PROVA BICAL: Entre Dão e Bairrada

Como acontece com tantas outras castas portuguesas, esta variedade viveu durante muito tempo misturada nas vinhas, onde ajudava ao field blend das vindimas feitas a eito. Por essa razão, é muito difícil procurar vinhos varietais nas duas regiões em que está mais presente. No Dão, por exemplo, encontrar vinhos brancos varietais é uma dificuldade generalizada, […]
Como acontece com tantas outras castas portuguesas, esta variedade viveu durante muito tempo misturada nas vinhas, onde ajudava ao field blend das vindimas feitas a eito. Por essa razão, é muito difícil procurar vinhos varietais nas duas regiões em que está mais presente. No Dão, por exemplo, encontrar vinhos brancos varietais é uma dificuldade generalizada, a que também não escapa a Encruzado, a tal variedade que só despertou da letargia nos anos 90 do século XX.
A Bical será filha da Malvasia Fina e de pai desconhecido. Esta é a linhagem que se conhece e é admitida como mais válida actualmente. Vem o tema a propósito porque, numa pesquisa no Google, somos informados que o “pai desconhecido” afinal seria a casta Esgana Cão (Sercial). Esta existe em Bucelas e na Madeira, segundo António Graça, investigador e cientista ligado à genética, nada nos conhecimentos actuais nos pode levar a pensar que Esgana Cão seja “pai” da Bical, variedade que encontrou na Bairrada um local excelente para se desenvolver, devido ao facto de ser uma casta precoce (e, por consequência, vindimada mais cedo do que outras) permite aos produtores colhê-la antes da chuva do equinócio, o verdadeiro trauma das gentes bairradinas.
O facto de ser precoce, só por si, não era, outrora, garantia segura. Do ponto de vista vitícola, era uma casta mal-amada na Bairrada, uma vez que era muito atreita ao desavinho e ao oídio, produzia mal e pouco (Ver As Castas do Vinho, João Afonso, 2023). Esta combinação de factores, que poderemos apelidar de “trágica”, só se alterou pela selecção clonal, controle das doenças da vinha e melhorias da viticultura. Foi assim que passou de mal-amada a uma variedade que Luís Lopes, enólogo do Dão (Domínio do Açor, Quinta das Marias) e na Bairrada, não hesitou em considerar “uma das melhores castas portuguesas”.
O que é que a Bical tem?
Dou aqui a palavra aos enólogos com quem debati este assunto. Luís Lopes reconhece-lhe a facilidade de cultivo, porém exigente no tipo de solo onde está implantada, porque “em solos secos perde muita acidez”. Terá sido este factor que levou os enólogos da Quinta dos Carvalhais, localizada no Dão, a optarem pelo arranque das vinhas de Bical. Manuel Vieira, em tempos enólogo nesta propriedade vitivinícola, explica: “só fizemos uma colheita com Bical, mas, em virtude da falta de acidez, tivemos de lhe juntar Loureiro, casta dos [Vinhos]Verdes que, no Dão, produzia muito. Saiu assim unicamente uma edição de Bical/Loureiro na colheita de 2000. Depois decidimo-nos pelo arranque”.
Do ponto de vista produtivo e na adega é casta que requer muita atenção do enólogo, pois “tão depressa fica o vinho reduzido, como pode oxidar rapidamente”, lembra Luís Lopes, que enaltece diferenças na variedade conforme a região: mais salinidade no Dão e mais notas de talco, que derivam do calcário, na Bairrada. Já Francisco Antunes, enólogo do Grupo Bacalhôa, que estudou a casta Bical no seu trabalho de fim de curso de enologia, elogia a casta, embora reconheça o quão é trabalhosa na vinha: “requer muita atenção e tratamentos adequados, mas, nas vinhas velhas, apesar da baixa produção, origina vinhos espectaculares. Parece pouco exuberante nos aromas, mas é casta que cresce imenso em garrafa e, por isso, pode considerar-se geradora de um vinho de guarda. As Caves Aliança tiveram uma colecção de vinhos debaixo do “chapéu” Galeria (a partir de 1989), que eram vinhos varietais e já, então, existia um branco de Bical”, recorda.
A fermentação, ainda segundo Francisco Antunes, pode decorrer em barrica. Contudo, a bâtonnage tem de ser muito moderada, para não resultar num branco muito pesado. Assim, no Bacalhôa 1931 faz-se a fermentação em quatro momentos: inox, barrica nova, barrica de um ano e barrica de dois anos; depois faz-se o lote nas percentagens determinadas pela prova. Normalmente, fica ainda um ano em garrafa antes da comercialização. É, portanto, uma casta que requer tempo e paciência. Ainda assim, como nos recordou, “tempo não se compra em enologia”. Luís Lopes, que trabalha a variedade nas duas regiões, recorda: “no Açor, temos solos com muito limo, que nos conservam bem a acidez do mosto e, na Bairrada, o calcário e a frescura do clima ajudam também à manutenção do ambiente de vivacidade no vinho”. Já Jorge Moreira, enólogo e um dos três fundadores do projecto M.O.B., acredita que é da combinação e proporção ajustada entre a Bical e a Encruzado que se conseguem os melhores resultados. Na empresa, o branco topo-de-gama é o Gauvé que, precisamente, é feito de 70% de Bical com 30% de Encruzado. Na zona onde estão as suas vinhas (Serra da Estrela), consegue-se excelente acidez. No entanto, “é preciso muito cuidado para não perder a estrutura de boca e a densidade que lhe são próprias”, adverte.
Da prova que fizemos, há algumas notas gerais que merecem destaque: olhando os 15 vinhos como um todo, verifica-se que há claramente uma preocupação com a diminuição da graduação, com nove amostras abaixo dos 13% de álcool e apenas uma com 13,5%. Apesar da maioria apresentar rolhas técnicas, houve, ainda assim, problema de rolha numa das referências.
O leque dos preços é variado, todavia isso também indica ao consumidor que muitos destes vinhos são abordáveis, sobretudo se adquiridos fora da restauração. Ficou igualmente claro que, tal como referimos no texto, o vinho ganha com o tempo em garrafa – nenhuma amostra de 2025 e duas de 2024, enquanto as restantes eram anteriores e mostraram que o tempo lhes fez bem. E mesmo ao Quinta dos Roques, já com 11 anos de idade, o tempo moldou-o, mas não o toldou.
(Artigo publicado na edição de Junho de 2026)
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Adega de Penalva
Branco - 2023 -

Terras Madre de Água
Branco - 2023 -

Desuso Borrado das Moscas
Branco - 2023 -

Alva Magna
Branco - 2024 -

Quinta dos Roques
Branco - 2015 -

M.O.B.
Branco - 2023 -

Código
Branco - 2024 -

Domínio do Açor Vinha Celta
Branco - 2022 -

Marquês de Marialva
Branco - 2023 -

Quinta dos Abibes
Branco - 2019
GRANDE PROVA LOUREIRO: Uma casta superstar

Segundo o Instituto do Vinho e da Vinha (IVV), a Loureiro é uma casta indígena do território dos Vinhos Verdes, provavelmente autóctone. É uma casta de maturação precoce, prefere solos profundos e de média fertilidade, e dá-se bem com a humidade do ar. Contudo, precisa de protecção do vento. A casta tem especial expressão na […]
Segundo o Instituto do Vinho e da Vinha (IVV), a Loureiro é uma casta indígena do território dos Vinhos Verdes, provavelmente autóctone. É uma casta de maturação precoce, prefere solos profundos e de média fertilidade, e dá-se bem com a humidade do ar. Contudo, precisa de protecção do vento. A casta tem especial expressão na região de Ponte de Lima. O site do IVV acrescenta, então, que os vinhos devem ser bebidos jovens. Porém, após esta prova, parece-me que vai ser preciso fazer uma actualização.
Os primeiros vinhos estremes de Loureiro que provei há uns 30 e tal anos tinham características muito específicas. Frescos, citrinos, de baixo teor alcoólico, acidez viva e algum gás a equilibrar uma doçura residual significativa. Este estilo jovem e frívolo era, muitas vezes, porta de entrada para os jovens no mundo vínico. Eram realmente vinhos que convinha beber novos e era esse o hábito face a muitos vinhos brancos em Portugal.
A pouco a pouco, o estilo foi mudando. Começaram a aparecer uns mais sérios e ambiciosos. O processo de melhoria global dos vinhos feitos a partir de Loureiro pode chamar-se de uma profecia auto-realizável. Para perceber esta evolução consultei o enólogo Anselmo Mendes, por vezes conhecido por Sr. Alvarinho, mas com igual propriedade se pode chamar Sr. Loureiro.
Para melhores resultados, apanha-se, por vezes, apenas o primeiro cacho da vara atempada, o qual detém maior concentração das componentes essenciais para a produção do vinho
Viticultura ambiciosa e desvelo na adega
Segundo Anselmo Mendes, a grande melhoria dos vinhos e o aumento da sua longevidade tem origem numa viticultura muito mais cuidada. Acrescento eu que a enologia portuguesa também evoluiu muito e os vinhos brancos beneficiaram dos melhores processos dentro da adega. Disse-me ainda que a Loureiro é uma variedade muito produtiva, chegando facilmente às 25 toneladas de uva por hectare.
Para garantir a qualidade, é preciso limitar severamente a produção, no máximo pode chegar-se às 15 toneladas. Para o seu Private, o mais bem pontuado desta prova, a produção da vinha velha é de oito toneladas. Para melhores resultados, a escolha é feita na vinha, apanhando, por vezes, apenas um cacho, o primeiro da vara atempada. Assim, este cacho vai ter uma maior concentração das componentes essenciais para a produção do vinho. Medições do extracto seco em várias amostras demonstram que esta estratégia é vencedora.
Para além do próprio vinho, Anselmo Mendes foi, durante muitos anos, enólogo da Quinta do Ameal, projecto que se tornou icónico na região. Quando foi comprado pelo Esporão, organizou uma prova vertical dos Quinta do Ameal e Quinta do Ameal Escolha, prova essa que mudou completamente a minha visão sobre a longevidade dos vinhos produzidos a partir de Loureiro. Provámos referências vínicas com mais de 20 anos, e a acidez vincada e afiada assegurou que o vinho estava bem vivo, oferecendo uma prova cheia de carácter e prazer.
Foi com projectos como este que a profecia se foi cumprindo. Houve pessoas que acreditavam no potencial da casta, praticavam uma viticultura cada vez mais ambiciosa, os vinhos melhoravam, evoluíam de forma muito positiva, o que justificava mais investimentos e de querer ir mais além. Um vinho que anteriormente se bebia no próprio ano, quase que o mais cedo possível, passou a tornar-se objeto de guarda. Lembro-me bem de os produtores se queixarem de não conseguirem vender o vinho do ano anterior. Tempos já idos.
Um vinho que anteriormente se bebia no próprio ano, quase que o mais cedo possível, passou a tornar-se objeto de guarda
Para todos os gostos
Dos 24 vinhos que vieram a esta prova, apenas seis são de 2025. Há oito de 2024, seis de 2023, três de 2022 e um de 2021. A justificação para a aposta em referências com idades variadas prende-se com o facto dos vinhos elaborados com a casta Loureiro terem sempre um grau alcoólico relativamente baixo e uma acidez precisa e vigorosa, que os torna bons companheiros à mesa. O uso de madeira para os estagiar é bastante raro, e muda um pouco o carácter fresco e divertido do vinho. Os aromas de frutos cítricos, como lima e limão, são frequentes, mas pode aparecer laranja e toranja. É frequente um lado vegetal a folhas de louro, talvez daí o nome da casta. Notas minerais aumentam a complexidade e algum trabalho com as borras pode ajudar a dar alguma textura cremosa ao vinho. Ainda existe o estilo frizante, com algum açúcar, um perfil que ainda encontra apreciadores. Os mais secos podem ter a acidez muito em evidência, e ficam bem com ostras – as ostras agradecem sempre os vinhos secos. Já os mais ‘ambiciosos’, com uma acidez suave bem integrada, podem acompanhar peixes e mariscos, bem como carnes, como pato assado.
O tempo passa e a nossa percepção em relação ao vinho vai mudando. A Loureiro foi levada a sério por pessoas que acreditaram e construíram um produto único, sensacional, com uma leveza e frescura irrepetíveis. À medida que cada vez mais Loureiros ambiciosos forem aparecendo, tenho a certeza de que ainda vamos ter muito boas surpresas com esta casta. Podemos apostar ainda em guardar umas garrafas para desfrutar mais tarde da sua evolução.
Nota: A Grande Prova Loureiro realizou-se em prova cega.
(Artigo publicado na edição de Junho de 2026)
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Ameal
Branco - 2024 -

Tojeira Unoaked
Branco - 2023 -

Quinta de S. Salvador da Torre
Branco - 2023 -

Pequenos Rebentos Vinhas Velhas
Branco - 2023 -

Inspir’ar
Branco - 2024 -

Contacto
Branco - 2024 -

Camaleão Barrel Aged
Branco - 2023 -

Borges
Branco - 2024 -

Barão do Hospital
Branco - 2023 -

Parcela do Convento
Branco - 2024 -

Germinar Vinhas Velhas
Branco - 2022
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Terras de Felgueiras
Branco - 2025 -

Casa de Vila Verde
Branco - 2025 -

Quinta da Lixa
Branco - 2025 -

Gábia
Branco - 2024 -

Adega Coop. de Ponte de Lima
Branco - 2025 -

Quinta do Tamariz
Branco - 2023 -

Quinta d’Amares Claustrum
Branco - 2022 -

Quinta de Linhares
Branco - 2025 -

Paço de Teixeiró
Branco - 2024 -

Maria Bonita
Branco - 2025 -

Aphros Daphne
Branco - 2022
GRANDE PROVA: Arinto de Norte a Sul

Casta muito vetusta em Portugal, foi descrita pela primeira vez em 1712 por Vincenzo Alarte, na obra Agricultura das Vinhas, onde é referida como uma variedade serôdia. A sua grande variabilidade intravarietal, sobretudo na região do Oeste, com destaque para Bucelas, não deixa dúvidas quanto à sua antiguidade e provável origem nacional. Ao longo do […]
Casta muito vetusta em Portugal, foi descrita pela primeira vez em 1712 por Vincenzo Alarte, na obra Agricultura das Vinhas, onde é referida como uma variedade serôdia. A sua grande variabilidade intravarietal, sobretudo na região do Oeste, com destaque para Bucelas, não deixa dúvidas quanto à sua antiguidade e provável origem nacional. Ao longo do tempo, foi-se espalhando por várias regiões do país, sendo mencionada por diversos autores na Beira, no Douro, na Estremadura e no Minho (1790), em Évora, Arruda, Torres Vedras, Colares e Carcavelos (1866/67), e em Portalegre (1900).
Os progenitores da Arinto continuam, oficialmente, a ser um mistério genético. Segundo a explicação do investigador e curador do INIAV – Instituto Nacional de Investigação Agrária e Veterinária, Jorge Cunha, embora existam estudos baseados em nove marcadores moleculares (chamados microssatélites), estes permitem estabelecer compatibilidades genéticas, mas não são suficientes para confirmar, de forma inequívoca, um parentesco directo. Em bases de dados científicos, como o Vitis International Variety Catalogue (VIVC), a Arinto permanece sem pedigree confirmado. Apesar de ter adquirido algumas sinonímias em terras por onde se espalhou é, ainda assim, mais conhecida pelo seu nome original. Pode mencionar-se apenas um sinónimo relevante, Pedernã, oficialmente reconhecido na região do Minho, embora, actualmente, muitos produtores prefiram usar Arinto nos rótulos. O mais importante é não a confundir com outras castas homónimas: a Arinto do Interior, no continente, e a Arinto dos Açores (igual à Terrantez da Terceira), com as quais não tem qualquer ligação genética.
Historicamente gloriosa
Esta casta branca foi outrora muito famosa, fortemente associada à zona da sua origem, Bucelas. No século XIX, exportava-se vinho feito a partir de Arinto para Inglaterra, o qual era vendido nos pubs a copo, ao mesmo nível do Vinho do Porto, Xerez, Champagne ou Claret, como descreve o comerciante e escritor britânico Charles Tovey, no seu livro Wine and Wine Countries, em 1862.
A referência aos vinhos de Bucelas também surge no livro do escritor e jornalista britânico Henry Vizetelly, Facts about Port and Madeira, publicado em 1880, caracterizando-os como “notavelmente frescos no sabor, com um ligeiro tom esverdeado na cor (…) os vinhos mais antigos eram mais redondos e aromáticos; o seu sabor, mais pronunciado, deixava um final macio, com notas de amêndoa. Certamente não é fácil encontrar vinhos mais puros do que estes. Sendo os melhores vinhos da sua classe, eram enviados para Inglaterra sob a designação El Rey – Royal Bucellas Hock”. O mesmo autor, viajando até Bucelas, recorda-se de provar “um Arinto muito seco e com carácter de noz, com um final agradavelmente picante.”
Hoje, não só em Bucelas, mas em toda a região vitivinícola de Lisboa, embora não seja a casta mais plantada, a Arinto continua a ser muito importante em termos de qualidade e é apreciada por numerosos produtores, que a utilizam em vinhos monovarietais.
Expansão territorial
Uma das grandes vantagens da casta é que ela não se importa de viajar para outras paragens e consegue adaptar-se a solos e condições mais diversos: desde os argilo-calcários, nas regiões de Lisboa e da Bairrada, aos xistosos, no Douro, passando pelos graníticos, no Minho e pelos de natureza mais variada, no Alentejo. Por onde passa, leva sempre o seu cartão de visita: a capacidade de construir vinhos com uma estrutura ácida vibrante, mesmo em climas mais quentes, onde esta característica é particularmente apreciada.
Na região do Tejo, a Arinto é parceira frequente da Fernão Pires que, por vezes, carece de frescura natural. Antonina Barbosa, enóloga e Directora-Geral da Falua, confessa ser uma grande defensora da casta e já há mais de dez anos que produz os vinhos Reserva com Arinto, reconhecendo a sua aptidão para criar grandes vinhos, bem como o seu potencial de envelhecimento. Sabe também que esta casta pode revelar-se muito diferente consoante o local: um vinho de Arinto da sub-região do Campo distingue-se do da Vinha do Convento, com calhau rolado e uma boa drenagem.
Na Bairrada, mostra o seu lado mais salino e calcário, com uma frescura nervosa, criando um perfil mais vertical e austero do que em Bucelas. E isto sentiu-se bem na prova. O produtor Carlos Campolargo também sempre apreciou a casta, desde que, ainda jovem, provou os vinhos trazidos em garrafões de Bucelas.
No Alentejo, a Arinto é absolutamente indispensável como team player, sendo campeã na acidez entre as suas parceiras alentejanas: Antão Vaz, Roupeiro, Perrum e outras.
O produtor Julian Reynolds conta a sua história de “namoro” com a casta. Provou Arinto numa tasca em Portalegre, no início dos anos 2000, e ficou encantado, pensando logo em plantar. No entanto, um conhecido da área de distribuição desaconselhou-o, dizendo que era “uma casta vulgar e que fazer um vinho com ela estragaria o nome Reynolds”. Felizmente, ignorou o conselho, percebendo que “o perfil da serra lhe imprime uma expressão diferente da de outras zonas”.
Nuno Elias, enólogo da Casa Agrícola HMR, sublinha a consistência da Arinto, uma característica que, na sua opinião, é extremamente importante para um vinho monovarietal. “A casta tem de dar um óptimo resultado, pelo menos, oito em 10 anos; com Arinto, eu tenho o histórico de bons vinhos, tenho a qualidade hoje e sei que amanhã também a terei”, afirmou.
No Douro, a Arinto não é tão difundida quanto as variedades típicas da região, como Rabigato, Códega, Viosinho, Códega do Larinho e Gouveio, entrando estatisticamente na categoria de “outras castas”. Provavelmente por isso, quando a Menin lançou o seu primeiro Arinto Grande Reserva, houve dúvidas sobre se faria sentido colocar o nome da casta no rótulo. A verdade é que o vinho sempre se mostrou muito aromático e com imenso carácter, convencendo os enólogos e o produtor de que era justo colocar o nome da casta no rótulo, contou o enólogo consultor da casa, Tiago Alves de Sousa.
Na região dos Vinhos Verdes, embora a Arinto esteja bem presente, em termos de notoriedade tem de competir com duas estrelas, a Alvarinho e a Loureiro, que a ultrapassam em plantação e fama. Por isso, o Arinto surge com menos protagonismo nos rótulos, embora seja frequente em lotes. Desempenha muito bem o seu papel nas sub-regiões um pouco afastadas da influência atlântica directa, como Basto e Baião, onde entra em blends com Azal.
Na vinha
Casta muito vigorosa, que, se não for controlada pelo porta-enxerto ou pela baixa fertilidade do terreno, desenvolve grande expressão vegetativa. Devido às folhas grandes, beneficia da desfolha precoce, evitando a compactação da folhagem. “Não é tão produtiva como a Antão Vaz, mas também não há aflição, como no caso da Alvarinho ou Verdelho”, explica Nuno Elias. A produtividade, naturalmente, depende do clone, mas, em geral, é generosa se for bem conduzida. Caso contrário, a videira investe na produção de lenha, podendo tornar-se aneira. A produção recomendada varia entre os 4500 e 8000 litros por hectare.
Em alguns clones, produz particularmente mal nos gomos basais (na base do sarmento). Por isso, o tipo de poda tem que ser adaptado, sendo preferível optar por poda longa ou mista, o que implica maior exigência em mão de obra. Os cachos são grandes, mas poucos por cepa, com bagos pequenos e muito compactos. Para além do míldio, do oídio e de outras doenças criptogâmicas (provocadas por fungos e organismos semelhantes), a casta é muito sensível à cigarrinha verde e à traça. No Alentejo, ainda é sujeita aos ataques do aranhiço amarelo, que, tal como a cigarrinha verde, representa um problema nas regiões quentes e secas. “Desparram as plantas”, conta Nuno Elias, referindo-se à diminuição da área foliar funcional. “Mas no ano passado, com as chuvas intermitentes durante o verão, correu melhor.”
A Arinto prefere solos bem drenados e é relativamente resistente ao stress hídrico. “Película rija, resiste à falta de água”, afirma Antonina Barbosa. Porém, “sendo sensível ao escaldão, a gestão da folhagem é importante”, acrescenta António Maçanita, que trabalha com a casta no Alentejo, no Douro e na região de Lisboa. “Não fica em passa, mas sim uma uva verde escaldada”, exemplifica. Durante o período entre o pintor e a maturação, o enólogo costuma provar os bagos, onde “primeiro aparece fruta neutra, que não sabe a uva, podia ser qualquer outra fruta”. Espera até que o sabor fique definido. Antonina também prefere decidir a data de vindima pela prova do bago, mesmo que analiticamente a uva já esteja pronta. Ao contrário da Fernão Pires, que perde a acidez e queima aromas em 48 horas, a Arinto pode esperar até atingir o equilíbrio na componente aromática, sem comprometer a sua frescura ácida, pois, quando ainda está ligeiramente verde, é muito neutra.
A vindima no Tejo e no Alentejo ocorre, geralmente, desde a última semana de Agosto até à primeira de Setembro. No Douro, realiza-se entre a primeira e a terceira semanas de Setembro, dependendo do ano. Na região de Lisboa, acontece no final de Setembro, já depois de algumas castas tintas.
A famosa acidez
A frescura ácida é o cartão de visita da Arinto. Mas, mais do que isso, é a qualidade da acidez e a capacidade de a preservar que merece destaque. Carlos Campolargo, comparando a Arinto com outra casta bairradina, a Cercial, nota que esta última tem maior acidez, mas “a da Arinto é mais rica e constante”. Em estudos comparativos com outras castas alentejanas, como Antão Vaz, Roupeiro, Perrum e Rabo de Ovelha, a Arinto apresenta consistentemente valores de acidez total significativamente mais altos e pH mais baixos, mesmo quando o seu teor de álcool provável também é elevado. Noutras castas, a acidez tende a ter uma forte correlação inversa com o teor de álcool, ou seja, só pode ser elevada em vinhos com baixos teores alcoólicos.
Curiosamente, os mesmos estudos revelaram que a Arinto apresenta relativamente baixo teor de ácido málico, mas um teor elevado de ácido tartárico. Esta distinção é importante: o ácido málico tende a degradar-se durante a maturação da uva, principalmente através da respiração das células do bago, o que se acentua em ambientes quentes. Em contraste, o ácido tartárico é muito mais estável, o que permite à casta conservar a sua frescura ácida mesmo em períodos de maturação avançada, conferindo consistência e equilíbrio aos vinhos produzidos.
Na adega
A Arinto há muito que conquistou os enólogos e produtores pela sua plasticidade. Como define Nuno Martins da Silva, enólogo consultor em várias casas da região de Lisboa, “é uma variedade interpretativa, que permite múltiplas abordagens. Tolera bem uma gestão criteriosa do oxigénio e pode beneficiar de curtimentas, desde que suportadas por matéria-prima adequada. Adapta-se e expressa-se com consistência em diferentes vasilhas – inox, cimento ou madeira”. Esta opinião é agregadora e geralmente partilhada por quem conhece bem a casta.
Não sendo exuberante, a Arinto “é uma casta muito pura em termos aromáticos”, descreve Sandra Tavares, enóloga consultora na Quinta da Chocapalha. Possui ainda muitos precursores aromáticos nas películas, pelo que a maceração pelicular pré-fermentativa faz todo o sentido, enfatizando a expressão olfactiva.
Normalmente, com o pH muito baixo (e na Arinto isto não é difícil), a sensibilidade à oxidação é baixa. Contudo, e apesar de ser uma casta branca, pode apresentar teores relativamente elevados de compostos fenólicos, especialmente se houver extracção mais intensa na prensagem ou contacto prolongado com as películas. Estes fenólicos são os principais responsáveis pelo escurecimento ainda em mosto (do amarelo-dourado ao acastanhado) e criam o potencial de oxidação ao longo do tempo. Mas há uma maneira de evitar isto: em vez de proteger o mosto do oxigénio, é deixá-lo oxidar ligeiramente no início, permitindo que os compostos instáveis precipitem logo. Por isso, António Maçanita não adiciona o sulfuroso até ao fim da fermentação, deixando que esta oxidação inicial controlada cumpra o papel de estabilização natural do mosto.
O grau alcoólico provável do mosto é variável consoante o local onde a vinha se encontra instalada, apresentando uma média de 11% em regiões com influência marítima e de 13% em regiões mais quentes, mantendo sempre a acidez firme. O enólogo da Adega Mãe, Diogo Lopes, considera que a Arinto “é bem talhada para fermentação e estágio em barrica, mesmo a madeira nova não se sobrepõe”. Sandra Tavares prefere barricas muito usadas, praticamente neutras e estágios longos, sendo neste caso 24 meses, e mais 12 em garrafa. Carlos Campolargo trabalha com barricas usadas de 5 a 6 anos e muito usadas de 10 a 12 anos, e fermenta com leveduras indígenas. Não se importa se, em algumas barricas, ocorre fermentação maloláctica “se lhe apetecer”. Chama a Arinto de “casta deliciosa” e lembra que também é excelente para a base de espumante.
Nuno Martins da Silva também procura “fermentações espontâneas, lentas, a temperaturas em torno dos 20 °C, em casco, seguidas de estágio nesses mesmos cascos sobre borras finas e intermédias.” Vê “a fermentação maloláctica como uma decisão estruturante e dependente do perfil que se procura em cada vinho”. Muitos recorrem a bâtonnage para aumentar a estrutura e a textura do vinho.
Em suma, embora a Arinto tenha sido fortemente associada a Bucelas, pouco a pouco foi perdendo essa dependência histórica e geográfica, afirmando-se noutros territórios vitivinícolas pelo seu próprio mérito. Por outras palavras, temos uma grande casta a nível nacional, capaz de interpretar a região sem perder o seu carácter, cuja qualidade deriva das suas virtudes intrínsecas e da habilidade do produtor em a trabalhar.
Arinto em números
A nível nacional, é a segunda casta branca mais plantada, a seguir à Fernão Pires. Segundo dados recentes do Instituto da Vinha e do Vinho, ocupa 6084 hectares, o que corresponde a cerca de 4% da área de vinha.
Na viragem do século, a Arinto ainda não figurava entre as 15 castas mais plantadas e praticamente não tinha protagonismo nas regiões vitivinícolas do país, incluindo a Estremadura (actual região de Lisboa), onde reinava a Fernão Pires, acompanhada por Vital, Malvasia Rei, Seara Nova e Alicante Branco. Apenas no Minho, a Arinto tinha alguma preponderância, ocupando 3171 hectares (8%).
Hoje, a casta apresenta-se com destaque em várias regiões: no Minho ocupa 2788 hectares (12%), sendo a terceira casta mais plantada, depois da Loureiro e da Alvarinho; no Alentejo é a segunda, ocupando 1042 hectares (5%), a seguir à Antão Vaz; na região de Lisboa mantém-se no segundo lugar das castas mais plantadas, com 538 hectares (3%), enquanto a Fernão Pires continua a assumir a liderança incontestável, com 11% das plantações; no Tejo ocupa 239 hectares (2%), sendo igualmente a número dois na lista das variedades mais plantadas, logo a seguir à Fernão Pires, apresentando valores muito semelhantes na Beira Interior. No Douro e noutras regiões, estatisticamente, a sua presença não tem expressão significativa.
(Artigo publicado na edição de Abril de 2026)
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Senses
Branco - -

Quinta da Lapa
Branco - 2023 -

Quinta da Boa Esperança
Branco - 2023 -

Monte da Carochinha
Branco - 2022 -

Casa Santos Lima Oak Aged
Branco - 2023 -

Bustelo
Branco - 2023 -

Tã Sómente
Branco - 2023 -

Secretum
Branco - 2018 -

Rama Family Wine Carvalho Grande
Branco - 2022 -

Quinta do Rol Colecção
Branco - 2017
Grande Prova: Tintos 2016, uma década depois

Este texto está a ser escrito quando quase todo o país está debaixo de água, com rios a um nível altíssimo e acidentes em diferentes zonas. Há já muitos anos que não se viam cheias com esta amplitude, como que a relembrar que o clima manda em nós e não o contrário. A ligação, vá […]
Este texto está a ser escrito quando quase todo o país está debaixo de água, com rios a um nível altíssimo e acidentes em diferentes zonas. Há já muitos anos que não se viam cheias com esta amplitude, como que a relembrar que o clima manda em nós e não o contrário. A ligação, vá lá, ténue, com 2016 é que o Inverno de 2015/16 foi especialmente chuvoso, com muito mais água do que era habitual. Regiões, como o Douro, chegaram mesmo a ter cheias ainda na Primavera. Tudo como está a acontecer agora, ainda que com mais moderação. O excesso de chuva, ao prolongar-se, já se sabe o que traz consigo: doenças da vinha, com o míldio e o oídio a exigir intervenção constante e muitos tratamentos. Por arrasto, os pequenos produtores, sem folga financeira, dimensão ou conhecimento, são quem mais sofre as consequências com elevada perda de produção das vinhas.
O ano de 2016 correspondeu exactamente à ideia de “vindima desafiante”, frase usada vezes sem conta pelos enólogos, para caracterizar uma colheita árdua. Esta foi mesmo difícil e ainda que, com tratamentos feitos a tempo e horas, o ano foi diverso de qualidade. Porque é que este painel não espelha isso? Porque os produtores que aqui estão, representam, de certa forma, a nata da produção nacional (ou parte da nata…), gente que é profissional e não se preocupa com a “muita intervenção” em vez da “pouca”, apregoada por quem não consegue tratar as uvas. Trabalhar bem, e a tempo, ajuda na qualidade da vindima. Já Charles Symington, enólogo responsável do grupo Symington, indicava, no relatório de vindima de 2016, o seguinte: “O tempo ao longo da vindima esteve excepcionalmente bom, o que possibilitou o desenrolar perfeito das maturações. Pudemos decidir os momentos de vindimar sem nos preocuparmos com alterações no estado do tempo e, assim, escolher o melhor momento para vindimar em cada propriedade de acordo com o estado de maturação de cada.” E mais adiante, “Touriga Franca poderá ter produzido os melhores vinhos desta vindima”. A consequência deste final de vindima tranquilo e sem pressas foi que a apanha da uva só terminou em meados de Outubro. Raro e cada vez menos visto.
Elegância acima de tudo
O Palácio da Bacalhôa, com origem na região de Setúbal, foi uma das surpresas da prova. É um tinto que mudou de perfil nos últimos anos: passou de um estilo muito extraído (moda Robert Parker, dizemos nós) dos inícios deste milénio, para um vinho que, com redobrados cuidados de enologia, ficou mais franco e aberto, no qual os 5% de Petit Verdot ajudam, aliados aos 70% de Cabernet Sauvignon e aos 25% de Merlot. Menos extracção e mais elegância deram este resultado, o que se aplaude vivamente. E Vasco Penha Garcia, enólogo da empresa, reforça a ideia que, quando se trabalha com profissionalismo na vinha, as diferenças entre as várias colheitas se diluem, porque a enologia acaba por compor o que houver a compor.
No caso do Alentejo, o ciclo vegetativo foi mais favorável do que no Norte do país, com menos problemas sanitários. A Fundação Eugénio de Almeida, no seu registo de vindima, assinala: “no que respeita ao potencial produtivo, foi um ano com fertilidade geral média a baixa, tendo a maturação ocorrido um pouco mais tarde que nos últimos anos, mas em excelentes condições (…) para as tintas que atingiram uma adequada maturação fenólica”.
Os anos, como o 2016, sobretudo quando têm um final de Verão quente e sem chuva, geram sempre a dúvida habitual na região do Douro e entre os produtores de Vinho do Porto: será ano de Porto Vintage? Se sim, será do agrado de todos ou os “ingleses” irão avançar com as declarações de Vintage Single Quinta? Para muitos consumidores isto é “assunto de lana caprina”, mas para o sector do Porto não é, porque as declarações consideradas clássicas são momentos importantes no negócio, uma alavanca sempre bem-vinda em termos comerciais. O ano de 2016 foi ainda complicado porque algumas casas não tinham declarado o 2015 e ficaram à espera de declarar o 2016. Aconteceu, então, que a declaração de 2016 foi clássica (cerca de 100 vinhos declarados) e muito poucos produtores terem resolvido ficar de fora, como a Ramos Pinto, que declarou o 2015. A situação pode repetir-se este ano: tudo estava encaminhado para a declaração clássica do Vintage 2024 e eis que, de repente, a qualidade do 2025 veio baralhar tudo. Aguardemos os próximos capítulos. Este assunto interessa-nos na qualificação do 2016 porque há uma regra no Douro que é quase matemática: os anos melhores para Vintage não são os melhores para DOC Douro. E o 2016 poderá confirmar isso: grandes tintos, mas…vintages gloriosos.
Qualidade e grande potencial
Uma ideia que podemos registar desta prova é que os vinhos muito bons se distribuíram geograficamente e, quer o Alentejo, quer a região de Setúbal, ainda que com presença em número normalmente inferior (ou mesmo muito inferior) ao Douro, revelaram vinhos de grande qualidade e com enorme potencial. Para vários provadores do painel isso foi especialmente evidente no tinto da Bacalhôa, um tinto de perfil bordalês que, passados 10 anos, está num patamar incrível, ainda em crescimento. Quase apetece dizer que, se se fizesse uma prova de tintos com 20 anos, talvez este Bacalhôa já estivesse no ponto de excelência e perfeição, algo que ainda não está.
Como é de esperar, a evolução dos vinhos é desigual e alguns mostraram que, estando bons, já não têm argumentos para longas vidas em cave. No caso de um dos vencedores, foi a segunda garrafa que salvou a prova, porque a primeira estava em estado duvidoso. Com isso também aprendemos que as conclusões, com apenas uma garrafa aberta, são sempre precipitadas. No painel, seguimos isso à risca e três vinhos foram retirados de prova.
A qualidade dos 2016 mostrou-se muito boa, talvez até melhor do que se poderia esperar. Quase todos os vinhos estão em grande momento de prova e é bom que não se tirem “conclusões hierárquicas” precipitadas. Os vinhos que integram o último grupo dão muito boa prova agora, são verdadeiros tintos prazenteiros que já chegaram ao melhor momento, grandes companheiros da refeição; apenas perderam para outros que ainda estão em crescendo e que o painel valorizou. E, num painel alargado como este, a classificação mais baixa ser 17 valores dá clara indicação que estamos perante um conjunto notável de tintos.
19
Chryseia
Douro tinto 2016
Prats & Symington
Excelente evolução, ganhou em polimento e harmonia, com fruta madura muito bem integrada, taninos de luxo, tudo com balanço perfeito. No palato mostra-se envolvente, cheio, maduro, mas aqui nada há de excessivo, a fruta negra é muito agradável e saborosa. Dá muito prazer a beber, rico e sério. (14%)
19
Mouchão
Alentejo tinto 2016
Vinhos da Cavaca Dourada
Duas garrafas provadas, a primeira muito evoluída. A segunda está muito bem, com aquele foco na fruta madura, mas com o lado mais mentolado, mais mineral, mais químico, que sempre se reconhece no Mouchão. Clássico na boca, com muita elegância de taninos, excelente perfil e a mostrar muita personalidade. (15%)
19
Palácio da Bacalhôa
Reg. Pen. Setúbal tinto 2016
Bacalhôa Vinhos
Muito escuro na cor, ainda em fase ascendente, muito complexo, cheio de fruta negra, groselha preta e amoras, leves apimentados; intensa presença na boca, com taninos finos e um perfil bordalês clássico, muito bem desenhado e surpreendentemente jovem e atraente. Numa versão robusta, embora com boa frescura de boca. É um grande tinto. (14%)
19
Pintas
Douro tinto 2016
Wine & Soul
Aroma de luxo, com a dispersão de aromas comum nas vinhas velhas, polimento geral de grande nível, fruta bonita e barrica bem inserida, a mostrar uma saúde incrível num ano menos fácil. Prazer enorme na boca, com uma elegância arrebatadora. Cativante, com imenso para dar; um grande tinto que faz jus à marca. (14%)
19
Quinta da Touriga Chã
Douro tinto 2016
Jorge Rosas
Em muito boa forma, cheio de fruta especiada, polido e elegante, com madeira no ponto, tudo em muito bom equilíbrio, perfeito balanço de taninos e fruta. Este tinto é sempre muito seguro na enorme qualidade que apresenta, muito apetecível e com muito sabor. Uma grande aposta. (14,5%)
18,5
Gauvé
Dão tinto 2016
Moreira, Olazabal & Borges
Tem origem em vinhas velhas com castas misturadas. Muito elegante no aroma, leve nota floral que lembra Touriga Nacional, com delicadeza de fruta, erva seca e madeira no ponto. Grande harmonia de boca, um toque mineral bem atractivo e um polimento de grande nível. (13%)
18,5
Monte Branco
Reg. Alentejano tinto 2016
Luís Louro
O lote inclui Alicante Bouschet e Aragonez. Concentrado na cor, a sugerir um tinto hermético. Porém, mostra grande finura, com fruta negra em destaque, madeira bem ligada e, no conjunto, resulta com elegância. Taninos filigrânicos, mas presentes, o conjunto mostra-se muito bem, polido e apetecível. (14%)
18,5
Poeira 42 barricas
Douro tinto 2016
Jorge Nobre Moreira
Feito em lagar. Fruta vermelha no aroma, vivo e com muita frescura que resulta atractiva, madeira superiormente inserida no conjunto, notas terrosas, muito bem proporcionado. Arredonda na boca, macio, seco, fruta vermelha, cereja preta e amoras. Este tinto nunca desilude, mesmo num ano menos conseguido. (14%)
18,5
Quinta da Leda
Douro tinto 2016
Sogrape Vinhos
Muito bem na cor, vivo e complexo no aroma, com muita fruta madura e as primeiras notas licoradas a surgirem. Grande polimento no palato, ainda com taninos presentes, embora muito finos; um tinto robusto, mas muito bem equilibrado e desenhado. (13,5%)
18,5
Quinta do Crasto Vinha Maria Teresa
Douro tinto 2016
Quinta do Crasto
O que mais se destaca no aroma é a fruta madura, em camadas, especialmente bem casada com a madeira de luxo, a verdadeira marca da casa. Excelente complexidade, especiarias de pimenta e cardamomo; fresco na boca, polido e muito envolvente, todo ele em grande forma. Dá muito prazer a beber. (14,5%)
18,5
Quinta do Vale Meão
Douro tinto 2016
Olazabal & Filhos
Temos, nesta edição, um Meão de maceração moderada e daí resulta um aroma fino, sempre num registo de bom equilíbrio com a madeira ainda presente, mas apenas a amparar o conjunto. No palato, mostra-se muito bem, bem mais elegante que noutras edições, resultando num tinto que pode dar todo o prazer de consumo desde já. (14%)
18,5
Quinta Vale D. Maria Vinha da Francisca
Douro tinto 2016
Quinta Vale D. Maria
Aroma clássico dos tintos do Douro, com madeira de luxo bem trabalhada, notas apimentadas e fruta negra, ainda em ascensão, leve nota floral, muito boa complexidade. Muita especiaria e notas de grafite, muito tanino no palato; um tinto com garra e boa rugosidade. (14%)
18,5
Terrenus Vinhas Velhas
Alentejo Portalegre Reserva tinto 2016
Rui Reguinga
Média concentração de cor, típica de vinhas velhas. Aroma complexo e difuso onde a fruta se espraia com elegância, com boa definição da barrica aqui bem inserida. Muito fino na boca, taninos presentes, mas delicados. Dá muito prazer a beber. Teve 18 meses em barrica e 24 em garrafa, o que gerou um tinto muito equilibrado. (14%)
18,5
Villa Oliveira Vinha das Pedras Altas
Dão tinto 2016
O Abrigo da Passarella
Muito boa concentração na cor, polimento aromático conseguido com o estágio em madeira usada, com boa definição de fruta na boca, perfil fino e com muito para dar, agora e no futuro. Leve e agradável nota mentolada, taninos presentes, excelente acidez. Tudo a garantir um bom futuro. (14%)
18
Casa de Saima
Bairrada Baga Garrafeira tinto 2016
Graça Miranda
Este é um clássico tinto da Bairrada, com imensa fidelidade à casta Baga que aqui surge com as notas de ginja, ambiente balsâmico, sempre num registo mais elegante do que assente em potência; polido no copo, fruta em calda no aroma. Muito prazer a beber. (14%)
18
Esporão Private Selection
Alentejo tinto 2016
Esporão
O lote inclui Aragonez, Touriga Francesa e Alicante Bouschet. Concentrado na cor, fruta negra e levemente compotado, é um tinto que pende para o lado robusto das castas com que é feito; taninos muito presentes, envolvente, cheio, algo complicado, que só o tempo poderá ajudar a descomplicar os vários elementos. (14,5%)
18
Giz Vinhas Velhas
Bairrada tinto 2016
Luís Manuel Gomes
Elaborado com a casta Baga, feito em lagar na melhor tradição bairradina, estágio em carvalho francês. Fiel à casta, com um estilo polido na fruta, taninos macios e bom equilíbrio de conjunto, pronto a beber. Os 20 meses em barrica ajudaram a que tudo se harmonizasse e está, agora, no seu melhor. (13%)
18
Herdade do Rocim Clay Aged
Alentejo Reserva tinto 2016
Rocim
Feito com Alicante Bouschet, Petit Verdot, Trincadeira e Tannat. Nota-se uma cor mais aberta, leve nota de barro, muito ligeiro mentolado. As castas usadas conferem aqui um lado austero na boca, com taninos finos e ambiente bem curioso. Ainda jovem, apesar de se sentir já alguma evolução. (14,5%)
18
Malhadinha
Reg. Alentejano tinto 2016
Herd da Malhadinha Nova
Feito com Alicante Bouschet, Touriga Nacional, Syrah, Cabernet Sauvignon e Aragonez; lagares com pisa, 15 meses em barrica nova. Notas de azeitona, fruta madura, aroma complexo resultante de múltiplas castas, de onde não há protagonismos. Com perfil fino, um tinto da planície, tudo muito bem conseguido, macio, bem desenhado. (15%)
18
Marquesa do Cadaval
DoTejo tinto 2016
Casa Cadaval
Feito com Touriga Nacional, Trincadeira e Alicante Bouschet, com um ano de estágio em barrica. Detecta-se uma boa ligação entre as três castas, ambiente especiado, elegante, directo e com bom perfil. Clássico pelo equilíbrio que mostra na boca, notas de noz moscada e fruta madura, taninos finos, leves licorados. Tudo no ponto. (13,5%)
18
Quinta do Carmo
Reg. Alentejano Reserva tinto 2016
Soc. Agr. Quinta do Carmo
Lote de Alicante Bouschet e Aragonez, 18 meses de estágio em barrica. O primeiro impacto é muito atraente, com uma combinação entre fruta e madeira em perfeito diálogo, taninos muito polidos, fácil na boca, perfeito na acidez. Absolutamente consensual. Este tinto já chegou ao seu melhor momento. (14,5%)
18
Quinta do Monte d’Oiro Parcela 24
Reg. Lisboa tinto 2016
José Bento dos Santos
Deste produtor chega-nos, com frequência, uma versão muito original desta casta. Este mostra-se muito elegante no aroma, fruta fina e boas notas vegetais, alguma mineralidade, muito polimento, terra húmida. Muito delicado no palato, com elegância de corpo. É um Syrah muito fiel à origem francesa. (14%)
18
Quinta do Noval
Douro Reserva tinto 2016
Quinta do Noval
Aroma com boa vibração, tenso, cheio e ainda algo fechado, fruta madura, mas elegante com leves florais e mato seco, ou seja, muito duriense. Muito bem na boca, a mostrar ainda enorme juventude, sendo seguro que não haverá pressa em consumi-lo, tem ainda muito para dar no futuro. (13,5%)
18
Quinta do Vesúvio
Douro tinto 2016
Symington Family Estates
Este tinto é sempre fiel aos calores do Douro Superior, mostra fruta densa, notas terrosas, mato seco, leve pimento vermelho, madeira no ponto que aqui, claramente, envolve e amacia o conjunto. Muito bem definido na boca, redondo, gastronómico, muito bom para consumir agora ou no futuro. Mudou de estilo desde as primeiras edições, cremos que para melhor. (14%)
18
Quinta Nova Referência
Douro Grande Reserva tinto 2016
Quinta Nova Nossa Senhora do Carmo
Cerca de metade do lote é Tinta Roriz e o resto vinha velha, com castas misturadas e uma produtividade baixíssima. Muito carregado na cor, cremos que por maceração intensa, apresenta notas de azeitona, leves químicos, amoras e ameixas pretas. Todo ele denso, com peso; um estilo maduro, mas que resulta macio. (14%)
18
Vallado
Douro Reserva tinto 2016
Quinta do Vallado
Neste tinto procurou-se uma maceração e extracção moderadas, o que vem sendo habitual nas últimas edições. Aqui, o peso da barrica é sem excessos, apesar dos 16 meses de estágio. Resulta polido, fácil, bem organizado e sempre muito capaz para prova imediata. Muito agradável na boca, macio e a revelar muita qualidade de conjunto. (14,5%)
17,5
Envelope
Dão tinto 2016
Magnum Carlos Lucas
O aroma aposta, sobretudo, no lado mais elegante e, assim, as notas mentoladas que surgem conferem-lhe esse lado mais fino, aliado a fruta vermelha; mostra alguma evolução de conjunto, mas está muito bem. Correcto e de boa definição na boca, acidez marcante, taninos secos no final. (13,5%)
17,5
Guarita da Chocapalha
Reg. Lisboa tinto 2016
Casa Agr. das Mimosas
Muito carregado na cor, aroma fechado, fruta negra e notas de azeitona, sério, enigmático. Tudo aqui nos diz que os primeiros 10 anos de vida foram apenas a introdução para o longo estágio que poderá ter em cave. Boa complexidade na boca, cheio, taninos rijos. Precisa de tempo. (14,5%)
17,5
Herdade dos Grous
Reg. Alentejano Reserva tinto 2016
Monte do Trevo
Elaborado com Alicante Bouschet, Tinta Miúda e Touriga Nacional, feito em lagares e com 16 meses de estágio em barrica. Aromas vegetais secos, madeira presente, média concentração, boa evolução, leve especiaria. Boa prova de boca, está já num patamar de onde não crescerá mais, ainda com bons taninos. Neste momento está a dar uma prova de grande valia. (14%)
17,5
Quinta da Gaivosa Vinha do Lordelo
Douro tinto 2016
Domingos Alves de Sousa
Menos concentrado na cor do que em anteriores edições, a mostrar alguma evolução, agora com aroma de fruta madura, maceração evidente, notas leves de bacon e mentol. Um tinto macio, envolvente, de tonalidades doces, conjunto complexo, mas já muito exposto. (14,5%)
17,5
Quinta das Carvalhas Vinhas Velhas
Douro tinto 2016
Real Companhia Velha
Muita pureza de fruta, nascida em vinhas de castas misturadas, com o lado enigmático que daí deriva, com barrica a envolver; tudo muito bem composto, com alguma barrica em evidência, mas está bem no conjunto. O tinto mostra todas as condições para ser apreciado agora, sem mais delongas. (13,5%)
17,5
Quinta do Bronze Vinha do Plagão
Douro tinto 2016
Lua-Cheia Saven
Aroma muito maduro, denso na cor, notas de chocolate, cacau fresco, fruta preta madura, algo sobreextraído. Gordo no palato, cheio, com toque muito denso e algo pesado. É também um certo tipo de tinto que a região permite, apontando para um perfil mais Novo Mundo. (14,5%)
17,5
Scala Coeli
Reg. Alentejano Alicante Bouschet tinto 2016
Fundação Eugénio de Almeida
Muito concentrado na cor, capitoso, com evidência do álcool, notas de azeitonas e casca de árvore, madeira presente, tudo em camadas, tudo denso, tudo complexo. Muito macerado, resulta num perfil pesado e escuro, ainda longe do seu melhor. 6500 garrafas produzidas. (15%)
17
Adega Mãe Terroir
Reg. Lisboa tinto 2016
Adega Mãe
Notas de fruta madura, algum couro, sem espessura aromática, mas com boa prova de boca, num perfil maduro, sem perder alguma elegância de conjunto. A leve secura final não acrescenta nada ao vinho, mas não chega a perturbar a boa prova. (14%)
17
Marquês de Borba Vinhas Velhas
Alentejo tinto 2016
Portugal Ramos
Média concentração de cor, fruta madura no aroma, sempre num registo em que se pretende privilegiar a elegância e a boa integração da barrica onde estagiou um ano. Prova de boca com excelente polimento, resulta assim especialmente agradável, para consumir agora. (14,5%)
17
Pedra Cancela Amplitude
Dão tinto 2016
Lusovini
O vinho sugere estar em fase de transição, a perder algum fulgor juvenil, apesar de manter ainda alguma redução no nariz. No aroma destacam-se muitas notas da madeira, notas doces e de caramelo salgado. Leve floral na boca ajuda à prova. Poderá não ter argumentos para mais estágio em cave. (13%)
17
Quinta da Giesta
Dão Grande Reserva tinto 2016
Soc. Agr. Boas Quintas
Feito com Touriga Nacional, Tinta Roriz e Alicante Bouschet. Fruta madura no aroma, leve nota de rebuçado, alguma especiaria, notas florais combinadas com algum vegetal seco e azeitonas. É um clássico tinto do Dão, mais apostado no bom diálogo das castas e na elegância de conjunto. Poderá estar já no seu melhor momento. (13,5%)
17
Quinta de Lemos
Dão Touriga Nacional tinto 2016
Quinta de Lemos
Sente-se a casta, mas aqui com algum peso notório da fruta e da madeira, escondendo o lado mais floral que lhe é reconhecido. Sugere muita maceração, embora melhore muito na boca, com estilo polido e sem arestas, por isso muito capaz de dar boa prova desde já, assim se encontre o pairing perfeito. (14%)
17
Quinta de Ventozelo Essência
Douro tinto 2016
Quinta de Ventozelo
O aroma traz-nos uma fruta madura, algumas notas de eucalipto que lhe dão boa frescura, mas não faz esconder alguma evolução evidente. Tonalidade doce na fruta que se percebe na boca, mostra-se envolvente, leve balsâmico; tudo indicando que poderá já estar no seu melhor momento de prova. (14%)
17
Quinta do Perdigão
Dão Touriga Nacional tinto 2016
Quinta do Perdigão
Média concentração de cor, leve redução aromática, que faz esconder um pouco a casta. Na boca, temos um tinto elegante e fino (o que é a marca da casa), está bem, ainda que carecendo de mais complexidade. Seguramente, mostra-se muito gastronómico e dará prazer a beber agora, sem mais esperas. (13%)
(Artigo publicado na edição de Março de 2026)
GRANDE PROVA BEIRA INTERIOR: Tudo o que a altitude proporciona

Mal nos distraímos, deixamos o Douro em direcção a sul e, logo a seguir à Mêda, entramos na Beira Interior. A paisagem muda. Nessa zona específica, estamos em terrenos de planalto onde, para quem passa de carro, se torna óbvio pelo simples olhar, que “ali” parecem estar reunidas todas as condições para se fazer um […]
Mal nos distraímos, deixamos o Douro em direcção a sul e, logo a seguir à Mêda, entramos na Beira Interior. A paisagem muda. Nessa zona específica, estamos em terrenos de planalto onde, para quem passa de carro, se torna óbvio pelo simples olhar, que “ali” parecem estar reunidas todas as condições para se fazer um grande vinho: terrenos maioritariamente graníticos, que aparenta uma viticultura mais acessível, de muito menor declive, mais manobrável, por isso, mais amiga do lavrador. Em seguida, ao sair da estrada e entrando um pouco mais na paisagem longe da vista, descobrimos que ainda proliferam vinhas velhas, algumas raquíticas, seguramente todas condenadas à baixa produtividade, mas, crê-se, muito capazes de originar vinhos expressivos e com evidente classe. Depois pensamos em termos climáticos e orográficos, e entendemos tudo melhor. Afinal, estamos em altitude, onde as vinhas estão a 700 metros e não são raridades, e estamos no interior em tudo o que isso tem de específico: grandes amplitudes térmicas entre o dia e a noite, e condições óptimas para se produzirem vinhos que apostam, sobretudo, na elegância e na frescura ácida.
Porém, aqui também percebemos que não basta ter boas vinhas (ainda que velhas), uma boa paisagem, bom clima e gente com vontade de fazer bem e diferente; nesta equação tem de entrar um dado que é a verdadeira incógnita: o mercado. Ora “o mercado” e as suas leis são muito ingratos com as Beiras. Estar a sul do Douro, região que está nas bocas do mundo e nas páginas dos winewriters que proliferam por aí, e a leste do Dão, região cheia de pergaminhos, já com marcas de referência e nomes sonantes, é tudo menos fácil. É esse peso do mercado e da notoriedade que faz com que a Beira Interior tenha um patamar de preços de venda que, se por um lado podem ser interessantes para o consumidor, por outro sabemos que não puxam a região para a vanguarda dos vinhos portugueses. É uma batalha permanente, um work in progresso, como dizem os ingleses.
Ao todo, incluindo vinhos DOC e IG, a responsabilidade da produção recai sobre 81 produtores.
Do Douro a Castelo Branco
A região é extensa e, segundo informação da Comissão Vitivinícola Regional (CVR) da Beira Interior, a vinha espraia-se por 11 654 hectares, sendo possível dividi-la em três zonas. De norte para sul temos, em acentuada proximidade do Douro, a região de Pinhel e, colada a esta, a região de Castelo Rodrigo. São zonas de altitude média elevada, 650 metros, em Pinhel, e de 600 a 750 metros, em Castelo Rodrigo, de clima seco, com invernos frios e rigorosos, onde a neve é visita habitual, enquanto no Verão as amplitudes térmicas são elevadas, com os calores diurnos a serem compensados pelas noites frias, um fenómeno que todo o enólogo aprecia pelo equilíbrio que proporciona à maturação das uvas.
Mais para sul temos a Cova da Beira, a maior das três zonas em área, com a imponente serra da Estrela a delimitá-la a norte. Menos radical, podemos dizer assim, por se apresentar mais moderada nas variações, quer de temperatura quer de precipitação. Olhando para o mapa da Beira Interior, verificamos que há largas faixas de terreno que não estão contempladas nestas três sub-regiões. Por conseguinte, não têm direito a serem DOC Beira Interior, embora possam ostentar a designação de vinho regional, aqui chamado de IG Terras da Beira. Ao todo, incluindo vinhos DOC e IG, a responsabilidade da produção recai sobre 81 produtores. A prova que fizemos incluiu brancos e tintos, uma originalidade, mas que teve o mérito de permitir aferir se há produtores que se destaquem em ambos os modelos, o que de facto aconteceu.
Nestas terras do interior, a vinha, exactamente porque está longe das luzes da ribalta, mantém um perfil que ainda é tributário de um desenho antigo. Expliquemo-nos: aqui como em todo o resto do país vinhateiro, a tradição impôs o plantio de vinha a eito, com castas misturadas e, não raramente, com uvas brancas no meio das tintas, algumas delas de uvas de mesa. A razão era aqui a mesma das outras regiões: como a vindima era feita, também ela a eito, colhiam-se algumas uvas um pouco mais verdes, que forneciam mais acidez e outras eventualmente em estado demasiado maduro, mas que contribuíam com mais açúcar, logo, com mais potencial alcoólico. Porém, havia uma outra razão, muito importante, convenhamos: como a vinha é uma empresa a céu aberto e está sujeita às agruras do clima, o produtor percebeu que umas eram mais atreitas a doenças e poderiam não se darem bem; outras, por força na chuva, na altura errada, tinham desavinhado, além de outros imponderáveis. Desta forma, ao ter as castas misturadas na vinha, havia sempre a possibilidade de “umas se darem bem e as outras não”, salvando-se, desta forma, a produção anual.
Esta é a cartada segura da Beira Interior. Assim se saiba preservar estes velhos vinhedos que, não só contribuem para a preservação genética, como são o factor identitário que marca a região. As castas estrangeiras podem estar cá, todavia não acrescentam nada, tal como a proliferação de castas do Douro, que pode ser igualmente questionada. Não há que ter atitudes radicais em relação a este tema, porque o vinho é um negócio e o produtor tem de se adaptar ao gosto do mercado e procurar produzir aquilo que possa ser mais rentável. É um verdadeiro tabuleiro de xadrez em que precisamos saber como mover as peças, quais são os peões e por onde anda o Rei para não ser “comido” sem dar por isso.
Nota-se uma aposta em vinhos mais abertos de cor, menos marcados pela madeira e menos alcoólicos, em resposta ao mercado e ao gosto actuais
As castas e o clima delas
Comecemos pelo clima e vamos reforçar aqui o que acima afirmámos: a altitude, a temperatura e a variação dia/noite faz com a que a Beira beneficie da interioridade e esteja menos sujeita às doenças da vinha, por força da menor presença de humidade. Há, neste factor, uma enorme vantagem, uma vez que aqui é mais fácil produzir uvas, quer em protecção integrada quer em modo biológico, o que ajuda a uma melhor sustentabilidade ambiental, contribuindo para solos mais saudáveis.
As uvas que por cá se plantam são de tipo variado. Em primeiro lugar, destacamos aquelas variedades, como a tinta Rufete (conhecida no Dão como Tinta Pinheira) e as brancas Fonte Cal (de que a Beira é quase território único) e Síria (a Roupeiro do Alentejo). A solo ou em lote, estas castas têm a marca que, por norma, atribuímos à região: mineralidade, frescura e delicadeza de fruta. No caso da tinta Rufete, que muito sofreu na época em que só se procurava cor e extracção nos tintos, confere uma forte marca de vegetal seco que remete a fruta para segundo plano, mas funciona como cartão de identidade, gerando vinhos abertos de cor, os verdadeiros “Pinot Noir à portuguesa”.
Naturalmente que outras variedades surgiram como companheiras de aventura destas variedades tradicionais: nas brancas, a Arinto, a Fernão Pires ou a Malvasia Fina e, nos tintos, a Touriga Nacional, a Trincadeira, a Touriga Francesa e a Tinta Roriz. Há ainda apontamentos de castas internacionais, como a ubíqua Chardonnay, além da Riesling e, nos tintos, Cabernet Sauvignon, Syrah e Merlot.
O painel de prova demostrou uma grande diversidade de estilos e nota-se claramente uma aposta em vinhos mais abertos de cor, menos marcados pela madeira, menos alcoólicos, correspondendo a um certo chamamento do mercado e do gosto actuais. Por último, é de salientar que em termos de preços, os vinhos apresentam uma paleta alargada de escolhas, mas, em geral, são bem amigos do consumidor.
(Artigo publicado na edição de Fevereiro de 2026)
OS BRANCOS:
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Bonjardim
Branco - 2023 -

Bal da Madre
Branco - 2023 -

70/30
Branco - 2023 -

Quinta dos Currais
Branco - 2023 -

Pinhel
Branco - 2024 -

Barroca da Malhada
Branco - 2023 -

Adega 23
Branco - 2022 -

Souvall Villamayor
Branco - 2023 -

Rosa da Mata
Branco - 2021 -

Quinta dos Termos
Branco - 2024 -

Quinta da Ribeira da Pêga
Branco - 2022 -

Quinta da Biaia Fonte da Vila
Branco - 2019 -

Pombo Bravo
Branco - 2022 -

Marquês de Belmonte Vinhas Velhas
Branco - 2023 -

Casas Altas Vinhas Velhas
Branco - 2023 -

Aforista
Branco - 2023 -

Quinta do Cardo
Branco - 2023 -

Marquês de Almeida
Branco - 2021 -

Folhas Caídas
Branco - 2022
OS TINTOS:
-

Bonjardim
Tinto - 2016 -

Alto dos Cucos
Tinto - 2023 -

Solares de Pinhel
Tinto - 2021 -

Quinta Vale do Cabo
Tinto - 2023 -

Marquês de Belmonte Vinhas Velhas
Tinto - 2023 -

Casal Borrelos
Tinto - 2022 -

1808 Field Blend
Tinto - 2018 -

70/30
Tinto - 2022 -

Vale dos Ladroens
Tinto - 2022 -

Quinta dos Termos A Surpresa
Tinto - 2019 -

Quinta dos Currais Edição Especial
Tinto - 2023 -

Quinta dos Alvercões
Tinto - 2023 -

Quinta da Biaia Fonte da Vila
Tinto - 2016 -

Barroca da Malhada Tinalhas
Tinto - 2023 -

Bal da Madre
Tinto - 2022 -

Aforista
Tinto - 2021 -

Adega 23
Tinto - 2020 -

Quinta do Cardo
Tinto - 2022 -

Quinta da Ribeira da Pêga
Tinto - 2021 -

Almeida Garrett
Tinto - 2017
TINTOS DO DÃO: O Dão para além da Touriga

A Touriga Nacional continua a ter um papel central na imagem do Dão, sendo responsável por 21,3% da área da vinha na região. Impositiva por natureza, mas quando bem integrada, a casta contribui com estrutura, profundidade aromática e identidade. Por isso, não fazia sentido excluí-la completamente desta prova; limitámos apenas a sua presença de forma […]
A Touriga Nacional continua a ter um papel central na imagem do Dão, sendo responsável por 21,3% da área da vinha na região. Impositiva por natureza, mas quando bem integrada, a casta contribui com estrutura, profundidade aromática e identidade. Por isso, não fazia sentido excluí-la completamente desta prova; limitámos apenas a sua presença de forma a não ultrapassar os 50% do lote.
O que é um blend tradicional do Dão?
Eis uma questão que só pode ser respondida sob um prisma histórico. O lote das quatro magníficas – Touriga Nacional, Tinta Roriz, Alfrocheiro e Jaen –, que, entendemos hoje, como “tradicional”, certamente não o foi antes da filoxera, nem em meados do século passado. A composição das vinhas e dos vinhos foi-se alterando conforme modas, estudos científicos que privilegiaram umas castas em detrimento de outras, avanços na viticultura, alterações climáticas e outros factores.
A Touriga Nacional passou por um período de abandono antes de alcançar o novo estrelato. A Jaen, que mal surgia nos registos, domina hoje as plantações. A Tinta Roriz, que aterrou na região nos anos oitenta do século XX, ascendeu rapidamente à liga das castas recomendadas. A Baga, outrora dominante, aparece agora em field blends ou como raridade monovarietal. Algumas variedades perderam-se pelo caminho; as mais sortudas foram resgatadas do oblívio, graças ao esforço de produtores, como a Lusovini.
De acordo com a Ampelografia Portuguesa de 1865, antes da praga da filoxera, três castas tintas presentes em praticamente todos os concelhos da atual região do Dão eram a Touriga Nacional (à época conhecida como Tourigo ou Mortágua), o Alvarelhão e o Bastardo. Para além destas, são mencionadas Amaral, Baga, Tinta Amarela, Tinta Carvalha e Tinta Francisca, bem como outras variedades cujos nomes hoje são pouco conhecidos, como Coração de Galo ou Pilongo.
Em 1953, Tourigo e Alvarelhão eram obrigatórias nas novas plantações, com um mínimo de 10%. Em 1985, a Touriga Nacional passou a ser a única obrigatória com um mínimo de 20% das novas plantações; as castas Alfrocheiro, Bastardo, Jaen, Tinta Pinheira, Tinta Roriz e Rufete podiam chegar até 80%, enquanto Alvarelhão, Tinta Amarela e Tinto Cão não deviam ultrapassar 20% das plantações.
Em 1993, as castas foram divididas em “autorizadas” e “recomendadas”. As primeiras incluíam o quarteto principal, para além de Alvarelhão, Bastardo, Rufete (Tinta Pinheira), Tinto Cão e Tinta Amarela. Foram ainda mencionadas as variedades que não podiam ultrapassar 40% do conjunto: Alicante Bouschet, Cabernet Sauvignon e Pinot (Noir, presume-se).
Os estilos de vinificação também recebiam as influências de cada época. No início dos anos 2000, os produtores do Dão sentiam-se tentados a apanhar a onda do Novo Mundo, com muita cor e concentração, procurando maior valorização no palco internacional. Isso criava uma certa incoerência com o perfil dos vinhos da década de 1960, quando o Dão era visto como a “Burgúndia de Portugal”. Não sou adepta destas alusões a regiões extra-lusas, mas percebe-se que o termo apelava à ideia de elegância. Hoje, temos produtores antigos, como a Casa da Passarella, ou mais recentes, como a Dona Sancha e o Domínio do Açor, que privilegiam este lado subtil e delicado, em detrimento da extração e opulência.
Há já quase 15 anos, três grandes enólogos do Douro — Jorge Moreira (Poeira), Francisco Olazabal (Quinta do Vale Meão) e Jorge Borges (Wine & Soul) — criaram no Dão o projecto conjunto com a abreviatura M.O.B. “Nos vinhos do Douro há sempre sensação de calor; no Dão também se consegue maturação fenólica, mas os vinhos são energéticos, tensos, com muita frescura e adquirem equilíbrio com menos extração”, explica Jorge Moreira.
Jaen: perfume e macieza
É uma casta de nacionalidade dupla: por um lado, é filha de progenitores portugueses, a Alfrocheiro e a Patorra; por outro, apresenta maior variabilidade genética em Espanha, onde é identitária nas denominações de origem Bierzo e Ribeira Sacra. Supõe-se que andou pelos caminhos de Santiago e atravessou fronteiras através das práticas de intercâmbio agronómico. As primeiras referências surgem em 1886 e 1889, nas regiões de Mangualde e Penalva do Castelo. Em 1973, a casta era permitida nas novas plantações até 30, 40% em alguns concelhos da região. Sendo produtiva, mereceu atenção dos viticultores, que entregavam uvas às adegas cooperativas. Outra vantagem era o grau alcoólico provável mais elevado, o que se reflectia na remuneração, ao contrário da Baga, que perdeu esta corrida a partir das décadas de 1950 e 1960.
A Jaen é quase exclusiva do Dão, onde lidera as plantações com 22,8%, segundo os dados oficiais da comissão vitivinícola da região. Porém, a sua presença dominante no encepamento, não se traduz em valorização. Nem sempre é plantada nos sítios mais adequados, não é pensada para brilhar, como em Bierzo. Sendo muito sensível ao terroir, não apresenta comportamento homogénio dentro da região e acaba por ser pouco consensual. Produz muito, sobretudo em terrenos férteis, mas é susceptível ao míldio e ao oídio, e apodrece com facilidade, o que obriga a evitar zonas mais húmidas. Resiste bastante bem ao stress hídrico, mas não gosta de calor em excesso.
Com produções entre seis e oito toneladas por hectare, e desde que esteja plantada no sítio certo, a Jaen é capaz de originar vinhos de qualidade. Em contexto de lote, pode ir até às dez toneladas por hectare.
A maturação é precoce, mas é difícil apanhá-la no ponto, porque a maturação fenólica é desfasada da acumulação de açúcar. A situação agrava-se, quando a casta é plantada em solos com maior humidade, porque com calor e água disponíveís, a maturação dispara e facilmente entra em sobrematuração. A janela de oportunidade é curta e crítica: quase de um dia para outro passa de rústica, com taninos verdes e aromas de sardinheira, para borracha queimada e acidez baixa. A Jaen contém a segunda maior concentração (após Touriga Nacional) de compostos terpénicos, apresentando, nos primeiros meses, um perfume intenso e delicado a flores, evoluindo, depois, para o aroma a fruta madura, a lembrar morangos e framboesas.
É frequentemente, para não dizer sobretudo, utilizada nos vinhos de entrada de gama, pois confere macieza e um perfume bonito e personalizado. Os vinhos arredondam depressa e ficam prontos a beber ainda jovens. O monovarietal nem sempre é possível e não em qualquer sítio. Numa recente apresentação dos vinhos da Dona Sancha, o enólogo Paulo Nunes explicou que só foi possível fazer Jaen em extreme com uvas de uma vinha com altitude mais elevada, numa zona mais fresca, onde se vindima mais tarde, pois o frio contraria o carácter primário da casta.
A idade da vinha também tem o seu impacto na produção e na maturação. Francisco Olazabal, do trio M.O.B., nota que “a Jaen das vinhas velhas parece outra casta”.
Alfrocheiro: frescura e elegância
A Alfrocheiro é uma das variedades mais fascinantes do Dão. Ausente nas referências ampelográficas do século XIX, revelou-se, mais tarde, como uma verdadeira “mãe genética” de várias castas portuguesas, incluindo o próprio Jaen. A sua designação actual surgiu no início do século XX, tendo sido conhecida, no passado, por outros nomes, como Tinta Bastardeira, Tinta Bastardinha e Tinta Francesa de Viseu. Em terras espanholas é conhecida como Bruñal, em Arribez del Duero, Caiño Gordo, na Galiza, Albarín Tinto, nas Astúrias, e Baboso Negro, nas ilhas Canárias.
Está disseminada por toda a região, sendo a quarta casta mais plantada, representando 5,9% do encepamento no Dão. Embora esteja presente noutras regiões do país, a nível nacional, não ultrapassa 1% da área de vinha. É uma casta exigente, irregular e difícil de prever. Sensível ao calor, ao stress hídrico e à insolação excessiva, não segue regras fixas: não há anos claramente “bons” ou “maus” para a Alfrocheiro. Em contrapartida, quando bem trabalhada e quando lhe apetece, oferece um equilíbrio notável entre álcool, taninos e acidez. Das quatro magníficas, revela-se mais fresca, mais elegante e mais subtil, produzindo vinhos de boa cor, taninos firmes, mas delicados e uma acidez natural mais pronunciada. Jorge Moreira vê semelhanças com Pinot Noir, mas reconhece que precisamos de 200 anos para a elevar ao mesmo nível de reconhecimento.
Tinta Roriz: omnipresente e controversa
É a casta ibérica mais conhecida internacionalmente como Tempranillo. A nível nacional é líder absoluto, ocupando 10% da área total da vinha. No Dão, surgiu no final do século passado, após o reconhecimento das suas aptidões pelo Centro de Estudos de Nelas. Em 1983, a par com a Tinto Cão, era a variedade com menor expressão na região (apenas dois hectares) e hoje ocupa 17,6% da área plantada, posicionando-se no terceiro lugar. Embora tenha registado um crescimento exponencial e esteja omnipresente nos lotes, é uma casta polémica, considerada por muitos um erro de casting. Funciona como uma verdadeira “fábrica de açúcar”, sem que a maturação fenólica acompanhe esse ritmo, o que conduz ao desequilíbrio: ou taninos verdes e adstringentes, ou teores alcoólicos elevados com baixíssima acidez. Prefere solos profundos e bem drenados. Facilmente produz quilos de uva com bagos grandes, muito líquido e muita polpa. Neste caso, perde drasticamente a qualidade. O controlo de produção é, por isso, indispensável.
Em anos favoráveis, pode dar vinhos intensos, estruturados e complexos; noutros, a qualidade é difícil de extrair. Exige decisões rigorosas na vinha e na adega. Alguns produtores optam por vindimas fracionadas, destinando parte da uva para a produção de rosé ou espumante, de forma a preservar frescura e equilíbrio. Outros preferem arrancá-la e substituí-la pelas castas mais ajustadas à região. Em anos favoráveis, pode originar vinhos intensos, estruturados e complexos; noutros, a qualidade é difícil de extrair.
Outras castas
A Tinta Pinheira (3,1% das plantações) é o nome local da Rufete. Queima-se com o sol e apodrece com a chuva, duas das razões pelas quais perdeu popularidade. É uma casta de perfil vegetal, mas delicada, que requer igual delicadeza na vinificação. Os vinhos não apresentam acidez particularmente elevada, mas transmitem sempre energia e frescura natural, segundo a informação dada por Luís Lopes, enólogo da Domínio do Açor. Na adega, optam pelo desengace total e por uma extracção muito ligeira, quase como de uma infusão se tratasse. Outro cuidado prende-se com o uso da barrica: se a Jaen “consegue mastigar a madeira”, a Tinta Pinheira é muito mais sensível. O estágio prolonga-se por dois anos em barricas com três a quatro anos de uso, de modo a que a madeira não se faça notar no vinho.
A Baga (4,9% das plantações) foi, em 1983, a casta com maior encepamento na região, totalizando 3.142 hectares. Em 2008 ainda mantinha uma presença significativa, mas, sendo de ciclo longo e sensível à podridão, não tinha qualquer hipótese. Como explica Paulo Nunes: “Nos anos 80 e 90, quem mandava na viticultura era o São Pedro, e as chuvas no equinócio aconteciam oito em cada dez anos. Hoje já é possível empurrar a decisão da vindima para dentro de Outubro.” Em algumas vinhas, realizam duas a três vindimas faseadas, em função do destino das uvas.
A Malvasia Preta resulta do cruzamento natural entre Alfrocheiro e Sarigo. Com a primeira referência datada de 1866, está mais presente no Nordeste de Portugal. Transmite acidez bastante elevada e aroma com fruta mais imediata e fácil de gostar.
A casta Monvedro é mais uma descendente do Alfrocheiro. Está presente na região em quantidades diminutas (em 1986 representava menos de 0,01% do encepamento). Medianamente produtiva, abrolha cedo e amadurece tardiamente. Mostra-se bastante sensível às vagas de calor, pelo que necessita de ser plantada em zonas mais frescas e sombrias. É uma variedade pouco consensual, bastante rústica e austera, com acidez e taninos elevados. Por sua vez, a Tinta Carvalha já teve alguma presença na região, mas, por apresentar pouca matéria corante e baixa produção de açúcar, deixou de ter expressão, não se adequando à imagem dos vinhos idealizados na década de 1990. Hoje, segundo Paulo Nunes, apresenta um perfil que “respira o Dão”.
Se as castas isoladas ajudam a compreender a região, os blends permitem interpretá-la. A essência do Dão reside na complexidade dos lotes, construídos na adega pelas mãos e sensibilidade humana ou na vinha com castas misturadas e, por vezes, centenárias.
Field blend e vinhas velhas
Não tendo nada a ver com a conotação romantizada de “field blend” de hoje, na época em que surgiram, estes lotes eram uma solução meramente prática, baseada no conhecimento empírico. Não se estudavam as castas a fundo do ponto de vista agronómico e enológico; plantava-se o que estava mais à mão ou, mais próximo de verdade, o que os enxertadores tinham disponível. O field blend funcionava como uma espécie de apólice contra as adversidades climáticas: com muitas variedades à mistura, colmatava-se a insegurança e conseguia-se estabilidade, tanto na produção, como na qualidade.
O desafio das vinhas velhas, com uma grande variedade de castas, consiste em garantir um controlo eficiente da maturação e definir a data de vindima. Às vezes, é possível identificar uma ou duas videiras que reflectem o nível de maturação da vinha toda, como faz Paulo Nunes, ou realizar várias passagens na vindima, como refere Álvaro de Castro, o proprietário da Quinta da Pellada.
As vinhas antigas são igualmente mais difíceis em termos fitossanitários e muito exigentes em trabalhos na vinha. É preciso conhecer bem não apenas a parcela, mas também as videiras, para podar cada uma de forma adequada. Nesta prova, tivemos alguns vinhos das vinhas velhas. Quinta da Pellada Vinhas com 70 anos, com predominância das castas Jaen, Alvarelhão, Tinta Pinheira, Tinta Carvalha, Bastardo, entre outras, e reduzida expressão de Touriga Nacional, Português Azul e Negro Mouro. O nome da parcela “Alto” é autoexplicativo, pois fica a 550 metros de altitude, em solo granitico com linhas de argila e areia.
Da Casa Américo veio um vinho de uma vinha centenária da Quinta da Cerca, localizada na sub-região da Serra da Estrela – desengace parcial e fermentação em lagar aberto com uma primeira pisa a pé. A partir daqui apenas molharam a manta uma vez por dia. O fim da fermentação e o estágio de 24 meses ocorreram em depósito de cimento, aos quais se somaram 24 meses em garrafa.
Tivemos uma boa amostra de monovarietais de Alfrocheiro (sete) e Jaen (quatro) e ainda um de Tinta Pinheira e um de Tinta Roriz. As castas estrangeiras, como é o caso de Syrah e Cabernet Franc, não são permitidas para denominação de origem, mas podem entrar nos vinhos regionais de Terras do Dão.
(Artigo publicado na edição de Janeiro de 2026)
*Nota: A ordem das garrafas é meramente aleatória
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Quinta da Pellada Alto
Tinto - 2019 -

Casa Americo Vinhas Centenárias
Tinto - 2018 -

Morgado de Silgueiros
Tinto - 2023 -

Dom Vicente
Tinto - 2021 -

Conde de Anadia
Tinto - 2022 -

Castelo de Azurara
Tinto - 2017 -

Caminho
Tinto - 2023 -

Tazem
Tinto - 2022 -

Soito
Tinto - 2017 -

Taboadella
Tinto - 2021 -

Pedra Cancela
Tinto - 2020 -

Adega de Penalva
Tinto - 2020 -

Quinta Madre de Água
Tinto - 2019 -

Quinta dos Carvalhais Edição Especial
Tinto - 2019 -

Quinta do Perdigão
Tinto - 2018 -

Quinta de Lemos
Tinto - 2015 -

Quinta da Vegia
Tinto - 2019 -

Opta Imperatriz do Dão
Tinto - 2018 -

Dom Bella
Tinto - 2015 -

Desalinhado
Tinto - -

Cabriz Edição Especial
Tinto - 2018 -

Borges
Tinto - 2023 -

Vinha Negrosa
Tinto - 2021 -

O Estrangeiro Single Vineyard
Tinto - 2023 -

O Fugitivo Vinhas Centenárias
Tinto - 2019 -

M.O.B.
Tinto - 2023 -

Líquen
Tinto - 2022 -

Domínio do Açor
Tinto - 2022 -

Envelope
Tinto - 2018 -

Quinta das Corriças
Tinto - 2018
Blanc de Noirs: Quando as tintas viram brancas

A designação Blanc de Noirs, que surge nos rótulos das garrafas, identifica vinhos brancos feitos com uvas tintas. Nesses rótulos, não se nomeiam as castas usadas, que podem ser várias, sendo mais interessante verificar o resultado do que as uvas utilizadas na feitura do vinho. A técnica (se assim se pode chamar) é tão antiga […]
A designação Blanc de Noirs, que surge nos rótulos das garrafas, identifica vinhos brancos feitos com uvas tintas. Nesses rótulos, não se nomeiam as castas usadas, que podem ser várias, sendo mais interessante verificar o resultado do que as uvas utilizadas na feitura do vinho. A técnica (se assim se pode chamar) é tão antiga como o próprio Champagne, uma vez que, quer Dom Pérignon, quer o seu sucessor, o Frère Pierre, se preocuparam em descobrir como poderiam fazer um vinho branco a partir das uvas disponíveis, no caso a tinta Pinot Noir. O famoso monge beneditino ficou para sempre “coroado” como criador do champanhe. Não é verdade, até porque o que mais o preocupava era, a contrario, perceber como poderia eliminar a efervescência que notava nos vinhos, na Primavera a seguir à colheita.
Deixemos-lhe os louros e vamos em frente. Foi, então, a partir de finais do século XVII, que a técnica se desenvolveu, usada para fazer champanhes ao gosto da época, com elevado teor de açúcar residual. Foi preciso esperar até 1874, para que Louise Pommery colocasse, no mercado, uma autêntica bomba: o primeiro Champagne realmente seco, algo inédito e inusitado para a época. O rosé, que em Champagne resulta de um lote de vinhos branco e tintos, vinificados separadamente, ainda hoje é um produto mais raro e mais caro que o branco.
A designação Blanc de Noirs pouco se usa em Champagne, porque a grande maioria é mesmo feita segundo essa técnica, sobretudo a partir de Pinot Noir, mas também de Pinot Meunier.
Entre nós, e sobretudo depois de 2015, quando foi criada a categoria “Baga-Bairrada”, começou a ver-se com mais frequência nos rótulos a designação Blanc de Noirs.
Na Bairrada, a categoria Baga-Bairrada contempla vinhos brancos ou rosados feitos a partir da casta Baga, sujeitos a regras especiais (cor, estágio, etc.) e com essa distinção a ter de vir indicada no rótulo. Até um espumante tinto feito de Baga poderia entrar na categoria, mas, segundo Pedro Soares, Presidente da Comissão Vitivinícola da Bairrada, “até hoje não houve nenhum”. Há, actualmente, 33 referências Baga-Bairrada activas, inicialmente com um desenvolvimento rápido após a criação da categoria, mas, “agora menos, a partir do momento que se alterou o tempo de estágio obrigatório, de nove para 18 meses”. De qualquer forma, com a designação Baga-Bairrada, estamos a falar de 400 000 garrafas por ano, o que é obra.
Na prova que fizemos foi evidente uma grande diversidade de estilos, não sendo evidente, de todo, um padrão aromático que possa identificar a categoria
Estilos bem diversos
Na restauração, a categoria Blanc de Noirs não tem um estatuto que mereça destaque. Raramente se propõe um espumante ao cliente por ser desta categoria ou o cliente o pede com esta designação. Foi o que nos contou Gonçalo Patraquim, sommelier, actualmente a trabalhar nos Açores, no Double Tree by Hilton, Lagoa, S. Miguel. Em vez de “pensar” o espumante em função da cor ou do perfil, Gonçalo Patraquim entende que olha mais “de fora”, ou seja, em função do menu ou do gosto que percepciona no cliente, tanto pode propor um Blanc de Noirs, como um branco de castas brancas (o que é mais habitual). Já no caso de haver um pairing de carácter regional, aí sim, faz mais sentido propor um vinho desse tipo, para ligar melhor com o prato escolhido.
É verdade que nem sempre é fácil distinguir um branco de um Blanc de Noirs. Gonçalo Patraquim, aponta “uma maior percepção de fruta vermelha e menos citrina neste tipo, e será por aí que poderemos tentar adivinhar que estamos perante um Blanc de Noirs. Mas não é fácil”, conclui.
Na prova que fizemos foi evidente uma grande diversidade de estilos, não sendo evidente, de todo, um padrão aromático que possa identificar a categoria. Enquanto na Bairrada a presença da Baga pode ser padrão para vários vinhos, já no Dão ou no Douro, com outras castas e outros tempos de estágio, a diversidade é maior. Com um leque de escolhas assim, e com uma enorme diversidade de preços, o consumidor tem muito por onde escolher.
Uma questão de cor
Ao usar uvas tintas para fazer um espumante branco, temos sempre alguma tonalidade rosada que resulta da prensagem. Pode ser maior ou menor conforme o teor de cor das uvas usadas e da prensagem que se efectuou. Vulgarizou-se a prática da descoloração do mosto, tornando-o com um aspecto mais citrino e menos rosado. Os métodos são vários, desde o carvão vegetal no vinho, bentonite no mosto ou bentonite-caseína no mosto.
O método mais radical denomina-se PVPP (polivinilpolipirrolidona), mas é menos usado por retirar muitos dos bons compostos aromáticos do vinho, ficando o vinho muito “rapado”, termo geral usado para este efeito. Sem usar qualquer produto para retirar cor, a solução é fazer uma prensagem muito, muito suave, sendo normal uma muito leve tonalidade rosada nos espumantes Blanc de Noirs. Para se ter uma ideia do que se obtém de uma prensagem suave, podemos dizer que, a partir de 4000 quilos de uva que entram na prensa, se obtêm 2050 litros da cuvée, a melhor das três partes que resultam da prensagem, descartando-se a primeira e a última, mais rústicas e tânicas, e usadas para outros fins.
(Artigo publicado na edição de Dezembro de 2025)
*Nota: A ordem dos vinhos apresentados é aleatória
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Vértice
Espumante - 2013 -

Quanta Terra Éclat
Espumante - 2020 -

Murganheira Vintage
Espumante - 2016 -

Kompassus Assemblage Colecção Privada
Espumante - 2016 -

Original
Espumante - 2019 -

São Domingos
Espumante - 2015 -

Raposeira Blanc de Noirs
Espumante - 2018 -

Quinta do Poço do Lobo
Espumante - 2022 -

Marquês de Marialva Cuvée Blanc de Noirs
Espumante - 2015 -

Aliança
Espumante - 2021 -

Ribeiro Santo Excellence
Espumante - 2020 -

Real Senhor Blanc de Noirs
Espumante - 2021 -

Casa de Santar Vinha dos Amores
Espumante - 2018
SOUSÃO: Entre amores e ódios

Sabemos que tem história antiga e, à falta de melhor prova, acredita-se que tenha nascido no Minho, de parentesco (ainda) incerto. É a casta tinta mais plantada na região, ainda que não fosse dominante nas zonas de Monção e Melgaço. Com referências que remontam ao século XVIII, surge em finais do século XIX já como […]
Sabemos que tem história antiga e, à falta de melhor prova, acredita-se que tenha nascido no Minho, de parentesco (ainda) incerto. É a casta tinta mais plantada na região, ainda que não fosse dominante nas zonas de Monção e Melgaço. Com referências que remontam ao século XVIII, surge em finais do século XIX já como nome actual de Vinhão. No Douro ganhou o nome de Sousão, sinónimo. Ao organizarmos esta prova, resolvemos integrar só vinhos com a indicação de Sousão e, por essa razão, escolhemos apenas um da região dos Vinhos Verdes.
A sua introdução no Douro parece estar relacionada com o abandono da baga de sabugueiro usada durante décadas e décadas, para dar cor aos vinhos. De facto, muitas das mais tradicionais castas do Douro, como Bastardo, Tinta Francisca, Malvasia Preta, Cornifesto, Tinto Cão e Mourisco, entre outras, eram reconhecidamente com pouca cor e a baga de sabugueiro, introduzida nos lagares onde se pisavam as uvas, ajudava a dar cor, uma das características (ainda hoje) procurada nos vinhos que se querem transformar em Vinho do Porto. A Sousão é a rainha da cor, não pela polpa (por isso não é considerada casta tintureira), mas pela extrema intensidade corante da película.
Uma vez chegada ao Douro, a Sousão não deixou créditos por mãos alheias. Faz parte das castas que têm crescido em área, sobretudo desde que se começou a apostar fortemente nos DOC Douro; partilha algum protagonismo com a Alicante Bouschet, uma variedade que, apesar de estar presente nas vinhas velhas, é agora que conhece um alagamento do plantio, gradualmente substituindo a Tinta Barroca e mesmo a Tinta Roriz. Quem usa Sousão reconhece-lhe, além das virtudes corantes, a constância da acidez, que conserva bem mesmo em ambiente de maior calor, factor a ter em conta em tempos de alterações climáticas. “Adoro a casta, sobretudo para fazer um lote de DOC Douro, juntamente com Touriga Nacional e Tinto Cão, que é o meu lote favorito!”. Quem o diz é Luís Soares Duarte, enólogo com largos anos de experiência na região. Reconhece que além da boa acidez, tem um pH baixo, “não é raro encontrar uvas com pH de 3.1 e 14º de álcool provável”. Luís Soares Duarte não esconde que é a componente vegetal que muito o atrai na Sousão, ao lado da “cor mais bonita comparativamente à da Alicante Bouschet”. Para Vintage e LBV, a Sousão pode ser uma excelente arma, pela componente fenólica, embora não seja das mais aromáticas. Mas alerta: “às vezes extrai-se demais e perdem-se algumas das subtilezas que tem, como seja as notas de farmácia e tinta da China”, conclui.
A Sousão é a rainha da cor, não pela polpa vermelha, mas pela extrema intensidade corante da película

Já Álvaro Lopes, chefe de viticultura da Real Companhia Velha, que também usa a casta na Quinta das Carvalhas, apesar de lhe reconhecer as virtudes do factor cor, afirma o seguinte: “porta-se muito mal em vinhas de exposição sul e baixa altitude, caindo facilmente em sobrematuração, o que gera vinhos desequilibrados.” Segundo Álvaro Lopes, para fazer face às alterações climáticas a opção deverá passar por outras castas, como Donzelinho, Tinta Bastardinha (Alfrocheiro) e Tinta Francisca. Se é fundamental num lote de DOC Douro? “Não me parece, até a bairradina casta Baga (que existe dispersa nas vinhas velhas) é preferível à Sousão!”
Diogo Lopes, enólogo, só trabalha a casta no Alentejo, na Herdade Grande. No entanto, reconhece que, com o “novo” clima que temos pela frente, a casta Sousão pode ser um trunfo, não só pela acidez que conserva, como também por aguentar muito bem o impacto da madeira, mesmo nova. “A passagem na madeira ajuda a equilibrar a rusticidade da casta e estou em crer que, ainda que em extensão moderada, se pode apostar na casta aqui no Alentejo. Na Herdade Grande é mesmo o varietal com mais sucesso que temos.”
A casta, não nasceu para ser consensual, antes para provocar acesas discussões. Já não tanto quanto à questão de como deve ser bebido o vinho, se na caneca, se no copo, assunto ultrapassado entre enófilos, mas sim como casta que, cheia de manias e caprichos, pode dar direito a controvérsia. E há lá coisa que se goste mais?
A casta não nasceu para ser consensual, antes para provocar acesas discussões
Mudam-se os tempos
Nas últimas décadas, a Sousão tem conhecido uma significativa alteração de perfil. Se recuarmos até aos anos 80 e 90 do século passado, os Verdes tintos de Vinhão carregavam consigo uma verdadeira chancela “etnográfica”, pois só eram apreciados localmente, onde os consumidores gostavam daquela combinação explosiva que afasta qualquer crítico de vinhos e que inviabiliza o vinho em qualquer concurso: muita cor, excessiva carga vegetal no aroma e, consequente, ausência de fruta, muita acidez, muitos taninos espigados e, frequentemente, baixa graduação alcoólica. Não foi assim de estranhar que tenha ouvido um técnico da Comissão Vitivinícola afirmar: “não comunicamos este vinho nos mercados externos, para além do mercado da saudade.”
Entretanto optou-se por outras práticas vitícolas, os procedimentos em termos de enologia, alterou-se o clima, mudou o gosto do consumidor e, por via disso, os vinhos também mudaram. O desafio agora é, cremos, conseguir que o vinho não perca o seu ADN e, ao mesmo tempo, corresponda ao gosto actual, onde se privilegia um bom equilíbrio entre corpo, acidez e taninos. Baixar intencionalmente a acidez, retirar todos os taninos ou forçar a perda de cor não será seguramente o caminho.
Os vinhos que agora apresentamos têm uma paleta de estilos que permite recuperar o consumidor que andou de costas voltadas ao Sousão/Vinhão. Porém, dá para perceber que se está ainda em fase de “reconhecimento” do terreno: não é por acaso que, à excepção do vinho da Quinta do Vallado, todos os outros são feitos, digamos, em quantidades homeopáticas. Alargam o portefólio e não interferem com a folha Excel…

Em jeito de balanço
Atendendo a que os vinhos apresentam estilos muito variados, é possível agrupá-los pelo perfil apresentado por cada um. Praticamente todos têm uma característica comum: podem ser guardados durante alguns anos. Mas atenção a este tema: os que foram aqui provados dão a ideia (a confirmar em provas futuras) que a longevidade não deverá ultrapassar os cinco ou seis anos, sob pena de se perderem algumas das características mais marcantes da casta.
Feito o balanço, agrupamos os vinhos assim: num perfil mais simples e até, eventualmente, mais consensual – Quinta de Ventozelo e H.O –, com um estilo já um pouco mais evoluído – Quinta dos Aciprestes, Vale da Raposa e Herdade Grande Late Release – e uma versão mais clássica, se tivermos como modelo os Verdes tintos – Quinta de Santa Cristina, Maçanita e Monte Branco; se o nosso gosto apontar para um Sousão, digamos, mais “domesticado”, vamos escolher entre Vallado, Quinta do Côtto, Costa Boal e D. Graça; e se o nosso palato não se incomodar com a presença da madeira e achar que ela envolve a casta e a modela, ficamos com Quinta da Rede e Quinta de São José.
(Artigo publicado na edição de Novembro de 2025)
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Quinta de Ventozelo
Tinto - 2022 -

Vale da Raposa
Tinto - 2021 -

H.O.
Tinto - 2019 -

Costa Boal
Tinto - 2018 -

Vallado
Tinto - 2021 -

Quinta dos Aciprestes
Tinto - 2017 -

Quinta do Côtto
Tinto - 2022 -

Quinta de S. José
Tinto - 2019 -

Quinta de Santa Cristina Cave
Tinto - 2019 -

Quinta da Rede
Tinto - 2023 -

Monte Branco
Tinto - 2021 -

Maçanita Letra A
Tinto - 2022 -

Herdade Grande Late Release
Tinto - 2017 -

D. Graça
Tinto - 2021























































