Como é que um Porto Vintage acontece? Que conjugação de factores naturais e humanos precisa de ocorrer para que o mais prestigiado dos vinhos do Porto possa nascer? Uma Masterclass sobre Porto Vintage promovida pela Fladgate Partnership procurou responder a estas questões. Ao mesmo tempo, os novos Vintage de quinta foram apresentados ao público.

 

TEXTO João Afonso Falcão FOTOS Cortesia do produtor

UM Vintage é um generoso de cor ruby, oriundo do Vale do Douro, feito com uvas de uma só co­lheita (excelente ou excepcional), engarrafado na segunda Primavera a seguir à vindima.

Há, genericamente, dois tipos de Vintage nas casas tra­dicionais: os Vintages de Quinta, que são lançados em colheitas excelentes, e os Vintages Clássicos, produzidos em colheitas excepcionais e que são acompanhados por declaração generalizada do sector em evento de grande pompa e circunstância.

Para se ter uma ideia da frequência de lançamentos deste tipo de vinho, na Fladgate, entre 1970 e 2014 (45 anos), um clássico não sucedeu a outro, 3 em cada 10 vindimas produziram um Clássico; e 75 por cento das vindimas pro­duziram ou Clássico ou Vintage de Quinta. Mas o que é preciso para originar um Porto Vintage na Fladgate?

O solo
Um solo de rocha de xisto muito antiga e degradada em calhau, argila e limo que permite que uma viticultura mon­tanha nas encostas do rio Douro não seja, na sua esma­gadora maioria, regada (apesar de no Douro Superior a prática se ter instalado crescentemente nos últimos anos). No âmbito da rega de vinha esta é uma das empresas de vinhos mais puristas, mantendo-se afastada da tentação de facilitar a vida às videiras. A vinha foi, é e será, uma cultura de sequeiro nas Quintas da Fladgate Partnership.

Vinhas e castas
Um grupo dilatado de castas e de vinhas (novas, adultas e velhas) com diferentes altitudes, exposições e localiza­ções. Um enorme puzzle que faz com que cada quinta te­nha uma mensagem ou um “código” especifico de vinho.

Neste item, e se nos focarmos apenas nas três diferencia­das e principais marcas – Taylor, Fonseca e Croft –, a Fla­dgate possui sete quintas (terroirs) contribuintes de uvas para Porto Vintage: Vargellas, Terra Feita e Junco, para a Taylor’s; Panascal, Cruzeiro e Stº. António, para a Fonseca: e Roeda, para o Croft. Em anos excelentes e não excep­cionais surge o Vintage Single Quinta, que toma à partida o nome da principal quinta de cada marca. Excepção feita ao Fonseca Guimaraens que não sendo um clássico junta também as uvas das três Quintas do Vintage Fonseca.

As vinhas destas sete quintas têm uma idade média de 34 anos, havendo, contudo, em todas elas vinhas velhas que variam entre os 80 e os 108 anos de idade. As vinhas velhas dão complexidade e carácter aos Vintages e as vi­nhas novas conferem fruta e cor.

Nas castas, a Touriga Franca e a Tinta Roriz dominam; seguem-se-lhe em diferentes percentagens a Touriga Na­cional, Tinta Barroca, Tinta Amarela e Tinto Cão e castas menos conhecidas (a Tinta Francisca surge em 5º lugar na Croft e a Tinta da Barca em 5º na Taylor´s). Nas vinhas velhas cada quinta tem o seu próprio sortido de varieda­des “esquecidas”´, como Rufete, Moreto, Tinta de Aguiar, Casculho, Cornifesto, Malvasia Preta, Sousão, Alicante Bouschet, etc.

Um clima especial
Um ano climatérico favorável é factor decisivo. O clima muda drasticamente à medida que subimos o rio ou su­bimos em altitude. Muitas nuances climatéricas estão na origem da probabilidade Vintage. Estatísticas recolhidas entre 1970 e 2014 pela empresa revelam que esta proba­bilidade aumenta se entre Abril e Outubro chover 1/3 da média anual, se a temperatura média em Julho for amena e se em Setembro choverem menos de 20mm.

O factor humano
O profissionalismo das equipas de viticultura e enologia está acima de tudo. Acompanhamento da maturação, vindima de precisão orientando sempre os melhores lotes de uvas (casta, ou lote) para os 33 lagares repartidos pelas 5 adegas tradicionais da empresa: Quinta de Vargellas, Terra Feita de Cima e de Baixo, Panascal e Roeda. Estes lagares são fundamentais pela dinâmica térmica da pisa a pé, que consegue extrair para o Vintage mais taninos e mais aromas. Todos os Vintages Fladgate são feitos nes­tes lagares tradicionais. Nos últimos 8 anos foram aqui vi­nificados uma média anual de 830.500 litros de potenciais Vintages com um resultado médio final de engarrafados de 198.500 litros. Ou seja, apenas 24% dos potenciais Vintages chegam a sê-lo.

A selecção dos lotes
Durante a vindima (damos como exemplo a de 2015) faz­-se a separação de lotes especiais vinificados nos lagares tradicionais. Por norma são cerca de 200.

Em Fevereiro de 2016 escolhem-se os melhores lotes/componentes para Vintage segundo critérios de qualida­de, equilíbrio e potencial de envelhecimento. Em Feverei­ro de 2017 reavaliam-se estes mesmos lotes de 2015 e al­gum tempo depois faz-se a prova dos lotes da vindima de 2016. Em Março de 2017 faz-se a composição dos lotes para Vintage 2015 já com uma ideia do tipo de Vintage que irá ser lançado. Em Abril, prova e afinação final dos lotes seguido de engarrafamento. A 23 de Abril anúncio público sobre a decisão do Vintage.

O anúncio deste ano recaiu sobre Vintages de Quinta (ainda que não se perceba bem o que é o Fonseca Gui­maraens), podendo especular-se que a prova dos vinhos de 2016 foi ainda mais prometedora do que os vinhos fantásticos da não menos fantástica colheita de 2015. Mas só o tempo o ditará.

Para termos uma ideia da restrita selecção de lotes de cada Vintage, refira-se que o Vintage Taylor’s 2011 co­meçou por ter na fase final 22 potenciais lotes mas só 12 chegaram a ser utilizados. Selecção sobre selecção de selecção. É assim que se chega a um dos melhores vinhos do mundo.

Deixe o seu comentário

Please enter your comment!
Please enter your name here