário do Alvarinho, cuja produção ronda naturalmente entre as sete e as oito toneladas por hectare, o Loureiro chega facilmente às 15 toneladas e, em alguns clones, pode atingir as 29 toneladas por hectare. Não há milagres: nestas condições, a maturação resulta apenas numa “solução hidroalcoólica” pouco definida, verde e ácida.
Para Anselmo Mendes, o Loureiro consegue manter um bom nível qualitativo até cerca das dez toneladas por hectare. Nos seus vinhos da gama Private procura não ultrapassar as oito toneladas. Mas também aqui não existe uma relação direta de causa e efeito: produções muito baixas nem sempre se traduzem em vinhos melhores. “Temos vinhas que não passam das cinco toneladas. Vamos reestruturá-las porque não é viável. E mais impressionante é que o resultado não nos impressiona. Ou seja, o facto de ter aquela produção baixa não aumenta a qualidade.”
O Loureiro é uma casta particularmente sensível à podridão e, em anos de chuva durante a vindima, a qualidade da produção pode ficar comprometida. Anselmo Mendes explica que prefere evitar os tratamentos convencionais com fungicidas e aposta antes no controlo da traça-da-uva através da confusão sexual. Os difusores instalados na vinha libertam feromonas que confundem os machos e dificultam o acasalamento, reduzindo a postura de ovos e o desenvolvimento das larvas. Assim, evitam-se perfurações nos bagos, que funcionam como portas de entrada para fungos.
Como o Loureiro frutifica muito bem nos gomos mais próximos da base do sarmento e apresenta um crescimento vigoroso, adapta-se bem à condução em cordão ascendente e à poda a talão e vara. Esta opção permite controlar o vigor e ajuda a manter uma copa equilibrada. Mas o equilíbrio da videira não se constrói apenas no inverno. Ao longo do ciclo vegetativo, é através da intervenção em verde que se ajusta a relação entre vegetação e produção.

Intervenção em verde
Ir com Anselmo Mendes à vinha é como ter uma aula de viticultura, com explicação e demonstração ao vivo. As práticas culturais têm uma influência directa na qualidade das uvas. Para o produtor, há quatro operações fundamentais na gestão da vinha: supressão, orientação, desponta e desfolha. E têm que ser executadas rapidamente, porque “com boa temperatura e água no solo, isto chega a crescer mais de cinco centímetros por dia”.
“Suprimir é tirar aquilo que não interessa, mesmo que tenha um cacho”, exemplifica o mestre, removendo os lançamentos “que nem dão para o ano seguinte e estão a contribuir para a má qualidade global”. É fundamental criar “buracos” na parede vegetal para garantir o arejamento e criar um bom microclima junto dos cachos.
Numa casta vigorosa como o Loureiro, que tende a desenvolver muita vegetação, a orientação dos lançamentos é essencial para construir uma parede vegetal equilibrada, evitando sobreposições e excesso de densidade, e tendo em conta que a variedade é sensível à desnoca – quebra de sarmentos.
A desfolha tem a vantagem de expor precocemente os cachos à luz, permitindo que se adaptem gradualmente à radiação solar. Mais tarde, a desponta promove o aparecimento de folhas novas, que nas palavras do produtor “trabalham bem” e reduzem a exposição direta dos cachos. Ao mesmo tempo, ajuda a controlar o vigor, evita que a vegetação tombe e contribui para um melhor equilíbrio entre folhas e cachos. “Feito isto, é meio caminho andado para ter qualidade”, resume Anselmo Mendes.
Anselmo Mendes confessa que “os Loureiros amuscatelados” não fazem parte das suas preferências
Loureiro ao longo dos 20 anos
Muros Antigos, é um blend das várias quintas. Não passa por barrica; as uvas são vinificadas apenas em inox e expressam a casta, a sub-região, o produtor e o ano. A influência deste último factor tem a ver com temperatura com que se vindima. O Loureiro vindimado à noite, sem ser sulfitado, oxida ao fim de 3,5 horas, enquanto vindimado a 25º C oxida ao fim da meia hora.
Para assinalar os 20 anos de Loureiro, provámos 18 vinhos monvoarietais, dos quais 12 Muros Antigos, desde a primeira colheita de 2005 até ao mais recente; e mais seis Loureiros de outras gamas de vários anos.
2024 – Mais discreto no aroma que o 2025, com folhas e erva-príncipe, menos floral; menos concentrado e menos salino, ligeiramente amargo e com muita tensão. (17); 2022 – Lima, limão, até alguma laranja, não propriamente aromático, tisanas, mineral em boca, muito mais seco e muito fresco. (16,5); 2019 – Muito bom no aroma, aquela evolução que não se sente, mas harmoniza o vinho; limão, parte floral bonita, manjericão e estragão; está muito bem na boca, tenso e extremamente fresco, sem transparecer a idade. (17,5); 2017 – Apetrolado ao ponto de fazer lembrar um Riesling; cogumelos, ervas aromáticas, resinoso, tem imensa força, vida, suculência e projecção de sabor; textura deslizante. (17,5); 2016 – Limão a passar para dourado; no aroma limão cristalizado, laranja, mel, muito fresco, concentrado no sabor e mais amplo. (17); 2014 – Limão dourado; laranja, limão cristalizado, tisanas, salino, talvez mais magro, mas não lhe fica mal; palato com laranja amarga, suculento, com toque de botrytis que até se enquadra bem. (17); 2013 – Dourado; cogumelos, manteiga, mel, a lembrar pêra, fruta em calda e ananás salgado; no palato balança entre o amargo e o salgado, firme e guloso. (16,5); 2011 – Dourado; fruta muito boa e fresca, cardamomo, notas de Riesling novamente, com muito vigor na prova, resinoso, caruma, limão cristalizado, lemon curd; boca espectacular, cheio, fresco, cremoso e longo. (17,5); 2010 – Dourado; xarope de limão, ananás, tisanas, austero em boca, pouco conversador, também algumas notas apetroladas. (16,5); 2008 – Doce de laranja, ananás, em caldo, muito bem projectado em boca, sem indícios de vinho velho, algum cogumelo; meloso mas com tensão. (16,5); 2005 – o ano de estreia; dourado; cogumelo, xaropes de limão e laranja, flores secas e tisanas, erva-príncipe, suculento e amplo, cremoso, levemente salino e ainda cheio de vida. (17,5)
Anselmo Mendes Private Loureiro
Este vinho é o resultado de uma única vinha da Quinta da Ferreira, localizada numa encosta da margem esquerda do Rio Lima; também não vê a barrica, mas estagia durante nove meses em inox com bâtonnage, mais um ano em garrafa.
2021 – Limão Dourado; mais quente, mais fruta; quase fumado no nariz, pimenta branca, lima e limão maduro, alguma tília e louro; tenso, cremoso, mastigável, com muita estrutura e matéria. (18,5); 2020 – Limão leve; querosene, fumado, pimenta branca, pedra lascada e muita lima no sabor; acidez incisiva, mas bem coberta pela textura suculenta; salino e longo. (18,5); 2019 – Citrino dourado, fechado no nariz, ervas aromáticas, citrinos discretos, austero também na boca e com menos volume. (18,5); 2017 – Flores e querosene, menta e mentol, lima e limão e ainda caruma; austero na boca, com pedra raspada; prima pela tensão e frescura. (18,5)
Loureiro do Tiago 2020 – a interpretação de Tiago, filho de Anselmo Mendes. Fermentou em barricas usadas de 400 litros, onde depois permaneceu durante seis meses, e com um longo estágio de quatro anos em garrafa. Limão, ligeiro fumado, um toque mineral e caruma de pinheiro; discreto, mas completo, sem exuberância, muita textura, elegante, fino com barrica muito bem integrada. (18,5);
Anselmo Mendes Tempo Loureiro 2019 – Curtimenta total e estágio de 24 meses em barrica de carvalho francês de 400 litros com bâtonnage. Dourado. Ananás maduro, caruma, limão, xarope muito aromático, profundo, farmácia, tangerina, doce de laranja, mel fresco, a tensão de tanino bem coberta de textura e sabor muito sabor, amplo e preciso, atlanticamente salino, com acidez filigrana e flores caramelizadas. (19)
(Artigo publicado na edição de Setembro de 2026)
EDITORIAL Setembro: Acima de tudo, clássico

Editorial da edição nrº 113 (Setembro de 2026) O Porto Vintage é uma das poucas categorias de vinho em que uma declaração geral continua a ter um significado colectivo e histórico extraordinariamente forte. Geram-se expectativas, opiniões e até alguma polémica. Paradoxalmente, todo este movimento se concentra no topo da pirâmide, numa ínfima parte, cerca […]
Editorial da edição nrº 113 (Setembro de 2026)
O Porto Vintage é uma das poucas categorias de vinho em que uma declaração geral continua a ter um significado colectivo e histórico extraordinariamente forte. Geram-se expectativas, opiniões e até alguma polémica. Paradoxalmente, todo este movimento se concentra no topo da pirâmide, numa ínfima parte, cerca de 1%, de todo o Vinho do Porto produzido.
Lembro-me de que, na altura das declarações gerais consecutivas de 2016 e 2017, os comentadores estrangeiros mais críticos referiam, com algum sarcasmo, que o Vintage clássico agora era todos os anos. Com a declaração de 2018, a ‘acusação’ ressurgiu, embora esse ano, apesar de excelente, não tenha sido considerado clássico. Entretanto, em Portugal ganhou força a convicção de que o velho padrão de três grandes Vintage por década já não fazia sentido: o Vintage é quando o homem quiser. A natureza parece ter discordado. Foram precisos sete anos para que chegasse outro clássico: 2024.
Será que hoje, com viticultura de precisão, adegas bem equipadas, melhores aguardentes e muito conhecimento científico, não se consegue produzir um grande Vintage todos os anos? Sim, temos hoje essa capacidade. Mas não em todo o lado e não ao mesmo tempo. Mesmo nos anos péssimos, há sempre qualidade algures. São vitórias de terroir. E a decisão de declarar um Vintage cabe ao produtor. As grandes casas podem encontrar condições óptimas numa ou noutra propriedade para um Single Quinta Vintage; os produtores mais pequenos interpretam o ano a partir das suas próprias vinhas. Se a Câmara de Provadores do IVDP aprovar, Vintage será.
O que verdadeiramente distingue um ano bom de um ano extraordinário é a qualidade transversal e generalizada. Quando tudo acontece no timing certo e na medida certa, ou quando um excesso é compensado por outro factor, como por exemplo, a falta de água no Verão, pela precipitação generosa no Inverno. Nestes anos, os Vintage das grandes casas são um lote de vinhos de várias propriedades sob o nome da marca principal – Graham’s, Dow’s, Taylor’s, Fonseca, Ferreira, Sandeman, Kopke – e não de uma só quinta. O resultado vai para além da soma das partes.
Foi o que aconteceu em 2024. Depois de anos muito secos, marcados por ondas de calor e precipitação errática, este veio com humidade suficiente no solo, sem vagas de calor prolongadas e com noites frescas, permitindo uma maturação lenta e uniforme de diversas castas em variadíssimas vinhas.
O barómetro do Vinho do Porto é sempre o desempenho da Touriga Franca. Em 2024, porém, muitos produtores destacam a Touriga Nacional. Até as castas mais complicadas, como a Tinta Roriz ou a Malvasia Preta, entregaram uma qualidade acima da média, como referiram vários enólogos na recente prova de 40 Vintages 2024 organizada pela Associação das Empresas de Vinho do Porto (AEVP). Esta prova, entre outras realizadas este ano, permite identificar alguns traços do Vintage 2024: pureza excepcional da fruta, muita frescura de boca, taninos sedosos e um charme imediato, mas com o potencial de envelhecimento.
Também foram partilhadas impressões sobre os vinhos de 2025 em estágio, muito opacos e densos, já uma grande promessa. Há indícios de que poderemos ter novamente uma declaração generalizada. Talvez seja essa a ironia: podemos estar cada vez mais preparados para fazer grandes Vintage, mas ainda não podemos comandar o ano. Podemos discutir quantos anos clássicos cabem numa década, mas a natureza continuará a decidir quando eles acontecem. (V.Z.)
GRANDE ENTREVISTA: LUÍS SOTTOMAYOR

“O Legado nasce na terra, o Barca Velha, na sala de provas” O que te levou a enveredar pela enologia? Nasci no Porto, mas, na verdade, sou natural de Moreira da Maia. Na altura, a quinta onde eu vivi a minha infância e juventude era campo. A cidade da Maia ainda não tinha lá […]
“O Legado nasce na terra, o Barca Velha, na sala de provas”
O que te levou a enveredar pela enologia?
Nasci no Porto, mas, na verdade, sou natural de Moreira da Maia. Na altura, a quinta onde eu vivi a minha infância e juventude era campo. A cidade da Maia ainda não tinha lá chegado. E vivíamos ao ritmo das estações, da apanha das batatas, das ceifas, do gado, do corte da lenha na mata para os fogões e para o aquecimento. E fazia-se lá um vinho, um Verde de uvas de ramadas. Desconfio que não seria grande coisa, pois lembro-me de ouvir o meu pai, que era enólogo – foi, aliás, dos primeiros portugueses a ir estudar enologia para fora, em Dijon – dizer que era intragável, algo que enfurecia muito a minha avó materna, a matriarca da casa. Era um tinto de lagar e eu lembro-me bem de todo esse processo, a vindima, a prensagem, a preparação das pipas e tonéis…
O teu pai teve influência na tua orientação profissional?
Sim, claro, mas não só. Ele era enólogo numa empresa de Vinho do Porto, mas a família também tinha propriedades no Douro. Por exemplo, a Quinta do Seixo foi construída pelo meu trisavô paterno e a Quinta do Bom Retiro pertenceu à minha família até 1919. Todas essas raízes e vivências tiveram influência na minha decisão de seguir enologia. Eu via fotos do meu pai, de bata na sala de provas, rodeado de copos e garrafas, e lembro-me que, desde miúdo – para além da fase comum a todas as crianças de querer ser jogador de futebol, bombeiro, etc. –, tive o sonho de mexer com vinhos.
Estudaste em França e na Austrália, duas escolas completamente distintas, senão opostas. Quais foram, para ti, os principais ensinamentos que recolheste de cada uma delas?
A escola francesa de Dijon, nos anos 80, era ainda muito tradicionalista. A enologia era muito desligada da viticultura, por exemplo. Mas era excelente em termos de prova e de trabalho de adega. O curso que fiz depois pela Universidade Charles Sturt, uma escola especializada no ensino à distância, foi feito na Universidade Católica do Porto, durante dois anos, e terminou com uma viagem de estudo à Austrália, durante um mês e meio. Aí, a componente vitícola era bastante mais intensa. Os australianos já tinham um entrosamento grande entre a viticultura e a enologia.
“Sou apaixonado por aquela quinta. A funcionalidade da adega, a diversidade da vinha, a beleza esmagadora da paisagem, aquele Douro Superior austero e quase selvagem. Sempre que posso, fujo para a Leda…”
Até entrares na Ferreira, em 1989, por onde andaste?
Quando vim de França, em 1988, fui fazer a vindima para a João Pires, na Península de Setúbal. O pai da minha então namorada, hoje minha mulher, conhecia o António Francisco Avillez e arranjou forma de ele me receber como estagiário na vindima de 1988. E acabei por ficar mais algum tempo. Foi extremamente interessante para a minha aprendizagem, pois o responsável era o Peter Bright, um enólogo australiano que tinha uma ideia totalmente diferente do que era a enologia portuguesa da época. Foi uma excelente escola para mim, um período riquíssimo em ensinamentos. O Peter Bright tinha uma enorme intuição, olhava para as uvas e percebia de imediato o perfil de vinho que podia fazer com elas. Embora o período na João Pires tenha sido muito curto, marcou-me bastante, e, ao longo da carreira, procurei usar vários dos conceitos que ali apreendi.
Depois, num fim de semana que vim passar a casa, o meu pai disse-me que tinha falado em mim às pessoas da Ferreira e fui chamado para uma conversa com José Maria Soares Franco. Voltei a Lisboa, nunca mais pensei no assunto, mas passado algum tempo, recebi de José Maria o convite para vir trabalhar na Ferreira, já integrada na Sogrape desde 1987. E por cá fiquei.
Quando chegaste, em 1989, a Sogrape já tinha Barca Velha, Vinha Grande, Esteva, Planalto. Mas nessa época a dimensão do negócio DOC Douro nada tinha a ver com o que é hoje. Que impacto teve para ti, enquanto enólogo, o crescimento do “Douro para além do Porto”?
A dimensão é hoje muito maior, é verdade. Mas, apesar de tudo, a Ferreira já tinha bastante DOC Douro. Para mim, o mais marcante, foi a diferença de cultura entre uma empresa de vinhos tranquilos com algum fortificado (João Pires) e uma empresa de fortificados com algum vinho tranquilo (Ferreira). Na João Pires, em 1988, eu andava com um ajudante numa camionete, com uma prensa e um esmagador, a fazer a vindima em Carcavelos, por exemplo, carregando mangueiras de um lado para o outro, muito “à australiana”. Na Ferreira, na vindima de 1989, se agarrava numa mangueira vinha logo alguém a correr tirá-la da minha mão. Para o funcionário de adega, era quase um insulto eu estar a fazer um trabalho que deveria ser dele. Mas o fortificado, o Porto, era, de longe, o mais importante. Primeiro fazia-se o Porto, que representava três quartos de tudo o que fazíamos, e só depois vinha o momento de fazer Douro.
Quando é que sentiste que a vinha começou a entrar no dia a dia da enologia do Douro?
Quanto entrei na Sogrape, em 1989, a empresa era proprietária, no Douro, da Quinta do Seixo, Quinta do Porto e Quinta da Leda, que tinha, na altura, trinta e poucos hectares de vinha. E havia, claro, muitos lavradores com quem trabalhávamos. Mas o “ir à vinha” não era assim uma coisa tão significativa para a enologia. Havia pessoas que tratavam disso, não era propriamente o enólogo. Conversávamos com quem acompanhava a vinha, havia um controlo da maturação, marcava-se a vindima, mas não havia consciência da importância de estarmos “por dentro” da vinha. Da diferença que era fazer um vinho Tinta Roriz com monda ou sem monda, por exemplo. Ou da diferença que fazia ter uma casta plantada no local indicado para ela. Isso foi algo que fomos adquirindo com o tempo. A “escola australiana” foi, para mim, fundamental para ganhar essa percepção. Paralelamente, a partir de 1992, a Sogrape começou a adquirir propriedades no Douro, começando com a Quinta do Caêdo. À medida que novas propriedades se juntavam às quintas da Ferreira, e que se faziam reestruturações e plantações, a vinha começou a ganhar peso na Sogrape e no dia-a-dia da enologia.
“Quando cheguei, em 1989, não podia entrar livremente na sala de provas. José Maria Soares Franco e Manuel Vieira estavam lá dentro, juntamente com o senhor Fernando Nicolau de Almeida. Eles provavam, e eu ficava à porta, à espera”
Quando entraste na Sogrape era mais adega ou sala de provas?
O período de vindima era muito intenso e concentrado, dominado pelos ritmos da produção de Porto, 24 sobre 24 horas. Depois, o resto do ano era muito mais sala de provas. Mas a sala de provas era um espaço muito especial, não se chegava lá de imediato. Eu cheguei em 1989 e até meados de 1991 não podia entrar livremente na sala de provas. José Maria Soares Franco e Manuel Vieira estavam lá dentro, juntamente com o senhor Fernando Nicolau de Almeida que, embora reformado, ia todos os dias à Sogrape. Eles provavam e eu ficava à porta, à espera. Só quando acabavam de provar é que abriam a porta. Eu entrava e explicavam o que tinham feito. E eu ficava a ouvir. E só passado uns meses me deixaram provar.
Esse processo de integração, a dada altura, avançou rapidamente, porque a Sogrape tinha acabado de comprar a Quinta dos Carvalhais, estava a construir a adega, e Manuel Vieira e José Maria Soares Franco passavam muito do seu tempo no Dão. Por outro lado, um dos provadores principais faleceu inesperadamente. Como resultado, fiquei sozinho na sala de provas a ter de tomar decisões sobre os lotes. A minha sorte foi o senhor Fernando Nicolau de Almeida. Nessa altura, socorri-me da sua experiência e conhecimento, aprendi muitíssimo com ele na elaboração dos lotes, não apenas de vinho do Porto, mas também dos vinhos do Douro, sobretudo o chamado Douro Especial, a base do Ferreirinha Reserva Especial e do Barca Velha. E a Fernando Nicolau de Almeida, dava um prazer imenso, apesar de reformado, continuar a ser chamado por José Maria Soares Franco, para participar nas decisões sobre o Douro Especial.
Falemos então – é incontornável – do Barca Velha, um vinho que desde a sua criação, em 1952, só teve três enólogos responsáveis. Quando o testemunho do “Douro Especial” passa de mãos, como passou de Fernando Nicolau de Almeida para José Maria Soares Franco e deste para ti, e como irás passar ao teu sucessor, qual deve ser a postura do novo enólogo? Mais conservadora, de continuidade, ou mais inovadora, introduzindo mudanças, mesmo que pequenas?
Eu diria que deve ser uma postura mais conservadora. Porque se dermos um passo em falso, corremos o risco de estragar um trabalho de mais de 70 anos. É evidente que devemos tirar partido dos desenvolvimentos qualitativos na vinha e na adega, para conseguirmos fazer Barca Velha mais vezes e em maior volume. Mas atenção: há limites. Com as vinhas e adegas de que dispomos actualmente, poderíamos fazer uma grande quantidade de Barca Velha. Só que, hoje, somos bem mais exigentes do que éramos nos anos 70 e 80. Porque o mundo mudou, o Douro mudou. A concorrência no “campeonato” dos grandes vinhos é muito maior. Se nós facilitamos um pouco, corremos o risco de ser ultrapassados. Há belíssimos vinhos no Douro e em Portugal. Por isso, o nosso nível de autoexigência tem de ser altíssimo, impondo a nós mesmos critérios cada vez mais apertados. E dá-nos imenso prazer perceber, nas provas comparativas que fazemos, que o Barca Velha continua a destacar-se. E, obviamente, também registamos com muito agrado, que o apreciador reconhece esse estatuto.
Sei que tens um carinho muito particular pela Quinta da Leda, uma propriedade que viste crescer, em todos os sentidos. O que é que a Leda tem de tão especial?
A Leda é importantíssima, é crucial para o projecto Sogrape no Douro. E digo isto racionalmente, mesmo sabendo que o meu apreço pela Leda tem alguma componente emocional, porque foi para a Leda que fui trabalhar quando entrei na Sogrape. Assisti às enormes mudanças que ocorreram desde então e participei em todas elas, com menor grau de responsabilidade primeiro, com muito maior peso depois. A construção da adega da Quinta da Leda, em 2001, foi um momento absolutamente histórico, revolucionário. Estive lá recentemente com José Maria Soares Franco, que deixou a Sogrape em 2006 e que, 20 anos depois, revisitou a adega da qual foi primeiro responsável, e chegámos à mesma conclusão: ainda hoje a adega da Leda continua a ser a mais prática e funcional que nós conhecemos. E conhecemos muitas! A adega da Leda tem algo que a distingue das outras: apesar de fazer dois milhões de quilos, tem uma dimensão humana. O enólogo sente o pulsar da adega, nada do que ali acontece lhe escapa.
E depois, há a vinha…
Sou apaixonado por aquela quinta. Não é que não goste das outras propriedades da Sogrape no Douro, antes pelo contrário, cada uma tem características fascinantes. E com a Quinta do Seixo até tenho um histórico familiar. Mas a Leda é diferente de tudo. Eram menos de 40 hectares de vinha quando cheguei, hoje são 160, fruto de sucessivas, muito pensadas e bem planeadas plantações. E, para além da dimensão, a diversidade: são 16 tipos de solo já estudados, variadas altitudes e exposições solares. Tudo isso empresta às uvas da propriedade uma complexidade fora do comum. E finalmente, a beleza esmagadora da quinta, a paisagem, aquele Douro Superior austero e quase selvagem. Sempre que posso, fujo para a Leda…
Apesar do potencial da quinta e da enorme qualidade dos vinhos ali produzidos, o Quinta da Leda tinto ainda não alcançou no mercado a notoriedade que merece. Ter acima dele, na hierarquia Ferreira, nomes como Reserva Especial ou Barca Velha é demasiado peso?
Eu não sou especialista em marketing, longe disso. Mas sei que o Quinta da Leda tinto é feito com todos os cuidados, na propriedade onde nasce o Barca Velha e o Reserva Especial. E parte das uvas até são as mesmas. Sei que a sombra desses ícones pesa e, de algum modo, abafa a notoriedade do Quinta da Leda. Mas acho igualmente que, quando lançámos o Quinta da Leda como blend, na colheita de 1997, não fomos suficientemente ambiciosos no seu posicionamento em termos de preço e de marca. O vinho merecia mais. E depois de tantos anos, é difícil reposicionar.
Deixa-me mudar a conversa para os vinhos brancos. Existe o histórico Planalto, que já ultrapassou os 3 milhões de litros, algo impensável há alguns anos. Há também o mais recente Vinha Grande branco. Mas não parece ter havido grande interesse em criar um branco de topo. Algo que contrasta com o crescente interesse do mercado pelos brancos durienses de primeira grandeza. Como avalias o potencial do Douro para a criação de grandes brancos? E para quando um branco de topo na Ferreira?
O potencial é bem evidente no reconhecimento que os melhores brancos do Douro têm vindo a alcançar junto dos apreciadores. A região tem esta capacidade única e maravilhosa: é possível fazer vinhos de grande maturação a baixas altitudes e vinhos de enorme leveza, elegância e acidez – mas sempre com concentração e sabor – nas zonas altas. E os vinhos brancos do Douro têm tido o reconhecimento merecido.
Sem querer fugir à pergunta sobre o “grande branco da Ferreira”, deixa-me dizer que, tal como acontece com o Quinta da Leda, o Vinha Grande branco também entrega muito mais do que aquilo que se paga por ele. Para mim, é um branco de primeira linha. nós sabemos possuir todas as condições para fazer vinhos brancos ainda mais ambiciosos. E estamos a trabalhar para isso. Em breve haverá novidades.
A base desse branco de topo será a Quinta do Sairrão?
Será um mix entre uvas do Sairrão e de zonas mais altas do Douro Superior. Mas, sobre isso é tudo o que posso dizer por agora…
Um dos maiores casos de sucesso dos últimos anos foi o Papa Figos, um vinho de grande impacto comercial que ditou tendências e se tornou o padrão do segmento. E que foi criado por ti de raiz. Quando o projecto Papa Figos começou a ser construído, o que é que te foi pedido pela administração?
Pediram-me para fazer um vinho diferente do Esteva – marca com longa história e perfeitamente consolidada –, claramente mais ambicioso, mas também fácil de beber, jovem, atraente, guloso. E, sobretudo, com o carácter Douro bem vincado. A experiência ajuda-nos muito. E conhecendo a região e a origem da grande maioria das uvas do Esteva, foi fácil perceber o caminho a seguir: é ir para o Douro Superior. Não para zonas demasiado baixas, para evitar sobrematurações, mas de média encosta, onde encontramos uvas com boa maturação, mas ainda cheias de fruta e com aqueles taninos naturalmente gordos e polidos que caracterizam o Douro Superior.
E como lidaste com o enorme crescimento da marca em volume? Tem sido fácil encontrar a matéria-prima com as características pretendidas?
O Papa Figos, na colheita de 2010, nasceu com 110 mil garrafas. Hoje estamos a falar em cerca de 2 milhões de litros, 2 milhões e 600 mil garrafas em números redondos. É evidente que este crescimento implica desafios, mas tem sido relativamente fácil resolvê-los. Não esqueçamos que a Sogrape tem 600 hectares no Douro. Logo aí temos uma boa âncora de uvas que nos sobram depois de fazermos o Porto e os vinhos de maior prestígio. Essas uvas representam entre 30 a 40% do que precisamos para o Papa Figos. Depois temos mais de 1000 lavradores, com quem trabalhamos há muito tempo, sabemos quem pode disponibilizar as uvas que precisamos. Escolhemos sobretudo lavradores do Douro Superior, cujas uvas são vinificadas na Leda e na Adega de Vila Real, recentemente modernizada e preparada para fazer volumes com grande qualidade. Com uva própria e adquirida, cobrimos praticamente 100% das necessidades do Papa Figos. Mas se ainda assim não for suficiente, temos fornecedores que conhecemos bem e que nos podem entregar lotes de vinho com o perfil que pretendemos. Deste modo, temos conseguido manter o perfil e qualidade estabelecidos para o Papa Figos, apesar do grande aumento de volume.
Como enólogo, és conhecido, sobretudo, pelos vinhos Douro, com o Barca Velha à cabeça. Mas o vinho do Porto continua a ser incontornável no teu trabalho. E assististe de perto à transição ocorrida no final dos anos 80, com o provador clássico de Gaia a dar lugar ao enólogo, com formação científica. O que é que o segundo aproveitou da arte do primeiro?
Eu acredito que os vinhos do Douro beneficiaram imenso com o conhecimento e a prática do vinho do Porto. Desde logo, a fermentação. No Porto não se falava de castas, a fermentação era feita em conjunto. Nós, para muitos vinhos Douro, continuamos a utilizar essa filosofia: o lote começa a ser feito na vinha, misturando origens mais do que castas. Depois, o lote final. O facto de estarmos todos os dias na sala de provas, a fazer lotes de Porto, ajuda-nos muito a identificar e diferenciar as componentes dos lotes para Callabriga, Vinha Grande ou Quinta da Leda, a perceber qualidades e perfis, como vinhos de distintas parcelas ou origens se complementam. A arte do lote que os provadores clássicos tinham acabou por transitar para o vinho do Douro, com enormes vantagens.
Nos anos 90, dizia-se que as casas de origem inglesa eram especialistas de Vintage e as casas portuguesas faziam os melhores Tawny. Como se enquadra a casa Ferreirinha nesse histórico?
Quando entrei, em 1989, havia realmente essa ideia estabelecida. Mas devo dizer que, já nessa altura, quem assim pensava estava errado. Hoje, eu provo Ferreira Vintage 1934 ou Vintage 1952 e encontro vinhos absolutamente extraordinários. E já em 1989 provava excelentes tawnies velhos de casas inglesas, Symington por exemplo. Creio que esse conceito de casa inglesa versus casa portuguesa tem a ver sobretudo com o mercado. O mercado britânico queria sobretudo Vintage e, naturalmente, privilegiava as casas de origem inglesa; e o mercado português queria sobretudo Tawny e privilegiava as casas portuguesas.
O que sempre houve, isso sim, foram distintos perfis de Vintage. Eu estou à vontade para falar nisso, porque a Sogrape é, desde 2002, proprietária da Sandeman, casa de origem britânica. O Vintage Sandeman era o paradigma do clássico, robusto e potente, e o Ferreira era orientado para a harmonia e elegância. Hoje, podemos provar um Sandeman 1963 e um Ferreira do mesmo ano e estão ambos em grande forma, um não evoluiu melhor do que outro. E ainda hoje os perfis distintos caracterizam estas marcas. Portanto, essa ideia de que os ingleses eram bons em Vintage e os portugueses em Tawny não tem qualquer razão de ser.
“Com as vinhas e adegas de que dispomos, poderíamos fazer uma grande quantidade de Barca Velha. Só que, hoje, somos bem mais exigentes do que éramos nos anos 70 e 80. Porque o mundo mudou, o Douro mudou”
Vou deixar-te um conjunto de perguntas curtas para respostas concisas, no plano profissional e pessoal. Primeiro, ao Luís Sottomayor enólogo. Touriga Nacional ou Touriga Francesa, e porquê?
O que eu gosto é do blend das duas. Num ano frio, mais Touriga Francesa e menos Nacional. Num ano mais quente, mais Nacional e menos Francesa.
Blend de Tourigas, Nacional e Francesa ou Vinhas Velhas? Ou, se quiseres, Barca Velha ou Legado?
Isso é como perguntares se gosto mais de caçar perdizes ou galinholas… Gosto muito de ambas e de ambos os vinhos, em perfis completamente diferentes. Mas, simplificando, podemos dizer que uma vinha velha faz o vinho, o vinho já nasce ali feito. Por outro lado, num vinho de base Nacional e Francesa vamos buscar o que aprendemos com o vinho do Porto, o lote. O Legado vem da terra, é aquilo que ali está; o Barca Velha vem da sala de provas, como se fosse um Vintage. Um Reserva Especial ou um Barca Velha nunca poderia vir de vinhas velhas. Seria um outro vinho, sem nada a ver com o estilo da marca.
Vintage ou Tawny velho?
Resposta difícil. Mas acredito que um grande Vintage muito velho, com os aromas e sabores criados com o tempo de garrafa, é imbatível. É para beber de joelhos…
E agora, para o Luís Sottomayor apreciador de vinhos, alguns desafios. Aí vai o primeiro: uma região de brancos e uma de tintos fora de Portugal?
Tintos, pode ser Borgonha. E brancos também…
É a escola de Dijon a deixar marca… A mesma pergunta, mas agora em Portugal e deixando de fora o Douro, senão já saberia a resposta…
Brancos, o Dão. Nos tintos, acho que Trás-os-Montes pode ter uma relevância extraordinária.
Um branco e um tinto do Douro que aprecies particularmente. E Ferreirinha não conta…
Gosto muito do tinto Chryseia. E gosto muito do branco Guru.
E qual o Barca Velha que mexe mais contigo, que corresponde melhor ao teu perfil de apreciador?
O 2008. Pela contenção, austeridade e potencial de longevidade.
Última pergunta. Ainda faltam uns anos para a tua reforma, mas sei que uma das tarefas de que é incumbido um responsável de enologia na Sogrape é formar e designar os seus sucessores, deixando o futuro preparado. Que conselhos darias aos mais jovens, com quem trabalhas, e que te irão suceder um dia?
Há poucos dias organizei um encontro entre os elementos da minha equipa e os profissionais que já aqui estavam antes de mim, e que tiveram um papel fundamental não apenas na Ferreira, mas também na região do Douro. Portanto, o conselho é este: muito mais do que ter boa formação e ser-se bom enólogo, é preciso conhecer em profundidade a história, a cultura, a geografia, o carácter da região e dos vinhos que fazemos. E para isso é preciso falar com as pessoas que cá estiveram e é preciso saber ouvir.
(Artigo publicado na edição de Agosto de 2026)
RESTAURANTE CIRO: No princípio era o fogo

Falamos do Ciro, a nova aposta do grupo Vila Vita, que é já o seu quinto restaurante aberto fora daquele resort de luxo e o décimo quarto da cadeia! Tivemos a oportunidade de o conhecer ainda antes da sua abertura ao público que aconteceu nos primeiros dias de Agosto. O Ciro começa por impressionar pelo […]
Falamos do Ciro, a nova aposta do grupo Vila Vita, que é já o seu quinto restaurante aberto fora daquele resort de luxo e o décimo quarto da cadeia! Tivemos a oportunidade de o conhecer ainda antes da sua abertura ao público que aconteceu nos primeiros dias de Agosto. O Ciro começa por impressionar pelo arranjo do espaço. Está instalado numa grande vivenda, totalmente remodelada, mesmo no centro urbano de Guia, no concelho de Albufeira, e tem uma capacidade de 120 lugares. Mas, apesar da sua dimensão, consegue a proeza de permitir criar vários ambientes distintos, alguns deles mesmo bastante cosy. São dois bares, um terraço magnífico, dois pátios ao livre e duas salas distribuídas por dois pisos. Em vez da monotonia de um único lugar, o restaurante permite acomodar desde grupos grandes, com refeições demoradas, a simples momentos casuais de partilha, conversas íntimas, reuniões de amigos ou de família.
Mas é na proposta da sua cozinha que está a verdadeira essência do Ciro. A assinatura “Mediterranean Fire Cooking” permite adivinhar ao que vamos. No centro de tudo está, pois, o fogo… e a inspiração mediterrânea, sem a qual podíamos pensar estar perante uma churrasqueira! Longe disso: sob a batuta do Chef Francisco Barbosa, o que nos é dado a provar é uma cozinha que alia a tradição gastronómica algarvia com os sabores frescos da cozinha mediterrânea. Numa cozinha à vista em que sobressai a bela peça da grelha com três andares, todos os pratos, de uma forma ou outra, tiveram na passagem pelo fogo um passo no seu processamento. Isso é visível logo no couvert com um belo pão de trigo de massa mãe, acompanhado por manteiga fumada, baba ganoush com pimentos assados e queijo de cabra com za’atar. As entradas são marcadas pelos aromas fumados do peixe curado, como a cavala ou o sargo, ou pelo rosbife com cebola caramelizada com emulsão de botarga e pelos legumes grelhados combinados com lacticínios, ervas aromáticas e notas ácidas.
Nos pratos principais, as sugestões vão desde a vegetariana beringela com emulsão de tahini, granola de sementes e sumac, passando pelo peixe do dia, grelhado com couve kale, feijão branco, molho de manteiga e limão, pela lula, bem marcada pela grelha, com espinafres e nabos salteados, pelas presas de porco ibérico, com arroz de enchidos e pickles, ou pela sempre vistosa espetada de novilho com guanciale, harissa, molho chimichurri acompanhada de batata de frita. Para os amantes irredutíveis da carne não falta o impressionante tomahawk com molho de assinatura e as inevitáveis batatas fritas. E não falta a devida homenagem à Guia, com o frango à Ciro, uma metade desossada com azeite de malagueta, agrião, tzatziki de coentros, acompanhado de pão de iogurte.
Tanto as sobremesas, como a carta do bar, não fogem à filosofia do fogo e dos sabores mediterrâneos, havendo sempre algum ingrediente que passou pelo fumo ou mesmo pelas brasas. A carta de vinhos é diversificada e tem opções que se adequam às propostas gastronómicas, com o habitual senão de carregar mais a conta final.
Quer seja para desfrutar um cocktail de assinatura, uns petiscos informais ou uma refeição completa, o espírito de partilha à mesa é comum a todos estes momentos que fazem do Ciro um local especial e muito agradável dentro do panorama da oferta do Algarve.
Ciro – Mediterranean Fire Cooking
Rua General Humberto Delgado, 16-18, Guia, Albufeira
Tel.: 282320337
Horário: de Quarta-feira a Domingo, das 18h00 às 22h30.
Encerra: Segunda-feira e Terça
Preço médio: €50
Quinta do Vallado com novo CEO

Joe Álvares Ribeiro assume a liderança da centenária Quinta do Vallado, na Região Demarcada do Douro. O objectivo consiste em reforçar a continuidade de um legado versado no alinhamento entre o passado e a forte aposta no futuro, com o foco nos mercados nacional e d’além fronteiras, através do compromisso associado ao vinho, à hotelaria, […]
Joe Álvares Ribeiro assume a liderança da centenária Quinta do Vallado, na Região Demarcada do Douro. O objectivo consiste em reforçar a continuidade de um legado versado no alinhamento entre o passado e a forte aposta no futuro, com o foco nos mercados nacional e d’além fronteiras, através do compromisso associado ao vinho, à hotelaria, com a Quinta do Vallado Wine Hotel, em Peso da Régua, no Baixo Corgo, e o Casa do Rio Wine Hotel, em Foz Côa, no Douro Superior, e, consequentemente, ao enoturismo de qualidade.
A nomeação de Joe Álvares Ribeiro para CEO da Quinta do Vallado advém da sua sólida experiência em diferentes áreas de gestão e do conhecimento consolidado no sector vínico, comprovados por meio da administração executiva em marketing, vendas, distribuição e enoturismo em um dos grupos de vinhos nacionais.
QUINTA NOVA DE N. SRª DO CARMO: Serenidade na mudança

Fiel às origens, a Quinta Nova de Nossa Senhora do Carmo, localizada no concelho de Sabrosa, pertencente à região do Douro, assume que o tempo é de mudança de atitude. Não porque se renegue o passado, mas sobretudo porque o futuro será exigente, e quem se preparar antecipadamente, terá maiores possibilidades de sucesso. A história […]
Fiel às origens, a Quinta Nova de Nossa Senhora do Carmo, localizada no concelho de Sabrosa, pertencente à região do Douro, assume que o tempo é de mudança de atitude. Não porque se renegue o passado, mas sobretudo porque o futuro será exigente, e quem se preparar antecipadamente, terá maiores possibilidades de sucesso.
A história da Quinta Nova de Nossa Senhora do Carmo inicia-se bem lá atrás, em 1764. Em meados do século XVIII, o Douro era o Vinho do Porto e toda a dinâmica de planeamento de viticultura e vinificação fazia-se à sua volta.
Após a aquisição desta propriedade pela família Amorim, a adega, já em 2003, é ainda recuperada à imagem da tradição duriense e, mais de dois terços da capacidade é afeta à produção de Vinho do Porto, cabendo o remanescente para os vinhos DOC Douro. A atual filosofia é diametralmente diversa e assume-se, sem reservas, vocacionada para os vinhos DOC, tendo sido esse o propósito da total renovação da adega em 2024.
Mas as mudanças não ficaram por aí. Em 2025, estenderam-se à viticultura, passando para a coordenação de Pedro Prata. Já a enologia, agora liderada por António Bastos, tem como objetivo partilhar conhecimento com uma figura ímpar da enologia e do ensino, Riccardo Cotarella, o enólogo italiano ligado à família Amorim por uma relação antiga de amizade.
A colaboração de Riccardo Cotarella com as três propriedades do universo Amorim (Quinta Nova de Nossa Senhora do Carmo, Taboadella, no Dão, e Herdade Aldeia de Cima, no Alentejo) não será de estrita consultoria, mas, sobretudo, de mútua partilha de experiências e diálogo, que tem como elo comum dois países com tradição multimilenar de sabedoria empírica no cuidado da vinha e do vinho. A admiração é mútua, reconhecendo Riccardo Cotarella em Luísa Amorim a virtude do detalhe, do saber fazer profundamente conectado com cada lugar, cada ecossistema, sobretudo no que se relaciona com viticultura de montanha.
A colaboração de Riccardo Cotarella com as três propriedades do universo Amorim será sobretudo, de mútua partilha de experiências e diálogo
A preponderância do cimento
A principal e mais notória mudança surge no trio de vinhos Reserva lançados, um branco e dois tintos, que ostentam não apenas um rebranding da imagem, mas também um maior cuidado com a identidade que transparece de cada uma das 41 parcelas plantadas em altitudes, exposições e perfis distintos. Aqui, busca-se uma leitura mais aprofundada, não apenas das origens, mas igualmente de uma adega de múltiplas potencialidades, onde o cimento ganha uma crescente preponderância, na busca de vinhos mais diretos, genuínos e, sobretudo, mais frescos.
Luísa Amorim, CEO da Quinta Nova de Nossa Senhora do Carmo, fala sobre o novo perfil dos Reserva: “sentimo‑nos profundamente realizados com estes três vinhos Reserva – uma gama que tem para nós um significado especial e uma importância estratégica no nosso portefólio. Estes vinhos traduzem, com grande fidelidade, a essência das parcelas da Quinta Nova e todo o trabalho de viticultura que temos desenvolvido ao longo de 26 anos.”
Em 2000, foram plantados 50 hectares de vinha traduzida em 41 parcelas, “de dimensão muito reduzida, totalizando 85 hectares, numa zona histórica e emblemática da margem direita do Douro, diria mesmo, na zona do Cima Corgo onde existiam os vinhos de feitoria, eleita no Alto Douro, para a primeira demarcação do Douro, a mais antiga do Mundo”, acrescenta. Por conseguinte, “ver, hoje, o resultado no copo, dá‑nos a certeza de que cada hora dedicada ao projeto de remodelação desta adega – construída em 1764, apenas oito anos após a primeira demarcação do Douro – é um esforço que sentimos que valeu a pena. Ao longo dos anos, sempre soubemos que o clima estava em mudança; já não é tabu para ninguém. A adaptação a esta nova realidade era uma necessidade urgente, não apenas para o presente, mas sobretudo para garantir a continuidade da qualidade e a solidez deste projeto de futuro”, esclarece Luísa Amorim.
Hoje, a capacidade de adaptação a cada vindima é uma realidade nesta propriedade duriense. “Dispomos de circuitos de produção distintos, com mesas de escolha específicas para rosés, brancos e tintos, e a possibilidade de conduzir fermentações mais longas, mais calmas e mais precisas, parcela a parcela. A instalação das 32 cubas de cimento foi determinante: permitiu‑nos afinar textura, reforçar a frescura natural das nossas uvas e preservar uma acidez viva e vibrante, resultando em vinhos aromaticamente mais puros, precisos e expressivos, com o classicismo que só o Vale do Douro consegue oferecer”, sublinha a CEO da Quinta Nova de Nossa Senhora do Carmo.
O mote desta nova abordagem é um exercício de contemporaneidade, equilíbrio e elegância, o que de facto se confirma. Na caracterização dos anos vitícolas, 2024 e 2025 foram distintos. Contudo, em ambos foi na precocidade da vindima que esteve o click redentor, permitindo captar mais frescura, vibrância e tensão, afastando sobrematurações e concentração alcoólica. Já a nova imagem dos Quinta Nova Reserva se afirma, sobretudo, como reforço da identidade e da origem, tendo como elemento central a Capela de Nossa Senhora do Carmo, construída pelos barqueiros no Penedo do Carmo, um dos locais mais temidos da navegação no Douro.
“Estes vinhos traduzem a essência das parcelas da Quinta Nova e todo o trabalho de viticultura que temos desenvolvido ao longo de 26 anos”, afirma Luísa Amorim
A incontornável referência de brancos
Sobre o Mirabilis branco e a sua importância no contexto da afirmação dos grandes brancos durienses, provavelmente, podemos escrever um tratado. Se a memória não me trai, o Mirabilis branco, ao contrário do seu congénere tinto, tem sido lançado todos os anos desde 2011.
Se a filosofia da origem da uva não se tem alterado, podendo somente variar as parcelas, a vinificação tem conhecido diversas experimentações ao longo de mais de uma década. Viosinho e Gouveio, em vinhas com mais de 70 anos e, algumas, centenárias, altitude, maioritariamente superior a 500 metros, solos de transição xisto/granito de Murça, Alijó e Sabrosa. Na adega é onde tudo se transforma, com a integração de diversos materiais: madeira nova de carvalho francês das florestas Tronçais, Vosges, Nevers, Jura e Allier, foudre novo de 1200 litros, barrica de segundo e terceiro ano e, claro, o cimento cru. Um tempero complexo de lote traduzido num resultado de afirmação de amplitude, complexidade, presença de fruta e um mineral salino que lhe define um estilo que, não sendo imutável, lhe define a personalidade.
Rosé de inspiração
O Quinta Nova Rosé 2025 continua a evidenciar a inspiração provençal, cuja vinificação ocorre com prensagem de cacho inteiro. O critério de seleção das uvas – Tinta Roriz (50%), Tinta Francisca (30%) e Touriga Franca (20%) – é rigoroso, desde a escolha das parcelas, passando pela vindima manual e seleção na mesa de escolha.
A vinificação, contudo, ganha, a cada colheita, uma abordagem diversa de modo a garantir e exponenciar a pureza aromática e a delicadeza que se exige num rosé desta dimensão. Metade do lote estagia em barricas usadas de carvalho francês, 25% evolui em cubas de cimento e os restantes 25% em depósitos de inox. Convenhamos, mudar é apenas uma das mais naturais leis da vida. Quem permanecer agarrado ao passado e ao presente, dificilmente terá um futuro.
(Artigo publicado na edição de Julho de 2026)
VILA GALÉ: Improváveis e prazerosos

Quando um enólogo coloca a mão em adega alheia, é possível que nasça um vinho improvável. Foi este o desafio que Marta Maia, da alentejana Casa Santa Vitória, e Ricardo Gomes, da empresa duriense Quinta Val Moreira, ambos pertencentes ao grupo hoteleiro Vila Galé, decidiram colocar em marcha, com a finalidade de produzirem dois vinhos […]
Quando um enólogo coloca a mão em adega alheia, é possível que nasça um vinho improvável. Foi este o desafio que Marta Maia, da alentejana Casa Santa Vitória, e Ricardo Gomes, da empresa duriense Quinta Val Moreira, ambos pertencentes ao grupo hoteleiro Vila Galé, decidiram colocar em marcha, com a finalidade de produzirem dois vinhos diferentes, não só dentro da gama das adegas respectivas, mas também inesperados e apetecíveis para o mercado. Com o aval da empresa, Marta Maia trocou temporariamente o Alentejo pelo Douro, para elaborar um vinho em Val Moreira; já Ricardo Gomes fez o percurso inverso, isto é, rumou ao Alentejo para igual desafio.
Desta troca nasceram os Vinhos Improváveis, um do Douro e outro do Alentejo. São duas edições exclusivas, produzidas em quantidades limitadas, que reflectem a visão pessoal de cada enólogo fora do seu ambiente habitual, celebram a capacidade criativa de ambos e mostram ser possível haver liberdade na interpretação de cada terroir dentro da mesma casa. Cada referência dispõe de 1800 garrafas, sendo estas vendidas em caixas duplas. “Foi um desafio que nos deu muito gozo, numa reinterpretação que nunca tinha sido feita”, salientou Marta Maia. “O objectivo foi fazer dois vinhos que não tivessem nada a ver um com o outro, diferentes, mas ambos prazerosos”, sublinhou Ricardo Gomes.
Durante a festa de lançamento, que decorreu no Hotel Vila Galé Ópera, em Lisboa, foram apresentadas outras três referências do Grupo Vila Galé, o Paço do Curutelo Colheita, da região dos Vinhos Verdes, um novo reserva rosé colheita e o mais recente Touriga Nacional da Casa de Santa Vitória.
Tudo começou em 2023
O projecto surgiu durante a convenção do Grupo Vila Galé, em Fevereiro de 2023, quando Marta Maia e Ricardo Gomes resolveram desafiar-se e transmitir, aos seus superiores, a decisão de trocar de casa e cada um fazer um vinho na adega do outro. O nome Improváveis para a marca surgiu a posteriori, por serem vinhos um pouco fora da caixa e provenientes de duas regiões completamente diferentes.
“Eu nunca tinha trabalhado a sério no Douro, a não ser em estágio de vindima, e o Ricardo também nunca o fez a sério no Alentejo, a não ser como estagiário de vindima”, contou Marta Maia, acrescentando que ambos pretendiam criar coisas diferentes das existentes dentro das respectivas gamas, que contribuíssem “para se falar mais das duas empresas”.
Depois de colocada a sugestão, a administração incentivou-os a irem para a frente com o projecto, “com o desafio de desenvolver o processo com um custo razoável”, revelou Ricardo Gomes. O repto foi aceite, mas foi concretizado com algumas dificuldades.
A ideia de trocar de casa e cada um fazer um vinho na adega do outro surgiu durante a convenção do Grupo Vila Galé, em Fevereiro de 2023
Muitos quilómetros entre vinhas
A primeira foram os muitos quilómetros que ambos tiveram de fazer, em plena vindima: Marta Maia entre o Alentejo e o Douro, e Ricardo Gomes em sentido inverso. “O que fizemos foi uma vinificação diferente da tradicional na casa um do outro”, afirmou, acrescentando que inventou pormenores que não existiam na Quinta Val Moreira, o que envolveu mais trabalho à equipa local. No Alentejo, aconteceu o mesmo. Mas à procura de quê? “De criar um vinho que fosse a imagem daquilo que é o enólogo”, respondeu a enóloga. Ou seja, o vinho que criou no Douro corresponde à sua interpretação da região.
O Val Moreira Improváveis tinto 2023 é feito a partir de uvas apanhadas em vinhas velhas, das quais “nunca se saberão as castas em concreto”, e com base “num processo de vinificação duro, porque incluiu dois dias complicados em termos de recepção de uvas durante a vindima”. Foram vinifcadas em cinco barricas usadas de 500 litros, às quais foi tirado o topo. A fermentação decorreu com uva desengaçada em três e, em duas, com engaço, de cacho inteiro, pisado a pé, processo esse que durou quatro horas por barrica. Segundo Marta Maia, “as uvas estavam muito frias, porque as guardamos durante 24 horas num contentor refrigerado antes do processamento”, o que dificultou o processo.
Após a fermentação, decorreu o estágio, realizado na mesma madeira e já com as barricas tapadas. Este processo deu origem a um vinho mais rústico e com carácter mais duriense do que os tradicionais da Quinta Val Moreira, segundo a opinião de Ricardo Gomes, que, por seu turno, esteve no Alentejo a criar um vinho improvável.
Com os recursos que as adegas tinham, a ideia foi inovar em termos de tipos de fermentação, para criar algo diferente
Vinhos elegantes e um clarete
“Na Casa de Santa Vitória, os vinhos são muito elegantes, desde que a Marta assumiu o projecto. Têm muita personalidade. E eu tentei levar isso a um extremo. O resultado foi um clarete”, conta o enólogo, explicando que a produção ocorreu com base em extracções de início de fermentação que estavam a decorrer na adega da Casa de Santa Vitória, as quais foram submetidas, posteriormente, a um estágio de um ano em barricas usadas, tal como o vinho de Marta Maia no Douro.
“Ou seja, com os recursos que as adegas tinham, porque era preciso concretizar a nossa ideia sem grandes investimentos, a ideia foi inovar em termos de fermentações, para criarmos algo diferente”, esclareceu Ricardo Gomes, que, tal como Marta Maia, manifestou contentamento em relação ao resultado. Por um lado, do Douro, saiu um vinho mais rústico e poderoso, com um carácter regional marcado, sem perder a elegância tradicional dos tintos de Val Moreira; por outro lado, mais a sul, surgiu o Santa Vitória Improváveis 2023, um clarete fresco, mas também com um toque de rusticidade e notas de fruta silvestre, que o tornam apetecível para os comeres da estação quente do ano.
(Artigo publicado na edição de Julho de 2026)
ADEGA DA HERDADE DA COMPORTA: A reinterpretação de um terroir

À entrada da loja da Adega da Herdade da Comporta está disposto o mapa da Península de Tróia. A área traçada a negro assinala esta propriedade de exploração agrícola, localizada entre a costa atlântica, a poente, e o rio Sado, a nascente, com Pinheiro da Cruz, a sul, e a Carrasqueira, a norte, englobando o […]
À entrada da loja da Adega da Herdade da Comporta está disposto o mapa da Península de Tróia. A área traçada a negro assinala esta propriedade de exploração agrícola, localizada entre a costa atlântica, a poente, e o rio Sado, a nascente, com Pinheiro da Cruz, a sul, e a Carrasqueira, a norte, englobando o célebre Cais Palafítico da Carrasqueira, “incluindo uma parte do rio Sado”, acrescenta José Oliveira, diretor financeiro e responsável pela Adega da Herdade da Comporta referindo-se à Reserva Natural do Estuário do Sado, e sete aldeias. “Há cerca de 3000 pessoas que vivem permanentemente dentro da herdade”, sublinhou o nosso anfitrião. O total ultrapassa os 11 mil hectares. Estes estão distribuídos por arrozais a perder de vista, pinhal e floresta, formações dunares, traduzidas em nove quilómetros de linha costeira, e 35 hectares de vinha, dos quais 29 estão no concelho de Grândola e seis já fazem parte do concelho de Alcácer do Sal.
Eis o ponto de partida para as boas novas. Mas não sem antes se fazer uma pequena descrição do território vitivinícola da Adega da Herdade da Comporta. A proximidade do Atlântico, cuja distância é de seis quilómetros, e o chão de areia são fatores, desde logo, evidenciados pelo enólogo Jorge Rosa Santos. A ambos, soma os sistemas montanhosos que exercem influência na vinha: serra de Sintra, serra de Montejunto e serra da Arrábida. Além de que, “aqui, há mais horas de sol do que a norte e a sul”, dando origem a “um micro-clima na Herdade da Comporta”, segundo palavras do enólogo.
Feita a descrição do território em termos edafoclimáticos, Jorge Rosa Santos evidencia a importância da sazonalidade da Comporta, no que à produção de vinhos diz respeito, até porque “os brancos não são só para o verão” e “os tintos já não são só para o inverno”. A par com esta mudança ditada pela atualidade, os brancos da Adega da Herdade da Comporta estão a conquistar terreno e os tintos estão a enveredar por outros caminhos, contrariamente ao que vinha a ser feito até hoje. Como tal, Jorge Rosa Santos e Renata Madeira, que, em conjunto, constituem a equipa de enologia da casa, mostram, agora, “abordagens mais disruptivas” reveladoras da “criatividade própria dos enólogos”.

Portefólio vínico restruturado
Conclusão? A Adega da Herdade da Comporta avança para um novo posicionamento e restruturação do portefólio de vinhos constituído por quatro gamas: Nativo, Brisa Bay, Experimentalista/Monovarietais e Micro Terroir. Todas as uvas que ‘dão corpo’ a estas boas novas são vindimadas à mão. O objetivo desta mudança pauta pela “reinterpretação da Comporta, mantendo o classicismo e a simplicidade” locais, sublinha o enólogo. Mas para Jorge Rosa Santos, os vinhos produzidos na Adega da Herdade da Comporta pouco têm a ver com os vinhos da Península de Setúbal, região vitivinícola onde este produtor está inserido.
“São vinhos com sentido de lugar”, continua o enólogo, com o intuito de justificar essa diferença enaltecida pelo registo de álcool médio baixo, mais acidez e salinidade presente, atributos obtidos graças à antecipação da vindima das castas brancas e à apanha tardia das variedades tintas. Neste contexto, Jorge Rosa Santos salienta, uma vez mais, a importância dos solos arenosos, favoráveis ao timing de ambas as ações na vinha implantada na zona sul da propriedade.
Mas vamos por partes. A gama Nativo está disponível em branco, rosé e tinto e traduzem-se em vinhos diretos em relação às propriedades das castas selecionadas para este trio vínico. “É a porta de entrada para a Adega da Herdade da Comporta que, agora, se quer revisitada”, resume o enólogo. Já a Brisa Bay – um branco de 2024 e um rosé de 2025 – transmite uma mensagem mais descontraída e associada à época de estio e ao estilo Comporta.
A gama Experimentalista/Monovarietais é composta por edições limitadas que refletem o resultado de ensaios feitos pelos dois enólogos e tem a exploração de castas como denominador comum. Outro dos fatores é a seleção de microparcelas específicas que, nesta estreia, integra escolha da variedade branca Verdelho, da colheita de 2025, e a tinta Castelão, cuja vindima remonta a 2022 e incide “nos setores 30 e 31, mais próximos da várzea”, informa Renata Madeira. Nesta gama, encaixam ainda as novas abordagens enológicas nascidas “na onda da espontaneidade”, que, por ora, se dividem num vinho curtimenta e num palhete de 2024. No primeiro, a casta eleita é a Alvarinho, que, a meio da fermentação, passou a estar em contacto com as películas de Fernão Pires, seguindo-se o estágio, perfazendo, esta combinação, um período de dois meses. O palhete é, de acordo com Jorge Rosa Santos, inspirado na produção do Vinho Medieval de Ourém. Neste lote, entram a Castelão e a Malvasia de Colares. “É um grande vinho de verão”, garante a enóloga. E apesar da supressão da Malvasia de Colares da vinha, o palhete permanecerá no portefólio, paralelamente a outras novidades.
Microterroir é a gama que mais faz justiça às declarações de Jorge Rosa Santos, para quem a proximidade do Atlântico, os solos arenosos e a proteção da serra da Arrábida desempenham um papel fundamental na produção dos vinhos da Adega da Herdade da Comporta.
Nativo, Brisa Bay, Experimentalista/Monovarietais e Micro Terroir são os nomes escolhidos para as novas gamas da Adega da Herdade da Comporta
Identidade visual renovada
A acompanhar esta redefinição estratégica, a Adega da Herdade da Comporta apresenta o trabalho desenvolvido no âmbito da nova identidade firmado no património da propriedade. Em suma, no símbolo composto pelo C, de Comporta, e da cruz que o acompanha, ambos em azul. A finalidade é levar o consumidor a identificar prontamente os vinhos produzidos nesta casa.
Instalada em, outrora, estaleiros e oficinas de apoio à exploração agrícola da Herdade da Comporta, entidade privada e centenária, fundada em 1925, e com uma decoração que imprime a arquitetura local, a loja é uma montra das novas gamas, entre outros produtos, como o arroz e o pinhão da propriedade. Este espaço é contíguo à adega, em atividade desde 2022, e às salas de provas distribuídas pelo piso térreo e o primeiro andar, no âmbito das ações de enoturismo. A loja é ainda o ponto de partida para visitar o Museu do Arroz, inserido na antiga fábrica de descasque e situado a dois passos do aglomerado de edifícios que compõem o centro nevrálgico associado ao vinho.
(Artigo publicado na edição de Julho de 2026)
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Herdade da Comporta Micro Terroir
Tinto - 2022 -

Herdade da Comporta Micro Terroir
Branco - 2023 -

Herdade da Comporta Mircro Terroir
Rosé - 2024 -

Herdade da Comporta
Tinto - 2024 -

Herdade da Comporta Curtimenta
Branco - 2024 -

Herdade da Comporta
Branco - 2025 -

Herdade da Comporta Nativo
Tinto - 2023 -

Herdade da Comporta Nativo
Branco - 2025 -

Herdade da Comporta Nativo
Rosé - 2025


























