MALTA: PATRIMÓNIO VINHATEIRO, HISTÓRICO E GASTRONÓMICO

Malta é um pequeno arquipélago situado no coração do Mar Mediterrâneo constituído por três ilhas habitadas: Malta (a maior e principal), Gozo e Comino. Apesar do seu tamanho reduzido, o país possui uma densidade histórica impressionante, tendo sido influenciado e ocupado por fenícios, romanos, árabes, normandos e, mais tarde, pelos Cavaleiros da Ordem de São João. Trata-se, portanto, de um verdadeiro ponto de encontro de civilizações, que depois de muitos séculos, se converteu numa mistura cultural que se reflete na arquitetura, na gastronomia, nas tradições… e, claro, na produção vitivinícola, que ocupa um lugar cheio de dignidade e identidade.

Mas vamos por partes, até porque, nesta viagem, o tempo desdobra-se em camadas neste território privilegiado do Mediterrâneo, onde a vinha e o vinho malteses fazem parte de uma narrativa única.

 

Castas nativas e um terroir singular

Fenícios e romanos foram os primeiros a introduzir o cultivo da videira no arquipélago, enquanto os Cavaleiros de São João consolidaram a produção de vinho durante a sua presença na ilha de Malta. E apenas a partir do final do século XX, a indústria vitivinícola começou a modernizar-se, focando-se mais na qualidade do que na quantidade.

Nas vinhas, compostas por parcelas de dimensões exíguas, as castas nativas e raras são fortemente preservadas. São elas a Girgentina (branca), que potencia a produção de vinhos leves, frescos e com notas cítricas, e a Ġellewża (tinta), que dá origem a vinhos frutados, suaves e de corpo médio. A tendência atual na ilha de Malta consiste em combinar estas variedades locais com as internacionais, como Syrah, Merlot e Chardonnay, para produzir vinhos equilibrados, sem desvirtuar a identidade mediterrânica.

As especificidades estendem-se à viticultura de Malta. Os solos são predominantemente calcários e argilosos, formados por antigas rochas marinhas, o que os torna altamente alcalinos, conferindo, aos vinhos, um perfil mineral diferenciador; enquanto a forte exposição solar e a baixa pluviosidade dá lugar a um clima quente, seco e ventoso. Se, por um lado, estas condições climáticas são aliadas dos produtores de Malta na fase da maturação das uvas, por outro, condicionam o rendimento por videira. No entanto, o resultado não podia ser maior: os vinhos são aromáticos, concentrados, apresentam boa estrutura e revelam personalidade. E são a companhia perfeita para a ftira – pão crocante, a base que une a combinação de ingredientes locais, como tomate, azeitonas, alcaparras, atum e anchovas -, recentemente reconhecida como Património Cultural Imaterial pela UNESCO, bem como para o fenek moqli (coelho refogado) e para os pastizzi, pastéis de massa folhada recheados com ricota ou ervilhas, além da enorme variedade de frutos do mar frescos.

Malta
Ta’Betta Wine Estates

Valletta e as adegas centenárias

A chamada produção de boutique faz com que grande parte dos vinhos de Malta seja conduzida, raramente, para o mercado exterior. Serve esta realidade para promover a experiência cultural aliado ao turismo enológico e, ao mesmo tempo, fomentar a crescente importância do enoturismo. Há pretexto maior para efetuar um roteiro vitivinícola?

Valletta é o ponto de partida. A capital de Malta surge entre a pedra dourada e o Mar Mediterrâneo. Fundada no século XVI pelos Cavaleiros de São João, conserva o estilo barroco entre ruas estreitas e praças que se abrem para o porto, com destaque para a Concatedral de São João, onde estão expostas duas obras-primas de Caravaggio. Património Mundial da Humanidade pela UNESCO desde 1980, acolhe os Jardins Upper Barrakka, com vista para o Grande Porto e as Três Cidades.

Para lá de Valletta, está a adega familiar mais antiga, a Delicata Winery. Fundada em 1907, enaltece o seu trabalho com produtores locais, contribuido para o reconhecimento do vinho maltês além-fronteiras. A segunda paragem faz-se na Marsovin Winery. Fundada em 1919, esta casa é tida como uma das grandes referências do vinho maltês. As suas vinhas e castas autóctones definem o vinho que ‘nasce’ diretamente do solo.

 

Pré-história e vitícola contemporânea

O percurso continua pelo património pré-histórico: os Templos de Tarxien, com relevos de animais e espirais nos altares, Hagar Qim, aberto para o mar e famoso pelas suas esculturas de Vénus, e Mnajdra, o templo com mais de 5.000 anos. A viagem prossegue pelo pelos templos de Ta Hagrat, que ostentam uma visão mais íntima das primeiras comunidades humanas de Malta, em Mgarr. Muito perto dali, em Zebbiegħ, os templos de Skorba conservam vestígios de antigas cabanas neolíticas.

Ainda há tempo para visitar a Meridiana Wine Estate, que dá a conhecer uma leitura contemporânea da produção de vinho em Malta. A adega tem promovido, desde os anos 90 do século XX, uma produção mais premium, precisa e cuidada, com uma identidade distintivamente mediterrânica.

Sob a cidade de Paola, está o Hipogeu de Hal Saflieni. Classificado como Património Mundial da Humanidade pela UNESCO, é descrito como um complexo subterrâneo escavado na rocha, constituído por três níveis e que se estende por câmaras, corredores e salas, cuja função continua envolta em mistério.

 

Malta
fenek moqli

 

No sul da ilha de Malta

Mdina, a antiga capital de Malta, conhecida como “A Cidade do Silêncio” e clasificada de Património da Humanidade pela UNESCO, é um dos tesouros mais bem preservados do mundo. Fundada pelos fenícios por volta do ano 700 a.C. e, posteriormente, fortificada pelos romanos e pelos árabes, testemunhou a passagem de diversas civilizações. Exemplos a explorar? A Catedral de São Paulo, um ícone barroco, e o Palácio Vilhena, onde está instalado o Museu Nacional de História Natural. Das muralhas, a vista alcança a paisagem maltesa e o mar Mediterrâneo.

Na lista de produtores de referência, localizados no lado sul da ilha de Malta, constam duas adegas: a Ta’Betta Wine Estates e a Markus Divinus. A primeira, situada em Girgenti, nos limites de Siġġiewi, foi criada em 2002 e aposta grandemente na produção de vinhos com grande potencial de envelhecimento, bem como no enoturismo. A segunda, com localização próxima dos Dingli Cliffs, é considerada uma adega boutique, cuja produção anual é de cerca de 6.000 garrafas, abrindo caminho para a exclusividade e na presença em hotéis de luxo e restauração de topo.

Malta

Gozo e a cultura enológica

Mais verdejante e tranquila, a ilha de Gozo denota uma envolvente paisagística dominada por colinas suaves e pela ruralidade. É uma verdadeira viagem no tempo, onde os Templos de Ggantija, datados de cerca do ano 3600 a.C., constituem um dos conjuntos megalíticos mais antigos do mundo.

Neste cenário encontra-se a Ta’ Mena Estate, uma propriedade familiar com uma abordagem baseada na ligação entre a produção e o território, oferecendo uma experiência de enoturismo profundamente enraizada na paisagem de Gozo. Há ainda a Tal-Massar Winery, uma adega familiar que recupera tradições antigas e produz vinhos de topo, incluindo licorosos elaborados através do método de ‘appassimento’.

De um modo geral, além das provas de vinho personalizadas e visitas a caves e adegas, no arquipélago de Malta, o enoturismo tem evoluído para a criação de wine libraries e de experiências gastronómicas ligadas à cultura local.

Para fechar em grande, fica a nota do evento anual destinado aos amantes do vinho, o Malta International Wine Festival, que decorre, em junho, nos Jardins Argotti, em Floriana. Um cenário histórico que, durante vários dias, oferece uma seleção de vinhos locais e internacionais, harmonizados com propostas gastronómicas e acompanhados por música ao vivo. Uma oportunidade perfeita para descobrir a diversidade, a qualidade e a hospitalidade associadas ao vinho maltês.

(Mais informação em: Wineries & Vineyards)

 

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