Ramos Pinto: Celebrar o passado na vinha da Urtiga

A vinha tem mais de 100 anos e está incluída na quinta do Bom Retiro. Foi Adriano Ramos Pinto que a adquiriu em 1933. Frágil mas resistente, a vinha exige, de todos, os cuidados máximos para que a intervenção seja mínima. Uma carga de trabalhos que só a ideia, militante diríamos nós, da conservação do […]
A vinha tem mais de 100 anos e está incluída na quinta do Bom Retiro. Foi Adriano Ramos Pinto que a adquiriu em 1933. Frágil mas resistente, a vinha exige, de todos, os cuidados máximos para que a intervenção seja mínima. Uma carga de trabalhos que só a ideia, militante diríamos nós, da conservação do património, aliada à excelência vínica, pode justificar.
Texto: João Paulo Martins Fotos: Ramos Pinto
O Verão corria seco mas quando visitámos a vinha da Urtiga o céu resolveu dar um ar da sua graça e brindou-nos com chuva. Da boa e da necessária, embora, como se imagina, já tardia para o que se podia esperar da vindima. Foi ali, mesmo no meio da vinha da Urtiga – parcela que integra a quinta do Bom Retiro – que iniciámos a conversa com a equipa da Ramos Pinto. Para o efeito a empresa deslocou para o centro da vinha da Urtiga uma mesa e uns copos para que o vinho fosse apreciado em seu sitio. A ideia era boa mas não previa a chuva e lá teve de vir uma emissária com chapéus de chuva para que tudo corresse bem. O que ali se passou foi um verdadeiro encontro civilizacional. As cepas, ali à nossa beira, respiravam ainda saúde apesar de serem maioritariamente centenárias; para as interpretar, conhecer, reconhecer e preservar havia ali um tablet onde tudo estava registado, a começar pela geo-localização de cada pé de vinha e as informações adicionais que se revelam da maior importância para a equipa de cuidadores daquela parcela. Que casta é, que vigor tem, quantos cachos produz, em que estádio fenológico se encontra ou a resistência à secura e à seca. Esta tarefa é igual para cada um dos 12 500 pés de vinha que ocupam os 3,4 ha da Urtiga. Temos então patamares com 200 anos, cepas com 100 e tecnologia do séc. XXI que, num futuro próximo, irá também incluir drones de alguma dimensão que farão transporte (caixas de até 40 kg) entre a vinha e a adega.
Bem perto da vinha encontra-se uma mata de medronheiros, reconhecida hoje como a última mancha original das matas de medronheiros que outrora povoavam grandes áreas do Douro. Ali ninguém toca, ali não está previsto plantar nada; apenas numa zona que, entretanto, tinha ficado a descoberto, foram plantadados mais 0,5 ha em velhos patamares pré-filoxéricos, idênticos aqueles onde estivemos sentados a ouvir as histórias da Urtiga. Para quem não está familiarizado com o conceito, os patamares pré-filoxéricos são muito baixos e apresentam-se agora com uma grande “desorganização”, bem diferentes dos muros dos terraços feitos após a filoxera, com os da Quinta do Noval, bem visíveis para quem passa na estrada.
Carlos Peixoto trata das vinhas e, como nos confessou, “adoro este trabalho, já ando cá há 44 anos e não me vejo a fazer outra coisa; ainda me consigo entusiasmar com cada vindima, cada poda, cada nova plantação. Este trabalho que estamos a fazer na Urtiga é notável, é uma revolução que traz para a vinha todos os novos conhecimentos de informática.” A Urtiga, confessa, não estava abandonada mas estava esquecida; “não era colhida quando devia, não tínhamos noção do que aqui havia; foi a partir de 2015 e 2016 que começámos a olhar para esta parcela com olhos de ver”. Jorge Rosas, actual CEO da Ramos Pinto lembra-nos que “em tempos a empresa já teve um Vinho do Porto com o nome Urtiga e que esta vinha era, como todas as vinhas velhas do Douro, usada para fazer vinho para Porto. As castas eram muitas e contámos 63. No entanto a Tinta Amarela é a mais representada e há 7 variedades que, juntas, representam 90% dos encepamentos. Às restantes, chamamos hoje, o sal e pimenta”. Das variedades, muitas delas com nomes estranhos, é sempre possível descobrir mais algumas que nunca tínhamos ouvido falar, como São Saul, Carrega Branco, Tinta Aguiar e Caramela. Ficámos também a saber que “a Tinta Amarela é por norma a casta mais representada nestas vinhas muito velhas”, diz-nos Peixoto.
Nos tratamentos da vinha estão a ser usados preparados biodinâmicos que são importados de França. Conta Jorge Rosas, “é um modelo que queremos aprofundar, mas sem preocupação de certificação. O caos burocrático que a certificação obriga leva-nos a fazer escolhas: queremos e acreditamos nas práticas mas não nos impomos a certificação e não alinhamos em fundamentalismos. O que é que adianta a vinha ser bio se depois não temos uvas?”, comentou. Uma equipa pequena muito dedicada a esta vinha e muitos cuidados na prevenção das doenças ajudam a que, de uma vinha tão pouco produtiva, saia um tinto que se coloca de imediato no patamar mais alto dos vinhos da empresa. Sobre o tema, Jorge Rosas, secundado por Ana Rato, responsável comercial comentam: “é verdade que colocamos o vinho num patamar muito alto de ambição e preço mas é também porque queremos, exactamente, que ele seja entendido como vinho muito especial que é. Temos mais de 100 mercados para onde vendemos vinho e este será por alocação. Não vai ser nada difícil colocar o vinho, até já houve importadores que nos disseram que podíamos enviar a quantidade que quiséssemos e que o preço não seria problema.”
Na véspera da vindima a equipa faz uma passagem na vinha e retira logo tudo o que não estiver em condições de ser vindimado. No dia seguinte vindima-se, faz-se nova selecção à entrada da adega onde os trabalhos são coordenados pelo enólogo João Luis Baptista. Após desengace, as uvas vão para o lagar para o primeiro corte (lagar com pisa a pé) e depois a manta vai sendo movimentada até ao momento da prensagem. De seguida é conduzido para tonéis de pequenas dimensões e 10% do vinho vai para barricas novas e por lá fica durante 16 meses. É nesta altura que se decide se o vinho tem a qualidade pretendida para ser Urtiga. Caso se entenda que não tem, entrará noutros lotes. O estágio prolonga-se por dois anos depois do engarrafamento. Resultaram, nesta primeira edição, 3100 garrafas, disponibilizadas em caixa individual.
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Messias celebra 96 anos com 5 lançamentos especiais

A caminho da celebração do centenário da sua fundação, que ocorrerá em 2026, a Messias juntou à mesa três das cinco gerações que completam a história da empresa com origem na Bairrada, fundada por Messias Baptista, lançando nesse momento cinco produtos muito especiais. Estas novidades vêm juntar-se a um vasto portefólio, que abarca vinhos tranquilos, […]
A caminho da celebração do centenário da sua fundação, que ocorrerá em 2026, a Messias juntou à mesa três das cinco gerações que completam a história da empresa com origem na Bairrada, fundada por Messias Baptista, lançando nesse momento cinco produtos muito especiais. Estas novidades vêm juntar-se a um vasto portefólio, que abarca vinhos tranquilos, espumantes, vinhos do Porto e aguardentes, oriundos de três regiões vitivinícolas: Bairrada, Dão e Douro.
Da Bairrada, região onde a empresa deu os primeiros passos, surgem os vinhos tranquilos Messias Clássico branco 2017, um lote composto pelas castas Bical e Cercial; e Messias Garrafeira tinto 1998, um vinho 100% Baga que homenageia a capacidade de guarda tão singular na região. Na categoria dos espumantes, o Messias Sur Lie é a grande novidade, com um pequeno “twist”: elaborado a partir de Chardonnay, pelo método clássico (faz a 2ª fermentação em garrafa), é colocado à disposição do consumidor sem ter sido feito o degorgement, dando oportunidade ao consumidor de estagiar e fazer evoluir este espumante em sua casa, ainda com as borras consequentes das leveduras, até decidir abri-lo. Seguindo uma tradição da empresa, e agora com novo design, é também lançada a Aguardente Vínica Velhíssima “Avô”. Finamente destilada, foi preservada durante anos em cascos, onde envelheceu nobremente.
A partir de cinco castas tradicionais no Douro – Touriga Nacional, Touriga Francesa, Tinta Roriz, Tinta Barroca e Tinto Cão – nasce ainda o Messias 50 Anos, um Porto Tawny que estagiou por 5 décadas nos armazéns da Messias, em Vila Nova de Gaia. Um Tawny que, segundo o produtor, “retrata com sumptuosidade e delicadeza a história do vinho do Porto e a identidade de uma família”.
Jorge Moreira: 20 anos em La Rosa, e a somar

TEXTO Mariana Lopes Jorge entra como enólogo na Quinta de La Rosa em 2002, num ano menos bom para o Douro, sobretudo por causa da chuva do início de Setembro. Até aqui, a propriedade localizada junto ao Pinhão tinha David Baverstock como consultor, que, muitas vezes à distância, orientava por chamada telefónica o irmão da […]
TEXTO Mariana Lopes
Jorge entra como enólogo na Quinta de La Rosa em 2002, num ano menos bom para o Douro, sobretudo por causa da chuva do início de Setembro. Até aqui, a propriedade localizada junto ao Pinhão tinha David Baverstock como consultor, que, muitas vezes à distância, orientava por chamada telefónica o irmão da proprietária Sophia Bergqvist, Phillip, no processo de vinificação. Na verdade, foi Dirk Niepoort que alertou Sophia para a necessidade de um enólogo presente a 100% no projecto, e ele próprio se incumbiu de encontrar alguém “suited for the job”. Não demorou muito, e logo no dia seguinte o telefone voltou a tocar, com o nome de um jovem promissor. Jorge Moreira.
Na sua primeira vindima em La Rosa — a tal fatídica de 2002 — Jorge teve pouca sorte, mas já na altura mostrava a fibra que hoje lhe reconhecemos: no final do dia, os trabalhadores da vinha desertaram sem mais preocupações, mas o enólogo, numa imagem quase dantesca e por saber da urgência de colher as uvas, por causa da chuva, “apareceu com as caixas aos ombros e o sumo das uvas a escorrer-lhe pelas costas”, conta Sophia Bergqvist. E nesse momento, todos em La Rosa souberam que “aquele” era para ficar. Assim foi, durante pelo menos, 20 anos.

“Graças ao Jorge, nós crescemos muito. É um homem espectacular”, afirma uma Sophia emocionada, durante o jantar de homenagem ao trabalho do enólogo, que organizou na quinta. “Foi um caminho de altos e baixos, e o Jorge esteve sempre lá. Não só no vinho, mas em tudo. Eu podia ir ter com ele por todas as razões, quer fosse um problema com a lancha ou com a piscina”, confessa a produtora. Este carinho, no entanto, é mutuo, e Jorge Moreira não o esconde: “Há 20 anos vim ter com a Sophia, e perguntei-lhe se um menino da cidade poderia vir fazer vinho para aqui. E assim foi. Nunca tivemos um problema um com o outro, descobrimos tudo isto que nos rodeia e construímos muita coisa nova, juntos. Hoje, estamos iguais [ri-se], a construir coisas novas, adegas, vinhas, vinhos… Agradeço a esta família o carinho incondicional e a amizade que me deram ao longo de todos estes anos”, declara.
Jorge Moreira, além de ser um dos enólogos de topo em Portugal — com cartas dadas tanto em La Rosa como no seu projecto pessoal Poeira, e também na Real Companhia Velha — é, acima de tudo, uma pessoa que não pede desculpa por ser quem é, nem pelo que faz bem. Pelo contrário, celebra-o, e isso, de certa forma, é refrescante. Em situações profissionais, por vezes apresenta uma “carapaça mais dura”, mas desengane-se quem pensa que é isso que o define. Um vinho pode demorar 20 anos a mostrar-se completamente. E um homem, também.
Lynch-Bages e Xisto 20 anos de união

O justamente famoso Rei dos Leitões, na Mealhada, serviu de palco para um “confronto” amigável de dois grandes vinhos – Château Lynch-Bages de Bordeaux e Xisto da Roquette & Cazes do Douro – onde os vencedores foram todos os presentes neste jantar memorável organizado pelo Club Direct Wine. Texto: Valéria Zeferino Foto de abertura: Anabela […]
O justamente famoso Rei dos Leitões, na Mealhada, serviu de palco para um “confronto” amigável de dois grandes vinhos – Château Lynch-Bages de Bordeaux e Xisto da Roquette & Cazes do Douro – onde os vencedores foram todos os presentes neste jantar memorável organizado pelo Club Direct Wine.
Texto: Valéria Zeferino Foto de abertura: Anabela Trindade
Já não é a primeira vez que o Raul Riba D’Ave organiza eventos de grande nível e interesse didáctico destinados aos enófilos, como o “Barca Velha 2011 contra Vega Sicilia 2011” ou “Mini Julgamento de Paris”, onde se comparou numa prova cega 3 vinhos franceses e 3 vinhos da California. O objectivo destes eventos é abrir os horizontes, provando e desfrutando o melhor do que se faz por cá e no mundo.
Esta noite dedicada a duas grandes regiões, Bordeaux e Douro, e onde o único intruso foi o espumante de boas-vindas Sílica Super Reserva, abriu com o vinho branco orgânico Michel Lynch 2021 (90% de Sauvignon Blanc e 10% de Semillon) a acompanhar na perfeição as vieiras com salicórnia e vinagreta de maçã. Com o bacalhau com trufa e cogumelos em manteiga de alho negro alinhou o Roquette & Cazes 2019 com 18 meses em barrica de carvalho francês de 2º e 3º ano.
Mas as duas estrelas da noite, uma bordalesa e outra duriense, eram o Château Lynch Bages e o Xisto, ambos de 2018. Há muito que os une – os seus criadores, a ambição associada, o profissionalismo de quem os faz e, consequentemente, o nível de qualidade mundial. Também são evidentes os factores que diferenciam estes grandes vinhos – a região, as castas, as condições em que são feitos. Pauillac com o seu clima marítimo, solos de argila e areia misturadas com cascalho, onde se procura uma boa drenagem e o Douro Superior com clima mediterrânico continental e solos de xisto, onde a capacidade de retenção ganha importância pela falta de água, não têm mesmo nada em comum.
Raul Riba D’Ave apresentou o Château Lynch Bages que pertence à família Cazes desde o final da 2ª Guerra Mundial. A propriedade faz parte da mundialmente conhecida Classificação de Bordeaux de 1855, elaborada com base nos preços dos vinhos na altura. Os châteaux ficaram arrumados em 5 níveis, de Premières Crus com vinhos mais reputados e caros até Cinquièmes Crus no último nível do ranking. Os Grand Crus Classé correspondem apenas a 2% do vinho produzido em Bordeaux, mas fazem-lhe o nome.
O Château Lynch Bages em 1855 integrou no Cinquièmes Crus. Desde então, a Classificação mantém-se inalterada (com apenas duas modificações). É ponto assente entre profissionais e apreciadores que a hierarquia de antigamente está completamente desajustada do mercado actual e não reflecte a realidade de hoje, na qualidade e no preço. Assim, existem châteaux no 5º nível que praticam (e o mercado aceita) os preços bem acima do seu patamar e, como é o caso do Lynch Bages ou Pontet Canet, acima de muitos Deuxièmes Crus, porque a sua qualidade e reputação supera largamente a classificação oficial.
O 2018 foi um ano bom em Bordeaux, onde o bom significa um ano quente. O lote é tipicamente bordalês da margem esquerda, com 72% Cabernet Sauvignon, 19% Merlot, 6% Cabernet Franc, 3% Petit Verdot. Depois da habitual longa maceração, estagiou em barricas de carvalho francês (75% novas) durante 18 meses.
O Château Lynch Bages 2018 é concentrado e sólido no aroma, com sugestões de mirtilo, chocolate negro e pimenta preta, deixando transparecer algumas bagas vermelhas e ervas aromáticas. Tanino magistral, corpo monolítico, muito íntegro, com textura em camadas e imensa frescura. No sabor revela nuances de eucalipto, belíssima fruta fresca, café verde um toque savory. Persiste no acompanhamento de prato, elevando-o.
Da amizade e parceria entre a família Roquette, já há muito ligada ao Douro através da Quinta do Crasto, e a família Cazes, proprietária do Château Lynch Bages em Pauillac, nasceu o projecto Roquette & Cazes em 2002. Este ano faz 20 anos. O responsável de enologia do lado português é Manuel Lobo, que também é o enólogo da Quinta do Crasto, e do lado francês, Daniel Llose, o enólogo do Lynch Bages. A ambição de produzir um grande vinho no Douro não perseguiu a ideia de fazer uma réplica de Bordeaux, mas sim, explorar o potencial do Douro Superior.
Manuel Lobo apresentou o Xisto 2018, explicando que só é feito em anos verdadeiramente excepcionais. No Douro há colheitas mais difíceis onde não é possível atingir a qualidade para um vinho de topo.
O lote é típico duriense com Touriga Nacional, Touriga Franca e Tinta Roriz – todas vinificadas em separado em cubas troncocónicas para promover a extração mais homogénea em todas as partes da manta quando fazem a délestage. Procuram concentração e complexidade com elegância. O estágio decorreu em barricas de 225 litros do fornecedor do Château Lynch Bages durante 20 meses.
Tudo isto resultou num vinho com aroma profundo de amora madura, eucalipto, esteva, notas terrosas, algum couro e leve cogumelo. Refinado de sabor e corpo possante com polimento magistral, fruta pura e madeira perfeitamente integrada. Com este gabarito todo, não peca por falta de frescura a acompanhar a refeição, termina expressivo e muito longo.
Ambos os vinhos se fizeram grandes aliados ao prato principal de saboroso cordeiro com queijo de cabra e pimentos. Finalizámos com um belíssimo Sauternes de Château Siduiraut 2010, feito também por Daniel Llose, a acompanhar a sobremesa – créme brulée com alperce e merengue.
Dedicada à distribuição de vinhos internacionais e portugueses, com um grande portefolio a contar com referências das regiões mais emblemáticas do Velho e do Novo Mundo, a Direct Wine também atua na área de formação WSET até ao nível 3. Já o Club Direct Wine idealizado por Raul Riba D’Ave reúne os entusiastas do vinho em torno de novas experiências. A diferença de preço entre as duas estrelas da prova reflecte, sobretudo, a notoriedade internacional de cada marca e região: o Château Lynch Bages anda entre €180 e €200€ e o Xisto custa cerca de €80, um valor já bem acima da média dos vinhos de topo em Portugal.
(Artigo publicado na edição de Outubro 2022)
Guimaraens: o outro Vintage da Fonseca

A Fonseca, tal como muitas outras casas de vinho do Porto, declara dois tipos de Vintage, o “clássico” – nos anos de excelência – e uma segunda marca que pode ou não ser de uma única quinta. No caso dos Vintage Fonseca Guimaraens, está desde há muito assumido que só têm edição nos anos não […]
A Fonseca, tal como muitas outras casas de vinho do Porto, declara dois tipos de Vintage, o “clássico” – nos anos de excelência – e uma segunda marca que pode ou não ser de uma única quinta. No caso dos Vintage Fonseca Guimaraens, está desde há muito assumido que só têm edição nos anos não clássicos. Nascidos nos anos 30, são sempre vinhos gulosos, têm muita qualidade e um preço bastante conveniente. A vertical em que estivemos presentes demonstrou isso tudo. E alguns mistérios ficaram por resolver…
Texto: João Paulo Martins Fotos: The Fladgate Partnership

O sector do vinho do Porto tem uma tradição que merece grande aplauso: as casas têm de manter um histórico dos vinhos, único garante da valia de tudo o que os antepassados fizeram. Essa tradição remonta quase ao séc. XVIII embora as garrafas existentes dessa época sejam em número muito reduzido. O mais interessante desta história é que essas garrafas, religiosamente guardadas nas caves de Gaia, resistiram a tudo. Por lá há algumas do tempo da monarquia exilada no Brasil (1804 da Real Companhia Velha ou 1815 da Ferreira), por lá há garrafas que resistiram a guerras civis, à queda da monarquia, às Guerras Mundiais e ao 25 de Abril. Dizer que é notável, é pouco. O povo bem que pode ter gritado na rua os “morras” e os “abaixo o grande capital”, o que é certo é que as garrafas lá continuaram em seu sossego. Provavelmente só mesmo num país de brandos costumes isto foi possível.
De tempos a tempos, chega o momento da prova destas preciosidades. Por antiguidade nestas lides, e por sorte, temos estado presentes em muitas destas verticais, com destaque para Ferreira (esta remontou ao séc. XIX…), Taylor’s, Ramos Pinto, Niepoort, Croft, Cockburn’s, Graham’s e da Dow’s (esta em Londres) ou a monumental prova dos Vintage do séc. XX que abrangeu muitas casas. Uma vertical de Vintage Guimaraens é um acontecimento, já que, pelo menos nos últimos 40 anos, nunca foi realizada. A história dos Guimaraens sem til, essa, merece ser conhecida.
Para chegarmos à fundação da Fonseca – nome incontornável no sector do vinho do Porto – teremos de recuar a 1822, já que foi então que Manoel Pedro Guimaraens fundou a empresa, após compra da Fonseca & Monteiro (criada em 1815), então uma pequena firma do sector, como tantas outras que à época existiam. Em Portugal viviam-se tempos politicamente difíceis, com o país dividido entre liberais e absolutistas, algo do tipo esquerda e direita dos nossos dias. A diferença é que, então, os assuntos se discutiam de armas na mão e os conflitos culminaram na guerra civil (1832-34) que foi dura e devastadora. Manoel Pedro, liberal dos quatro costados, viu-se obrigado a partir para o exílio, escondido num casco vazio de vinho do Porto. Foi para Inglaterra e terá sido lá que, para facilidade de compreensão dos locais, mudou o seu apelido, retirando-lhe o til. Por lá ficou e o regresso a Portugal deu-se em 1827, seguramente quando sentiu que não correria perigo por ser um adepto do liberalismo. Esse apego à causa liberal valeu-lhe a Ordem de Cristo em 1834, a maior honra então atribuível a um cidadão.
A importância e fama da empresa cresceram e em 1840 a Fonseca já era a segunda maior exportadora de Porto. Nessa sequência lançou em 1847 o seu primeiro Vintage Fonseca, então exportado para Inglaterra que era o mercado principal dos melhores vinhos do Porto jovens, também conhecidos como “Novidade”. Com a vitória do liberalismo em 1834, vários ingleses ligados ao sector vieram para Portugal, como foi o caso de John Fladgate que chegou ao Porto em 1836. Tinha na altura 28 anos. No ano seguinte, juntamente com Joseph Taylor e em 1844 com Morgan Yeatman formou a empresa conhecida como Taylor, Fladgate and Yeatman. Para a história que aqui nos interessa é Fladgate o centro das atenções; teve um filho (que se associou à empresa) e quatro filhas. Todas se casaram com personagens do sector: com James Forrester (Offley), com Albert Morgan (Morgan Brothers), com Charles Wright (Croft & Ca.) e com Pedro Gonçalves Guimaraens (M P Guimaraens, actual Fonseca Guimaraens). Percebe-se assim a ligação secular que existe entre estas duas empresas (Taylor e Fonseca), que integram a The Fladgate Partnership, onde actualmente também incluímos a Croft, a Delaforce, a Romariz e a Wiese & Krohn. A estrutura familiar continua a ser a espinha dorsal da Fonseca. David Guimaraens, actual responsável da enologia da Fladgate é tetraneto do fundador da empresa, Manoel Pedro que, após colocar a Fonseca “no mapa”, veio a falecer em Londres em 1858. No séc. XX, todos os Vintage da Fonseca foram da responsabilidade de apenas quatro enólogos: Frank Guimaraens (desde o 1896 até ao 1948), Dorothy Guimaraens (Vintage 1955), Bruce Duncan Guimaraens (de 1960 a 1991) e actualmente David, desde o Vintage de 1992. Dorothy foi assim a única profissional (ao que consta era exímia provadora…) responsável pelo único Vintage clássico dos anos 50, uma década madrasta para o sector do vinho do Porto: aos anos fracos juntaram-se as enormes dificuldades para sobreviver à devastação pós 2ª Guerra Mundial e à consequente estagnação dos mercados. A Fonseca, em especial, atravessou momentos muito difíceis e, sem crédito na banca, acabou por ser adquirida pela Taylor, a sua associada que lhe estava a suprir as dificuldades financeiras. Assim, em 19 de Maio de 1949, a Taylor passou a proprietária da Fonseca, tendo-se mantido a individualidade de cada casa, em termos de fornecedores e stocks.
As quintas, as uvas e os fornecedores delas
Foi no tempo de Bruce Guimaraens que a Fonseca adquiriu as propriedades que tem hoje. Até aos anos 70 poucas eram as empresas que tinham quintas no Douro; a Croft tinha a Roeda, a Taylor’s tinha Vargellas, a Ferreira tinha algumas quintas herdadas de Dona Antónia (Vesúvio, Meão, Valado, entre outras) mas eram casos isolados; a esmagadora maioria dos vinhos eram adquiridos aos lavradores e chegavam a Gaia já feitos e prontos. Os exportadores, como eram conhecidos os homens das empresas do vinho do Porto (únicas autorizadas a exportar), poucas razões tinham então para sair de Gaia: era ali que provavam e aprovavam os lotes, era ali que os vinhos estagiavam e envelheciam nos cascos e era dali que eram exportados em pipa. Ir ao Douro era uma odisseia tal que era de evitar a todo o custo. Não se estanha assim que a Fonseca, apesar de ter grandes vinhos, não tivesse acesso, durante mais de 150 anos, a uvas próprias. Estamos mesmo em crer (suposição nossa) que os homens de Gaia não conseguiriam saber de que castas eram os vinhos que lhe chegavam, tal como não sabiam o compasso da vinha, a técnica da poda, as re-enxertias e outras páticas vitícolas. Até 1963, era seguro que eram todos feitos em lagar com pisa, uma vez que as cubas auto-vinificadoras, de cimento, só surgiram na região em 1964. Se os vinhos que chegavam a Gaia fossem de pequenos lavradores, continuariam certamente a ser vinhos feitos em lagar. Os provadores – personagens com uma tremenda importância no sector durante décadas e décadas – decidiam então, em Gaia, o destino dos vinhos que lhes chegavam: para Vintage e Tawnies com indicação de idade iam os melhores lotes; para as restantes gamas iam os vinhos de menor valia. Este foi o mundo da Fonseca até finais dos anos 70. Foi então que o sector percebeu – face à enorme procura internacional, nomeadamente de Vintage – que só controlando todo o processo, da vinha à adega, seria possível assegurar a alta qualidade dos vinhos produzidos. Deu-se assim um retorno ao Douro, agora com intenção de adquirir propriedades que pudessem suprir as necessidades ou, pelo menos, assegurar a melhor qualidade possível para os vinhos de topo.
Chegou então o momento da Fonseca se aventurar no Douro. A primeira propriedade adquirida foi a Quinta do Cruzeiro, em 1973. Situada em Vale Mendiz, a propriedade tem 21 ha, dos quais 13 com vinhas. A quinta já era fornecedora de uvas à empresa desde 1870 e desde 1912 que os vinhos do Cruzeiro entravam nos lotes dos Vintage. Após a morte do proprietário, a Fonseca adquiriu esta quinta que conhecia muito bem. Desde então as suas uvas – e de algumas vinhas adjacentes – são a espinha dorsal dos Vintage Fonseca.
Em 1978 a Fonseca comprou a Quinta do Panascal, situada nas margens do Távora, afluente da margem sul do Douro. Também daqui já seguiam vinhos para a empresa; desde a compra que a renovação dos vinhedos do Panascal tem sido uma actividade constante e é hoje uma propriedade em modo de produção bio.
Em 1979 foi adquirida a Quinta de Santo António, vizinha do Cruzeiro; tem 8,8 ha de área e cerca de 6 ha de vinhas, todas renovadas no moderno sistema de plantio introduzido pelos técnicos da empresa, com direcção de António Magalhães.
Para além destas, a empresa tem adquirido muitas outras quintas e parcelas vizinhas (também, por tradição, chamadas “quinta”), como aconteceu na vizinhança do Cruzeiro e Santo António. Assim, propriedades como Junco, Eira Velha, Casa Nova, Vedejosa, Vale do Bragão e Arruda, são pertença do grupo mas não estão adstritas a uma marca em particular. As uvas são assim usadas para os restantes vinhos do grupo mas não para os Vintage; esses continuam a ser das quintas tradicionais. É assim, diz David, “que se consegue manter a identidade de cada Vintage; não é por ser feito por mim ou por outro, é a expressão deste local e por isso não se deve incluir o que não tem cabimento”.
Em Janeiro de 2022, a empresa tomou posse da vinha Vale de Muros, vizinha do Panascal, uma vinha velha que corresponde à 1ª geração pós filoxera – ou seja já com recurso aos porta-enxertos – mas implantada em terraços pré-filoxéricos de apenas um bardo. Um verdadeiro monumento nacional. A parcela tem 1,6 ha. Quando chegou a hora da reforma, o anterior proprietário confessou: “preciso que seja o Panascal a tomar conta da vinha”. Dizem-nos que “foi um gosto da família toda vender à Fonseca”. Não nos custa a acreditar, tal o entusiasmo com que António Magalhães fala da vinha onde, mais do que cepas e muros vê um livro aberto sobre o modus operandi da lavoura na era pós filoxera. Sobre isso, conta-nos, “a vinha foi replantada aqui após a filoxera sem mexer nos muros e na largura dos socalcos. Só plantaram um bardo e não mais, como nos novos terraços pós-filoxera”. Então António conclui, “aqui a única diferença em relação aos tempos anteriores à filoxera é o recurso ao porta-enxerto montícola, muito rústico e que induz baixa produção mas permite que as cepas vivam mais tempo”. Tudo se percebe melhor, agora…

Os novos métodos de plantio que a empresa adoptou no Douro – patamares de um bardo com 1,5m de largo que permitem acesso ao talude, e inclinação do terreno em 3% para escoar eventual enxurrada, tem tudo de novo na região, mas já o Visconde de Vila Maior, nos finais do séc. XIX, num texto verdadeiramente visionário, chamava a atenção para isso sugerindo que, quando a mão de obra escasseasse para fazer os muros e se tivesse de optar por taludes, ter-se ia de ter em atenção a inclinação do patamar, exactamente pela razão referida. Notável! Já quanto à escassez de mão-de-obra, recordemos que é, apenas, um problema que existe desde que existe Douro e vinho do Porto…
Fonseca e Guimaraens – Vintage de prestígio
Tal como muitas outras casas do sector, a Fonseca tem dois tipos de Vintage: o Fonseca nos anos considerados “clássicos” e o Guimaraens nos anos não clássicos, também chamados pelos ingleses de “anos single quinta”. Aqui duas ressalvas: dizemos “muitas casas do sector” porque nem todas aceitam esta divisão entre clássico e single quinta, como foi durante mais de um século o caso da Ferreira, para quem “ou era Vintage ou não era”, afirmação tradicional dos enólogos da casa; e a própria designação de “clássico”, também ela muito querida às casas inglesas, mas que outros rejeitam totalmente, como o caso da Quinta do Noval. A ideia seria que “clássico” era o ano em que as empresas declaravam Vintage com a principal marca, neste caso Fonseca, noutros Graham’s, Dow’s ou Taylor’s, por exemplo. Sabemos que esta diferenciação é uma convenção criada nas empresas e que nada tem a ver com a entidade certificadora. De facto, o Instituto dos Vinhos do Douro e Porto (IVDP) não faz aquela distinção na aprovação dos lotes, limita-se a certificar o lote em apreciação como Vintage, sem mais adjectivos.
Quanto à Fonseca a noção de “single quinta” tem aplicação relativa, uma vez que a segunda marca – Guimaraens – é também ela lote de várias quintas. Para que a vida do consumidor não fique muito facilitada, além do Guimaraens, a Fonseca tem alguns Vintage de quinta, como é o caso do Quinta do Panascal (primeira declaração em 1984) e o Quinta do Cruzeiro, muito raramente editado e de que apenas conhecemos e provámos o 1982. É tudo algo confuso, mas o sector do vinho do Porto é mesmo assim…
O Guimaraens nasceu em 1931 e na prova que fizemos provámos a partir do 1933. Na década de 30, o Guimaraens era editado nos mesmos anos que o Fonseca e o lote de cada um é que era diferente. Segundo David Guimaraens foi a partir dos anos 40 que assumiram o Guimaraens como segunda marca.
O “assunto” dos single quinta ou Vintage não clássicos é de especial interesse para os consumidores, uma vez que são vinhos de grande qualidade e aprovados como tal pelo IVDP, mas que têm um preço bem mais acessível do que os Vintage considerados clássicos. Não durarão 100 anos mas nós também não…
Para se ter uma ideia da diferença, a Garrafeira Nacional (em Lisboa) vende o Guimaraens 2018 a €42 enquanto o Fonseca 2017 custa €111…
Os Fonseca são, com frequência, verdadeiros monstros, vinhos eternos que tendiam a precisar de 30 a 40 anos para começarem a dar boa prova. O melhor exemplo será o 1985, sem dúvida, o melhor da declaração, e que só agora começa a mostrar condições para ser apreciado, mas onde notamos vigor e potência para os próximos 50 anos. As edições mais recentes têm mostrado mais elegância mesmo na juventude, mas continuando a ser vinhos de enorme estrutura. O Guimaraens é mais previsível mas o 1976 desmente tudo (ver caixa). Segundo David, é normalmente após 40 anos de garrafa que conseguimos perceber e distinguir os que são eternos e os que não são tão longevos; é o caso da comparação entre o Guimaraens 1957 e o 1965, este segundo a mostrar-se muito mais jovem e a dizer-nos que durará mais tempo em garrafa.

Uma prova memorável
Começámos a vertical de Guimaraens pelo mais antigo, o 1933. Já muito ligeiro na cor mas de aroma notável, pela delicadeza, pela finura e pelo carácter de fruta em calda e licorados de grande nível (19). O 1957 apresentava uma cor mais tawny e menos rico de estrutura que o 33, mas muito fino e elegante na boca (18). O 1965 nasceu num ano com alguma chuva na vindima o que, segundo David, também distingue os anos clássicos e não clássicos, já que nos clássicos a vindima é sempre sem chuva. Este mostrou estar agora no seu melhor momento, com aromas de garrafa, uma tonalidade ainda vermelha, verdadeira “atracção fatal” no aroma. Belíssimo (19). O 1967 sofreu de um mal que durante décadas afectou alguns Vintage, o facto de nascerem a seguir a um ano declarado como clássico, neste caso o 1966, 1967 “devia ter sido declarado”, lembra David; tem aromas sedosos e bela tonalidade vermelha, uma textura macia, envolvente e cheio, ligeiramente mais curto no final que o 1965 (18,5). O 1976 (ver caixa) nasceu em ano de baixos rendimentos derivados da seca, mas gerou um Vintage absolutamente glorioso (20). Ao contrário do 1976, o 1978 surgiu em ano húmido durante quase todo o ciclo mas com vindima seca, originando um vinho aberto de cor mas muito fino na boca, elegante e com carácter. Evoluiu depressa e já há bastante tempo que está no zénite (18). O 1984 mostrou-se ligeiro na cor, muito polido de aromas, com fruta em calda, muito agradável de beber agora e já no ponto certo do consumo (18). O 1987 foi ano que, também ele, deveria ter sido declarado (o que já ouvimos em várias casas) mas esta garrafa não se mostrou à altura, com algumas (subtis mas evidentes) notas aborrachadas. A rever. O 1991 foi declarado como segunda marca num ano em que quase todos declararam clássico o que gerou imensa controvérsia. O vinho mostrou muito bom perfil, ainda cheio e com bom volume, em grande forma na boca, a dar imenso prazer na prova (18,5). O ano de 1998 prometia tudo de bom e gerou grande entusiasmo no sector mas a chuva na vindima deitou tudo a perder e as duas garrafas aqui provadas também não nos deram grande alegria. O 2001 mostrou-se com boa cor ainda que a perder alguma concentração, está muito elegante e a dar bela prova, com a doçura no ponto (18). O 2008 revelou-se espectacular de cor e aroma, com fruta vermelha e negra e especiarias de pimenta preta, taninos excelentes, com grande complexidade (18,5). O 2015 nasceu num ano de invulgar seca mas alguma chuva na vindima ajudou à qualidade final. Concentrado na cor e ainda fechado no aroma mas com enorme potencial; taninos finos bem presentes, todo ele a mostrar anos e anos pela frente (18,5).
No conjunto, uma prova rara, assente em grandíssimos vinhos e ao longo da qual percorremos 85 anos de Vintage Guimaraens. Memorável, em suma.

Guimaraens 1976 – o vintage mistério
Este Guimaraens foi declarado num ano em que muito poucas casas fizeram Vintage, havendo referência de um Quinta de Vargellas e um Malvedos e pouco mais. O ano anterior tinha sido “clássico” mas esse 1975 acabou por se revelar um flop na generalidade do sector, um vinho que nunca deveria ter sido declarado e que é hoje se mostra, regra geral, demasiado ligeiro e frágil, o que contraria a lógica da declaração de um “clássico”. Este 1976 Guimaraens, desde o seu lançamento, mas sobretudo desde o final dos anos 80, veio a revelar-se um “monstro” na positiva acepção da palavra. Concentrado na cor, de enorme estrutura, faltando-lhe em delicadeza o que lhe sobrava em raça e energia. Foi por isso muito apreciado pela crítica e também muito “comprado” já que o preço era muito conveniente e a disponibilidade no mercado era a que se quisesse. Recordo que, na época, nem Bruce Guimaraens nos conseguiu explicar bem a origem daquelas uvas e, assim, o 1976 ficou sempre como eterno enigma. Na prova agora levada a efeito, mostrou-se de novo grandioso e explosivo, com uma concentração de cor que só se repetiu no 1998. Neste aspecto de vigor e estrutura é para mim é um dos Vintage memoráveis do século XX, sobretudo por esse lado inexplicável que lhe estará sempre associado. Nenhum dos vinhos agora provados na vertical se assemelhou no perfil ao “monstro” de 76. Também já tive oportunidade de provar alguns 1976 menos surpreendentes mas aí entra o factor “rolha” a estragar a festa. Para sorte de todos os presentes na prova, este estava absolutamente grandioso. (JPM)
(Artigo publicado na edição de Setembro de 2022)
Adega H.O. tem novo wine bar no Douro

Num ponto privilegiado da propriedade de 55 hectares, em Santa Marta de Penaguião, no Douro, a H.O. (Horta Osório) abriu, recentemente, um novo wine bar. A H.O. foi adquirida recentemente pela Menin Wine Company, e tem João Rosa Alves, como enólogo residente, e Tiago Alves de Sousa. O espaço — que é também sala de […]
Num ponto privilegiado da propriedade de 55 hectares, em Santa Marta de Penaguião, no Douro, a H.O. (Horta Osório) abriu, recentemente, um novo wine bar. A H.O. foi adquirida recentemente pela Menin Wine Company, e tem João Rosa Alves, como enólogo residente, e Tiago Alves de Sousa.
O espaço — que é também sala de provas, miradouro, ponto de encontro e de admiração dos patamares de vinhas históricas — serve vários vinhos H.O. a copo, como o Moscatel Galego, o rosé de Touriga Nacional, os Colheita branco e tinto ou os Reserva, acompanhados de petiscos regionais, como salpicão de cachaço fumado, linguiça de Alvão, chouriço tradicional fumado, ou queijos como o de cabra regional e de mistura amanteigado. Há ainda a possibilidade de optar por salmão fumado servido em tostas com queijo fresco.
Six Senses Douro Valley organiza Sunset Market

O hotel Six Senses Douro Valley vai organizar, no próximo domingo, dia 16 de Outubro, um “Sunset Market” num dos seus jardins. Com início às 18h00, e até às 22h00, este é um evento gastronómico e cultural, com música ao vivo, cocktails de assinatura, vinhos da região e estações de cozinha ao vivo com os […]
O hotel Six Senses Douro Valley vai organizar, no próximo domingo, dia 16 de Outubro, um “Sunset Market” num dos seus jardins. Com início às 18h00, e até às 22h00, este é um evento gastronómico e cultural, com música ao vivo, cocktails de assinatura, vinhos da região e estações de cozinha ao vivo com os chefs que assinam a carta dos restaurantes do hotel.

“O Outono está em pleno e a natureza começa a ganhar os tons âmbar e dourados característicos desta época do ano. No Six Senses, queremos assinalar e interpretar esta passagem de estações com um ‘Sunset Market’, no jardim orgânico do hotel”, refere Joana van Zeller, responsável de Marketing e Comunicação do Six Senses Douro Valley.
O evento é aberto hóspedes e a público externo, e o acesso tem um custo de €160 por pessoa.
School of Port da Symington lança bootcamp para sommeliers

É já em Setembro, entre os dias 11 e 14, que se realiza a primeira edição do Douro Somm Camp, um bootcamp imersivo que receberá 13 sommeliers europeus de 13 países diferentes, vencedores de várias competições. Esta iniciativa da School of Port — academia de vinho do Porto criada pela Symington Family States — tem […]
É já em Setembro, entre os dias 11 e 14, que se realiza a primeira edição do Douro Somm Camp, um bootcamp imersivo que receberá 13 sommeliers europeus de 13 países diferentes, vencedores de várias competições. Esta iniciativa da School of Port — academia de vinho do Porto criada pela Symington Family States — tem como objectivo proporcionar, aos sommeliers participantes, uma experiência de aprendizagem enriquecedora no Douro, durante a época da vindima. Estes terão a oportunidade única de contactar directamente com aqueles que trabalham nas várias áreas do sector do vinho do Porto — dos viticultores aos comerciais — e acesso privilegiado aos “bastidores” da produção.
No programa do Douro Somm Camp está prevista uma ida às caves Graham’s, em Vila Nova de Gaia, uma visita à moderna adega da Dow’s, na Quinta do Bomfim, no Pinhão; bem como a pisa tradicional na Quinta do Vesúvio, no Douro Superior. Pelo meio, haverá provas, masterclasses e almoços diante das paisagens durienses, assim como jantares vínicos onde edições especiais de vinho do Porto e Douro estarão à prova. Há ainda alguns elementos surpresa preparados.
Segundo a School of Port, a ideia é “fazer do Douro Somm Camp um grande evento anual no calendário da sommelerie, convidando a cada ano as novas caras vencedoras das competições nacionais para uma experiência única e inesquecível sobre o vinho do Porto e o Douro”.





