SOALHEIRO: De alma regenerada

Hoje, quando chegamos à Soalheiro, percebemos que estamos perante uma empresa que voa positivamente baixinho, de olhos postos na terra, onde tudo começa e se constrói a partir dela. Maria João Cerdeira, quer queira, quer não, é o rosto de uma nova forma de entendimento da criação de vinhos, que não se dissocia, nem por um momento, do sonho inicial dos pais: erguer algo que os fixasse ao lugar que os viu nascer, Melgaço, criando riqueza suficiente para lhes permitir ali permanecer e, ao mesmo tempo, possibilitar que outros como eles fizessem o mesmo.

Em 2018, ano da primeira visita deste vosso cronista à Soalheiro, já ela se colocava, ainda que nos bastidores, na liderança viva e serena de uma equipa em constante movimento. Assumindo a condição, nunca viu na figura feminina uma fragilidade. A educação que lhe foi dada, nunca a limitou por ser mulher, antes lhe deu, desde cedo, muita liberdade aliada à responsabilidade de que tinha de mostrar rigor e muito profissionalismo. Numa casa desde cedo ligada à viticultura, decidiu começar pela medicina veterinária, e com ela cresceu.

Há bem mais de uma década, o pai, João António Cerdeira, pioneiro da plantação de Alvarinho estreme em Melgaço, desafiou-a a coordenar toda a viticultura da família. Desde o princípio, Maria João Cerdeira não desejou procurar outros destinos. Melgaço estava-lhe no sangue e, concluídos os estudos, ali se fixou, diz ela, para todo o sempre. A obstinação e uma elevada consciência ambiental fizeram-na contrapor um outro desafio ao progenitor: assumiria o legado, sob a condição de lhe ser permitido converter todas as vinhas para modo de produção biológico, exigência que, à primeira vista, parecia um contrassenso, conhecendo-se as características da região dos Vinhos Verdes, garantidamente a mais pluviosa de todas as regiões vitivinícolas portuguesas. Contrariamente ao que antevia, a sua proposta foi prontamente aceite por João António Cerdeira, que lhe deu total confiança e liberdade para essa concretização.

Primeiras vinhas

A ousadia da decisão de João António Cerdeira só se estranharia a quem o não conhecesse. Em 1974, foi o responsável e pioneiro pela alteração da paisagem de Melgaço. A vinha de bordadura, sem rentabilidade, foi por ele abandonada e, em seu lugar, faz nascer as chamadas primeiras vinhas de Alvarinho naquele território, à semelhança do que já se fazia na vizinha Monção. A obtenção de um rendimento satisfatório das pequenas parcelas era fundamental para evitar o êxodo migratório, tão comum no início dos anos 70 do século XX.

Já casado, em 1971, com Palmira, João António Cerdeira possuía a firme esperança de que aquela terra havia de lhes garantir o futuro. No ano da revolução, inicia a sua própria. As terras de milho minguavam as gentes. Ali, à beira de casa, numa parcela que os antigos chamavam de Soalheiro, ergueu esteios de cimento, rodeando, cada um deles, de seis pequenas videiras atadas aos postes. Da vizinhança, apenas se observava a plantação de postes que se assemelhavam a cruzes, uma bizarria que motivava conversas jocosas por parte dos agricultores manietados pelos antigos costumes do empobrecimento com alegria. Volvidos quatro anos, a vinha florescia e produzia abundantemente, permitindo à família Cerdeira obter um pecúlio significativo com a venda de uva à Adega de Monção. Parte desta matéria-prima era guardada para as experiências de vinificação de João António Cerdeira, enólogo por autodidatismo e empirismo herdado dos seus pais. O sucesso evidente, converte a outrora vizinhança reticente que, mimetizando as práticas do pioneiro, pintam as suas pequenas parcelas do verdejante Alvarinho, começando ali a alteração da paisagem de Melgaço.

A garagem foi, a partir de 1978, o centro de vinificação. Em 1982, nasce a marca Soalheiro e os primeiros vinhos rotulados da casa. À primeira vinha, poucos metros abaixo da residência familiar, o casal vai, por herança familiar e aquisição, agregando parcelas adjacentes e a Soalheiro vai crescendo, mantendo a raiz na casa de família, entretanto convertida em adega.

Quando, em 2004, Maria João Cerdeira assume a viticultura, o processo de conversão inicia-se imediatamente. O conhecimento, porém, ainda era limitado, e, sentindo essa necessidade de adquirir a vertente científica que lhe permitisse apreender os porquês da natureza, embrenha-se na especialização académica em viticultura biológica, regenerativa e biodinâmica. Nesse processo, certificado em 2006, há todo um pragmatismo de levar a ciência à terra. As vicissitudes do clima do Alto Minho não se compadecem com romantismo absoluto. Desde logo, criam-se protocolos rigorosos e métodos de atuação, que passaram pela criação de estações meteorológicas e modelos de controlo de pragas. O rendilhado dos 18 hectares de pequenas parcelas detidas pela Soalheiro, somado às cerca de 700 outras parcelas, num total de 100 hectares, que integram o total de vinhas controladas pela empresa, determinam um nível de profissionalismo imenso, ainda que os trabalhos de maior exigência, inovação, experimentalismo e, também, maior risco, sejam exclusivamente realizados nas vinhas próprias da empresa. Se a inovação tem um custo, é assumido exclusivamente pela casa. Para os produtores de uva fica a preocupação com a rentabilidade, fator essencial de sustentabilidade humana do território e fórmula exata para evitar o seu abandono.

Miguel Alves é o responsável de viticultura e coordenador dos viticultores do Clube dos Produtores, traduzido em 200 as famílias que o integram e produzem as uvas do universo Soalheiro

 

O clima e a importância dos solos

O microclima associado à Soalheiro é, de certo modo, transversal a todo o vale do rio Minho. As parcelas exploradas vão mais além e estendem-se por mais dois vales, os dos rios Mouro e Gadanho. O clima, notoriamente continental e pluvioso, é complexo e exige conhecimento científico apurado, conjugado com capacidade de atuação rápida e eficaz. Os solos variam de composição do vale para as cotas mais elevadas: no vale predominam os franco-arenosos, de elevada fertilidade, na altitude, dão lugar ao granito.

Os solos e a sua diversidade são a paixão maior de Maria João Cerdeira. As vinhas do vale, da qual as Primeiras Vinhas são exemplo, caracterizam-se por uma vegetação permanente de suporte de vida e sanidade da videira. Um olhar atento rente ao chão permite observar azevém, língua-de-ovelha e dente-de-leão (sinal de compactação dos solos), hortelã (revelador de um pH ácido e solo fértil e húmido), aveia selvagem…

A interpretação dos solos, a sua composição, compactação ou teor de humidade são analisados por Maria João Cerdeira por mera visualização das plantas que espontaneamente ali brotam. Reconhece-se, por confirmação igualmente científica, que a videira beneficia da biodiversidade e a sua correta interpretação e preservação permite aumentar o seu tempo médio de vida, que, com cargas elevadas, pode esgotar-se ao fim de duas décadas. Por conseguinte, há que intervir apenas e só se for necessário. Qualquer ação mais agressiva, encurta substancialmente a vida de uma videira e pode ter consequências graves no ecossistema. O conhecimento é fundamental neste novo paradigma da sub-região que, no espaço de 50 anos, assistiu a uma mudança tremenda na paisagem, outrora ocupada por sementeiras e, atualmente, ocupada quase na totalidade por vinha.

 

Clube dos Produtores

Subindo a uma das elevações que rodeiam o vale, é possível ver parte da manta de retalhos tricotada a diversos tons de verde. Ali se encontram parte das parcelas de vinhas do Clube dos Viticultores, uma associação informal constituída por cavalheiros, viticultores, imbuídos de um espírito comum que, empiricamente, trilha todos os requisitos da agricultura regenerativa, aquela que acima da sustentabilidade, melhora o ecossistema envolvente. Ali não há solos nus. A Alvarinho ainda é um bom negócio, produzindo por hectare uma média de oito a dez mil quilos.

O Clube dos Viticultores foi idealizado por João António Cerdeira nos idos anos 80 e, volvidos mais de 40 anos, vem crescendo. São 200 as famílias que dele fazem parte e produzem as uvas do universo Soalheiro, o que mostra a dimensão social de um projeto cuja sustentabilidade só é possível pela rentabilização da atividade. A Alvarinho é, provavelmente, a uva mais bem paga no território nacional continental. Em 2025, a Soalheiro pagou 1,30 euros por cada quilo de uva que entrou na adega. E é nessa relação de respeito e compromisso que se sustenta o conceito do referido clube, valorizando-se a exclusividade e a diferenciação, em que a Vinha Velha é superiormente remunerada. Estas práticas têm permitido não só que não haja abandono das terras, mas também contribuem para que a área de plantio da vinha de Alvarinho tenha aumentado em Melgaço.

A importância do Clube dos Viticultores foi recentemente imortalizada num livro editado pela Soalheiro, dando rosto aos 200 viticultores que preenchem esta comunidade coesa de dignificação de um território valiosíssimo.

Projeto Germinar

É neste contexto social que germinam projetos integradores. Germinar é o projeto que nasce em 2019, no Clube de Produtores, com o associado viticultor António Matos, cujas vinhas se encontram no sopé do Monte de Faro, já fora da sub-região de Monção e Melgaço. Neste projeto de solidariedade social, a Alvarinho é preterida em nome da Loureiro, casta que melhor vinga fora desta sub-região.

António Matos abandonou a carreira como assistente social para se dedicar à viticultura. Porém, o altruísmo, a vontade de recuperar pessoas com adições, fá-lo abraçar, com a Soalheiro, este projeto de reabilitação humana e integração, onde o trabalho na viticultura surge como o paliativo recuperador. Hoje, o Germinar, financiado pela Soalheiro, conta com quatro participantes que vencem os fantasmas do dia a dia junto das vinhas das quais nasceu o vinho homónimo.

 

Vinhas de altitude

Quando entramos na moderna adega da Soalheiro, somos levados a observar uma maquete que simula a visão aérea de todo o território da região. A orografia é diversa e as vinhas dispõem-se pelas variadas altitudes, entre as mais próximas dos rios até às mais inóspitas altitudes, dissemelhança que obriga uma metodologia precisa e presença constante da equipa de vitivinicultura da empresa. Com vinhas no vale e em altitude, os tempos de maturação divergem muito de parcela para parcela e a marcação de vindimas requer uma planificação perfeita num puzzle de pequenos retalhos, cada qual com a sua personalidade e temperamento.

No Soalheiro Clássico, trabalha-se com uvas oriundas do Vale e de Altitude, variando a percentagem de um e de outro em cada colheita, no sentido de manter uma homogeneidade no perfil. Subindo do vale para as montanhas adjacentes, a partir dos 300 até aos 500 metros de altitude, encontramos as parcelas destinadas ao Granit. Solos mais pobres, totalmente o oposto dos vales férteis do Minho, que tendem a conferir aos vinhos uma perceção de maior seriedade, mineralidade e tensão. Maior acidez e pH mais baixo é comum nestes vinhos. Os atuais limites de 500 metros de altitude serão, a breve trecho, alterados. As alterações climáticas criam desafios e o futuro está a ser salvaguardado com experimentações.

Saindo do vale do rio Minho para o vale do rio Mouro, a paisagem modifica-se e, nas cotas altas, a vinha desaparece do olhar, subsistindo o mato rasteiro e a forragem que alimenta os bovinos de raça Cachena e os equídeos de raça Garrana que por ali vagueiam em liberdade.

O campo experimental

A Vinha da Branda da Abeleira é um verdadeiro desafio aos limites da viticultura e, por isso mesmo, é assumida integralmente pela Soalheiro. A cultura da vinha busca agora a intromissão nos territórios da transumância das brandas (residências de altitude dos pastores, ocupadas durante a primavera e o verão) e inverneiras (habitação dos pastores localizadas nas cotas mais baixas e ocupadas durante o rigor do inverno).

A Vinha da Branda da Abeleira é um campo experimental situado a 1100 metros de altitude, que, por ora, não projeta a produção convencional de uva. Estamos perante uma vinha que visa aprofundar o conhecimento e a resistência da Alvarinho em cotas muito elevadas, numa parcela sujeita a todos os rigores das estações do ano, sobretudo dos invernos gélidos, que transforma a vinha num manto branco de neve.

Motivada pelas notórias alterações climáticas, a Branda da Abeleira foi plantada há sete anos. Tem permitido demonstrar diversas conclusões a nível das amplitudes térmicas, perceção dos solos, sua composição xistosa e granítica e mutações microbiológicas, que levaram a algumas intervenções nos solos. Atualmente, volvida uma primeira fase, existe já conhecimento que, por exemplo, conduziu a uma multiplicação de microrganismos que podem auxiliar à sobrevivência da videira em condições extremas.

Miguel Alves é o responsável de viticultura e o maestro que coordena os viticultores do Clube dos Produtores. O semblante mostra que as alterações climáticas são uma evidência que urge assumir. Durante o ano, os dias com picos de calor têm aumentado substancialmente, com impacto significativo no ciclo vegetativo da planta. Portanto, a Vinha da Branda é já um reflexo de antecipação do futuro, promovendo o conhecimento sobre o comportamento da videira em cotas onde jamais foi plantada.

Asun Caballo e a cave de inovação  

Regressados à adega, encontramos Asun Caballo, a enóloga que, após vaguear   pela Bodegas Gramona, Valdeorras, Chile, aportou na Soalheiro há quase sete anos e por lá permanece. Na verdade, Asun Caballo é quase vizinha. Mora numa povoação galega do outro lado do rio Minho, donde, do terraço de casa, avista a Soalheiro. Os estudos foram concluídos em Tarragona, porém, a uva e o vinho fazem parte da tradição familiar, pois os pais, desde sempre, produziram e venderam uva, tendo também raízes pesqueiras, tal qual como a família Cerdeira.

A filosofia de criação de vinhos de baixa intervenção, fá-la comungar em pleno com Maria João Cerdeira. Mais do que a intervenção, valoriza-se a possibilidade do experimentalismo na adega e na Cave de Inovação, na multiplicidade de vasilhame usado – recipientes de diversos formatos e composições, entre foudres, barricas de carvalho francês, novas e usadas, tonéis de castanho muito velhos, ovos e cubas de cimento, ânforas, vidro. Nesta cave, tudo é permitido em nome do processo criativo, plasticidade e exploração dos limites da Alvarinho, se é que existem. Um dos desafios mais recentes passa pela recuperação das barricas originais da Soalheiro, as relíquias de castanho onde tudo começou. Encontradas numa casa nas vizinhanças, estão agora a ser recuperadas, por forma a replicar uma espécie de pecado original da empresa.

Mosto Flor, vinho da equipa Soalheiro, elaborado normalmente a partir de vinhas velhas em cotas mais elevadas, Terra Mater, onde o cimento surge incorporado num vinho que, para a enóloga, tão bem define o vale de Monção e Melgaço, espumantes que, na Soalheiro, existem desde 1995, sendo o primeiro elaborado pelo Método Clássico, exclusivamente de uva Alvarinho, produzido na Península Ibérica, ou os vibrantes Pet-Nat, que buscam palatos mais joviais, são alguns dos projetos-exemplo que brotam na cave do Soalheiro.

No fim, e com muito ainda por dizer, fica a ideia de um Soalheiro como expressão genuína de um ecossistema, de uma comunidade de raízes, sotaque e valores num território que se regenera através de um coletivo. Mais de 40 colaboradores, 200 famílias de viticultores reunidas numa comunhão de preservação.

(Artigo publicado na edição de Julho de 2026)

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