É acima das nuvens que, junto à capela de Santa Comba, onde a bela pastora se entregou a Deus, que avistamos o território dual de Trás-os-Montes. Inóspito, simultaneamente verdejante, misterioso, mágico ou, como lhe chamava Miguel Torga, um “reino maravilhoso”. Por entre uma manta de retalhos geológicos, avistam-se formações de granito ou de xisto, neste território do nordeste de Portugal. É o clima e a morfologia que definem a divisão destes mais de cinco mil quilómetros quadrados, dividido pelas sub-regiões de Chaves, Valpaços e o Planalto Mirandês.
A Terra Fria do Nordeste Transmontano estende-se pelos concelhos de Vinhais, Bragança, Miranda do Douro, Vimioso e Mogadouro, caracterizando-se pela elevada altitude e o clima frio e húmido. Pátria do porco de raça Bísara, da alheira, das chouriças de carne, do azedo e do butelo, do cabrito transmontano e do queijo de cabra e, claro, da posta mirandesa obtida a partir dessa raça magnífica de gado bovino, a Mirandesa. Não esquecendo esse rico e ancestral alimento, a castanha, aqui disponível em, nada mais, nada menos, em 10 variedades. Já a Terra Quente estende-se pelos concelhos de Alfândega da Fé, Macedo de Cavaleiros, Mirandela, Vila Flor, Carrazeda de Ansiães e Valpaços.
Foi precisamente em Valpaços, em vésperas da segunda edição do Trás-os-Montes Wine Experience, evento realizado no belíssimo Vidago Palace, que contou com a presença de uma vintena de produtores e um jantar assinado pelo Chef Vitor Matos, que fomos encontrar Ana Alves, a atual presidente da Comissão Vitivinícola Regional de Trás-os-Montes, que completou, agora, um ano de mandato, após um ato eleitoral com alguns percalços pelo meio. Com 44 anos e licenciada em enologia, iniciou a vida profissional na Adega de Valpaços, esteve envolvida em vários projetos a nível pessoal e, a partir de 2007, ingressou na Comissão Vitivinícola Regional como técnica, função que, dada a exiguidade de pessoal, acumula como presidente da referida entidade regional. O início desta função de liderança não foi fácil e revelou-se, de algum modo, complexa. Mais que racional, foi uma decisão de coração, não apenas sua, mas de toda a Direção, a de agarrar o leme da região. Trás-os-Montes foi notoriamente prejudicada com os incidentes ocorridos durante o processo eleitoral e mostrava-se urgente devolver a boa reputação à região, que, para esta nova direção, era um velho conhecido, apesar de estarem cientes das dificuldades que se lhes deparavam. A afirmação mostrava-se premente, havendo noção que o que se produz é de elevada qualidade e plenamente diferenciador. No entanto, haverá ainda algum preconceito ou aceitação deste território na sua plenitude, mostrando-se absolutamente relevante dar força a Trás-os-Montes e a tudo aquilo que identifica a afirmação da região, impondo-a no mercado.
Inóspito, simultaneamente verdejante, misterioso, mágico ou, como lhe chamava Miguel Torga, um “reino maravilhoso
Região diferenciadora
E o que podem os vinhos desta região aportar em identidade e diferenciação? Não há como não valorizar o terroir, assumido como território, solos, castas, orografia, costumes, práticas e, naturalmente, as gentes. Resumidas, talvez três: altitude, clima e solos. Este trio de variáveis dão uma identidade muito própria aos vinhos e viticultura de montanha, assumida pelas vinhas plantadas em cotas que vão dos 400 aos 800 metros de altitude, o que representa a grande maioria dos vinhedos da região, encontrando-se as cotas mais altas no Planalto Mirandês. O fator altitude mostra-se relevante pela moderação nas temperaturas e amplitudes térmicas mais regradas, garantindo uma marca evidente nos vinhos, aportando-lhe acidez natural mais elevada, maior frescura e destaque dos aromas primários.
A grande maioria dos solos são xistosos. Depois existem os afloramentos graníticos. A maior área de vinha ainda está implantada em solos graníticos, não obstante haver diversas parcelas em solos xistosos. A conjugação da altitude com esta tipologia também permite diferenciar o perfil dos vinhos: os de solos xistosos possuem maior matéria corante, maior concentração e, em tese, um teor alcoólico mais elevado. A heterogeneidade do território mostra-se através da diferenciação dos solos, podendo afirmar-se que, em Trás-os-Montes, é na terra de composição granítica que se obtêm os perfis mais frescos, com maior acidez, facto que promove a dita diferenciação nos vinhos desta região.
O encepamento de Trás-os-Montes apresenta semelhanças com a região duriense. A Tinta Amarela é, em termos absolutos, a casta mais plantada na região, e se falarmos de vinhas velhas, esta variedade é sempre a que predomina, mesmo nas vinhas mais antigas. Houve uma aposta muito forte nesta casta por toda a região, sobretudo na última década, a qual se traduz na crescente produção de monovarietais no mercado. Sendo uma uva muito sensível a doenças na região vizinha, o Douro, em Trás-os-Montes encontra, provavelmente, o melhor habitat e as melhores condições para se desenvolver de um modo imaculado, beneficiando da menor humidade e temperaturas mais frias no inverno, o que lhe permite um estado de hibernação sem interferência de pragas, que se desenvolvem com temperaturas mais elevadas.
Nas castas brancas há mais diversidade, cabendo uma maior predominância da Códega de Larinho, da Viosinho, da Gouveio e da Verdelho, aportando, estas duas últimas, elevada acidez aos vinhos, além de que também são as predominantes nas vinhas velhas. As qualidades destas castas são propícias à produção de vinhos cheios de tensão, perceção de mineralidade e frescura, que também inspiram os produtores a nelas apostar com maior determinação, dando azo à cada vez maior aposta em monovarietais, entendendo-se que este é o caminho e o perfil de diferenciação, e identidade da região. Há registo ainda de outras castas, como a Malvasia Fina e a Fernão Pires, com menor expressão, mas igualmente úteis para finalização e aperfeiçoamento dos lotes.
À semelhança de outras regiões, Trás-os-Montes também padece do fenómeno de diminuição substancial da área total de vinha. Os fatores são diversos. Entre eles constam os transversais ao território nacional, como a falta de mão-de-obra, o exponencial aumento dos custos de produção, bem como o envelhecimento dos agricultores e a falta de motivação das mais novas gerações, que não olham para a cultura da vinha como uma atividade aliciante. As dificuldades por que têm passado as adegas cooperativas também não são despiciendas, nomeadamente na falta de dinamismo e incapacidade para uma gestão mais avisada, levando os pequenos viticultores a uma situação de insegurança e desconfiança.
Vinhas antigas
O genoma de Trás-os-Montes não pode ser dissociado do riquíssimo património vitícola ali existente. As vinhas velhas são e podem vir a ser o fator determinante para a afirmação dos vinhos da região no país e, até mesmo, fora de portas. Ana Alves, refere que a comissão faz um esforço onde cabe o lado emotivo e de sensibilização dos agricultores na preservação dos vinhedos antigos, dando-lhes conta da mais-valia que os mesmos podem originar, uma vez que tudo o que é singular, terá maior aptidão a ser valorizado, não obstante o menor rendimento que essas mesmas vinhas dão origem. A viabilidade deste património passa pelo posicionamento dos vinhos de vinhas velhas num patamar de preço mais elevado, desde que isso também se traduza na valorização da uva no produtor. Felizmente, é um fator já há vários anos considerado, pelos principais produtores engarrafadores, como alavanca de valorização do património e, por via disso, da própria região. Das três sub-regiões, é no Planalto Mirandês que a política de valorização dos vinhedos mais antigos é mais premente, pelo facto de ser nesse território onde estão as maiores manchas de vinhas velhas e onde também há um maior número de castas autóctones, que as transformam num verdadeiro tesouro histórico da região. Falta, no entanto, a ousadia de valorizar o produto que se coloca no mercado, vencendo, sem pudor, um certo estigma que a região ainda não ultrapassou.
Para Amílcar Salgado (Quinta de Arcossó), a Tinta Amarela, em Trás-os-Montes, é uma casta que vale pelas suas características e pela perfeita adaptação ao território da região, tendo como mais-valia não necessitar de qualquer correção, revelando sempre teor alcoólico e acidez em perfeito equilíbrio. Será, para a Quinta de Arcossó, a casta que melhor se afirma no contexto da região e aquela que melhor identidade de terroir expressa, graças aos seus herbáceos conjugados com a fruta límpida, sendo sempre desafiante e arrojada. Fruto da sua rebentação mais tardia, é muito menos propensa ao desenvolvimento de doenças. É uma casta que desde sempre existiu na Quinta do Arcossó, sendo intemporais as vinhas, uma vez que não há qualquer registo das suas datas de plantação.
Rui Cunha, enólogo com profundo conhecimento de Trás-os-Montes, onde, há 29 anos, trabalha com Valle Pradinhos, enaltece igualmente as virtudes da Tinta Amarela na região. Porém, alerta para a enorme diversidade de clones da casta, predominando os mais produtivos, que são totalmente díspares das características desta variedade em vinha velha. Em Valle Pradinhos, o trabalho desenvolvido tem incidido na busca de vinhas velhas, uma vez que a enxertia não se mostra qualitativamente interessante, dadas as características da maioria dos clones disponíveis.
A mancha de vinha velha na região também diverge de uma sub-região para outra. O Planalto Mirandês, por exemplo, possui manchas de pequena dimensão, mas de elevado valor, com a Tinta Gorda a dominar. As maiores manchas, nas duas outras sub-regiões, possuem mais diversidade de castas, brancas e tintas, que permitem criar, por exemplo, vinho palhete, muito em voga nas tendências de consumo contemporâneas. Para Rui Cunha, a via de afirmação com uma identidade própria e singular tem de se alhear do Douro, como tem feito, insistindo na plantação de Touriga Nacional e Touriga Francesa, por forma a determinar o próprio caminho através da recuperação das castas mais típicas deste território e abandonar a produção de vinhos ao estilo do Douro, concentrados, alcoólicos e com muita expressão da madeira. Trás-os-Montes ainda insiste nesta mimética e essa linha não é, certamente, a identidade desta região, nem aquilo que o mercado hoje procura.
Lagares rupestres
A narrativa de Trás-os-Montes não pode ignorar o vasto número de lagares rupestres, muitos deles datados da ocupação romana e ainda existentes no território. É um dos vetores no modo como se pretende promover a região, percebendo-se que são uma evidente mais-valia. Para tal, desenvolveu-se um trabalho que incide neste legado ancestral, sobretudo no concelho de Valpaços, onde existem 113 lagares rupestres identificados.
Preservando uma riqueza arqueológica e cultural de enorme relevância, a comissão vitivinícola procurou meios para dinamizar estes achados, colocando essa identidade num vinho único que está a ser feito em Trás-os-Montes. Junto do Instituto da Vinha e do Vinho, certificou-se uma metodologia ancestral, que passa pela identificação prévia de vinhas velhas, comprovadamente com mais de 40 anos, sendo obrigatório que as massas vínicas sejam daí provenientes. De acordo com a regulamentação aprovada, as uvas são pisadas ou prensadas num dos lagares rupestres devidamente certificado e que conste no cadastro existente na Comissão Vitivinícola Regional, sendo vedada a utilização de qualquer solução enológica, com exceção do sulfuroso, de modo a tentar produzir um vinho que, teoricamente, é semelhante àqueles que ali teriam sido feitos há mais de 2000 anos.
A certificação de vinhos de lagares rupestres é algo inédito em Portugal e, julga-se, em todo o mundo. Atualmente, Trás-os-Montes já possui três produtores a certificar vinhos elaborados em lagares rupestres – Quinta do Salvante (Torcolarium), Sociedade Agrícola O Ferrador (Flandório Vinho de Lagar Rupestre) e Junta de Freguesia de Vale de Telhas (Pinetum) – e, dado o manifesto interesse de outros produtores, crê-se que, em breve, outros surgirão.
Provar Trás-os-Montes
Promoção e valorização são as bandeiras que a Comissão Vitivinícola Regional mais ergueu neste primeiro mandato, traduzidas em iniciativas de cariz regional, nacional e internacional. No âmbito de proximidade, desenvolveu-se o projeto que pretende implementar, na restauração da região, uma carta de vinhos “Eu provo Trás-os-Montes”, com o propósito de impulsionar uma maior apetência para servir vinhos certificados da região, em espaços onde a presença dos vinhos locais ainda é deficitária, colmatando-se a lacuna e valorizando a gastronomia local. Estranhamente, a restauração e a hotelaria da região ainda estão um pouco de costas voltadas aos vinhos de Trás-os-Montes. E, se à semelhança do que se passa, por exemplo, na região do Algarve, a hotelaria e a restauração deste território tivessem maior sensibilidade, apostando de forma veemente no consumo deste produto da região, garantidamente que os problemas de escoamento seriam ultrapassados.
Para aderir a este projeto, cada restaurante terá de possuir um mínimo de 10 referências de, pelo menos, cinco produtores de Trás-os-Montes. Cumpridos os requisitos, a comissão vitivinícola faculta as cartas físicas, os estabelecimentos passam a constar do site desta entidade regional. Por sua vez, cada um ostentará um selo que atesta ser um dos aderentes a este projeto de alavancagem dos vinhos da região, fomentando uma rede mobilizadora. O intuito é, já em 2026, ter esta medida totalmente implementada. No âmbito deste projeto, estão desenhadas ações de formação junto dos aderentes, que terão por base análise sensorial, serviço de vinhos e informação sobre castas e vinificação.
As ações a nível nacional também têm sido diversas no último ano, desenvolvendo-se através da participação dos produtores, tendo em conta a dimensão, perfil e estratégia de cada um, dando-os a conhecer a profissionais, canais de distribuição e consumidores finais. O “Eu provo Trás-os-Montes” já viajou por Lisboa, Porto e Algarve, com a finalidade de procurar uma implantação forte nos mais relevantes mercados do território nacional. A aceitação foi uma absoluta surpresa, nomeadamente no Algarve, onde os vinhos de Trás-os-Montes eram ainda desconhecidos, tendo a iniciativa aberto a porta a vários produtores, com a vertente negocial deste projeto a começar a dar bons frutos. A nível internacional, as iniciativas passaram pelo Brasil, com sete produtores, sendo este o mercado mais importante nas exportações de Trás-os-Montes, dando continuidade a um trabalho que teve um interregno, voltando agora a ser retomado.
A exportação ainda está num estado incipiente, representando apenas 17% do volume da produção. A Prowein Brasil e a Vinhos e Sabores, em São Paulo e Rio de Janeiro, foram os destinos da iniciativa com registos muito positivos em relação à região.
Não há como não valorizar o terroir, assumido como território, solos, castas, orografia, costumes, práticas e, naturalmente, as gentes
O enoturismo como alavanca
No que concerne ao enoturismo, e à sua preponderância como elemento determinante na faturação dos produtores, há todo um longo caminho a percorrer, com uma importância ainda residual. Neste momento, há uma tarefa de consciencialização do produtor para o valor que representa o enoturismo como fator de alavancagem da atividade. É visível uma ligeira adaptação por parte de um número ainda muito pequeno de produtores que já procuram afirmar o bem receber, o qual se traduz num volume assinalável de vendas à porta da adega, através da estruturação de programas e valências, visitas às vinhas, entre outras experiências, como passar o dia com enólogo, fazer o próprio lote e jantares vínicos. Apesar do valor ainda incipiente, acredita-se que esteja a crescer.
Exemplar tem sido o trabalho da Quinta das Corriças, do Pedra Pura Resort e de Valle de Passos, que se distinguem por possuírem a componente dormida nos programas para visitantes. Sente-se que faltam criar mecanismos de união, através de uma rota de turismo que congregue cada umas destas experiências, de modo a gerar dimensão e valor. Não existindo uma rota vendável, prevê-se, para 2026 e 2027, um plano, no âmbito de medidas de financiamento, vocacionado para o enoturismo e para a região norte, numa candidatura conjunta, que terá o intuito de formalizar a criação de uma Rota de Trás-os-Montes integrada na Grande Rota dos Vinhos e do Enoturismo do Norte. Informalmente, esta já possui cinco aderentes: Arcossó, Casa do Joa, Quinta das Corriças, Encostas de Sonim e Casa Grande do Seixo.
Se muito há para lapidar neste território, que tudo parece ter, nota-se que há uma vontade férrea de elevar esta região. Pelo pouco que vimos, há um trabalho intenso que, compensando oportunidades perdidas, augura, agora, algo absolutamente brilhante para Trás-os-Montes, ansiosa para ser descoberta e explorada.
A Tinta Amarela é, em termos absolutos, a casta mais plantada na região, e se falarmos de vinhas velhas, esta casta é sempre a que predomina, mesmo nestas mais antigas
Trás-os-Montes em Lisboa
No seguimento da segunda edição do Trás-os-Montes Wine Experience, 10 produtores deste território vitivinícola marcaram presença no restaurante O Nobre, em Lisboa, para Prova & Jantar a Quatro Mãos, em que a chef Justa Nobre, da casa, convidou Óscar e António Geadas, respetivamente, chef o escanção do restaurante G, da Pousada de Bragança. Objetivo? Dar mais visibilidade à região. Na lista de participantes constaram os projetos Casa José Pedro, Casa do Joa, Flandório, José Preto, Ninho da Pita, Quinta do Salvante, Quinta Serra D’Oura, Villela Seca, Vinho dos Mortos e Vinhas Velhas Mogadouro. “Abrimos o convite a todos os produtores, com o critério de virem a Lisboa os primeiros inscritos”, justificou Ana Alves, que refere a existência de “110 agentes económicos a produzir vinho e 120 marcas no mercado”.
Sobre o território, “uma manta de retalhos de paisagem e de vinhas”, com uma área total de 9.000 hectares, está ocupada por vinhas antigas, a presidente de Comissão Vitivinícola Regional de Trás-os-Montes frisou: “a região faz-se a partir de todos estes projetos, desta diversidade de produtores de vinhos identitários.” E acrescenta “o potencial para a produção de vinhos biológicos”, favorecido pela altitude e pelo clima rigoroso: invernos muito frios e verões muito quentes.
Além do vinho, à mesa fizeram furor a dezena de produtos DOP e IGP Trás-os-Montes: alheira de Mirandela, salpicão de Vinhais, azeitonas ou alcaparras, pão, queijo, azeite, castanhas, cuscus de Vinhais, porco de raça Bísara e amêndoas. Uma parte protagonizou os pratos dos chefs Justa Nobre e Óscar Geadas, entre receitas de infância e as origens de uma cozinha de família.







