Castelão 2.0: new beginnings
A expressão remete-nos para toda uma ideia de começar de novo, de fresco, frequentemente com um novo sentido de esperança e renovação. Significa mudança, de um capítulo da nossa vida para outro, amiúde após um período de reflexão ou crescimento. Significa todo um deixar para trás, em consciência, de velhos hábitos, experiências e circunstâncias, em direcção ao futuro, com uma renovada perspectiva.
Não vos parece que isto tem vindo a acontecer com a casta tinta Castelão? A mim sim, e que bom que assim é.
Não tenho medo de assumir – aliás, até acho que o devo fazer – o quanto gosto destas renovadas perspectivas da Castelão, do Douro, do Tejo, do Alentejo, embora na sua região de sempre também já existam novos começos. Gosto destes novos Castelões que se parecem com a Sangiovese de um Rosso di Montalcino ou com uma Nero d’Ávola da Sicília, ou, claro, com um bom Pinot Noir, ou uma Grenache, porque não, mas, no fundo, não são nenhuma delas, não. É um Castelão, nosso, português, com um novo rumo, virado para o futuro e com renovada perspectiva.
Produtividade e adaptação
O equivalente ao nosso Cartão do Cidadão, para uma casta é o VIVC – Vitis International Variety Catalogue, no qual a Castelão figura com o nº 2324. Variedade originária da Península Ibérica, resulta do cruzamento natural de Cayetana Blanca com Alfrocheiro Preto. A sua cultura aparece referenciada antes de 1799. Ruy Fernandes, em 1531, refere a Castelão como sendo cultivada na região de Lamego.
Actualmente, representa cerca de 5% do encepamento nacional, com aproximadamente 10 000 hectares e com especial incidência nas regiões de Lisboa, Tejo, Península de Setúbal e Alentejo. É a quinta variedade com maior área de cultura.
A Castelão é considerada a casta-referência para os estados fenológicos das variedades tintas. O abrolhamento e a floração são precoces, o pintor e a maturação ocorrem em época média, na altura da floração adquire um aspecto bastante característico, em que as folhas se dispõem como telhas de um telhado, apresentando-se a cepa bastante fechada, vertical e vigorosa.
Tem boa produtividade, com tendência para rebentação múltipla; é sensível ao desavinho e à podridão, no período de floração, o qual ataca o pedúnculo do cacho. Mas já é pouco vulnerável à podridão no período de maturação e é pouco susceptível ao oídio. É muito versátil, pois adapta-se bem a terrenos húmidos e ajusta-se a várias situações edafoclimáticas, agradecendo, contudo, solos de média a baixa fertilidade, para exprimir todo o seu potencial enológico. Encontra na Península de Setúbal a região onde atinge maior notoriedade, goste-se ou não do perfil generalizado que a casta aí apresenta. A sua capacidade de adaptação deve-se, em grande parte, ao facto de possuir uma película grossa, dotando-a da capacidade de resistência aos escaldões.
É amiga do lavrador, no sentido de que se traduz numa elevada produtividade, podendo chegar às 15 toneladas por hectare, todavia com um grande senão: a qualidade da matéria-prima é inversamente proporcional ao volume e as melhores práticas apontam para rendimentos entre as seis e as sete toneladas por hectare. Exigente em potássio, é sensível a excesso de azoto, o causador do desavinho (acidente fisiológico caracterizado pela ausência de fecundação das flores, impedindo estas a não se transformem em fruto).
Devido à grande capacidade de adaptação, encontramos a Castelão desde as regiões mais frescas e húmidas do Norte do país até às áreas mais quentes e áridas do Sul
Sinonímia e disseminação
A Castelão é uma das variedades mais emblemáticas do património vitivinícola português. Durante muito tempo, foi conhecida como Periquita, nome popularizado graças a José Maria da Fonseca, que, no século XIX, plantou varas desta uva na Cova da Periquita, em Azeitão. O sucesso dos vinhos aí produzidos foi tão grande, que o nome acabou por se confundir com a própria casta.
Oficialmente designada Castelão, esta variedade também foi chamada de João Santarém, Castelão Francês, Trincadeira (sem relação com a verdadeira Trincadeira), em diferentes regiões do país, e Tinta Merousa, na sub-região duriense Baixo Corgo. A multiplicidade de nomes revela a sua longa história e disseminação por boa parte do território nacional, assim como o seu papel central no mapa vínico português.
Devido à grande capacidade de adaptação, encontramos a Castelão desde as regiões mais frescas e húmidas do Norte do país até às áreas mais quentes e áridas do Sul. Espalhou-se pela maioria das regiões portuguesas, incluindo Trás-os-Montes, Douro, Távora-Varosa, Beira interior, Lisboa, Tejo, Alentejo e Algarve, e estabeleceu o seu reduto forte na região da Península de Setúbal onde, na década de 60 do século passado, chegou a cobrir mais de 90% da área ali plantada.
A casta ganha especial relevância nas vinhas velhas e de baixa produtividade, reveladoras do melhor do seu potencial, dando origem a vinhos de enorme complexidade e estrutura, mas frescos, apesar da concentração, com notas de groselha, ameixa e frutos silvestres, muitas vezes em calda ou compotados. Nos solos arenosos de Palmela e Poceirão, onde o clima quente e seco favorece a maturação, dá origem a vinhos estruturados, concentrados, densos, de cor violácea e aroma intenso, capazes de envelhecer durante muitos anos. E nos solos argilo-calcários da Arrábida, gera vinhos mais leves e elegantes, de menor grau alcoólico, mais frutados e frescos.
Fruto de vários factores, que não importa trazer agora à tona, a partir de meados da década de 2000, a Castelão perdeu terreno. Foram arrancadas vinhas substituídas por outras variedades, inclusive internacionais. Todavia, nem de propósito, em conversa recente com Luís Sousa Mendes, da Associação de Viticultores do Concelho de Palmela (AVIPE), se há dez anos era típico plantar Syrah em vez de Castelão, agora esta tendência travou. Curiosamente, é com agrado que se regista que há mais gente na região a plantar Castelão. E alguns substituem as cepas velhas por novas, utilizando o material policlonal.
A este cenário acresce o facto de que, nos últimos anos, as novas perspectivas da Castelão, aqueles new beginnings, se têm feito sentir, às vezes parecendo até com maior profusão, fora desta zona/região de conforto da casta. Desde o Douro, passando pelo Tejo e pelas zonas mais Atlânticas de Setúbal, até ao Alentejo, a versão 2.0 desta variedade, os tais os novos começos, têm produzido vinhos extremamente interessantes e mais originais até, em que a Castelão transmite, no copo, todo o potencial, a elegância e a frescura de um vinho de clima costeiro, ou que beneficia de alguma influência marítima, em que a extração foi claramente substituída por um trabalho de adega menos intrusivo, mostrando a sua incrível capacidade de adaptação e versatilidade, tão necessária aos dias de hoje, para responder aos desafios inerentes às alterações climáticas. É também, nesse sentido, uma casta muito actual e, por conseguinte, de não menos futuro.
Perfis e a influência climática
O perfil geral dos vinhos feitos a partir de Castelão continua a ser marcado pela rusticidade, com taninos firmes e uma acidez vincada, atributos que, à partida, garantem longevidade e capacidade de evolução em garrafa. Apresentam notas expressivas de groselha, ameixa em calda e frutos silvestres, como amora e framboesa, e, em exemplares mais antigos ou sujeitos a estágio em madeira, há a probabilidade de surgir nuances de caça, tostados e boa complexidade que, em grandes anos, podem até lembrar vinhos com vários anos de garrafa da margem esquerda de uma certa região famosa. Bordéus, isso mesmo.
Acidez natural elevada e estrutura firme torna a casta facilmente compatível com estágio em madeira, preferencialmente barricas de carvalho francês, unanimemente consideradas as melhores. Mas a exemplo da Baga, Sangiovese ou Nebbiolo, a Castelão também responde positivamente quando envelhecida em tonéis de madeira de grande porte.
Por sua vez, o clima ameno do Algarve, com a sua característica de assinatura, em que as amplitudes térmicas entre o dia e noite não variam radicalmente, transmitindo aos vinhos boa intensidade aromática, aqueles mostram-se mais abertos, são mais redondos e estão prontos para beber mais cedo. Têm, no entanto, o senão de, à partida, não possuírem grande capacidade de envelhecimento.
Por sua vez, Domingos Soares Franco tem sido, ao longo da sua vida enológica, reiterada e repetidamente categórico no que diz respeito à origem dos melhores vinhos de Castelão: a qualidade e dimensão da madeira é importante é certo, mas são os solos arenosos que abrigam as vinhas velhas de baixo rendimento, na Península de Setúbal, a darem origem não somente aos melhores vinhos, mas também aos mais longevos, sendo possível encontrar garrafas de Castelão com mais de meio século que ainda estão na sua plenitude.
A plasticidade da casta
Que Castelão quer o consumidor, essa pessoa que ninguém conhece, mas que legitima grandes tomadas de decisão enológicas, comerciais e outras? Não resta qualquer dúvida que a casta exibe diferentes perfis e é extremamente versátil. A esta versatilidade e capacidade de adaptação eu gosto de acrescentar plasticidade, atributo comum à casta Arinto, nas brancas. É uma variedade que, com a viticultura e a enologia adequadas, consegue exprimir e entregar cada terroir, cada região, cada produtor de maneira superior e diferenciada. Sejam eles vinhos de Castelão fáceis, prontos e confortáveis para se beber ou tintos sérios, personalizados, estruturados e longevos, capazes de surpreender colecionadores e apaixonados pelo vinho, mas sempre sem nunca perderem, quer uns quer outros, elegância, frescura e sofisticação.
São assim estes novos tempos da Castelão. 2.0 é a nova versão. E foi isso mesmo que testemunhamos nos 25 vinhos que se seguem, todos provados às cegas, para não haver ideias predefinidas, estigmas ou preferências pessoais. No fim, ganhou… a Castelão!
Ganha especial relevância nas vinhas velhas e de baixa produtividade, dando origem a vinhos de enorme complexidade e estrutura
Douro e Algarve
O número de vinhos provados é 28 e creio que é seguro afirmar que a Castelão está de parabéns, do Douro ao Algarve. Não houve um vinho extraordinário, é certo, com aquele factor wow que sempre procuramos e que nos entusiasma verdadeiramente, mas é minha opinião que aí a responsabilidade é mais da casta Castelão em si mesma do que dos produtores. Simplesmente não acho que seja uma casta adequada a grandes vinhos ou vinhos extraordinários. Mas que resulta em vinhos muito bons, disso não pode haver dúvidas, e com bom potencial de guarda e envelhecimento; e tivémo-los aqui, mas, testemunhamos, sobretudo, uma grande qualidade global nas várias regiões do país que por aqui desfilaram.
Uma nota de realce: apraz-me registar a revelação de outras interpretações da Castelão, mais abertas, menos extraídas, com menos grau alcoólico. Creio que a casta também se expressa muito bem dessa maneira. Porém, os clássicos são clássicos e merecem sempre o nosso respeito. É de notar ainda que muito me agradou o facto de, ao longo de toda a prova, não termos encontrado nenhum vinho com excesso de madeira ou com esta a sobrepor-se. Pelo contrário, nas referências com estágio em madeira, esta apresentou-se muito bem integrada, a confirmar a qualidade dos vinhos apresentados, bem como o trabalho afinado de enologia que, hoje em dia, se pratica, de forma transversal a várias regiões vínicas de Portugal.
Uma menção especial para os dois vinhos mais pontuados: a Castelão do Douro, de Luís Seabra, um terroir pouco usual para a casta, mas onde se percebe o grande talento e afinamento por parte do produtor; e a Castelão da Casa da Atela, aqui num terroir mais habitual para a casta, que também revelou uma performance a assinalar.
Nota – A Grande prova Castelão realizou-se em Prova Cega por: Rui Caroço dos Santos, João Paulo Martins, Valéria Zeferino
(Artigo publicado na edição de Agosto de 2026)
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