ANSELMO MENDES: O lado Loureiro do Senhor Alvarinho

Anselmo Mendes

O universo minhoto de Anselmo Mendes estende-se de Monção e Melgaço até ao Vale do Lima e abrange mais de 130 hectares. Destes, 61 situam-se em Monção e Melgaço e 75 no Vale do Lima. A maior área dedicada ao Loureiro, aliada ao seu maior rendimento por hectare, faz com que o volume desta casta […]

O universo minhoto de Anselmo Mendes estende-se de Monção e Melgaço até ao Vale do Lima e abrange mais de 130 hectares. Destes, 61 situam-se em Monção e Melgaço e 75 no Vale do Lima. A maior área dedicada ao Loureiro, aliada ao seu maior rendimento por hectare, faz com que o volume desta casta seja bastante superior ao do Alvarinho. A relação de Anselmo Mendes com o Loureiro também é mais antiga do que muitos imaginam. Remonta a 2005, quando começou a recuperar as vinhas de antigas quintas senhoriais do Vale do Lima.

É preciso recuar ainda mais no tempo para perceber o contexto da produção de vinho na região. Nos anos 80 do século XX, surgiu o conceito de vinho de quinta. Empresários ligados ao têxtil, à construção civil e a outros sectores, com capacidade financeira para investir em propriedades com solares, criaram marcas próprias e começaram a engarrafar os seus vinhos. Como recorda Anselmo Mendes, no final da década existiriam cerca de 30 a 40 vinhos de quinta. Investiu-se em adegas, bem equipadas à época, e nasceram marcas ambiciosas, que conquistaram alguma notoriedade no mercado. Na altura, “o normal era um vinho custar cem escudos; estes já custavam 500 ou 600 escudos”, refere o produtor. Contudo, produzir vinhos secos, sérios e expressivos não era tarefa fácil, e muitos nunca conseguiram descolar-se dos Vinhos Verdes “clássicos”, adamados e gaseificados. Segundo Anselmo Mendes, “o que falhou, foi a viticultura”, mais precisamente, a falta de conhecimento nesta área não permitiu dar o salto qualitativo. No fundo, “sem uma boa viticultura não há hipótese nenhuma de atingir vinhos de excelência”.

Anselmo Mendes
Quinta da Ferreira

 

O Loureiro consegue manter um bom nível qualitativo até cerca das dez toneladas por hectare

 

Vale do Lima

Toda a vinha que Anselmo Mendes explora no Vale do Lima assenta em contratos de arrendamento. A razão é simples: muitos proprietários das antigas quintas estão dispostos a vendê-las, mas estas propriedades são pouco aliciantes do ponto de vista prático para quem vive da viticultura. Têm “muita casa e pouca terra”, uma característica que encarece as quintas, enquanto um viticultor procura sobretudo terra com vinha, sem o “peso” dos imóveis.

Das várias propriedades que integram o projecto de Anselmo Mendes no Vale do Lima, visitámos a Quinta da Ferreira, situada em Gondufe. Aqui, uma boa parte da vinha está implantada numa encosta que atinge cerca de 150 metros de altitude, contrastando com outras quintas em cotas muito baixas. Uma delas encontra-se mesmo dez metros abaixo do nível do mar.

Os anos de trabalho em duas sub-regiões próximas, mas distintas, permitem-lhe comparar, a partir da sua própria experiência, as condições de cada uma delas. Na sub-região do Lima há menos problemas de geadas do que em Monção, onde o ar frio, por vezes, drena mal e se acumula nos vales. No Lima, o vale é mais aberto, permitindo uma melhor circulação do ar, e a maior influência atlântica contribui para um clima mais moderado. A amplitude térmica também é diferente. No Vale do Minho, no final de Agosto, é possível registar 35º C durante o dia e temperaturas próximas dos 12º C à noite. No Vale do Lima, as máximas não atingem valores tão elevados, mas as temperaturas nocturnas também não descem tanto.

A pluviosidade anual na região é comparável à de Bordeaux, mas a distribuição da precipitação ao longo do ano é diferente. “No nosso caso, em Julho e Agosto não chove. Aliás, os grandes anos são aqueles em que chovem 30 milímetros em cada um desses meses. Isso é o ano perfeito. E depois não chove na vindima. Mas isso não existe”, lamenta o nosso anfitrião.

Estas condições tornam a rega uma necessidade, sobretudo nas vinhas jovens e em situações extremas que possam comprometer a sobrevivência das plantas, uma questão que continua a dividir os viticultores. Para Anselmo Mendes, porém, não há dúvidas: “instalámos rega praticamente em todas as vinhas. Sabendo regar de acordo com a textura do solo, estamos a poupar água no futuro. Temos vinhas com quatro e cinco anos que já não regamos.”

Segundo Anselmo Mendes, o que verdadeiramente distingue esta quinta é a conjugação de vários factores: a altitude, a boa drenagem e uma eficaz colonização subterrânea das vinhas. Esta última depende, em grande medida, das características do solo e da densidade de plantação. “Optámos sempre por uma densidade maior. Aqui estamos nas 3 300 a 3 500 plantas por hectare. A densidade, por si só, não diz nada sobre a qualidade, mas há um mínimo. Menos de 2 500 plantas comprometem a colonização subterrânea das vinhas”, explica. A lógica é simples: uma competição moderada entre videiras obriga as raízes a explorar um maior volume de solo, favorecendo o desenvolvimento do sistema radicular. Já o extremo oposto, com 10 000 plantas por hectare, também não faz sentido, sobretudo nos solos menos férteis, porque, a partir desse ponto, a competição entre videiras torna-se excessiva e deixa de ser benéfica.

 

Sem uma boa viticultura não há hipótese nenhuma de atingir vinhos de excelência

 

A natureza da Loureiro

Há duas características que definem o Loureiro: a elevada produtividade e a exuberância aromática. Foram precisamente estas duas características que Anselmo Mendes procurou contrariar.

Na reestruturação das vinhas, a escolha de material policlonal seguiu dois critérios: evitar clones muito produtivos e excessivamente terpénicos. Apesar de ser esse o perfil que o mercado mais associa à casta, Anselmo Mendes confessa que “os Loureiros amuscatelados” não fazem parte das suas preferências.

A questão da produtividade vai muito além das preferências pessoais, porque condiciona diretamente a qualidade do vinho. Ao contrário do Alvarinho, cuja produção ronda naturalmente entre as sete e as oito toneladas por hectare, o Loureiro chega facilmente às 15 toneladas e, em alguns clones, pode atingir as 29 toneladas por hectare. Não há milagres: nestas condições, a maturação resulta apenas numa “solução hidroalcoólica” pouco definida, verde e ácida.

Para Anselmo Mendes, o Loureiro consegue manter um bom nível qualitativo até cerca das dez toneladas por hectare. Nos seus vinhos da gama Private procura não ultrapassar as oito toneladas. Mas também aqui não existe uma relação direta de causa e efeito: produções muito baixas nem sempre se traduzem em vinhos melhores. “Temos vinhas que não passam das cinco toneladas. Vamos reestruturá-las porque não é viável. E mais impressionante é que o resultado não nos impressiona. Ou seja, o facto de ter aquela produção baixa não aumenta a qualidade.”

O Loureiro é uma casta particularmente sensível à podridão e, em anos de chuva durante a vindima, a qualidade da produção pode ficar comprometida. Anselmo Mendes explica que prefere evitar os tratamentos convencionais com fungicidas e aposta antes no controlo da traça-da-uva através da confusão sexual. Os difusores instalados na vinha libertam feromonas que confundem os machos e dificultam o acasalamento, reduzindo a postura de ovos e o desenvolvimento das larvas. Assim, evitam-se perfurações nos bagos, que funcionam como portas de entrada para fungos.

Como o Loureiro frutifica muito bem nos gomos mais próximos da base do sarmento e apresenta um crescimento vigoroso, adapta-se bem à condução em cordão ascendente e à poda a talão e vara. Esta opção permite controlar o vigor e ajuda a manter uma copa equilibrada. Mas o equilíbrio da videira não se constrói apenas no inverno. Ao longo do ciclo vegetativo, é através da intervenção em verde que se ajusta a relação entre vegetação e produção.

Anselmo Mendes
Quinta da Ferreira

Intervenção em verde

Ir com Anselmo Mendes à vinha é como ter uma aula de viticultura, com explicação e demonstração ao vivo. As práticas culturais têm uma influência directa na qualidade das uvas. Para o produtor, há quatro operações fundamentais na gestão da vinha: supressão, orientação, desponta e desfolha. E têm que ser executadas rapidamente, porque “com boa temperatura e água no solo, isto chega a crescer mais de cinco centímetros por dia”.

“Suprimir é tirar aquilo que não interessa, mesmo que tenha um cacho”, exemplifica o mestre, removendo os lançamentos “que nem dão para o ano seguinte e estão a contribuir para a má qualidade global”. É fundamental criar “buracos” na parede vegetal para garantir o arejamento e criar um bom microclima junto dos cachos.

Numa casta vigorosa como o Loureiro, que tende a desenvolver muita vegetação, a orientação dos lançamentos é essencial para construir uma parede vegetal equilibrada, evitando sobreposições e excesso de densidade, e tendo em conta que a variedade é sensível à desnoca – quebra de sarmentos.

A desfolha tem a vantagem de expor precocemente os cachos à luz, permitindo que se adaptem gradualmente à radiação solar. Mais tarde, a desponta promove o aparecimento de folhas novas, que nas palavras do produtor “trabalham bem” e reduzem a exposição direta dos cachos. Ao mesmo tempo, ajuda a controlar o vigor, evita que a vegetação tombe e contribui para um melhor equilíbrio entre folhas e cachos. “Feito isto, é meio caminho andado para ter qualidade”, resume Anselmo Mendes.

 

Anselmo Mendes confessa que “os Loureiros amuscatelados” não fazem parte das suas preferências

 

Loureiro ao longo dos 20 anos

Muros Antigos, é um blend das várias quintas. Não passa por barrica; as uvas são vinificadas apenas em inox e expressam a casta, a sub-região, o produtor e o ano. A influência deste último factor tem a ver com temperatura com que se vindima. O Loureiro vindimado à noite, sem ser sulfitado, oxida ao fim de 3,5 horas, enquanto vindimado a 25º C oxida ao fim da meia hora.

Para assinalar os 20 anos de Loureiro, provámos 18 vinhos monvoarietais, dos quais 12 Muros Antigos, desde a primeira colheita de 2005 até ao mais recente; e mais seis Loureiros de outras gamas de vários anos.

 

2024 – Mais discreto no aroma que o 2025, com folhas e erva-príncipe, menos floral; menos concentrado e menos salino, ligeiramente amargo e com muita tensão. (17); 2022 – Lima, limão, até alguma laranja, não propriamente aromático, tisanas, mineral em boca, muito mais seco e muito fresco. (16,5); 2019 – Muito bom no aroma, aquela evolução que não se sente, mas harmoniza o vinho; limão, parte floral bonita, manjericão e estragão; está muito bem na boca, tenso e extremamente fresco, sem transparecer a idade. (17,5); 2017 – Apetrolado ao ponto de fazer lembrar um Riesling; cogumelos, ervas aromáticas, resinoso, tem imensa força, vida, suculência e projecção de sabor; textura deslizante. (17,5); 2016 – Limão a passar para dourado; no aroma limão cristalizado, laranja, mel, muito fresco, concentrado no sabor e mais amplo. (17); 2014 – Limão dourado; laranja, limão cristalizado, tisanas, salino, talvez mais magro, mas não lhe fica mal; palato com laranja amarga, suculento, com toque de botrytis que até se enquadra bem. (17); 2013 – Dourado; cogumelos, manteiga, mel, a lembrar pêra, fruta em calda e ananás salgado; no palato balança entre o amargo e o salgado, firme e guloso. (16,5); 2011 – Dourado; fruta muito boa e fresca, cardamomo, notas de Riesling novamente, com muito vigor na prova, resinoso, caruma, limão cristalizado, lemon curd; boca espectacular, cheio, fresco, cremoso e longo. (17,5); 2010 – Dourado; xarope de limão, ananás, tisanas, austero em boca, pouco conversador, também algumas notas apetroladas. (16,5); 2008 – Doce de laranja, ananás, em caldo, muito bem projectado em boca, sem indícios de vinho velho, algum cogumelo; meloso mas com tensão. (16,5); 2005 – o ano de estreia; dourado; cogumelo, xaropes de limão e laranja, flores secas e tisanas, erva-príncipe, suculento e amplo, cremoso, levemente salino e ainda cheio de vida. (17,5)

 

Anselmo Mendes Private Loureiro 

Este vinho é o resultado de uma única vinha da Quinta da Ferreira, localizada numa encosta da margem esquerda do Rio Lima; também não vê a barrica, mas estagia durante nove meses em inox com bâtonnage, mais um ano em garrafa.

2021 – Limão Dourado; mais quente, mais fruta; quase fumado no nariz, pimenta branca, lima e limão maduro, alguma tília e louro; tenso, cremoso, mastigável, com muita estrutura e matéria. (18,5); 2020 – Limão leve; querosene, fumado, pimenta branca, pedra lascada e muita lima no sabor; acidez incisiva, mas bem coberta pela textura suculenta; salino e longo. (18,5); 2019 – Citrino dourado, fechado no nariz, ervas aromáticas, citrinos discretos, austero também na boca e com menos volume. (18,5); 2017 – Flores e querosene, menta e mentol, lima e limão e ainda caruma; austero na boca, com pedra raspada; prima pela tensão e frescura. (18,5)

Loureiro do Tiago 2020 – a interpretação de Tiago, filho de Anselmo Mendes. Fermentou em barricas usadas de 400 litros, onde depois permaneceu durante seis meses, e com um longo estágio de quatro anos em garrafa. Limão, ligeiro fumado, um toque mineral e caruma de pinheiro; discreto, mas completo, sem exuberância, muita textura, elegante, fino com barrica muito bem integrada. (18,5);

Anselmo Mendes Tempo Loureiro 2019 – Curtimenta total e estágio de 24 meses em barrica de carvalho francês de 400 litros com bâtonnage. Dourado. Ananás maduro, caruma, limão, xarope muito aromático, profundo, farmácia, tangerina, doce de laranja, mel fresco, a tensão de tanino bem coberta de textura e sabor muito sabor, amplo e preciso, atlanticamente salino, com acidez filigrana e flores caramelizadas. (19)

(Artigo publicado na edição de Setembro de 2026)

GRANDE PROVA LOUREIRO: Uma casta superstar

Grande Prova Loureiro

Segundo o Instituto do Vinho e da Vinha (IVV), a Loureiro é uma casta indígena do território dos Vinhos Verdes, provavelmente autóctone. É uma casta de maturação precoce, prefere solos profundos e de média fertilidade, e dá-se bem com a humidade do ar. Contudo, precisa de protecção do vento. A casta tem especial expressão na […]

Segundo o Instituto do Vinho e da Vinha (IVV), a Loureiro é uma casta indígena do território dos Vinhos Verdes, provavelmente autóctone. É uma casta de maturação precoce, prefere solos profundos e de média fertilidade, e dá-se bem com a humidade do ar. Contudo, precisa de protecção do vento. A casta tem especial expressão na região de Ponte de Lima. O site do IVV acrescenta, então, que os vinhos devem ser bebidos jovens. Porém, após esta prova, parece-me que vai ser preciso fazer uma actualização.

Os primeiros vinhos estremes de Loureiro que provei há uns 30 e tal anos tinham características muito específicas. Frescos, citrinos, de baixo teor alcoólico, acidez viva e algum gás a equilibrar uma doçura residual significativa. Este estilo jovem e frívolo era, muitas vezes, porta de entrada para os jovens no mundo vínico. Eram realmente vinhos que convinha beber novos e era esse o hábito face a muitos vinhos brancos em Portugal.

A pouco a pouco, o estilo foi mudando. Começaram a aparecer uns mais sérios e ambiciosos. O processo de melhoria global dos vinhos feitos a partir de Loureiro pode chamar-se de uma profecia auto-realizável. Para perceber esta evolução consultei o enólogo Anselmo Mendes, por vezes conhecido por Sr. Alvarinho, mas com igual propriedade se pode chamar Sr. Loureiro.

 

Para melhores resultados, apanha-se, por vezes, apenas o primeiro cacho da vara atempada, o qual detém maior concentração das componentes essenciais para a produção do vinho

Grande Prova Loureiro

Viticultura ambiciosa e desvelo na adega

Segundo Anselmo Mendes, a grande melhoria dos vinhos e o aumento da sua longevidade tem origem numa viticultura muito mais cuidada. Acrescento eu que a enologia portuguesa também evoluiu muito e os vinhos brancos beneficiaram dos melhores processos dentro da adega. Disse-me ainda que a Loureiro é uma variedade muito produtiva, chegando facilmente às 25 toneladas de uva por hectare.

Para garantir a qualidade, é preciso limitar severamente a produção, no máximo pode chegar-se às 15 toneladas. Para o seu Private, o mais bem pontuado desta prova, a produção da vinha velha é de oito toneladas. Para melhores resultados, a escolha é feita na vinha, apanhando, por vezes, apenas um cacho, o primeiro da vara atempada. Assim, este cacho vai ter uma maior concentração das componentes essenciais para a produção do vinho. Medições do extracto seco em várias amostras demonstram que esta estratégia é vencedora.

Para além do próprio vinho, Anselmo Mendes foi, durante muitos anos, enólogo da Quinta do Ameal, projecto que se tornou icónico na região. Quando foi comprado pelo Esporão, organizou uma prova vertical dos Quinta do Ameal e Quinta do Ameal Escolha, prova essa que mudou completamente a minha visão sobre a longevidade dos vinhos produzidos a partir de Loureiro. Provámos referências vínicas com mais de 20 anos, e a acidez vincada e afiada assegurou que o vinho estava bem vivo, oferecendo uma prova cheia de carácter e prazer.

Foi com projectos como este que a profecia se foi cumprindo. Houve pessoas que acreditavam no potencial da casta, praticavam uma viticultura cada vez mais ambiciosa, os vinhos melhoravam, evoluíam de forma muito positiva, o que justificava mais investimentos e de querer ir mais além. Um vinho que anteriormente se bebia no próprio ano, quase que o mais cedo possível, passou a tornar-se objeto de guarda. Lembro-me bem de os produtores se queixarem de não conseguirem vender o vinho do ano anterior. Tempos já idos.

Um vinho que anteriormente se bebia no próprio ano, quase que o mais cedo possível, passou a tornar-se objeto de guarda

 

Para todos os gostos

Dos 24 vinhos que vieram a esta prova, apenas seis são de 2025. Há oito de 2024, seis de 2023, três de 2022 e um de 2021. A justificação para a aposta em referências com idades variadas prende-se com o facto dos vinhos elaborados com a casta Loureiro terem sempre um grau alcoólico relativamente baixo e uma acidez precisa e vigorosa, que os torna bons companheiros à mesa. O uso de madeira para os estagiar é bastante raro, e muda um pouco o carácter fresco e divertido do vinho. Os aromas de frutos cítricos, como lima e limão, são frequentes, mas pode aparecer laranja e toranja. É frequente um lado vegetal a folhas de louro, talvez daí o nome da casta. Notas minerais aumentam a complexidade e algum trabalho com as borras pode ajudar a dar alguma textura cremosa ao vinho. Ainda existe o estilo frizante, com algum açúcar, um perfil que ainda encontra apreciadores. Os mais secos podem ter a acidez muito em evidência, e ficam bem com ostras – as ostras agradecem sempre os vinhos secos. Já os mais ‘ambiciosos’, com uma acidez suave bem integrada, podem acompanhar peixes e mariscos, bem como carnes, como pato assado.

O tempo passa e a nossa percepção em relação ao vinho vai mudando. A Loureiro foi levada a sério por pessoas que acreditaram e construíram um produto único, sensacional, com uma leveza e frescura irrepetíveis. À medida que cada vez mais Loureiros ambiciosos forem aparecendo, tenho a certeza de que ainda vamos ter muito boas surpresas com esta casta. Podemos apostar ainda em guardar umas garrafas para desfrutar mais tarde da sua evolução.

Nota: A Grande Prova Loureiro realizou-se em prova cega.

(Artigo publicado na edição de Junho de 2026)

Vale do Lima é Região Europeia da Gastronomia e Vinho em 2025

A eleição resultou de uma candidatura conjunta dos municípios de Arcos de Valdevez, Ponte da Barca, Ponte de Lima e Viana do Castelo

A Associação de Municípios Portugueses do Vinho (AMPV) distinguiu, o Vale do Lima, como Região Europeia da Gastronomia e Vinho 2025. A eleição resultou de uma candidatura conjunta dos municípios de Arcos de Valdevez, Ponte da Barca, Ponte de Lima e Viana do Castelo, que estão unidos, para além do rio Lima, por uma paisagem […]

A Associação de Municípios Portugueses do Vinho (AMPV) distinguiu, o Vale do Lima, como Região Europeia da Gastronomia e Vinho 2025.

A eleição resultou de uma candidatura conjunta dos municípios de Arcos de Valdevez, Ponte da Barca, Ponte de Lima e Viana do Castelo, que estão unidos, para além do rio Lima, por uma paisagem verde, muitas vezes montanhosa, com muitos cursos de água sedutores e atractivos e por um património que vale a pena descobrir. Para além disso, a AMPV considerou que, nos quatro municípios banhados pelo rio Lima, a gastronomia e vinhos são “dos mais importantes produtos da oferta turística”, razão pela qual justificou a distinção, “como forma de estimular a sua ligação”.

A região, onde existem 45 produtores-engarrafadores, é detentora da marca Loureiro do Vale do Lima, criada com o objetivo de valorizar e promover o vinho verde. “Loureiro do Vale do Lima – um vinho, um território, um destino” é o mote da  estratégia comum aos quatro municípios, que tem, como objetivo principal, o crescimento do enoturismo através do desenvolvimento de ações de promoção e marketing do vinho verde, centradas na casta Loureiro enquanto produto patrimonial e identitário da região do Vale do Lima, apostando numa marca territorial de grande valor”, diz ainda um comunicado dos municípios envolvidos no projecto.

Loureiro é a casta da mais recente cerveja Sovina Grape Ale

Sovina Loureiro

A terceira edição da Sovina 500 Saison Grape Ale Loureiro é, mais uma vez, uma colaboração com a Quinta do Ameal, propriedade do Esporão na região do Vinho Verde, sub-região do Lima Esta grape ale Sovina ilustra, segundo os próprios, “uma combinação pouco habitual entre a tradição cervejeira artesanal e a excelência vinícola da Quinta […]

A terceira edição da Sovina 500 Saison Grape Ale Loureiro é, mais uma vez, uma colaboração com a Quinta do Ameal, propriedade do Esporão na região do Vinho Verde, sub-região do Lima

Esta grape ale Sovina ilustra, segundo os próprios, “uma combinação pouco habitual entre a tradição cervejeira artesanal e a excelência vinícola da Quinta do Ameal, reunindo 30% do mosto de Loureiro da vindima de 2023 com 70% do mosto de cerveja, co-fermentados com levedura Saison”.

O mestre cervejeiro Pedro Lima, por sua vez, explica que recorreu a “uma estirpe de levedura utilizada tradicionalmente em cervejas de inspiração belga, que co-fermentou um mosto leve de maltes e lúpulos europeus, ao qual foi adicionado mosto de Loureiro”. O resultado, explica, “é uma cerveja fresca e versátil, de cor palha e espuma branca persistente, de aroma rico em ésteres frutados e um toque a especiarias. Sabor pouco amargo, com presença elegante de cereal, seguida por um toque moderado a citrinos e fruta madura. Na boca sente-se um corpo médio-baixo, carbonatação assertiva e um final seco que convida ao próximo gole”. Já o responsável de Enologia e Viticultura da Quinta do Ameal, Lourenço Charters, destaca o papel da casta na cerveja, dizendo que “as notas vivas e citrinas do Loureiro do Ameal dão uma muito boa frescura a esta grape ale”.

A Sovina 500 Saison Grape Ale pode ser bebida a solo, mas, “graças ao seu elevado potencial gastronómico”, diz o Esporão, “pode facilmente acompanhar receitas de carácter mais rústico, pratos asiáticos, queijos de casca mole ou mesmo petiscos simples, como tremoços”.

Granvinhos adquire Quinta de S. Salvador da Torre nos Vinhos Verdes

Granvinhos Vinhos Verdes

A Granvinhos anunciou a ampliação da sua presença noutras regiões vitivinícolas do país, com a aquisição de uma propriedade de 37 hectares na região dos Vinhos Verdes, a Quinta de S. Salvador da Torre. Este investimento foi, segundo a empresa, resultado de meses de negociações com o Grupo Soja de Portugal, ao qual a Granvinhos […]

A Granvinhos anunciou a ampliação da sua presença noutras regiões vitivinícolas do país, com a aquisição de uma propriedade de 37 hectares na região dos Vinhos Verdes, a Quinta de S. Salvador da Torre. Este investimento foi, segundo a empresa, resultado de meses de negociações com o Grupo Soja de Portugal, ao qual a Granvinhos comprou a Agromar S.A., que detém a Quinta de S. Salvador da Torre, no Vale do Lima, concelho de Viana do Castelo.

A Quinta de S. Salvador da Torre, também conhecida como Quinta de Santo Isidoro, localiza-se na margem direita do rio Lima e tem mais de 400 anos de existência. “Uma propriedade agrícola impressionante, com uma casa senhorial datada de 1685”, revela a Granvinhos. Com 30 hectares de vinha, das castas Loureiro e Alvarinho, a quinta beneficia, segundo a Granvinhos, da brisa marítima característica do Vale do Lima, apresentando condições edafo-climáticas excepcionais.

Granvinhos Vinhos Verdes

A Granvinhos manterá o modelo de exploração desta propriedade dos Vinhos Verdes, em parceria com o enólogo Anselmo Mendes, que já era adoptado pela Agromar. Concretiza-se, assim, o primeiro projecto conjunto entre o enólogo e o director-geral da Granvinhos, Jorge Dias, alavancado por uma amizade de mais de 30 anos. Juntos pretendem explorar o potencial da casta Loureiro e a localização privilegiada da quinta, trabalhar na requalificação patrimonial da propriedade e, previsivelmente em 2024, lançar um novo vinho Loureiro.

“Acredito no futuro do Vinho Verde, em particular das castas Alvarinho e Loureiro, produtos bem-adaptados aos novos tempos e hábitos de consumo. No entanto, é necessário valorizar a ligação desses vinhos às respectivas zonas de produção, bem como à dieta atlântica, na qual Portugal tem uma oferta única”, afirma Jorge Dias.

Adega de Ponte de Lima: Em terras de Loureiro e Vinhão

Adega Ponte Lima

O domingo é dia de missa. Talvez nas grandes cidades o apelo religioso não seja tão forte mas sabemos que na chamada “província” ainda é grande a fatia da população que cumpre as suas obrigações cristãs. Na região de Ponte de Lima não será, cremos, diferente. No entanto aqui, se é agricultor, é necessário ir […]

O domingo é dia de missa. Talvez nas grandes cidades o apelo religioso não seja tão forte mas sabemos que na chamada “província” ainda é grande a fatia da população que cumpre as suas obrigações cristãs. Na região de Ponte de Lima não será, cremos, diferente. No entanto aqui, se é agricultor, é necessário ir à missa, mesmo que não haja qualquer convicção religiosa. É que ir ouvir a prédica do pároco é a maneira mais certa de, atempadamente, se saber quais os tratamentos da vinha que são obrigatórios e que não estão dependentes dos caprichos do lavrador. Doenças como a flavescência dourada implicam tratamentos obrigatórios e que têm datas certas; e é na missa que se fica a saber quando se tem de cumprir a obrigação. Há assim um “interlúdio”, uma espécie de “antes da ordem do dia” em que todos os paroquianos ficam a saber o que há a fazer. E numa comunidade em que a Adega Cooperativa funciona como motor da região, foi esta a melhor solução que se encontrou para que ninguém fique sem informação. É ateu? Não é praticante? Vá na mesma à missa que dessa forma fica por dentro dos assuntos que importam.

A Adega Cooperativa de Ponte de Lima nasceu em 1959 e tem um peso enorme na região. Por um lado, está inserida numa zona agrícola e o vinho é uma das actividades principais mas, por outro, ao alimentar muitas famílias o vinho está também a proporcionar o desenvolvimento do comércio e serviços. Fundada com apenas 15 sócios tem hoje 2000 “ainda que só cerca de mil entreguem uvas”, como nos disseram. Estamos então a falar de mais de 4 milhões de quilos de uvas que são “pagos acima do que se pratica no mercado”. Pagar o preço justo, percebemos, é um objectivo sempre presente na acção da direcção porque “é preciso cativar novos produtores que queiram continuar a actividade dos antepassados e temos alguns jovens que estão a tomar conta das vinhas dos pais. Para pagar melhor as uvas têm se aumentar os preços dos vinhos para que o rendimento seja compensador.”

Celeste Patrocínio, a presidente, tem muito orgulho nos sócios, “alguns são descendentes de gente que estava ligada ao vinho no séc. XIX, pessoas citadas por Cincinnato da Costa na obra O Portugal Vinícola (1900) e que contribuíram com uvas para a ilustração do livro”. E há de tudo, desde os que têm apenas 0,3ha até aos que gerem 60ha, esses já altamente profissionalizados.

Loureiro primeiro que tudo

O grande orgulho da Adega é a casta Loureiro, a bandeira do vale do Lima. Aqui estamos em terrenos graníticos mas também com muitas manchas de xisto e há claramente uma influência marítima – temos o mar a 20 e 30 km – e a temperatura amena gera vinhos com grande frescura que são a marca d’água dos Loureiro. Com vinhas antigas é sabido que a variabilidade genética é maior e não se estranha por isso que os vinhos daqui sejam diferentes dos de Ponte da Barca, por exemplo. A casta Loureiro quer terrenos com boa fertilidade para que possa produzir bem e com qualidade. Estamos então a falar de mais de 10 mil quilos por hectare mas há condições para se poder chegar às 14 toneladas.

A zona corresponde, de resto, a uma das nove sub-regiões do Vinho Verde e, tal como acontece em Monção e Melgaço com a casta Alvarinho, também aqui é a casta Loureiro aquela que mais diferencia estes vinhos dos outros que se fazem na região. Na adega contam-nos que foi também a cooperativa a primeira casa a colocar no mercado um vinho varietal com a indicação de Loureiro no rótulo. Corria então o ano de 1982 e, de então para cá, a casta tornou-se emblemática e diferenciadora. É com base nela que a adega organiza o seu portefólio – a produção de branco ocupa 70% e, dentro dos brancos 95% é Loureiro mas a verdade é que a Loureiro não está sozinha. Há outras castas brancas que também servem de tempero, como Fernão Pires, Arinto, Trajadura e Alvarinho (aqui conhecida por Galeguinho) e várias castas tintas.

Pressente-se que o orgulho na Loureiro é idêntico ao da casta Vinhão, a variedade que molda os tintos da região. Ainda que a circulação dos vinhos de Vinhão seja muito regional, na adega há actualmente razões para que a variedade conheça um novo desenvolvimento. Sobre o tema, o experiente enólogo Fernando Moura, responsável pelos vinhos da Cooperativa, explica: “o Vinhão de hoje nada tem a ver com o de há 30 anos; antigamente a casta estava confinada às ramadas que, como sabemos, origina uvas com baixo teor de açúcar. Dessa forma as uvas chegavam à adega com 8 ou 9% de álcool provável e acidez de 10 e 11 gramas. Actualmente com a reconversão das latadas para cordão, temos Vinhão com 12,5% de álcool e 5 gr de acidez. Isso faz toda a diferença”, concluiu. Celeste Patrocínio acrescenta que no último evento Vinhos & Sabores da Grandes Escolhas, “foi com satisfação que vimos jovens chegarem ao nosso stand e quererem provar Vinhão”. À casta Vinhão há que acrescentar outras como a Borraçal, Espadeiro e Padeiro, todas elas castas pouco corantes e que são usadas sobretudo para fazer rosé; são variedades que existem em quantidades já muito residuais, sobretudo nas latadas. Sempre que há reconversões, estas variedades são preteridas e, em tintas, só se planta Vinhão, o “nosso vinho que esgota todos os anos”, diz Celeste.

Adega Ponte Lima

Reconversão e viticultura

Por falar em reconversão das latadas, a direcção da adega apercebeu-se que para os pequenos agricultores era muito difícil chegar aos programas europeus (Vitis) por não terem a área de vinha mínima para se candidatarem, que é de 20ha. Foi então que nasceu a ideia de se fazerem grupadas, ou seja, um conjunto de sócios que têm isoladamente pouca área de vinha mas que em conjunto conseguem perfazer as condições exigíveis. Foi assim “que já conseguimos quase 8 milhões de euros em fundos para reconversão da vinha e estamos sobretudo a falar da passagem da latada à vinha em cordão”, refere Celeste Patrocínio com justificado orgulho. O assunto dos fundos estruturais tem outras dificuldades: a papelada é complicada, a organização das candidaturas também, tudo se assemelha a uma tarefa hercúlea sobretudo quando a idade dos viticultores é já avançada. A adega, dizem-nos, está aqui para ajudar e criou o GAS – Gabinete de Apoio aos Sócios – onde organiza toda a parte burocrática das candidaturas. Também é a própria adega que vende os produtos vitícolas, aconselha e dá formação aos lavradores. O assunto “missa” que atrás falámos prende-se com os tratamentos da vinha. A zona minhota é a mais pluviosa do país e isso, sabe-se, potencia o sugimento de doenças da vinha com míldio e oídio. Actualmente o normal é terem de se fazer 8 a 9 tratamentos por ano, mas como nos diz Ricardo Siva, o técnico de viticultura, “temos problemas de doenças da vinha mas com as alterações climáticas ganhámos muito porque agora há menos tratamentos a fazer. O aumento médio da temperatura ajudou-nos, há mais calor e menos humidade”. Fernando Moura junta outro dado: ”Agora, mesmo nos anos mais difíceis, continuamos a ter vinhos bons. Problema sério é a Esca (doença do lenho), idêntico ao que se passa no resto do país. E solução séria ainda não há…”.

Mas afinal quanto se paga ao lavrador pelas uvas que entrega? Celeste Patrocínio explica: “pagamos acima do preço do mercado e fazemos uma revalorização das uvas que após as contas finais, dá entre 58 e 60 cêntimos. Na região o preço anda entre 50 e 55 cêntimos/quilo. Temos de apoiar o minifúndio senão ficam só as empresas grandes e, depois, o que será feito das terras? Ficam abandonadas? Há quem faça turismo rural, mas entra tudo em descalabro se não houver vinhas. Os novos para ficarem têm de ter rendimento. Ninguém liga nenhuma à valorização da terra, os políticos vêm cá todos na altura das eleições, mas mais nada. Temos essa função de valorizar, levar as pessoas a conservarem casas, caminhos e equipamentos. O vinho tem esse lado social”.

Com as uvas de que dispõe, a adega construiu um portefólio diversificado sempre com um perfil próprio, muito ao gosto do consumidor: brancos e tintos com muito leve doçura residual (estamos a falar de 3 gr/litro) e uma leve presença de gás. O único branco que tem mais açúcar indica-o no rótulo, onde se lê: Adamado. Mudar este perfil não está nos planos porque “fizemos um vinho com zero de açúcar mas não conseguimos vender porque diziam que era seco de mais”, diz Fernando Moura que acrescenta que isso não impede que vá adiante um novo projecto que é um branco fermentado em barrica nova – 3 barricas de 500 litros e de 3 tanoarias diferentes – e esse, claramente será comercializado como topo de gama e completamente seco. Para completar a oferta, ainda há espumante mas, em virtude da pequena quantidade (10 000 garrafas entre branco e rosé), a espumantização é feita em prestação de serviços. Acresce ainda o vinho em barril para vender a copo com pressão, para a restauração já representa cerca de 200 000 litros/ano. Na exportação há que notar que Angola importa sobretudo o tinto e há países importadores (como os EUA) em que não se destina apenas ao chamado mercado da saudade. Ultrapassar o estigma do vinho barato, que é uma imagem colada a muitos Vinhos Verdes, vai obrigar a “exportar mais e colocar o preço num patamar mais elevado e por via disso gerar mais valor”, diz Celeste Patrocínio. Desafios para o futuro.

(Artigo publicado na edição de Março de 2023)

Grande Prova: O fresco perfume do Verde Loureiro

prova loureiro

É certamente uma das mais originais e frescas variedades de uva que temos em Portugal. Na região dos Vinhos Verdes, de onde é oriunda, apresenta-se em diferentes perfis. Encontramos o lado mais “tradicional”, com algum gás carbónico, acidez elevada e leve doçura frutada; e a vertente mais ambiciosa, com vinhos secos, austeros, minerais e longevos. […]

É certamente uma das mais originais e frescas variedades de uva que temos em Portugal. Na região dos Vinhos Verdes, de onde é oriunda, apresenta-se em diferentes perfis. Encontramos o lado mais “tradicional”, com algum gás carbónico, acidez elevada e leve doçura frutada; e a vertente mais ambiciosa, com vinhos secos, austeros, minerais e longevos. Certo é que o Verde Loureiro não passa indiferente e após 36 vinhos provados fica-nos a certeza de que o nível qualitativo nunca foi tão elevado.

Texto: Nuno de Oliveira Garcia

Fotos: Ricardo Palma Veiga

Na região dos Vinhos Verdes temos três castas brancas que reinam em termos de notoriedade: Alvarinho, Loureiro e Avesso. Implementadas em todas as sub-regiões, poucas dúvidas existem que, salvo uma ou outra excepção, cada uma destas variedades tem um terroir de eleição, associado a um rio nortenho. A “casa” do Alvarinho é o vale do Minho (em especial na sub-região de Monção-Melgaço), o Loureiro assume-se no vale do Lima e o Avesso prefere o vale do Douro.

Sucede, que as três variedades não se encontram no mesmo patamar de conhecimento enológico e de reconhecimento do mercado. Se o Alvarinho é já um sucesso com algumas décadas e marcas de grande notoriedade, e o Avesso uma redescoberta relativamente recente, pode-se dizer que o Loureiro está numa fase intermédia. Trata-se de uma etapa em que, mesmo com várias marcas disponíveis, e apesar de um público fiel que aprecia a sua frescura e exuberância, há ainda muito a fazer, mas, simultaneamente, já existem no mercado vários vinhos excelentes, como se verificou na presente prova. Em abono da verdade, depois do Alvarinho, o Loureiro é, certamente, a casta branca de Vinho Verde mais conceituada junto dos consumidores, sendo que, em alguns casos, o preço dos vinhos supera os €10€ ou €15, algo também perceptível neste painel de prova. É certo que a maioria dos Loureiros provados se cinge ao intervalo entre os €4,50 e os €7, mas mesmo essa circunstância tem de ser contextualizada; com efeito, não só a cada ano que passa surgem vinhos mais valorizados como, rigorosamente, o referido patamar de preço está bem acima da média dos demais Vinhos Verdes.

Apesar de a fama da casta vir de longe, é inquestionável o contributo que algumas marcas fomentaram ao Loureiro, sendo disso bom exemplo, no final do século XX, os vinhos da Casa dos Cunhas, Paço d’Anha, Solar das Bouças, Casa de Sezim, Casa da Senra ou Quinta do Convento da Franqueira. Com efeito, e apesar de há 30 ou 40 anos não ser comum a casta aparecer totalmente sozinha, todos os referidos vinhos tinham Loureiro como base. Mais recentemente, esse contributo foi aumentado com vinhos, desta feita, 100% Loureiro, da marca Muros Antigos (Anselmo Mendes) e das várias declinações da casta produzidas pela Quinta do Ameal (hoje, parte do grupo Esporão), porventura a propriedade mais intrinsecamente ligada à casta no imaginário do consumidor. Exemplos recentes de projectos que têm levado longe o Loureiro são, entre outros, os vinhos de Márcio Lopes, de João Cabral de Almeida, de Vasco Croft e, ainda, os novos vinhos dos produtores Aveleda e Soalheiro, todos provados neste trabalho.

Conforme referido acima, a casta está muito associada ao Vale do rio Lima, e também ao Cávado, mas tivemos em prova vinhos das demais sub-regiões. É certo que vários dos vinhos mais pontuados provieram do eixo Ponte de Lima – Viana do Castelo, mas provámos óptimos exemplares de outras sub-regiões como no já mencionado vale do Cávado. Até em Monção e Melgaço se começa a apostar no Loureiro para emparelhar com Alvarinho. Efectivamente, as melhores prestações do Loureiro face à uva Trajadura (outra uva da região, por regra com mais álcool e de menor acidez), tem feito com que aquela esteja a substituir esta na hora de contribuir com frescura e acidez a um típico lote baseado em Alvarinho. Percebe-se esta tendência, na medida em que a acidez do Loureiro acaba por equilibrar um perfil mais guloso e cheio do Alvarinho.

Com efeito, o equilíbrio ácido do Loureiro é muito valorizado pelos enólogos que o descrevem como puro e vibrante, a meio caminho entre a acidez por vezes “dura” do Avesso e a acidez quase doce de alguns Alvarinhos.

DIFERENTES ESTILOS E PERFIS

Falando de terroirs, há quem sustente que a casta funciona particularmente bem em solos franco-argilosos (até com um pouco de xisto), mas o consenso sobre a textura dos solos não é total, antes dependendo a qualidade, como quase sempre sucede, de outros factores como a respectiva porosidade e matéria orgânica. Casta de maturação precoce, que prefere solos profundos e de média fertilidade, ganha percepção de mineralidade em solos de base granítica com altitude acima dos 150 metros e com porosidade, com os melhores vinhos a não ultrapassarem 12,5% de álcool. Com cacho comprido e apertado, ou seja, com pouco arejamento, certo é a sua preferência por anos pouco chuvosos por altura da vindima (por isso as colheitas de 2005, 2009 e 2015 deram alguns dos melhores Loureiros), ainda que aprecie a brisa atlântica e as noites mais frescas de verão. No copo, começa por apresentar uma tonalidade citrina pálida, mas, com o passar dos anos ganha rapidamente mais cor em garrafa, ainda que menos intensa do que o Alvarinho. Com diferentes clones disponíveis, é possível um produtor escolher entre perfis aromáticos mais terpénicos e florais (a lembrar, por vezes, algum Moscatel) ou um carácter mais austero e até salino. O mesmo sucede com a produtividade (tipicamente alta) da casta, com os melhores vinhos a resultarem de produções até às 6,5 toneladas/hectare, mas existindo resultados bem positivos próximo das 10 toneladas. A sua presença no encepamento da região dos Vinhos Verdes é dominante: segundo as informações estatísticas disponibilizadas no site oficial da região, ocupa quase 4200 hectares, contra 2300 de Alvarinho (embora esta esteja a crescer mais rapidamente) e outro tanto de Arinto.

A prova que fizemos de 36 marcas, oriundas de toda a região, permitiu-nos encontrar vinhos com diferentes interpretações da casta. Um desses modelos é a utilização do Loureiro para fazer vinhos que se inserem no imaginário do Vinho Verde que se quer beber no ano a seguir à colheita, geralmente acompanhando peixe grelhado ou marisco. Exuberantes na vertente aromática, com gás carbónico, e acidez elevada compensada com alguma doçura frutada, a casta entrega bons exemplares vínicos neste registo. Aqui, agrada-nos o álcool de baixo teor, os preços muito cordatos, apesar de, genericamente, os vinhos serem lançados no mercado precocemente, uma vez que beneficiariam muito com mais alguns meses em garrafa. Nas antípodas, encontramos a tradução da casta assente em fermentação e/ou estágio em barrica, e sem qualquer gás. Por vezes com mais de um ano em estágio de garrafa, são vinhos que revelam ambição. Na sua grande maioria, a barrica aporta um ambiente mais barroco e generoso, com a casta a manter a sua presença, privilegiando uma harmonia entre as notas varietais e utilização da madeira. São vinhos perfeitos para assados, de peixe ou carne, e podem ser bebidos no verão, mas também em meia-estação. Por fim, tivemos vinhos que, sem utilização de barrica, se mantiveram no perfil da região, mas procurando modernizá-lo. Aproveitando o carácter único e muito original da casta (é uma uva que “viaja” pouco a nível nacional ou internacional), são vinhos que expressam a região com muita identidade, vinhos austeros e com notas vegetais deliciosas, vinhos que crescem claramente com alguns anos em garrafa. Descartando-se da exuberância aromática excessiva, do gás carbónico desarranjado e da afinidade entre acidez elevada e doçura frutada, essa terceira vertente mostrou alguns dos melhores vinhos em prova. O certo é que, em todas estas variações, encontrámos denominadores comuns, alguns dos quais já identificados neste texto: originalidade, acidez vibrante, álcool, preços ajustados à qualidade e ambição e, não menos importante, nos melhores exemplares, grande potencial de longevidade. Belíssimas razões para o consumidor eleger os Verdes Loureiro como um dos seus parceiros. À mesa, e não só.

(Artigo publicado na edição de Agosto de 2022)

 

Esporão lança Bico Amarelo, um Vinho Verde branco

[vc_row type=”in_container” full_screen_row_position=”middle” scene_position=”center” text_color=”dark” text_align=”left” overlay_strength=”0.3″ shape_divider_position=”bottom”][vc_column column_padding=”no-extra-padding” column_padding_position=”all” background_color_opacity=”1″ background_hover_color_opacity=”1″ column_shadow=”none” column_border_radius=”none” width=”1/1″ tablet_text_alignment=”default” phone_text_alignment=”default” column_border_width=”none” column_border_style=”solid”][vc_column_text]É um blend de Loureiro, Alvarinho e Avesso, três grandes castas brancas da região do Vinho Verde, rainhas das sub-regiões do Lima, Monção e Melgaço e Baião, respectivamente. O Bico Amarelo é o novo vinho do Esporão, […]

[vc_row type=”in_container” full_screen_row_position=”middle” scene_position=”center” text_color=”dark” text_align=”left” overlay_strength=”0.3″ shape_divider_position=”bottom”][vc_column column_padding=”no-extra-padding” column_padding_position=”all” background_color_opacity=”1″ background_hover_color_opacity=”1″ column_shadow=”none” column_border_radius=”none” width=”1/1″ tablet_text_alignment=”default” phone_text_alignment=”default” column_border_width=”none” column_border_style=”solid”][vc_column_text]É um blend de Loureiro, Alvarinho e Avesso, três grandes castas brancas da região do Vinho Verde, rainhas das sub-regiões do Lima, Monção e Melgaço e Baião, respectivamente. O Bico Amarelo é o novo vinho do Esporão, e promete ser, segundo o produtor, “leve, fresco e equilibrado, sem qualquer adição de açúcar ou gás”.

José Luís Moreira da Silva, enólogo da Quinta do Ameal e criador do Bico Amarelo, explica o vinho: “O Bico Amarelo traduz e representa o melhor da diversidade da região dos Vinhos Verdes. Não só pela escolha das castas típicas da região, mas sobretudo pelos métodos de vinificação simples, com prensagem de cachos inteiros e fermentação em cubas de inox, a temperatura controlada, e o estágio diferenciador com bâtonnage, que vai permitir dar mais cremosidade, mais textura e um maior equilíbrio ao lote final”. 

O Bico Amarelo Vinho Verde branco 2020 tem um p.v.p. recomendado de €4,99. Veja o vídeo em que José Luís Moreira da Silva fala sobre este novo vinho do Esporão:[/vc_column_text][vc_video link=”https://www.youtube.com/watch?v=eX5Cd2591o4&t=3s” align=”center”][/vc_column][/vc_row][vc_row type=”in_container” full_screen_row_position=”middle” scene_position=”center” text_color=”dark” text_align=”left” overlay_strength=”0.3″ shape_divider_position=”bottom”][vc_column column_padding=”no-extra-padding” column_padding_position=”all” background_color_opacity=”1″ background_hover_color_opacity=”1″ column_shadow=”none” column_border_radius=”none” width=”1/1″ tablet_text_alignment=”default” phone_text_alignment=”default” column_border_width=”none” column_border_style=”solid”][divider line_type=”Full Width Line” line_thickness=”1″ divider_color=”default”][/vc_column][/vc_row][vc_row type=”in_container” full_screen_row_position=”middle” scene_position=”center” text_color=”dark” text_align=”left” overlay_strength=”0.3″ shape_divider_position=”bottom”][vc_column column_padding=”no-extra-padding” column_padding_position=”all” background_color_opacity=”1″ background_hover_color_opacity=”1″ column_shadow=”none” column_border_radius=”none” width=”1/2″ tablet_text_alignment=”default” phone_text_alignment=”default” column_border_width=”none” column_border_style=”solid”][vc_column_text]

Siga-nos no Instagram

[/vc_column_text][mpc_qrcode preset=”default” url=”url:https%3A%2F%2Fwww.instagram.com%2Fvgrandesescolhas|||” size=”75″ margin_divider=”true” margin_css=”margin-right:55px;margin-left:55px;”][/vc_column][vc_column column_padding=”no-extra-padding” column_padding_position=”all” background_color_opacity=”1″ background_hover_color_opacity=”1″ column_shadow=”none” column_border_radius=”none” width=”1/2″ tablet_text_alignment=”default” phone_text_alignment=”default” column_border_width=”none” column_border_style=”solid”][vc_column_text]

Siga-nos no Facebook

[/vc_column_text][mpc_qrcode preset=”default” url=”url:https%3A%2F%2Fwww.facebook.com%2Fvgrandesescolhas|||” size=”75″ margin_divider=”true” margin_css=”margin-right:55px;margin-left:55px;”][/vc_column][/vc_row]