GRANDE ENTREVISTA: LUÍS SOTTOMAYOR

Luis Sottomayor

“O Legado nasce na terra, o Barca Velha, na sala de provas”   O que te levou a enveredar pela enologia? Nasci no Porto, mas, na verdade, sou natural de Moreira da Maia. Na altura, a quinta onde eu vivi a minha infância e juventude era campo. A cidade da Maia ainda não tinha lá […]

“O Legado nasce na terra, o Barca Velha, na sala de provas”

 

O que te levou a enveredar pela enologia?

Nasci no Porto, mas, na verdade, sou natural de Moreira da Maia. Na altura, a quinta onde eu vivi a minha infância e juventude era campo. A cidade da Maia ainda não tinha lá chegado. E vivíamos ao ritmo das estações, da apanha das batatas, das ceifas, do gado, do corte da lenha na mata para os fogões e para o aquecimento. E fazia-se lá um vinho, um Verde de uvas de ramadas. Desconfio que não seria grande coisa, pois lembro-me de ouvir o meu pai, que era enólogo – foi, aliás, dos primeiros portugueses a ir estudar enologia para fora, em Dijon – dizer que era intragável, algo que enfurecia muito a minha avó materna, a matriarca da casa. Era um tinto de lagar e eu lembro-me bem de todo esse processo, a vindima, a prensagem, a preparação das pipas e tonéis…

 

O teu pai teve influência na tua orientação profissional?

Sim, claro, mas não só. Ele era enólogo numa empresa de Vinho do Porto, mas a família também tinha propriedades no Douro. Por exemplo, a Quinta do Seixo foi construída pelo meu trisavô paterno e a Quinta do Bom Retiro pertenceu à minha família até 1919. Todas essas raízes e vivências tiveram influência na minha decisão de seguir enologia. Eu via fotos do meu pai, de bata na sala de provas, rodeado de copos e garrafas, e lembro-me que, desde miúdo – para além da fase comum a todas as crianças de querer ser jogador de futebol, bombeiro, etc. –, tive o sonho de mexer com vinhos.

 

Estudaste em França e na Austrália, duas escolas completamente distintas, senão opostas. Quais foram, para ti, os principais ensinamentos que recolheste de cada uma delas?

A escola francesa de Dijon, nos anos 80, era ainda muito tradicionalista. A enologia era muito desligada da viticultura, por exemplo. Mas era excelente em termos de prova e de trabalho de adega. O curso que fiz depois pela Universidade Charles Sturt, uma escola especializada no ensino à distância, foi feito na Universidade Católica do Porto, durante dois anos, e terminou com uma viagem de estudo à Austrália, durante um mês e meio. Aí, a componente vitícola era bastante mais intensa. Os australianos já tinham um entrosamento grande entre a viticultura e a enologia.

 

“Sou apaixonado por aquela quinta. A funcionalidade da adega, a diversidade da vinha, a beleza esmagadora da paisagem, aquele Douro Superior austero e quase selvagem. Sempre que posso, fujo para a Leda…”

Luis Sottomayor

Até entrares na Ferreira, em 1989, por onde andaste?

Quando vim de França, em 1988, fui fazer a vindima para a João Pires, na Península de Setúbal. O pai da minha então namorada, hoje minha mulher, conhecia o António Francisco Avillez e arranjou forma de ele me receber como estagiário na vindima de 1988. E acabei por ficar mais algum tempo. Foi extremamente interessante para a minha aprendizagem, pois o responsável era o Peter Bright, um enólogo australiano que tinha uma ideia totalmente diferente do que era a enologia portuguesa da época. Foi uma excelente escola para mim, um período riquíssimo em ensinamentos. O Peter Bright tinha uma enorme intuição, olhava para as uvas e percebia de imediato o perfil de vinho que podia fazer com elas. Embora o período na João Pires tenha sido muito curto, marcou-me bastante, e, ao longo da carreira, procurei usar vários dos conceitos que ali apreendi.

Depois, num fim de semana que vim passar a casa, o meu pai disse-me que tinha falado em mim às pessoas da Ferreira e fui chamado para uma conversa com José Maria Soares Franco. Voltei a Lisboa, nunca mais pensei no assunto, mas passado algum tempo, recebi de José Maria o convite para vir trabalhar na Ferreira, já integrada na Sogrape desde 1987. E por cá fiquei.

 

Quando chegaste, em 1989, a Sogrape já tinha Barca Velha, Vinha Grande, Esteva, Planalto. Mas nessa época a dimensão do negócio DOC Douro nada tinha a ver com o que é hoje. Que impacto teve para ti, enquanto enólogo, o crescimento do “Douro para além do Porto”?

A dimensão é hoje muito maior, é verdade. Mas, apesar de tudo, a Ferreira já tinha bastante DOC Douro. Para mim, o mais marcante, foi a diferença de cultura entre uma empresa de vinhos tranquilos com algum fortificado (João Pires) e uma empresa de fortificados com algum vinho tranquilo (Ferreira). Na João Pires, em 1988, eu andava com um ajudante numa camionete, com uma prensa e um esmagador, a fazer a vindima em Carcavelos, por exemplo, carregando mangueiras de um lado para o outro, muito “à australiana”. Na Ferreira, na vindima de 1989, se agarrava numa mangueira vinha logo alguém a correr tirá-la da minha mão. Para o funcionário de adega, era quase um insulto eu estar a fazer um trabalho que deveria ser dele. Mas o fortificado, o Porto, era, de longe, o mais importante. Primeiro fazia-se o Porto, que representava três quartos de tudo o que fazíamos, e só depois vinha o momento de fazer Douro.

 

Quando é que sentiste que a vinha começou a entrar no dia a dia da enologia do Douro?

Quanto entrei na Sogrape, em 1989, a empresa era proprietária, no Douro, da Quinta do Seixo, Quinta do Porto e Quinta da Leda, que tinha, na altura, trinta e poucos hectares de vinha. E havia, claro, muitos lavradores com quem trabalhávamos. Mas o “ir à vinha” não era assim uma coisa tão significativa para a enologia. Havia pessoas que tratavam disso, não era propriamente o enólogo. Conversávamos com quem acompanhava a vinha, havia um controlo da maturação, marcava-se a vindima, mas não havia consciência da importância de estarmos “por dentro” da vinha. Da diferença que era fazer um vinho Tinta Roriz com monda ou sem monda, por exemplo. Ou da diferença que fazia ter uma casta plantada no local indicado para ela. Isso foi algo que fomos adquirindo com o tempo. A “escola australiana” foi, para mim, fundamental para ganhar essa percepção. Paralelamente, a partir de 1992, a Sogrape começou a adquirir propriedades no Douro, começando com a Quinta do Caêdo. À medida que novas propriedades se juntavam às quintas da Ferreira, e que se faziam reestruturações e plantações, a vinha começou a ganhar peso na Sogrape e no dia-a-dia da enologia.

Luis Sottomayor

“Quando cheguei, em 1989, não podia entrar livremente na sala de provas. José Maria Soares Franco e Manuel Vieira estavam lá dentro, juntamente com o senhor Fernando Nicolau de Almeida. Eles provavam, e eu ficava à porta, à espera”

 

Quando entraste na Sogrape era mais adega ou sala de provas?

O período de vindima era muito intenso e concentrado, dominado pelos ritmos da produção de Porto, 24 sobre 24 horas. Depois, o resto do ano era muito mais sala de provas. Mas a sala de provas era um espaço muito especial, não se chegava lá de imediato. Eu cheguei em 1989 e até meados de 1991 não podia entrar livremente na sala de provas. José Maria Soares Franco e Manuel Vieira estavam lá dentro, juntamente com o senhor Fernando Nicolau de Almeida que, embora reformado, ia todos os dias à Sogrape. Eles provavam e eu ficava à porta, à espera. Só quando acabavam de provar é que abriam a porta. Eu entrava e explicavam o que tinham feito. E eu ficava a ouvir. E só passado uns meses me deixaram provar.

Esse processo de integração, a dada altura, avançou rapidamente, porque a Sogrape tinha acabado de comprar a Quinta dos Carvalhais, estava a construir a adega, e Manuel Vieira e José Maria Soares Franco passavam muito do seu tempo no Dão. Por outro lado, um dos provadores principais faleceu inesperadamente. Como resultado, fiquei sozinho na sala de provas a ter de tomar decisões sobre os lotes. A minha sorte foi o senhor Fernando Nicolau de Almeida. Nessa altura, socorri-me da sua experiência e conhecimento, aprendi muitíssimo com ele na elaboração dos lotes, não apenas de vinho do Porto, mas também dos vinhos do Douro, sobretudo o chamado Douro Especial, a base do Ferreirinha Reserva Especial e do Barca Velha. E a Fernando Nicolau de Almeida, dava um prazer imenso, apesar de reformado, continuar a ser chamado por José Maria Soares Franco, para participar nas decisões sobre o Douro Especial.

 

Falemos então – é incontornável – do Barca Velha, um vinho que desde a sua criação, em 1952, só teve três enólogos responsáveis. Quando o testemunho do “Douro Especial” passa de mãos, como passou de Fernando Nicolau de Almeida para José Maria Soares Franco e deste para ti, e como irás passar ao teu sucessor, qual deve ser a postura do novo enólogo? Mais conservadora, de continuidade, ou mais inovadora, introduzindo mudanças, mesmo que pequenas?

Eu diria que deve ser uma postura mais conservadora. Porque se dermos um passo em falso, corremos o risco de estragar um trabalho de mais de 70 anos. É evidente que devemos tirar partido dos desenvolvimentos qualitativos na vinha e na adega, para conseguirmos fazer Barca Velha mais vezes e em maior volume. Mas atenção: há limites. Com as vinhas e adegas de que dispomos actualmente, poderíamos fazer uma grande quantidade de Barca Velha. Só que, hoje, somos bem mais exigentes do que éramos nos anos 70 e 80. Porque o mundo mudou, o Douro mudou. A concorrência no “campeonato” dos grandes vinhos é muito maior. Se nós facilitamos um pouco, corremos o risco de ser ultrapassados. Há belíssimos vinhos no Douro e em Portugal. Por isso, o nosso nível de autoexigência tem de ser altíssimo, impondo a nós mesmos critérios cada vez mais apertados. E dá-nos imenso prazer perceber, nas provas comparativas que fazemos, que o Barca Velha continua a destacar-se. E, obviamente, também registamos com muito agrado, que o apreciador reconhece esse estatuto.

 

Sei que tens um carinho muito particular pela Quinta da Leda, uma propriedade que viste crescer, em todos os sentidos. O que é que a Leda tem de tão especial?

A Leda é importantíssima, é crucial para o projecto Sogrape no Douro. E digo isto racionalmente, mesmo sabendo que o meu apreço pela Leda tem alguma componente emocional, porque foi para a Leda que fui trabalhar quando entrei na Sogrape. Assisti às enormes mudanças que ocorreram desde então e participei em todas elas, com menor grau de responsabilidade primeiro, com muito maior peso depois. A construção da adega da Quinta da Leda, em 2001, foi um momento absolutamente histórico, revolucionário. Estive lá recentemente com José Maria Soares Franco, que deixou a Sogrape em 2006 e que, 20 anos depois, revisitou a adega da qual foi primeiro responsável, e chegámos à mesma conclusão: ainda hoje a adega da Leda continua a ser a mais prática e funcional que nós conhecemos. E conhecemos muitas! A adega da Leda tem algo que a distingue das outras: apesar de fazer dois milhões de quilos, tem uma dimensão humana. O enólogo sente o pulsar da adega, nada do que ali acontece lhe escapa.

E depois, há a vinha…

Sou apaixonado por aquela quinta. Não é que não goste das outras propriedades da Sogrape no Douro, antes pelo contrário, cada uma tem características fascinantes. E com a Quinta do Seixo até tenho um histórico familiar. Mas a Leda é diferente de tudo. Eram menos de 40 hectares de vinha quando cheguei, hoje são 160, fruto de sucessivas, muito pensadas e bem planeadas plantações. E, para além da dimensão, a diversidade: são 16 tipos de solo já estudados, variadas altitudes e exposições solares. Tudo isso empresta às uvas da propriedade uma complexidade fora do comum. E finalmente, a beleza esmagadora da quinta, a paisagem, aquele Douro Superior austero e quase selvagem. Sempre que posso, fujo para a Leda…

 

Apesar do potencial da quinta e da enorme qualidade dos vinhos ali produzidos, o Quinta da Leda tinto ainda não alcançou no mercado a notoriedade que merece. Ter acima dele, na hierarquia Ferreira, nomes como Reserva Especial ou Barca Velha é demasiado peso?

Eu não sou especialista em marketing, longe disso. Mas sei que o Quinta da Leda tinto é feito com todos os cuidados, na propriedade onde nasce o Barca Velha e o Reserva Especial. E parte das uvas até são as mesmas. Sei que a sombra desses ícones pesa e, de algum modo, abafa a notoriedade do Quinta da Leda. Mas acho igualmente que, quando lançámos o Quinta da Leda como blend, na colheita de 1997, não fomos suficientemente ambiciosos no seu posicionamento em termos de preço e de marca. O vinho merecia mais. E depois de tantos anos, é difícil reposicionar.

 

Deixa-me mudar a conversa para os vinhos brancos. Existe o histórico Planalto, que já ultrapassou os 3 milhões de litros, algo impensável há alguns anos. Há também o mais recente Vinha Grande branco. Mas não parece ter havido grande interesse em criar um branco de topo. Algo que contrasta com o crescente interesse do mercado pelos brancos durienses de primeira grandeza. Como avalias o potencial do Douro para a criação de grandes brancos? E para quando um branco de topo na Ferreira?

O potencial é bem evidente no reconhecimento que os melhores brancos do Douro têm vindo a alcançar junto dos apreciadores. A região tem esta capacidade única e maravilhosa: é possível fazer vinhos de grande maturação a baixas altitudes e vinhos de enorme leveza, elegância e acidez – mas sempre com concentração e sabor – nas zonas altas. E os vinhos brancos do Douro têm tido o reconhecimento merecido.

Sem querer fugir à pergunta sobre o “grande branco da Ferreira”, deixa-me dizer que, tal como acontece com o Quinta da Leda, o Vinha Grande branco também entrega muito mais do que aquilo que se paga por ele. Para mim, é um branco de primeira linha.  nós sabemos possuir todas as condições para fazer vinhos brancos ainda mais ambiciosos. E estamos a trabalhar para isso. Em breve haverá novidades.

 

A base desse branco de topo será a Quinta do Sairrão?

Será um mix entre uvas do Sairrão e de zonas mais altas do Douro Superior. Mas, sobre isso é tudo o que posso dizer por agora…

Luis Sottomayor

Um dos maiores casos de sucesso dos últimos anos foi o Papa Figos, um vinho de grande impacto comercial que ditou tendências e se tornou o padrão do segmento. E que foi criado por ti de raiz. Quando o projecto Papa Figos começou a ser construído, o que é que te foi pedido pela administração?

Pediram-me para fazer um vinho diferente do Esteva – marca com longa história e perfeitamente consolidada –, claramente mais ambicioso, mas também fácil de beber, jovem, atraente, guloso. E, sobretudo, com o carácter Douro bem vincado. A experiência ajuda-nos muito. E conhecendo a região e a origem da grande maioria das uvas do Esteva, foi fácil perceber o caminho a seguir: é ir para o Douro Superior. Não para zonas demasiado baixas, para evitar sobrematurações, mas de média encosta, onde encontramos uvas com boa maturação, mas ainda cheias de fruta e com aqueles taninos naturalmente gordos e polidos que caracterizam o Douro Superior.

 

E como lidaste com o enorme crescimento da marca em volume? Tem sido fácil encontrar a matéria-prima com as características pretendidas?

O Papa Figos, na colheita de 2010, nasceu com 110 mil garrafas. Hoje estamos a falar em cerca de 2 milhões de litros, 2 milhões e 600 mil garrafas em números redondos. É evidente que este crescimento implica desafios, mas tem sido relativamente fácil resolvê-los. Não esqueçamos que a Sogrape tem 600 hectares no Douro. Logo aí temos uma boa âncora de uvas que nos sobram depois de fazermos o Porto e os vinhos de maior prestígio. Essas uvas representam entre 30 a 40% do que precisamos para o Papa Figos. Depois temos mais de 1000 lavradores, com quem trabalhamos há muito tempo, sabemos quem pode disponibilizar as uvas que precisamos. Escolhemos sobretudo lavradores do Douro Superior, cujas uvas são vinificadas na Leda e na Adega de Vila Real, recentemente modernizada e preparada para fazer volumes com grande qualidade. Com uva própria e adquirida, cobrimos praticamente 100% das necessidades do Papa Figos. Mas se ainda assim não for suficiente, temos fornecedores que conhecemos bem e que nos podem entregar lotes de vinho com o perfil que pretendemos. Deste modo, temos conseguido manter o perfil e qualidade estabelecidos para o Papa Figos, apesar do grande aumento de volume.

 

Como enólogo, és conhecido, sobretudo, pelos vinhos Douro, com o Barca Velha à cabeça. Mas o vinho do Porto continua a ser incontornável no teu trabalho. E assististe de perto à transição ocorrida no final dos anos 80, com o provador clássico de Gaia a dar lugar ao enólogo, com formação científica. O que é que o segundo aproveitou da arte do primeiro?

Eu acredito que os vinhos do Douro beneficiaram imenso com o conhecimento e a prática do vinho do Porto. Desde logo, a fermentação. No Porto não se falava de castas, a fermentação era feita em conjunto. Nós, para muitos vinhos Douro, continuamos a utilizar essa filosofia: o lote começa a ser feito na vinha, misturando origens mais do que castas. Depois, o lote final. O facto de estarmos todos os dias na sala de provas, a fazer lotes de Porto, ajuda-nos muito a identificar e diferenciar as componentes dos lotes para Callabriga, Vinha Grande ou Quinta da Leda, a perceber qualidades e perfis, como vinhos de distintas parcelas ou origens se complementam. A arte do lote que os provadores clássicos tinham acabou por transitar para o vinho do Douro, com enormes vantagens.

 

Nos anos 90, dizia-se que as casas de origem inglesa eram especialistas de Vintage e as casas portuguesas faziam os melhores Tawny. Como se enquadra a casa Ferreirinha nesse histórico?

Quando entrei, em 1989, havia realmente essa ideia estabelecida. Mas devo dizer que, já nessa altura, quem assim pensava estava errado. Hoje, eu provo Ferreira Vintage 1934 ou Vintage 1952 e encontro vinhos absolutamente extraordinários. E já em 1989 provava excelentes tawnies velhos de casas inglesas, Symington por exemplo. Creio que esse conceito de casa inglesa versus casa portuguesa tem a ver sobretudo com o mercado. O mercado britânico queria sobretudo Vintage e, naturalmente, privilegiava as casas de origem inglesa; e o mercado português queria sobretudo Tawny e privilegiava as casas portuguesas.

O que sempre houve, isso sim, foram distintos perfis de Vintage. Eu estou à vontade para falar nisso, porque a Sogrape é, desde 2002, proprietária da Sandeman, casa de origem britânica. O Vintage Sandeman era o paradigma do clássico, robusto e potente, e o Ferreira era orientado para a harmonia e elegância. Hoje, podemos provar um Sandeman 1963 e um Ferreira do mesmo ano e estão ambos em grande forma, um não evoluiu melhor do que outro. E ainda hoje os perfis distintos caracterizam estas marcas. Portanto, essa ideia de que os ingleses eram bons em Vintage e os portugueses em Tawny não tem qualquer razão de ser.

Luis Sottomayor

“Com as vinhas e adegas de que dispomos, poderíamos fazer uma grande quantidade de Barca Velha. Só que, hoje, somos bem mais exigentes do que éramos nos anos 70 e 80. Porque o mundo mudou, o Douro mudou”

 

Vou deixar-te um conjunto de perguntas curtas para respostas concisas, no plano profissional e pessoal. Primeiro, ao Luís Sottomayor enólogo. Touriga Nacional ou Touriga Francesa, e porquê?

O que eu gosto é do blend das duas. Num ano frio, mais Touriga Francesa e menos Nacional. Num ano mais quente, mais Nacional e menos Francesa.

 

Blend de Tourigas, Nacional e Francesa ou Vinhas Velhas? Ou, se quiseres, Barca Velha ou Legado?

Isso é como perguntares se gosto mais de caçar perdizes ou galinholas… Gosto muito de ambas e de ambos os vinhos, em perfis completamente diferentes. Mas, simplificando, podemos dizer que uma vinha velha faz o vinho, o vinho já nasce ali feito. Por outro lado, num vinho de base Nacional e Francesa vamos buscar o que aprendemos com o vinho do Porto, o lote. O Legado vem da terra, é aquilo que ali está; o Barca Velha vem da sala de provas, como se fosse um Vintage. Um Reserva Especial ou um Barca Velha nunca poderia vir de vinhas velhas. Seria um outro vinho, sem nada a ver com o estilo da marca.

 

Vintage ou Tawny velho?

Resposta difícil. Mas acredito que um grande Vintage muito velho, com os aromas e sabores criados com o tempo de garrafa, é imbatível. É para beber de joelhos…

 

E agora, para o Luís Sottomayor apreciador de vinhos, alguns desafios. Aí vai o primeiro: uma região de brancos e uma de tintos fora de Portugal?

Tintos, pode ser Borgonha. E brancos também…

 

É a escola de Dijon a deixar marca… A mesma pergunta, mas agora em Portugal e deixando de fora o Douro, senão já saberia a resposta…

Brancos, o Dão. Nos tintos, acho que Trás-os-Montes pode ter uma relevância extraordinária.

 

Um branco e um tinto do Douro que aprecies particularmente. E Ferreirinha não conta…

Gosto muito do tinto Chryseia. E gosto muito do branco Guru.

 

E qual o Barca Velha que mexe mais contigo, que corresponde melhor ao teu perfil de apreciador?

O 2008. Pela contenção, austeridade e potencial de longevidade.

 

Última pergunta. Ainda faltam uns anos para a tua reforma, mas sei que uma das tarefas de que é incumbido um responsável de enologia na Sogrape é formar e designar os seus sucessores, deixando o futuro preparado. Que conselhos darias aos mais jovens, com quem trabalhas, e que te irão suceder um dia?

Há poucos dias organizei um encontro entre os elementos da minha equipa e os profissionais que já aqui estavam antes de mim, e que tiveram um papel fundamental não apenas na Ferreira, mas também na região do Douro. Portanto, o conselho é este: muito mais do que ter boa formação e ser-se bom enólogo, é preciso conhecer em profundidade a história, a cultura, a geografia, o carácter da região e dos vinhos que fazemos. E para isso é preciso falar com as pessoas que cá estiveram e é preciso saber ouvir.

(Artigo publicado na edição de Agosto de 2026)

 

QUINTA NOVA DE N. SRª DO CARMO: Serenidade na mudança

Quinta Nova

Fiel às origens, a Quinta Nova de Nossa Senhora do Carmo, localizada no concelho de Sabrosa, pertencente à região do Douro, assume que o tempo é de mudança de atitude. Não porque se renegue o passado, mas sobretudo porque o futuro será exigente, e quem se preparar antecipadamente, terá maiores possibilidades de sucesso. A história […]

Fiel às origens, a Quinta Nova de Nossa Senhora do Carmo, localizada no concelho de Sabrosa, pertencente à região do Douro, assume que o tempo é de mudança de atitude. Não porque se renegue o passado, mas sobretudo porque o futuro será exigente, e quem se preparar antecipadamente, terá maiores possibilidades de sucesso.

A história da Quinta Nova de Nossa Senhora do Carmo inicia-se bem lá atrás, em 1764. Em meados do século XVIII, o Douro era o Vinho do Porto e toda a dinâmica de planeamento de viticultura e vinificação fazia-se à sua volta.

Após a aquisição desta propriedade pela família Amorim, a adega, já em 2003, é ainda recuperada à imagem da tradição duriense e, mais de dois terços da capacidade é afeta à produção de Vinho do Porto, cabendo o remanescente para os vinhos DOC Douro. A atual filosofia é diametralmente diversa e assume-se, sem reservas, vocacionada para os vinhos DOC, tendo sido esse o propósito da total renovação da adega em 2024.

Mas as mudanças não ficaram por aí. Em 2025, estenderam-se à viticultura, passando para a coordenação de Pedro Prata. Já a enologia, agora liderada por António Bastos, tem como objetivo partilhar conhecimento com uma figura ímpar da enologia e do ensino, Riccardo Cotarella, o enólogo italiano ligado à família Amorim por uma relação antiga de amizade.

A colaboração de Riccardo Cotarella com as três propriedades do universo Amorim (Quinta Nova de Nossa Senhora do Carmo, Taboadella, no Dão, e Herdade Aldeia de Cima, no Alentejo) não será de estrita consultoria, mas, sobretudo, de mútua partilha de experiências e diálogo, que tem como elo comum dois países com tradição multimilenar de sabedoria empírica no cuidado da vinha e do vinho. A admiração é mútua, reconhecendo Riccardo Cotarella em Luísa Amorim a virtude do detalhe, do saber fazer profundamente conectado com cada lugar, cada ecossistema, sobretudo no que se relaciona com viticultura de montanha.

A colaboração de Riccardo Cotarella com as três propriedades do universo Amorim será sobretudo, de mútua partilha de experiências e diálogo

 

A preponderância do cimento

A principal e mais notória mudança surge no trio de vinhos Reserva lançados, um branco e dois tintos, que ostentam não apenas um rebranding da imagem, mas também um maior cuidado com a identidade que transparece de cada uma das 41 parcelas plantadas em altitudes, exposições e perfis distintos. Aqui, busca-se uma leitura mais aprofundada, não apenas das origens, mas igualmente de uma adega de múltiplas potencialidades, onde o cimento ganha uma crescente preponderância, na busca de vinhos mais diretos, genuínos e, sobretudo, mais frescos.

Luísa Amorim, CEO da Quinta Nova de Nossa Senhora do Carmo, fala sobre o novo perfil dos Reserva: “sentimo‑nos profundamente realizados com estes três vinhos Reserva – uma gama que tem para nós um significado especial e uma importância estratégica no nosso portefólio. Estes vinhos traduzem, com grande fidelidade, a essência das parcelas da Quinta Nova e todo o trabalho de viticultura que temos desenvolvido ao longo de 26 anos.”

Em 2000, foram plantados 50 hectares de vinha traduzida em 41 parcelas, “de dimensão muito reduzida, totalizando 85 hectares, numa zona histórica e emblemática da margem direita do Douro, diria mesmo, na zona do Cima Corgo onde existiam os vinhos de feitoria, eleita no Alto Douro, para a primeira demarcação do Douro, a mais antiga do Mundo”, acrescenta. Por conseguinte, “ver, hoje, o resultado no copo, dá‑nos a certeza de que cada hora dedicada ao projeto de remodelação desta adega – construída em 1764, apenas oito anos após a primeira demarcação do Douro – é um esforço que sentimos que valeu a pena. Ao longo dos anos, sempre soubemos que o clima estava em mudança; já não é tabu para ninguém. A adaptação a esta nova realidade era uma necessidade urgente, não apenas para o presente, mas sobretudo para garantir a continuidade da qualidade e a solidez deste projeto de futuro”, esclarece Luísa Amorim.

Hoje, a capacidade de adaptação a cada vindima é uma realidade nesta propriedade duriense. “Dispomos de circuitos de produção distintos, com mesas de escolha específicas para rosés, brancos e tintos, e a possibilidade de conduzir fermentações mais longas, mais calmas e mais precisas, parcela a parcela. A instalação das 32 cubas de cimento foi determinante: permitiu‑nos afinar textura, reforçar a frescura natural das nossas uvas e preservar uma acidez viva e vibrante, resultando em vinhos aromaticamente mais puros, precisos e expressivos, com o classicismo que só o Vale do Douro consegue oferecer”, sublinha a CEO da Quinta Nova de Nossa Senhora do Carmo.

O mote desta nova abordagem é um exercício de contemporaneidade, equilíbrio e elegância, o que de facto se confirma. Na caracterização dos anos vitícolas, 2024 e 2025 foram distintos. Contudo, em ambos foi na precocidade da vindima que esteve o click redentor, permitindo captar mais frescura, vibrância e tensão, afastando sobrematurações e concentração alcoólica. Já a nova imagem dos Quinta Nova Reserva se afirma, sobretudo, como reforço da identidade e da origem, tendo como elemento central a Capela de Nossa Senhora do Carmo, construída pelos barqueiros no Penedo do Carmo, um dos locais mais temidos da navegação no Douro.

 

Quinta Nova

“Estes vinhos traduzem a essência das parcelas da Quinta Nova e todo o trabalho de viticultura que temos desenvolvido ao longo de 26 anos”, afirma Luísa Amorim

 

A incontornável referência de brancos

Sobre o Mirabilis branco e a sua importância no contexto da afirmação dos grandes brancos durienses, provavelmente, podemos escrever um tratado. Se a memória não me trai, o Mirabilis branco, ao contrário do seu congénere tinto, tem sido lançado todos os anos desde 2011.

Se a filosofia da origem da uva não se tem alterado, podendo somente variar as parcelas, a vinificação tem conhecido diversas experimentações ao longo de mais de uma década. Viosinho e Gouveio, em vinhas com mais de 70 anos e, algumas, centenárias, altitude, maioritariamente superior a 500 metros, solos de transição xisto/granito de Murça, Alijó e Sabrosa. Na adega é onde tudo se transforma, com a integração de diversos materiais: madeira nova de carvalho francês das florestas Tronçais, Vosges, Nevers, Jura e Allier, foudre novo de 1200 litros, barrica de segundo e terceiro ano e, claro, o cimento cru. Um tempero complexo de lote traduzido num resultado de afirmação de amplitude, complexidade, presença de fruta e um mineral salino que lhe define um estilo que, não sendo imutável, lhe define a personalidade.

 

Rosé de inspiração

O Quinta Nova Rosé 2025 continua a evidenciar a inspiração provençal, cuja vinificação ocorre com prensagem de cacho inteiro. O critério de seleção das uvas – Tinta Roriz (50%), Tinta Francisca (30%) e Touriga Franca (20%) – é rigoroso, desde a escolha das parcelas, passando pela vindima manual e seleção na mesa de escolha.

A vinificação, contudo, ganha, a cada colheita, uma abordagem diversa de modo a garantir e exponenciar a pureza aromática e a delicadeza que se exige num rosé desta dimensão. Metade do lote estagia em barricas usadas de carvalho francês, 25% evolui em cubas de cimento e os restantes 25% em depósitos de inox. Convenhamos, mudar é apenas uma das mais naturais leis da vida. Quem permanecer agarrado ao passado e ao presente, dificilmente terá um futuro.

(Artigo publicado na edição de Julho de 2026)

 

VILA GALÉ: Improváveis e prazerosos

vila galé

Quando um enólogo coloca a mão em adega alheia, é possível que nasça um vinho improvável. Foi este o desafio que Marta Maia, da alentejana Casa Santa Vitória, e Ricardo Gomes, da empresa duriense Quinta Val Moreira, ambos pertencentes ao grupo hoteleiro Vila Galé, decidiram colocar em marcha, com a finalidade de produzirem dois vinhos […]

Quando um enólogo coloca a mão em adega alheia, é possível que nasça um vinho improvável. Foi este o desafio que Marta Maia, da alentejana Casa Santa Vitória, e Ricardo Gomes, da empresa duriense Quinta Val Moreira, ambos pertencentes ao grupo hoteleiro Vila Galé, decidiram colocar em marcha, com a finalidade de produzirem dois vinhos diferentes, não só dentro da gama das adegas respectivas, mas também inesperados e apetecíveis para o mercado. Com o aval da empresa, Marta Maia trocou temporariamente o Alentejo pelo Douro, para elaborar um vinho em Val Moreira; já Ricardo Gomes fez o percurso inverso, isto é, rumou ao Alentejo para igual desafio.

Desta troca nasceram os Vinhos Improváveis, um do Douro e outro do Alentejo. São duas edições exclusivas, produzidas em quantidades limitadas, que reflectem a visão pessoal de cada enólogo fora do seu ambiente habitual, celebram a capacidade criativa de ambos e mostram ser possível haver liberdade na interpretação de cada terroir dentro da mesma casa. Cada referência dispõe de 1800 garrafas, sendo estas vendidas em caixas duplas. “Foi um desafio que nos deu muito gozo, numa reinterpretação que nunca tinha sido feita”, salientou Marta Maia. “O objectivo foi fazer dois vinhos que não tivessem nada a ver um com o outro, diferentes, mas ambos prazerosos”, sublinhou Ricardo Gomes.

Durante a festa de lançamento, que decorreu no Hotel Vila Galé Ópera, em Lisboa, foram apresentadas outras três referências do Grupo Vila Galé, o Paço do Curutelo Colheita, da região dos Vinhos Verdes, um novo reserva rosé colheita e o mais recente Touriga Nacional da Casa de Santa Vitória.

 

Tudo começou em 2023

O projecto surgiu durante a convenção do Grupo Vila Galé, em Fevereiro de 2023, quando Marta Maia e Ricardo Gomes resolveram desafiar-se e transmitir, aos seus superiores, a decisão de trocar de casa e cada um fazer um vinho na adega do outro. O nome Improváveis para a marca surgiu a posteriori, por serem vinhos um pouco fora da caixa e provenientes de duas regiões completamente diferentes.

“Eu nunca tinha trabalhado a sério no Douro, a não ser em estágio de vindima, e o Ricardo também nunca o fez a sério no Alentejo, a não ser como estagiário de vindima”, contou Marta Maia, acrescentando que ambos pretendiam criar coisas diferentes das existentes dentro das respectivas gamas, que contribuíssem “para se falar mais das duas empresas”.

Depois de colocada a sugestão, a administração incentivou-os a irem para a frente com o projecto, “com o desafio de desenvolver o processo com um custo razoável”, revelou Ricardo Gomes. O repto foi aceite, mas foi concretizado com algumas dificuldades.

 

vila galé

 

A ideia de trocar de casa e cada um fazer um vinho na adega do outro surgiu durante a convenção do Grupo Vila Galé, em Fevereiro de 2023

 

Muitos quilómetros entre vinhas

A primeira foram os muitos quilómetros que ambos tiveram de fazer, em plena vindima: Marta Maia entre o Alentejo e o Douro, e Ricardo Gomes em sentido inverso. “O que fizemos foi uma vinificação diferente da tradicional na casa um do outro”, afirmou, acrescentando que inventou pormenores que não existiam na Quinta Val Moreira, o que envolveu mais trabalho à equipa local. No Alentejo, aconteceu o mesmo. Mas à procura de quê? “De criar um vinho que fosse a imagem daquilo que é o enólogo”, respondeu a enóloga. Ou seja, o vinho que criou no Douro corresponde à sua interpretação da região.

O Val Moreira Improváveis tinto 2023 é feito a partir de uvas apanhadas em vinhas velhas, das quais “nunca se saberão as castas em concreto”, e com base “num processo de vinificação duro, porque incluiu dois dias complicados em termos de recepção de uvas durante a vindima”. Foram vinifcadas em cinco barricas usadas de 500 litros, às quais foi tirado o topo. A fermentação decorreu com uva desengaçada em três e, em duas, com engaço, de cacho inteiro, pisado a pé, processo esse que durou quatro horas por barrica. Segundo Marta Maia, “as uvas estavam muito frias, porque as guardamos durante 24 horas num contentor refrigerado antes do processamento”, o que dificultou o processo.

Após a fermentação, decorreu o estágio, realizado na mesma madeira e já com as barricas tapadas. Este processo deu origem a um vinho mais rústico e com carácter mais duriense do que os tradicionais da Quinta Val Moreira, segundo a opinião de Ricardo Gomes, que, por seu turno, esteve no Alentejo a criar um vinho improvável.

 

 

vila galé

Com os recursos que as adegas tinham, a ideia foi inovar em termos de tipos de fermentação, para criar algo diferente

 

Vinhos elegantes e um clarete

“Na Casa de Santa Vitória, os vinhos são muito elegantes, desde que a Marta assumiu o projecto. Têm muita personalidade. E eu tentei levar isso a um extremo. O resultado foi um clarete”, conta o enólogo, explicando que a produção ocorreu com base em extracções de início de fermentação que estavam a decorrer na adega da Casa de Santa Vitória, as quais foram submetidas, posteriormente, a um estágio de um ano em barricas usadas, tal como o vinho de Marta Maia no Douro.

“Ou seja, com os recursos que as adegas tinham, porque era preciso concretizar a nossa ideia sem grandes investimentos, a ideia foi inovar em termos de fermentações, para criarmos algo diferente”, esclareceu Ricardo Gomes, que, tal como Marta Maia, manifestou contentamento em relação ao resultado. Por um lado, do Douro, saiu um vinho mais rústico e poderoso, com um carácter regional marcado, sem perder a elegância tradicional dos tintos de Val Moreira; por outro lado, mais a sul, surgiu o Santa Vitória Improváveis 2023, um clarete fresco, mas também com um toque de rusticidade e notas de fruta silvestre, que o tornam apetecível para os comeres da estação quente do ano.

(Artigo publicado na edição de Julho de 2026)

ADEGA DA HERDADE DA COMPORTA: A reinterpretação de um terroir

Comporta

À entrada da loja da Adega da Herdade da Comporta está disposto o mapa da Península de Tróia. A área traçada a negro assinala esta propriedade de exploração agrícola, localizada entre a costa atlântica, a poente, e o rio Sado, a nascente, com Pinheiro da Cruz, a sul, e a Carrasqueira, a norte, englobando o […]

À entrada da loja da Adega da Herdade da Comporta está disposto o mapa da Península de Tróia. A área traçada a negro assinala esta propriedade de exploração agrícola, localizada entre a costa atlântica, a poente, e o rio Sado, a nascente, com Pinheiro da Cruz, a sul, e a Carrasqueira, a norte, englobando o célebre Cais Palafítico da Carrasqueira, “incluindo uma parte do rio Sado”, acrescenta José Oliveira, diretor financeiro e responsável pela Adega da Herdade da Comporta referindo-se à Reserva Natural do Estuário do Sado, e sete aldeias. “Há cerca de 3000 pessoas que vivem permanentemente dentro da herdade”, sublinhou o nosso anfitrião. O total ultrapassa os 11 mil hectares. Estes estão distribuídos por arrozais a perder de vista, pinhal e floresta, formações dunares, traduzidas em nove quilómetros de linha costeira, e 35 hectares de vinha, dos quais 29 estão no concelho de Grândola e seis já fazem parte do concelho de Alcácer do Sal.

Eis o ponto de partida para as boas novas. Mas não sem antes se fazer uma pequena descrição do território vitivinícola da Adega da Herdade da Comporta. A proximidade do Atlântico, cuja distância é de seis quilómetros, e o chão de areia são fatores, desde logo, evidenciados pelo enólogo Jorge Rosa Santos. A ambos, soma os sistemas montanhosos que exercem influência na vinha: serra de Sintra, serra de Montejunto e serra da Arrábida. Além de que, “aqui, há mais horas de sol do que a norte e a sul”, dando origem a “um micro-clima na Herdade da Comporta”, segundo palavras do enólogo.

Feita a descrição do território em termos edafoclimáticos, Jorge Rosa Santos evidencia a importância da sazonalidade da Comporta, no que à produção de vinhos diz respeito, até porque “os brancos não são só para o verão” e “os tintos já não são só para o inverno”. A par com esta mudança ditada pela atualidade, os brancos da Adega da Herdade da Comporta estão a conquistar terreno e os tintos estão a enveredar por outros caminhos, contrariamente ao que vinha a ser feito até hoje. Como tal, Jorge Rosa Santos e Renata Madeira, que, em conjunto, constituem a equipa de enologia da casa, mostram, agora, “abordagens mais disruptivas” reveladoras da “criatividade própria dos enólogos”.

 Comporta
Jorge Rosa Santos e Renata Madeira

 

Portefólio vínico restruturado

Conclusão? A Adega da Herdade da Comporta avança para um novo posicionamento e restruturação do portefólio de vinhos constituído por quatro gamas: Nativo, Brisa Bay, Experimentalista/Monovarietais e Micro Terroir. Todas as uvas que ‘dão corpo’ a estas boas novas são vindimadas à mão. O objetivo desta mudança pauta pela “reinterpretação da Comporta, mantendo o classicismo e a simplicidade” locais, sublinha o enólogo. Mas para Jorge Rosa Santos, os vinhos produzidos na Adega da Herdade da Comporta pouco têm a ver com os vinhos da Península de Setúbal, região vitivinícola onde este produtor está inserido.

“São vinhos com sentido de lugar”, continua o enólogo, com o intuito de justificar essa diferença enaltecida pelo registo de álcool médio baixo, mais acidez e salinidade presente, atributos obtidos graças à antecipação da vindima das castas brancas e à apanha tardia das variedades tintas. Neste contexto, Jorge Rosa Santos salienta, uma vez mais, a importância dos solos arenosos, favoráveis ao timing de ambas as ações na vinha implantada na zona sul da propriedade.

Mas vamos por partes. A gama Nativo está disponível em branco, rosé e tinto e traduzem-se em vinhos diretos em relação às propriedades das castas selecionadas para este trio vínico. “É a porta de entrada para a Adega da Herdade da Comporta que, agora, se quer revisitada”, resume o enólogo. Já a Brisa Bay – um branco de 2024 e um rosé de 2025 – transmite uma mensagem mais descontraída e associada à época de estio e ao estilo Comporta.

A gama Experimentalista/Monovarietais é composta por edições limitadas que refletem o resultado de ensaios feitos pelos dois enólogos e tem a exploração de castas como denominador comum. Outro dos fatores é a seleção de microparcelas específicas que, nesta estreia, integra escolha da variedade branca Verdelho, da colheita de 2025, e a tinta Castelão, cuja vindima remonta a 2022 e incide “nos setores 30 e 31, mais próximos da várzea”, informa Renata Madeira. Nesta gama, encaixam ainda as novas abordagens enológicas nascidas “na onda da espontaneidade”, que, por ora, se dividem num vinho curtimenta e num palhete de 2024. No primeiro, a casta eleita é a Alvarinho, que, a meio da fermentação, passou a estar em contacto com as películas de Fernão Pires, seguindo-se o estágio, perfazendo, esta combinação, um período de dois meses. O palhete é, de acordo com Jorge Rosa Santos, inspirado na produção do Vinho Medieval de Ourém. Neste lote, entram a Castelão e a Malvasia de Colares. “É um grande vinho de verão”, garante a enóloga. E apesar da supressão da Malvasia de Colares da vinha, o palhete permanecerá no portefólio, paralelamente a outras novidades.

Microterroir é a gama que mais faz justiça às declarações de Jorge Rosa Santos, para quem a proximidade do Atlântico, os solos arenosos e a proteção da serra da Arrábida desempenham um papel fundamental na produção dos vinhos da Adega da Herdade da Comporta.

 

Nativo, Brisa Bay, Experimentalista/Monovarietais e Micro Terroir são os nomes escolhidos para as novas gamas da Adega da Herdade da Comporta

 Comporta

 

Identidade visual renovada

A acompanhar esta redefinição estratégica, a Adega da Herdade da Comporta apresenta o trabalho desenvolvido no âmbito da nova identidade firmado no património da propriedade. Em suma, no símbolo composto pelo C, de Comporta, e da cruz que o acompanha, ambos em azul. A finalidade é levar o consumidor a identificar prontamente os vinhos produzidos nesta casa.

Instalada em, outrora, estaleiros e oficinas de apoio à exploração agrícola da Herdade da Comporta, entidade privada e centenária, fundada em 1925, e com uma decoração que imprime a arquitetura local, a loja é uma montra das novas gamas, entre outros produtos, como o arroz e o pinhão da propriedade. Este espaço é contíguo à adega, em atividade desde 2022, e às salas de provas distribuídas pelo piso térreo e o primeiro andar, no âmbito das ações de enoturismo. A loja é ainda o ponto de partida para visitar o Museu do Arroz, inserido na antiga fábrica de descasque e situado a dois passos do aglomerado de edifícios que compõem o centro nevrálgico associado ao vinho.

(Artigo publicado na edição de Julho de 2026)

CHURCHILL’S: Um Vintage 24 e algo mais

Churchill's

A Churchill Graham é uma jovem empresa de vinho do Porto, “a última casa britânica independente.” Fundada em 1981 pelo jovem Johnny Graham (29 anos), ainda hoje à frente da empresa, foi, na altura, uma pedrada no charco, já que nos 50 anos anteriores não tinha sido criada nenhuma nova empresa com a mesma missão […]

A Churchill Graham é uma jovem empresa de vinho do Porto, “a última casa britânica independente.” Fundada em 1981 pelo jovem Johnny Graham (29 anos), ainda hoje à frente da empresa, foi, na altura, uma pedrada no charco, já que nos 50 anos anteriores não tinha sido criada nenhuma nova empresa com a mesma missão e, uma vez que o nome Graham era já uma importante marca de vinho do Porto, foi buscar o nome da sua esposa, Caroline Churchill.

Apesar de jovem, Johnny Graham trabalhava há vários anos no sector. Portanto, conhecia bem o vale do Douro e os seus vários terroirs e actores. O estilo dos vintages Churchill’s era sempre bastante especial: fresco e ligeiramente mais seco do que a norma, usando um pouco menos de aguardente, mas com uma estrutura férrea de taninos, que não fazia qualquer concessão à projectada longevidade dos vinhos. Os Churchill’s eram Portos Vintages clássicos nesse sentido. As uvas provinham de uma série de quintas localizadas na sub-região do Cima Corgo, incluindo a Água Alta, Manuela e Fojo, propriedade do lendário Jorge Borges de Sousa, e a vinificação era feita em lagar, com pisa a pé, e fermentados com leveduras autóctones. As vinhas viradas a Sul e expostas ao Sol asseguravam as maturações perfeitas.

Churchill's
Johnny Graham e Ricardo Pinto Nunes

A compra da Quinta da Gricha

O primeiro Vintage foi o de 1982, ainda hoje em grande forma, ao qual se seguiram 1985, 1991, 1994 e 1997. Em 1999 a Churchill’s começou a enfrentar algumas dúvidas no acesso às suas uvas de sempre, em particular porque os netos de Jorge Borges de Sousa iniciaram, eles próprios, a fazer vinhos em seu nome. Face a este cenário, a Churchill’s comprou a Quinta da Gricha, na margem Sul do rio Douro, situada logo abaixo de Ervedosa.

As encostas voltadas a Norte eram preciosas para assegurar maturações lentas e boa acidez natural das uvas. Os vinhos tinham, agora, uma elegância adicional logo desde muito novos. Já com uvas da Quinta da Gricha, numa parcela que chega a alcançar, como em 2024, um terço do total, os vintages da Churchill’s tornam-se mais polidos e frescos. Para além do blend de vários micro-terroirs, como é tradição no Vintage clássico, a Churchill’s faz quase todos os anos o seu single-quinta com origem na Gricha. Depois de 1999, só não fez nas colheitas de 2002, 2010 e 2014. Curiosamente, 2014 teve o seu vintage Churchill’s. Eis os restantes anos: 2000, 2003, 2007, 2011, 2014, 2016, 2017, 2020, 2024.

Churchill's

Os Portos e os DOC Douro

A Churchill’s não fazia só Vintage. A pouco e pouco, e com apoio em vinhos comprados às quintas dos seus fornecedores, foi construindo um portefólio completo de Vinho do Porto, incluindo o best-seller Churchill’s Crusted Port, um famoso Dry White Port envelhecido, e também LBVs, e Tawnies com 10, 20, 30 e 40 anos. Além dos Portos, a Churchill’s passou, em 1999, a fazer experiências com vinhos DOC Douro.  A primeira vindima comercializada foi a de 2003, com enologia liderada, desde 2007, por Ricardo Pinto Nunes. A entrada de gama é o Meio Queijo (nome de uma das parcelas da Quinta da Gricha). Já o icónico Grafite tem varietais e reservas, e o topo de gama é a Quinta da Gricha.

Em princípios de Junho, na Feitoria Inglesa, foi provada uma parte significativa da gama de vinhos, incluindo os novos vintages de 2024, um ano que se apresenta extraordinário, muito definido e puro, com uma promessa de prazer imediato e a longo prazo. Johnny Graham apresentou, em grande forma, os vinhos, após alguns anos em que a saúde lhe limitou a actividade. Foi um prazer rever um dos grandes construtores do Douro moderno, bem como a sua equipa, onde hoje se integra a filha Zoe, que partilha com ele a liderança da empresa, e o carismático Ricardo Pinto Nunes “Caxuxo”, o verdadeiro hub dos enólogos do Douro. Churchill’s a todo o vapor, com vinhos incríveis, que muito recomendo.

(Artigo publicado na edição de Julho de 2026)

 

Bágeiras como nunca se viu

bageiras

Mário Sérgio e Frederico Nuno, pai e filho, são a face mais visível da Quinta das Bágeiras, empresa familiar nascida na vindima de 1989. Como em tantas outras casas de viticultores da Bairrrada, até aí os vinhos produzidos nas Bágeiras eram vendidos a granel para as caves da região, actividade iniciada pelos avós de Mário […]

Mário Sérgio e Frederico Nuno, pai e filho, são a face mais visível da Quinta das Bágeiras, empresa familiar nascida na vindima de 1989. Como em tantas outras casas de viticultores da Bairrrada, até aí os vinhos produzidos nas Bágeiras eram vendidos a granel para as caves da região, actividade iniciada pelos avós de Mário Sérgio e continuada por seus pais.

Quando resolveu seguir o árduo caminho de vitivinicultor-engarrafador, Mário Sérgio contou com o apoio total da família, que colocou propriedades e adega nas suas mãos, na certeza de que aquele rapaz, de apenas 23 anos, sabia exactamente onde queria chegar e como. O onde, estava claro para o jovem produtor: possuir uma marca de vinho reconhecida que, através da criação de valor, permitisse às actuais e futuras gerações viver da agricultura com o mínimo de conforto. O como, nunca foi, para si, em discussão: preservar, melhorar e acrescentar o património (vinhas, adegas, conhecimentos, processos) deixado por seus antepassados, de forma a produzir vinhos clássicos, ancorados na mais pura tradição bairradina, vinhos que se assumissem como diferenciadores num mundo que, em 1989 e nas duas décadas seguintes, se deixava encantar pela tecnologia e pela inovação.

Bageiras

Quase 37 anos passados, Mário Sérgio Alves Nuno mostra ter acertado no percurso escolhido. A Quinta das Bágeiras tornou-se uma referência absoluta entre os vinhos da Bairrada e de Portugal. E processos de vinificação que, nos anos 90, eram considerados retrógrados, completamente ultrapassados (“fundamentalistas do engaço” assim foram num jornal classificados o produtor e seu enólogo de então, Rui Moura Alves), hoje são valorizados enquanto expressão de um terroir, onde o factor humano é tão importante quanto o clima, o solo e as castas.

Assim, os vinhos da Quinta das Bágeiras continuam assentes nas uvas tradicionais (Baga, Maria Gomes, Bical, Cercial…) e na vinificação “à antiga”, mantendo-se lagares, engaço, prensa vertical e tonéis velhos nos tintos; e decantadores abertos de cimento, fermentação e estágio em tonel, nos brancos. Os Garrafeira, brancos e tintos, são obtidos de vinhas centenárias, não aramadas. Na linha Pai Abel, a concessão à “modernidade” começa das vinhas, com “apenas” vinte e alguns anos de idade e continua na adega, onde os tonéis são substituídos por barricas borgonhesas muito usadas.

Não se pense, porém, que nada mudou nas Bágeiras nas últimas décadas. Desde logo, porque Mário Sérgio é um produtor aberto ao mundo, e sobretudo às regiões francesas de Champanhe, Bordéus e Borgonha, que visita com frequência e onde recolhe inspiração e conhecimento que posteriormente aplica nos espumantes e vinhos tranquilos da Bairrada. E depois, porque uma nova geração, protagonizada por Frederico Nuno, está a deixar a sua marca nos vinhos da casa.

Frederico Nuno cresceu por entre vinhas, pilhas de espumante, tonéis e alambiques. Após a licenciatura em enologia na Universidade de Trás-os Montes e Alto Douro e estágios em produtores de dimensões e conceitos muito diversos (Lusovini, Susana Esteban, Sogrape, Anselmo Mendes ou Barão de Vilar), assumiu o seu papel na empresa familiar a partir da vindima de 2022. Com o pai, forma uma dupla que alia experiência e irreverência, e se complementa perfeitamente, gerindo bem os habituais conflitos inter-geracionais. Frederico Nuno é, também ele, intransigente defensor dos princípios e processos que fazem a identidade da casa, como trabalhar exclusivamente com uva própria (a Quinta das Bágeiras é membro fundador dos Vignerons de Portugal) ou vinificar os tintos com engaço no lagar. Mas promoveu, por exemplo, a introdução de controlo de temperatura nos lagares de tintos e novas formas de trabalhar o vinho base, e multiplicar as leveduras nos espumantes, entre outros ajustes que vieram trazer mais elegância e afinamento às clássicas referências Bágeiras, sem prejudicar a sua vincada identidade. E quando, por via das “inovações”, o resultado sai fora do estilo da casa, entra em cena a linha Fogueira.

Bageiras

Revolução na tradição

Desde há muito que, em cada vindima, Mário Sérgio reserva tempo e espaço para materializar inspirações recolhidas noutras paragens, experimentando vinificações ou estágios diferentes do habitual nas Bágeiras. Nos casos em que o resultado o entusiasma verdadeiramente, ao ponto de lamentar não ter onde “encaixar” o vinho no portefólio, nasce um Fogueira. Até ao momento, só tinha acontecido três vezes, com um branco, um rosé e um tinto.

O branco, que agora surge no mercado com a marca Fogueira, é uma autêntica revolução no estilo Bágeiras. Desde logo, pela casta principal, Chardonnay, que representa 50% num lote onde se incluem Cercial (40%) e Bical. E depois, pela utilização, em estreia absoluta na casa, de barricas novas.

“Sou verdadeiramente apaixonado pelos Chardonnay de Champanhe e Borgonha”, revelou Mário Sérgio na apresentação no novo Fogueira branco 2023. “Plantámos, pela primeira vez, Chardonnay em 2002 e temos utilizado apenas em alguns espumantes, e em muito pequena quantidade. Esta foi a primeira vez que nos atrevemos a colocar esta variedade num branco tranquilo.”

Se Mário Sérgio é “responsável” pela escolha da uva, Frederico Nuno é o “culpado” pelas barricas novas. O jovem enólogo fez uma vindima em Monção e Melgaço com Anselmo Mendes. Com o “Senhor Alvarinho” aprendeu muito sobre o trabalho de barricas novas em vinhos brancos – volumes, tipos de madeira, origens, tostas. Foi, aliás, Anselmo Mendes que o orientou na escolha da barrica certa para o novo vinho pretendido.

Bageiras

“O estilo da Quinta das Bágeiras não contempla madeira nova, mas isso não significa que eu e meu pai não apreciemos vinhos com barrica nova, brancos ou tintos. E este é o nosso primeiro a utilizar este tipo de madeira, já que no Pai Abel usamos só barricas muito usadas, e no Garrafeira só tonéis antigos.  Aqui fizemos fermentação e estágio em barricas novas de 500 litros”, diz Frederico Nuno. “São bem mais de 2000 euros cada barrica e, para este efeito, só servem dois anos…”, completa Mário Sérgio. E acrescenta: “Mas é dinheiro muito bem gasto. Só faz sentido investir em madeira nova se for de grande qualidade.” O estágio na barrica, após a fermentação, não incluiu bâtonnage, para evitar a incorporação de oxigénio, preocupação que Frederico Nuno trouxe da aprendizagem com Anselmo Mendes. O vinho foi passado a limpo no mês de Janeiro seguinte à vindima, voltando de imediato à barrica.

O Fogueira 2023 é um vinho absolutamente extraordinário, para mim, talvez o melhor branco de sempre da Quinta das Bágeiras. Dotado de notável elegância e frescura, evidencia toda a nobreza e cremosidade da casta dominante conjugada com a firmeza da Cercial, num conjunto moldado pelo forte carácter atlântico da Bairrada. “Esta é, sobretudo, uma região de brancos”, salienta Mário Sérgio, “é mais fácil fazer todos os anos um grande branco do que um grande tinto. O clima marítimo, os solos de argila e calcário, a vibrante acidez que se manifesta em todas as castas, tudo aponta para brancos de topo.”

Aquando da apresentação do Fogueira à imprensa, que teve lugar no restaurante Pedro Lemos, no Porto – “há largos anos, o Pedro ajudou-me com uma grande encomenda, e nunca me esqueci disso, além de que adoro a cozinha dele”, diz Mário Sérgio – já era público o importante prémio alcançado por este vinho, considerado o melhor blend branco no Concurso Vinhos de Portugal. Mas prémios e classificações não vão condicionar o futuro deste branco “revolucionário” no portefólio Bágeiras. À pergunta sobre se o modelo seria para repetir, dado que os três Fogueira anteriores, todos de castas e técnicas distintas, só ocorreram uma vez, Frederico Nuno não poderia ser mais sincero: “não faço ideia. Logo se vê.”

(Artigo publicado na edição de Julho de 2026)

QUINTA DE RONFE: O mundo dos Nicolau de Almeida

Nicolau de Almeida

No concelho de Lousada estão inventariadas 22 casas nobres. Em diferente estado de conservação e uso, mas o número é significativo e foi bem estudado e explicado em tese universitária a que tivemos acesso. A Casa de Ronfe está, naturalmente, incluída neste levantamento. Trata-se de uma construção do século XVII, com pedra de armas datada […]

No concelho de Lousada estão inventariadas 22 casas nobres. Em diferente estado de conservação e uso, mas o número é significativo e foi bem estudado e explicado em tese universitária a que tivemos acesso. A Casa de Ronfe está, naturalmente, incluída neste levantamento. Trata-se de uma construção do século XVII, com pedra de armas datada da segunda metade do século XVIII. O estado de conservação é excelente, fruto de restauros vários ao longo do tempo e a sensação que se tem ao entrar é que estamos, de facto, numa vetusta casa submetida a obras, mas em que o “espírito do lugar” se conservou. É mais raro do que se imagina e a família está, por isso, de parabéns.

A ligação às famílias Rosas e Nicolau de Almeida é já muito antiga e aqui, além de local de férias das famílias, também se produziu vinho, com a mesma marca, durante muitos anos. A primeira edição deste Ronfe, cujo rótulo, ajuizadamente, se manteve com o aspecto gráfico original, data de 1935. A recepção que nos estava reservada não poderia ser mais completa: estava o pai João Nicolau de Almeida e os três filhos, Mafalda, João e Mateus. Para o almoço tivemos a companhia de António Leitão e sua mulher, primos de João Nicolau de Almeida. Foi o bisavô dos manos Nicolau de Almeida o adquiridor desta propriedade que, anteriormente, tinha pertencido à família Archer e que a vendeu a José Rosas em 1889. A vinha foi plantada pelo avô e, na época, até castas francesas foram selecionadas; nas nacionais já estava incluída, inesperadamente, dizemos nós, a Touriga Nacional. A vinha sempre incluiu uvas tintas, como Azal Tinto, Padeiro e Alvarelhão.

A ligação aos Nicolau de Almeida está bem patente nos desenhos que Fernando Nicolau de Almeida (para todo o sempre, o “pai” do Barca Velha) aqui deixou, cheios de humor, revelando que, além da enologia, o desenho era uma das suas paixões.

Nicolau de Almeida

 

Ainda que estejamos no vale do Sousa, aqui, algo teimosamente e contra a corrente, optou-se por dar destaque à Trajadura

 

O valor da Trajadura

Ainda que estejamos no vale do Sousa, sub-região dos Vinhos Verdes muito conotada com a casta Arinto, aqui, algo teimosamente e contra a corrente, optou-se por dar destaque à variedade Trajadura. Dizemos teimosamente porque, à pobre da Trajadura, nunca se lhe deu mais valor que não fosse servir de complemento às castas nobres minhotas, fossem elas a Alvarinho ou a Loureiro. Procurava-se, então, que o lado mais gordo e de menor acidez servisse de complemento às castas mais ácidas da região. A forma como aqui foi tratada mostra que a Trajadura pode estar destinada a outros voos.

O nosso passeio começou por uma visita às vinhas que mostraram uma exuberância notável, fruto de muito cuidado, algo que, como se imagina, obriga a muito trabalho e muita atenção, contrariando a tese muito em voga da “pouca intervenção”. Numa zona tão atreita a míldio e oídio, a pouca intervenção apenas teria como resultado a perda da produção.

E, já ao almoço, seguindo a conversa do jornalista José Gomes Ferreira que sempre afirma “não há outra forma de dizer isto”, eu também digo: o cabrito assado do almoço foi dos melhores que comi nos últimos anos! Ponto!

Nos vinhos provados, alguns aspectos merecem atenção: as colheitas de 2021 e 2022 ainda se chamavam Casa de Ronfe. Foram também provadas e deram muito boa conta de si. A casta mostra que, se bem trabalhada, consegue conservar o seu traço próprio – vinho com corpo e acidez ajustada – e o perfil aponta sempre para uma boa aptidão gastronómica. Ambos em boa forma, embora o 2022 seja ligeiramente mais citrino e mais fresco. Da prova integral dos brancos de Trajadura, é perceptível que o estilo está ainda em construção e, assim, são perceptíveis variações de colheita para colheita.

Em 2026 irão fazer, retomando a tradição do avô, um tinto com uvas da quinta que incluirá uvas de ramadas, com Alvarelhão, Touriga Nacional e Vinhão.

A marca Nicolau de Almeida, criada ainda no século XIX e associada a uma casa comerciante de Vinho do Porto, estava actualmente na posse da Real Companhia Velha (por via das inúmeras fusões e aquisições que foram feitas ao longo do tempo), mas foi graciosamente cedida a João Nicolau de Almeida, que, assim, assume de novo a marca da família, conservando-se a estrela que encima o nome da empresa.

O Monte Xisto é uma propriedade familiar, plantada de raiz e onde se pratica uma agricultura amiga do ambiente. O plantio da vinha começou em 2005

 

A prova dos bagos no Douro

O Monte Xisto fica em Foz Côa. É uma propriedade familiar plantada de raiz e onde se pratica uma agricultura amiga do ambiente, tão próxima da natureza quanto possível. As aquisições começaram em 1993 e o plantio da vinha em 2005. A localização e sobretudo a orientação solar das várias parcelas é um dois em um: parcelas a norte, parcelas a sul e com altitudes diversas. A escolha do que vindimar e quando depende da prova dos bagos. É como se o blend fosse, maioritariamente, feito na vinha. A própria vindima é cadenciada pela variada maturação das uvas, dependendo da altitude da parcela a da orientação.

A vinificadas faz-se em Foz Côa, mas os vinhos amadurecem nas caves de Vila Nova de Gaia, onde também são engarrafados. O portefólio abrange várias marcas, desde logo o topo de gama Quinta do Monte Xisto, a que se seguiram alguns anos mais tarde, o Quinta do Monte Xisto Oriente e o Monte Xisto Órbita: o primeiro mais estruturado e com maior densidade, os dois restantes num registo de maior leveza e elegância.

Nos vinhos do Porto, temos o Vintage e um Porto Branco leve e seco, uma categoria meio esquecida pelo sector. É para este Porto Branco que é usada a casta Rabigato, a única variedade branca plantada na referida propriedade. Já nas tintas temos as clássicas da região: Touriga Nacional, Touriga Francesa, Tinto Cão, Tinta Francisca, Sousão, Tinta Roriz e Tinta da Barca, esta última uma velha paixão de João Nicolau de Almeida. Neste encontro apenas se provaram dois tintos e o novíssimo Vintage 2024.

(Artigo publicado na edição de Julho de 2026)

O que é que a Beira Interior tem?

Beira Interior

“O que é que a baiana tem? / O que é que a baiana tem? / Tem torso de seda tem (Tem) / Tem brinco de ouro tem (Tem) / Colares de ouro tem (Tem) / Tem bata rendada tem (Tem)…” Todos nós temos esta canção popular brasileira no nosso universo de memórias, celebrizada pela […]

“O que é que a baiana tem? / O que é que a baiana tem? / Tem torso de seda tem (Tem) / Tem brinco de ouro tem (Tem) / Colares de ouro tem (Tem) / Tem bata rendada tem (Tem)…”

Todos nós temos esta canção popular brasileira no nosso universo de memórias, celebrizada pela artista Carmen Miranda e interpretada, pela primeira vez, no filme Banana da Terra, em 1939. Memórias sim, mas só de ver na televisão, diga-se, uma vez que não sou assim tão antigo. Além de descrever a vestimenta da mulher baiana, a canção celebra e exalta o seu charme e graça naturais, reflectindo a alegria e a vivacidade da cultura baiana. Pois, alegria, vivacidade e algum charme, e graça naturais são precisamente características que podemos encontrar nos vinhos da Beira. Então, o que é que esta região tem?

 

Sobre este território

Foquemo-nos na Beira Interior, mais precisamente. É território raiano localizado no centro de Portugal Continental, destacando-se como a nossa região vitivinícola mais alta, com as suas vinhas plantadas entre os 350 e os 750 metros de altitude. Divide-se em três sub-regiões. A saber: Pinhel, com os concelhos de Pinhel, Meda, Trancoso e Celorico da Beira, que se distinguindo pelas altitudes elevadas e clima continental; Castelo Rodrigo, situada no planalto de Figueira de Castelo Rodrigo e áreas envolventes, a qual abrange os municípios de Figueira de Castelo Rodrigo e Almeida, e beneficia de amplitudes térmicas significativas; e, por último, Cova da Beira, influenciada pelo clima mediterrânico em contexto de vinhas de altitude, contemplando os municípios de Manteigas, Belmonte, Covilhã, Penamacor, Fundão e Castelo Branco.

O território vitivinícola é moldado por quatro serras – da Marofa, da Malcata, da Gardunha e parte da Estrela – em conjunto com os rios que a delimitam – Côa e Águeda, a Norte, Tejo e Zêzere, a Sul. Com um clima continental caracterizado por invernos longos e verões secos, a região beneficia de grandes amplitudes térmicas, factor determinante para a preservação da acidez das uvas, as quais, por sua vez, contribuem para o desenvolvimento dos aromas. A altitude elevada promove uma maturação gradual dos frutos, favorecendo o equilíbrio e a frescura dos vinhos. Todos estas variantes, juntamente com os solos predominantemente graníticos, embora também haja zonas de xisto e quartzito, fomentam a identidade dos vinhos produzidos na região.

Adicionalmente, a Beira Interior reúne condições favoráveis às práticas vitícolas sustentáveis. A altitude e o clima geralmente seco contribuem para uma menor pressão de doenças criptogâmicas (míldio, oídio, botrytis, etc.) na vinha, reduzindo, em muitos casos, a necessidade de intervenções fitossanitárias. Estas características, aliadas a uma gestão adequada da vinha, favorecem abordagens de produção de menor impacto ambiental.

Em suma, a Beira Interior é uma das regiões vitivinícolas portuguesas com maior área de vinha certificada em modo de produção biológica. Esta aposta em práticas vitícolas mais sustentáveis tem vindo a reforçar o posicionamento da Beira Interior entre as regiões nacioanais que apostam numa gestão firme no que aos recursos naturais diz respeito.

Porém, o vinho não se faz sozinho, não, e a Inteligência Artificial, por enquanto, também ainda não o produz. São precisas pessoas. E a Beira Interior muito tem sido construída por pessoas e projectos que, diariamente, dão expressão aos seus vinhos e são reconhecidos como embaixadores de um património vitivinícola profundamente enraizado, reflectindo uma identidade plural, desde pequenas produções artesanais a grandes estruturas cooperativas. Passando por marcas estabelecidas e novos projectos de vanguarda, todos partilham um compromisso com a excelência e a valorização do território.

Os 15 hectares de vinhas incluem a Quinta Vale Ruivo, com cerca de dez hectares de vinhas quase centenárias

 

Casas Altas, o fulgor de José Madeira Afonso

Casas Altas é o nome do projecto pessoal do médico e viticultor José Madeira Afonso, nascido em Coimbra, mas com raízes profundas em Souropires, no concelho de Pinhel, Beira Alta, onde a sua família habita há, pelo menos, oito gerações. Desde muito cedo se apaixonou pela freguesia ligada às suas origens, onde passava longos períodos na casa da avó materna. O fascínio pela vida no campo levou-o a matricular-se na Escola de Regentes Agrícolas de Coimbra, onde concluiu o curso aos 18 anos. Posteriormente, estudou Medicina – a sua outra paixão – e licenciou-se em 1974.

Por motivos profissionais, viveu durante três anos em Bergen, na Noruega, onde descobriu os encantos do vinho, graças ao tempo que partilhou com grandes conhecedores, que estudavam e provavam o melhor que se produzia no mundo. As viagens e férias em Bordéus, na Borgonha, na Alsácia, no Mosel ou na Toscana tornaram-se naturais, frequentes e irresistíveis.

No início da década de 1990, concretizou o sonho de plantar vinhas em Souropires, construir uma adega moderna e produzir o próprio vinho – esta última acção ocorre desde 1994. Trata-se do projecto Casas Altas, ao qual se dedica actualmente, já reformado, valorizando as castas autóctones da região, nos seus 15 hectares de vinhas distribuídas por várias parcelas, incluindo a Quinta Vale Ruivo com cerca de dez hectares de vinhas quase centenárias.

As castas dominantes são Rufete, Baga, e Touriga Nacional, nas tintas; Síria, Fonte Cal e Arinto, nas brancas. Uma vez que a Borgonha e o Mosel são as regiões internacionais que ficaram na memória e no coração do ‘Doutor’, existem duas pequenas parcelas com as castas Chardonnay e Riesling. Ambas resultam em vinhos absolutamente extraordinários, deixem que vos diga – não é que sejam melhores que um Premier Cru na Borgonha ou um VDP Grossen Lage do Mosel, não, nunca vão ser, nem na Beira nem em qualquer outro lado do mundo se consegue replicar aquilo que estas duas castas produzem naquelas regiões; são produções únicas –, mas são duas expressões fantásticas da Chardonnay e da Riesling, plantadas em solos de granito e em território português, disso não tenhamos a menor dúvida.

A viticultura é totalmente biológica, com total respeito pelo ambiente, sem fertilizantes químicos, insecticidas ou herbicidas, e – alvíssaras, alvíssaras –, desde a vindima de 2024 que a consultadoria de enologia passou a estar sob a responsabilidade de Nuno Mira do Ó.

Há pouco, acima, falámos sobre Inteligência Artificial, que, quem sabe, um dia, ainda vai fazer vinho. Todavia, há uma coisa que podemos ter a certeza: nunca o vai conseguir provar nem beber. Para o fazer, temos e teremos de ser nós! Assim fizemos aquando da visita às Casas Altas, onde analisámos as novidades ao pormenor. Trataram-se de colheitas disponíveis no mercado, algumas preciosidades, como o Chardonnay de 2004, e amostras de 2024 de Rufete e da vinha centenária do Ruivo, já sob a batuta de Nuno Mira do Ó. Deixem só que vos diga: olhos bem abertos, pois há boas novas verdadeiramente excepcionais a caminho!

 

Barroca da Malhada, uma quinta histórica

“Em 2021, diante de uma mudança de vida, e finalizando um ciclo de trabalhos ligados à agricultura no Brasil, comecei a ir atrás de um sonho antigo de ter o próprio vinhedo e produzir o próprio vinho. Desde os 20 anos de idade que sou um apaixonado por vinhos, sempre fazendo cursos e procurando degustações e harmonizações, principalmente nas viagens. Assim, em setembro de 2021, em plena pandemia, depois de procurar muito, encontrei a Quinta de Santo Isidro, conhecida também como Barroca da Malhada, uma propriedade histórica. Eu e minha irmã, Luciana Teixeira de Camargo, adquirimos juntos a propriedade, e ela também entrou como sócia no projeto.” Fernando Camargo, coproprietário, é Arquitecto, e isso nota-se quando se visita a propriedade. Tudo tem um sentido estético e uma simetria própria dentro do possível, e tudo está impecavelmente arranjado e conservado.

Com pós-graduação em economia e MBA em e-commerce, também com extensão universitária em Administração Rural, em 2018, já com várias certificações em vinho, fez um curso de Agricultura Biodinâmica no Brasil. Foi precisamente nesse curso que surgiu a ideia de convidar um dos companheiros de classe, Valdir Zanirato, para juntos desenvolverem este projecto de vinho e azeite em Portugal.

As vinhas, plantadas em solos predominantemente argilo-arenosos, são trabalhadas sob práticas de agricultura biológica e biodinâmica.

 

A Barroca da Malhada é uma quinta histórica da Beira Interior, com origens que remontam à Idade Média, outrora pertencente aos Viscondes de Tinalhas. Integralmente murada em redor, como uma espécie de clos gigante, a propriedade, localizada em Tinalhas, no concelho de Castelo Branco, Beira Baixa, tem vista privilegiada para a Serra da Gardunha. São 17,5 hectares, dos quais cinco são de vinhas e cinco são ocupados por oliveiras. Em 2023, Fábio Fernandes ingressou como o novo enólogo da casa e Joaquim Barbosa, como adegueiro e colaborador.

As vinhas estão plantadas em solos predominantemente argilo-arenosos, com partes de granito decomposto. São trabalhadas de acordo com práticas de agricultura biológica e biodinâmica. Nove variedades estão cultivadas e são colhidas manualmente: Arinto, Fernão Pires, Bical, Touriga Nacional, Trincadeira, Aragonez, Baga, Cabernet Sauvignon e Alicante Bouschet.

A primeira vindima ocorreu em 2021. A produção limitada é de cerca de 3000 garrafas. Cada vinho é elaborado com baixa intervenção, reflectindo o respeito pelo solo, pelas vinhas e pelo tempo, num compromisso entre tradição, autenticidade e sustentabilidade. Hoje, a Barroca da Malhada está em fase de transição para a certificação bio e são produzidas quatro gamas de vinho: Barroca da Malhada (clássica), Dolia (Ânforas), BRQA (vinhos de entrada) e Edição Especial. “São vinhos intensos, estruturados, gastronómicos e muito versáteis” afirma Fernando Camargo. E tem razões para isso.

(Artigo publicado na edição de Julho de 2026)