Vertical KHRON: A aventura da Winestone no Douro

KHRON

A história desta empresa não difere da de muitas outras do sector do Vinho do Porto: foi criada por dois negociantes noruegueses, na segunda metade do séc. XIX e o modelo seguido foi o mais vulgar para a época, ou seja, adquiriam-se vinhos feitos à lavoura e o estágio era feito em Gaia. Este mundo, […]

A história desta empresa não difere da de muitas outras do sector do Vinho do Porto: foi criada por dois negociantes noruegueses, na segunda metade do séc. XIX e o modelo seguido foi o mais vulgar para a época, ou seja, adquiriam-se vinhos feitos à lavoura e o estágio era feito em Gaia. Este mundo, que separava totalmente o Douro e a cidade localizada na margem esquerda do rio que empresta o nome à referida região vinhateira, durou até aos anos 90 do século passado e mesmo empresas de grande renome, como a Niepoort, por exemplo, não tinham qualquer propriedade. Outras há que continuam a não ter propriedades, como a Andresen.

De reduzida dimensão, a Wiese & Krohn tornou-se conhecida pela sua colecção de vinhos velhos e alguns deles, que chegaram até hoje, são do século XIX. A empresa esteve na posse da família Falcão Carneiro desde a década de 30 do século XX. Assim permaneceu, totalmente portuguesa, até 2013 quando foi adquirida pela The Fladgate Partnership. Em 2023, a Winestone adquiriu a firma juntamente com a Quinta do Retiro Novo (com adega), localizada em Sarzedinho, no vale do Rio Torto, e os stocks. Estavam lançados os dados para a entrada do grupo Ravasqueira (da família Melo) no negócio do Vinho do Porto. O grupo também tem o controlo da Quinta do Côtto (outrora da família Montez Champalimaud) mas, ainda que em tempos aí se tenha feito Vinho do Porto, não há qualquer intenção de voltar a produzir generoso naquela propriedade. Há novidades na calha, mas é assunto para outra conversa.

Sexteto de vinhos

Para celebrar os 160 anos e relembrar alguns Portos do passado, a Wiese & Krohn promoveu uma prova vínica. Alguns são verdadeiras relíquias e outros são mais recentes, estando ainda no mercado. A empresa vai comercializar um estojo com as seis garrafas dos Porto Vintage que foram aqui objecto de prova, à qual chamou Krohn Fine Porto Collection. É um sexteto de referências vínicas que se vende em conjunto com um PVP de €1500. Apenas serão comercializados 100 estojos em madeira nobre. Há ainda a possibilidade de serem adquiridas garrafa a garrafa, enquanto o stock não esgotar), por isso, indicamos o preço caso a caso.

A prova foi orientada por David Baverstock, chairman winemaker da empresa, Vasco Rosa Santos, enólogo e administrador, e Gonçalo Ribeirinho, director de marketing. Tendo iniciado a carreira em Portugal no sector do Vinho do Porto (Croft e Symington), David Baverstock começou a fazer vinhos tranquilos na Quinta de la Rosa e, do Douro, saltou para o Alentejo, onde, de 1992 a 2021, foi responsável pelos vinhos do Esporão. Após a saída, abraçou este desafio da Ravasqueira, entretanto transformada em Winestone.

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David Baverstock, chairman winemaker da empresa

A empresa vai continuar a apostar nos vinhos do Porto Colheita, mais até do que nos tawnies com indicação de idade, já que apenas tem um Porto 10 anos no portefólio. A nova equipa quer alargar a oferta desta família de tawnies, mas isso é um projecto que demora tempo, mesmo adquirindo alguns vinhos no mercado. As perspectivas a curto prazo são boas, com dois vinhos em stock com grande potencial para Vintage, como o 2024 e o 2025. Ainda acerca da vindima de 2025, poderá ser lançada (decisão por tomar) uma edição especial comemorativa dos 160 anos da casa.

Dos vinhos provados, só o Vintage de 2022 teve a “mão” da nova equipa, que participou na elaboração do lote final antes da declaração em 2024. Este momento de prova foi também aproveitado para se avaliarem alguns Porto Colheita, a verdadeira “marca da casa”, uma categoria, que durante décadas, manteve o nome Wiese & Krohn no restrito grupo das grandes casas portuguesas do sector.

Como se pode ver pela informação fornecida, alguns destes vintages estão no limite mais baixo das existências, adquirindo um valor extra que os valoriza, face à reduzida existência em stock.

(Artigo publicado na edição de Fevereiro de 2026)

QUINTA DE PANCAS: Um clássico de Lisboa a renascer

Pancas

A história tem demonstrado que bons negócios no sector de vinho acontecem, quando um grupo com capacidade de investimento e visão de longo prazo, e não de lucros imediatos (que, na realidade, é pouco provável nesta área), adquire uma propriedade com história e reputação, entretanto mal gerida, mas com potencial de recuperar a fama pretérita. […]

A história tem demonstrado que bons negócios no sector de vinho acontecem, quando um grupo com capacidade de investimento e visão de longo prazo, e não de lucros imediatos (que, na realidade, é pouco provável nesta área), adquire uma propriedade com história e reputação, entretanto mal gerida, mas com potencial de recuperar a fama pretérita. Nestes casos, ganham todos, incluindo os enófilos, porque podem voltar a beber os vinhos que outrora lhes encheram as medidas. É o caso da Quinta de Pancas, localizada no concelho de Alenquer, que, agora, integra o universo da WineStone.

O projecto organiza-se em dois níveis: a liderança cabe a Vasco Rosa Santos, director de operações, e a David Baverstock, director de enologia. No terreno, a Quinta de Pancas é acompanhada por Vasco Costa, enólogo e responsável de viticultura, cujo percurso passou por casas como Val d’Algares, Casa Santos Lima e Segur Estates, e por Francisco Garcia, enólogo residente, que traz experiência da Quinta do Rol e da Adega de Redondo.

A boa casa à família torna

Fundada em 1495, a Quinta de Pancas conheceu vários proprietários ao longo da sua história. Em tempos pertenceu à família Guimarães, um ramo da família Mello, que hoje detém o grupo WineStone. A partir de 2006 integrou a Companhia das Quintas, enquanto o Solar de Pancas foi vendido separadamente à família Philimore, em 2008. Antes de ser adquirida pelo grupo, a propriedade esteve sob gestão da sociedade de Miguel Pais do Amaral (AHS Investimentos).

A WineStone já “namorava” esta quinta desde 2020. A aquisição concretizou-se em 2023 e incluiu as vinhas e a produção, mas tornou-se pública só em janeiro de 2024. O negócio foi motivado por três razões: uma histórica sentimental, ligada ao passado familiar da quinta; outra baseada nos valores intangíveis da marca e no potencial do terroir; e uma terceira, meramente prática, relacionada com o acesso a uma região produtiva, capaz de sustentar o negócio, sobretudo na exportação.

Na vinha, encontraram uma disparidade evidente: “o que era bom, era muito bom, e o que era mau, era péssimo”, explica Vasco Rosa Santos. Neste contexto, a reabilitação da vinha tornou-se uma prioridade. A vindima de 2023 foi assegurada pelos enólogos da WineStone. As uvas brancas já haviam sido vendidas pelo anterior proprietário, o que obrigou a recorrer à uva comprada, enquanto as uvas tintas foram colhidas e vinificadas pela equipa do grupo.

A propriedade precisa de investimentos elevados. A antiga adega, em estado de degradação, deixou de ser funcional e não oferece segurança. Por conseguinte, a vinificação realiza-se numa adega alugada e o engarrafamento e armazenamento do produto acabado são feitos no centro logístico do grupo, em Vendas Novas. Um conjunto de pequenos armazéns, onde antigamente se produzia vinho particular, será recuperado e destinado ao enoturismo. Além disso, pretende-se realizar uma investigação histórica mais pormenorizada sobre a Quinta de Pancas, uma vez que, com mudanças de proprietários ao longo dos anos, muita informação se perdeu.

Serra, vinhas e castas

Situada no concelho de Alenquer, junto à aldeia de Pancas, a quinta fica quase na fronteira entre as regiões de Lisboa e do Tejo, beneficiando de dias quentes moderados e noites frescas. A Serra de Montejunto protege as vinhas dos ventos e das massas de ar atlântico que chegam do Noroeste. As nuvens acumulam-se “agarradas” à crista da serra e o ar, que desce para o lado sul, tende a ser mais quente e seco, reduzindo a precipitação, um efeito clássico de sombra pluviométrica. No dia da nossa visita à propriedade, pudemos observar este fenómeno, quando fomos às vinhas.

Mesmo assim, a proximidade do Atlântico (situado a 30 quilómetros em linha recta) faz-se sentir através de nevoeiros e neblinas, que deixam as folhas molhadas durante horas. Com temperaturas amenas, isto torna-se um resort para fungos. Segundo Vasco Costa, a precipitação anual é elevada, nunca inferior a 600 milímetros, podendo atingir os 800 milímetros. Com esta pluviosidade, as vinhas não necessitam de rega.

As vinhas estendem-se num grande anfiteatro ondulado, virado a Norte e Nordeste, com fileiras que descem pelas encostas entre os 250 e os 120 metros de altitude. A inclinação é bastante acentuada, chegando aos 40%. Por um lado, proporciona uma melhor exposição solar, maior circulação de ar e escoamento de água, mas, por outro, dificulta o trabalho na vinha e limita o uso de máquinas, sobretudo em períodos chuvosos.

“Tirando a Bairrada, os solos em Portugal são, maioritariamente, ácidos, e aqui são argilo-calcários, com pH alto”, refere Vasco Costa. Com bastante pedregosidade por baixo, oferecem boa drenagem, mas também apresentam desafios: alguns nutrientes ficam indisponíveis para a planta, acumulando-se no solo, o que se foi agravando com uso desmedido de fertilizantes. Após a aquisição, encontraram o terreno em mísero estado, motivo pelo qual uma das primeiras preocupações da equipa da WineStone foi a implementação de práticas que melhorassem o solo. Estas medidas passam por evitar adubos minerais, aumentar a matéria orgânica e corrigir a falta de nutrientes a nível foliar, doseando-os através de análises de seiva nas alturas críticas do ciclo vegetativo: antes da floração, depois do vingamento e no início do pintor.

A vinha também precisa de muita intervenção, pois, “passou por várias mãos e cada um fez o que quis”, explica o responsável de viticultura. De momento, toda a plantação está a ser convertida de cordão para vara, isto é, em vez de braços permanentes ao longo dos anos, a madeira produtiva passa a ser renovada anualmente. É uma viticultura mais exigente, mas que permite um maior controlo sobre a planta e evita cortes grandes na videira, que abrem o caminho a doenças de lenho. Dá mais trabalho na altura da poda. Vasco lamenta a dificuldade em arranjar pessoas na região que saibam podar em vara, acabando por trazê-las do Norte do país.

A Quinta de Pancas conta com 53 hectares de vinha, dos quais 15 são plantados com castas brancas. Entre as tintas, as castas privilegiadas são Cabernet Sauvignon (35%) e Touriga Nacional (25%), seguidas por Syrah (10%), Merlot (10%) e pequenas parcelas de Alicante Bouschet, Castelão, Touriga Franca e Petit Verdot. Quanto às brancas, predominam a Arinto (60%) e a Chardonnay (38%), com uma pequena presença de Vital. O Castelão será reenxertado com outras castas, pois os clones são antigos, altamente produtivos e pouco compatíveis com vinhos de maior ambição – dariam, eventualmente, para um rosé.

Actualmente, a vinha apresenta uma produtividade que ronda as oito toneladas por hectare, um valor relativamente baixo para a região. Depois da recuperação da vinha, o objectivo é elevá-la para as 12 toneladas por hectare nas castas que toleram este incremento sem comprometer a qualidade, como a Arinto, enquanto o Chardonnay, destinada a vinhos de topo de gama, será limitada a cerca de cinco toneladas por hectare.

Pancas

Quatro gamas do portefólio

Em termos de lógica do portefólio, existem quatro gamas, em que os vinhos monovarietais de Cabernet Sauvignon e Chardonnay continuam a ter um grande destaque. O Reserva funciona como uma espécie de entrada de gama, mas num patamar superior, pois ainda há o Pica Bagos destinado ao retalho e feito com uva comprada. Embora 95% do Reserva seja produzido com uva própria, ambos os vinhos irão manter o nome “Pancas”, para uniformização da marca (hoje, o tinto ainda se chama “Quinta de Pancas”). Nas colheitas futuras, o nome “Quinta de Pancas” será reservado aos vinhos monovarietais e para o Grande Reserva.

Os Reserva, branco e tinto, estagiam durante seis meses em barrica. No tinto privilegia-se um perfil pouco extractivo. Recorre-se à micro-oxigenação para amaciar os taninos e o tornar mais apelativo em novo. No terceiro dia da fermentação, as grainhas normalmente caem no fundo da cuba e são retiradas, para não conferir amargor, nem adstringência. O processo termina também sem películas. Esta abordagem garante uma menor extracção no geral e uma textura mais macia. Volume de produção engloba 50.000 garrafas de branco e 50.000 de tinto.

Os monovarietais Quinta de Pancas Cabernet Sauvignon e Chardonnay procuram expressar o carácter varietal. “Quando falamos de castas internacionais, o importante é manter a sua identidade. A região de Lisboa consegue fazê-lo com algumas castas francesas”, explica Vasco Rosa Santos. O Chardonnay resulta de uvas de um lote de dois talhões com vinhas de idade já madura, com aproximadamente 30 anos, vinificadas separadamente. Parte do vinho fermentou em barricas de carvalho francês novas, mas de maior capacidade (500 litros), e usadas de 225 litros com mais de dez anos. Outra parte fermentou em cuba de inox, sendo depois transferida para o estágio em barricas usadas de 225 litros. O Cabernet Sauvignon 2022 estagiou oito meses em barricas usadas de carvalho francês. A produção ronda as 12.000 garrafas de Chardonnay e cerca de 35.000 garrafas de Cabernet Sauvignon.

Os Grande Reserva são vinhos bivarietais, combinando uma casta portuguesa e uma internacional. No branco, a Chardonnay fermentou em barrica nova e usada de carvalho francês e a Arinto em cuba de inox, terminando a fermentação em barricas usadas de 225 litros. Seguiu-se o estágio sobre borras por oito meses. No tinto, o Cabernet Sauvignon e a Touriga Nacional tiveram abordagens diferentes: mais extracção no primeiro, para assegurar uma boa evolução em garrafa, e temperatura de fermentação mais baixa, no caso da Touriga, privilegiando a definição aromática. Em termos de estágio, a Cabernet passou por barricas novas e de segundo ano, enquanto a Touriga estagiou em barricas mais antigas. Foram produzidas 6.500 garrafas de Grande Reserva branco e 6.600 garrafas do tinto.

Os Special Selection são pensados como a expressão máxima da Cabernet Sauvignon e da Chardonnay, sendo lançados apenas em anos de qualidade excepcional e implicando uma seleção particularmente rigorosa de barricas para a definição do lote final. A produção mais recente é limitada a cerca de 2.700 garrafas de Special Selection Chardonnay e 3.000 garrafas de Cabernet Sauvignon.

(Artigo publicado na edição de Fevereiro de 2026)

CASA SANTOS LIMA: O gigante discreto

Casa Santos Lima

Alenquer, há muitos anos numa reportagem de vindima. Próximo de Lisboa, era o sítio mais fácil para visitar um verdadeiro compêndio de castas, bem como sua sequência de maturação e recolha. Foi em 2005. Ddeixem-me citar, desse artigo, a ordem de colheita das várias castas: Pinot Noir (T), Fernão Pires (B), Chardonnay (B), Vital (B), Sauvignon Blanc […]

Alenquer, há muitos anos numa reportagem de vindima. Próximo de Lisboa, era o sítio mais fácil para visitar um verdadeiro compêndio de castas, bem como sua sequência de maturação e recolha. Foi em 2005. Ddeixem-me citar, desse artigo, a ordem de colheita das várias castas: Pinot Noir (T), Fernão Pires (B), Chardonnay (B), Vital (B), Sauvignon Blanc (B), Viosinho (B), Seara Nova (B), Rabo de Ovelha (B), Merlot (T), Trincadeira (T), Camarate (T), Syrah (T), Touriga Franca (T), Tinta Roriz (T), Castelão (T), Cabernet Sauvignon (T), Tinto Cão (T), Preto Martinho (T), Arinto (B), Touriga Nacional (T), Tinta Barroca (T), Alicante Bouschet (T), Alfrocheiro (T), Caladoc (T), Sousão (T), Moscatel (B) e Tinta Miúda (T).

Nesta viagem de 20 anos percebe-se que, já naquela época, a filosofia da casa era, acima de tudo, diversificar. A estratégia não era de sucesso evidente, havia muitos outros produtores a apostar no contrário: num vinho forte, construir aí a marca e, depois, introduzir variedade a partir desse ponto focal. Seria fazer o tinto X, depois o X Reserva, a seguir o X branco, depois o X Touriga Nacional, e talvez ficar por aí.

Vejamos, o paradigma dos vinhos de sucesso em Bordéus é parecido: 300 mil garrafas do Château Blah, 30 mil do Petit Blah, feito com as vinhas mais novas, e o resto da produção é vendido a granel ou engarrafado discretamente com a Denominação de Origem (DO) em grande evidência no rótulo. Objectivo? Não estragar o prestígio nem o preço do Château, que faz quantidade a sério a multiplicar por bom preço. Na Borgonha, a estratégia também é enfatizar a notoriedade dos melhores vinhos, mas com o foco na raridade e particularidade de cada um dos terroirs, que podem ser minúsculos, originando pouquíssimas garrafas, posteriormente disputadas como jóias por apreciadores ávidos de exclusividade e luxo.

Em contrapartida, a Casa Santos Lima cedo escolheu e se especializou num rumo alternativo: alargar a gama, construir muitas marcas, muitas castas, muitos lotes, diversificar mercados, sempre com preços contidos, apostando em grandes quantidades com margens pequenas, organizando o crescimento da empresa a partir daí.

 

O mote da Casa Santos Lima: “atender às necessidades dos clientes e adaptar-se às rápidas mudanças nas tendências do mercado”

Para lá das 200 referências

José Luís Oliveira e Silva está na liderança desde 1995. Reformou-se nesse ano de uma carreira na banca de investimento, que incluiu períodos de trabalho em França e Inglaterra. Já em jovem gostava de acompanhar os trabalhos da quinta, com grandes extensões de vinha, mas não tinha vinho engarrafado. Logo de início, optou por criar várias marcas que tiveram sucesso imediato, como o Palha Canas ou o Quinta das Setencostas. O topo de gama Touriz era um nome feliz. Reflectia a sua composição feita a partir de Touriga Nacional, Touriga Franca e Tinta Roriz e espelhava um novo interesse do público português nas castas e suas diferenças enológicas. Também desde cedo apareceram os monovarietais da Casa Santos Lima, uma espécie de biblioteca de estudo, cujos temas estão listados acima.

Além da variedade, a Casa Santos Lima sempre manteve uma estratégia de preços muito contidos, mesmo que cada vinho tivesse uma margem bastante pequena. O negócio fazia-se na multiplicação. Portanto, era preciso apostar incisivamente na venda. Para tal, a estratégia era encarar cada mercado como um desafio específico. Dentro de cada país, a diversificação era muitas vezes feita com várias marcas para vários distribuidores.

Não há pruridos quanto ao tipo de embalagem, que abrange, hoje, a garrafa de vidro, o bag-in-box, a Tetra Pack ou os mais recentes pouches (ou bagnuns, bolsas de plástico de litro e meio com uma torneira, como a dos bag-in-box, e que têm a vantagem de caberem facilmente no frigorífico). Os vedantes das garrafas de vinho podem ser de rolha de cortiça inteiriça, rolha técnica ou rosca de metal. Em 2025 as roscas suplantaram a cortiça e, dentro da cortiça, 70% são rolhas técnicas.

O número de marcas foi crescendo, o número de vinhos de cada marca também. No total, são mais de 200 referências diferentes distribuídas por algumas dezenas de marcas. Perguntei a José Luís como conseguia criar tantos nomes e ele respondeu-me com simplicidade: “moro em Lisboa e todos os dias venho para a quinta. São 40 minutos para cada lado. Tenho muito tempo para pensar em nomes.” Alguns são sensacionais, como os blockbusters Red Blend (que melhor nome para um tinto de lote?) ou Duas Uvas (cujas iniciais 2U se lêem em inglês Para Ti), duas das marcas que vendem mais de dois milhões de garrafas cada uma.

As marcas “umbrella” Bons-Ventos e Lab (de Labrador) vendem, respectivamente, três e quatro milhões de garrafas, nos vários tipos de vinho, entre tintos, brancos, rosés, varietais e lotes. Todo este universo é de milhões. O vinho de produção mais pequena é o tinto topo de gama Utopia, com cerca de três mil garrafas. Das 200 referências, cerca de 40 são submetidos a estágio em barrica. Na região de Lisboa, esses vinhos estão, quer na Quinta da Boavista, quer nas instalações da vizinha Adega Cooperativa da Merceana.

 

90% da produção anual vai para 60 mercados dos cinco continentes, a qual se divide em 60% para a Europa e 40% para o resto do mundo

Exportação para 60 mercados

Globalmente, os números são impressionantes. A Casa Santos Lima produz, por ano, é de cerca de 30 milhões de garrafas, vendidos nas várias embalagens. 90% da produção é exportada, para um total de 60 mercados activos espalhados pelos cinco continentes. Na Europa, fica 60% destas vendas. O resto do mundo encaixa 40%. A percentagem de vinho vendido em garrafa é de 70%; e em bag-in-box e outros formatos é de 30%. Os mercados escandinavos têm uma forte preferência por estes últimos. Em muitos destes países nórdicos, notavelmente a Finlândia, a Casa Santos Lima tem vários lugares no top 10 dos vinhos mais vendidos, incluindo os três primeiros lugares. Os maiores mercados são Brasil, Bélgica, Canadá, Finlândia, Alemanha, Noruega, Portugal, Suécia, Reino Unido e Estados Unidos da América. Os tipos de vinho dividem-se por 77% de vinho tinto, 17% de vinho branco e 6% de rosé.

O enorme pavilhão de engarrafamento e expedição da Quinta da Boavista tem 12 mil metros quadrados e, além das linhas de engarrafamento, armazena cerca de três milhões de garrafas, quantidade que roda mensalmente, com cada peça a funcionar como um relógio. Há várias linhas de engarrafamento: uma que enche nove mil garrafas por hora, mas tem um set-up relativamente demorado, e outras duas mais lentas, usadas nos tempos mortos da principal e para marcas de mais reduzida quantidade. Muitas posições da linha tinham um trabalho desgastante, rotineiro e mecânico. Por isso, foram substituídos por robots modernos e incansáveis. Tarefas banais, como abrir uma grelha de cartão, para separar as garrafas umas das outras dentro da caixa de cartão, podem ser repetitivas e dadas a erros, para além de serem lentas, fastidiosas e desmotivantes. Se a tecnologia pode intervir e poupar aos humanos desse suplício, é bem-vinda. Os empregos não vão desaparecer, vão apenas evoluir para tarefas mais valorosas.

Um outro exemplo é o sistema robotizado para aceder ao armazém e trazer as bobinas de rótulos necessárias para os próximos engarrafamentos, parecido com o de algumas farmácias automatizadas. Muito impressionante, mesmo para uma pessoa como eu, que já visitei ao longo de décadas, muitas, muitas adegas.

 

A percentagem de vinho vendido em garrafa é de 70%. Em bag-in-box e outros formatos é de 30%

Mais de 700 hectares de vinha

O crescimento da Casa Santos Lima conduziu a investimentos sucessivos em várias regiões do país. Sob a batuta de José Luís Oliveira e Silva, o aumento da produção na região de Lisboa não fazia muito sentido, uma vez que a empresa já era responsável pela certificação de mais de metade dos vinhos da Comissão Vitivinícola da Região de Lisboa. Aliás, o mesmo é verdade para a DO Alenquer e IPR (Indicação de Proveniência Regulamentada) Algarve.

Na região de Lisboa a extensão de vinha chega aos 464 hectares. A expansão começou em 2011, com uma parceria, de longo prazo, com a Quinta de Porrais, no Douro, com o controlo de 100 hectares de vinha e consultoria enológica do famoso Xito Olazabal. Em 2013, avançaram para o Algarve, mais concretamente para próximo de Tavira, com 55 hectares de vinha. No ano seguinte, adquiriram a Quinta de Vila Verde, em Lousada, na região dos Vinhos Verdes, com 50 hectares de vinha, e fizeram uma parceria no Alentejo, com a exploração de 100 hectares de vinha, perto de Beja. Em 2022, avançaram para mais duas regiões: 18 hectares de vinha na ilha do Pico e 25 hectares de vinha em São João de Areias, no Dão. O total da área de vinha ultrapassa os 700 hectares.

Os vinhos são feitos em 12 adegas diferentes por uma equipa de 12 enólogos, aos quais se juntam enólogos estagiários na altura das vindimas. Chegaram a ser 20, mas, hoje em dia, tem sido mais difícil encontrar esse número. Segundo Vasco Martins, administrador responsável pela enologia, há algum esfriar em relação ao interesse dos jovens nestes lugares. A vindima é longa e sempre muito trabalhosa. Na Casa Santos Lima, começa em meados de Julho, no Algarve, e termina a meio de Outubro, nos Vinhos Verdes e no Dão.

A estrutura da equipa conta com dois directores que, tal como Vasco Martins, estão baseados na Quinta da Boavista. Manuel Lobo Carvalho é o responsável pelas regiões do Pico, Alentejo, Algarve, Vinhos Verdes e Dão. Hermano Veloso dirige as vindimas da região de Lisboa. Vasco Martins lidera pessoalmente as vindimas no Douro, contando ainda com a consultoria de Xito Olazabal. Além destes três, há um enólogo residente em cada região, e ainda outros dois na sede, para tratar de tarefas mais administrativas.

O desafio, obviamente, é coordenar uma equipa desta dimensão numa estrutura de produção com tamanha diversidade de locais, complexidade de terroirs e enorme variedade de marcas e vinhos de cada marca. Segundo José Luís Oliveira e Silva, para alguns vinhos de maior volume há uma base comum, que depois é adaptada para compor os lotes, que dão origem aos diferentes vinhos. O mote é sempre “atender às necessidades dos clientes e adaptar-se às rápidas mudanças nas tendências do mercado”. De “cada” mercado. Um exemplo curioso é a produção de vinho kosher, que obriga à vinda de um rabi, para dirigir todo o processo e fazer com as suas próprias mãos muitas das tarefas e manipulações necessárias. Entre tintos e brancos, contam-se já 100 mil garrafas anuais.

 

Lotes afinados e preços competitivos

As regiões têm diferentes exigências, em particular em relação ao engarrafamento. No Pico, Algarve e Douro, os vinhos são engarrafados localmente, enquanto os das outras regiões são convergidos para as adegas centrais, na zona de Alenquer, para simplificar os processos, controlar custos e optimizar a logística.

De entre as duas centenas de referências da Casa Santos Lima, na minha visita, pude provar uma amostra representativa dos vinhos, a qual me permitiu percorrer todas as regiões. Fiquei muito impressionado com a qualidade e carácter dos vinhos. Uma empresa desta dimensão tem acesso a massas vínicas excepcionais e demonstra que, com ambição e talento, é possível oferecer topos de gama que ombreiam com os melhores vinhos do país. Em algumas das denominações conseguem fazê-lo por um preço muito competitivo, seguindo a estratégia escolhida há 30 anos. Mas também é fascinante a qualidade que conseguem oferecer nos milhões de litros de vinho que fazem e muito interessante perceber que, em cada gama, os lotes são afinados para irem ao encontro de mercados específicos.

É ainda de louvar a autenticidade e respeito pelo carácter de cada uma das regiões. Muitos vinhos mostram o local de origem, apresentando uma autenticidade que vai ao encontro das expectativas e justifica a aposta em colocar mais pontos no mapa de Portugal. Os preços macios facilitam ainda a exploração da vasta gama da Casa Santos Lima, todo um prazer sensorial e intelectual.

Se alguma coisa dificulta essa tarefa é a falta de uma unidade, uma identificação, uma marca da casa. Já percebemos que isso não é defeito, é feitio. Muitos destes vinhos são concorrentes uns dos outros num determinado mercado e isso faz da gama um puzzle, que o apreciador pode tentar completar. Os enigmas são divertidos. Portanto, deixo um para o meu leitor: descobrir e provar o vinho que mais me fascinou, um prazer guloso que está descrito abaixo. Ao trabalho! Depois conte.

(Artigo publicado na edição de Fevereiro de 2026)

 

 

MÁRCIO LOPES WINEMAKER: O norte como destino

Marcio Lopes

Quando refletimos sobre um trabalho a realizar com um produtor, não podemos limitar-nos a debitar dados estatísticos sobre número de hectares, garrafas produzidas ou referências criadas. O modo de olhar terá de ser mais sensitivo, emotivo, transparecendo não apenas o vinho que se prova, mas o modo como se chegou até ali. Os millennials são, atualmente, a maior […]

Quando refletimos sobre um trabalho a realizar com um produtor, não podemos limitar-nos a debitar dados estatísticos sobre número de hectares, garrafas produzidas ou referências criadas. O modo de olhar terá de ser mais sensitivo, emotivo, transparecendo não apenas o vinho que se prova, mas o modo como se chegou até ali. Os millennials são, atualmente, a maior geração consumidora de vinho em países como os Estados Unidos. Contudo, este novo perfil de consumidor já não se satisfaz com meras degustações ou provas técnicas. Pelo contrário, procura experiências mais completas de contacto direto com o território, que abarquem uma maior plenitude sensorial e emocional. A cultura do vinho é isso mesmo, um compêndio de emoções e razões que tanto dissecam o produto, como expõem a nu quem o cria, mostrando, inclusive, as naturais fragilidades humanas.

O Caminho

Convidando Márcio Lopes a abordar o caminho percorrido desde 2010, a timidez vence-o, optando por criar uma metáfora desse percurso em capítulos, onde cada vinho conta uma história poética de revivalismo. Mas há mais para lá desta rota, ou não fosse O Caminho um vinho construído à volta da aprendizagem que se sedimentou, dos métodos de vinificação que foi apreendendo, das castas que foi estudando no decurso do ofício de enólogo. O Alvarinho, aos seus olhos, encontra-se ali na parcela certa e redunda num vinho que também espelha as pessoas especiais com quem se tem cruzado ao longo desta jornada. A primeira vindima do projeto nome próprio ocorre em 2010, com apenas 2000 garrafas de Pequenos Rebentos Alvarinho, em Melgaço, na região dos Vinhos Verdes, e 600 garrafas de Proibido, em Foz Côa, na sub-região do Douro Superior. Este início do percurso surge com uma vinha pertencente ao sogro, produtor dos vinhos D. Paterna, ainda que o espírito libertário sempre lhe insinuasse seguir um caminho de crenças solitárias.

A primeira vindima de Márcio Lopes é feita ainda durante os tempos da faculdade, ao lado do primeiro mestre, Anselmo Mendes, na antiga adega. À data, já figura de proa da enologia nacional, Anselmo Mendes recomenda Márcio Lopes como enólogo residente num agrupamento de produtores de Viana do Castelo, onde veio a permanecer até 2007. No ano seguinte, ruma à Austrália, para abrir horizontes sobre vinhos do mundo. No regresso, vai trabalhar para o Ribatejo, onde permanece apenas por nove meses. O destino estava-lhe traçado a norte…

Márcio Lopes insiste em preservar a vinha de enforcado, sistema de condução ancestral existente na região dos Vinhos Verdes

 

Os Primeiros Rebentos

A necessidade leva Márcio Lopes a fazer-se à vida na venda e distribuição de vinho. Começou do zero. Pegou nas parcas economias, comprou 20 caixas de vinho a um amigo produtor e lançou-se nas vendas. Nesse dia, apenas lhe restava pecúlio para colocar uns litros de combustível no automóvel; no seguinte, já tinha as primeiras caixas vendidas. Adquiriu mais duas dezenas de caixas e, ao final do mês, a vida já lhe sorria de outro modo.

Durante uns tempos, as vendas foram correndo de feição, mas o chamamento da terra seduzia-o. Em 2010, após uma longa conversa com a mulher, Cláudia Codesso, em que contabiliza todos os receios, alia a distribuição com a produção e cria os primeiros vinhos em Melgaço e no Douro. Às 2600 garrafas produzidas no primeiro ano somaram-se muitas mais, resultando num incremento traduzido em 15 mil em 2015. Contudo, o negócio ainda não era viável, nem lhe permitia viver somente dele. O crescimento mostrava-se indispensável. Por conseguinte, em 2017, duplica a produção para 70 mil garrafas. O drama existencial, não obstante o risco assumido, era tremendo. A hipótese do fracasso nas vendas e a incapacidade de não poder honrar os compromissos assolava Márcio Lopes. Talvez por isso tenha evitado, durante muitos anos, colaboradores, preferindo assumir a solo todos os desígnios da atividade.

Entretanto, em 2015, surge no horizonte a Vinha Velha do Pombal, localizada em Foz Côa, nas cercanias de outras parcelas onde já adquiria uva. O que lhe era oferecido era extremamente convidativo. A 500 metros de altitude, com exposição nascente e norte, os quatro hectares possuíam um riquíssimo património de vinha velha e uma multiplicidade de castas que garantiam a originalidade do que dali pudesse brotar. Foi a resiliência quem o orientou num processo de paciência, perante a reticência da proprietária duriense de lhe vender a vinha.

A venda concretizou-se, mas as incertezas continuavam a pairar. A falta de mão-de-obra já era uma doença que corroía a região. Márcio Lopes acumulava a viticultura com enologia, a responsabilidade comercial e a gestão da empresa. A vinha trazia-lhe exigência acrescida de dali querer retirar algo sublime e diferente. Desde a compra, respeitando o padrão do que deseja produzir, ainda só conseguiu lançar duas colheitas, estando, presentemente, a lançar a terceira, num horizonte de uma década volvida após a aquisição. Um critério que, segundo explicou, leva-o a estar há mais de dois meses a tentar elaborar o lote ideal, para definir o próximo Garrafeira.

 

A raiz do Princípio do Mundo 

Nos Vinhos Verdes, a obra nasce, igualmente, a partir da preservação revivalista de práticas ancestrais, onde as Vinhas de Ramada e as Vinhas de Enforcado são parte relevante de um património cultural que Márcio Lopes insiste em preservar, evitando que caiam no esquecimento do tempo e desapareçam. A Vinha de Enforcado, localizada em Telões, Amarante, de onde são colhidas as uvas para produzir o Pequenos Rebentos Selvagem, é um sistema de condução de vinha que remontará à Idade Média e que vingou no norte de Portugal, particularmente na atual região dos Vinhos Verdes. Eram práticas das famílias mais humildes, consistindo no cultivo das videiras nos limites das parcelas agrícolas, deixando o interior destas para o cultivo dos cereais, hortícolas ou culturas forrageiras, estas últimas destinadas à alimentação do gado. Neste sistema, as videiras trepam por postes vivos, as árvores cujos ramos sustentam a planta, que cresce, em muitos casos, ao longo de 10 a 12 metros.

A explosão demográfica ocorrida nos anos 50 do século passado levou a uma expansão deste sistema de condução de vinha. Salazar proibia o crescimento da vinha nas melhores terras aráveis, levando a que a capacidade e o engenho dos agricultores optasse pela vinha trepadeira a crescer, envolvendo as árvores. Hoje, são raras estas vinhas, às quais Rogério de Castro apelida de “Viticultura de vento”, sistema que, expondo a videira a um maior arejamento, torna menor a necessidade de tratamentos fitossanitários, poupando em mão de obra e produtos. Porém, este sistema de condução de vinha gera muitos desequilíbrios de maturação. A expertise de alcançar o equilíbrio dentro dos desequilíbrios – uvas com 6% a 7% de teor alcoólico provável e níveis de acidez alucinantes – tem de se iniciar dentro da vinha, com a finalidade de evitar correções posteriores, porque a Azal é uma casta de ciclo longo, mostra-se fundamental realizar uma desfolha substancial na altura da floração e, em início ou meados de julho, há que proceder a uma monda expressiva, para adiantar a maturação das uvas, de modo que o seu perfeito estado para a vindima ocorra antes do equinócio e das primeiras chuvas, trágicas para uma casta que, a acrescer, produz cachos muito compactos e, por isso, mais sensíveis à podridão. O Selvagem também revolucionou os procedimentos de adega no modo como se trabalha a casta, porque antes de trabalharem a desfolha, o surgimento de alguma podridão nos cachos obrigava ao desengace bago a bago. Hoje, tal já não é necessário. A fermentação é feita em ânforas de barro cru que, por força da libertação de cálcio, precipitam o tartárico e reduzem o excesso de acidez. O caráter redutivo da Azal é igualmente suprimido pelo estágio em barricas de carvalho português de maior porosidade. Não se pense, no entanto, que este procedimento foi encontrado no primeiro embate com a casta e a vinha. Foi da tentativa/erro, ação através da qual se encontraram soluções e, a montante, muito vinho se perdeu.

As vinhas velhas da região minhota são alvo da busca exploratória de Márcio Lopes. Trabalhando com cerca de 50 viticultores e em mais de 200 parcelas, o conhecimento sobre o acervo vitivinícola torna-se extenso. O Pequenos Rebentos Vinhas Velhas surge de uma dessas vinhas, pouco atraentes para o agricultor devido à baixa produção, mas extremamente atrativas para Márcio Lopes. Plantada em 1989, somente com a casta Loureiro, ia ser arrancada pelo proprietário, que nela via pouco rendimento. O enólogo tomou conta desta vinha, com sistema de condução em bardo, plantada em solos bastante compactos de argila. Dali idealizou a produção de um vinho exigente. A dimensão da matéria-prima imperava rigor e qualidade. Daí ter-se promovido, no processo de vinificação, um trabalho de barrica cuidado, por meio da seleção de exemplares de grão extremamente fino, com três e quatro anos de uso. Uma receita que resultou de modo gratificante num vinho feito a partir de uvas vindimadas numa vinha sem grande reconhecimento, nem atratividade, em termos de localização (entre Braga e Famalicão), mas que, em termos individuais, se veio a mostrar diferenciada. Isto, não obstante a produção ridícula. Se, num ano simpático, Márcio Lopes retira dali 2500 quilos de uva, 2025 trouxe-lhe somente uma colheita de 1.000 quilos, que se traduzirá em 600 garrafas da referência.

Ainda acerca da região dos Vinhos Verdes, a Márcio Lopes muito dizem as castas tradicionais do verde tinto: Alvarelhão, Cainho Tinto, Boçal e, sobretudo, Bastardo. Não sendo a aposta segura e convincente para os produtores da região, a Bastardo é uma uva com grande significado para o enólogo, que ainda a procurou na Ribeira Sacra, onde produziu o Telegrafo, cuja primeira edição, de 2017, ficou limitada a 350 garrafas. A segunda edição é da colheita de 2023. Ou seja, Márcio Lopes valoriza a exploração das variedades mais antigas da região, tendo apostado e valorizado o trabalho realizado pelos especialistas em ampelografia, Teresa Mota e Pedro Malheiro, em parceria com a PORVID (Associação Portuguesa para a Diversidade da Videira). O exercício coerente desta constante busca das práticas e castas ancestrais tem-se mostrado essencial, no sentido de minorar o risco de desaparecerem por força da uniformização dos territórios em detrimento da tradição.

Já o Pequenos Rebentos Touché é oriundo de apenas uma ramada de vinha em Melgaço, com uma produção que ronda os 2.000 e os 2.500 quilos por meio hectare. A maioria das vinhas que arrenda estão longe do radar dos grandes operadores, isto é, ao procurar parcelas com características muito específicas, encontra matéria-prima que lhe permite contrariar tabus associados à dureza e rusticidade das uvas tintas dos Vinhos Verdes, criando, neste caso, um tinto de intensa delicadeza, fino e muito elegante, revelando consistência desde a sua primeira edição.

Por sua vez, a inspiração cinéfila do Viagem ao Princípio do Mundo transcende a metáfora da obra do realizador Manoel de Oliveira. Há nele um regresso às origens, à Alvarinho e à exponenciação das suas virtudes, num registo interpretativo muito pessoal e íntimo dos vinhos que se escondem no nariz, para se afirmarem na boca, vincando o experimentalismo no uso de barricas de Jerez, com o vinho a evoluir por baixo de um “véu” de flor.

O Douro é o berço 

O ano de 2025 também se revelou um prenúncio de morte, com o inesperado fim da Centenária, a vinha localizada na Mêda, localizada na sub-região do Douro Superior, a qual dava origem ao branco de altitude Permitido Centenária. Não obstante os esforços, as perdas foram irreparáveis, obrigando a um trabalho de recuperação que está em curso. Era uma vinha singular, com mais de 15 castas plantadas, no final do século XIX, a 800 metros de altitude, em solo extremo de granito. Fica-nos a colheita de 2022, agora provada e que antecede as derradeiras colheitas de 2023 e 2024. Para além disso, permanece apenas a memória, a mesma memória de infância que transportou Márcio Lopes para o Douro-berço.

No início, e sempre com a vertente financeira presente, Márcio Lopes encontrava a opção mais razoável no Douro Superior, onde o preço de arrendamento ou aquisição de vinha é, ainda hoje, mais atrativa. O património genético está nas vinhas de Vale Mendiz e de Foz Côa, onde ainda há áreas significativas da casta da sua eleição, a Bastardo, não escondendo a paixão por vinhas onde estão clones antigos de Tinta Roriz, com menor expressão de cor.

No Douro, Márcio Lopes projeta o futuro da região e procura já criar vinhos que o antecipem. A respeito do Proibido Déjà Vu, o enólogo antevê-o com as castas tradicionais Touriga Nacional, a conferir-lhe a componente aromática, a Tinta Roriz, o esqueleto do vinho, o Alvarelhão, que lhe aporta a frescura, e a Tinta da Barca, com a amplitude. A interpretação é, uma vez mais, evitar correções posteriores à vindima, usando as castas mais propensas à resistência ao fenómeno incontornável do aquecimento global.

Nas criações, não há imutabilidade, mesmo nos vinhos que, aparentemente, possuem o caráter mais clássico (duriense). O Proibido Grande Reserva espelha essa evolução de perfil, colheita após colheita, mostrando-se, hoje, mais aberto na cor e com uma perceção de madeira mais ténue, o que também implicou uma adaptação por parte das câmaras de provadores e entidades certificadoras. Aqui, estamos na presença de um vinho elaborado a partir de uvas colhidas num conjunto de vinhas velhas do Douro Superior, com idades entre os 40 e 80 anos, e castas muito variadas, como Tinta Francisca, Tinta Amarela, Sousão, entre diversas videiras de variedades não identificadas.

A maturidade do projeto determina, em 2019, que Mário Lopes desça do Douro Superior para a sub-região do Cima Corgo, onde o processo contemplativo e explorador o leva ao Proibido Vale do Rio Pinhão, numa vinha a que chama “parque de diversões” para entusiastas do vinho. Gastão Taveira, o proprietário, abriu-lhe as portas para este paraíso de diversas e distintas parcelas de terraços pré-filoxéricos, com exposições norte e sul, e altitudes baixas, entre os 150 e 200 metros. É aqui que encontra uma Tinta Roriz distinta para deslumbrar.

Ao assinar o Proibido Garrafeira, vinho de opulência clássica duriense, com um estágio de sete anos em garrafa, encontra o seu oposto no Proibido Vinha Velha do Pombal, um tratado de elegância e leveza, enraizado numa vinha de antologia. Com exposição nascente, beneficia das brisas serenas e das temperaturas moderadas, onde quase não entram os tratamentos, mostrando a fruta no estado mais puro, numa parcela onde rareia a água e a vinha é obrigada a um trabalho de esforço e profundidade na busca de nutrição. Plantada em 1957, produziu umas diabólicas 666 garrafas. Estamos perante um perfil raro no Douro, exalando uma outra história tão própria, que obriga Márcio Lopes a possuir várias referências, cada uma delas muito singular e, por isso mesmo, a merecer um capítulo distinto.

(Artigo publicado na edição de Fevereiro de 2026)

MANICHE: Depois do futebol, o champanhe

Maniche

Nuno Ricardo de Oliveira Ribeiro, mais conhecido como Maniche dentro das quatro linhas do retângulo futebolístico nacional, foi um dos raros atletas que envergou a camisola dos três clubes conhecidos como os grandes do futebol português. Germinou no Benfica, foi campeão europeu no Futebol Clube do Porto e pendurou a chuteiras, depois de uma rápida […]

Nuno Ricardo de Oliveira Ribeiro, mais conhecido como Maniche dentro das quatro linhas do retângulo futebolístico nacional, foi um dos raros atletas que envergou a camisola dos três clubes conhecidos como os grandes do futebol português. Germinou no Benfica, foi campeão europeu no Futebol Clube do Porto e pendurou a chuteiras, depois de uma rápida passagem pelo Sporting, clube do coração e do qual era sócio. Entretanto, foi ainda atleta de clubes bem conhecidos dos adeptos de bom futebol.

Enquanto jogador foi um médio com grande apetência para municiar o ataque e explorou, com grande sucesso, a apetência para a marcação de golos muito vistosos de longa distância. Para a história, ficou aquele contra a Holanda, no Euro 2004, de um dos ângulos da grande área. Em todo este percurso de sucesso houve um denominador comum – a camisola com o número 18.

Quando pendurou as chuteiras, em 2011, ainda tentou enveredar pela carreira de treinador. Orientou o Paços de Ferreira e a Académica de Coimbra, enquanto adjunto. No entanto, no ano de 2016 encerrou esta nova faceta no mundo de futebol, para dar lugar a uma paixão que fermentava com cada vez maior intensidade.

 

“Eu não podia escolher um parceiro qualquer. A mim só me interessam os produtos de topo”, afirma Maniche

 

Do Douro para Champagne

O pontapé de saída no mundo dos vinhos foi dado em 2016 com a compra de vinhas no Douro e posterior lançamento de dois vinhos em parceria com a Quinta da Pacheca. A enologia coube a Maria Serpa Pimentel. Esse seria apenas o primeiro passo na fileira vínica nacional. Tal como na vida futebolística, a paixão de Maniche cresceu e galgou fronteiras em direção à região de Champagne, mais especificamente Reims, localizada no nordeste de França, onde assinou uma nova parceria com uma casa com 400 anos de história desenvolvida ao longo de treze gerações de produtores. Nada mais do que uma das mais prestigiadas referências da região, a Maison Cattier, casa fundada em 1625 pela família homónima. Tal como referiu Maniche: “este foi um passo muito pensado e ponderado tendo em vista a internacionalização do nosso portefólio. Eu não podia escolher um parceiro qualquer. A mim só me interessam os produtos de topo.”

Ainda assim, o vínculo entre o futebol e o vinho volta a fortalecer-se através de um acaso que deveria estar escrito no firmamento futebolístico. Jean-Jacques Cattier, líder da pretérita geração familiar, que conseguiu guindar e cimentar a marca como um produto muito exclusivo e de grande sucesso mundial, também é um dos principais acionistas da equipa Stade de Reims.

O Reims é um dos clubes com mais vitórias na história do futebol francês, com um palmarés que inclui a conquista de seis títulos da Ligue 1, duas Taças da França e cinco Troféus dos Campeões. O clube também ostenta um bom desempenho a nível europeu – no currículo apresenta duas finais, nas edições de 1956 e 1959, da Taça dos Campeões da Europa, a conquista da Taça Latina e da Taça dos Alpes em 1953 e 1977.

Nas palavras de Maniche: “Esta é uma união carregada de pontos comuns, com um futebol ganhador de títulos e de conquistas memoráveis”.

 

Maniche

 

“Esta é uma união carregada de pontos comuns, com um futebol ganhador de títulos e de conquistas memoráveis”, declara o ex-futebolista

 

Novas aquisições vínicas

Nesta renovada temporada de desafios, Maniche apresenta dois champanhes denominados, Cattier Emedezoito by Maniche Brut rosé Premier Cru e Cattier Emedezoito by Maniche Brut Premier Cru. Ambos foram lançados ao público na cidade do Porto, seguido de um evento internacional em Madrid.

Segundo as palavras de Maniche, o primeiro foi produzido “pela adição de vinho tinto à mistura”. É um Brut rosé Premier Cru, que “reflete a qualidade das castas Pinot Noir e Pinot Meunier da Montagne de Reims e a sua deslumbrante complexidade aromática”. Já o segundo “foi produzido a partir de uma mistura dominada por Pinot Noir das minhas nove aldeias favoritas, caracterizando-se pela sua elegância, generosidade e personalidade intensamente frutada, dada pelos três anos de estágio”, concluiu.

(Artigo publicado na edição de Janeiro de 2026)

 

RUINART: A quintessência do espírito de Champagne

Ruinart

Acedemos ao 4 Rue de Crayères através de um caminho como que escondido, parecendo esculpido directamente no calcário. As primeiras impressões são fortemente sensoriais, desde a brancura do giz ao azul do céu, passando pelo verde das copas das árvores. À medida que percorremos esse caminho, emerge o Pavilhão Nicolas Ruinart, desenhado pelo arquitecto japonês […]

Acedemos ao 4 Rue de Crayères através de um caminho como que escondido, parecendo esculpido directamente no calcário. As primeiras impressões são fortemente sensoriais, desde a brancura do giz ao azul do céu, passando pelo verde das copas das árvores. À medida que percorremos esse caminho, emerge o Pavilhão Nicolas Ruinart, desenhado pelo arquitecto japonês Sou Fujimoto, um magnífico edifício calcário, todo ele aerodinâmico, com curvas suaves, longas linhas horizontais, inspirado na evanescência das bolhas de champagne, esculpidas pela luz. O telhado, assimétrico, forma uma curva e lembra a redondeza de uma bolha de champagne. Mudando gradualmente do transparente para o subtil opaco, criando a impressão do borbulhar num copo de champagne. A janela imensa emoldura a vista do pátio principal, para as maravilhosas fachadas do século XIX da Maison Ruinart.

Mas, sob toda esta beleza e grandiosidade, estão as caves, as famosas Crayères, classificadas como Património Mundial da UNESCO, e nada nos prepara verdadeiramente para tão grande monumentalidade. As caves estão a 38 metros de profundidade e possibilitam o acesso a oito quilómetros de túneis, pedreiras desactivadas, de pedra calcária e giz, algumas datadas da Era Medieval. Aqui, o ar é fresco e húmido, o som que se ouve é apenas o murmúrio do tempo. É onde milhares, ou milhões, de garrafas alinhadas – a Ruinart nunca revela os números de garrafas produzidas ou em cave – aguardam, pacientemente, os seus momentos de fama.

Expressão artística

Fundada em 1729, em plena Era das Luzes, a Maison Ruinart nasceu da ideia pioneira de fazer do champagne uma expressão cultural e uma arte de viver. Nicolas Ruinart, inspirado pelas visões de seu tio, o monge beneditino Dom Thierry Ruinart, fundou a primeira casa, da região de Champagne, oficialmente dedicada a este vinho com bolhas mágicas, que então passou a ser servido nas coroações dos Reis de França e no Palácio Real, e a encantar as demais cortes europeias.

Ao longo da história, a Maison Ruinart sobreviveu a crises e guerras, incluindo o bombardeamento das suas vinhas e edifícios durante a ocupação alemã, para além do roubo e delapidação quase total do seu stock de garrafas. Contudo, sempre conseguiu erguer-se e estar à altura dos desafios, sem nunca perder de vista a inovação e o desenvolvimento tecnológico, sempre numa busca incessante pela excelência e perfeição dos seus champagnes.

Dirigida pela família Ruinart até 1963, integra, desde 1987, o grupo do segmento de luxo LVMH (Louis Vuitton Moet Hennessy). A luz, o branco e a transparência tornaram-se símbolos da sua estética e do seu vinho, e a Chardonnay, casta que define a sua assinatura, é trabalhada como metáfora dessa luminosidade: um reflexo líquido da elegância e da precisão. A Ruinart conseguiu construir uma linguagem e um estilo muito próprios e distintos, sempre alicerçados na mais completa harmonia entre tradição, vanguarda e criatividade.

O ‘Petit R’ é, claramente, disso um exemplo maior. Trata-se de uma experiência gastronómica e visual, um show multimédia, imersivo e esteticamente encantador, que pudemos desfrutar durante o jantar na Maison. Ao mesmo tempo, é uma visão contemporânea de acontecimentos passados, da história de Champagne vista através da Maison Ruinart. Através da personagem ‘Petit R’, criada pelo artista japonês Kanako Kuno – sempre a tal ligação à arte, presente em todos os momentos definidores –, a história é contada em cima da mesa, literalmente. O mundo inteiro cabe no prato, a toalha transforma-se num ecrã gigante, onde tudo se desenvolve. As figuras dos animais e das pessoas ganham tridimensionalidade, saltam do prato, rodopiam, contam histórias. Tudo funciona de forma sincronizada até ao ponto em que ‘Petit R’ abre uma garrafa de champagne e se ouve o som bem real da rolha a saltar: é um sommelier que abre uma garrafa, verdadeira, em perfeita sincronia de tempo!

Ruinart

Caroline Fiot, a primeira mulher com a função de Cellar Master na região de Champagne, liderou o estudo do impacto da luz no Blanc de Blancs e a criação da Second Skin Case

 

A segunda pele

Na alvorada dos seus 300 anos – a Maison Ruinart celebrará o seu tricentenário em setembro de 2029 –, dois factores importantíssimos são alvo de dedicação máxima na Maison Ruinart: sustentabilidade e impacto das alterações climáticas em Champagne. Quanto ao primeiro, destaca-se a criação do estojo Second Skin, literalmente uma ‘segunda pele’ para a garrafa Ruinart, que as envolve à sua forma. De acordo com a marca, esta é “composta por 99% de papel (1% é cola), feito de fibra de madeira proveniente de florestas geridas ecologicamente na Europa, e é nove vezes mais leve que a anterior geração de gift boxes, reduzindo a pegada de carbono das embalagens em 60%.” Além da componente ecológica, a Second Skin protege o vinho da luz, é resistente à humidade e “permanece intacta num frapê de gelo até três horas”, refere a Ruinart. De cor branca, tem um padrão em relevo a invocar as Crayères, as caves calcárias da Maison.

Uma palavra é devida a Caroline Fiot, nova Cellar Master da Ruinart, que sucede a Frédéric Panaïotis, falecido este ano, num contexto delicado. Entrou na Ruinart em 2016, participou no comité de prova, supervisionou fermentações e liderou projetos de investigação, como o estudo do impacto da luz no Blanc de Blancs e a criação da Second Skin Case, embalagem sustentável que substitui o tradicional estojo em papel. É, também, a primeira mulher a desempenhar tais funções na história da região de Champagne.

História e inovação

Hoje em dia, talvez mais do que nunca, seja na região de Champagne, seja no mundo, torna-se necessário (re)pensar os nossos estilos de vida, a nossa cultura enraizada e, talvez, questionar o nosso conhecimento. E em vez de querermos que a natureza se adapte às nossas necessidades, talvez seja bom pensarmos em adaptar-nos àquilo que a natureza tem para nos oferecer.
Esta foi a grande mensagem que eu retive nesta minha viagem a Reims e à Ruinart. Há, de facto, trabalho muito sério a ser feito para adaptar a região às alterações climáticas, que vieram para ficar, e quando vemos uma das regiões vínicas mais fortes e mais unidas do mundo a trabalhar em conjunto para alcançar um determinado objectivo, vemos que a coisa é mesmo para levar a sério. No entanto, já havia sinais. É uma coisa antecipada, e que vem sendo pensada e testada há já vários anos, basta estarmos atentos ao que nos rodeia, o que, na maioria das vezes, se revela o mais difícil.

Ora vejamos. Grande parte do sucesso de Champagne deve-se à utilização mais ou menos generalizada do estilo non-vintage, expressão traduzida na mistura entre vinhos de reserva e o vinho da colheita mais recente, uma espécie de receita seguida pela grande maioria dos produtores de Champagne, das Big Marques aos pequenos vignerons. No fundo, pretende-se mitigar ou eliminar o mais possível o efeito colheita, ou seja, nos anos mais frios, quando as uvas são mais ácidas, porque não conseguem atingir pontos de maturação adequados, incorpora-se mais vinhos de reserva no blend, de modo a adicionar estrutura e complexidade à frescura e energia da nova colheita, ao passo que, em anos mais quentes, se incorpora menos vinhos de reserva, pois pretende-se manter a juventude da nova colheita.

De um modo geral, tem sido este o caminho percorrido na região até há bem pouco tempo. Porém, o impacto das alterações climáticas têm vindo a traduzir-se num registo consecutivo de fruta mais madura, ano após ano, e num aumento médio real de 1,2% de álcool nas uvas nos últimos 30 anos.

O novo normal

A grande diferença de uma região como Champagne é que, ao invés de olhar para as alterações climáticas como uma ameaça, decidiu encará-las como uma oportunidade. E, de repente, o estilo non-vintage, e até a própria dosage, deixaram de fazer tanto sentido, ou nenhum mesmo. Atualmente, é quase tudo produzido em estilo vintage, com nuances introduzidas pelas Reservas Perpétuas quando utilizadas, e, graças aos maiores níveis de açúcar nas uvas, Champagnes Brut Nature ou Extra Brut são a nova normalidade.

Assim, tudo nos começa a fazer sentido, quando a Krug criou o estilo multi-vintage das suas Grand Cuveés, quando Charles Heidsieck começou a identificar o ano base no contra-rótulo, a Laurent-Perrier criou a Cuvée Ultra Brut num estilo super seco e, mais recentemente, a icónica Maison Louis Roederer abandonou definitivamente o estilo non-vintage da sua Cuvée Brut Premier, criando a Collection, um blend de multi-vintages identificados.

E a Ruinart? Aí está a Cuvée Blanc Singulier, por enquanto só disponível em França, mas que, provavelmente, num futuro não muito longínquo, talvez venha a ser a nova normalidade da Ruinart, enquanto que a de hoje, o icónico Blanc de Blancs, talvez passe a ser a excepção. Aguardemos com serenidade e sempre com champagne no copo!

(Artigo publicado na edição de Janeiro de 2026)

QUINTA DO PESSEGUEIRO: O Douro gracioso

Quinta do Pessegueiro

Graciosidade talvez seja a palavra que melhor define a Quinta do Pessegueiro no seu conjunto, aqui englobando vinhos, arquitectura, imagem, forma de estar e receber. Localizada em Ervedosa do Douro, concelho de São João da Pesqueira, a propriedade foi adquirida, em 1991, por Roger Zannier, empresário francês que criou um gigante têxtil orientado para a […]

Graciosidade talvez seja a palavra que melhor define a Quinta do Pessegueiro no seu conjunto, aqui englobando vinhos, arquitectura, imagem, forma de estar e receber. Localizada em Ervedosa do Douro, concelho de São João da Pesqueira, a propriedade foi adquirida, em 1991, por Roger Zannier, empresário francês que criou um gigante têxtil orientado para a moda infantil e que acabou por conhecer o Douro no âmbito das suas visitas profissionais a Portugal, ali decidindo deixar a sua “marca”. Em 2003, com o apoio do genro Marc Monrose, borgonhês de gema, ligado à terra e ao vinho, Zannier deu início à reconversão das vinhas existentes e à plantação de novas áreas, com sucessivas intervenções em 2007, 2008, 2011 e, mais recentemente, em 2021. A construção da adega, localizada numa zona mais alta da propriedade, arrancou em 2008, ficando terminada em 2010, ano da primeira colheita. Trata-se de um projecto arquitectónico arrojado da autoria de Artur Miranda e Jacques Bec, com a área de vinificação e armazenagem a estender-se por cinco pisos, de forma a aproveitar ao máximo a gravidade e a excluir a bombagem de massas e líquidos, contando, para tal, com a ajuda de uma cuba elevatória.

Quinta do Pessegueiro

A casa principal é também um alojamento de charme, aberto ao turismo, integrando-se na rede de unidades Zannier Private Estates e Hotels

 

Em 2012 terminou a reconstrução do edifício principal da quinta, localizado a três quilómetros da adega. Esta bela casa integra-se perfeitamente na paisagem, num estilo que une a tradição duriense com um design mais moderno, acima de tudo ao nível de interiores. Além de apoiar a estrutura de trabalho da propriedade, o edifício é também um alojamento de charme, aberto ao turismo, integrando-se na rede de unidades Zannier Private Estates e Hotels, espalhadas por França, Espanha, Namíbia, Maurícias, Cambodja e Vietname.

No dia-a-dia da Quinta do Pessegueiro, sobretudo a partir de 2008, e com impacto decisivo no que toca à estratégia, da arquitectura, da imagem e, claro, dos vinhos, têm estado envolvidas três outras pessoas: Célia Varela, Directora-Geral, que acompanhou o nascimento e desenvolvimento do projecto; João Nicolau de Almeida, enólogo responsável pelos vinhos da casa desde a primeira hora; e Hugo Helena, Director de Viticultura e Enologia que, desde 2010, trabalha em estreita colaboração com o enólogo.

Três parcelas

As vinhas da Quinta do Pessegueiro abrangem 28 hectares em produção, distribuídos por três propriedades distintas. A Teixeira é a maior e mais próxima da adega, com 18 hectares, exposta a noroeste, com uma altitude que varia entre 75 e 418 metros. Parte das vinhas foram plantadas no início dos anos 80 do século XXI e, desde 2011, decorreram novas replantações com inúmeras castas. Ali foram igualmente recuperados socalcos pré-filoxera e plantado meio hectare com mais de 30 castas, que deverá originar, no futuro, um field blend muito especial. A seguir vem a vinha do Pessegueiro, propriamente dita, de nove hectares de vinhedos em encostas íngremes viradas a oeste, entre os 197 e os 355 metros de altitude. Vinhas velhas com mais de 110 anos (1,5 hectares) e vinhas plantadas há mais de 40 anos compõem esta área, onde as uvas amadurecem mais tarde. Finalmente, a Afurada tem apenas um hectare, acima dos 500 metros de altitude e com exposição sul.

Em termos de encepamento, predomina, nos tintos, a Touriga Nacional, seguindo-se Touriga Franca, Tinta Roriz, Sousão e Tinto Cão. Numa fase mais recente, plantaram-se outras tintas tradicionais mais raras (Tinta da Barca, Tinta Amarela, Rufete, Alicante Bouschet) e apostou-se decididamente nas uvas brancas, com destaque para Rabigato, pouco comum nesta zona do Cima Corgo, mas que os dois enólogos apreciam particularmente pela vivacidade e frescura, e Folgasão. Todas as plantações foram feitas a partir de seleção massal própria, não foi utilizada seleção clonal.

As três propriedades possuem também, como é habitual no Douro, velhas oliveiras, com as variedades Madural, Cobrançosa, Verdeal, Picual e Carrasquenha. Da apanha manual com extração a frio, a quinta produz um azeite de superior qualidade. E na Teixeira, algumas colmeias permitem, igualmente, uma pequena produção de mel, reforçando, assim, a biodiversidade do terroir, contribuindo, ao mesmo tempo, para o equilíbrio do ecossistema.

Pureza e elegância

A abordagem vitícola e enológica de João Nicolau de Almeida, aqui totalmente apoiada por Hugo Helena, é bem conhecida: vinha velha sempre que seja boa, agricultura biológica, vinificação clássica. Assim se tem feito na Quinta do Pessegueiro, onde, por exemplo, herbicidas não entram nas vinhas, um desafio acrescido face aos diferentes modelos de plantação existentes, que vão dos patamares de um bardo à vinha ao alto, passando por parcelas não mecanizadas com muros tradicionais.

Tradicional é também a vinificação, com a fermentação a decorrer com leveduras indígenas, privilegiando-se lagares de granito com pisa a pé, balseiros de madeira para os tintos e cubas inox e pipos de 600 litros para os brancos. Na adega, os vinhos são separados por parcelas, permitindo exaltar cada uma das suas singularidades, depois conservadas em cubas de pequena dimensão. A ausência total de bombagem (a cuba elevatória é preciosa) permite manter a fruta no seu estado mais puro.

A pureza da fruta é precisamente aquilo que mais marca, e impressiona, os vinhos da Quinta do Pessegueiro. Numa produção relativamente pequena – cerca de 100 mil garrafas, entre Douro e Porto –, esta expressão de fruta é transversal às várias referências, acompanhada de evidente frescura, leveza, equilíbrio e elegância. Estes vinhos, brancos ou tintos, não se destacam pela grande estrutura ou potência, antes pela notável finura e pela absoluta proporção. Parece estar tudo no sítio certo. É esta precisão, esta graciosidade, que define a forma de ser e estar da Quinta do Pessegueiro. Num mercado onde a oferta é gigante e onde não é fácil conjugar qualidade e diferença, isto tem de valer alguma coisa.

(Artigo publicado na edição de Janeiro de 2026)

 

TRÁS-OS-MONTES: O despertar do “reino maravilhoso”

Trás-os-Montes

É acima das nuvens que, junto à capela de Santa Comba, onde a bela pastora se entregou a Deus, que avistamos o território dual de Trás-os-Montes. Inóspito, simultaneamente verdejante, misterioso, mágico ou, como lhe chamava Miguel Torga, um “reino maravilhoso”. Por entre uma manta de retalhos geológicos, avistam-se formações de granito ou de xisto, neste […]

É acima das nuvens que, junto à capela de Santa Comba, onde a bela pastora se entregou a Deus, que avistamos o território dual de Trás-os-Montes. Inóspito, simultaneamente verdejante, misterioso, mágico ou, como lhe chamava Miguel Torga, um “reino maravilhoso”. Por entre uma manta de retalhos geológicos, avistam-se formações de granito ou de xisto, neste território do nordeste de Portugal. É o clima e a morfologia que definem a divisão destes mais de cinco mil quilómetros quadrados, dividido pelas sub-regiões de Chaves, Valpaços e o Planalto Mirandês.

A Terra Fria do Nordeste Transmontano estende-se pelos concelhos de Vinhais, Bragança, Miranda do Douro, Vimioso e Mogadouro, caracterizando-se pela elevada altitude e o clima frio e húmido. Pátria do porco de raça Bísara, da alheira, das chouriças de carne, do azedo e do butelo, do cabrito transmontano e do queijo de cabra e, claro, da posta mirandesa obtida a partir dessa raça magnífica de gado bovino, a Mirandesa. Não esquecendo esse rico e ancestral alimento, a castanha, aqui disponível em, nada mais, nada menos, em 10 variedades. Já a Terra Quente estende-se pelos concelhos de Alfândega da Fé, Macedo de Cavaleiros, Mirandela, Vila Flor, Carrazeda de Ansiães e Valpaços.

Foi precisamente em Valpaços, em vésperas da segunda edição do Trás-os-Montes Wine Experience, evento realizado no belíssimo Vidago Palace, que contou com a presença de uma vintena de produtores e um jantar assinado pelo Chef Vitor Matos, que fomos encontrar Ana Alves, a atual presidente da Comissão Vitivinícola Regional de Trás-os-Montes, que completou, agora, um ano de mandato, após um ato eleitoral com alguns percalços pelo meio. Com 44 anos e licenciada em enologia, iniciou a vida profissional na Adega de Valpaços, esteve envolvida em vários projetos a nível pessoal e, a partir de 2007, ingressou na Comissão Vitivinícola Regional como técnica, função que, dada a exiguidade de pessoal, acumula como presidente da referida entidade regional. O início desta função de liderança não foi fácil e revelou-se, de algum modo, complexa. Mais que racional, foi uma decisão de coração, não apenas sua, mas de toda a Direção, a de agarrar o leme da região. Trás-os-Montes foi notoriamente prejudicada com os incidentes ocorridos durante o processo eleitoral e mostrava-se urgente devolver a boa reputação à região, que, para esta nova direção, era um velho conhecido, apesar de estarem cientes das dificuldades que se lhes deparavam. A afirmação mostrava-se premente, havendo noção que o que se produz é de elevada qualidade e plenamente diferenciador. No entanto, haverá ainda algum preconceito ou aceitação deste território na sua plenitude, mostrando-se absolutamente relevante dar força a Trás-os-Montes e a tudo aquilo que identifica a afirmação da região, impondo-a no mercado.

Trás-os-Montes

 

Inóspito, simultaneamente verdejante, misterioso, mágico ou, como lhe chamava Miguel Torga, um “reino maravilhoso

 

Região diferenciadora

E o que podem os vinhos desta região aportar em identidade e diferenciação? Não há como não valorizar o terroir, assumido como território, solos, castas, orografia, costumes, práticas e, naturalmente, as gentes. Resumidas, talvez três: altitude, clima e solos. Este trio de variáveis dão uma identidade muito própria aos vinhos e viticultura de montanha, assumida pelas vinhas plantadas em cotas que vão dos 400 aos 800 metros de altitude, o que representa a grande maioria dos vinhedos da região, encontrando-se as cotas mais altas no Planalto Mirandês. O fator altitude mostra-se relevante pela moderação nas temperaturas e amplitudes térmicas mais regradas, garantindo uma marca evidente nos vinhos, aportando-lhe acidez natural mais elevada, maior frescura e destaque dos aromas primários.

A grande maioria dos solos são xistosos. Depois existem os afloramentos graníticos. A maior área de vinha ainda está implantada em solos graníticos, não obstante haver diversas parcelas em solos xistosos. A conjugação da altitude com esta tipologia também permite diferenciar o perfil dos vinhos: os de solos xistosos possuem maior matéria corante, maior concentração e, em tese, um teor alcoólico mais elevado. A heterogeneidade do território mostra-se através da diferenciação dos solos, podendo afirmar-se que, em Trás-os-Montes, é na terra de composição granítica que se obtêm os perfis mais frescos, com maior acidez, facto que promove a dita diferenciação nos vinhos desta região.

O encepamento de Trás-os-Montes apresenta semelhanças com a região duriense. A Tinta Amarela é, em termos absolutos, a casta mais plantada na região, e se falarmos de vinhas velhas, esta variedade é sempre a que predomina, mesmo nas vinhas mais antigas. Houve uma aposta muito forte nesta casta por toda a região, sobretudo na última década, a qual se traduz na crescente produção de monovarietais no mercado. Sendo uma uva muito sensível a doenças na região vizinha, o Douro, em Trás-os-Montes encontra, provavelmente, o melhor habitat e as melhores condições para se desenvolver de um modo imaculado, beneficiando da menor humidade e temperaturas mais frias no inverno, o que lhe permite um estado de hibernação sem interferência de pragas, que se desenvolvem com temperaturas mais elevadas.

Nas castas brancas há mais diversidade, cabendo uma maior predominância da Códega de Larinho, da Viosinho, da Gouveio e da Verdelho, aportando, estas duas últimas, elevada acidez aos vinhos, além de que também são as predominantes nas vinhas velhas. As qualidades destas castas são propícias à produção de vinhos cheios de tensão, perceção de mineralidade e frescura, que também inspiram os produtores a nelas apostar com maior determinação, dando azo à cada vez maior aposta em monovarietais, entendendo-se que este é o caminho e o perfil de diferenciação, e identidade da região. Há registo ainda de outras castas, como a Malvasia Fina e a Fernão Pires, com menor expressão, mas igualmente úteis para finalização e aperfeiçoamento dos lotes.

À semelhança de outras regiões, Trás-os-Montes também padece do fenómeno de diminuição substancial da área total de vinha. Os fatores são diversos. Entre eles constam os transversais ao território nacional, como a falta de mão-de-obra, o exponencial aumento dos custos de produção, bem como o envelhecimento dos agricultores e a falta de motivação das mais novas gerações, que não olham para a cultura da vinha como uma atividade aliciante. As dificuldades por que têm passado as adegas cooperativas também não são despiciendas, nomeadamente na falta de dinamismo e incapacidade para uma gestão mais avisada, levando os pequenos viticultores a uma situação de insegurança e desconfiança.

Vinhas antigas

O genoma de Trás-os-Montes não pode ser dissociado do riquíssimo património vitícola ali existente. As vinhas velhas são e podem vir a ser o fator determinante para a afirmação dos vinhos da região no país e, até mesmo, fora de portas. Ana Alves, refere que a comissão faz um esforço onde cabe o lado emotivo e de sensibilização dos agricultores na preservação dos vinhedos antigos, dando-lhes conta da mais-valia que os mesmos podem originar, uma vez que tudo o que é singular, terá maior aptidão a ser valorizado, não obstante o menor rendimento que essas mesmas vinhas dão origem. A viabilidade deste património passa pelo posicionamento dos vinhos de vinhas velhas num patamar de preço mais elevado, desde que isso também se traduza na valorização da uva no produtor. Felizmente, é um fator já há vários anos considerado, pelos principais produtores engarrafadores, como alavanca de valorização do património e, por via disso, da própria região. Das três sub-regiões, é no Planalto Mirandês que a política de valorização dos vinhedos mais antigos é mais premente, pelo facto de ser nesse território onde estão as maiores manchas de vinhas velhas e onde também há um maior número de castas autóctones, que as transformam num verdadeiro tesouro histórico da região. Falta, no entanto, a ousadia de valorizar o produto que se coloca no mercado, vencendo, sem pudor, um certo estigma que a região ainda não ultrapassou.

Para Amílcar Salgado (Quinta de Arcossó), a Tinta Amarela, em Trás-os-Montes, é uma casta que vale pelas suas características e pela perfeita adaptação ao território da região, tendo como mais-valia não necessitar de qualquer correção, revelando sempre teor alcoólico e acidez em perfeito equilíbrio. Será, para a Quinta de Arcossó, a casta que melhor se afirma no contexto da região e aquela que melhor identidade de terroir expressa, graças aos seus herbáceos conjugados com a fruta límpida, sendo sempre desafiante e arrojada. Fruto da sua rebentação mais tardia, é muito menos propensa ao desenvolvimento de doenças. É uma casta que desde sempre existiu na Quinta do Arcossó, sendo intemporais as vinhas, uma vez que não há qualquer registo das suas datas de plantação.

Rui Cunha, enólogo com profundo conhecimento de Trás-os-Montes, onde, há 29 anos, trabalha com Valle Pradinhos, enaltece igualmente as virtudes da Tinta Amarela na região. Porém, alerta para a enorme diversidade de clones da casta, predominando os mais produtivos, que são totalmente díspares das características desta variedade em vinha velha. Em Valle Pradinhos, o trabalho desenvolvido tem incidido na busca de vinhas velhas, uma vez que a enxertia não se mostra qualitativamente interessante, dadas as características da maioria dos clones disponíveis.

A mancha de vinha velha na região também diverge de uma sub-região para outra. O Planalto Mirandês, por exemplo, possui manchas de pequena dimensão, mas de elevado valor, com a Tinta Gorda a dominar. As maiores manchas, nas duas outras sub-regiões, possuem mais diversidade de castas, brancas e tintas, que permitem criar, por exemplo, vinho palhete, muito em voga nas tendências de consumo contemporâneas. Para Rui Cunha, a via de afirmação com uma identidade própria e singular tem de se alhear do Douro, como tem feito, insistindo na plantação de Touriga Nacional e Touriga Francesa, por forma a determinar o próprio caminho através da recuperação das castas mais típicas deste território e abandonar a produção de vinhos ao estilo do Douro, concentrados, alcoólicos e com muita expressão da madeira. Trás-os-Montes ainda insiste nesta mimética e essa linha não é, certamente, a identidade desta região, nem aquilo que o mercado hoje procura.

Lagares rupestres

A narrativa de Trás-os-Montes não pode ignorar o vasto número de lagares rupestres, muitos deles datados da ocupação romana e ainda existentes no território. É um dos vetores no modo como se pretende promover a região, percebendo-se que são uma evidente mais-valia. Para tal, desenvolveu-se um trabalho que incide neste legado ancestral, sobretudo no concelho de Valpaços, onde existem 113 lagares rupestres identificados.

Preservando uma riqueza arqueológica e cultural de enorme relevância, a comissão vitivinícola procurou meios para dinamizar estes achados, colocando essa identidade num vinho único que está a ser feito em Trás-os-Montes. Junto do Instituto da Vinha e do Vinho, certificou-se uma metodologia ancestral, que passa pela identificação prévia de vinhas velhas, comprovadamente com mais de 40 anos, sendo obrigatório que as massas vínicas sejam daí provenientes. De acordo com a regulamentação aprovada, as uvas são pisadas ou prensadas num dos lagares rupestres devidamente certificado e que conste no cadastro existente na Comissão Vitivinícola Regional, sendo vedada a utilização de qualquer solução enológica, com exceção do sulfuroso, de modo a tentar produzir um vinho que, teoricamente, é semelhante àqueles que ali teriam sido feitos há mais de 2000 anos.

A certificação de vinhos de lagares rupestres é algo inédito em Portugal e, julga-se, em todo o mundo. Atualmente, Trás-os-Montes já possui três produtores a certificar vinhos elaborados em lagares rupestres – Quinta do Salvante (Torcolarium), Sociedade Agrícola O Ferrador (Flandório Vinho de Lagar Rupestre) e Junta de Freguesia de Vale de Telhas (Pinetum) – e, dado o manifesto interesse de outros produtores, crê-se que, em breve, outros surgirão.

 

Provar Trás-os-Montes

Promoção e valorização são as bandeiras que a Comissão Vitivinícola Regional mais ergueu neste primeiro mandato, traduzidas em iniciativas de cariz regional, nacional e internacional. No âmbito de proximidade, desenvolveu-se o projeto que pretende implementar, na restauração da região, uma carta de vinhos “Eu provo Trás-os-Montes”, com o propósito de impulsionar uma maior apetência para servir vinhos certificados da região, em espaços onde a presença dos vinhos locais ainda é deficitária, colmatando-se a lacuna e valorizando a gastronomia local. Estranhamente, a restauração e a hotelaria da região ainda estão um pouco de costas voltadas aos vinhos de Trás-os-Montes. E, se à semelhança do que se passa, por exemplo, na região do Algarve, a hotelaria e a restauração deste território tivessem maior sensibilidade, apostando de forma veemente no consumo deste produto da região, garantidamente que os problemas de escoamento seriam ultrapassados.

Para aderir a este projeto, cada restaurante terá de possuir um mínimo de 10 referências de, pelo menos, cinco produtores de Trás-os-Montes. Cumpridos os requisitos, a comissão vitivinícola faculta as cartas físicas, os estabelecimentos passam a constar do site desta entidade regional. Por sua vez, cada um ostentará um selo que atesta ser um dos aderentes a este projeto de alavancagem dos vinhos da região, fomentando uma rede mobilizadora. O intuito é, já em 2026, ter esta medida totalmente implementada. No âmbito deste projeto, estão desenhadas ações de formação junto dos aderentes, que terão por base análise sensorial, serviço de vinhos e informação sobre castas e vinificação.

As ações a nível nacional também têm sido diversas no último ano, desenvolvendo-se através da participação dos produtores, tendo em conta a dimensão, perfil e estratégia de cada um, dando-os a conhecer a profissionais, canais de distribuição e consumidores finais. O “Eu provo Trás-os-Montes” já viajou por Lisboa, Porto e Algarve, com a finalidade de procurar uma implantação forte nos mais relevantes mercados do território nacional. A aceitação foi uma absoluta surpresa, nomeadamente no Algarve, onde os vinhos de Trás-os-Montes eram ainda desconhecidos, tendo a iniciativa aberto a porta a vários produtores, com a vertente negocial deste projeto a começar a dar bons frutos. A nível internacional, as iniciativas passaram pelo Brasil, com sete produtores, sendo este o mercado mais importante nas exportações de Trás-os-Montes, dando continuidade a um trabalho que teve um interregno, voltando agora a ser retomado.

A exportação ainda está num estado incipiente, representando apenas 17% do volume da produção. A Prowein Brasil e a Vinhos e Sabores, em São Paulo e Rio de Janeiro, foram os destinos da iniciativa com registos muito positivos em relação à região.

Trás-os-Montes

Não há como não valorizar o terroir, assumido como território, solos, castas, orografia, costumes, práticas e, naturalmente, as gentes

 

O enoturismo como alavanca

No que concerne ao enoturismo, e à sua preponderância como elemento determinante na faturação dos produtores, há todo um longo caminho a percorrer, com uma importância ainda residual. Neste momento, há uma tarefa de consciencialização do produtor para o valor que representa o enoturismo como fator de alavancagem da atividade. É visível uma ligeira adaptação por parte de um número ainda muito pequeno de produtores que já procuram afirmar o bem receber, o qual se traduz num volume assinalável de vendas à porta da adega, através da estruturação de programas e valências, visitas às vinhas, entre outras experiências, como passar o dia com enólogo, fazer o próprio lote e jantares vínicos. Apesar do valor ainda incipiente, acredita-se que esteja a crescer.

Exemplar tem sido o trabalho da Quinta das Corriças, do Pedra Pura Resort e de Valle de Passos, que se distinguem por possuírem a componente dormida nos programas para visitantes. Sente-se que faltam criar mecanismos de união, através de uma rota de turismo que congregue cada umas destas experiências, de modo a gerar dimensão e valor. Não existindo uma rota vendável, prevê-se, para 2026 e 2027, um plano, no âmbito de medidas de financiamento, vocacionado para o enoturismo e para a região norte, numa candidatura conjunta, que terá o intuito de formalizar a criação de uma Rota de Trás-os-Montes integrada na Grande Rota dos Vinhos e do Enoturismo do Norte. Informalmente, esta já possui cinco aderentes: Arcossó, Casa do Joa, Quinta das Corriças, Encostas de Sonim e Casa Grande do Seixo.

Se muito há para lapidar neste território, que tudo parece ter, nota-se que há uma vontade férrea de elevar esta região. Pelo pouco que vimos, há um trabalho intenso que, compensando oportunidades perdidas, augura, agora, algo absolutamente brilhante para Trás-os-Montes, ansiosa para ser descoberta e explorada.

A Tinta Amarela é, em termos absolutos, a casta mais plantada na região, e se falarmos de vinhas velhas, esta casta é sempre a que predomina, mesmo nestas mais antigas

 

Trás-os-Montes em Lisboa

No seguimento da segunda edição do Trás-os-Montes Wine Experience, 10 produtores deste território vitivinícola marcaram presença no restaurante O Nobre, em Lisboa, para Prova & Jantar a Quatro Mãos, em que a chef Justa Nobre, da casa, convidou Óscar e António Geadas, respetivamente, chef o escanção do restaurante G, da Pousada de Bragança. Objetivo? Dar mais visibilidade à região. Na lista de participantes constaram os projetos Casa José Pedro, Casa do Joa, Flandório, José Preto, Ninho da Pita, Quinta do Salvante, Quinta Serra D’Oura, Villela Seca, Vinho dos Mortos e Vinhas Velhas Mogadouro. “Abrimos o convite a todos os produtores, com o critério de virem a Lisboa os primeiros inscritos”, justificou Ana Alves, que refere a existência de “110 agentes económicos a produzir vinho e 120 marcas no mercado”.

Sobre o território, “uma manta de retalhos de paisagem e de vinhas”, com uma área total de 9.000 hectares, está ocupada por vinhas antigas, a presidente de Comissão Vitivinícola Regional de Trás-os-Montes frisou: “a região faz-se a partir de todos estes projetos, desta diversidade de produtores de vinhos identitários.” E acrescenta “o potencial para a produção de vinhos biológicos”, favorecido pela altitude e pelo clima rigoroso: invernos muito frios e verões muito quentes.

Além do vinho, à mesa fizeram furor a dezena de produtos DOP e IGP Trás-os-Montes: alheira de Mirandela, salpicão de Vinhais, azeitonas ou alcaparras, pão, queijo, azeite, castanhas, cuscus de Vinhais, porco de raça Bísara e amêndoas. Uma parte protagonizou os pratos dos chefs Justa Nobre e Óscar Geadas, entre receitas de infância e as origens de uma cozinha de família.