No concelho de Lousada estão inventariadas 22 casas nobres. Em diferente estado de conservação e uso, mas o número é significativo e foi bem estudado e explicado em tese universitária a que tivemos acesso. A Casa de Ronfe está, naturalmente, incluída neste levantamento. Trata-se de uma construção do século XVII, com pedra de armas datada da segunda metade do século XVIII. O estado de conservação é excelente, fruto de restauros vários ao longo do tempo e a sensação que se tem ao entrar é que estamos, de facto, numa vetusta casa submetida a obras, mas em que o “espírito do lugar” se conservou. É mais raro do que se imagina e a família está, por isso, de parabéns.
A ligação às famílias Rosas e Nicolau de Almeida é já muito antiga e aqui, além de local de férias das famílias, também se produziu vinho, com a mesma marca, durante muitos anos. A primeira edição deste Ronfe, cujo rótulo, ajuizadamente, se manteve com o aspecto gráfico original, data de 1935. A recepção que nos estava reservada não poderia ser mais completa: estava o pai João Nicolau de Almeida e os três filhos, Mafalda, João e Mateus. Para o almoço tivemos a companhia de António Leitão e sua mulher, primos de João Nicolau de Almeida. Foi o bisavô dos manos Nicolau de Almeida o adquiridor desta propriedade que, anteriormente, tinha pertencido à família Archer e que a vendeu a José Rosas em 1889. A vinha foi plantada pelo avô e, na época, até castas francesas foram selecionadas; nas nacionais já estava incluída, inesperadamente, dizemos nós, a Touriga Nacional. A vinha sempre incluiu uvas tintas, como Azal Tinto, Padeiro e Alvarelhão.
A ligação aos Nicolau de Almeida está bem patente nos desenhos que Fernando Nicolau de Almeida (para todo o sempre, o “pai” do Barca Velha) aqui deixou, cheios de humor, revelando que, além da enologia, o desenho era uma das suas paixões.
Ainda que estejamos no vale do Sousa, aqui, algo teimosamente e contra a corrente, optou-se por dar destaque à Trajadura
O valor da Trajadura
Ainda que estejamos no vale do Sousa, sub-região dos Vinhos Verdes muito conotada com a casta Arinto, aqui, algo teimosamente e contra a corrente, optou-se por dar destaque à variedade Trajadura. Dizemos teimosamente porque, à pobre da Trajadura, nunca se lhe deu mais valor que não fosse servir de complemento às castas nobres minhotas, fossem elas a Alvarinho ou a Loureiro. Procurava-se, então, que o lado mais gordo e de menor acidez servisse de complemento às castas mais ácidas da região. A forma como aqui foi tratada mostra que a Trajadura pode estar destinada a outros voos.
O nosso passeio começou por uma visita às vinhas que mostraram uma exuberância notável, fruto de muito cuidado, algo que, como se imagina, obriga a muito trabalho e muita atenção, contrariando a tese muito em voga da “pouca intervenção”. Numa zona tão atreita a míldio e oídio, a pouca intervenção apenas teria como resultado a perda da produção.
E, já ao almoço, seguindo a conversa do jornalista José Gomes Ferreira que sempre afirma “não há outra forma de dizer isto”, eu também digo: o cabrito assado do almoço foi dos melhores que comi nos últimos anos! Ponto!
Nos vinhos provados, alguns aspectos merecem atenção: as colheitas de 2021 e 2022 ainda se chamavam Casa de Ronfe. Foram também provadas e deram muito boa conta de si. A casta mostra que, se bem trabalhada, consegue conservar o seu traço próprio – vinho com corpo e acidez ajustada – e o perfil aponta sempre para uma boa aptidão gastronómica. Ambos em boa forma, embora o 2022 seja ligeiramente mais citrino e mais fresco. Da prova integral dos brancos de Trajadura, é perceptível que o estilo está ainda em construção e, assim, são perceptíveis variações de colheita para colheita.
Em 2026 irão fazer, retomando a tradição do avô, um tinto com uvas da quinta que incluirá uvas de ramadas, com Alvarelhão, Touriga Nacional e Vinhão.
A marca Nicolau de Almeida, criada ainda no século XIX e associada a uma casa comerciante de Vinho do Porto, estava actualmente na posse da Real Companhia Velha (por via das inúmeras fusões e aquisições que foram feitas ao longo do tempo), mas foi graciosamente cedida a João Nicolau de Almeida, que, assim, assume de novo a marca da família, conservando-se a estrela que encima o nome da empresa.
O Monte Xisto é uma propriedade familiar, plantada de raiz e onde se pratica uma agricultura amiga do ambiente. O plantio da vinha começou em 2005
A prova dos bagos no Douro
O Monte Xisto fica em Foz Côa. É uma propriedade familiar plantada de raiz e onde se pratica uma agricultura amiga do ambiente, tão próxima da natureza quanto possível. As aquisições começaram em 1993 e o plantio da vinha em 2005. A localização e sobretudo a orientação solar das várias parcelas é um dois em um: parcelas a norte, parcelas a sul e com altitudes diversas. A escolha do que vindimar e quando depende da prova dos bagos. É como se o blend fosse, maioritariamente, feito na vinha. A própria vindima é cadenciada pela variada maturação das uvas, dependendo da altitude da parcela a da orientação.
A vinificadas faz-se em Foz Côa, mas os vinhos amadurecem nas caves de Vila Nova de Gaia, onde também são engarrafados. O portefólio abrange várias marcas, desde logo o topo de gama Quinta do Monte Xisto, a que se seguiram alguns anos mais tarde, o Quinta do Monte Xisto Oriente e o Monte Xisto Órbita: o primeiro mais estruturado e com maior densidade, os dois restantes num registo de maior leveza e elegância.
Nos vinhos do Porto, temos o Vintage e um Porto Branco leve e seco, uma categoria meio esquecida pelo sector. É para este Porto Branco que é usada a casta Rabigato, a única variedade branca plantada na referida propriedade. Já nas tintas temos as clássicas da região: Touriga Nacional, Touriga Francesa, Tinto Cão, Tinta Francisca, Sousão, Tinta Roriz e Tinta da Barca, esta última uma velha paixão de João Nicolau de Almeida. Neste encontro apenas se provaram dois tintos e o novíssimo Vintage 2024.
(Artigo publicado na edição de Julho de 2026)













