“O que é que a baiana tem? / O que é que a baiana tem? / Tem torso de seda tem (Tem) / Tem brinco de ouro tem (Tem) / Colares de ouro tem (Tem) / Tem bata rendada tem (Tem)…”
Todos nós temos esta canção popular brasileira no nosso universo de memórias, celebrizada pela artista Carmen Miranda e interpretada, pela primeira vez, no filme Banana da Terra, em 1939. Memórias sim, mas só de ver na televisão, diga-se, uma vez que não sou assim tão antigo. Além de descrever a vestimenta da mulher baiana, a canção celebra e exalta o seu charme e graça naturais, reflectindo a alegria e a vivacidade da cultura baiana. Pois, alegria, vivacidade e algum charme, e graça naturais são precisamente características que podemos encontrar nos vinhos da Beira. Então, o que é que esta região tem?
Sobre este território
Foquemo-nos na Beira Interior, mais precisamente. É território raiano localizado no centro de Portugal Continental, destacando-se como a nossa região vitivinícola mais alta, com as suas vinhas plantadas entre os 350 e os 750 metros de altitude. Divide-se em três sub-regiões. A saber: Pinhel, com os concelhos de Pinhel, Meda, Trancoso e Celorico da Beira, que se distinguindo pelas altitudes elevadas e clima continental; Castelo Rodrigo, situada no planalto de Figueira de Castelo Rodrigo e áreas envolventes, a qual abrange os municípios de Figueira de Castelo Rodrigo e Almeida, e beneficia de amplitudes térmicas significativas; e, por último, Cova da Beira, influenciada pelo clima mediterrânico em contexto de vinhas de altitude, contemplando os municípios de Manteigas, Belmonte, Covilhã, Penamacor, Fundão e Castelo Branco.
O território vitivinícola é moldado por quatro serras – da Marofa, da Malcata, da Gardunha e parte da Estrela – em conjunto com os rios que a delimitam – Côa e Águeda, a Norte, Tejo e Zêzere, a Sul. Com um clima continental caracterizado por invernos longos e verões secos, a região beneficia de grandes amplitudes térmicas, factor determinante para a preservação da acidez das uvas, as quais, por sua vez, contribuem para o desenvolvimento dos aromas. A altitude elevada promove uma maturação gradual dos frutos, favorecendo o equilíbrio e a frescura dos vinhos. Todos estas variantes, juntamente com os solos predominantemente graníticos, embora também haja zonas de xisto e quartzito, fomentam a identidade dos vinhos produzidos na região.
Adicionalmente, a Beira Interior reúne condições favoráveis às práticas vitícolas sustentáveis. A altitude e o clima geralmente seco contribuem para uma menor pressão de doenças criptogâmicas (míldio, oídio, botrytis, etc.) na vinha, reduzindo, em muitos casos, a necessidade de intervenções fitossanitárias. Estas características, aliadas a uma gestão adequada da vinha, favorecem abordagens de produção de menor impacto ambiental.
Em suma, a Beira Interior é uma das regiões vitivinícolas portuguesas com maior área de vinha certificada em modo de produção biológica. Esta aposta em práticas vitícolas mais sustentáveis tem vindo a reforçar o posicionamento da Beira Interior entre as regiões nacioanais que apostam numa gestão firme no que aos recursos naturais diz respeito.
Porém, o vinho não se faz sozinho, não, e a Inteligência Artificial, por enquanto, também ainda não o produz. São precisas pessoas. E a Beira Interior muito tem sido construída por pessoas e projectos que, diariamente, dão expressão aos seus vinhos e são reconhecidos como embaixadores de um património vitivinícola profundamente enraizado, reflectindo uma identidade plural, desde pequenas produções artesanais a grandes estruturas cooperativas. Passando por marcas estabelecidas e novos projectos de vanguarda, todos partilham um compromisso com a excelência e a valorização do território.
Os 15 hectares de vinhas incluem a Quinta Vale Ruivo, com cerca de dez hectares de vinhas quase centenárias
Casas Altas, o fulgor de José Madeira Afonso
Casas Altas é o nome do projecto pessoal do médico e viticultor José Madeira Afonso, nascido em Coimbra, mas com raízes profundas em Souropires, no concelho de Pinhel, Beira Alta, onde a sua família habita há, pelo menos, oito gerações. Desde muito cedo se apaixonou pela freguesia ligada às suas origens, onde passava longos períodos na casa da avó materna. O fascínio pela vida no campo levou-o a matricular-se na Escola de Regentes Agrícolas de Coimbra, onde concluiu o curso aos 18 anos. Posteriormente, estudou Medicina – a sua outra paixão – e licenciou-se em 1974.
Por motivos profissionais, viveu durante três anos em Bergen, na Noruega, onde descobriu os encantos do vinho, graças ao tempo que partilhou com grandes conhecedores, que estudavam e provavam o melhor que se produzia no mundo. As viagens e férias em Bordéus, na Borgonha, na Alsácia, no Mosel ou na Toscana tornaram-se naturais, frequentes e irresistíveis.
No início da década de 1990, concretizou o sonho de plantar vinhas em Souropires, construir uma adega moderna e produzir o próprio vinho – esta última acção ocorre desde 1994. Trata-se do projecto Casas Altas, ao qual se dedica actualmente, já reformado, valorizando as castas autóctones da região, nos seus 15 hectares de vinhas distribuídas por várias parcelas, incluindo a Quinta Vale Ruivo com cerca de dez hectares de vinhas quase centenárias.
As castas dominantes são Rufete, Baga, e Touriga Nacional, nas tintas; Síria, Fonte Cal e Arinto, nas brancas. Uma vez que a Borgonha e o Mosel são as regiões internacionais que ficaram na memória e no coração do ‘Doutor’, existem duas pequenas parcelas com as castas Chardonnay e Riesling. Ambas resultam em vinhos absolutamente extraordinários, deixem que vos diga – não é que sejam melhores que um Premier Cru na Borgonha ou um VDP Grossen Lage do Mosel, não, nunca vão ser, nem na Beira nem em qualquer outro lado do mundo se consegue replicar aquilo que estas duas castas produzem naquelas regiões; são produções únicas –, mas são duas expressões fantásticas da Chardonnay e da Riesling, plantadas em solos de granito e em território português, disso não tenhamos a menor dúvida.
A viticultura é totalmente biológica, com total respeito pelo ambiente, sem fertilizantes químicos, insecticidas ou herbicidas, e – alvíssaras, alvíssaras –, desde a vindima de 2024 que a consultadoria de enologia passou a estar sob a responsabilidade de Nuno Mira do Ó.
Há pouco, acima, falámos sobre Inteligência Artificial, que, quem sabe, um dia, ainda vai fazer vinho. Todavia, há uma coisa que podemos ter a certeza: nunca o vai conseguir provar nem beber. Para o fazer, temos e teremos de ser nós! Assim fizemos aquando da visita às Casas Altas, onde analisámos as novidades ao pormenor. Trataram-se de colheitas disponíveis no mercado, algumas preciosidades, como o Chardonnay de 2004, e amostras de 2024 de Rufete e da vinha centenária do Ruivo, já sob a batuta de Nuno Mira do Ó. Deixem só que vos diga: olhos bem abertos, pois há boas novas verdadeiramente excepcionais a caminho!
Barroca da Malhada, uma quinta histórica
“Em 2021, diante de uma mudança de vida, e finalizando um ciclo de trabalhos ligados à agricultura no Brasil, comecei a ir atrás de um sonho antigo de ter o próprio vinhedo e produzir o próprio vinho. Desde os 20 anos de idade que sou um apaixonado por vinhos, sempre fazendo cursos e procurando degustações e harmonizações, principalmente nas viagens. Assim, em setembro de 2021, em plena pandemia, depois de procurar muito, encontrei a Quinta de Santo Isidro, conhecida também como Barroca da Malhada, uma propriedade histórica. Eu e minha irmã, Luciana Teixeira de Camargo, adquirimos juntos a propriedade, e ela também entrou como sócia no projeto.” Fernando Camargo, coproprietário, é Arquitecto, e isso nota-se quando se visita a propriedade. Tudo tem um sentido estético e uma simetria própria dentro do possível, e tudo está impecavelmente arranjado e conservado.
Com pós-graduação em economia e MBA em e-commerce, também com extensão universitária em Administração Rural, em 2018, já com várias certificações em vinho, fez um curso de Agricultura Biodinâmica no Brasil. Foi precisamente nesse curso que surgiu a ideia de convidar um dos companheiros de classe, Valdir Zanirato, para juntos desenvolverem este projecto de vinho e azeite em Portugal.
As vinhas, plantadas em solos predominantemente argilo-arenosos, são trabalhadas sob práticas de agricultura biológica e biodinâmica.
A Barroca da Malhada é uma quinta histórica da Beira Interior, com origens que remontam à Idade Média, outrora pertencente aos Viscondes de Tinalhas. Integralmente murada em redor, como uma espécie de clos gigante, a propriedade, localizada em Tinalhas, no concelho de Castelo Branco, Beira Baixa, tem vista privilegiada para a Serra da Gardunha. São 17,5 hectares, dos quais cinco são de vinhas e cinco são ocupados por oliveiras. Em 2023, Fábio Fernandes ingressou como o novo enólogo da casa e Joaquim Barbosa, como adegueiro e colaborador.
As vinhas estão plantadas em solos predominantemente argilo-arenosos, com partes de granito decomposto. São trabalhadas de acordo com práticas de agricultura biológica e biodinâmica. Nove variedades estão cultivadas e são colhidas manualmente: Arinto, Fernão Pires, Bical, Touriga Nacional, Trincadeira, Aragonez, Baga, Cabernet Sauvignon e Alicante Bouschet.
A primeira vindima ocorreu em 2021. A produção limitada é de cerca de 3000 garrafas. Cada vinho é elaborado com baixa intervenção, reflectindo o respeito pelo solo, pelas vinhas e pelo tempo, num compromisso entre tradição, autenticidade e sustentabilidade. Hoje, a Barroca da Malhada está em fase de transição para a certificação bio e são produzidas quatro gamas de vinho: Barroca da Malhada (clássica), Dolia (Ânforas), BRQA (vinhos de entrada) e Edição Especial. “São vinhos intensos, estruturados, gastronómicos e muito versáteis” afirma Fernando Camargo. E tem razões para isso.
(Artigo publicado na edição de Julho de 2026)






















