Editorial da edição nrº 99 (Julho de 2025)
A pequenina sub-região de Monção e Melgaço tem uma concentração sem igual de vinhos brancos de superior qualidade e longevidade. Para descobrir ali um vinho menor, só se o produtor fez asneira da grossa.
A Grande Prova de Alvarinho de Monção e Melgaço que publicamos nesta edição da GE, e o excelente desempenho protagonizado por estes vinhos, traduzido numa muito elevada classificação média, traz à liça a eterna questão sobre qual é a melhor casta branca de Portugal. A utilização da palavra “melhor”, para classificar algo ou alguém, enferma, desde logo, de elevada carga de subjectividade. Mas tentemos ser rigorosos, olhando de forma imparcial para as principais uvas brancas nacionais, independentemente do apreço que possamos ter por cada uma. Ainda assim, é fundamental definir o âmbito da avaliação. Ou seja: a melhor casta é aquela que, numa ou mais regiões de Portugal, consegue, ano após ano, originar elevado número de vinhos estremes com enorme qualidade e longevidade? Ou a melhor casta é aquela que, na generalidade das regiões portuguesas, em diferentes condições de solo e clima consegue, de forma consistente, estreme ou em blend, contribuir positivamente para a elaboração de grandes vinhos?
Se o critério fosse este último, em minha opinião, só existiria uma resposta possível: Arinto. Nenhuma outra variedade portuguesa consegue fazer tanto, em tantos locais distintos e de tantas e tão diversas formas. Junto ao mar ou no interior, com mais ou menos água, em qualquer tipo de solo, a Arinto contribui para melhorar todos os blends e adapta-se a todos os modelos e ferramentas de vinificação: inox, barro, cimento, barrica, curtimenta, espumante. É a variedade mais útil de Portugal. Infelizmente, os grandes brancos estremes de Arinto não são, ainda, em número suficiente para que a casta se torne bandeira do país. Não sei se por culpa nossa, se por insuficiência dela.
Mas é evidente que o critério não pode ser esse. Quando alguém diz “melhor casta”, refere-se àquela que, sozinha, faz os melhores e mais reputados vinhos, ponto. Felizmente, neste Portugal que, não há muitos anos, classificávamos como país de tintos, há muitas variedades brancas capazes de, a solo, fazer vinhos de primeira grandeza. Porém, boa parte delas tem área (geográfica) de actuação bastante limitada, perdendo mais valias quando saem da zona de conforto. Lembro-me desde logo de Antão Vaz, Rabigato, Verdelho (o verdadeiro, das ilhas). Relativamente a outras, conhecemos o potencial, mas não há massa crítica (vinhos de topo) suficientes: Fernão Pires, Loureiro, Gouveio, Bical, são exemplos óbvios.
Assim, capazes de cumprir os requisitos acima enunciados, restam duas castas: Alvarinho e Encruzado. Colocadas lado a lado, Alvarinho é imbatível. A pequenina sub-região de Monção e Melgaço tem uma concentração sem igual de vinhos brancos de superior qualidade e longevidade. Para descobrir ali um vinho menor, só se o produtor fez asneira da grossa. Por outro lado, ainda que não atingindo o esplendor que obtém no vale do Minho, a Alvarinho mostra quase sempre elevado desempenho nas muitas outras regiões de Portugal onde está plantada, de Lisboa ao Alentejo. Por extraordinária que seja a Encruzado (e é) não consegue acompanhar estes resultados. E no entanto…
Facilmente esquecemos que o primeiro Encruzado com marca comercial nasceu somente na vindima de 1992. O Alvarinho leva, portanto, 50 anos de avanço. O Dão ainda está a estudar o Encruzado, a perceber a uva na vinha e na adega, a buscar o máximo do seu potencial. E a conseguir, já, vinhos notáveis. Mas isso não é tudo. As ainda poucas plantações de Encruzado fora da região do Dão têm originado brancos surpreendentes. Significa que, ao contrário do Alvarinho, no Encruzado há muito por fazer e descobrir. Uma coisa é certa: os vinhos brancos portugueses que vão nascer nos próximos anos têm tudo para ser entusiasmantes. L.L.