Quinta da Boa Esperança, uma outra face de Lisboa

Na Zibreira, a 20km do oceano e entre este e a Serra de Montejunto, foi recuperada uma propriedade sobre solos argilo-calcários onde encontramos vestígios de algas. Nesta Lisboa que é do mar e da terra, a Quinta da Boa Esperança apresenta novidades nos vinhos e um novo projecto de enoturismo. TEXTO E NOTAS DE PROVA […]

Na Zibreira, a 20km do oceano e entre este e a Serra de Montejunto, foi recuperada uma propriedade sobre solos argilo-calcários onde encontramos vestígios de algas. Nesta Lisboa que é do mar e da terra, a Quinta da Boa Esperança apresenta novidades nos vinhos e um novo projecto de enoturismo.

TEXTO E NOTAS DE PROVA Mariana Lopes
FOTOS cortesia Quinta da Boa Esperança

Na Quinta já se produzia vinho há cerca de 100 anos, mas esse vinho não é o mesmo de que falamos agora. Artur Gama e Eva Moura Guedes adquiriram a propriedade de 16 hectares em 2014. Desde aí que têm posto em prática uma vontade antiga: criar um espaço contemporâneo, reflexo do seu modo de pensar e de viver, num ambiente histórico e rural. O símbolo da Quinta da Boa Esperança diz muito sobre os valores-base do projecto. O Homem Verde, figura da mitologia celta, simboliza a natureza e o renascimento, a Primavera, a natureza e o crescimento. Isto vai de encontro à sustentabilidade e à protecção do ambiente, que foram sempre objectivos muito claros para Artur e Ana.
A Quinta da Boa Esperança tem cerca de 10 hectares de vinha em produção, numa encosta com exposição a nascente e poente, tão ampla que o sol toca quase todos os seus pontos, durante todo o dia. Por baixo, solos argilo-calcários, onde corre um lençol freático que vem de Torres Vedras e isso tem uma grande influência no perfil dos vinhos da casa, frescos e salinos, a lembrar a brisa oceânica e com boa acidez, factores que equilibram a influência da barrica nova de carvalho francês, presente em quase todos os vinhos. Nas vinhas, estão as castas tintas Caladoc, Aragonez, Castelão, Touriga Nacional e Alicante Bouschet, e as brancas Arinto, Fernão Pires e Sauvignon Blanc, sendo que, em breve, será plantado menos de um hectare de Alvarinho. Os processos são quase totalmente artesanais e a vindima é manual, como já lá se fazia há uma centena de anos. Dessa época antiga, manteve-se uma adega de 1914 que, juntamente com outros vestígios rústicos, confere à Quinta uma mística de velhos saberes, perfeitamente integrados com a postura moderna do casal proprietário. Os novos espaços, alguns de construção bem recente, denotam o bom gosto de Eva, que actualmente se dedica ao restauro de peças antigas mas que tem queda para o design de interiores. A parte nova está repleta de pequenos cantos muito “cozy” onde apetece relaxar, com apontamentos decorativos boho-chic combinados com portas dos anos 20. Apenas oito pessoas compõem a equipa local, o que nos dá uma sensação familiar e que nos faz sentir muito bem recebidos.

A enologia está nas mãos da residente Paula Fernandes, que está na Quinta desde o início do projecto, e do consultor Rodrigo Martins. A primeira vindima foi em 2015 e um dos vinhos que dela saiu, o Quinta da Boa Esperança Alicante Bouschet, foi o maior sucesso vínico da empresa, até hoje. A maior parte dos vinhos tem um número limitado de garrafas, e esse sempre foi outro objectivo da casa, assentar qualidade e não em quantidade. No total, a produção está entre as 70 e as 80 mil garrafas, metade para mercado nacional e a outra metade para exportação, divididas por onze referências.
A juntar às novas colheitas, a grande novidade da Quinta da Boa Esperança é o arranque do projecto de enoturismo. “Queremos que seja um enoturismo familiar e intimista”, explicou Artur Gama. Visitas, provas e refeições fazem parte do cardápio, mas tudo com um toque muito especial e original. A oferta inclui, por exemplo, uma visita e aquisição de marisco nas lotas costeiras, à qual se segue um showcooking do mesmo marisco por um chef junto à piscina, com um saxofonista e a presença de Paula Fernandes, que explica os vinhos. Outro programa é a “Portuguese Experience”: um passeio pelas vinhas, adega e sala de barricas, seguido de almoço volante tardio no largo da Quinta, com os próprios pescadores a grelhar sardinhas assadas e o produtor de suínos a assar um porco no espeto, tudo acompanhado por um rancho folclórico da terra, que convida os presentes a dançar. Também a “Fire Experience” promete surpreender, a qual inclui quatro fogueiras de chão onde quatro chefs, recorrendo a cepas velhas, elaboram os seus melhores pratos, aromatizados com os vinhos Quinta da Boa Esperança. Estas experiências e outras mais, incluindo as provas simples, “são totalmente personalizáveis”, disse Artur Gama.
As novidades vínicas não ficam atrás de tudo isto, belos vinhos, diferentes uns dos outros mas que têm um fio condutor entre eles: dos brancos aos tintos, passando pelo rosé, todos denotam boa estrutura, corpo e uma grande frescura intrínseca, extraída com perícia daquele terroir.

Edição Nº23, Março 2019

 

Bordéus e Douro em diálogo

[vc_row type=”in_container” full_screen_row_position=”middle” scene_position=”center” text_color=”dark” text_align=”left” overlay_strength=”0.3″ shape_divider_position=”bottom”][vc_column column_padding=”no-extra-padding” column_padding_position=”all” background_color_opacity=”1″ background_hover_color_opacity=”1″ column_shadow=”none” column_border_radius=”none” width=”1/1″ tablet_text_alignment=”default” phone_text_alignment=”default” column_border_width=”none” column_border_style=”solid”][vc_column_text]O projecto dos vinhos Roquette e Cazes nasceu da amizade de duas famílias, os Roquettes do Crasto e os Cazes do Château Lynch-Bages. Longe dos focos de luzes e da boca do palco duriense, estes, são grandes […]

[vc_row type=”in_container” full_screen_row_position=”middle” scene_position=”center” text_color=”dark” text_align=”left” overlay_strength=”0.3″ shape_divider_position=”bottom”][vc_column column_padding=”no-extra-padding” column_padding_position=”all” background_color_opacity=”1″ background_hover_color_opacity=”1″ column_shadow=”none” column_border_radius=”none” width=”1/1″ tablet_text_alignment=”default” phone_text_alignment=”default” column_border_width=”none” column_border_style=”solid”][vc_column_text]O projecto dos vinhos Roquette e Cazes nasceu da amizade de duas famílias, os Roquettes do Crasto e os Cazes do Château Lynch-Bages. Longe dos focos de luzes e da boca do palco duriense, estes, são grandes vinhos a merecerem toda a atenção.

TEXTO João Paulo Martins FOTO Anabela Trindade

Xisto é um nome vulgar no Douro: identifica o solo e o tipo de pedra que caracteriza a região. É mesmo um dos factores diferenciadores do Douro em relação a outras zonas. Mas Xisto acabou por ser também o nome de um vinho tinto que resultou de uma associação luso-francesa. Foi a mais recente edição – de 2015 – que foi agora objecto de apresentação à imprensa.
A família Cazes é proprietária do Château Lynch-Bages que fica em Pauillac (Bordéus), nome famoso que já em 1855, aquando da classificação das propriedades, foi incluída na lista dos Crus Classés. Sabemos hoje que, naquela data, a propriedade estava algo decadente e mal cuidada e terá sido por isso que se quedou num quinto nível quando hoje, caso se refizesse a classificação – algo que o bom-senso aconselharia mas que o conservadorismo francês não autoriza – estaria, se não no primeiro, seguramente no segundo nível. A ligação dos Cazes a Portugal é também familiar ou, se se quiser, sentimental, porque Jean-Michel, o actual proprietário, é casado com uma portuguesa. Daqui até se pensar numa aventura conjunta com os Roquette foi um passo curto. Nasceu assim em 2002 a empresa Roquette & Cazes e o Xisto 2003 foi o primeiro vinho com que surgiram no competitivo mercado dos tintos durienses. Desde o início que foi pensado para ser um topo de gama, mas em 2006 a estratégia mudou e assim resolveu-se criar uma nova referência – Roquette & Cazes – que passou a funcionar como marca com edição anual, reservando-se o Xisto apenas para os melhores anos. Assim a produção do Roquette & Cazes atinge as 60.000 garrafas/ano, enquanto o Xisto se queda por uma quantidade que varia entre 3.000 e 5.000 garrafas.
A fim de assegurar uvas para estes vinhos a empresa investiu no Douro Superior, numa vinha – quinta do Meco, com 22 ha de vinha – ao lado da vinha que o Crasto também adquiriu, a quinta da Cabreira. Todo o trabalho é assegurado pela quinta do Crasto, desde o granjeio da vinha até ao estágio em barrica. Para já, e enquanto esta vinha não ultrapassa a fase da juventude, as uvas para o tinto Xisto têm origem em vinhas velhas de Foz Côa.[/vc_column_text][image_with_animation image_url=”35322″ alignment=”” animation=”Fade In” border_radius=”none” box_shadow=”none” max_width=”100%”][vc_column_text]Qualidade notável
Nesta que foi a primeira apresentação pública dos vinhos da empresa estiveram presentes Jean-Charles Cazes (filho de Jean-Michel) e Daniel Llose, enólogo que há décadas (desde 1976) é o responsável pelos vinhos do Château Lynch-Bages e era também consultor da AXA Millésimes sendo, por via disso, consultor também da quinta do Noval. Actualmente, já reformado da AXA, continua unicamente ligado à família Cazes. Manuel Lobo, enólogo do Crasto, apresentou os vinhos. Para já só tintos, mas não se descura a hipótese de no futuro se vir a produzir branco com as marcas referidas. Tomás Roquette foi o anfitrião e a apresentação decorreu no restaurante Jncquoi, em Lisboa.
A marca Roquette & Cazes assenta num lote de Touriga Nacional (60%), Touriga Franca e Tinta Roriz, estas duas com variações, dependendo do ano vitícola. As uvas têm origem mista, algumas do Cima Corgo e outras do Douro Superior. Em média o estágio em barrica prolonga-se por 18 ou 20 meses. Os vinhos têm uma qualidade notável, só lhes falta visibilidade e aceitação pelos consumidores portugueses. Na exportação são já 30 os países destinatários, sinal evidente da alta qualidade que apresentam. A marca, como nos informou Tomás Roquette, tem condições para crescer, assim exista interesse e procura do mercado.
O tinto Xisto surge agora (no mercado em Abril) na colheita de 2015, sendo esta a oitava edição deste tinto. O estágio desenrola-se em barrica nova e também noutras usadas, provenientes do château bordalês.[/vc_column_text][nectar_animated_title heading_tag=”h6″ style=”color-strip-reveal” color=”Accent-Color” text=”Em prova”][vc_column_text][ products skus=”V04634,V04635,V04636,V04637,V04638,V04639″ columns=”2″ ][/vc_column_text][vc_column_text]

Edição Nº23, Março 2019

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Castas raras, orgulho de Portugal

[vc_row type=”in_container” full_screen_row_position=”middle” scene_position=”center” text_color=”dark” text_align=”left” overlay_strength=”0.3″ shape_divider_position=”bottom”][vc_column column_padding=”no-extra-padding” column_padding_position=”all” background_color_opacity=”1″ background_hover_color_opacity=”1″ column_shadow=”none” column_border_radius=”none” width=”1/1″ tablet_text_alignment=”default” phone_text_alignment=”default” column_border_width=”none” column_border_style=”solid”][vc_column_text]Em 1899, o escritório responsável pelas propriedades intelectuais no Reino Unido declarou: “Tudo o que pode ser inventado, já foi inventado”. Uma declaração infeliz e tão equivocada quanto um documento publicado pela empresa americana de comunicação Western […]

[vc_row type=”in_container” full_screen_row_position=”middle” scene_position=”center” text_color=”dark” text_align=”left” overlay_strength=”0.3″ shape_divider_position=”bottom”][vc_column column_padding=”no-extra-padding” column_padding_position=”all” background_color_opacity=”1″ background_hover_color_opacity=”1″ column_shadow=”none” column_border_radius=”none” width=”1/1″ tablet_text_alignment=”default” phone_text_alignment=”default” column_border_width=”none” column_border_style=”solid”][vc_column_text]Em 1899, o escritório responsável pelas propriedades intelectuais no Reino Unido declarou: “Tudo o que pode ser inventado, já foi inventado”. Uma declaração infeliz e tão equivocada quanto um documento publicado pela empresa americana de comunicação Western Union, que dizia em 1876: “O telefone tem muitos defeitos. Esse aparelho não tem valor nenhum”. As pessoas muitas vezes não são capazes de dar valor à certas coisas até que seja tarde demais. No mundo do vinho não é diferente.

TEXTO Dirceu Vianna Junior MW

Os produtores de vinho usam apenas uma minúscula proporção da diversidade genética que existe a nível global, o que também é o caso de outros produtos como banana, café e cacau. Apenas 1%, ou seja, doze das cerca de 1.100 castas mais cultivadas para a produção de vinho, ocupam cerca de 45% das vinhas no mundo. Entre essas estão o Cabernet Sauvignon, Merlot, Tempranillo, Syrah, Grenache e Pinot Noir. Em países como Chile, Austrália ou Nova Zelândia essa percentagem pode representar mais de 80% dos vinhedos. Caso mais extremo ainda é a China, onde 75% dos vinhedos destinados à produção de vinho são plantados com apenas uma varietal, a Cabernet Sauvignon. Fora desse grupo existe um número grande de castas como Carménère, Gamay, Sangiovese, Malbec, Nebbiolo e Zinfandel, entre outras, que desempenham um papel importante no mundo da vitivinicultura. São castas plantadas em múltiplas regiões, representando vários estilos, comercializadas internacionalmente e que adicionam diversidade ao mundo do vinho. Para além dessas, existe um número elevado de castas que são plantadas em áreas mais restritas. São varietais frequentemente cultivadas em âmbito local e raramente são comercializadas fora da região onde são plantadas. A maioria dessas castas não aparece no rótulo e, por esse motivo, raramente estão no radar dos profissionais da área, muito menos do consumidor.
Itália afirma que possui o maior número de varietais autóctones em todo o mundo. De acordo com o Ministero delle Politiche Agricole, Alimentari e Forestali (MiPAAF) existem 350 variedades oficialmente autorizadas para a produção de vinho na Itália. Fontes alternativas indicam que o número de varietais plantadas na Itália excede 500. O país possui varietais ecléticas interessantes como Nerello Mascalese do sul da Itália, Frappato da Sicília, de corpo leve, taninos sedosos e aromas de frutas do bosque e toques florais. Existe também Oseleta, uva tinta que foi salva da obscuridade na década de 1980 pelo renomado produtor Masi e também Ciliegiolo, cultivada no centro da Itália e com características similares ao Sangiovese. Levando em consideração a área de superfície da Itália, que segundo o World Atlas é 301.340 quilómetros quadrados, e comparando com o número de varietais plantadas, a Itália possui uma proporção de 1,1 casta para cada 1000 quilómetros quadrados de superficie. Comparando com Itália, Portugal tem cerca de 250 varietais plantadas numa superfície de 92.090 quilómetros quadrados, o que resulta numa relação de 2,7 variedades por 1000 km quadrados. Fazendo essa análise e levando em consideração o tamanho do país, é possivel atribuir à Portugal a honra de ser o país que possui maior grau de diversidade de varietais no mundo.[/vc_column_text][/vc_column][/vc_row][vc_row type=”in_container” full_screen_row_position=”middle” scene_position=”center” text_color=”dark” text_align=”left” overlay_strength=”0.3″ shape_divider_position=”bottom”][vc_column column_padding=”no-extra-padding” column_padding_position=”all” background_color_opacity=”1″ background_hover_color_opacity=”1″ column_shadow=”none” column_border_radius=”none” width=”1/1″ tablet_text_alignment=”default” phone_text_alignment=”default” column_border_width=”none” column_border_style=”solid”][nectar_animated_title heading_tag=”h6″ style=”color-strip-reveal” color=”Accent-Color” text=”Um património único”][vc_column_text]A lista de castas portuguesas é imensa e inclui varietais que possuem excelente potencial. Grande parte dessas varietais raramente são encontradas fora da Peninsula Ibérica. Muitas delas são cultivadas exclusivamente em Portugal, proporcionando ao país um valioso diferencial. Entre as castas raras de grande potencial podemos citar Tinta Francisca, Tinta Pinheira, Alvarelhão, Tinta Miúda, Bastardo, Tinta da Barca e Tinta Negra. Essa última, por exemplo, corresponde a 85% das vinhas da Ilha da Madeira. É uma casta notavelmente produtiva. De acordo com Diana Silva, a visionária fundadora do projeto “Ilha” na Madeira, a casta não é tão bem conceituada quanto merece pois os produtores raramente optam por diminuir o rendimento em busca de qualidade. Na opinião de Diana Silva, é necessário mudar a mentalidade dos produtores para reduzir o rendimento para quatro toneladas por hectare, de forma a que a Tinta Negra consiga expressar a delicadeza e elegância que Diana compara com Pinot Noir, exibindo notas de frutas vermelhas, pétalas de rosa e cereja, aliada à característica principal que é a sua frescura. Outro exemplo de uma casta rara cujo potencial é auspicioso inclui a Tinta Miúda, também conhecida como Graciano. Ana Cardoso Pinto, produtora e responsável pela Quinta do Pinto, em Alenquer, explica que é uma casta de ciclo tardio e rendimento baixo (4 ton/ha), mas abundantemente expressiva, com bela acidez, taninos sedosos e frutas de bosque, notas de especiarias, pimenta e frutas azuis como o mirtilo. Com o passar dos anos, desenvolve tons terrosos e notas florais. Quando envelhecida em madeira, a Tinta Miúda pode exibir notas de especiarias doces juntamente com toques chocolate e café. É uma casta com muita personalidade, tal como a Bastardo. Rita Marques, da empresa familiar Conceito, explica que essa é uma casta precoce, pouco produtiva e sensível a doenças. Exige cuidado na adega pois o mosto tem a propensão a oxidar com facilidade. Paradoxalmente, na hora da vinificação tem tendência à redução e tipicamente não responde muito bem ao estágio em madeira. Apesar de pouca cor, os vinhos possuem uma grande intensidade aromática incluindo nuances de pimenta branca, frutas vermelhas e apontamentos florais. Na boca é um vinho volumoso, com taninos arredondados numa estrutura firme. São vinhos abertos, leves, descomplicados e alegres, mas onde não falta complexidade nem personalidade, afirma Rita.[/vc_column_text][/vc_column][/vc_row][vc_row type=”in_container” full_screen_row_position=”middle” scene_position=”center” text_color=”dark” text_align=”left” overlay_strength=”0.3″ shape_divider_position=”bottom”][vc_column column_padding=”no-extra-padding” column_padding_position=”all” background_color_opacity=”1″ background_hover_color_opacity=”1″ column_shadow=”none” column_border_radius=”none” width=”1/1″ tablet_text_alignment=”default” phone_text_alignment=”default” column_border_width=”none” column_border_style=”solid”][image_with_animation image_url=”35312″ alignment=”” animation=”Fade In” border_radius=”none” box_shadow=”none” max_width=”100%”][/vc_column][/vc_row][vc_row type=”in_container” full_screen_row_position=”middle” scene_position=”center” text_color=”dark” text_align=”left” overlay_strength=”0.3″ shape_divider_position=”bottom”][vc_column column_padding=”no-extra-padding” column_padding_position=”all” background_color_opacity=”1″ background_hover_color_opacity=”1″ column_shadow=”none” column_border_radius=”none” width=”1/1″ tablet_text_alignment=”default” phone_text_alignment=”default” column_border_width=”none” column_border_style=”solid”][nectar_animated_title heading_tag=”h6″ style=”color-strip-reveal” color=”Accent-Color” text=”Competir e vencer pela diferença”][vc_column_text]É verdade que, dados os avanços em viticultura e melhorias da tecnologia na adega, podemos dizer que a qualidade do vinho em geral nunca foi melhor. No entanto, neste oceano de vinho há uma enorme quantidade de Chardonnays comerciais insípidos e Cabernets ignóbeis. Os estilos de vinho estão ficando cada vez mais homogéneos. Basta comparar vinhos baratos do Chile, Argentina, África do Sul e Austrália para notar que está ficando cada vez mais difícil distinguir as suas origens. O negócio do vinho, especialmente para empresas multinacionais de grande porte, é desproporcionalmente voltado à produção e comercialização de produtos repetitivos, não originais e sem inspiração.
Essa é uma das razões pelas quais a geração mais jovem em vários cantos do mundo está gradualmente optando por beber cervejas artesanais e gin. Além de oferecer qualidade e óptimo custo-benefício, é essencial cativar consumidores com histórias interessantes pois o que a geração mais jovem está buscando são produtos sustentáveis e experiências autênticas.
Os produtores portugueses que mostraram uma determinação heróica ao longo dos anos, preservando uma herança de mais de 250 variedades de uvas possuem diversidade e os atributos comerciais necessários para capitalizar e fazer crescer sua quota de mercado mesmo em vista de um ambiente comercial hostil e demasiadamente competitivo.
A maioria das empresas portuguesas não tem escala para competir com grandes vinícolas internacionais, que visam comercializar grandes volumes. Isso não deve ser considerado uma desvantagem pois essa estratégia é perigosa, muitas vezes levando à baixa rentabilidade para todos os envolvidos. Além do facto de que a qualidade do produto muitas vezes sofre devido à pressão comercial para atingir determinados preços de venda.
É uma guerra que ninguém sai ganhando, incluindo o consumidor que acaba obtendo um produto de baixa qualidade. Os vinhos portugueses não devem ser vistos simplesmente como uma mercadoria qualquer, como acontece com Pinot Grigio, Sauvignon Blanc do Chile ou Malbec baratos da Argentina. Em muitos casos essa homogeneidade e falta de diferenciação conduz a uma redução de preços.[/vc_column_text][/vc_column][/vc_row][vc_row type=”in_container” full_screen_row_position=”middle” scene_position=”center” text_color=”dark” text_align=”left” overlay_strength=”0.3″ shape_divider_position=”bottom”][vc_column column_padding=”no-extra-padding” column_padding_position=”all” background_color_opacity=”1″ background_hover_color_opacity=”1″ column_shadow=”none” column_border_radius=”none” width=”1/1″ tablet_text_alignment=”default” phone_text_alignment=”default” column_border_width=”none” column_border_style=”solid”][nectar_animated_title heading_tag=”h6″ style=”color-strip-reveal” color=”Accent-Color” text=”Que imagem para Portugal?”][vc_column_text]Ana Cardoso Pinto acredita que as ‘castas raras’ poderiam ajudar Portugal a construir a sua imagem. ‘Eu acho que temos que nos vender pelas castas raras que possuimos’, afirma. Rita Marques assegura que, à medida que os clientes em todo o mundo conhecem melhor os vinhos portugueses, compreendem que não é pelas castas comuns que o vinho português se define, antes pelas suas castas autóctones e pelos lotes de várias castas. Pequenos engarrafamentos servem para mostrar a diversidade e a originalidade dos vinhos Portugueses. Diana Silva defende que Portugal não pode competir com as castas comuns do novo mundo. Portugal, pelo seu tamanho, deve vencer pela qualidade e diferenciação dos seus produtos, incluído neste caso as castas raras.
Com ferramentas tão poderosas, os produtores têm a oportunidade de capitalizar através da diferenciação. Basta ter a confiança e coragem de, quando se deparar com vinhos de castas exóticas de qualidade e com personalidade, como os vinhos abaixo relacionados, ter a convicção de engarrafar pelo menos parte da produção como varietal e não perdê-las unicamente em lotes. Vinhos como esses, aliados à uma história cativante, representam um diferencial excepcional que muitos países desejam, mas poucos possuem. Certamente será até mais desafiador do que vender vinhos elaborados com castas conhecidas como Cabernet Sauvignon, Shiraz ou Merlot, mas a longo prazo não há absolutamente dúvida alguma que este é o caminho. Não há necessidade de inventar coisas novas, basta apreciar o que já existe. Não há necessidade de seguir tendências que vêm e vão, basta saber dar valor a esses tesouros que já estão disponíveis.
Além de confiança, é necessária uma dose de orgulho. Orgulho do trabalho bem feito e também orgulho do que não se faz: vinhos homogêneos e sem inspiração não devem ser o caminho que um país com tanta diversidade de castas como Portugal deve trilhar. Produtores que optam por explorar a oportunidade que oferecem as castas raras, estarão reforçando a imagem de Portugal como um país onde reina não somente a qualidade, mas também a diversidade. Devem fazer isso com convicção e orgulhar-se disso.[/vc_column_text][/vc_column][/vc_row][vc_row type=”in_container” full_screen_row_position=”middle” scene_position=”center” text_color=”dark” text_align=”left” overlay_strength=”0.3″ shape_divider_position=”bottom”][vc_column column_padding=”no-extra-padding” column_padding_position=”all” background_color_opacity=”1″ background_hover_color_opacity=”1″ column_shadow=”none” column_border_radius=”none” width=”1/1″ tablet_text_alignment=”default” phone_text_alignment=”default” column_border_width=”none” column_border_style=”solid”][vc_text_separator title=”Em Prova” color=”black”][vc_column_text]

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Edição Nº23, Março 2019

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A Talha

Depois de décadas de total abandono, em que as talhas de barro serviram a decoração a edifícios particulares e públicos, este vasilhame de barro volta a estar na moda pela mão de vários produtores alentejanos e não só. TEXTO João Afonso O vasilhame da Antiguidade A origem é greco-romana e nestas civilizações tinha várias utilizações […]

Depois de décadas de total abandono, em que as talhas de barro serviram a decoração a edifícios particulares e públicos, este vasilhame de barro volta a estar na moda pela mão de vários produtores alentejanos e não só.

TEXTO João Afonso

O vasilhame da Antiguidade
A origem é greco-romana e nestas civilizações tinha várias utilizações desde a armazenagem e transporte de azeite, cereais e preparados de peixe, à fermentação, acondicionamento e transporte de vinho. As suas capacidades variavam entre várias dezenas a alguns milhares de litros.

A talha em Portugal
Em Portugal houve 3 centros principais de construção artesanal de talhas de barro: S. Pedro de Corval em Reguengos de Monsaraz, Campo Maior e Vidigueira (Vilalva e Cuba). As suas formas variavam consoante a zona de origem e o talheiro executante. Normalmente eram feitas em pequenas séries e cada série demorava cerca de 5 meses a concluir. Depois de concluídas eram besuntadas por dentro com pez derretido.

O vinho de outrora
O vinho de talha era feito de uva branca, tinta ou mistura de ambas. A técnica de fabrico e as partes sólidas da uva utilizadas (película, grainhas e engaços) variava entre regiões. Normalmente eram vinhos simples para beber muito jovens, mas há exemplo de excelentes vinhos de talha extremamente longevos. As diferenças de qualidade eram enormes. Na obra conjunta de António Augusto de Aguiar, Villa Maior e Ferreira Lapa, publicada em 1867, o vinho de talha era criticado, como antiquado…

O vinho de talha do Séc. XXI
Hoje há talhas antigas e modernas, com vários formatos e para vários fins: fermentação, estágio ou ambos, apresentando diferentes níveis de porosidade consoante o tipo de revestimento. E ao lado de vinho modernos de talha de perfil mais frutado e complexo coexistem outros, mais raros, feitos ainda “à moda antiga” que conservam toda a cultura passada. É muito interessante conhecer os dois estilos.“O vinho de talha é principalmente tradição. Se recuarmos às raízes de produção e consumo, era produzido pelas pequenas famílias agrícolas para seu consumo anual. Produzia-se tarde, por vezes em Outubro, e entre o S. Martinho e Natal era o momento em que era mais apreciado. A partir da Páscoa já não havia vinho ou este tinha mais defeitos que virtudes. Para se perceber melhor o que é este vinho, é apreciá-lo quando se “abre a talha”, e o vinho sai da ânfora para o alguidar, sendo bebido de seguida. Na garrafa já não é a mesma coisa. O vinho à saída da talha é o mais ‘verdadeiro’, e, na minha opinião, é ele que representa a tradição.”

* Enólogo – Adega Cooperativa de Borba

Edição Nº23, Março 2019

 

Novos ventos em Bucelas (e não são do mar…)

[vc_row type=”in_container” full_screen_row_position=”middle” scene_position=”center” text_color=”dark” text_align=”left” overlay_strength=”0.3″ shape_divider_position=”bottom”][vc_column column_padding=”no-extra-padding” column_padding_position=”all” background_color_opacity=”1″ background_hover_color_opacity=”1″ column_shadow=”none” column_border_radius=”none” width=”1/1″ tablet_text_alignment=”default” phone_text_alignment=”default” column_border_width=”none” column_border_style=”solid”][vc_column_text]Os ventos são uma das condicionantes desta pequena região e uma das razões da sua originalidade. Mas agora, além desses que sopram desde sempre, há novos intervenientes e mais projectos. Boas novidades numa DOC que já esteve […]

[vc_row type=”in_container” full_screen_row_position=”middle” scene_position=”center” text_color=”dark” text_align=”left” overlay_strength=”0.3″ shape_divider_position=”bottom”][vc_column column_padding=”no-extra-padding” column_padding_position=”all” background_color_opacity=”1″ background_hover_color_opacity=”1″ column_shadow=”none” column_border_radius=”none” width=”1/1″ tablet_text_alignment=”default” phone_text_alignment=”default” column_border_width=”none” column_border_style=”solid”][vc_column_text]Os ventos são uma das condicionantes desta pequena região e uma das razões da sua originalidade. Mas agora, além desses que sopram desde sempre, há novos intervenientes e mais projectos. Boas novidades numa DOC que já esteve moribunda, mas que soube honrar a demarcação que teve lugar no início do séc. XX.

TEXTO João Paulo Martins

Bucelas já foi terra de saloios e lavadeiras, mas agora vê a grande urbe aproximar-se cada vez mais, deixando assim de ser um destino dos lisboetas que em tempos ali iam à procura do ar puro e da verdadeira “vida de campo” que rejuvenescia e retemperava. Era a “ida às hortas”, o passeio favorito dos residentes na capital, celebrado por Júlio César Machado, autor do séc. XIX que escreveu sobre a cidade de Lisboa e terras circundantes. Também Batalha Reis se referia a ela, em 1945, em termos que não deixavam margem para dúvidas: «… Bucelas poderá ainda fornecer uma refeição cheia de cor local: a merenda de bom pão saloio, queijo de ovelha, um copo de «Bucelas»…sob a latada da locanda acolhedora. Alguns se lembrarão das petisqueiras que o Eça e o Antero faziam na Rabicha, com os seus amigos. O cenário era idêntico…». A fama que Bucelas então tinha é a mesma de que desfruta hoje: terra de vinhos brancos (e só de brancos) e pátria do Arinto. Quanto à primeira parte, é de notar e relembrar que se trata da única região portuguesa dedicada exclusivamente aos brancos. Naturalmente que aos produtores é permitido o cultivo de castas tintas mas os vinhos daí resultantes apenas se poderão designar Regional Lisboa e não DOC Bucelas; quanto à segunda parte, as novas achegas científicas ao estudo das castas que têm em conta a variabilidade genética, permitiram concluir com muita certeza que a casta Arinto terá nascido mesmo em Bucelas e que foi dali que terá partido para outras zonas vitícolas do país. Em tempos, empiricamente, havia quem encontrasse semelhanças com a alemã Riesling sugerindo que poderia ter sido importada da pátria alemã ou, ao invés, levada de cá para lá pelos cruzados quando regressavam do Oriente. É tema para académicos.
A fama do Bucellas (aqui com a grafia antiga) foi celebrada por Shakespeare no séc. XVI e Eça de Queiroz no XIX, que o escolhia nas suas patuscadas com os amigos, e foi reconhecida pelo grande conhecedor e estudioso das castas portuguesas, Cincinnato da Costa, que já em 1900 se referia à casta desta forma elogiosa: “o Arinto é uma das castas brancas mais notáveis de Portugal, tendo o seu verdadeiro solar em Bucellas e comarcas vinhateiras próximas”.
Não é assim de estranhar que Bucelas tenha sido incluída no primeiro pacote de demarcações que tiveram lugar a partir de 1908, altura em que, passados mais de 150 anos sobre a primeira demarcação pombalina, o poder político (então ainda na monarquia) se decidiu a dar luz verde a novas regiões demarcadas. Nesse movimento, que se estendeu pelos anos imediatos, foram demarcadas também Carcavelos, Colares, Vinho Verde, Vinho da Madeira, Dão e Moscatel de Setúbal. No caso de Bucelas apenas se concretizou em 1 de Março de 1911, quando saiu o Regulamento para o Comércio do Vinho de Pasto de Bucelas.
A originalidade da região – e que justificou a demarcação – prende-se com dois factores: o solo e clima. Por um lado, temos solos argilo-calcários de encosta que autorizam vários tipos de orientação e localização das vinhas; esses solos são pobres em matéria orgânica originando por isso produções baixas e vinhos com boa concentração. No que diz respeito ao clima, Bucelas, ligada ao vale do rio Trancão, goza de uma localização privilegiada, numa espécie de corredor que liga o oceano atlântico à lezíria do Tejo, recebendo do mar os ventos frescos e do rio os nevoeiros que permitem um Inverno bem frio e boas amplitudes térmicas dia/noite no Verão, com consequente perfeita maturação das uvas.
Ainda assim é possível distinguir duas zonas distintas: as vinhas que se situam ao longo das várzeas do rio Trancão, como a Quinta do Boição (Enoport) e Quinta do Avelar, zonas mais férteis e com maturações mais tardias; e em encostas suaves que ladeiam o rio – Quinta da Romeira, Chão do Prado e Quinta da Murta – zona menos produtiva e com maturações mais precoces. Independentemente da localização das vinhas, o Arinto assegura sempre mostos com elevado teor de acidez, o que de resto faz dela a casta mais viajante, estando por isso presente em todas as regiões, quase sempre usada em lotes, exactamente para dar mais acidez e vivacidade ao vinho. É variedade exigente com a poda e a gestão da canópia porque, em situações-limite, pode ir, das normais 7 a 9 toneladas por hectare, até mais de 20, quando não perto de 30 toneladas, assim se lhe dê alimento e se deixe que produza o que entender.[/vc_column_text][/vc_column][/vc_row][vc_row type=”in_container” full_screen_row_position=”middle” scene_position=”center” text_color=”dark” text_align=”left” overlay_strength=”0.3″ shape_divider_position=”bottom”][vc_column column_padding=”no-extra-padding” column_padding_position=”all” background_color_opacity=”1″ background_hover_color_opacity=”1″ column_shadow=”none” column_border_radius=”none” width=”1/1″ tablet_text_alignment=”default” phone_text_alignment=”default” column_border_width=”none” column_border_style=”solid”][vc_gallery type=”parallax_image_grid” images=”35296,35297″][vc_column_text]

A chamada região saloia, em redor da capital, conservou até muito tarde as suas tradições rurais.
(Fotos: CM Torres Vedras)

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A história da região está intimamente liga à figura de um armazenista que se tornou o principal vinificador de Bucelas durante muitas décadas do século passado: João Camillo Alves, negociante com vinhos de marca própria que alimentaram muitas mercearias e carvoarias da cidade, fundador da Caves Velhas. Durante décadas, Camillo Alves era o único que tinha no mercado vinhos DOC Bucelas.
O estilo antigo dos Bucelas pouco tem a ver com o de hoje. Ferreira Lapa, em 1868 (citado na Enciclopédia dos Vinhos da Estremadura, de João C. Ghira, 2004), lamentava-se das adulterações que já então se faziam em nome do Bucelas e acrescenta que, “É necessário ir ao solar d’esta especialidade, para reconhecer até que altura de afinamento e de nobreza chega este bello vinho, quando se lhe mantem a pureza primitiva, e se deixou ao tempo e somente ao tempo acrysolar-lhe o perfume e a côr, o nervo, o aveludado e a suave substancia do seu delicado sabor”. (Nota à margem: fica-nos a dúvida se isto não é vício nacional…!)
O tal estilo antigo era então um vinho longamente estagiado em tonel avinhado, adquirindo assim cor dourada, aroma evoluído e, ao gosto da época, um perfume de vinho velho que o distinguia de quaisquer outros brancos. Em finais dos anos 80 do século passado, quando apenas e só a Caves Velhas tinham vinho no mercado, era este o modelo seguido, sobretudo para o seu Garrafeira: um vinho vendido com muitos anos e após longo estágio em tonel. Este perfil, de que provámos agora um exemplo, não teve continuidade. Por várias razões: não só porque nos inícios de 90 a Quinta da Romeira iniciou, com o saber técnico de Nuno Cancela de Abreu, a produção com um perfil totalmente novo, feito em inox e vendido jovem, como também o próprio gosto mudou e, na década de 90 era o momento de provar coisas novas, mais frescas e feitas com melhor tecnologia. Hoje a Enoport abandonou aquele conceito embora se saiba que na região haja quem agora aposte em estilos que vão ter pontos de contacto com o antigo Bucelas. A aguardar.
A obtenção de números sobre a região de Bucelas não é fácil. O website da CVR Lisboa (entidade que tutela Bucelas) parece ter parado no tempo, com dados estatísticos não actualizados desde 2010 e terminologia que hoje já não se usa. Se é para ser útil a quem procura informação, o site está a anos de luz de cumprir a função. Procurando e coligindo dados em múltiplas outras fontes, é possível, no entanto, fazer uma radiografia da Bucelas de hoje.
Durante muito tempo, digamos de 1990 para cá, a produção local nos 150 ha demarcados esteve quase confinada a 3 produtores: a Quinta da Romeira (o maior operador da região), a Enoport (que tem cerca de 39 ha de vinhas próprias) e a Quinta do Avelar, propriedade enorme que pertenceu a João Camillo Alves e cujas vinhas já têm mais de 40 anos de idade (enólogo Mário Andrade). Mais recentemente entraram novos operadores, como a Quinta da Murta (14 ha de vinha), Viúva Quintas (cuja propriedade data do séc. XVII) e novas marcas que não correspondem necessariamente a novos produtores, mas são antes o resultado de uvas (ou vinho) adquirido aos principais operadores. A mais recente chegada à região foi a Sogrape que adquiriu a Quinta da Romeira (65 ha), marcando assim presença pela primeira vez na região de Lisboa. Falámos com António Braga, o enólogo que passa a ter a responsabilidade técnica dos vinhos da quinta. A entrada é cautelosa, como nos diz Braga: “para já a ideia é manter o portefólio como está, apostar na valorização das marcas Morgado de Sta. Catherina e Prova Régia e mais tarde, após o mapeamento dos solos e melhor conhecimento do que temos, podermos então pensar em mais produtos e eventual supressão de marcas.”
A Enoport está, como nos foi informado, a proceder à aquisição de pequenas parcelas que podem (ainda que seja insuficiente) alargar a área de vinha da empresa, uma vez que neste momento já se sente a falta de terra para as necessidades. A empresa desactivou todas as suas instalações em Bucelas, tudo está agora no mercado imobiliário, e mudou a operação para a sede, em Rio Maior. Há depois um conjunto de produtores/enólogos (Nuno Cancela de Abreu, Nuno do Ó, Hélder Cunha) cujas marcas no mercado resultam de uvas adquiridas aos operadores existentes, não sendo por isso resultado de produções próprias.
Pouco se fala agora das outras duas castas que tradicionalmente faziam companhia ao Arinto: Esgana-Cão e Rabo de Ovelha. No entanto, Paulo Laureano – enólogo no Alentejo que tem uma parceria com o produtor Paneiro Pinto (marca Chão do Prado), não hesita em enaltecer as virtudes destas duas variedades: a primeira que “tem qualidades excelentes para a produção de espumantes, por exemplo, e a segunda que aqui tem um comportamento muito diferente do Alentejo, para muito melhor, nem parece a mesma casta”. Dois filões por explorar.[/vc_column_text][/vc_column][/vc_row][vc_row type=”in_container” full_screen_row_position=”middle” scene_position=”center” text_color=”dark” text_align=”left” overlay_strength=”0.3″ shape_divider_position=”bottom”][vc_column column_padding=”no-extra-padding” column_padding_position=”all” background_color_opacity=”1″ background_hover_color_opacity=”1″ column_shadow=”none” column_border_radius=”none” width=”1/1″ tablet_text_alignment=”default” phone_text_alignment=”default” column_border_width=”none” column_border_style=”solid”][image_with_animation image_url=”35300″ alignment=”” animation=”Fade In” border_radius=”none” box_shadow=”none” max_width=”100%”][/vc_column][/vc_row][vc_row type=”in_container” full_screen_row_position=”middle” scene_position=”center” text_color=”dark” text_align=”left” overlay_strength=”0.3″ shape_divider_position=”bottom”][vc_column column_padding=”no-extra-padding” column_padding_position=”all” background_color_opacity=”1″ background_hover_color_opacity=”1″ column_shadow=”none” column_border_radius=”none” width=”1/1″ tablet_text_alignment=”default” phone_text_alignment=”default” column_border_width=”none” column_border_style=”solid”][vc_column_text]Dar o salto em frente

Nos vinhos que nos chegaram para prova merecem referência alguns que já estão em fim de linha. É o caso do Quinta do Boição 2001, um branco de Arinto desarmante porque a cor sugere um branco morto, mas o aroma ainda se mostra muito expressivo com todas as virtudes de um branco velho. O mesmo aconteceu com o Garrafeira Caves Velhas 1998, uma categoria que a empresa vai descartar e que mostrou (tive sorte com a garrafa…) estar deliciosamente evoluído e a dar prova muito interessante. Nos vinhos de Paulo Laureano provámos também um branco 2015 que foi chumbado na Câmara de Provadores por “não ter carácter de Bucelas”. A atitude é típica: sai um pouco da norma (é o caso, mas o vinho está muito bem…) e, por receio e insegurança, chumba-se…
A região, para chegar a ter o papel de destaque que a história e a originalidade dos seus vinhos merecem, precisa de dar um salto em frente, tem de ser capaz de valorizar os seus produtos e deixar de vez o negócio do “vinho a pataco” que não serve ninguém. É que arintos há muitos e pelo país todo, mas como o de Bucelas só mesmo aqui. Há seguramente consumidores a quem esta mensagem pode ser passada e dispostos a pagar dispostos a pagar o preço justo (que necessariamente tem de ser mais elevado que o actual) por aquilo que lhe é servido. E a versatilidade da casta é bem grande, como o demonstram os vinhos espumantes que com ela se fazem e alguns vinhos de Colheita Tardia que também evidenciam o potencial e plasticidade da uva Arinto no seu terroir de origem, Bucelas.[/vc_column_text][/vc_column][/vc_row][vc_row type=”in_container” full_screen_row_position=”middle” scene_position=”center” text_color=”dark” text_align=”left” overlay_strength=”0.3″ shape_divider_position=”bottom”][vc_column column_padding=”no-extra-padding” column_padding_position=”all” background_color_opacity=”1″ background_hover_color_opacity=”1″ column_shadow=”none” column_border_radius=”none” width=”1/1″ tablet_text_alignment=”default” phone_text_alignment=”default” column_border_width=”none” column_border_style=”solid”][nectar_animated_title heading_tag=”h6″ style=”color-strip-reveal” color=”Accent-Color” text=”Em prova”][vc_column_text]

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Edição Nº23, Março 2019

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À sombra do vulcão

Em menos de cinco anos, a Azores Wine Company revolucionou por completo o negócio e a imagem dos vinhos do Pico. O lançamento dos novos brancos de 2017 foi o pretexto para uma visita à belíssima ilha vulcânica. O que lá encontrei, reforça a urgência de voltar.  “O vinho do Pico não só he muito, […]

Em menos de cinco anos, a Azores Wine Company revolucionou por completo o negócio e a imagem dos vinhos do Pico. O lançamento dos novos brancos de 2017 foi o pretexto para uma visita à belíssima ilha vulcânica. O que lá encontrei, reforça a urgência de voltar.

 “O vinho do Pico não só he muito, mas justamente o melhor, o que muito mais se deve entender do vinho que n’aquella Ilha chamão vinho passado, porque he tão generoso, e tão forte, que em nada cede ao que em a Madeira chamão Malvazia. “

 – in Saudades da Terra, Gaspar Frutuoso, 1589

TEXTO E FOTOS Luís Lopes

O apreciador de vinhos que, pela primeira vez, visita a ilha do Pico, não está preparado para o que vai encontrar. A paisagem vitícola é absolutamente esmagadora, de uma força telúrica apenas comparável ao Douro vinhateiro, e tal como este, justamente elevada a Património Mundial pela Unesco, em 2004. Os periclitantes muretes (currais ou curraletas, lhes chamam) de blocos de lava, empilhada pedra a pedra para libertar espaço no solo e abrigar as vinhas da brisa marítima, revelam um trabalho minucioso, quase insano, feito ao longo dos séculos. Mas ainda mais impressionantes do que os muros que se admiram, em aparentemente aleatórias quadrículas, são os muros que se adivinham escondidos pelo mato denso e quase impenetrável e que comprovam a importância avassaladora que, em tempos, a cultura da vinha teve nesta ilha atlântica.
Gaspar Frutuoso (1522-1591), historiador, teólogo, sacerdote e humanista nascido em Ponta Delgada, escreveu um conjunto de obras de referência sobre as ilhas atlânticas da Madeira, Açores e Canárias que nos dão uma visão muito realista da vida e actividades locais na época. Mais do que uma vocação, a viticultura no Pico foi uma necessidade, uma vez que o terreno pedregoso e inóspito e a escassez de água determinaram que poucas culturas ali vingassem e limitaram a criação de gado.

Com base nos registos históricos e nas provas evidentes no terreno, a ilha do Pico foi, outrora, um mar de vinha, com cerca de 6 mil hectares em produção e centenas de adegas e alambiques, que exportavam vinho e aguardente através do porto da Horta, capaz de admitir navios de maior porte, na vizinha ilha do Faial. O Pico produzia, os comerciantes do Faial, através de empreendedores britânicos, exportavam o vinho (para as Américas, do Norte e do Sul, sobretudo), tornando o eixo Pico/Faial numa plataforma de relevo nas rotas transatlânticas.
O vinho gerava uma economia fervilhante que acabaria abruptamente arrasada pela praga do oídio, em 1853, e pela filoxera algumas décadas mais tarde. A vitivinicultura do Pico nunca mais recuperou da catástrofe. Dos 6.000 hectares de outrora, e apesar dos esforços abnegados de muitos carolas e viticultores apaixonados, congregados na sua esmagadora maioria em torno da Cooperativa Vitivinícola da Ilha do Pico, fundada em 1949, em 2003 existiam apenas cerca de 120 hectares.

A classificação Unesco, em 2004, foi o primeiro passo para a mudança. Com ela veio a atenção do mundo, dos governantes, dos fundos europeus. Centrada nas zonas dos Lajidos da Criação Velha e de Santa Luzia, foi aí que os trabalhos de reabilitação começaram tendo, de então para cá, sido investidos cerca de 20 milhões de euros na recuperação de muros e conservação de vinhedos. A intervenção nas vinhas do Pico, esteve quase toda confinada à zona classificada Unesco e à chamada “zona tampão” que a envolve, o que obriga a que a recuperação seja feita reabilitando os muros, respeitando a geometria pré-existente, e mantendo as castas e métodos tradicionais. Existem vinhas que têm uma quadrícula mais apertada, outras quadrículas mais aberta. O apoio variou consoante a quantidade de muros a recuperar. O valor máximo do apoio terá chegado aos €28.000 por hectare em quadrícula apertada, e a €19.000 em vinhas sem muros internos. O suficiente para incentivar muitos viticultores a recuperar o património existente. Em 2014, dez anos depois da elevação a Património Mundial, a área de vinha na zona classificada e na zona tampão tinha passado de pouco mais de 100 hectares para 340.
Mas património é uma coisa e negócio é outra. Para se criar (ou recriar, no caso) uma economia vitícola, não basta recuperar e preservar património. É preciso que a uva seja transformada em vinho de qualidade, que esse vinho entre nos canais de comercialização adequados, e que seja capaz de gerar as mais valias necessárias para remunerar de forma compensadora os viticultores. A viticultura do Pico estava agora preservada do ponto de vista histórico e patrimonial, mas faltava dar-lhe o impulso de profissionalismo que a tornasse num negócio compensador. E foi aí que a Azores Wine Company, de António Maçanita, Paulo Machado e Filipe Rocha, teve um papel determinante.

A afirmação não podia vir de fonte mais insuspeita. Daniel Rosa, respeitado empresário local e vice-presidente da Cooperativa Vitivinícola da Ilha do Pico, o maior produtor da região (recentemente premiado pela Grandes Escolhas como Adega Cooperativa do Ano), não tem meias palavras: “Há um antes e um depois de António Maçanita ter chegado ao Pico. Com ele, tudo mudou”.
Vinda de quem vem, um “concorrente”, a frase reforça mais ainda o papel que António e seus sócios têm tido na revolução por que hoje passam os vinhos do Pico. A estória conta-se em poucas palavras. O enólogo António Maçanita, com carreira firmada no Alentejo desde 2004, há muito se interessava pelos vinhos do Açores, de onde sua mãe é natural. Com o apoio do Governo Regional, realizou diversos trabalhos de investigação a partir de 2010 sobre as castas locais (nomeadamente o trio maravilha, Terrantez do Pico, Arinto dos Açores e Verdelho) e o seu entusiasmo cresceu com os resultados obtidos. Em 2013, quando orientava uma acção de formação para viticultores açorianos, surgiu a hipótese de criar um apoio técnico à generalidade dos produtores da região. O projecto regional não avançou, mas a visão de António Maçanita despertou o interesse de Paulo Machado.

Agrónomo, de uma família ligada à viticultura do Pico desde há várias gerações e proprietário da Insula Wines, viu aí uma oportunidade e desafiou o enólogo para fazer um vinho em conjunto. O resultado, um Arinto dos Açores, agradou de tal forma a ambos que resolveram ir mais além, criando um projecto agregador e de grande potencial. O desafio incluiu outro açoreano, Filipe Rocha, até então ligado à formação turística e hoteleira em Ponta Delgada, e que ficou incumbido da gestão financeira e comercial do novo projecto. Em 2014 nascia a Azores Wine Company (AWC) e de então para cá, como refere Daniel Rosa, nada mais foi como dantes na ilha do Pico.

Em 2013, só estavam disponíveis os 12 hectares de vinha de Paulo Machado. Foi com muita coragem e bastante ambição que os três sócios se lançaram na tarefa de fazer crescer a fonte de matéria prima, através de uvas compradas, vinhas arrendadas e, é claro, plantação de novas vinhas. Começaram por adquirir 33 hectares de terrenos tapados de mato, colocando depois a descoberto os muros originais, recuperando-os e plantando vinha. A pouco e pouco a empresa foi adquirindo outras parcelas, chegando aos 50 hectares. Paralelamente, realizaram arrendamentos de longo prazo em terrenos que foram igualmente recuperados e plantados: 38 hectares em Baía de Canas, 32 em São Mateus, mais 5 no Lajido de Santa Luzia, em plena área Património Mundial. Entre as vinhas da empresa e as de Paulo Machado estão sobretudo plantadas as castas brancas Arinto dos Açores, Verdelho, Terrantez do Pico, Boal de Alicante e Malvasia (a que chamam Boal dos Açores) e as tintas Saborinho, Bastardo, Rufete e Malvarisco, para além de híbridos como a Isabela, casta em que assentou a recuperação dos vinhedos açorianos após a filoxera. Aparte a vinha própria ou arrendada, a AWC adquire uvas a cerca de 90 pequenos viticultores.
Partindo da pequena produção inicial, a empresa já vinificou em 2018 cerca de 140 mil litros. Pode parecer pouco em termos de litragem (não esquecer que castas como Verdelho, Arinto dos Açores ou Terrantez do Pico produzem a ridicularia de pouco mais de 1.000 Kg por hectare…) mas estes investimentos mexeram totalmente com a forma como os picoenses passaram a encarar a cultura da vinha. Acima de tudo porque a valorização dos vinhos da AWC (a exportação, para 20 mercados, supera os 60%) contagiou toda a produção local, fazendo disparar os preços das uvas: em 2004, os preços médios andavam entre os €0,90 e €1,20 por quilo de uva; em 2018, o Terrantez do Pico chegou a €4,80 (€5,50/Kg nas uvas adquiridas em São Miguel), o Verdelho a €4,70, o Arinto dos Açores a 3,60€ e as castas tintas a €2,20. Resultado? Dos 340 hectares de vinha existentes em 2014, a ilha do Pico passou para 940 hectares e, tudo o indica, brevemente chegará ao milhar. Para se ter uma ideia do que isto significa, lembremo-nos que a Madeira tem cerca de 450 hectares de vinha certificada…
Talvez a maior prova do acreditar da AWC no futuro dos vinhos do Pico esteja na nova adega agora em construção no Cais do Mourato, concelho da Madalena. São cerca de 2.000 metros quadrados, num investimento de 2,9 milhões de euros e que, em velocidade de cruzeiro, produzirá 250 mil garrafas. Se pensarmos que o vinho mais barato da AWC custa €16 e o mais caro cerca de €100, andando todos os outros por preços intermédios, convenhamos que 250 mil garrafas bem vendidas é qualquer coisa…

Os vinhos são absolutamente entusiasmantes. Naquelas curraletas basálticas, lavadas pelo vento salgado, nascem uvas que originam vinhos naturalmente diferentes, mas onde a qualidade, mercê do talento de António Maçanita e Cátia Laranjo (enóloga residente), acompanha sempre a diferença. Personalidade, frescura, firmeza, assim posso globalmente caracterizá-los, brancos ou tintos.
Tive oportunidade, durante a visita, de fazer uma prova vertical dos vinhos das várias castas brancas, desde a primeira colheita comercializada até aos mais recentemente lançados no mercado (apresentados em separado nestas páginas), e a conjugação entre solo, clima, uva e intervenção humana é reveladora. Os vinhos de Verdelho mostram uma elegância contida, menos atractivo o 2014 (a podridão inerente à vindima chuvosa não ajudou), leve e bonita evolução no 2015, muito fino e expressivo o 2016, ainda bem jovem. O Arinto dos Açores é todo ele acidez e firmeza, e aqui destaco a complexidade do 2014, o afinamento do 2015, as belas notas salinas e de pólvora do 2016. Na versão Arinto dos Açores “sur lies” os resultados são diferentes, com alguns vinhos um pouco mais envelhecidos, o 2014 macio e suave, faltando a precisão ácida, o 2015 profundo, untuoso, de grande equilíbrio, o 2016 mais evoluído que o seu congénere “normal”. Globalmente, poderia ser questionável a opção “sur lies”, não fora o extraordinário 2017…
O Terrantez é mineralidade, salinidade, especiaria. Tive no copo a primeira experiência, 2010, o vinho que lançou António Maçanita na recuperação da casta, e mostrando natural evolução, está ainda muito bem. Excelente o 2013, cheio de raça, mais maduro e menos fresco o 2015 (ano quente), muito salino, com excelentes amargos, belíssimo o 2016.
Os brancos dos Açores estão bem acima dos tintos no foco das atenções dos apreciadores. Mas também há tintos, e os que provei, da AWC e de outros produtores, reforçaram uma convicção que tenho desde há muito: o futuro dos tintos açorianos (e, já agora, madeirenses) não está nos Merlot, Syrah e Cabernet, geralmente bem inferiores aos seus congéneres de outras paragens. O futuro pode estar, isso sim, na “proibida” Isabela (não se arranja uma excepção legislativa?) para resolver o problema das baixas produções, ou no Saborinho (Tinta Negra), para se alcançar o patamar da excelência.
De qualquer forma, com brancos e tintos destes, o futuro será aquilo que os açorianos quiserem.

António Saramago: 56 anos de Castelão

É o mais antigo enólogo em actividade, em Portugal. Com 56 anos de dedicação ao vinho, António Saramago é artífice da uva Castelão, bandeira da Península de Setúbal, conhecendo-a como a palma da sua mão. Agora, foca-se somente no seu próprio projecto, na terra que o viu nascer, sem planos para cessar. TEXTO Mariana Lopes […]

É o mais antigo enólogo em actividade, em Portugal. Com 56 anos de dedicação ao vinho, António Saramago é artífice da uva Castelão, bandeira da Península de Setúbal, conhecendo-a como a palma da sua mão. Agora, foca-se somente no seu próprio projecto, na terra que o viu nascer, sem planos para cessar.

TEXTO Mariana Lopes
NOTAS DE PROVA Mariana Lopes e Luís Lopes
FOTOS Ricardo Gomez

António Saramago tem 70 anos. O andar sereno e o olhar plácido não deixam esconder a bagagem que traz, nem transparecer o que lhe vai na mente. Quem o conhece, sabe que é mesmo assim, a postura não fraqueja. Mas a sua casa, em Azeitão, na Península de Setúbal, tem sempre a porta aberta. Afinal, Saramago tem muito para contar.
Foi com apenas quatorze anos que entrou para a José Maria da Fonseca (JMF), a cinco de Maio de 1962. Teve de o fazer tão cedo, pois a vida não era folgada. Sob a orientação de António Porto Soares Franco viu, ouviu, aprendeu, ajudou e executou, mostrando apetência para as coisas do vinho e capacidade de trabalho. Na altura, com o apoio António Francisco Avillez, a JMF enviou António Saramago para Bordéus quando este tinha 24 anos, para uma formação em enologia. Também um curso de francês, em Setúbal, foi incentivado pela empresa. A aposta era óbvia, e o jovem aprendiz sentia-se acarinhado. À data, Domingos e António Soares Franco (actuais proprietários e administradores da JMF), eram bastante novos, e o enólogo consultor era Manuel Vieira (pai), acabando Saramago por se estabelecer como chefe de serviço de enologia, cargo hoje comummente apelidado de enólogo residente. António Francisco Avillez, Manuel Vieira e António Porto Soares Franco são, assim, nomes que António Saramago não deixa de mencionar quando conta a sua história: “São as pessoas que mais me marcaram na profissão. Primeiro, porque gostavam de mim, depois, porque achavam que eu tinha jeito para isto. Tive sorte de ter trabalhado numa casa como aquela, que mesmo hoje continua a ser uma verdadeira escola”, confessou. Saramago acabou por sair da JMF em 2001, após uma longa estada na casa.

Curiosamente, a emancipação enológica do azeitonense ocorreu no Alentejo e não na região de origem. Nos anos 80 era já consultor da Adega do Fundão e da Granja Amareleja e, um pouco mais tarde, da Herdade de Coelheiros e Adega Cooperativa do Redondo. “Quando comecei no Alentejo, ninguém lá trabalhava com barricas novas, fui pioneiro nisso. Incentivei, na Granja Amareleja, que se começasse a usar e acabámos por adquirir dez barricas de carvalho novo de 225 litros”, contou. Foi daqui que nasceu a marca, criada por José Leal Sobrado e António Saramago, chamada Terras do Suão, que acabou por “explodir” nos restaurantes de Lisboa. É também curioso que o vinho Tapada de Coelheiros, tenha surgido em seguimento isto: Joaquim Silveira, então proprietário da Herdade de Coelheiros, costumava ir almoçar ao Gambrinus todos os fins-de-semana. Pelo sommelier do restaurante lisboeta, foi-lhe apresentado o Terras do Suão como sendo um dos melhores vinhos do Alentejo. A verdade é que, na altura, os vinhos alentejanos de elevada qualidade contavam-se pelos dedos de uma mão. Aí, Silveira abordou Saramago para que este criasse em Coelheiros um vinho que estivesse ao mesmo nível, e este aceitou o desafio. Apesar de já tratar a uva Castelão por “tu”, António sabia bem que esta, mesmo sendo a casta mais plantada no Alentejo naquela década, não era ideal naquele terroir de Arraiolos, e começou por arrancar todo o que lá havia. Plantou mais Cabernet Sauvignon (incentivado pela paixão bordalesa de Joaquim Silveira), um pouco de Trincadeira e Aragonez, e reforçou a área de Chardonnay. Por esta última opção, foi apelidado de várias coisas. Mas não era António Saramago se não mantivesse a sua posição, sem vacilar. “Coelheiros foi o projecto que mais me marcou, a seguir a José Maria da Fonseca. Foi-me dada toda a liberdade de actuação, e isso é o sonho de qualquer enólogo”, revelou Saramago.

Conhecer bem a casta; ter grande experiência em como ela deve ser trabalhada na adega; aceder a uvas de uma vinha já com alguma idade. Estas são as premissas do versado em Castelão. António Saramago dedicou a sua vida a conhecer a uva: “É das mais difíceis do cardápio português. É muito sensível a doenças na vinha, gera muita “bagoinha” (pequenos bagos verdes que não vingam) e as suas maturações fenólicas são bastante irregulares”, explicou. Quando o enólogo iniciou a actividade, a Castelão representava 95% nas plantações da Península de Setúbal. No entanto, com o tempo os produtores e os agricultores foram preferindo uvas de trato mais fácil, como a Syrah, por exemplo, e o protagonismo da Castelão foi-se perdendo.
Podemos separar a Castelão em dois “tipos”: a de solo argilo-calcário, da zona da Arrábida, que origina vinhos mais leves, frescos e elegantes, com menos concentração e menos álcool, e a de solos arenosos, de Palmela, que dá vinhos mais estruturados e concentrados. Com o passar dos anos, a parte da Arrábida foi praticamente diluída, mas na zona de Palmela isso não se verificou tanto. Neste momento, até já se começou a replantar Castelão, também porque os jovens produtores e enólogos recuperaram o interesse na casta. “A Castelão é a nossa identidade”, afirmou António Saramago, que usa nos seus vinhos uvas dos solos de areia de Palmela. Quando interrogado sobre a razão da preferência, foi peremptório na resposta. “Para mim, não há lugar para Castelão dos dois solos. A Castelão deve ser plantada em solos arenosos. No solo argilo-calcário, a videira não tem estrutura para se aguentar, pois em vez de as raízes afundarem, acabam por se encaminhar lateralmente e a escassa profundidade, onde encontram a água pouco abaixo da superfície. Nos arenosos, as videiras afundam muito as suas raízes à procura de água, o que lhes dá mais estrutura e concentração ao vinho. Além disso, no pico do Verão, em terrenos de areia é mais fácil fixar o calor à superfície”.
Aqui há uma questão que se coloca: Numa altura onde começa a haver mercado para vinhos menos concentrados, mais leves e com menos álcool, não será possível fazer um Castelão de perfil diferente, mais na linha da elegância? Foi aqui que António Saramago nos surpreendeu com um plot twist. “Há lugar para esses vinhos de Castelão, mas acredito que eles possam surgir dos solos de areia e não dos argilo-calcários”, disse. Aliás, está nos planos do enólogo a criação de um vinho com esse perfil, das vinhas velhas em areia que explora, apenas com uma abordagem enológica diferente. “Será um dos meus últimos trabalhos”, declarou, um novo desafio nesta fase mais avançada da vida profissional.

Azeitão é a sua terra e a Península de Setúbal a sua região e, por isso, Saramago sempre quis criar vinhos ali, onde se sente em casa, com a casta da sua vida. Assim, iniciou o seu projecto pessoal em 2002, a pequena empresa familiar António Saramago Vinhos. “O objectivo foi fazer coisas boas, em pequenas quantidades”, contou. O filho António está também envolvido, trabalhando a enologia e a área comercial, bem como a esposa Ausenda. São referências como Risco (base de gama) António Saramago Reserva, António Saramago Superior, A.S. (topo de gama), JMS Moscatel de Setúbal Superior e António Saramago Moscatel de Setúbal Reserva. Também produz no Alentejo, onde se destaca a marca Dúvida. São 150 mil garrafas no total, cerca de metade em cada região. Incansável, Saramago criou agora um vinho de edição única, o Sucessão, dedicado aos seus três netos e dividido em partes iguais pelos mesmos. Em breve, entrará na Beira Interior e em Lisboa.
Não tem adega própria (alugando espaço de vinificação em Catralvos), nem vinhas próprias, mas explora em regime de arrendamento e compra uvas e vinho, utilizando a sua experiência para escolher o que há de melhor. Algumas dessas vinhas, de Palmela, são tão velhas e têm produções tão baixas que tem de pagar valores muito elevados pelas uvas, sob risco de o proprietário desistir da vinha e decidir arrancá-la. Visitámos uma delas. A paisagem é impressionante, uma planície de areia com cepas velhas imponentes e deixadas em liberdade, onde o sol mostra uma luz mais brilhante e onde o vento nos fustiga o cabelo. António Saramago coloca a sua mão sobre um dos braços de uma videira, como se fosse sua amiga: “Terei em breve 71 anos, mas enquanto estiver nas minhas plenas faculdades, vou continuar. Ao fim destes anos todos, continuo a gostar muito daquilo que faço. É paixão. E isso é uma coisa que nasceu comigo e que comigo vai morrer”.

 

Edição Nº23, Março 2019

Cortes de Cima: Direito ao Atlântico

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A menos de três quilómetros do mar, equidistante de Vila Nova de Milfontes, encontramos vinhas defronte do lindíssimo vale do Rio Mira e miramos um verdadeiro Alentejo atlântico, a última fronteira na produção de vinhos em frescura e sedução.

TEXTO Nuno de Oliveira Garcia
FOTOS Cortesia do Produtor

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Imagine-se passar a ponte do rio Mira em direção ao sul, deixando Vila Nova de Milfontes atrás, e, em pleno Parque Natural da Costa Vicentina, encontrar um vale com vinhas plantadas em solos de areia com o rio Mira ao fundo, serpenteando. Foi neste território praticamente inexplorado em termos de viticultura que, em 2008, Hans e Carrie Jorgensen decidiram comprar terrenos para complementar o seu projeto na Vidigueira (centrado quase exclusivamente em tintos, com a excepção de Viognier), ao mesmo tempo que buscavam condições de produção de vinho significativamente mais frescas que o restante Alentejo. A este respeito, note-se que a diferença média de temperatura entre Vila Nova de Milfontes e Vidigueira é de cerca de 10ºC, dado verdadeiramente revelador das diferentes condições climatéricas da região!
As primeiras vinhas foram plantadas em solos de areia amarela, com alguma pedra rolada e substrato de argila, com plantas de Chardonnay, Sauvignon Blanc e Pinot Noir, três castas típicas do Novo Mundo à beira mar plantado (do Chile à Nova Zelândia, passando pela África do Sul). Entretanto, mais terra foi adquirida, tarefa nem sempre fácil na área, dada a concorrência de produtores de fruta e hortícolas em estufas. As mais recentes plantações privilegiam já uvas tintas como Syrah, Aragonês e até Jaen, todas em solos de areia cinzenta. Das duas primeiras castas, espera-se um perfil diferente dos vinhos produzidos na Vidigueira, da última pretende exotismo e diferença. Nas novas plantações, o solo mantém-se de origem arenosa, com muita drenagem e pouco material orgânico. Actualmente, são já mais de 60 hectares de vinha plantada, espalhadas por três parcelas: Zambujeira Velha com 19ha, plantados em 2008, Zambujeira Nova com 16,5ha plantados em 2009 e Vinha das Furnas com 24ha, de castas tintas plantadas em 2016.

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No que respeita à vinificação, o maior problema é sanitário pois os nevoeiros matinais podem contribuir com algumas doenças para as castas menos resistentes, como tem sido o caso do Chardonnay, pelo que a palavra de ordem é prevenção e rápida intervenção. A enologia mantém-se a cargo do experiente Hamilton Reis, que trabalha para a empresa há mais uma década, sendo que Anna – filha de Hans e Carrie, e com várias vindimas já um pouco por todo o mundo – monitoriza a operação com mestria e confiança. Pelo que vimos, Hamilton e Anna são mesmo uma dupla a ter em conta em Cortes de Cima.
Tivemos a oportunidade recente de provar todos os vinhos produzidos neste terroir tão específico, quer em versão monocasta, quer em mistura com variedades e uvas plantadas na Vidigueira (caso dos Dois Terroirs recentemente lançados no mercado e abaixo provados). Verdadeiramente espantosa é a evolução dos Sauvignon Blanc provados, com os melhores exemplares a serem os das colheitas de 2013 (bela acidez, jovem ainda e com enorme final) e de 2014 (perfil menos fresco, mas com muito sabor no centro de boca e ainda alguma mineralidade). Igualmente em forma esteve a colheita de 2015 (com notas de lima e gengibre, compacto em boca e com agradável amargo final), sendo que os mais novos – 2016 e 2017, inclusive – revelaram um inevitável fruto jovem exótico e notas primárias muito sedutoras.
A mesma evolução positiva foi confirmada nos Alvarinhos – das colheitas de 2014 a 2017, inclusive –, com destaque para o vinho de 2015, muito tenso e jovem, tudo indicando um futuro radioso. Aliás, no que respeita à casta minhota, é interessante notar que mantém no Alentejo litoral o perfil aromático habitual (com notas de pera e citrino maduro), conjugado, todavia, com um corpo mais amplo e um final de boca muito preenchido. Provámos ainda as três edições do Pinot Noir – 2014 a 2016, inclusive –, todos num perfil de tinto carnudo e especiado, com boa evolução, sendo que a edição de 2016 está a revelar-se particularmente interessante no atual momento de prova.
Em suma, o projeto atlântico Cortes de Cima está ‘de pedra e cal’ e é uma aposta ganha da família Jorgensen, sendo que o joker é mesmo a evolução dos vinhos, em especial do Sauvignon Blanc. Tudo aponta, portanto, para que nos próximos anos tenhamos melhores surpresas ainda deste terroir e deste produtor!

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Edição Nº23, Março 2019

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