João Tique há muito que cultiva uma relação, direta e indiretamente, com o vinho. Inicialmente, através da indústria de preparação da cortiça e, mais tarde, o sector da distribuição, em Macau. O fascínio pelo mercado asiático determinou a criação da empresa Portuguese Topwines, com o objetivo de levar, para outras latitudes, vinhos produzidos. No âmbito deste negócio lidou, ao longo de alguns anos, com diversas especificidades, como seleção de referências vínicas nacionais, logística, fichas técnicas, compra e venda, e feiras internacionais em Hong Kong, Tóquio, Singapura e Xangai, em prol da produção nacional e com a audácia de colocar de parte o chamado mercado da saudade.
Ao regressar definitivamente ao Alentejo, João Tique decide avançar, em 2019, com o projeto próprio associado ao vinho produzido “como antigamente”, expressão repetida vezes sem conta. A comercialização começou um ano depois. São “vinhos que não se repetem”, garante, assumindo-se como o responsável pelas funções de viticultor de cinco hectares de vinha na Casa do Governador, na Quinta Alta da Queimada, propriedade localizado a norte da cidade de Évora. A composição varietal restringe-se a apenas três castas tintas: Alicante Bouschet, Syrah e Petit Verdot. “Ali só se consegue trabalhar à mão”, continua o produtor, referindo-se às tarefas que envolvem este pedaço de terra, no qual não entram herbicidas. A vindima decorre em outubro, à semelhança do que se fazia outrora. A finalidade consiste em “salvaguardar a qualidade e garantir a longevidade do vinho”, enaltece.
Produto de luxo
A vinificação das uvas tem lugar na Quinta da Plansel, produtor vitivinícola localizado no concelho de Montemor-o-Novo, distrito de Évora. É feita “sem leveduras selecionadas, sem sulfuroso na fermentação e sem correções de acidez ou de cor”, com o intuito de cada vinho deixar transparecer “a expressão mais honesta da terra e do tempo”, declara João Tique, que assegura a própria enologia. “Fui aprendendo a fazer vinho de maneira artesanal”, revela, com os ensinamentos transmitidos pelo Professor Francisco Colaço do Rosário, figura incontornável no mundo dos vinhos alentejanos.
Tratando-se de um projeto pequeno, a produção divide-se num trio de referências, com nomes em latim, em homenagem à era romana da cidade de Évora: Suavis, Bellus e Cultus. O primeiro é atribuído a “vinhos simples, consensuais”, enquanto o segundo é dado aos que se querem “memoráveis”. A produção de ambos restringe-se às cubas de inox, uma vez que João Tique prefere “defender a pureza” das castas. Já os Cultus “primam pela finesse. Têm lá tudo e em nada são exagerados”, esclarece o produtor, e, como “antigamente, as barricas eram utilizadas em vinhos excecionais”, o uso destas é igualmente limitado a esta terceira gama. A produção anual varia muito e a maior de todas foi de 3.000 garrafas.
Mas vamos por partes, até porque a prova realizada num reconhecido restaurante em Lisboa incluiu as gamas Bellus e Cultus. Na degustação entrou o Bellus branco 2024, um DOC Alentejo de curtimenta feito a partir “das uvas do ti João Menino” vindimadas numa vinha de 60 anos, localizada no Redondo. “Tem tudo a ver com os vinhos alentejanos de antigamente”, frisa João Tique. O Bellus Petit Verdot rosé 2024, com uma cor reveladora de grande extração pelicular, também foi incluído na prova, assim como o Bellus tinto 2023, o Bellus Alicante Bouschet tinto 2023, o mais consensual, e o Bellus Syrah tinto 2024, com os taninos ainda bem presentes. Para finalizar, houve o Cultus Grande Reserva Petit Verdot tinto 2021, vinho engarrafado em 2025.
Para João Tique, os vinhos “são um produto de luxo” e “só devem entrar no mercado quando estão no ponto”. Eis os motivos pelos quais se foca, sobretudo, na restauração, mais concretamente em mais de 150 restaurantes do país. O fornecimento é feito por via direta em aproximadamente 90% dos casos.
(Artigo publicado na edição de Março de 2026)









