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Castas raras, orgulho de Portugal

Em 1899, o escritório responsável pelas propriedades intelectuais no Reino Unido declarou: “Tudo o que pode ser inventado, já foi inventado”. Uma declaração infeliz e tão equivocada quanto um documento publicado pela empresa americana de comunicação Western Union, que dizia em 1876: “O telefone tem muitos defeitos. Esse aparelho não tem valor nenhum”. As pessoas muitas vezes não são capazes de dar valor à certas coisas até que seja tarde demais. No mundo do vinho não é diferente.

TEXTO Dirceu Vianna Junior MW

Os produtores de vinho usam apenas uma minúscula proporção da diversidade genética que existe a nível global, o que também é o caso de outros produtos como banana, café e cacau. Apenas 1%, ou seja, doze das cerca de 1.100 castas mais cultivadas para a produção de vinho, ocupam cerca de 45% das vinhas no mundo. Entre essas estão o Cabernet Sauvignon, Merlot, Tempranillo, Syrah, Grenache e Pinot Noir. Em países como Chile, Austrália ou Nova Zelândia essa percentagem pode representar mais de 80% dos vinhedos. Caso mais extremo ainda é a China, onde 75% dos vinhedos destinados à produção de vinho são plantados com apenas uma varietal, a Cabernet Sauvignon. Fora desse grupo existe um número grande de castas como Carménère, Gamay, Sangiovese, Malbec, Nebbiolo e Zinfandel, entre outras, que desempenham um papel importante no mundo da vitivinicultura. São castas plantadas em múltiplas regiões, representando vários estilos, comercializadas internacionalmente e que adicionam diversidade ao mundo do vinho. Para além dessas, existe um número elevado de castas que são plantadas em áreas mais restritas. São varietais frequentemente cultivadas em âmbito local e raramente são comercializadas fora da região onde são plantadas. A maioria dessas castas não aparece no rótulo e, por esse motivo, raramente estão no radar dos profissionais da área, muito menos do consumidor.
Itália afirma que possui o maior número de varietais autóctones em todo o mundo. De acordo com o Ministero delle Politiche Agricole, Alimentari e Forestali (MiPAAF) existem 350 variedades oficialmente autorizadas para a produção de vinho na Itália. Fontes alternativas indicam que o número de varietais plantadas na Itália excede 500. O país possui varietais ecléticas interessantes como Nerello Mascalese do sul da Itália, Frappato da Sicília, de corpo leve, taninos sedosos e aromas de frutas do bosque e toques florais. Existe também Oseleta, uva tinta que foi salva da obscuridade na década de 1980 pelo renomado produtor Masi e também Ciliegiolo, cultivada no centro da Itália e com características similares ao Sangiovese. Levando em consideração a área de superfície da Itália, que segundo o World Atlas é 301.340 quilómetros quadrados, e comparando com o número de varietais plantadas, a Itália possui uma proporção de 1,1 casta para cada 1000 quilómetros quadrados de superficie. Comparando com Itália, Portugal tem cerca de 250 varietais plantadas numa superfície de 92.090 quilómetros quadrados, o que resulta numa relação de 2,7 variedades por 1000 km quadrados. Fazendo essa análise e levando em consideração o tamanho do país, é possivel atribuir à Portugal a honra de ser o país que possui maior grau de diversidade de varietais no mundo.

Um património único

A lista de castas portuguesas é imensa e inclui varietais que possuem excelente potencial. Grande parte dessas varietais raramente são encontradas fora da Peninsula Ibérica. Muitas delas são cultivadas exclusivamente em Portugal, proporcionando ao país um valioso diferencial. Entre as castas raras de grande potencial podemos citar Tinta Francisca, Tinta Pinheira, Alvarelhão, Tinta Miúda, Bastardo, Tinta da Barca e Tinta Negra. Essa última, por exemplo, corresponde a 85% das vinhas da Ilha da Madeira. É uma casta notavelmente produtiva. De acordo com Diana Silva, a visionária fundadora do projeto “Ilha” na Madeira, a casta não é tão bem conceituada quanto merece pois os produtores raramente optam por diminuir o rendimento em busca de qualidade. Na opinião de Diana Silva, é necessário mudar a mentalidade dos produtores para reduzir o rendimento para quatro toneladas por hectare, de forma a que a Tinta Negra consiga expressar a delicadeza e elegância que Diana compara com Pinot Noir, exibindo notas de frutas vermelhas, pétalas de rosa e cereja, aliada à característica principal que é a sua frescura. Outro exemplo de uma casta rara cujo potencial é auspicioso inclui a Tinta Miúda, também conhecida como Graciano. Ana Cardoso Pinto, produtora e responsável pela Quinta do Pinto, em Alenquer, explica que é uma casta de ciclo tardio e rendimento baixo (4 ton/ha), mas abundantemente expressiva, com bela acidez, taninos sedosos e frutas de bosque, notas de especiarias, pimenta e frutas azuis como o mirtilo. Com o passar dos anos, desenvolve tons terrosos e notas florais. Quando envelhecida em madeira, a Tinta Miúda pode exibir notas de especiarias doces juntamente com toques chocolate e café. É uma casta com muita personalidade, tal como a Bastardo. Rita Marques, da empresa familiar Conceito, explica que essa é uma casta precoce, pouco produtiva e sensível a doenças. Exige cuidado na adega pois o mosto tem a propensão a oxidar com facilidade. Paradoxalmente, na hora da vinificação tem tendência à redução e tipicamente não responde muito bem ao estágio em madeira. Apesar de pouca cor, os vinhos possuem uma grande intensidade aromática incluindo nuances de pimenta branca, frutas vermelhas e apontamentos florais. Na boca é um vinho volumoso, com taninos arredondados numa estrutura firme. São vinhos abertos, leves, descomplicados e alegres, mas onde não falta complexidade nem personalidade, afirma Rita.

Competir e vencer pela diferença

É verdade que, dados os avanços em viticultura e melhorias da tecnologia na adega, podemos dizer que a qualidade do vinho em geral nunca foi melhor. No entanto, neste oceano de vinho há uma enorme quantidade de Chardonnays comerciais insípidos e Cabernets ignóbeis. Os estilos de vinho estão ficando cada vez mais homogéneos. Basta comparar vinhos baratos do Chile, Argentina, África do Sul e Austrália para notar que está ficando cada vez mais difícil distinguir as suas origens. O negócio do vinho, especialmente para empresas multinacionais de grande porte, é desproporcionalmente voltado à produção e comercialização de produtos repetitivos, não originais e sem inspiração.
Essa é uma das razões pelas quais a geração mais jovem em vários cantos do mundo está gradualmente optando por beber cervejas artesanais e gin. Além de oferecer qualidade e óptimo custo-benefício, é essencial cativar consumidores com histórias interessantes pois o que a geração mais jovem está buscando são produtos sustentáveis e experiências autênticas.
Os produtores portugueses que mostraram uma determinação heróica ao longo dos anos, preservando uma herança de mais de 250 variedades de uvas possuem diversidade e os atributos comerciais necessários para capitalizar e fazer crescer sua quota de mercado mesmo em vista de um ambiente comercial hostil e demasiadamente competitivo.
A maioria das empresas portuguesas não tem escala para competir com grandes vinícolas internacionais, que visam comercializar grandes volumes. Isso não deve ser considerado uma desvantagem pois essa estratégia é perigosa, muitas vezes levando à baixa rentabilidade para todos os envolvidos. Além do facto de que a qualidade do produto muitas vezes sofre devido à pressão comercial para atingir determinados preços de venda.
É uma guerra que ninguém sai ganhando, incluindo o consumidor que acaba obtendo um produto de baixa qualidade. Os vinhos portugueses não devem ser vistos simplesmente como uma mercadoria qualquer, como acontece com Pinot Grigio, Sauvignon Blanc do Chile ou Malbec baratos da Argentina. Em muitos casos essa homogeneidade e falta de diferenciação conduz a uma redução de preços.

Que imagem para Portugal?

Ana Cardoso Pinto acredita que as ‘castas raras’ poderiam ajudar Portugal a construir a sua imagem. ‘Eu acho que temos que nos vender pelas castas raras que possuimos’, afirma. Rita Marques assegura que, à medida que os clientes em todo o mundo conhecem melhor os vinhos portugueses, compreendem que não é pelas castas comuns que o vinho português se define, antes pelas suas castas autóctones e pelos lotes de várias castas. Pequenos engarrafamentos servem para mostrar a diversidade e a originalidade dos vinhos Portugueses. Diana Silva defende que Portugal não pode competir com as castas comuns do novo mundo. Portugal, pelo seu tamanho, deve vencer pela qualidade e diferenciação dos seus produtos, incluído neste caso as castas raras.
Com ferramentas tão poderosas, os produtores têm a oportunidade de capitalizar através da diferenciação. Basta ter a confiança e coragem de, quando se deparar com vinhos de castas exóticas de qualidade e com personalidade, como os vinhos abaixo relacionados, ter a convicção de engarrafar pelo menos parte da produção como varietal e não perdê-las unicamente em lotes. Vinhos como esses, aliados à uma história cativante, representam um diferencial excepcional que muitos países desejam, mas poucos possuem. Certamente será até mais desafiador do que vender vinhos elaborados com castas conhecidas como Cabernet Sauvignon, Shiraz ou Merlot, mas a longo prazo não há absolutamente dúvida alguma que este é o caminho. Não há necessidade de inventar coisas novas, basta apreciar o que já existe. Não há necessidade de seguir tendências que vêm e vão, basta saber dar valor a esses tesouros que já estão disponíveis.
Além de confiança, é necessária uma dose de orgulho. Orgulho do trabalho bem feito e também orgulho do que não se faz: vinhos homogêneos e sem inspiração não devem ser o caminho que um país com tanta diversidade de castas como Portugal deve trilhar. Produtores que optam por explorar a oportunidade que oferecem as castas raras, estarão reforçando a imagem de Portugal como um país onde reina não somente a qualidade, mas também a diversidade. Devem fazer isso com convicção e orgulhar-se disso.

Em Prova

  • Ramos Pinto
    Douro, Tinta da Barca, Tinto, 2016

    17.0
    guarda inclinada
    *PVP médio indicado pelo produtor
  • Ilha
    Regional Madeirense, Tinta Negra, Tinto, 2017

    16.0
    guarda em pé
    *PVP médio indicado pelo produtor
  • Conceito
    Douro, Bastardo, Tinto, 2017

    17.5
    guarda em pé
    *PVP médio indicado pelo produtor
  • Quinta da Pellada
    Dão, Alvarelhão, Tinto, 2011

    18.0
    guarda inclinada
    *PVP médio indicado pelo produtor
  • GA Pé Franco
    Alentejo, Moreto, Tinto, 2015

    17.0
    guarda inclinada
    *PVP médio indicado pelo produtor
  • Casa Ferreirinha
    Douro, Tinta Francisca, Tinto, 2014

    18.0
    guarda inclinada
    *PVP médio indicado pelo produtor
  • Adega de Penalva
    Dão, Tinta Pinheira, Tinto, 2015

    17.0
    guarda inclinada
    *PVP médio indicado pelo produtor
  • Paulo Laureano
    Alentejo, Tinta Grossa, Tinto, 2015

    17.5
    guarda inclinada
    *PVP médio indicado pelo produtor
  • Fiuza
    Regional Tejo, Tinta Miúda, Tinto, 2016

    17.0
    guarda inclinada
    *PVP médio indicado pelo produtor
  • Quinta de Arcossó
    Trás-os-Montes, Bastardo, Tinto, 2015

    17.0
    guarda em pé
    *PVP médio indicado pelo produtor
  • Quinta dos Termos Talhão da Serra
    Beira Interior, Rufete, Reserva, Tinto, 2016

    17.0
    guarda inclinada
    *PVP médio indicado pelo produtor
  • Quinta do Pinto
    Regional Lisboa, Tinta Miúda, Tinto, 2016

    17.5
    guarda inclinada
    *PVP médio indicado pelo produtor

Edição Nº23, Março 2019

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