GRANDE PROVA: ROSÉS A MENOS DE €15

Após tantos artigos que dedicamos aos rosés e depois de provar centenas de vinhos, chegámos finalmente à explicação a respeito da razão pela qual alguns consumidores ainda não privilegiam este tipo maravilhoso de vinho ou, pelo menos, que o relegam para segundo plano. Não, não é apenas o antigo o imaginário do rosé nacional, que […]
Após tantos artigos que dedicamos aos rosés e depois de provar centenas de vinhos, chegámos finalmente à explicação a respeito da razão pela qual alguns consumidores ainda não privilegiam este tipo maravilhoso de vinho ou, pelo menos, que o relegam para segundo plano. Não, não é apenas o antigo o imaginário do rosé nacional, que se assemelhava a uma sangria de vinho tinto, de acidez corrigida, com 10 gramas de açúcar por litro e gás carbónico. Não, não é pela fama dos rosés evoluírem mal em garrafa, pois são vários os exemplos mundiais – Viña Tondonia desde logo, mas também os clássicos de Bandol, como Domaine Tempier e Château de Pibarnon – e nacionais – Redoma, da Niepoort, Nélita, da Quinta de Lemos, ou o Reserva, da Quinta do Monte de Ouro – em que os vinhos têm uma evolução positiva em complexidade e seriedade.
E não, não é o preconceito de se tratar de vinho leve, posto que uma das principais modas atuais é precisamente tintos mais leves e abertos. E também não é que o seu consumo se deva restringir ao verão, já que o mesmo se poderia dizer dos champagnes e espumantes. A principal razão é, isso sim, o carácter residual para o qual o rosé foi relegado e que pode ser resumido numa frase dita por um amigo (que é, simultaneamente, um grande provador): “não há nada que goste num rosé que um grande branco não consiga entregar ou até superar”. Explico-me, de seguida.
Como é sabido, durante muitos anos, desde a antiguidade até há menos de um século, a cor dos vinhos era fluída e variada. Fosse por as vinhas com uva branca e tinta estarem coassociadas, fosse por fazer-se muito vinho branco com uvas tintas e sem o aperfeiçoamento da técnica aprimorada de bica aberta ou, simplesmente, por se misturar vinho branco e tinto, e tudo o mais. Até ao início do século XX não havia, portanto, nenhum tipo de preconceito quanto a tonalidades, sendo que a maior parte dos vinhos tintos tinham a famosa cor de petroleiro, de acobreados, de tão ligeiros que eram. Por sua vez, grande parte dos brancos nasciam logo carregados na cor, fosse por excesso de oxidação na vinificação, fosse apenas pela curtimenta.
Durante o século passado, com a viticultura moderna e, sobretudo, com a enologia profissional, os brancos ficaram mais claros e brilhantes, enquanto os tintos se tornaram mais concentrados e escuros. Uma das consequências trazida por esta divisão binária foi a de deportar os vinhos rosados, palhetes e claretes para uma categoria residual.
O que o vinho rosé precisa é que façamos com ele um trato, um acordo sagrado. Que nos lembraremos dele sempre que nos sentamos à mesa
Diversidade na produção
Sucede que, como já escrevemos noutras peças, a vinificação de um vinho rosé não perde em técnica ou rigor para os restantes tipos de vinho. Pelo contrário. Com efeito, a atenção na adega é permanente, desde a definição do nível ótimo de extração e prensa (de preferência, utilizando apenas o mosto lágrima) à temperatura de fermentação escolhida. Na mesma linha está a opção pela bâtonnage (agitação das borras), podendo-se eleger uma menor influência de oxigénio ou, em contrapartida, permitir alguma oxidação que ajude a proteger o vinho, contribuindo para uma maior longevidade, evitando-se aromas excessivamente frutados. Pode-se misturar parte do mosto de tinto sangrado com outra parte constituída por um rosé de bica aberta ou mosto de tinto sangrado prensado com as películas de vinho branco, sendo fermentado a posteriori, por exemplo numa pipa, com ou sem tampo, sendo que alguns dos melhores rosés nacionais fermentam, parcial ou totalmente, em barrica. Complexidade não falta, como se vê. O mesmo rigor é implementado no que respeita a castas, sendo eleitas uvas de variedades consagradas. É o caso evidente dos rosés do Douro e Dão – e até no Alentejo –, da Baga, na Bairrada, e do Moscatel Roxo, na Península de Setúbal e Palmela.
Em suma, no nosso território produzem-se excelentes rosés com recurso às mais variadas castas. No entanto, em alguns casos, são variedades menos evidentes do que as utilizadas na produção de tintos, essencialmente por serem uvas colhidas, por regra, mais cedo e, muitas vezes, sem que a maturação fenólica esteja completa.
Harmonizações aprimoradas
Mas então, para além da cor, o que mais contribuiu para o referido carácter residual para o qual foi atirado o vinho rosé? A resposta é: a ligação à gastronomia! Efetivamente, muito se escreve sobre a maridagem entre vinhos brancos e peixe, marisco, ostras e saladas. Surgiram enciclopédias que esmiuçam os segredos da harmonização de vinhos tintos com carnes vermelhas assadas, com molhos ou em tártaro. Neste frenesim binário não se evitaram erros crassos identificáveis por um palato sem vícios, como a de sugerir vinho tinto a acompanhar queijos curados ou caril picante.
Enquanto se debatia sobre combinações de sabores entre comida e vinhos, o rosé foi deixado de lado, carecendo de uma motivação ou fundamentação – quase sempre fútil – para ser consumido. A única justificação? Degustar o rosé à beira da piscina, numa festa de jardim ou num piquenique com a invocação da Provence, a famosa região do sul da França. É como se imperasse uma razão para o abrir… O impulso imponderado e, tantas vezes, espontâneo que nos leva a abrir um vinho branco nos dias quentes ou um tinto no inverno, transforma-se em reflexão profunda (quando não numa meditação filosófica) sobre se devemos ou não abrir um rosé e por que o deveremos fazer. Que falta de imaginação e que desperdício!
O que o vinho rosé precisa é que façamos com ele um trato, um acordo sagrado. Que nos lembraremos dele sempre que nos sentamos à mesa, para comer, seja pratos de carne ou peixe, ou à base de outros produtos. É o que faço em casa, onde tenho sempre um frigorífico (que não uma cave de vinhos) exclusivamente cheio de bons vinhos brancos e rosés, dispondo-os enquanto cozinho ou provo um conjunto alargado de comidas.
É o rosé a minha primeira escolha para um cremoso bacalhau à Brás, para um violento chacuti de borrego, mas também para uma elegante casquinha de caranguejo, uma paella reforçada com molejas, para um sofisticado risoto de vieiras ou um sushi exótico. Se for mais carregado na cor e no perfil (podendo até, em parte, resultar de sangria), será o meu predileto para acompanhar uns ovos rotos, um tártaro ou outro cru de boi, uma quiche de carne, uma pizza com salame picante e rúcula, uma salada de cogumelos, entre tantos outros pratos que “pediriam” mais umas quantas linhas nesta peça, com o propósito de firmar o ponto que entendo ser mais relevante.
Temos de os abrir, mais e mais, sobretudo quando Portugal tem, hoje, dezenas de rosés a um nível muito alto e que em nada ficam atrás ao que melhor se faz nos restantes países produtores (não conheço muitos rosés espanhóis ou italianos, australianos, americanos ou argentinos que nos façam frente). Àqueles que gostam de rosés, peço que o assumam junto dos demais à mesa. A quem raramente se lembram deste tipo de vinho, memorizem que, com tantos pratos, como alguns dos mencionados atrás, é mesmo o rosé a melhor, quando não a única combinação possível à mesa!
(Artigo publicado na edição de Maio de 2026)
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Casa da Atela
Rosé - 2023 -

Arivat
Rosé - 2025 -

Altano
Rosé - 2023 -

Adega de Borba Premium
Rosé - 2024 -

Vinha da Rosa Single Vineyard
Rosé - 2025 -

Vallado
Rosé - 2025 -

Vale D. Maria
Rosé - 2024 -

Touriga Nacional em Rosé
Rosé - 2025 -

Rosé Vulcânico
Rosé - 2025 -

Rosé da Fitareta Non Millèsime Cuvée nº 10
Rosé -
ADEGA D’ARROCHA: Vital, a nobre casta

Esta história tem origem numa herança cultural com mais de 100 anos. Consta na cronologia das famílias Rato e Carlotas, da Lourinhã, isto é, está ligada, respectivamente, “ao avô João Rato, pai do meu sogro, José Paulo Rato” e “ao pai da minha sogra, Helena Alexandre”, começa por explicar Ricardo Oliveira Guimarães, CEO e responsável […]
Esta história tem origem numa herança cultural com mais de 100 anos. Consta na cronologia das famílias Rato e Carlotas, da Lourinhã, isto é, está ligada, respectivamente, “ao avô João Rato, pai do meu sogro, José Paulo Rato” e “ao pai da minha sogra, Helena Alexandre”, começa por explicar Ricardo Oliveira Guimarães, CEO e responsável pela enologia da Adega d’Arrocha, nome criado em 2019, ano da constituição da empresa e marco do início da atividade e comercialização dos vinhos. Mas já lá iremos, até porque existe o registo de um hiato no tempo, durante o qual a dificuldade agravada pela escassez de mão de obra para a execução dos trabalhos de campo e a vinificação das uvas, determina a substituição das vinhas pela plantação de hortícolas e árvores de fruto. Paralelamente, João Rato e José Paulo Rato optam por ingressar na atividade piscatória.
Mais tarde, já após a incursão mundial a bordo de grandes embarcações, José Paulo Rato decide regressar à terra natal. Em 2010, na sequência da “necessidade de recriar a ligação à viticultura, planta cerca de 1,5 hectares de vinha”, conta Ricardo Oliveira Guimarães. A Castelão é a casta eleita, a par com outra igualmente itinerante quanto o sogro, a Cabernet Sauvignon. Com a produção dos primeiros vinhos, surge a vontade de renovar a aposta na cultura da vinha e do vinho, ação que acicata a vontade de mudar de vida por parte de Ricardo Oliveira Guimarães e da mulher, Vera Alexandre Rato, filha de José Paulo Rato.
Em 2017, isto é, depois de uma década dedicada à profissão de psicólogo, ambos regressam à Lourinhã “com a vontade de criar um projeto na nossa região”. Trata-se, portanto, da Adega d’Arrocha. É uma homenagem ao Vale da Rocha, “zona onde foi plantada a primeira vinha na família. Localmente, as pessoas dizem que vão ‘Á’rrocha e não ao Vale da Arrocha”, esclarece, daí o nome.
O desejo de voltar às raízes tem uma explicação: “a família tem a capacidade de mudar muita coisa.” E o facto de ambos poderem contar com os sogros – José Paulo Rato e Helena Alexandre – também contribuiu para esta mudança. Mas, “o meu conhecimento não era suficiente para desenvolver o projeto que tinha idealizado”. Para colmatar este hiato, estudou engenharia de viticultura e enologia no Instituto Superior de Agronomia (ISA), em Lisboa.
Vinhos de uvas próprias
A Adega d’Arrocha tem Helena Alexandre e os filhos, Vera e Ricardo Rato na gerência da empresa. José Paulo Rato é o responsável pela viticultura e tem uma equipa de trabalho, enquanto Ricardo Oliveira Guimarães está inteiramente dedicado à enologia. “Estou envolvido em toda a estrutura, que vai desde o acompanhamento da área comercial ao enoturismo, passando pela certificação de vinhos, rotulagem… Acabo por estar por trás de tudo isso. É uma vida relativamente complicada em termos de tempo e disponibilidade, pois também vou para o trabalho de pai de quatro filhos, tarefa extremamente desafiante.”
Quanto à vinha, no princípio com 23 hectares, regista, atualmente, 40, dos quais se destaca a de 1970. A área total combina a aquisição de propriedades com a plantação decorrida entre 2017 e 2024. “Hoje temos cerca de 40 hectares de vinha própria, todos em produção”. Porém “todos os vinhos que não interessam para o perfil dos nossos vinhos, são vendidos a granel”, assegura.
Paralelamente, é feita uma alteração na seleção de castas. A lista de variedades brancas é constituída por Vital, Fernão Pires, Arinto, Seara Nova e Viosinho, bem como a Chardonnay, sendo, esta última uma opção em resposta ao desafio apresentado ao enólogo da Adega d’Arrocha por parte de um professor do ISA, Carlos Lopes. Castelão, Tinta Roriz, Syrah Touriga Nacional, Cabernet Sauvignon e Alicante Bouschet representam as castas tintas.
“Quando comecei o projeto, toda a família estava ainda muito ligada ao passado, com o tinto a predominar e a casta branca a ser considerada um subproduto. Tendo em conta que estamos na melhor, senão numa das melhores regiões de Portugal para produzir vinhos brancos devido à fantástica influência atlântica, que características tão especiais atribui aos nossos vinhos”, a aposta sai reforçada a favor das variedades brancas, com uma forte tendência para as tintas perderem terreno.
Porquê a Vital?
De todas as castas, a Vital é a bandeira da Adega d’Arrocha. Ricardo Oliveira Guimarães explica que a origem histórica desta variedade “está associada à região da Lourinhã” e à produção de aguardente da Lourinhã. Porém, os mais antigos advertem o enólogo da Adega d’Arrocha para a forte apetência para a oxidação por parte desta casta. Solução? “Temos de proteger as uvas desde o momento em que cortamos o cacho e o colocamos nas caixas até à altura em que entravam na adega. Durante o processo fermentativo e o processo de estágio estamos insistentemente em cima da casta, para que não haja oxidação.”
Cumpridos estes requisitos, Ricardo Oliveira Guimarães garante que o resultado se traduz em “vinhos excecionais”, graças à plasticidade da Vital, que “nos permite fazer vinhos em inox, em madeira, coisas mais diferentes em barricas da Lourinhã ou em estágios no fundo do mar”. Um dos exemplos é o Vital Reserva Especial, vinho estagiado em duas barricas de 250 litros – uma de castanheiro e uma de carvalho nacional – utilizadas em estágio de aguardente durante mais de 20 anos. “Colocamos o mosto de Vital a fermentar dentro dessas barricas, retiramos, lavamos e tornamos a colocar o vinho”. A duração do estágio foi de nove meses. “Toda a complexidade, toda a parte aromática das madeiras, do aguardentado neste vinho, deram uma nuance incrível que o torna um dos vinhos mais diferenciadores na nossa adega”, realça.
Rótulos, boas novas e mercados
Carlotas é o rótulo que estreia o portefólio vínico da d’Arrocha. Já a gama premium é designada por Adega d’Arrocha. É aqui que entram os monovarietais: Vital Reserva, Vital Grande Escolha, feito a partir da “seleção das melhores uvas, mas sem contacto com barrica, para mostrar toda a expressão da casta”; Chardonnay Reserva, Viosinho Reserva, Arinto Reserva e Fernão Pires Reserva. Todos estes vinhos Reserva são submetidos a seis meses de carvalho francês e carvalho americano. Acresce o Adega d’Arrocha Maré Arinto Vital Reserva 2021 ou o Adega d´Arrocha O Vale Grande Reserva 2021, com dois anos de estágio em barricas de carvalho francês. “Temos, neste momento, mais três vinhos tintos além deste: Carlotas Touriga Nacional e Cabernet Sauvignon 2020 sem estágio em barrica (apenas inox), Carlotas Reserva tinto 2020 e um vinho de entrada de gama Carlotas Tinto IG Lisboa 2022”. Já o Adega d´Arrocha Vestido Rosa rosé vai na segunda edição. Todos os vinhos do portefólio são elaborados “sempre e só com uvas próprias”, frisa.
A lista de referências cresce este mês de maio, com um trio de boas novas: o primeiro Grande Reserva branco do projeto – Adega d´Arrocha Maré Grande Reserva branco 2024, feito a partir das castas Viosinho, Chardonnay, Vital e Arinto, e submetido a 15 meses de estágio em barricas de carvalho francês e carvalho americano; e os primeiros monovarietais – Adega d´Arrocha Castelão Reserva tinto 2024 e Adega d´Arrocha Touriga Nacional Reserva tinto 2024. Estes dois últimos permanecem por 12 meses em barricas de carvalho francês.
Para breve, está previsto o lançamento “do primeiro espumante com duas castas, talvez não tão usuais na produção dos mesmos. Mas não vou revelar já”, avança Ricardo Oliveira Guimarães. A ligação à Adega Cooperativa da Lourinhã é, por sua vez, pretexto para o eventual desenvolvimento, “a curto-médio prazo”, da primeira aguardente.
Relativamente à exportação, desafio iniciado em 2024, a percentagem ronda os 10%. “Contudo, já temos os nossos vinhos em França, Luxemburgo, Holanda e estamos a tentar ultimar, ainda este ano, com os EUA e Brasil.”
Enoturismo: proximidade e detalhe
O ano de 2022 é marcado pela construção da adega, em Casais de Fonte de Lima, no concelho de Lourinhã, para a vindima. O edifício é concluído em 2023 e, no ano seguinte, abrem-se as portas da loja, seguindo-se a atividade de enoturismo.
Para Ricardo Oliveira Guimarães, trata-se de uma atividade de proximidade e de detalhe. Passear pelas vinhas e almoçar na Casa da Vinha, “inicialmente criada apenas para a família”, é o ponto alto das experiências desenhadas para os visitantes, que, deste modo, têm a oportunidade de contactar com a natureza, o qual se estende ao piquenique na vinha e à vindima com a família.
A casa está apta para provas e refeições para até 12 pessoas. Somem-se os almoços e jantares vínicos na adega. Arroz de tamboril e gambas, arroz de polvo, caldeirada e arroz de lagosta são as sugestões apresentadas e todas têm uma ligação ao mar, em homenagem ao passado da família Rato. São confecionados “com produtos frescos e locais”. Em última instância, recorrem ao comércio local, com a garantia de se tratarem de produtos “de altíssima qualidade”, enfatiza.
Já a sala de provas tem capacidade para 16 pessoas, por forma de Ana Germano, responsável pelo enoturismo, poder contar com a participação de todos os presentes. Há provas de três e seis vinhos, com ou sem tábuas de queijos e enchidos, e o desafio de lotear vinhos na adega.
(Artigo publicado na edição de Maio de 2026)
CARM: De Almendra para o mundo

A sub-região do Douro Superior é uma terra de extremos. Conhecido pela sua aridez e pelo calor intenso, onde o rio Douro se torna fronteira e se prepara para entrar em Portugal, tem o xisto mais duro e a paisagem mais indomável da região demarcada com o mesmo nome. É na aldeia de Almendra, rodeada […]
A sub-região do Douro Superior é uma terra de extremos. Conhecido pela sua aridez e pelo calor intenso, onde o rio Douro se torna fronteira e se prepara para entrar em Portugal, tem o xisto mais duro e a paisagem mais indomável da região demarcada com o mesmo nome. É na aldeia de Almendra, rodeada pela reserva arqueológica do Vale do Côa, que a CARM – Casa Agrícola Roboredo Madeira S.A. se afirma como um dos produtores mais consistentes e respeitados do país.
Com uma história familiar documentada desde meados do século XVII, a CARM, enquanto marca, reflete um compromisso inabalável com a qualidade e com o território. É um projeto no âmbito do qual o trabalho incide estritamente na utilização dos frutos das suas próprias terras. “Nós só trabalhamos com castas portuguesas. Desde o início. Sou totalmente apologista da defesa de Portugal e as nossas raízes”, afirma com orgulho Filipe Roboredo Madeira, proprietário da CARM, que nos conduziu pela história da empresa familiar.
Desde o início, o objetivo da família Roboredo Madeira foi claro: produzir azeites e vinhos de excelência, utilizando apenas uvas e azeitonas provenientes das suas próprias quintas. Esta filosofia de produtor-engarrafador garante o controlo total da qualidade da matéria-prima, desde a vinha até ao produto final. A empresa gere atualmente cerca de 200 hectares de vinha, 220 hectares de olival e 60 hectares de amendoal. “Esta diversificação agrícola ajuda a manter o equilíbrio ecológico e a resiliência das culturas, bem como fixar gente à terra [Almendra], que, assim, tem trabalho durante todo o ano”, sublinha António Ribeiro, enólogo residente desde 2002 e responsável pelas áreas de produção e viticultura da CARM.
O “ouro verde” de Almendra
Embora a CARM, tal como a conhecemos hoje, tenha ganho projeção nas últimas décadas, as raízes da família Roboredo Madeira mergulham no século XVII. Originários da zona de Almendra, em Vila Nova de Foz Côa, os antepassados sempre foram lavradores. Durante gerações, a atividade centrou-se na policultura mediterrânica: a vinha, o olival e o amendoal. Durante grande parte do século XX, a produção seguia o modelo tradicional do Douro Superior: as uvas de alta qualidade eram vendidas às grandes casas de Vinho do Porto e o azeite era entregue a cooperativas locais. Foi precisamente com o azeite que tudo mudou.
Filipe Roboredo Madeira estudou medicina em Itália. Aluno brilhante, acabou por nunca exercer a profissão de médico. Graças a um grupo de amigos de elite, apostou na moda e nos investimentos, vivendo uma vida de estilo e exclusividade, que o fez conhecer personalidades famosas. Um percurso que lhe deu a disciplina do bom gosto – adepto dos grandes prazeres da vida, conheceu os melhores restaurantes gourmet e, claro, os melhores vinhos. E azeites.
Quando estudava em Itália, Filipe Roboredo Madeira levava, claro está, Vinho do Porto, mas também “um azeite que cá fazíamos e que nem sequer era comercializado, a um amigo italiano. Até que um dia, esse amigo disse-nos para nunca mais o fazermos, porque o azeite era mau, uma porcaria! Não queríamos acreditar, mas de facto havia uma diferença enorme entre os azeites portugueses e os italianos. Até que o meu pai foi ter com o guru mundial dos azeites, o professor [Giuseppe] Fontanazza. Levou-lhe algumas azeitonas e perguntou-lhe o que daí poderia sair. Ele disse-lhe que poderia ser um ótimo azeite, se fosse feito como deve ser. Depois, comprámos todas as máquinas novíssimas para o lagar e arriscámos”, conta.
A dada altura, quase sem querer, o nosso anfitrião viu-se sozinho, num lagar ultra tecnológico, a comandar a primeira produção por telefone. “Foi surreal. Não havia ninguém para fazer funcionar o lagar. O técnico italiano já lá não estava e eu tinha de colocar aquelas máquinas a funcionar. Entram as azeitonas e eu a telefonar para os técnicos italianos, que, à distância, davam indicações.” Assim foi feito o primeiro azeite CARM, em 2004 e, com ele, nasceu o logotipo da marca, constituído por azeitonas e folhas de oliveira, a origem do projeto.

Celso Madeira reconverteu, em 1995, a exploração agrícola para o modo de produção biológico
O legado de Celso Madeira
A família Roboredo Madeira sempre esteve ligada à terra, à agricultura, tendo em Celso Madeira (pai de Filipe Roboredo Madeira) o grande impulsionador. Irrequieto, fez crescer o património. Às vinhas centenárias que a família possuía, o patriarca somou mais terras e mais vinha. A título de curiosidade, em 1995, procedeu à reconversão da exploração agrícola para o modo de produção biológico. A partir de então, continuou a plantar e a aprimorar a seleção de clones de castas tradicionais.
Atualmente, a família totaliza cinco propriedades. Quinta do Bispado, situada no sopé do monte Calabre, com um total de cerca de 45 hectares, apresenta solos xistosos, expostos a sul e a nascente, divididos por sete hectares de vinhas datadas de meados da década de 80 do século XX, 27 hectares de olival e 3 hectares de amendoal. A Quinta da Calabria, de 49 hectares e predominada por solos xistosos, detém 14 hectares de vinha plantados em meados da década de 80 do século passado, com as castas Touriga Nacional, Touriga Franca e Tinta Roriz; os olivais e os amendoais, de variedades autóctones (Madural os primeiros e Casanova os segundos), têm áreas de 10 e 21 hectares, respectivamente. Embora dê frutos que resultam nos melhores vinhos e azeites da CARM, a Quinta das Marvalhas, com uma área de 70 hectares, tem cerca de 28 hectares de olival e 23 hectares de amendoal, foi a eleita para a instalação do lagar de azeite e da nova adega de vinificação. A Quinta das Verdelhas, de 45 hectares, tem 14 hectares de vinha, onde estão plantadas as castas Touriga Nacional, Tinta Roriz e Touriga Franca, 17 hectares de olival centenário e cerca de 10 hectares de amendoal autóctone. A Quinta da Urze, sede da exploração agrícola que integra propriedades próximas, com um total de 190 hectares e onde as vinhas atingem, em alguns pontos, os 600 metros, possui a maioria das variedades brancas tais como Rabigato, Códega do Larinho, Arinto ou Gouveio, plantadas em solos maioritariamente de xisto, mas também de transição para granito e quartzo, as quais resultam em brancos de eleição. Ainda sobre esta última propriedade, as diferentes exposições solares, altitudes, castas e transição de solos contribuem para a criação de vinhos com perfis distintos e diferenciadores. Trata-se de uma quinta lindíssima, a qual tivemos o prazer de percorrer, lado a lado com um casal de perdizes selvagens. A título de curiosidade, sairá muito em breve o vinho “Carm Granito” precisamente para mostrar a expressão de uma parcela muito especial, uma vinha velha com castas misturadas plantada em solo de granito da Quinta da Urze. A provar em breve.

Respeito pela terra
Inspirado pelo sucesso da produção de azeite, Filipe Roboredo Madeira percebe que, nas terras do Douro Superior, esse legado de vinhas velhas e esse terroir de eleição a explorar era um tesouro impossível de ignorar. Assim, no começo do século XXI, e à boleia do sucesso obtido com a produção do “ouro verde”, a família decide apostar também na produção de vinho em nome próprio. Filipe Roboredo Madeira, cuja trajetória de vida o levou a regressar às origens (já tinhas descrito anteriormente que estudou medicina e teve uma vida folgada), para liderar este projeto com uma sensibilidade cosmopolita e, simultaneamente, um respeito religioso pela terra.
No início, as uvas eram vinificadas numa adega alugada. A enologia estava a cargo de João Silva e Sousa e o irmão de Filipe, Rui Roboredo Madeira.
O ano de 2004 marca um ponto de viragem fundamental, com a construção da adega moderna em Almendra. Mas é precisamente nessa altura da construção da adega que se dá a rutura entre Rui Roboredo Madeira e o pai. E o enólogo deixa a CARM. Seguiu-se António Braga, que acaba por sair para a Sogrape, deixando, mais uma vez, Filipe Roboredo Madeira sozinho, que tem novamente de “arregaçar as mangas” para aguentar o barco. Eis que, em 2008, surge António Magalhães Ribeiro, assumindo o papel de enólogo residente, função desempenhada até hoje. “Vivi muito tempo lá fora e não gostava de vinhos portugueses. Eram muito rústicos. Por isso, disse ao António ‘nós temos de fazer vinhos muito mais limpos, com mais acidez. Algo totalmente diferente’”, revela Filipe Roboredo Madeira.
Paralelamente, e apesar de a produção de vinhos de excelência se manter, a nova infraestrutura permitiu aliar a tecnologia de ponta ao respeito pelos métodos ancestrais, como a pisa em lagares de pedra. Destaque para a impressionante linha de frio ajustada a todas as cubas de vinificação: “esta linha de frio é fundamental para garantir o rigoroso controlo total da temperatura durante a vinificação e estágio, de modo a preservar a qualidade, consistência e estabilidade do vinho até chegar à garrafa”, explica o enólogo. António Magalhães Ribeiro também trouxe um olhar profissional no tocante à viticultura, respeito pelo terroir e o cuidado com a matéria-prima de excelência que tem ao dispor desde há aproximadamente duas décadas.
Neste momento, a empresa produz em média 1,2 milhões de garrafas, das gamas Carm Colheita (branco, tinto e rosé), Carm Reserva e Grande Reserva (ambas nas versões branco e tinto), para além dos monovarietais Rabigato, Códega do Larinho, Touriga Nacional e Gouveio e os topos de gama, Maria de Lourdes (branco e tinto), produzida em homenagem à mãe de Filipe Roboredo Madeira, e CARM CM (branco e tinto), numa ode ao patriarca Celso Madeira. Do total da produção, 70% vai para o mercado nacional, enquanto o restante é para exportação.
Tivemos oportunidade de provar estes vinhos, resultando precisos, elegantes e que mostram o terroir de onde provêm. À mesa, desfilou ainda a linha de produtos gourmet disponível no site da empresa, como os pimentos com atum, pimentos com queijo, corações de alcachofra, azeitonas em salmoura ou as pastas de azeitona e de tomate seco, entre outros petiscos que merecem igual destaque. Todos brilharam ao lado de vinhos de um Douro Superior repleto de identidade, moderno, sem perder a sua tipicidade.

(Artigo publicado na edição de maio de 2026)
QUEVEDO WINES: Friendology forever e o Legado de 1986

Durante mais de cinco gerações, os antepassados de Óscar e Cláudia Quevedo – representantes da quinta geração e que estão, hoje, à frente do projeto –, dedicaram-se ao cultivo da vinha. As primeiras terão sido plantadas em 1889, em Valongo dos Azeites, no concelho de São João da Pesqueira, onde se encontra a sede e a […]
Durante mais de cinco gerações, os antepassados de Óscar e Cláudia Quevedo – representantes da quinta geração e que estão, hoje, à frente do projeto –, dedicaram-se ao cultivo da vinha. As primeiras terão sido plantadas em 1889, em Valongo dos Azeites, no concelho de São João da Pesqueira, onde se encontra a sede e a adega desta empresa familiar. Até meados da década de 80 do século passado, produziam uva e vinho a granel, que posteriormente era vendido às grandes companhias exportadoras sediadas em Vila Nova de Gaia. Sobretudo Vinho do Porto.
Ao longo dos anos, a família cultivou 100 hectares de vinha e 25 hectares de olival biológico, legado preservado amiúde. Só em 1993 é que a marca Quevedo foi oficialmente fundada, marcando uma nova era para a família, que começou a engarrafar vinhos do Porto com o próprio rótulo, graças à entrada do país, em 1986, na então Comunidade Económica Europeia (atual União Europeia). “É a União Europeia [UE] que obriga Portugal a alterar a legislação. Uma lei que vem da demarcação da região instituída pelo Marquês de Pombal, em 1776! Portanto, quando Portugal adere à UE, tudo se altera. Aparece um grande grupo de pequenos produtores – nós inclusive –, que muda para sempre a região e está, hoje, a produzir em nome próprio, e a levar o nome do Douro e a marca Vinho do Porto por este mundo fora” afirma Óscar Quevedo.
De facto, este marco histórico traz consigo uma enorme mudança legislativa para a região: o fim do “Entreposto de Gaia”. Até então, qualquer Vinho do Porto destinado à exportação tinha de ser obrigatoriamente armazenado e expedido a partir de Vila Nova de Gaia. Com a nova legislação, os produtores do Douro passaram a poder engarrafar e exportar os vinhos com identidade própria, dando início a toda uma nova fase de independência para muitas casas familiares.
A quinta geração
Foi este sopro de autonomia que impulsionou Óscar e Beatriz Quevedo (pais de Óscar Jr. e Cláudia Quevedo) a fundarem a marca com o próprio nome. Em 1991, a empresa foi constituída e, em 1993, os primeiros vinhos com o rótulo Quevedo chegaram ao mercado, assinalando o princípio de uma nova era de orgulho familiar.
Por conseguinte, atualmente, a empresa é conduzida pela quinta geração da família: Cláudia Quevedo é enóloga e responsável pela produção dos vinhos, enquanto Óscar Quevedo lidera o desenvolvimento internacional da marca. Há cerca de um ano juntou-se, à equipa, Cristina Azevedo, para desenvolver o mercado nacional. “A partir de 2009, comigo a 100% na empresa, continuamos muito esta linha de exportação que, de certa forma, vinha do passado. Com a vinda da Cristina quisemos [re]conquistar o mercado nacional”, refere Óscar Quevedo.
A Quevedo gere, no presente, um património vitícola de cerca de 114 hectares distribuídos por cinco quintas com características geológicas e climáticas distintas. Esta diversidade é a “caixa de ferramentas” da enologia da casa. Quinta Senhora do Rosário, a mais antiga das propriedades da Quevedo e onde se localiza a adega; Quinta Vale D’ Agodinho, excelente para os melhores Portos; Quinta da Trovisca, o campo experimental das novas variedades ou processos de viticultura; Quinta da Valeira, com vinhas a uma altitude de cerca de 500 metros; Quinta da Alegria, com vinha e pomar, e uma frente ribeirinha com mais de 700 metros de comprimento. Sobre esta última, acresce o facto de estar dividida pelo caminho-de-ferro que liga o Porto ao Pocinho.
Produção própria e viticultores selecionados
O portefólio vínico é extenso, sobretudo no que diz respeito aos vinhos do Porto, génese da empresa, com colheitas de praticamente todos os anos e de variadíssimos estilos – Tawny, Ruby, Crusted, LBV, Colheita, Vintage –, graças a um enorme espólio de inegável qualidade. Os vinhos DOC Douro, embora sejam uma aposta mais recente, apresentam uma imagem renovada e um perfil moderno, como Óscar Quevedo passa a explicar: “os vinhos que produzimos são todos de produção própria ou de viticultores selecionados da zona de São João da Pesqueira. Queremos produzir vinhos mais frescos, com menos extração, menos álcool e tanino”. Vinhos que se enquadram na filosofia friendology forever, e que a empresa defende: “é, basicamente, um estado de espírito. Achamos que o convívio, a amizade, as portas abertas são uma forma de estar. E o vinho sabe muito melhor com companhia. E com partilha!”
A gama DOC douro está distribuída pelas referências Truques, nas versões branco, tinto e rosé, são vinhos frescos e não são submetidos a barrica; Alegra, em branco e tinto, traduzidos nos reserva da casa, com barrica, mas num perfil de grande equilíbrio e frescura; a gama Q.Lab, que consiste em vinhos mais experimentais, como o extraordinário branco 100% Folgazão, um curtimenta feito a partir da casta Gouveio ou um inusitado e delicioso clarete 100% Tinta Amarela e, finalmente, os Grande Reserva Q, um branco e um tinto com um perfil duriense mais clássico.
A empresa foi constituída em 1991 e, em 1993, chegaram ao mercado os primeiros vinhos com o rótulo Quevedo
A joia da coroa
Todos os DOC Douro estiveram disponíveis ao longo do almoço servido na Quevedo Lodge, espaço da Quevedo Wines instalado numa antiga tanoaria convertida em centro de visitas e eventos, localizado em Vila Nova de Gaia, onde é possível provar todos os vinhos, mergulhar em degustações e harmonizações, e participar em workshops. A refeição preparada com produtos locais pelo restaurante Toca da Raposa, de São João da Pesqueira, onde a comida tradicional prima pela excelência, foi irrepreensível. Tratou-se de um almoço que serviu de mote para o lançamento de um vinho muito especial, o Quevedo White Colheita 1986, produzido no referido ano que tanta simbologia trouxe à região do Douro; evoluiu lentamente em casco de castanho, ganhando concentração, complexidade aromática e uma textura envolvente.
Cláudia Quevedo foi quem acompanhou esta “joia da coroa” de perto, com o propósito de assegurar a sua estabilidade e preservar o equilíbrio entre frescura e maturidade. Com o conhecimento de quem o viu evoluir ao longo do tempo, a enóloga indicou o momento certo para o revelar. “Este vinho é muito especial para mim: tinha 10 anos quando foi feito e acompanhá-lo ao longo do tempo deu-lhe ainda mais significado. Impressiona pela riqueza aromática, pelo volume que preenche a boca e, sobretudo, pela forma como permanece – longo, persistente – muito depois de ser provado. É um vinho que pede tempo, para ser apreciado com calma”, explica Cláudia Quevedo, com evidente comoção. Um vinho que é uma homenagem ao ano da “independência” da família, além de que preserva e enobrece o legado de séculos de um produtor familiar.
(Artigo publicado na edição de Abril de 2026)
QUINTA DE SÃO SEBASTIÃO: 1755 é símbolo de vinhos distintos

Há muito que não parava ali, apesar de passar à porta de vez em quando nas minhas deambulações de carro pelos arredores de Lisboa, em escapadas de um dia da grande cidade, que fazem sempre bem ao corpo e à alma. A propriedade fica a meia encosta, numa das colinas do concelho de Arruda dos […]
Há muito que não parava ali, apesar de passar à porta de vez em quando nas minhas deambulações de carro pelos arredores de Lisboa, em escapadas de um dia da grande cidade, que fazem sempre bem ao corpo e à alma. A propriedade fica a meia encosta, numa das colinas do concelho de Arruda dos Vinhos, com vista sedutora pelos campos afora e com as suas quintas e quintinhas. Neste território, pertença da região vitivinícola de Lisboa, estão a grande casa do proprietário, António Parente, os estábulos e o picadeiro dos cavalos que tanto gosta e a antiga adega, hoje garrafeira, onde permanecem algumas das suas preciosidades. Foi lá que decorreu a apresentação dos primeiros dois vinhos da 1755, a nova gama da Quinta de São Sebastião.
Data histórica
Trata-se, como é do conhecimento de muitos portugueses, da data histórica do grande terramoto que assolou Lisboa, seguido de maremoto (ou tsunami, na versão japonesa, como os apresentadores das nossas televisões o gostam de apelidar) que ceifou muitos milhares de vidas da cidade e não só. Do lado positivo, deu impulso à reconstrução da urbe, de forma mais organizada, como se pode ver hoje na baixa pombalina, e ao uso de métodos de construção antissísmica padronizados e inovadores, usados durante os 100 anos seguintes e que, ainda hoje, existem em alguns dos edifícios mais antigos.
Paralelamente, o ano de 1755 data a criação da Quinta de São Sebastião, propriedade histórica do concelho de Arruda dos Vinhos. “Desde a sua fundação, tem estado associada a alguns momentos históricos da região e também ao poder local, à igreja e a serviços militares, pois estamos inseridos nas Linhas de Torres e o forte de S. Sebastião da Arruda, ou do Cego, que fica por cima da propriedade e defendia o vale de Arruda, prova isso”, apresenta Filipe Sevinate Pinto, enólogo na casa desde 2011.
A nova gama ostenta uma imagem alusiva ao terramoto de 1755 e engloba um produto fora da caixa da Quinta de São Sebastião
Uvas de exposições e altitudes diversas
Original de Viana do Castelo, o proprietário, António Parente, vive nela há cerca de 40 anos. Desde essa altura, “pretendeu contribuir para dinamizar a região em várias áreas, sobretudo uma que lhe era muito cara, a da vitivinicultura”, esclarece o enólogo. Por isso, o projecto que começou a desenvolver passou pela privatização da Adega Cooperativa de Arruda dos Vinhos, na altura a atravessar momentos difíceis, e foi evoluindo por um caminho que, através do alargamento da produção e da venda dos vinhos apenas da Quinta de São Sebastião, evoluiu para um negócio muito mais vasto. “Representava, há 15 anos, cerca de 80 mil garrafas de vinho e, hoje, é um projecto internacional, que vende para mais de 50 países e absorve, não só as uvas da propriedade, como as de outras parcelas que foram sendo adquiridas e incorporadas num negócio que tem, hoje, um total de 45 hectares de vinhas próprias”, informa Filipe Sevinate Pinto, acrescentando que “os 200 hectares de outros viticultores da região contribuem para enriquecer um projecto que tem uvas de diversas origens, com altitudes e exposições diferentes”.
Dois tintos sedutores
Os vinhos da nova gama 1755, lançados este ano, pretendem dar espaço ao que a empresa produz e não tem enquadramento nas suas outras referências, “que são muito definidas e apresentam alguma maturidade no mercado”, explica o enólogo. São 14 marcas, entre as quais destacam-se Quinta de S. Sebastião, S. Sebastião, Forte de S. Sebastião ou Fonte das Setas. Saliento a QSS Rare, que “inclui vinhos mais modernos, e tem tido grande sucesso nos Estados Unidos”, porque parte das receitas das vendas reverte para a Liga para a Protecção da Natureza, Organização Não Governamental de Ambiente (ONGA) de âmbito nacional, fundada em 1948. É hoje a associação mais antiga do género da Península Ibérica. Portanto, não é de estranhar que os vinhos desta gama tenham, no rótulo, imagens de espécies em perigo de extinção, como o Cavalo Marinho ou o Lobo e o Lince Ibéricos.
A empresa produz e comercializa também a marca internacional Angry Duck, “um Cabernet Sauvignon que vendemos para todo o mundo”, afirma Filipe Sevinate Pinto. Segundo o enólogo, “todas as gamas da empresa estão muito definidas e, por isso, fazia sentido dar este passo para coisas que não se enquadram nelas”. Foi assim que surgiu a nova marca, que tem uma imagem enigmática, do terramoto, para englobar um produto fora da caixa produzido pela Quinta de São Sebastião. Inclui “pequenas séries, que não têm uma sequência lógica, de vinhos para comida”, que poderão ser, ou não, repetidos
As primeiras referências lançadas, um vinho da casta Castelão, “mais aberto, com 12 graus, fresco, com tensão, e um Reserva, um vinho mais quente, por ser extraído, mais concentrado, opulento, com uma fruta fresca”, foram apreciados na antiga sala da adega, com a sua garrafeira empoeirada, na companhia de comida pensada e elaborada pelo Chef de cozinha do Hotel Eva, no Algarve, Alberto Carvalho depois da visita às propriedades e às suas instalações. Dois grandes vinhos e um bom momento com a comida.
(Artigo publicado na edição de Abril de 2026)
PAÇO DOS CUNHAS: Vinhos de um terroir histórico

As colheitas mais recentes do icónico Paço dos Cunhas, da Global Wines, as quais já se encontram disponíveis no mercado, foram apresentadas no Bairro Alto Hotel, em Lisboa. Trata-se de um branco de 2017, que ostenta a designação Dão Nobre, a de prestígio desta denominação, e um tinto de 2015. Ambos têm como origem a […]
As colheitas mais recentes do icónico Paço dos Cunhas, da Global Wines, as quais já se encontram disponíveis no mercado, foram apresentadas no Bairro Alto Hotel, em Lisboa. Trata-se de um branco de 2017, que ostenta a designação Dão Nobre, a de prestígio desta denominação, e um tinto de 2015. Ambos têm como origem a Vinha do Contador, mostram as características distintivas e refletem a qualidade habitual da marca. No evento, também foi lançada uma nova referência, o tinto Clos de Santar de 2020, que sairá dos anos de vindima em que as uvas não tiverem as características para originar a primeira marca. A explicação dos vinhos coube a Paulo Prior, bairradino natural do concelho de Cantanhede e Director de Enologia da Global Wines.
Quatro séculos de história
Descendente de pessoas ligadas à terra e à vinha, Paulo Prior começou o seu percurso profissional em 1995, no Instituto da Vinha e do Vinho. Cinco anos depois, mudou-se para a Sogrape, onde permaneceu até 2024, ano em que assumiu funções de Director de Enologia da Global Wines, grupo que detém o Paço dos Cunhas. Esta propriedade inclui um edifício histórico na vila de Santar, no concelho de Nelas, erguido, em 1609, por iniciativa de D. Pedro da Cunha, que aproveitou algumas estruturas do século XV, de um paço medieval anterior.
Segundo dados históricos, o seu segundo filho, D. Lopo da Cunha, partidário da coroa espanhola, fugiu para Espanha em 1641. Participou, inclusive, numa conspiração contra o rei D. João IV, o primeiro monarca português da pós-restauração, o que determinou a confiscação dos seus bens, o desterro em Espanha e, consequentemente, o abandono e início da ruína do Paço dos Cunhas. De tal forma, que o edifício era pouco mais do que um amontoado de pedras quando a empresa, que deu origem à Global Wines, comprou, em 2003, o Paço dos Cunhas (até 2018 conhecido por Paço dos Cunhas de Santar, alteração esta que resultou da restruturação da marca, por forma a colocá-la num patamar mais distinto, e para dar início a um novo ciclo na empresa, no contexto da região e além-fronteiras). Este foi posteriormente reconstruído de acordo com a traça original, para se tornar na estrutura actual, que inclui uma loja e um restaurante, onde a gastronomia de inspiração beirã e portuguesa em geral se conjuga com os vinhos da Global Wines. “Tinha uma adega e um lagar, que não são utilizados hoje, já que todas as uvas colhidas na propriedade são vinificadas na adega da Casa de Santar”, afirmou Paulo Prior.
A vinha, a do Contador, tem sete hectares delimitados por estradas e muros em pedra, situados a uma altitude média de 400 metros. Sobre os solos graníticos, encontra-se um field blend das castas tintas Touriga Nacional, Tinta Roriz, Alfrocheiro e Jaen, as quais representam 85% do seu encepamento, e as brancas Encruzado, Malvasia Fina e Cerceal. A vinha, que tem uma média de 30 anos, não foi mudada desde a aquisição da propriedade pela Global Wines e apenas são repostos novos pés no lugar das plantas que morrem. “Tendo em conta todo o histórico da enologia anterior e os dados da viticultura, as uvas de Jaen nunca são usadas para a produção dos vinhos da gama Vinha do Contador”, declarou Paulo Prior, acrescentando que isso se deve ao facto desta variedade ter maturações diferenciadas em relação às restantes castas tintas e um pH que não se adequa ao enquadramento do vinho ao longo estágio, que tem de realizar antes de ser lançado no mercado.

Uma nova marca
Até agora, a gama de vinhos do Paço dos Cunhas Vinha do Contador incluía apenas três referências. Um branco e um tinto lançados apenas em anos especiais, e uma aguardente. Foi este o cenário que Paulo Prior encontrou quando chegou à Global Wines. Entretanto, foi fazendo provas dos stocks feitos a partir de uva vindimada na vinha do Paço dos Cunhas e constatou que havia, entre elas, “um vinho diferente, que não merecia o estatuto de Vinha do Contador, apesar de ter origem nela”, revelou. Em face disso, desafiou a Direcção de Marketing e Vendas da Global Wines e a administração da empresa a provar um vinho “que poderia preencher um vazio”.
Havia, assim, espaço para lançar uma nova marca de vinhos produzidos a partir da mesma vinha e de anos em que as condições não eram as ideais para resultar na referência Vinha do Contador, “mas sim um vinho mais jovem, com outras características, diferenciadas, com qualidade e que não defraudasse a origem, a casa que a produz”, explicou Paulo Prior. Então, ficou decidido avançar com o projecto de criação da nova referência, o Clos de Santar, designação que lembra que a referida vinha está enclausurada, neste caso, entre muros de pedra. Segundo o Director de Enologia, não haverá, no futuro, sobreposição de colheitas entre a marca Clos de Santar e Paço dos Cunhas Vinha do Contador, pois “nunca sairão nos mesmos anos”.
Minimalismo na adega
Das referências apresentadas, o branco de 2015, com a certificação de Dão Nobre dada pela Comissão Vitivinícola Regional do Dão, foi engarrafado em Junho de 2022. Também foi apresentado o Vinho do Contador tinto 2015, engarrafado em Maio de 2022. Para a produção de ambos, foram escolhidas as melhores uvas, porque “é isso que é necessário para originar os melhores vinhos”, reforçou Paulo Prior. Depois, é também preciso “ser minimalista nos trabalhos realizados na adega”, até porque cada movimento tira valor à uva e ao vinho inicial.
“Isso implica fazer as coisas à primeira e nem é preciso usar grandes técnicas”, defende, acrescentando que “o que importa mesmo é ir à vinha, provar as uvas e escolher os bardos, as linhas ou a mancha de vinha, e vinificar com, sem engaço ou apenas com uma percentagem deste nos tintos, sem engaço e com maceração nos brancos, a uma temperatura que varia com a incorporação de oxigénio que se pretenda”. Depois, há que dar tempo ao tempo, provando sempre até sentir que se chega onde se quer que o vinho chegue. As referências provadas mostram que esse é o caminho certo, no caso.
(Artigo publicado na edição de Abril de 2026)
MENIN: A arqueologia vínica do Douro

Os vinhos velhos da categoria Tawny conhecem, actualmente, um momento de renascimento, tema que tem interessado a cada vez mais empresas e produtores. Tradicionalmente produzidos, sobretudo, na sub-região duriense do Baixo Corgo, os vinhos muito velhos foram, durante décadas, usados para compor os lotes dos tawnies de 30 e 40 anos, que eram as únicas […]
Os vinhos velhos da categoria Tawny conhecem, actualmente, um momento de renascimento, tema que tem interessado a cada vez mais empresas e produtores. Tradicionalmente produzidos, sobretudo, na sub-região duriense do Baixo Corgo, os vinhos muito velhos foram, durante décadas, usados para compor os lotes dos tawnies de 30 e 40 anos, que eram as únicas categorias onde poderiam ser utilizados. Não havia outra e todas as casas do sector guardavam religiosamente os seus stocks para esse fim. Tudo mudou quando, em 2010, se começaram a comercializar vinhos muito velhos que saíam fora das classificações oficiais existentes.
Foi assim que nomes, como a Taylor’s, a Quinta do Vallado, a Quinta do Crasto, a Wine & Soul, a Real Companhia Velha, a Symington, só para citar alguns, resolveram colocar no mercado, a preços que ninguém esperava, vinhos que, ou eram de lotes próprios (caso da Symington), ou tinham sido adquiridos a pequenos lavradores na região, sempre em quantidades muito limitadas. Levamos então cerca de 15 anos de busca e muitas foram as empresas que se interessaram por estes vinhos muito velhos, verdadeiras relíquias que perderiam todo o seu valor intrínseco ao serem usados apenas como parte integrante dos lotes dos tawnies com indicação de idade. O sector e o Instituto dos Vinhos do Douro e Porto (IVDP) responderam a este movimento, criando novas categorias – 50 anos, 80 anos e VV Old –, sendo vinhos fora de qualquer data e que foram aprovados pelo IVDP, integrando, agora, o núcleo “arqueológico” do Vinho do Porto.

Um Porto da era pré-filoxérica
A empresa Menin, já no mercado com vinhos DOC Douro e vinhos do Porto de categorias especiais, resolveu apresentar a sua relíquia, um Porto da era pré-filoxérica, quando as cepas eram plantadas em pé-franco, numa época em que eram outras as castas, bem diferentes das que, no presente, são conhecidas de todos os consumidores quando se fala do Douro. Estes são vinhos de celebração, daqueles que o senso comum aconselha a que sejam bebidos “a dedal”, em momentos solenes, de exaltação desta região mítica e cada vez mais referenciada no mundo, como sendo a terra dos tesouros, onde arqueólogos feitos enólogos, calcorreiam as adegas dos pequenos produtores à procura dos segredos mais bem guardados.
São vinhos de família, que passaram de geração em geração e, agora, apesar do preço elevado, estão à disposição dos apreciadores. Não chega descobrir cada um. É preciso moldar, afinar, polir, refrescar e fazer lotes, de modo a deixá-los expressar o original sem o alterar. E este trabalho de minúcia pode originar perfis diferentes, algo bem patente nos vários vinhos muito velhos já disponíveis no mercado.
Rubens Menin, que esteve presente no evento, é um empresário de sucesso no Brasil e não olhou a despesas para criar, na sub-região do Cima Corgo, o centro da sua operação. Para o efeito, adquiriu, em Gouvinhas, uma quinta com 42 hectares, a que se juntou a empresa Horta Osório e a Quinta Foz Ceira, que pertencia à empresa Bulas Cruz. Criou assim um património que se aproxima dos 200 hectares. Não compram nem vendem uvas, foi-nos dito, e só os vinhos muito velhos são objecto de aquisição na região. A propriedade da empresa Horta Osório situa-se no Baixo Corgo e tomou-se a opção de manter no mercado os vinhos H.O, em virtude da boa aceitação que já tinham adquirido.

Vinhos de vinha centenária
O momento de convívio foi também aproveitado para apresentar dois tintos topos de gama, Maria Fernanda e D. Beatriz, produzidos em homenagem, respectivamente, à filha e à mulher de Rubens Menin. São dois vinhos feitos a partir das uvas colhidas numa extensa parcela de vinha centenária, com mais de 50 castas (onde se inclui uma percentagem de uvas brancas) e dividida em sete blocos, em função da orientação solar e altitude. Cada parcela destas é vinificada separadamente, cabendo, depois, à equipa de enologia – Tiago Alves de Sousa (consultor) e Manuel Saldanha (enólogo residente) – a tarefa de elaborarem os lotes diferenciados.
Por norma, os vinhos tintos elaborados com uvas destas vinhas centenárias têm um carácter muito próprio: muitas das castas tintas usadas tinham pouca cor e o aroma que delas emana afasta-se muito do carácter de fruta viva e vermelha que hoje se consegue obter. Assim, provar estes vinhos obriga a uma atenção redobrada para se entender o carácter e o estilo que outrora – a palavra aqui deverá ser interpretada como “há mais de 100 anos” – fez as delícias dos nossos antepassados. Importa, por conseguinte, perceber muito mais do que comparar a actualidade com o passado.
Os stocks de vinhos do Porto vão dos 10 aos 50 anos. Por isso, vamos ter mais vinhos Menin no futuro. E também num futuro, que se pretende próximo, haverá uma aposta forte no enoturismo.
(Artigo publicado na edição de Abril de 2026)
ATAÍDE SEMEDO: A visão de um veterano da Baga

O nascimento de Ataíde Semedo para o sector dos vinhos inicia-se, precisamente, a 1 de Janeiro de 1978. Apreciador das coisas boas da vida errante da juventude e da frequência de um curso de Engenharia Mecânica nos tempos quentes do pós-25 de Abril, Ataíde Semedo vê nas Caves São Domingos, empresa que teve o seu […]
O nascimento de Ataíde Semedo para o sector dos vinhos inicia-se, precisamente, a 1 de Janeiro de 1978. Apreciador das coisas boas da vida errante da juventude e da frequência de um curso de Engenharia Mecânica nos tempos quentes do pós-25 de Abril, Ataíde Semedo vê nas Caves São Domingos, empresa que teve o seu tio-avô como fundador e o seu pai como um dos sócios, um futuro promissor. O pai era industrial metalúrgico e, não obstante ser sócio da empresa bairradina, a ligação ao sector dos vinhos era nula. Ao pai disse que não lhe queria gastar mais o dinheiro num curso superior para o qual não estava fadado e, não querendo despender mais tempo nos bancos da universidade, ruma ao conforto das caves da aldeia de Ferreiros, no concelho de Anadia, que, afortunadamente, estavam paredes meias com a casa de família. Bem melhor opção que ir para a construção civil!
Na faculdade, apenas a cadeira de química o seduzia – observar a magia das reações obtidas a partir das mais diversas combinações. A partir de então, nasce uma vocação, que passa a ser praticada nos laboratórios, apadrinhado pelo enólogo da Caves São Domingos à data, Mário Pato, filho do enólogo homónimo que revolucionou a enologia nacional na primeira metade do século XX.
À data, a Caves São Domingos era liderada por Lopo de Freitas, que defendia a velha prática da Bairrada de comprar vinhos por toda a região, afinando-os na adega, para posterior comercialização. Ataíde Semedo pensava de um modo diametralmente diferente. O mundo já buscava vinhos com outra minúcia e qualidade. Para alcançar isso, mostrava-se necessário controlar o processo desde a vinha à adega, algo que apenas se alcançaria com a aquisição de vinha e um olhar mais presente sobre todas as opções da viticultura. Não tendo logrado convencer a administração da Caves São Domingos de que esse era o caminho correto, Ataíde Semedo ali permanece até 1987, data em que se dá a rutura com a empresa por divergências de estratégia sobre aquilo que entendia ser o futuro da Bairrada enquanto produtora de vinhos absolutamente diferenciadores.
Por conseguinte, em contraciclo com a região, que vivia tempos nebulosos e muitos produtores arrancavam ou abandonavam vinha, Ataíde Semedo entendia que era a melhor altura para investir em vinhas próprias e abandona a empresa.
1987, o ano da Rigodeira
A saída de Ataíde Semedo da Caves São Domingos dá-se a 1 de abril de 1987 e o futuro foi gizado nesse mesmo dia. Entregando a carta de demissão pelas nove horas da manhã, em Ferreiros, dirige-se ao Centro de Saúde de Anadia, onde bate à janela do consultório do seu amigo e colega de longa data, Almeida e Silva, médico local, mais conhecido por “Dr. Pardal”, cuja ligação aos vinhos da Bairrada lhe vinha por intermédio da mãe, detentora da “Casa de Saima”, projeto ao qual deu continuidade. Almeida e Silva já há muito que desafiava Ataíde Semedo para um projeto comum e ali, no consultório, fica pré-definido o futuro. Pouco tempo depois, reúnem-se com o reputado médico fogueirense Joaquim Barros, já de idade avançada, propondo-lhe a compra da Quinta da Rigodeira, à época com uma dimensão de seis hectares. A compra faz-se por um preço amigo e com um prazo de pagamento dilatado. Joaquim Barros vê naqueles dois amigos um futuro promissor.
O início é auspicioso. Aquelas vinhas possuem todo o potencial para produzir belos brancos e tintos grandiosos. Logo na primeira colheita, o Quinta da Rigodeira branco ganha o primeiro Prémio do Concurso de Vinhos da Bairrada e o Quinta da Dôna tinto, da colheita de 1991, arrecada distinções em todas as competições nacionais e internacionais, nascendo ali o mito.
O renascimento do Quinta da Dôna
É absolutamente incontornável para a carreira de Ataíde Semedo, e mesmo para a história dos grandes tintos da Bairrada, falar dos Quinta da Dôna. A história, porém, é simples e está conectada com a natureza das coisas. Em 1991, Ataíde Semedo vinifica isoladamente uma parcela da Rigodeira, conhecida como “Quinta da Dôna”. Ao contrário do que é comum nas vinhas velhas da Bairrada, possuindo estas cerca de 70 anos, não há outras castas misturadas com aquela que assume maior preponderância, a Baga. A segunda experimentação da vindima de 1991 é criar dois modelos de tintos distintos: um vinificado com engaço e um segundo vinificado com uva desengaçada. Este último dá origem, após um estágio longo em barricas, ao primeiro e exclusivo Quinta da Dôna.
A designação Quinta da Dôna, escolhida pelos dois parceiros, resulta em várias colheitas memoráveis, entre elas a de 2001, as quais, e à semelhança do distinto Barca Velha, apenas são lançadas para o mercado nos anos em que se atinge o esplendor qualitativo. O projeto Quinta da Rigodeira/Quinta da Dôna termina em 2002, dada a insustentabilidade do mesmo, pela sua dimensão de 23 hectares, excessiva para o modelo de vinhos e espumantes que Ataíde Semedo pretende criar. Nesse ano, ocorre a alienação à Caves Aliança, que fica igualmente detentora das marcas referenciais. Entretanto, há cerca de dois anos, a vinha, de onde eram oriundos os vinhos Quinta da Dôna, é arrancada, presumivelmente por ter atingido o seu tempo máximo de vida com produções de qualidade.
As características daquela vinha eram muito especiais, mas perfeitamente replicáveis para Ataíde Semedo. No renovado projeto em nome próprio, regressa às dimensões originais, com a aquisição da propriedade de Vale de Carros. A marca Quinta da Dôna também lhe regressa às mãos por caducidade do registo da mesma por parte do anterior detentor, mas, para o renascimento das cinzas da marca mítica, havia que apurar as condições naturais que a levassem a resultados semelhantes àqueles que outrora haviam sido alcançados. Nestas coisas de criar qualidade distinta, só o insuperável fator tempo pode trazer a confiança inabalável.
Plantando as vinhas de Vale de Carros em 2001, só em 2018 Ataíde Semedo entende ter alcançado o nível de maturidade das mesmas e da específica parcela de Baga, para poder voltar a, com galhardia, usar a designação Quinta da Dôna a um vinho da sua lavra. Convenhamos, a Baga continua a ser, na Bairrada, uma casta dada a humores muito especiais, alcançando a excelência apenas em anos em que os astros do clima se conluam, para trazer as temperaturas ideais, a pluviosidade no tempo certo e nunca em setembro, e os ventos que afastam as maleitas da vinha e a humidade relativa.
Após a colheita de 2018, a primeira das vinhas novas de Vale de Carros, sucede-se a de 2020, já esgotada, e, depois de um hiato entre 2021 e 2024, torna a surgir a edição de 2025, um ano, a todos os níveis, perfeito, com lançamento previsto para finais de 2027.
Indagado sobre as diferenças entre os clássicos e os atuais Quinta da Dôna, Ataíde Semedo tende a não os diferenciar e explica-nos. A Baga da vinha velha da Quinta da Rigodeira provinha de plantas com produção muito diminuta por natureza. Nas vinhas novas (agora com mais de 20 anos), o produtor mimetiza o comportamento da vinha velha, realizando uma monda muito expressiva – a planta tem, aproximadamente, 15 cachos –, colocando, no chão, uma média de 10 cachos por cepa, deixando apenas cinco. Como uma vinha nova não possui as mesmas reservas de uma vinha velha, a única forma de lhe imitar o comportamento com maior concentração e uma melhor, mais equilibrada e mais precoce maturação, evitando os excessos para não lhe dar um carácter de sobrematuração, preservando-lhe a frescura inerente à sua elevada acidez natural, é, ainda em verde, diminuir-lhe substancialmente a carga. A prática desta monda severa é realizada apenas no melhor talhão de Baga da vinha. Noutros, a monda é muito menos expressiva, permitindo a maturação total de cerca de oito a 10 cachos por videira.
Um Quinta da Dôna, para a roçar a perfeição, tem de ter, em jovem, características em excesso: ácidos, álcool, cor e taninos. E são as reações químicas que se operam no processo de envelhecimento que lhe vão trazer a elegância e a singularidade única de um grande Baga. Uma espécie de pacto de não agressão entre os excessos, para uma paz duradoura e futura.
Há novas tendências de vinhos inteiros, fermentados com engaço, mas cujo perfil não convence Ataíde Semedo. Definitivamente, os taninos libertados pelo engaço nunca são positivos por terem sempre um carácter herbáceo. Um vinho nobre tem de ser desengaçado, a menos que se queira um resultado mais rústico, característica que a Baga já possui em demasia. A sua experiência no Dão, onde colabora com umas das mais reputadas casas da região, mesmo com outras castas tintas, fá-lo não prescindir do desengace. Olha para o engaço como um espinho cravado numa mão. É um elemento estranho e que em nada beneficia, de modo que, o melhor é mesmo extirpá-lo.
Vinha de Vale de Carros
Nas opções e filosofia de Ataíde, nada é fruto do acaso, tal como não o é a aquisição da propriedade de Vale de Carros. A proximidade com a “sua” Rigodeira e a Quinta da Dôna está ocultada por uma pequena faixa de arvoredo. A distância entre ambas está entre os 300 e os 400 metros. Mas o mais relevante para a decisão da compra foi a semelhança na composição dos solos entre as duas propriedades, com uma forte componente de calcário em solos muito pobres, ideais para o plantio da videira, planta a revelar um desempenho maior em condições de stress hídrico e nutritivo.
São cinco hectares onde, de modo rigoroso e objetivo, planta as castas brancas Bical, Cercial da Bairrada e Chardonnay; e as tintas Baga, Touriga Nacional e Pinot Noir. A exposição da propriedade ajuda a moldar a semelhança com a Quinta da Rigodeira, sobretudo para as virtudes que aporta à Baga. A opção pelas outras castas deriva da sua experiência. Para espumantizar, não teve dúvidas. O privilégio de as várias viagens a França lhe terem permitido provar grandes champagnes, retiram-lhe quaisquer dúvidas sobre a óbvia escolha das internacionais Pinot Noir e Chardonnay, variedades melhoradoras da espumantização, com as locais Bical, Cercial e Baga.
A Bical, casta autóctone, surge para dar corpo aos vinhos, enquanto a Cercial traz a frescura e a vibrância, criando o equilíbrio perfeito, não obstante ter uma tendência para a podridão na vinha e oxidação na adega, o que obriga a um trabalho de muita proximidade nos dois locais. De todo o modo, e isso sente-se nos vinhos e espumantes, é a força do terroir que marca indelevelmente o perfil. E Ataíde Semedo já o sabia antes mesmo da aquisição da parcela. O namoro com esta encosta existe desde o tempo em que liderava a Rigodeira. Os antigos falavam muito nela e gabavam-lhe o potencial. Em segredo, e logo após a venda das vinhas antigas que lhe dá a disponibilidade financeira que anteriormente não possuía, começa o processo negocial de aquisição daquela montra, pertencente a 18 viticultores, num rendilhado de pequenas parcelas. Um trabalho árduo que demorou dois anos e meio a ser concluído, com muitas peripécias pelo meio.
As expetativas são elevadas para aquela propriedade de exposição a sul, contemplando-a com o sol desde as primeiras horas da matina até ao pôr-do-sol. As vinhas, muito velhas, estão decrépitas, com uma produção absolutamente residual e de baixa qualidade. Arranca a totalidade da área de vinha logo no ano de aquisição e, um ano mais tarde, em 2003, realiza o primeiro plantio, que requer um cuidado muito especial. Com o rigor que exigia a si próprio, não hesita em enviar todas as varas para um viveirista reputado em França, onde são enxertadas e regressam, já em 2004, em plantas. Os clones das castas portuguesas – Baga, Touriga Nacional, Bical e Cercial – são submetidos a uma seleção massal, todos enxertados nos porta-enxertos por si escolhidos, tendo, na base, a tipologia do solo, o porta-enxerto, as características da casta e o clone da mesma. Da Baga seleciona ainda clones de vinhas muito velhas do Dão; os 35 melhores clones da Estação Vitivinícola da Bairrada e os clones de Bical e Touriga Nacional são oriundos do Centro de Estudos de Nelas, onde conta com a preciosa da engenheira Vanda Pedroso. O mesmo critério de exigência teve-a na escolha dos clones de Pinot Noir e Chardonnay, os mais aptos e exclusivamente utilizados na produção de espumante.
Espumantes e Baga
Porque na Bairrada há vida para além dos vinhos de mesa, os espumantes sempre fizeram parte do universo produtivo de Ataíde Semedo. O traquejo técnico trazia-o da conceituada Caves São Domingos. Na Quinta da Rigodeira tinha chegado a engarrafar 30 mil unidades por ano. Com a saída de Almeida e Silva do projeto, fruto de uma atividade profissional intensíssima como médico, aliada à gestão da Casa de Saima, Ataíde Semedo entendeu que estava na altura de abrandar.
Apaixonado pelas castas internacionais Pinot Noir e Chardonnay, Ataíde Semedo nunca escondeu a paixão pelas virtudes da Baga na espumantização, não crendo, no entanto, que a rainha da Bairrada pudesse mostrar, assim, tanta realeza em espumante extreme da casta. Na Rigodeira, a Baga “descorada” entrava, em segredo, nos lotes de Maria Gomes e Bical, correspondendo, à data, a cerca de 30% da composição do espumante.
As vindimas realizadas em Champagne trouxeram-lhe o conhecimento de vinha e adega no processo de espumantização, e a convicção de que, para fazer espumantes de elevada qualidade na Bairrada, as castas Chardonnay e, sobretudo, Pinot Noir são imprescindíveis, ainda que usadas em lote com outras grandes castas locais. Atualmente, o produtor já não usa a Baga para espumantizar, entendendo que a pequena dimensão de área de vinha que detém e a qualidade que possui para vinhos tranquilos, tornaria mal empregue o seu uso nos espumantes. Ora, se escolhe os melhores clones, os melhores porta-enxertos e os melhores solos, tem de potenciar a casta naquilo em que ela é, criar vinhos tintos de referência mundial. E essas virtudes redundam da capacidade de envelhecimento inigualável, após mostrar muita discrição na juventude, com aromas fechados, engrandecendo com a idade, à semelhança do Nebbiollo (casta tinta italiana).
Com as alterações climáticas, a Baga tem saído bastante beneficiada. Há uma notória antecipação da maturação alcoólica, permitindo colher a uva com um teor provável superior a 13% volume sem que daí resulte uma perda da acidez natural da casta, facto que, segundo o produtor, ocorre em situação de sobrematuração (acima de 14% de álcool provável). Ataíde Semedo não crê muito em vinhos tintos elaborados exclusivamente com Baga de baixo teor alcoólico. Note-se que os Quinta da Dôna, dos quais damos como exemplo as colheitas de 2001 ou 1992, que possuem 13,5% volume alcoólico e foram – e são – vinhos enormes, aos quais o tempo emprestou o glamour e a elegância apenas ao alcance dos maiores. Lá para o final de 2027, voltaremos aqui para provar a mesmo muito auspiciosa colheita de 2025, vinho que, certamente, honrará a fama e a glória dos míticos Quinta da Dôna.
(Artigo publicado na edição de Abril de 2026)


















































































