PAÇO DOS CUNHAS: Vinhos de um terroir histórico

Legenda da foto: A Vinha do Contador tem sete hectares e está situada a uma altitude média de 400 metros

As colheitas mais recentes do icónico Paço dos Cunhas, da Global Wines, as quais já se encontram disponíveis no mercado, foram apresentadas no Bairro Alto Hotel, em Lisboa. Trata-se de um branco de 2017, que ostenta a designação Dão Nobre, a de prestígio desta denominação, e um tinto de 2015. Ambos têm como origem a Vinha do Contador, mostram as características distintivas e refletem a qualidade habitual da marca. No evento, também foi lançada uma nova referência, o tinto Clos de Santar de 2020, que sairá dos anos de vindima em que as uvas não tiverem as características para originar a primeira marca. A explicação dos vinhos coube a Paulo Prior, bairradino natural do concelho de Cantanhede e Director de Enologia da Global Wines.

Quatro séculos de história

Descendente de pessoas ligadas à terra e à vinha, Paulo Prior começou o seu percurso profissional em 1995, no Instituto da Vinha e do Vinho. Cinco anos depois, mudou-se para a Sogrape, onde permaneceu até 2024, ano em que assumiu funções de Director de Enologia da Global Wines, grupo que detém o Paço dos Cunhas. Esta propriedade inclui um edifício histórico na vila de Santar, no concelho de Nelas, erguido, em 1609, por iniciativa de D. Pedro da Cunha, que aproveitou algumas estruturas do século XV, de um paço medieval anterior.

Segundo dados históricos, o seu segundo filho, D. Lopo da Cunha, partidário da coroa espanhola, fugiu para Espanha em 1641. Participou, inclusive, numa conspiração contra o rei D. João IV, o primeiro monarca português da pós-restauração, o que determinou a confiscação dos seus bens, o desterro em Espanha e, consequentemente, o abandono e início da ruína do Paço dos Cunhas. De tal forma, que o edifício era pouco mais do que um amontoado de pedras quando a empresa, que deu origem à Global Wines, comprou, em 2003, o Paço dos Cunhas (até 2018 conhecido por Paço dos Cunhas de Santar, alteração esta que resultou da restruturação da marca, por forma a colocá-la num patamar mais distinto, e para dar início a um novo ciclo na empresa, no contexto da região e além-fronteiras). Este foi posteriormente reconstruído de acordo com a traça original, para se tornar na estrutura actual, que inclui uma loja e um restaurante, onde a gastronomia de inspiração beirã e portuguesa em geral se conjuga com os vinhos da Global Wines. “Tinha uma adega e um lagar, que não são utilizados hoje, já que todas as uvas colhidas na propriedade são vinificadas na adega da Casa de Santar”, afirmou Paulo Prior.

A vinha, a do Contador, tem sete hectares delimitados por estradas e muros em pedra, situados a uma altitude média de 400 metros. Sobre os solos graníticos, encontra-se um field blend das castas tintas Touriga Nacional, Tinta Roriz, Alfrocheiro e Jaen, as quais representam 85% do seu encepamento, e as brancas Encruzado, Malvasia Fina e Cerceal. A vinha, que tem uma média de 30 anos, não foi mudada desde a aquisição da propriedade pela Global Wines e apenas são repostos novos pés no lugar das plantas que morrem. “Tendo em conta todo o histórico da enologia anterior e os dados da viticultura, as uvas de Jaen nunca são usadas para a produção dos vinhos da gama Vinha do Contador”, declarou Paulo Prior, acrescentando que isso se deve ao facto desta variedade ter maturações diferenciadas em relação às restantes castas tintas e um pH que não se adequa ao enquadramento do vinho ao longo estágio, que tem de realizar antes de ser lançado no mercado.

PAÇO DOS CUNHAS
Paulo Prior, Director de enologia da Global Wines

Uma nova marca

Até agora, a gama de vinhos do Paço dos Cunhas Vinha do Contador incluía apenas três referências. Um branco e um tinto lançados apenas em anos especiais, e uma aguardente. Foi este o cenário que Paulo Prior encontrou quando chegou à Global Wines. Entretanto, foi fazendo provas dos stocks feitos a partir de uva vindimada na vinha do Paço dos Cunhas e constatou que havia, entre elas, “um vinho diferente, que não merecia o estatuto de Vinha do Contador, apesar de ter origem nela”, revelou. Em face disso, desafiou a Direcção de Marketing e Vendas da Global Wines e a administração da empresa a provar um vinho “que poderia preencher um vazio”.

Havia, assim, espaço para lançar uma nova marca de vinhos produzidos a partir da mesma vinha e de anos em que as condições não eram as ideais para resultar na referência Vinha do Contador, “mas sim um vinho mais jovem, com outras características, diferenciadas, com qualidade e que não defraudasse a origem, a casa que a produz”, explicou Paulo Prior. Então, ficou decidido avançar com o projecto de criação da nova referência, o Clos de Santar, designação que lembra que a referida vinha está enclausurada, neste caso, entre muros de pedra. Segundo o Director de Enologia, não haverá, no futuro, sobreposição de colheitas entre a marca Clos de Santar e Paço dos Cunhas Vinha do Contador, pois “nunca sairão nos mesmos anos”.

Minimalismo na adega

Das referências apresentadas, o branco de 2015, com a certificação de Dão Nobre dada pela Comissão Vitivinícola Regional do Dão, foi engarrafado em Junho de 2022. Também foi apresentado o Vinho do Contador tinto 2015, engarrafado em Maio de 2022. Para a produção de ambos, foram escolhidas as melhores uvas, porque “é isso que é necessário para originar os melhores vinhos”, reforçou Paulo Prior. Depois, é também preciso “ser minimalista nos trabalhos realizados na adega”, até porque cada movimento tira valor à uva e ao vinho inicial.

“Isso implica fazer as coisas à primeira e nem é preciso usar grandes técnicas”, defende, acrescentando que “o que importa mesmo é ir à vinha, provar as uvas e escolher os bardos, as linhas ou a mancha de vinha, e vinificar com, sem engaço ou apenas com uma percentagem deste nos tintos, sem engaço e com maceração nos brancos, a uma temperatura que varia com a incorporação de oxigénio que se pretenda”. Depois, há que dar tempo ao tempo, provando sempre até sentir que se chega onde se quer que o vinho chegue. As referências provadas mostram que esse é o caminho certo, no caso.

(Artigo publicado na edição de Abril de 2026)

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